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www.marcelomoutinho.com.br
Hoje, em plena sexta-feira 13, entrou no ar o meu site pessoal: www.marcelomoutinho.com.br. Além de informações sobre os livros que escrevi/organizei, a página disponibiliza resenhas literárias, críticas de cinema, contos, artigos e crônicas de minha lavra, e conta com uma sala de imprensa, na qual há releases e fotos para donwload. O blog Pentimento também se muda para lá, integrando-se ao site. Portanto, a partir de agora, este endereço com extensão zip.net pára de ser atualizado. Peço que atualizem seus links. E espero vocês por lá!
Escrito por Marcelo às 11h32
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Murilo Rubião

Estou realmente impressionado com a literatura de Murilo Rubião. Já havia lido dois ou três textos da lavra do escritor mineiro, mas nesta semana devorei (em dois dias) O pirotécnico Zacarias, lançado pela Companhia das Letras. O volume traz dois breves estudos sobre a obra de Rubião, além de uma cronologia, mas a riqueza maior está mesmo nos contos, marcadamente fantásticos - o que evidencia que, em pleno florescer desse tipo de literatura na América Latina, os anos 40, tínhamos um digníssimo representante.
O conto que dá título ao livro é uma pequena obra-prima. Zacarias é um narrador-defunto, assim como o Brás Cubas de Machado de Assis, que simplesmente insiste em transitar entre os vivos, certo de que "sua capacidade de amar, de discernir as coisas", é bem superior à dos seres que por ele passam, "assustados". O ex-mágico da Tabera Minhota é outra pérola. O protagonista de uma hora para a outra se vê investido de poderes mágicos, acionados sem que ele mesmo possa controlar. A situação se agrava quando os efeitos desse inexplicado fenômeno começam a prejudicá-lo perante as autoridades. Desesperado, tenta o suicídio reiteradamente, mas as mágicas sempre o salvam. Ele então ouve na rua um infeliz homem dizer que "ser funcionário público era suicidar-se aos poucos". A frase que lhe dá "nova esperança de romper em definitivo com a vida" e ele se emprega nuam Secretaria de Estado.
O sarcasmo machadiano de Rubião volta-se também contra a burocracia, como desmonstram os contos O edifício (que conta a história da construção de um prédio que já não tem razão de ser e ainda assim nunca se acaba) e A fila (sobre as desventuras de Pererico, que passa longuíssimo tempo numa cidade estranha, aguardando numa fila na vã esperança de falar com o gerente da Companhia).
Essas narrativas são curtas e precisas, fruto de muito trabalho do autor, conhecido pelo perfeccionismo como que reescrevia cada texto. Em pocuo mais de 70 anos de vida, Rubião publicou apenas sete livros. A boa notícia é que, com O pirotécnico Zacarias, A casa do girassol vermelho e O homem do boné cinzento (as outras duas seletas editadas pela Companhia das Letras) - toda a produção do autor está agora disponível no mercado.
P.S. Sobre Rubião, aliás, o amigo Miguel Conde escreveu bela resenha/matéria em edição do Prosa & Verso no ano passado...
Escrito por Marcelo às 13h30
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Colóquios Rumos Jornalismo Cultural & Rumos Literatura

