Minha mais nova cerveja preferida

Apesar de beber de todas, sempre tive minhas cervejas preferidas. Durante um bom tempo, a número um foi a Bohemia. Quando a produção ganhou ritmo industrial e houve uma brutal queda no sabor, comecei a flertar com a Brahma Extra, sempre difícil de encontrar. Na falta das duas, a Antártica Original e a Skol sempre fizeram bom papel. Até hoje todas essas estão na minha listinha particular, ao lado da Serra Malte (quando vou a São Paulo).

Só que há cerca de um mês elas ganharam a companhia da Therezópolis Gold, que nesse pequeno período tomou o primeiro lugar na preferência. Conheci a marca numa recente subida à Serra, quando consegui convencer F. a almoçar na minha mui estimada Taberna Alpina. Sempre peço o mesmo prato quando vou lá: filé à forrestier. E dessa vez, quando perguntei ao garçom (garçom à moda antiga, daqueles que sabem das coisas) quais cervejas eles tinham, ele questionou se eu conhecia a Therezópolis Gold. Disse que não e, como gosto de experimentar novos sabores, pedi uma garrafa.

Logo no primeiro gole, tomado de espanto e da alegria que toma conta de nós nessas descobertas, disse a F.: "Espetacular! Espetacular!". No decorrer dos dois dias em que permanecemos na cidade, seja no restaurante em que jantamos, seja na Cremerie Genéve (lugar obrigatório) ou no bar da feirinha, só pedi Therezópolis Gold. Qual não foi minha supresa, então, quando encontrei algumas garrafas à venda num posto do Jardim Botânico, nem pertinho de casa. Enchi de imediato a geladeira. E a supresa ficou ainda maior quando li no blog do Simas e, depois, no do Edu - dois amigos que entendem do riscado -, loas semelhantes à Therezópolis.

Pesquisando na internet, percebi que todos nós estávamos marcando bobeira, já que a marca existe desde 1912. A Therezópolis tem, inculsive, uma home-page, na qual são informados os locais onde pode ser encontrada aqui no Rio.


P.S. Esta foto aí em cima é do Edu, que foi malandro e comprou logo uma caixa...



 Escrito por Marcelo às 23h41
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Rápidas

. Ando enrolado com aquilo de sempre: fechamento da Tribuna. Aliás, a edição de maio do jornal da OAB trará uma matéria bem bacana com base nos relatos de criminalistas que defenderam réus repudiados pela sociedade. Exemplos desses réus? Fernando Collor de Mello, Guilheme de Pádua e Adriana de Almeida (a viúva do ganhador da MegaSena). Outro destaque é a reportagem sobre a histórica decisão do Tribunal de Justiça de São Paulo, reconhecendo um feto como autor de ação. Quem não é advogado e, portanto, não recebe em casa a publicação pode ler no site da OAB/RJ: www.oab-rj.org.br;

. Apesar da correria, comecei a ler Tijolo de segurança, romance escrito pelo Carlos Heitor Cony em 1963 e recentemente relançado pela Editora Objetiva. Trata-se de uma volta ao Cony depois de muito tempo, já que devorei quase todos os livros do autor. Pérolas como Quase memória, A casa do poeta trágico, O ventre e Antes, o verão, que até hoje me tocam pela suave melancolia;

. Vai rolar um showzaço no Teatro Rival hoje e amanhã: Guinga, exímio melodista, e Toninho Horta, fera na harmonia, farão duas apresentações conjuntas, sempre às 19h30. Coisa rara de se ver;

. Em breve, este blog vai migrar para um site que estou desenvolvendo junto com o designer Gabriel Pilastra. Além do Pentimento, o site trará informações sobre meus livros, resenhas literárias e críticas de cinema que escrevi, além de alguns artigos, contos e crônicas;

 

. Estreou hoje no Rio o filme Uma mulher sob influência. Pela raridade que significa um Cassavetes nos cinemas brasileiros, é o caso de correr para conferir;

. Ah, sim: Neeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeense!



 Escrito por Marcelo às 12h15
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O livro que falta

O Sérgio Rodrigues colocou um post interessante lá no blog Todo prosa, no qual comenta sobre a imensa tristeza que traz a perda de um livro. Não um livro qualquer, mas aquele volume de estimação, que você um dia empresta a alguém e nunca mais recebe de volta. Isso aconteceu comigo com Macau, do Paulo Henriques Britto. Quando me mudei para o Jardim Botânico e resolvi, sob a influência organizacional de F., arrumar a biblioteca por gênero e em ordem alfabética, percebi que meu exemplar, todo marcadinho de caneta, simplesmente havia desaparecido. Até hoje não sei a quem posso ter emprestado ou se simplesmente perdi. E é doloroso saber que, mesmo que compre um novo, este não será mais aquele Macau, que irremediavelmente se foi, e nem as marcas serão iguais. E quanto a você, qual o livro que lhe falta?



 Escrito por Marcelo às 12h36
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Salazar?

Há notícias que ameaçam fazer com que a gente desacredite de vez na espécie humana. Por exemplo: o resultado da enquete feita pela TV portuguesa para apontar quem, segundo o público, seria o "grande português" do século passado. Engana-se quem pensa que escritores como Luís de Camões e Fernando Pessoa, ou mesmo cantores como Amália Rodrigues, ou ainda políticos admiráveis como Mário Soares, foram vencedores. Não. O escolhido pela maioria (41% dos telespectadores) foi Antônio Oliveira Salazar, o ditador que manteve o país sob mão de ferro por 42 anos, num regime que perdurou inclusive depois de sua morte e só cairia com a Revolução dos Cravos, em 1974. O que teria levado nossos irmãos lusitanos a entronizar esse filho da puta?



 Escrito por Marcelo às 14h34
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Dois livros: impressões

 

Apesar de ainda estar às voltas com os textos do Bernardo Carvalho para a produção de uma resenha, durante o fim-de-semana conferi livros de dois outros autores: O dia em que o cão morreu, primeiro romance do Daniel Galera, e Ovelha negra e amiga loura, de Sônia Coutinho, que ganhou o prêmio Biblioteca Nacional de melhor volume de contos do ano passado. O romance confirma a impressão que já tinha: o Galera é um dos nomes mais interessantes da novíssima geração. Como acontece muitas vezes em trabalhos de estréia, o livro tem feições de um 'Bildungsroman', ou "romance de formação", e Galera conduz muito bem os dilemas do narrador, um jovem debutando na vida adulta que começa a conhecer a dor.

Já a seleta de contos de Sônia me decepcionou muito. Os textos pecam sobretudo pela falta de nuance, pois explicitam para o leitor o que deveria estar na penumbra. É como se o subtexto aflorasse a todo momento no meio da narrativa, sob a forma de "mensagem", o que acaba solapando a leitura por sublinhá-la demasiadamente. Estranho constatar esse problema - comum em escritores iniciantes - no trabalho de uma autora com tanta estrada...



