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Fechamento, Tribuna e blá, blá, blá
Bom, esta é aquela semana do mês em que se torna quase impossível postar: fechamento de jornal. Para quem é do ramo jurídico (ou para quem não é, mas se interessa pelos temas), adianto que a Tribuna do Advogado de março virá com visual novíssimo e trará reportagens sobre a pesquisa da USP que comprovou que a Justiça brasileira tende para o lado mais forte nos conflitos, a polêmica sobre a antecipação da maioridade penal, a abertura dos arquivos da ditadura militar, além de artigos sobre os supersalários do Judiciário e a progressão de pena para crimes hediondos. A entrevista com Nei Lopes, na edição passada, rendeu pacas e pode ser conferida no sítio da OAB/RJ. Volto em breve com assuntos outros.
Escrito por Marcelo às 10h31
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Por uma nova Liga
Indignado com o resultado do carnaval, que mais premiou a grana em detrimento do samba (basta ver que as 5 primeiras colocadas foram as que mais gastaram e as 2 rebaixadas as que menos investiram), criei uma comunidade no Orkut em defesa da fundação de uma nova Liga. A idéia é permitir que as escolas verdadeiramente de samba - e aqui incluo Império, Portela, Salgueiro, Estácio, Ilha, Caprichosos, Mocidade, entre outras - possam desfilar sem tanta preocupação com o cronômetro e os tecnicismos. Essa preocupação vem matando as próprias escolas e aquelas que não aceitam a submissão acabam vilipendiadas pela Liesa. Para minha supresa, a coluna Gente Boa se interessou pelo assunto e publicou, no sábado passado, uma pequena entrevista comigo, que reproduzo a seguir:

Escrito por Marcelo às 11h33
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No Correio Popular
Titular do blog Pátria F.C., que faz parte dos indicados desta casa, o jornalista Bruno Ribeiro fez uma entrevista comigo sobre meu novo livro para o Correio Popular, de Campinas. Como poucos, o Bruno sacou uma coisa essencial em Somos todos iguais nesta noite: a melancolia que possa porventura estar presente nos contos não é capaz de solapar a busca e, mais do que isso, a crença no homem. Segue a íntegra da entrevista:

"O jornalista e escritor Marcelo Moutinho acaba de lançar seu segundo livro. Somos Todos Iguais Nesta Noite (editora Rocco, 128 págs., R$ 19,00), seleção de contos suburbanos, vai na linha da tradição carioca de retratar a cidade a partir de pequenos textos que desenham, como em óleo sobre tela, painéis de uma humanidade possível — negligenciada pelos donos do poder e tratada com deboche pela nova geração de autores brasileiros. Aos 34 anos de idade, Moutinho é tratado como um dos melhores contistas cariocas da atualidade. Talvez seja prematuro fazer tal afirmação, mas seu primeiro livro, Memórias dos Barcos (7 Letras, 2001), prenunciava um autor gabaritado para falar da cidade como falaram, por exemplo, Carlinhos Oliveira e outros escritores egressos da imprensa. Em Marcelo Moutinho se nota a mesma verve boêmia que deu a melhor literatura de calçada e balcão.
Somos Todos Iguais... é um livro curto, para ler numa sentada só, mas nem por isso simplista. Cada um dos 22 contos é permeado por um lirismo comedido que, em alguns momentos, nos lembra de que o Rio de Janeiro ainda é possível — apesar da insegurança pública e da bandalheira política que assolam a população local, sobretudo a mais pobre. Não se trata de poesia ingênua feita atrás das lentes do bairrismo. Moutinho sabe que o título de Cidade Maravilhosa já não cai bem à sua aldeia — o que não o impede de ver beleza nos acontecimentos triviais das ruas. Mesmo quando tristes ou trágicos, os dramas pessoais são carregados de sentido e não cedem ao cinismo dos que colocam todos os homens no mesmo balaio. Para o autor, a única saída do inferno é a aceitação de uma vida íntegra, baseada nos melhores instintos e sentimentos.