Anotem em suas agendas: nos próximos dias 16, 17, 23 e 24, o projeto Itaú Cultural realizará pela primeira vez eventos no Rio de Janeiro. Os colóquios Rumos Jornalismo Cultural e Rumos Literatura acontecerão no Centro Cultural da Justiça Federal, com palestras sempre das 18h às 21h45 e entrada gratuita, e reunirão escritores, jornalistas e professores de literatura de todo o país. Peter Burke, Humberto Werneck, João Cezar de Castro Rocha, Ruy Castro, Alberto Mussa, Lourival Hollanda e Silviano Santiago são alguns dos nomes confirmados. Participarei do painel A importância da crítica na ficção contemporânea, ao lado da querida Beatriz Resende e de Flávio Carneiro, no último dia do colóquio. Confira, abaixo, a programação completa:
Rumos Jornalismo Cultural
Dia 16
18h: Jornalismo Literário: Como os artifícios da literatura podem ser empregados no jornalismo? Ainda há espaço na mídia para as grandes reportagens? Uma discussão sobre os limites entre literatura e jornalismo. Com Humberto Werneck e Ruy Castro. Mediação de Felipe Pena
20h: Os conceitos e os valores da cultura contemporânea: O que caracteriza uma mudança de Era? Quais parâmetros foram utilizados para determinar a Era Moderna e, posteriormente, a Contemporânea? Com Peter Burke e João Cezar de Castro Rocha. Mediação Felipe Lindoso
Dia 17
18h: Cibercultura e jornalismo cultural: As novas possibilidades de expansão da informação pela web. A credibilidade dos textos publicados online também estará em debate. Além do acesso restrito (ou não) ao universo virtual. Com Juremir Machado da Silva, Mario Lima Cavalcanti e Beatriz Ribas. Mediação de Guilherme Kujawski
20h: A cultura na imprensa:Como conciliar o espaço para a crítica de arte nos meios de comunicação à intensa produção artística contemporânea? Qual são os critérios utilizados pelos editores e repórteres de cultura ao optar pela publicação de determinada matéria? Como a academia analisa a cobertura cultural? Com Mário Marques, Mauro Ventura e Gustavo de Castro. Mediação: Claudiney Ferreira
Escrito por Marcelo às 16h31
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Rumos Literatura
Dia 23
18h: A crítica literária como criação artística. O limite entre a reflexão literária e a produção de uma nova obra. Ao fazer a releitura de determinada obra o crítico-escritor ou escritor-crítico não acaba fazendo uma nova criação. Como um obra aparentemente ficcional pode se revelar em ensaio literário. Com Antonio Fernando Borges, Alberto Mussa e Lourival Holanda. Mediação de Renato Cordeiro Gomes
20h: Os valores da literatura e a contemporaniedade: Três importantes nomes da crítica e da literatura contemporânea discutem o papel e a relevância do universo literário na sociedade. A forte interferência da tentativa de captar uma realidade na literatura também estará em debate. Com Silviano Santiago, Vera Lucia Follain de Figueiredo, Miguel Sanches Neto. Mediação de Maria Esther Maciel.
Dia 24
18h: Importância da crítica na ficção contemporânea: A relação entre críticos e escritores: como uma boa crítica reflete na obra do autor. Uma análise da crítica literária produzida nos jornais, na academia e pelos próprios escritores. Com Beatriz Resende, Flávio Carneiro e Marcelo Moutinho. Mediação de Paula Barcellos
20h: Cânones da Literatura Brasileira: Até que ponto a instituição do cânone não inibe novas reflexões acadêmicas? Qual a importância do cânone na produção da crítica e da literatura contemporânea? Com Alcides Cardoso dos Santos, Moacyr Scliar e Leda Tenório da Motta. Mediação de Marco Lucchesi
Escrito por Marcelo às 16h29
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Hermínio no Roda Viva

O programa começa daqui a pouco (22h30), mas ainda há tempo para a dica: o entrevistado de hoje no Roda Viva (TV Cultura) é o grande Hermínio Bello de Carvalho. Não é coisa para se perder...
Escrito por Marcelo às 22h00
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Livro e filme
Na Semana Santa de carinhos, livros e filmes, destaque para Lygia Fagundes Telles, com A estrurura da bolha de sabão. Embora bastante desigual quanto ao vôo que as narrativas conseguem alçar, o livro lançado originalmente em 1978 tem altíssimos momentos, como A confissão de Leontina e, sobretudo, o conto título - que, aliás, nasceu de um episódio real. Em 1973, Paulo Emílio Salles Gomes, marido de Lygia, lhe contou que tinha um amigo que estudava a estrutura da bolha de sabão. Ao ouvir o comnetário de Paulo Emílio, ela se lembrou de, quando menina, soprava bolhas "e corria atrás delas com o instinto perverso de estourá-las". "Então comecei a imaginar que a bolha seria um símbolo do amor, que é frágil como película, fácil de ser rompida, e ao mesmo tempo é beleza e plenitude", revela a autora.
No livro, essa percepção felizmente fica submersa, permanece entre os não-ditos, nos desvãos do texto, que impressiona principalmente pela capacidade de Lygya em intensificar em graus abrasivos o lirismo sem resvalar - nunca - no clichê. Uma verdadeira aula de composição literária.