 Escrito por Marcelo às 11h59
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60 anos em verde-e-branco

"Na minha estante de troféus, que não é lá essas coisas, mas me enche de orgulho porque acolhe generosos símbolos de reconhecimento, há um lugar especial, de destaque, para um pequeno pedestal de pedra sobre o qual reina uma coroa verde, cravejada de pequenos brilhantes, uma jóia. Está bem, não se pode garantir que são pedras preciosas. Digamos que tecnicamente elas não sejam, que sejam pedras-fantasia cobrindo uma bola de papel sem valor comercial, não importa. O que importa é que todo o conjunto - pedestal, coroa e a inscrição - é precioso para mim, emocional e sentimentalmente falando.

Trata-se de uma imerecida homenagem que o glorioso Grêmio Recreativo Escola de Samba Império Serrano me fez no dia 4 de fevereiro de 1995, como que testando a resistência emocional de um velho, calejado e sensível coração. Não havia outra razão para o prêmio, a não ser o fato público e notório de que eu já era um apaixonado pela escola.

Não sei exatamente quando a paixão começou. Um grande amor nem sempre começa com hora ou dia marcado. Simplesmente acontece e, quando você se dá conta, já está tomado por aquele misterioso sentimento que mistura empatia, simpatia, afeto e admiração. Pode-se alegar que isso ocorre entre pessoas, não com pessoas e coisas. Seria correto se o Império fosse "coisa", um objeto inanimado, e não um ser muito animado, fonte de emoção, alegria e beleza, engenho e arte. Um ser vivo com energia e sentimento, história e tradição - uma escola de grana pouca e dignidade muita."


Na impossibilidade de ir à quadra participar dos merecidos festejos ou de escrever eu mesmo um post à altura da importância da data - estou acompanhando F. na ABBR, por conta de uma cirurgia em seu joelho -, passei a palavra ao Zuenir Ventura, notório imperiano e autor do texto acima. Sim, foi no dia 23 de março de 1947 que a escola da Serrinha chegou para mudar para melhor a história do carnaval.

P.S. escrito no dia 24:

1. Como eu já imaginava, nenhum dos dois principais jornais cariocas - O Globo e Jornal do Brasil - dignou-se a abrir espaço em suas páginas para saudar os 60 anos do Império. Nem que fosse através de uma matéria ou entrevista aproveitando o 'gancho'. No entanto, o blog do Ancelmo Góis conseguiu abrir um flanco nesse silêncio opressivo que tanto revela sobre o (lamentável) panorama da imprensa brasileira. Um dos jornalistas da coluna, Aydano André-Motta, dedicou o dia de ontem a escrever posts sobre os grandes momentos da escola, relembrando sambas e personagens célebres (aqui, usando a palavra na sua acepção mais perfeita). Mas peço que vocês aguardem, pois pretendo publicar em breve aqui no Pentimento uma entrevista com o fundador da agremiação, o grande Sebastião Molequinho.

2. Bons presságios: o Império acaba de anunciar seus novos carnavalescos: a dupla Renato Lage e Márcia Lávia, responsáveis pelo lindo desfile do Salgueiro neste ano. Eles vão acumular o trabalho nas duas tradicionais escolas em 2008. 



 Escrito por Marcelo às 19h12
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Oficina de letra de música

Autor de canções gravadas pelo Guinga e pela Maria Rita, entre outros artistas, amigo Chico Bosco avisa que ele e o Fred Martins darão uma oficina de letra de música no próximo mês de maio. As aulas acontecerão no POP (Pólo de Pensamento Contemporâneo), recém-inaugurado centro cultural que fica no Jardim Botânico e é comandado pelos poetas Antônio Cícero e Eucanaã Ferraz. Além dessa oficina, o POP oferece cursos nas áreas de Filosofia, Comportamento, Antropologia, Arte, Comunicação, Literatura e Política. Entre os professores, estão a querida Beatriz Resende, Jorge Mautner, Luiz Eduardo Soares, Rosiska Darcy de Oliveira, Afonso Henrique Neto, Luiz Carlos Lacerda e Renato Lessa. Confira a programação e saia mais sobre o Pólo aqui.



 Escrito por Marcelo às 22h08
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Crônica do Mês - Número 1 - Março/07

A partir de hoje, além dos posts, passo a escrever aqui no Pentimento uma crônica mensal, que será postada sempre próximo ao dia 20. Já que não há mais espaço para o gênero nos jornais, usemos a internet!

O braço do pai*

Marcelo Moutinho

No sábado passado, enfim fui conferir a peça sobre a vida do Renato Russo. Lembro-me de quando ele morreu. Estava no Maracujina, meu bar de estimação dos tempos de Barra, e também que, ao receber a notícia, imediatamente comprei uma ficha, coloquei na jukebox que havia por lá e fiquei ouvindo Teatro dos vampiros. Foi uma tristeza quase transparente de tão triste.

A canção, que ao lado de Andrea Doria e Vento no litoral forma minha trinca preferida no repertório da Legião, não faz parte do espetáculo sobre o Renato, cujo momento mais emocionante se deu quando o ator Bruce Gomlevsky, praticamente incorporando o artista morto, cantou Pais e filhos.

Ao escutar os versos da música, imediatamente pensei no meu velho. Não o do fim dos dias, emagrecido pelo câncer que começou a corroê-lo pelo estômago e acabou por levá-lo, mas o coroa careca e com barriga de chope que trazia sempre um Holywood no bolso da camisa de mangas curtas e piadas infames na boca.

Eu e o pai tínhamos tantas diferenças que, numa determinada época, parecia que nunca chegaríamos a um consenso sobre coisa alguma. Ele, um lacerdista inverterado. Eu, o jovem que queria a Revolução. Ele, machista a ponto de festejar com charutos o nascimento do primeiro filho homem. Eu, desde cedo completamente liberal quanto a costumes, drogas e sexualidade.

É curioso, no entanto, como por detrás dessa capa pesada de querelas radicais percebíamos haver algo que nos vinculava. Não o simples fato de sermos pai e filho, embora evidentemente também isso. Mas uma conexão singular, fortíssima - e silenciosa, como tudo o que vem dos fundos mais fundos da terra.

O velho era retraído. Tinha tanto amor represado dentro dele que não sabia o caminho do desafogo. Quando fiz dezoito anos, ele andava numa fase péssima. Já separado da mãe, mas ainda morando na mesma casa, tocava os dias burocraticamente, quase como um pária.

Naquela tarde, ele chegou no quarto onde eu via um filme esticado na cama. Visivelmente, havia bebido um pouco. Pediu então que eu levantasse, abraçou-me e entregou-me um envelope, com um cartão de crédito dentro. Às lágrimas, sussurou no meu ouvido um lamento daqueles que mais dilaceram, porque nascem da impotência: “Queria te dar um carro”.

O carro que nunca esperei e possivelmente acreditava ser meu presente dos sonhos quando – e nem eu mesmo sabia – ele já me transmitira herança mais valiosa. O gosto por um bom samba do João Nogueira ou uma canção do Herivelto. A reverência sagrada ao Império Serrano. E, sobretudo, a lição de que amor não foi feito pra ser guardado, lição que aprendi porque ele nunca soube – e sofreu por isso.

Sempre que viajava no seu Corcel II, gostava de me sentar no banco da frente. Nunca soube explicar a razão - talvez seja um comportamento comum aos garotos, uma espécie de rito de passagem da infância, pois já ouvi de amigos relatos semelhantes.