O livro é dividido em duas partes: Iguais e Noites. Na primeira, o autor reúne textos solares, com temas que remetem à infância, à família e ao amor romântico. A passagem para Noites é feita por um conto erótico: Rosa Noturna, que conta a história da travesti Teresa, que “tinha um pênis de vinte e dois centímetros, contados na régua”. Assim, de uma antiga recordação do pai — que “despontou no jardim de tênis, bermuda, camisa sem mangas e com o seu Hollywood na mão” —, Moutinho costura a primeira metade com a precisão da velha costureira, incumbida de preparar as fantasias para o Carnaval, que aparece no sétimo capítulo. Todos os personagens criados por Moutinho — isto não está claro — provavelmente moram no mesmo bairro e se conhecem de vista. Talvez morem em Madureira, ali nas imediações da Carvalho de Souza com Dagmar Fonseca.
A delicadeza extraída de instantes banais será sempre o melhor termômetro do conto, cuja função é emocionar ou chocar o leitor. Marcelo Moutinho consegue fugir ao morno quando dá aos seus textos um final arrebatador ou imprevisível. Há sempre uma surpresa reservada — como a presença de microcontos entre um texto e outro, fazendo a ponte entre um personagem e outro, entre uma solidão e outra, entre um drama e outro. Dessa forma, o rapaz calado, que toma oito cervejas todos os dias sem falar com ninguém, pode muito bem ser o mesmo que recorreu aos serviços da travesti Teresa ou que saiu a procura do amor num bloco carnavalesco. Somos Todos Iguais Nesta Noite é um livro de contos profundamente ligado ao Rio de Janeiro, mas que pode ser lido e compreendido por qualquer leitor, em qualquer parte do mundo. Apesar de geográficos, os temas explorados por Moutinho são atemporais e universais. Leia, a seguir, trechos da entrevista com o autor:
— De que maneira os contos são iguais? Marcelo Moutinho — Meu objetivo foi costurar um conto no outro, de modo que eles contassem uma só história, mas sem deixar de dialogar. Os contos podem ser lidos separadamente, mas estão amarrados por pequenos pontos comuns que levam o leitor a pular de um texto para o outro sem perder o ritmo da respiração. Sob essa perspectiva, o conto Desfile, que traz a costureira de escola de samba como personagem, é uma espécie de síntese da proposta do livro.
Ainda há espaço para o conto e as crônicas na nova geração de autores brasileiros? Quando organizei a antologia Prosas Cariocas - Uma Nova Cartografia do Rio (Casa da Palavras, 2004), percebi que existia uma produção intensa, reveladora de carga afetiva com a cidade. Um amor e um compromisso com a cidade que não vejo tanto, por exemplo, entre os autores paulistas — com nobres exceções. Talez porque a crônica, por ser um gênero literário nascido na imprensa carioca, tenha deixado marcas profundas no imaginário dos nossos criadores. O espaço existe mas, se não fossem os blogs, estariam restritos aos leitores do Rio. Porque a literatura contemporânea está cada vez mais fechada em temas estilísticos e munida de discurso que reivindica para si uma vanguarda vazia, que não existe da maneira como dizem.
Como você enxerga sua geração? O escritor, entendido como aquela figura do observador da rua, está morrendo. A maioria dos novos escritores que estão em foco dos cadernos literários é formada por pessoas mais preocupadas com a forma que o conteúdo. Os temas estão cada vez mais egoístas: giram em torno da própria literatura ou do umbigo dos autores. A única marca perceptível, se é que existe uma que identifique esta geração, é a aproximação com o neo-naturalismo e com o roteiro de cinema. Os grandes dramas humanos pescados no cotidiano das calçadas não têm mais importância. A literatura está desumanizada porque muitas vezes os escritores não saem de casa, ficam o dia todo sentados na frente do computador.