Entre as películas, surpreendentemente gostei de Medo e obsessão, trabalho do Wim Wenders ao qual ainda não havia assistido. Digo "supreendentemente" porque o tema central, aludindo aos traumas da sociedade americana após o atentado de 11 de setembro, já encheu a minha paciência. Mas, apesar de um escorregão ali, outro aqui, Wenders conduz o enredo com a leveza possível. A tirar por esse filme e pelo ainda mais recente Estrela solitária, vejo que o cineasta alemão, autor de obras-primas como Alice nas cidades, Paris, Texas e Asas do desejo, parece estar voltando a acertar a mão.
Escrito por Marcelo às 11h40
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A louca da casa

Até hoje só havia lido pequenos trechos desse delicioso livro que é A louca da casa, da espanhola Rosa Montero. Misto de ensaio e autobiografia com tintas ficcionais, o livro esmiuça o processo de criação literária sem didatismo bobo e com muito, mas muito sabor. Rosa Montero consegue dividir com o leitor, de uma forma inesperadamente íntima, as agruras vividas por aquele que escreve. Agruras referentes às fronteiras e interseções entre a ficção e o dia-a-dia, à vaidade, à relação com o sucesso (ou com sua ausência) e, sobretudo, com a "louca da casa", expressão com a qual Santa Teresa de Jesus definiu a imaginação.
Duas coisas em especial têm me chamado a atenção no livro. A primeira delas é o elo quase inexorável, e que a autora faz questão de sublinhar, entre o trabalho do escritor e a obsessão com a morte. "A gente sempre escreve contra a morte", observa Rosa, em assertiva que eu subscrevo totalmente. Embora saibamos que a batalha contra o tempo é uma derrota prévia, insistimos em preencher com palavras a ilusão da eternidade. Essa parece ser a nossa vã fortaleza, e assim vamos vivendo.
A outra diz respeito ao engajamento. Já me manifestei em várias resenhas contra a utilização da literatura como ilustração de teses, o que infelizmente é bastante comum. Pois Rosa classifica o "utilitarismo panfletário" como "traição máxima ao ofício". "A literatura é um caminho de conhecimento que precisamos percorrer carregados de perguntas, não de respostas", anota ela, com impressionante precisão. Como registrei certa vez, creio que a narrativa pressupõe uma zona de penumbra, e que qualquer luz mais pronunciada pode deixar escapar da sombra o subtexto.
Em suma, A louca da casa é um livro fundamental para todos aqueles que se lançam no estranho, mas fascinante mundo da literatura. Não hesito em indicá-lo aqui ainda sob o entusiasmo da descoberta (tardia, bem sei) e a alegria de ver compartilhadas algumas de minhas angústias.
Escrito por Marcelo às 12h56
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Crônica do Mês - Número 2 - Abril/07