Por ser o mais velho dos homens, em geral tinha lugar garantido, embora o pai demonstrasse preocupação pela vulnerabilidade de quem viaja ali, no caso de um acidente. Toda as vezes em que ele se via obrigado a dar uma freada brusca, ato-contínuo esticava o braço para o lado direito, tentando (ou imaginando tentar) proteger uma possível topada minha contra o pára-brisa. Não estou certo se algum dia chegou a evitar. Em geral eu mesmo me segurava. Mas era bom ter a certeza que ele invariavelmente se mantinha presente para qualquer coisa. Porque hoje dói saber que o braço do pai não está mais por aqui. Nem que seja para me proteger das freadas que dá a vida.


* Essa crônica é dedicada ao amigo Henrique Rodrigues.



 Escrito por Marcelo às 22h39
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Novos navegantes

Muita gente nova tem aparecido aqui nesta navelouca que é o Pentimento, movida pela entrevista que concedi ao Edney Silvestre no programa Espaço Aberto (Globo News). Antes de tudo: sejam bem-vindos. É extremamente bacana constatar como aquela meia-hora de conversa foi capaz de suscitar tanto interesse -e mais: tanta identificação -, sobretudo num momento como este, em que ando me questionando sobre o que escrevo. Tenho aprendido por esses dias que, mais do que os fatos, importa é o que eles revelam sobre as coisas e as pessoas. As manifestações no espaço dos comentários - assim como os e-mails que recebi de leitores improváveis, que nunca tinham ouvido falar de mim, mas acabaram de alguma forma esbarrando com o livro e depois disso fizeram questão de me escrever - representam hoje um pequeno guizo de alegria, um alento.

Não se percam de mim.


P.S. O novo disco do Guinga, Casa de Villa, é uma beleza. Ele extrai, da sofisticação pungente dos subúrbios (sofisticação desmontada, sem pose, sem alegorias), música da melhor qualidade. Recomendo. Vem sendo a trilha sonora dos meus dias...



 Escrito por Marcelo às 11h55
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Coleção Wim Wenders

 

Ao fuçar as novidades da Livraria da Travessa no sábado passado, tive a alegria de ver que foram lançados em DVD alguns dos mais interessantes filmes dirigidos por Wim Wenders na década de 70 e 80. São produções que nem sequer chegaram a sair em versão VHS aqui por essas bandas e agora integram uma coleção da Europa exclusivamente voltada para o cineasta alemão. A série inclui os ótimos e raros No decurso do tempo (foto) e Movimento em falso, o premiado O estado das coisas, além de A letra escarlate, curiosa adaptação wenderiana do livro homônimo de Nathaniel Hawthorne. Estou na torcida para que em breve a coleção conte também com o sensacional Alice nas cidades, que considero um dos trabalhos mais interessantes de Wenders, ao lado de Paris, Texas e Asas do desejo. O único senão da série é que não traz nenhum extra.



 Escrito por Marcelo às 20h23
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"Estrela da terra"

Dori Caymmi e Paulo César Pinheiro

"Por mais que haja dor e agonia
Por mais que haja treva sombria
Existe uma luz que é meu guia
Fincada no azul da amplidão
É o claro da estrela do dia
Sobre a terra da promissão.

Por mais que a canção faça alarde
Por mais que o cristão se acovarde
Existe uma chama que arde
E que não se apaga mais não
É o brilho da estrela da tarde
Na boina do meu capitão.

E a gente
Rebenta do peito a corrente
Com a ponta da lâmina ardente
Da estrela na palma da mão.

Por mais que a paixão não se afoite
Por mais que minh'alma se amoite
Existe um clarão que é um açoite
Mais forte e maior que a paixão
É o raio da estrela do noite
Cravada no meu coração.

E a gente
Já prepara o chão pra semente
Pra vinda da estrela cadente
Que vai florescer no sertão.

Igual toda lenda se encerra
Virá um cavaleiro de guerra
Cantando no alto da serra 
Montado no seu alazão
Trazendo a estrela da terra
Sinal de uma nova estação"



 Escrito por Marcelo às 18h10
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No Rascunho

O jornal Rascunho, talvez a única publicação impressa voltada exclusivamente para a literatura no país, trouxe na edição deste mês resenha de página inteira sobre meu Somos todos iguais nesta noite. No texto, que reproduzo abaixo, o resenhista Luiz Horácio generosamente classifica o trabalho como "um dos dois melhores livros de contos lançados no Brasil em 2006 (ao lado de A solidão do diabo, de Paulo Bentancur).

"Longe do óbvio"

Em Somos todos iguais nesta noite, Marcelo Moutinho distancia-se da violência urbana e opta pelo amor, a ternura e a infância

Luiz Horácio

 

Moutinho: opção pela emoção, pelo exame minucioso das questões que a infância suscita

"Para situar: em Somos todos iguais nesta noite, Marcelo Moutinho escolhe o óbvio para não despencar pelo lugar-comum. Vantagem? O lugar-comum é pura repetição, cópia; o óbvio às vezes permite algum tempero, logo...

Marcelo Moutinho ambienta seus contos no Rio de Janeiro e o lugar-comum estaria a sua espera caso preferisse bater nas teclas gastas e desafinadas da violência e das belezas naturais - nenhuma das duas merece tanta fama, mas para o deleite e emoção dos leitores, ele prefere o óbvio, as relações humanas, ou melhor, a condição humana e suas mazelas. Não nos equivocaríamos caso preferíssemos dizer que grande parte dos contos de Somos todos iguais nesta noite são honestos recortes do tão falado rito de passagem. Só que com um detalhe que faz a diferença, o autor não opera o corte abrupto, o tal rito é demorado, tem suas nuances e não despreza sofrimento. Não que seja defeito, mas Moutinho conduz seus contos para o anticlímax. Se acaba frustrando expectativas, problema do leitor. Quem mandou imaginar finais mirabolantes, devidamente condicionados pela literatura da repetição? A tal da surpresa para fechar o conto com um golpe de mestre. Caso soe falso, pouco importa, o que vale é o impacto. Trocando em miúdos: a imprescindível violência. O nefasto lugar-comum para o qual, de longa data, caminha a quase totalidade de nossos contistas. A nova geração, sem dúvida, marcha unida.

Marcelo Moutinho não se deixa levar pelo brilho do sangue, dos ônibus incendiados, das crianças arrastadas, não busca escandalizar utilizando-se da escatologia e da tragédia familiar. Aos apressados, e como temos apressados!, pode até parecer alienação um escritor que passe ao largo das notícias de jornal. Moutinho optou por outras possibilidades bastante plausíveis, o amor, a ternura, a infância e suas tonalidades.

Deixou de lado o sambista, a mulata, o traficante, o drogado, o bicheiro, não descreveu a subida pro Cristo Redentor, tampouco satanizou moradores da Barra da Tijuca ou glamourizou a Rocinha. Optou por vidas sem sobressaltos, protagonizadas pelos reféns da rotina.

Com a sua licença, paciente leitor, aproveito a deixa e peço atenção para o livro A solidão do diabo, de Paulo Bentancur, exatamente o oposto de Somos todos iguais nesta noite, no entender deste aprendiz os dois melhores livros de contos lançados no ano que passou.

Em ambos percebemos a opção pela emoção, pelo exame minucioso das questões que a infância suscita, para o bem e para o mal, da evolução da expectativa ao derretimento das ilusões. Conseqüência: a dor inevitável do amadurecimento. Se em A solidão do diabo a surpresa é resultado da quebra da lógica pelo inusitado na maioria das vezes, em Somos todos iguais nesta noite, o estranhamento resulta de sabermos que a perspectiva do amor, da ternura, não está de todo embaçada.

Apesar das diferenças que os coloca nas extremidades, mas que também os aproxima devido ao tratamento dispensado aos seres humanos, a multidão na fila. Para os personagens de A solidão do diabo, a vida vale pouco ou quase nada. O exemplo é a mulher que decide se matar e se joga na frente de um ônibus, mas o motorista consegue frear a tempo. Frustrada, entra no mesmo ônibus. "Se não a matou que ao menos a leve até o centro." Para os personagens de Moutinho, a vida dá a impressão de valer muito, mas também dá entender que eles julgam não merecê-la.



 Escrito por Marcelo às 16h47
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No conto Rosa noturna, o travesti Teresa precisa realizar cinco programas para efetuar o pagamento das contas. Vem o primeiro e dá tudo certo, com o segundo também, no terceiro o leitor já não se agüenta na expectativa da desgraça. Não ocorre. Surge o quarto e continua dando tudo certo pra Teresa. Então o leitor, já sentindo cheiro da tragédia, reserva todas suas energias para o quinto que não pode falhar. Mas falha. E Teresa conclui sua noite de trabalho com objetivo alcançado e algo mais.

Num ato repentino, o homem escancarou a porta do carro, atirou as flores no chão, engatou a chave e arrancou de forma brusca. Os pneus gritaram por ele.

Teresa então notou que, com a rispidez da queda, uma rosa se desgarrara do buquê. Ela se abaixou, pegou a rosa e, ainda agachada, inflou o rosto num sorriso, imaginando quem seria enfim o destinatário que nunca receberia aquelas flores.

Recorda que no começo falei em anticlímax? Pois bem!

Fator de estranhamento e ao mesmo tempo grande qualidade dos contos de Moutinho é a ausência de impactos. As alegrias, as frustrações, as surpresas e as resignações se dão na maciez rotineira do dia-a-dia tão familiar a todos. No entanto, convém um alerta: o autor não busca confundir realidade com literatura, embora as cores e as luzes sejam verdadeiras.

Pra resumir: o livro de Bentancur e o de Moutinho salvaram o gênero de um grande vexame em 2006, o que publicaram de abobrinha no quesito conto foi constrangedor.

Voltando a Somos todos iguais nesta noite, temos 20 contos divididos em duas partes, Iguais e Noites, entremeados por vinhetas ou máximas de grande impacto moral, obviamente, e lírico, mas que fazem com que resida nelas o único problema, probleminha, porém, grave do livro. Esses "minutos de sabedoria" jogam por terra a sutileza dos contos, acabam estabelecendo julgamento quando no conto o autor estava apenas interessado em mostrar. Extremamente desnecessárias, as tais vinhetas jogam baldes e baldes de água fria na sabedoria dos personagens, que cada um a seu modo acaba criando métodos próprios para lidar com ausências, atrasos e surpresas.

O autor conseguiu um equilíbrio perfeito entre seus contos, não fossem aqueles malditos "minutos de sabedoria", teríamos um livro perfeito. Destaco alguns que considero antológicos e recomendo aos professores das oficinas literárias, por favor, apresente-os aos seus alunos para que possam constatar o quanto o gênero ainda permite de criatividade.

No conto Passeio em família, o pai na "voltinha de estréia" do carro novo desfere um tapa na coxa do filho por pensar que este tivesse batido na irmã. Desfeito o equívoco, pedido de desculpas. O que podia ser uma besteirinha arranhou o coração do menino e as desculpas não foram suficientes para que a coxa, agora adulta, deixasse de arder.

Em Fogos a mulher relata como conheceu o homem da sua vida. Como tudo se deu depois do primeiro telefonema, casamento, logo em seguida o filho, depois a neta. Quando o leitor se acostuma com toda harmonia, a resignação: "Poxa, ele bem que podia ter ligado".

Desfile é um conto repleto de tensão do começo até quase seu final. Dona Dita, a costureira que está ficando cega, atrasou a entrega das fantasias para o desfile da escola de samba. Enquanto o final não acontece, pairam duas suspeitas: perfeccionista, e por isso a demora, ou então a velhice, está ficando cega e combina as cores pelo som, que não permite atender a demanda. Na verdade, não se pode desprezar nenhuma das possibilidades. Missão cumprida, Dona Dita promete ir ao desfile. Mentira, prefere ficar em casa e assisti-lo pela televisão. A felicidade da sua escola é a sua felicidade.

No conto Jujuba verde, uma menina espera em frente à televisão a chegada de um cantor romântico. Mentira criada e sustentada pela mãe.

Com algum esforço, carregou-a até o quarto, onde deu-lhe um beijo terno, sussurrou um "boa - noite, a menina", deitou-a na cama e apagou a luz.

- Amanhã ele vem - ainda disse, antes de sair.

Em Menino no escuro nos deparamos com Peter Pan pelo avesso. As fotos da infância e os brinquedos somem sem que o menino perceba que é a infância que está chegando ao fim. Enquanto a adolescência se anuncia, o menino permanece encantado pelas lembranças. Talvez mais tarde entenda as intenções de Dona Dita, do conto Desfile, quando disse que "lembrança até quando é boa dói".

Inventivo e de uma áspera ternura é Dedicatórias. Está se tornando um hábito nefasto a tal da metalinguagem e resulta daí um borrão de repetições e chatices. Pois então, patéticos inventores do já sabido leiam e releiam Dedicatórias, aqui se transcendem as obviedades, o que se lê é pura criatividade. Coisa feita por quem é do ramo, manjam?

Um casal troca livros e o leitor percebe a evolução do romance pelos recados escritos na folha de rosto. E mesmo com livros a rotina impiedosa corrói o amor. Repete-se a cena inicial - com dedicatória num livro, o romance chega ao fim.

Das profundezas do azul pode ser encarado como o emblema da sensibilidade do autor. Funcionário que está para se aposentar, vive numa quitinete em Copacabana e vangloria-se de poder ver o mar da sua janela. No final do conto o leitor sofrerá com o protagonista no afã de realizar a engenharia que lhe permite ver o mar.

Somos todos iguais nesta noite é uma aula de literatura. É impressionante o quanto de surpresas a simplicidade encerra!"



 Escrito por Marcelo às 16h44
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Um samba antológico

Sei que o carnaval já passou (e deixou um rastro de tristeza nos imperianos), mas peço licença para voltar ao tema porque a cada dia estou mais encantado com o samba de 2007 de outro Império, o da Tijuca. Ouvi-o pela primeira vez semanas antes do início da folia, quando, ainda cogitando desfilar também no Grupo de Acesso, fiz uma pequena busca nos sites das escolas. A simpatia pela agremiação do Morro da Formiga, evidente pelos vários paralelos com a Serrinha, se acentuou quando soube qual era o enredo deste ano: São Jorge. 