Ipês
Marcelo Moutinho
Começaram a florescer os ipês. Ao passar de carro pelo Aterro do Flamengo hoje cedo, notei que o mais apressado deles – o de cor roxa, que fica no finalzinho da Praia de Botafogo, ao lado de um posto de gasolina – já se abriu em flores lilases. É esse ipê isolado no parque desenhado por Burle Max, solitário em meio ao tráfego, à fumaça e à pressa de todos nós, que precede ano após ano a primavera absolutamente própria da espécie. Porque os ipês não obedecem às estações; florescem de junho a setembro, indiferentes aos recortes do tempo e às medidas dos homens.
Leio que pertencem à família das bignoniáceas, e que seu nome tem origem tupi-guarani, significando ‘pau ou madeira que flutua’. Para mim, contudo, o sentido é outro. Os ipês são um contraponto possível à eventualidade do mau-humor matinal, um rasgo de lirismo no cinza do cotidiano, minha companhia diária no trajeto rumo ao Centro.
E é aquele ipê roxo na última curva da Praia de Botafogo que anuncia a cor da temporada que se inaugura. Como um arco-íris atemporão que se insurge antes mesmo da chuva, ele toca o primeiro acorde, ao qual os outros ipês da cidade prestarão reverência, como se todos eles - peças de um dominó colorido - sentissem a obrigação de envernizar os olhos da cidade em penugens amarelas, rosas, brancas, verdes.
Justamente no período menos ensolarado do ano, ele abre suas asas para debochar da paisagem gelada das ruas, da frieza posada dos que trafegam ligeiros em seus carros turbinados sem percebê-lo, do cheiro ocre que o vento retira da Baía de Guanabara e lhe sopra nas folhas, fazendo-as dançar mesmo que não queiram.
Ele é a sílaba tônica, o senão, a epifania plausível na recém-nascida semana. O tom dissonante que torna possível viver as horas seguintes sem a impressão de que são apenas horas, a lufada de ar que empresta oxigênio para o dia todo.
O ipê roxo de Botafogo está alheio aos homens com seus tantos e imensos problemas. Não repara o menino que joga os limões para o alto sinal de trânsito, nem a senhorinha que atravessa a pista com a sacola da Casa & Vídeo nas mãos. Ignora a louca que se julga guarda de trânsito e orienta os motoristas em estranhos movimentos com os braços para um lado e para o outro. Desconhece o preço do táxi, do cinema, da chapinha no cabelo, do prêmio da Mega-Sena. E mantém-se em silêncio, na quietude de quem a tudo ignora para apenas estar ali, na última curva antes da Praia do Flamengo, oferecendo uma visão singela a quem o espreita, por um instante que seja, numa manhã de segunda-feira.
Escrito por Marcelo às 14h37
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Herberto Helder

"Esta mão que escreve a ardente melancolia da idade é a mesma que se move entre as nascenças da cabeça, que à imagem do mundo aberta de têmpora a têmpora ateia a sumptuosidade do coração. A demência lavra a sua queimadura desde os seus recessos negros onde se formam as estações até ao cimo, nas sedas que se escoam com a largura fluvial da luz e a espuma, ou da noite e as nebulosas e o silêncio todo branco. Os dedos. A montanha desloca-se sobre o coração que se alumia: a língua alumia-se: O mel escurece dentro da veia jugular talhando a garganta. Nesta mão que escreve afunda-se a lua, e de alto a baixo, em tuas grutas obscuras, essa lua tece as ramas de um sangue mais salgado e profundo. E o marfim amadurece na terra como uma constelação. O dia leva-o, a noite traz para junto da cabeça: essa raiz de osso vivo. A idade que escrevo escreve-se num braço fincado em ti, uma veia dentro da tua árvore. Ou um filão ardido de ponto a ponta da figura cavada no espelho. Ou ainda a fenda na fronte por onde começa a estrela animal. Queima-te a espaçosa desarrumação das imagens. E trabalha em ti o suspiro do sangue curvo, um alimento violento cheio da luz entrançada na terra. As mãos carregam a força desde a raiz dos braços a força manobra os dedos ao escrever da idade, uma labareda fechada, a límpida ferida que me atravessa desde essa tua leveza sombria como uma dança até ao poder com que te toco. A mudança. Nenhuma estação é lenta quando te acrescentas na desordem, nenhum astro é tao feroz agarrando toda a cama. Os poros do teu vestido. As palavras que escrevo correndo entre a limalha. A tua boca como um buraco luminoso, arterial. E o grande lugar anatómico em que pulsas como um lençol lavrado. A paixão é voraz, o silêncio alimenta-se fixamente de mel envenenado. E eu escrevo-te toda no cometa que te envolve as ancas como um beijo. Os dias côncavos, os quartos alagados, as noites que crescem nos quartos. É de ouro a paisagem que nasce: eu torço-a entre os braços. E há roupas vivas, o imóvel relâmpago das frutas. O incêndio atrás das noites corta pelo meio o abraço da nossa morte. Os fulcros das caras um pouco loucas engolfadas, entre as mãos sumptuosas. A doçura mata. A luz salta às golfadas. A terra é alta. Tu és o nó de sangue que me sufoca. Dormes na minha insónia como o aroma entre os tendões da madeira fria. És uma faca cravada na minha vida secreta. E como estrelas duplas consanguíneas, luzimos de um para o outro nas trevas".
P.S. Jà há algum tempo não publicava poemas aqui no blog. Volto, pois, com versos brancos lusitanos...
Escrito por Marcelo às 23h39
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