Foi no site que pude ouvir o samba pela primeira vez. Trata-se de uma daquelas composições antológicas, que nascem para entrar imediatamente na história, e é uma pena que tão pouca gente o tenha escutado. Já no refrão - "Eu te sinto pelo ar / Eu te vejo no luar / O Morro da Formiga em procissão / Faz a sua homenagem ao santo de devoção" -, há aquele tom de lamento que marca (ou marcava) os grandes samba-de-enredo. A melodia e a letra permitem uma cadência toda especial, que acentua o caráter de louvação que está presente no canto. Coisa rara de ser ver atualmente. Reproduzo abaixo a letra do samba. Para ouvi-lo, basta acessar aqui

"O intrépido Santo Guerreiro"

Bola

"Jorge era um bravo guerreiro
Que enfrentou batalhas sem nunca temer
E com o seu talento natural
Chega ao comando da guarda imperial
Roma que em tempos distantes
Punia os amantes da religião cristã
Via o soldado convertido
Apesar de perseguido, confirmar sua fé
Diocleciano, imperador romano
Ordenou a sua execução
Se espalhou o culto em sua devoção

Não chore alteza, não chore não
O cavaleiro matou o dragão
Santo guerreiro, de coração
Canta o Império em louvação

E ao chegar no Brasil
Com o sincretismo, no tempo da escravidão
Foi batizado de Ogum
É fogo, é ferro, é graça para cada um
Ele é que vence a demanda
Seja na Umbanda ou no Candomblé
Se hoje tem cavalhada
Amanhã tem congada pro santo de fé
Quem é fiel, é da guerra
É Corinthians na Terra e Jorge no céu

Eu te sinto pelo ar
Eu te vejo no luar
O Morro da Formiga em procissão
Faz a sua homenagem ao santo de devoção" 



 Escrito por Marcelo às 13h39
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Kid Cavaquinho no Buteco do Edu

O Buteco do Edu, do grande Eduardo Goldenberg, colocou no ar hoje uma longa e divertidíssima entrevista com João Bosco. Acompanhado de amigos como o Simas e o Rodrigo (da Folha Seca), Edu carregou o João para o célebre Bar do Pires (ou Rainha do Mar), velho conhecido de quem estudou na PUC, onde derrotaram um litro de uísque e algumas garrafas de cerveja e papearam sobre a vida do compositor, suas primeiras canções, a parceria com o Aldir Blanc, o futebol e a paixão pelo Império Serrano. Para dar um gostinho da entrevista, reproduzo abaixo o trecho em que o cantor comenta sobre um fato que pouca gente conhece: o prêmio que ele ganhou na loteria.

"(...) JB: Você sabe que eu ganhei na Loteria Esportiva, né?

RF: Não!

JB: Ninguém sabe disso...

EG: Conta, conta, conta...

JB: Fizemos 13 pontos!

RF: Quando isso?

JB: Fizemos 13 pontos em 1980!

RF: Hoje ninguém mais faz 13 pontos, agora são 14!

EG: Ganharam muito dinheiro?

JB: 13 pontos é sagrado! Loteria Esportiva são 13 pontos, são 13! Eu ganhei um dinheiro compatível com a compra de um apartamento de dois quartos no Jardim Botânico, naquela época! Eu! Metade. Quer dizer que a outra metade também... Então aquele dinheiro daria pra comprar um apartamento de quatro quartos (todo mundo ri)!!! Mas por razões pessoais eu não posso dizer aqui porque é que eu e Paulinho não alardeamos essa notícia e nem fizemos um samba falando disso... (todo mundo ri, João ri muito...). Só jogamos uma vez e ganhamos uma vez! Fizemos um triplo no Vasco e Flamengo, foi a primeira coisa que a gente resolveu na hora de marcar o cartão, que foi pago com cheque, que estávamos duros, o cara fechando a loja... Embaixo do Cine Veneza... O cara fechando a loja e o Paulinho pedindo pra aceitar o jogo... Dois triplos, só! Pagamos o dobro da aposta mínima... 13 pontos! Paulinho pagou em cheque e eu fui pra Cuba com Chico Buarque, Djavan, fui participar do Festival de Varadero... Passamos 15 dias em Cuba. No primeiro domingo, Paulinho em casa, 1, 2, 3, 4, 5, 12, 13, caralho! E eu ainda tinha mais sete dias em Cuba. O cartão tava em nome da minha mulher, que na hora que a gente jogou eu disse “Não bota o meu”... Eu só me dou na música, no jogo eu não tô com nada. Paulinho não quis o dele, não quis o da Lila, mulher dele... Eu falei “Bota no nome da Ângela!”... E a gente em Cuba, o Paulinho pirou!!!!! Foi uma grana, bicho, muito legal... Agora, fazer 13 pontos com Paulinho da Viola é fazer 13 pontos duas vezes! E agora eu quero fazer um disco assim, tocando... Tem um samba novo do Aldir comigo nesse disco chamado “Sonho de Caramujo”..."



 Escrito por Marcelo às 12h58
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No Espaço Aberto

Amanhã, às 21h30, o programa Espaço Aberto (Globo News) vai veicular a entrevista que concedi ao apresentador Edney Silvestre. O assunto principal foi meu recente livro, mas falamos também sobre literatura brasileira contemporânea, o subúrbio carioca e o samba.

No site da Globonews, definiram assim: "Edney Silvestre entrevista o jornalista e escritor Marcelo Moutinho, que fala sobre seu segundo livro de contos, "Somos iguais nesta noite". O livro intercala contos e mini-contos que retratam situações familiares a qualquer leitor. O subúrbio do Rio de Janeiro também está presente na narrativa e aparece nostálgico, recriado através da memória do autor".



 Escrito por Marcelo às 14h37
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Dori e Paulo César Pinheiro

 

Um show imperdível vai acontecer no Teatro Rival amanhã e quinta-feira. Simplesmente dois dos maiores de nosso cancioneiro - Dori Caymmi e Paulo César Pinheiro - estarão lado a lado apresentando parcerias, como Desenredo e Coração sem saída, e pérolas de suas carreiras-solo. Os espetáculos começam às 19h30, com ingressos a R$ 30 para os 150 primeiros compradores (setor B). Os lugares no setor A custam 40 mangos.



 Escrito por Marcelo às 11h25
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Princesinha do Mar

Na sexta passada, o Jornal do Brasil me pediu uma crônica sobre Copacabana. O texto - no qual fiz uma brincadeira com o célebre Ai de ti, Copacabana, de Rubem Braga - foi publicado na edição de hoje, ao lado de uma matéria sobre o bairro, e está reproduzido a seguir.

Ai de mim, Copacabana

Marcelo Moutinho*

1. Ai de mim, Copacabana, já passada a véspera do teu dia, inabalado mesmo após a crônica do Rubem, porque não te abalas com prenúncios de literatura, posto que a riqueza de teus poemas se esconde em versos pobres como os que rimam miss e meretriz.

 

2. Ai de mim, Copacabana, que no seio da noite continuas a dar risadas ébrias, enquanto os bêbados moribundos do amor te pisam distraidamente, dançando pelos contornos das pedras portuguesas como se surfassem no concreto.

 

3. Segues, como o cronista cantou, perdida no meio de tuas iniqüidades, e ainda mais vagabunda e soberana, sob a luz da gargantilha de refletores que te enfeita o pescoço e ilumina os brilhos fugazes das criaturas que só vivem nas brumas da madrugada.

 

4. São putas, michês, travestis, com perfumes baratos e curvas ruidosas, vendendo sexo e cafuné a quem passa, enquanto o mar respira ofegante, como se também gozasse, soprando um alento ao pecado que grassa em tuas ruas e galerias.

 

5. Ai de mim, Copacabana, se forem ao chão os grandes edifícios de cimento onde teus filhos parecem dormir de pé, amontoados uns sobre os outros, nas quitinetes que zombam das coberturas da Atlântica, juntando famílias, consultórios, cabeleireiros e sex shops, e escondendo a tua vaidade no fundo das próprias mazelas, no hall dos elevadores, nos quartos dos Severinos e Franciscos e Joões e Antônios que zelam pelas tuas entradas mais secretas.

 

6. Já cantaste tua última canção e no entanto ela não foi a derradeira, porque nem a rapina de teus mercadores, nem a ostentação dos novos-ricos, nem mesmo a especulação sobre o metro quadrado do teu terreno foram capazes de turvar tua graça rampeira e soberana.

 

7. Porque és eterna, assim como são eternos os botecos de tuas esquinas, e os inferninhos da Prado Júnior, e os jogos de peteca na areia, e os passeios das senhorinhas pelo calçadão, e os pescadores do Posto Seis, e os aposentados de bermudas no carteado, e as moças besuntadas de óleo sob o sol, e as barracas de feira na Praça dos Paraíbas, e os trovadores com seus violões na busca de um trocado, e os cocôs dos cachorros na Barata Ribeiro, e os casais se amando sob a lua cheia, e os turistas dizendo beautiful, beautiful diante da bunda da mulata.

 

8. Ai de mim, Copacabana, se não continuarem a ser estas as tuas jóias, este o verniz de tuas unhas, esta a libação de teus perdidos, este o teu corpo maculado e formoso, onde os pobres-diabos se imiscuem à procura de colo, onde o homem-rã toca piano submarino para fantasmas de mulheres silenciosas e verdes, enquanto Iemanjá bebe uma cerveja à espera de barcos e flores.

 

* Escritor e jornalista



 Escrito por Marcelo às 13h09
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Três mulheres de três PPPês

Na edição de hoje, o suplemento Prosa & Verso (O Globo) publica resenha minha sobre o ótimo livro Três mulheres de três PPPês, incursão do crítico Paulo Emílio Sales Gomes pela literatura, que está sendo reeditado depois de muito tempo pela Cosac Naify. Segue a matéria e o box que saiu na mesma página:

Paulo Emílio examina a burguesia

Publicação das novelas dá início a republicação de toda a obra do crítico e escritor

Marcelo Moutinho*

Foi com surpresa que os amigos mais próximos se depararam, em 1977, com as três novelas que Paulo Emílio Sales Gomes escrevera em segredo alguns anos antes e acabavam de chegar às livrarias. Professor, ensaísta e crítico de cinema já consagrado, Paulo Emílio investia pela primeira vez no terreno pantanoso da ficção e, na insegurança de autor iniciante, buscava acenos que pudessem ratificar a qualidade dos textos. Não houve tempo: seis meses após lançar o livro, um infarto fulminante o matou.

Pois aquelas novelas, reunidas sob o título “Três mulheres de três PPPês”, estão sendo reeditadas pela Cosac Naify, em caprichado volume que inclui posfácio do organizador Carlos Augusto Calil, trechos suprimidos pelo autor e fortuna crítica, com ensaios de Zulmira Ribeiro Tavares, Modesto Carone e Roberto Schwartz, entre outros. No livro, a narrativa original foi restaurada a partir do cotejo entre as edições anteriores (Perspectiva e Nova Fronteira) e os manuscritos do autor, hoje depositados na Cinemateca Brasileira.

Com “Três mulheres de três PPPês”, a Cosac Naify dá início ao relançamento de toda a obra de Paulo Emílio. Até 2008, chegarão ao mercado uma novela inédita (“Cemitério”), estudos sobre a Sétima Arte (como “Vigo, vulgo Almeryda e Jean Vigo” e o seminal “Cinema: trajetória no subdesenvolvimento”), uma seleta de correspondências que abarca cartas trocadas com Glauber Rocha, além de toda a crítica produzida para o célebre Suplemento Cultural, com organização temática.

No livro reeditado, Paulo Emílio esquadrinha a asfixia de uma classe social que se assemelha, como assinala Roberto Schwartz, a “uma espécie zoológica em extinção”. A frivolidade, o teatro de aparências e o desejo permanente de ascensão típicos da burguesia são dissecados com ironia e algum sarcasmo. A narrativa abriga esse tom mordaz sob um tratamento convencional, à beira do pomposo. Isso em plenos anos 70, fase na qual a literatura brasileira em grande parte apostou em experiências formais.

O único sinal de quebra dos códigos protocolares se dá na liberdade com que o autor manipula normas como a colocação de pronomes e vírgulas, numa violação que obedece tão-só aos ditames de sua “gramática interior”. O aparente convencionalismo, no entanto, não é capaz de solapar o espírito moderno que anima o livro. Como observa Schwartz, ao invocar elementos já superados do modernismo, como as contrariedades conjugais e a “prosa engomada”, Paulo Emílio quer é “expô-los ao vexame”.

As três novelas apresentam pontos de interseção, como a ambientação em Águas de São Pedro - - instância que o autor freqüentou na companhia da mulher, Lygia Fagundes Telles - e o fato de os três narradores se chamarem Polydoro, nome que detestam. Além disso, enredam-se com mulheres ardilosas, vendo ruir as bases precisas e seguras nas quais se sustentavam a partir do instante em que algo é revelado. Há sempre um buraco à espreita nas histórias de Paulo Emílio.



 Escrito por Marcelo às 12h54
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Em “Duas vezes com Helena”, o bem-sucedido Polydoro vai descobrir, depois de algumas décadas de remorso, a verdade sobre o caso relâmpago que teve com a esposa do velho professor de quem era discípulo. Valendo-se de expediente semelhante ao campo/contracampo tão caro ao cinema, Paulo Emílio contrasta os relatos do protagonista e de Helena, a partir do qual Polydoro se esvazia, como uma bola de gás levemente furada.

Na segunda novela – “Ermengarda com H” -, o narrador desliza no ritmo da reviravolta que a leitura de dois diários escritos pela mulher, com registros conflitantes sobre a vida conjugal, suscitará em sua imaginação. Assim como na história inicial, Polydoro divide com o leitor os pormenores de suas minuciosas análises sobre cada acontecimento. Ele acredita que “a pura reflexão interior é a ultima instância do conhecimento”. Mas diante da leitura dos cadernos, sente fraquejar as certezas que até então alimentara.

 

No decorrer de “Ermengarda com H”, aliás, Polydoro faz uma confissão que serve como síntese desse personagem que Paulo Emílio qualifica como o burguês característico. “Minha perspectiva de vida conjugal era simples, serena e saudável. Trabalhar o dia inteiro para aumentar o patrimônio. Uns dois filhos. Aos domingos e feriados, passeios instrutivos. Férias anuais em praias tranqüilas. (...) Em suma, meus sonhos juvenis de suprema elegância, poder e cultura tinham se reduzido a um nível bem paulista”, observa ele.

 

Fechando a tríade, “Duas vezes em Ela” expõe os conflitos de um casal cuja diferença de idade é grande, explorando temas como o adultério e a impotência sexual. Mais uma vez, a imagem que Polydoro tinha da mulher em dado momento se esfumaça. “Acabara de descobrir Ela e ao mesmo tempo a perdera”, diz ele, numa frase que poderia perfeitamente ser repetida pelos protagonistas das duas outras novelas.

 

Essa recorrência, presente nos campos subjetivos dos Polydoros e de suas mulheres, reflete um estado de coisas externo. As alusões à Guerra Mundial, ao nazismo, ao comunismo e ao Golpe de 64 apontam para as mudanças rápidas e radicais que marcaram o epílogo da modernidade, mas o livro não se limita ao comentário sobre sua época, antecipando questões da temporada que viria, como a rarefação dos conceitos e a multiplicidade de explicações que pouco ou nada explicam.

 

É nesse entorno que Paulo Emílio lapida a pedra angular das três novelas: a sistemática recusa à identidade, evidenciada no desagrado dos protagonistas com o próprio nome. Submersos no turbilhão de imagens falsas de uma classe social que alimenta os próprios fantasmas com os quais se assustará, seus Polydoros incorporam a célebre frase de Marx: como tudo o que é sólido, também eles se desmancham no ar.

 

* Escritor e jornalista



 Escrito por Marcelo às 12h53
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Uma referência na cultura brasileira

Personagem de inequívoca referência na vida cultural brasileira durante o século passado, Paulo Emílio Sales Gomes praticamente inaugurou a crítica cinematográfica no país. Sua fascinante trajetória - narrada no livro “Paulo Emílio no Paraíso”, de José Inácio de Melo Souza – inclui a prisão por motivos políticos, a organização daquela que hoje é a Cinemateca Brasileira e a fundação do curso de Cinema da Universidade de Brasília, além da colaboração para revistas como a antológica Clima, da qual participou ao lado de ensaístas do porte de Antonio Candido e Décio de Almeida Prado. Graças a Paulo Emílio foram exibidos pela primeira vez no Brasil filmes dos irmãos Lumière, da Vanguarda Russa e do Expressionismo Alemão. Crítico das estruturas burguesas, ele foi também precursor na luta pela preservação da memória do cinema brasileiro, que defendia radicalmente.



 Escrito por Marcelo às 12h53
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Pálida estação

Na próxima segunda, o amigo Bráulio Neto fará sua estréia na ficção com o livro Pálida estação (7Letras). O lançamento vao acontecer a partir das 20h, no Belmonte do Jardim Botânico. Segundo o grande Marceu Vieira, que assina a orelha, trata-se "de um livro de amor, ou de amores - todos perdidos". Estarei lá! 



 Escrito por Marcelo às 14h19
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Literatura japonesa

E o amigo Cassiano Vianna convida para o evento que vai rolar na mesma segunda, a partir das 20h, da Livraria Dantes (no mezzanino do Cine Odeon). O encontro vai celebrar a literatura japonesa, com a leitura de textos de autores como Junichiro Tanizaki, Genichiro Takahashi, Yukio Mishima e Haruki Murakami. Os leitores serão Ricardo Cabral, Roberta Freitas, Diana Coll, Akemi Ono, Ana Carolina Cunha Lima e Guilherme Kato.



 Escrito por Marcelo às 14h08
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8 de março

"V"

Herberto Helder

"Há cidades cor de pérola onde as mulheres
existem velozmente. Onde
às vezes param, e são morosas
por dentro. Há cidades absolutas,
trabalhadas interiormente pelo pensamento
das mulheres.
Lugares límpidos e depois nocturnos,
vistos ao alto como um fogo antigo,
ou como um fogo juvenil.
Vistos fixamente abaixados nas águas
celestes.
Há lugares de um esplendor virgem,
com mulheres puras cujas mãos
estremecem. Mulheres que imaginam
num supremo silêncio, elevando-se
sobre as pancadas da minha arte interior.

Há cidades esquecidas pelas semanas fora.
Emoções onde vivo sem orelhas
nem dedos. Onde consumo
uma amizade bárbara. Um amor
levitante. Zona
que se refere aos meus dons desconhecidos.
Há fervorosas e leves cidades sob os arcos
pensadores. Para que algumas mulheres
sejam cândidas. Para que alguém
bata em mim no alto da noite e me diga
o terror de semanas desaparecidas.
Eu durmo no ar dessas cidades femininas
cujos espinhos e sangues me inspiram
o fundo da vida.
Nelas queimo o mês que me pertence.
o minha loucura, escada
sobre escada.

Mulheres que eu amo com um des-
espero fulminante, a quem beijo os pés
supostos entre pensamento e movimento.
Cujo nome belo e sufocante digo com terror,
com alegria. Em que toco levemente
Imente a boca brutal.
Há mulheres que colocam cidades doces
e formidáveis no espaço, dentro
de ténues pérolas.
Que racham a luz de alto a baixo
e criam uma insondável ilusão.

Dentro de minha idade, desde
a treva, de crime em crime - espero
a felicidade de loucas delicadas
mulheres.
Uma cidade voltada para dentro
do génio, aberta como uma boca
em cima do som.
Com estrelas secas.
Parada.

Subo as mulheres aos degraus.
Seus pedregulhos perante Deus.
É a vida futura tocando o sangue
de um amargo delírio.
Olho de cima a beleza genial
de sua cabeça
ardente: - E as altas cidades desenvolvem-se
no meu pensamento quente."



 Escrito por Marcelo às 11h55
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As finais do turno revelaram um mau caráter

O Flamengo foi campeão do turno (merecidamente, porque merece quem ganha a final e o time rubro-negro não tem culpa de o Madureira ter tido o 'azar' de perder seu ataque titular, que já não é essas coisas), mas os dois jogos da final revelaram um mau caráter: o bom goleiro Bruno. Na primeira partida, passou os 90 minutos cuspindo nos atletas do Madureira e chamando os adversários de "pobres" e "mortos de fome". Na segunda, seguiu com a baixaria e ainda quis briga quando o turno estava garantido e a hora era de comemorar. Cusparadas e essa linhagem de xingamentos (não toda, mas especificamente esta, a mais babaca) são atitudes emblemáticas do medíocre, do canalha, do escroto na plena acepção da palavra. E aí é que a gente começa a entender como um goleiro de ótimo aproveitamento foi deixado de lado em todos os clubes por onde passou. Mas o mundo dá voltas, basta esperar...



 Escrito por Marcelo às 23h52
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Vênus

Passando pelo curcuito de forma um tanto discreta, Vênus é um pequeno grande filme. O drama dirigido por Roger Michell com base numa história original do escritor Hanif Kureish lança um olhar nuançado e melancólico sobre a velhice, personificada na figura de Mauriace (Peter O'Toole, numa interpretação excepcional). A rotina do protagonista, ator veterano cujos papéis agora se limitam a personagens moribundos, é quebrada pelo aparecimento da jovem Jessie (Jodie Wahitaker), que vai provocar uma última fagulha em sua vida. Michell filma com delicadeza e meio-tons a constatação das perdas que a proximidade da morte enseja.



 Escrito por Marcelo às 12h02
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Letra & Música

Na próxima terça, às 21h30, será transmitida a entrevista que concedi ao programa Letra & Música, na MPB FM. Na conversa com o apresentador Fernando Mansur, falei sobre o novo livro, minhas motivações literaárias e o incipiente trabalho como letrista. O dial da MPB FM é 90,3 M Hz.

Para quem quiser ouvir via internet, basta acessar a página da rádio: www.mpbfm.com.br.



 Escrito por Marcelo às 22h47
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Sobre a poesia

Após assistir ao debate sobre poesia organizado recentemente pelo Prosa & Verso (dentro do projeto Prosa nas livrarias), encontrei mais argumentos para acreditar que o gênero, ao menos no Brasil, enreda-se cada vez mais em si mesmo. Explico: boa parte dos poetas escrevem para a leitura embevecida de outros poetas, seus pares, manipulando códigos e referências que impossibilitam o acesso ao poema por parte do chamado leitor comum. Sobretudo o depoimento de Paulo Henriques Britto (ótimo poeta e um dos participantes do evento, ao lado dos amigos Henrique Rodrigues e Bruna Beber - que, diga-se, não se enquadram neste exemplo - e do figuraça Rogério Skylab) me deu a impressão de que o caminho progressivamente se afunila mesmo nessa direção. 

Na coluna que escreve às segundas-feiras na Folha de S. Paulo, o Nelson Ascher tocou levemente no tema, que julgo relevante. Ele chega a especular se ainda haveria lugar para a poesia hoje (claro que há). Reproduzo o texto a seguir:

"O fim da poesia?"

Nelson Ascher

"A partir de 1922, oficialmente, os poetas brasileiros deixaram de lado tanto os augustos mármores com ecos argênteos ou brônzeos do parnasianismo como os turíbulos, missais e castos aromas de incenso do simbolismo, e passaram a compor, pelo telefone, poemas sobre o trânsito, o semáforo e a eletricidade. Claro que nem tudo se reduzia a esse esquema simples. Augusto dos Anjos já recorrera a um léxico de estudante de medicina ou de biólogo amador, à cultura de um leitor provinciano de almanaques que, vindos da capital federal, anunciavam novas descobertas e invenções, para orquestrar em seus sonetos uma sonoridade grotesca cujo fascínio hipnótico poucos negariam.

Enquanto isso, Manuel Bandeira, familiarizado com Heinrich Heine, criava suas canções pseudo-ingênuas ou, inspirado por Verlaine, transformava nosso carnaval tropical num espetáculo a um tempo melancolicamente decadente e elegante o bastante para evocar a corte dos Bourbons.
Independentemente, porém, de contra o quê se revoltava, a poesia moderna como ela começou a ser praticada aqui nos anos 20 caracterizou-se pelo abandono das formas fixas e pela adoção da linguagem coloquial. O que, pelo menos de início, ocorreu com as formas não foi diferente no seu caso do que sucedera com a pintura quando saiu dos limites do figurativismo e com a música atonal. O curioso é que sua contrapartida, a incorporação de temas não "poéticos" e de uma fala oriunda do cotidiano, apontava numa direção oposta.

Pois as formas fixas fornecem ao leitor um padrão consagrado, um ambiente seguro dentro do qual este se sente em contato com a poesia. Graças, em geral, a esse acordo de base, o poeta pode negociar com ele a alteração de outros elementos. Sem a certeza prévia que essas formas lhe dão, cabe a cada leitor se tornar um especialista que tenta desvendar se aquilo que lhe foi apresentado é de fato um poema ou não. Uma tarefa exigente e, enfim, para poucos.

Qual, no entanto, o vínculo de necessidade entre essa redução do círculo de leitores e a propensão a falar quase sempre nas cadências de uma pretensa "vox populi"? Menos de complementaridade que de compensação: talvez os poetas de então pensassem que, buscando competir com o noticiário e as manchetes jornalísticas, recuperariam os leitores que perdiam com o que, embora o chamado de experimentalismo, era antes a quebra de um contrato secular.

O coloquialismo em si já era, não uma conquista, mas uma concessão e, depois desta, outras viriam, todas insuficientes. O fato é que os poetas da geração seguinte, os que estrearam nos anos 30/40, recuaram diante da possibilidade de alienar de vez o público restrito que a poesia ainda possuía e se lançaram na criação de obras complexas que não desistiam de antemão de nenhum instrumento potencialmente útil. Não é à toa que Drummond escreveu sonetos, Vinicius compôs baladas e João Cabral raramente se afastou da quadra.

Seja como for, nenhuma medida, nenhum recuo tático bastou para recolocar a poesia na posição de arte central à qual ela naturalmente aspira. E, para provar involuntariamente essa constatação, os poetas dos anos 70 se autodenominavam "marginais" como se ainda houvesse algum que não o fosse. De quantas artes já tiveram um estatuto melhor e um público maior, nenhuma parece ter caído tanto quanto a poesia e isso, paradoxalmente, durante o século 20, quando surgiram não somente algumas das vozes mais memoráveis que o Ocidente produziu, mas também tradições anteriormente ignoradas se apresentaram, através da tradução, a um público que, pela primeira vez na história, prometia se tornar universal.

É possível reverter essa queda e tornar a poesia novamente importante e popular? Por sorte, o futuro a deus pertence e as tendências que abriga não são facilmente desvendáveis. Muito depende do empenho dos próprios poetas, naturalmente, de sua capacidade de reconhecer que sua arte, se bem que nutra inúmeras outras, talvez esteja beirando a extinção. O papel do público, porém, não pode ser ignorado e tudo, no último século, aponta para consumidores cada vez mais preguiçosos, cada vez mais sequiosos de um prazer fácil, repetitivo e que não envolva maiores esforços. Como convencer um público sedado por uma satisfação pré-digerida de que há, sim, prazeres maiores, mas que desfrutá-los requer trabalho, empenho e suor?"



 Escrito por Marcelo às 11h07
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Rio, 442 anos

"Só dói quando eu rio"

Moacyr Luz / Aldir Blanc

"Só fico à vontade
Na minha cidade
Volto sempre a ela
Feito criminosa
Doce e dolorosa
A minha história
Escorre aqui

Há quem não se importe
Mas a Zona Norte
É feito cigana
lendo a minha sorte
Sempre que nos vemos ela diz
Quanto eu sofri

E Copacabana
A linda meretriz-princesa
Loura mãe-de-santo
Com sua gargantilha acesa

Ela me ensinou pureza e pecado
A respiração do mar revoltado...
Rio de Janeiro
favelas no coração"



 Escrito por Marcelo às 12h11
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