A blogosfera contribui para o aparecimento de um novo tipo de leitor e de literatura? Não sei se esta contribuição chega a tanto, até porque a maioria dos textos veiculados é ruim. Acho que a maior contribuição da blogosfera foi propiciar o encontro de pessoas que pensam e escrevem sobre as mesmas coisas. Antes, éramos ilhas. Cada qual em seu canto, achando que estava escrevendo para ninguém. O blog está recriando a vida literária, propiciando a troca de informações e a associação de autores, além de democratizar o acesso à produção e à leitura de novos textos.
Apesar da melancolia de seus contos, você é otimista em relação ao Rio? A melancolia é fruto de uma constatação: a de que a humanidade se perdeu e caminha para a extinção. É um caminho sem volta. Porém, sou otimista em relação a uma vida que pode renascer a cada dia, nos lugares mais improváveis do Rio ou de qualquer outra cidade. Ítalo Calvino dizia que o inferno é a vida que levamos e que a única saída é viver da melhor maneira possível. Ou seja, estamos no inferno, mas não precisamos fazer de nossa vida um inferno. E o Rio de que gosto e conheço está do outro lado do túnel, onde o dono do armazém vende fiado e o cliente faz questão de pagar no fim do mês. Acho que a cidade pode se salvar a partir do resgate dessas relações de confiança e solidariedade, que ainda existem no subúrbio."
Escrito por Marcelo às 16h21
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Lambendo as feridas
O desfile do Império infelizmente teve vários problemas além daqueles habituais: a falta de dinheiro e as falhas na harmonia. Como estava pressentindo desde a manhã de segunda, não fomos páreo num ano de passagens de altíssimo nível e caímos de Grupo. Entre a tristeza (imensa, profunda, paralisante) pela queda e o desânimo porque o rebaixamento poderá interromper um trabalho sério que vinha sendo tocado pela atual diretoria, busco algum conforto ao lembrar que, num carnaval onde as "estrelas" são o teatro espetaculoso de baterias que sobem em carros alegóricos (o que isso contribui para a folia, meu Deus?) ou ex-BBBs que se tornam madrinhas de bateria, o samba - razão maior da festa - está cada vez mais em segundo plano.
Nesse panorama, uma agremiação tradicional como a Mangueira barra Beth Carvalho e festeja Preta Gil; celebridades globais valem mais do que gente que passa o ano ajudando a construir o carnaval - e mais: dá o seu suor para passar adiante o bastão histórico que recebeu de seus antepassados. Como diz a música do Moacyr Luz, "a tradição é lanterna / vem do ancestral, é moderna / bem mais que o modernoso". Com muitos lamentos, não me parece que assim seja nesses tempos em que "tudo que é sólido desmancha no ar" - inclusive a memória.
É nesse contexto que não há mais (e haverá cada vez menos) lugar para escolas como o Império, que se negam a se subjugar, mesmo pagando o preço do insucesso. Parabéns à Beija-Flor. Apesar da injustiça com o Salgueiro, o título ficou em boas mãos. Evidentemente, vou desfilar na minha escola novamente no ano que vem, lutando para recolocá-la no Grupo Especial, que é o seu lugar. Depois disso, no entanto, penso sinceramente em jogar a toalha e limitar minha folia aos blocos.
Reproduzo abaixo o artigo que escrevi e o jornal O Globo publicou em sua página de Opinião na última segunda. Acho que agora, ainda mais do que antes, o texto ganhou pertinência.
Serrinha dos sonhos dourados
Marcelo Moutinho*
Madureira parou naquela Quarta-Feira de Cinzas, quando uma multidão foi às ruas comemorar o título do Império Serrano ao som de “Bum Bum Paticumbum”. Corria então o ano de 1982, e eu era apenas um garoto que, começando a tatear as coisas da vida, me deslumbrava com as pessoas em festa, debruçado na varanda do sobrado da família.
Não poderia imaginar que a alegria do campeonato não se repetiria. Mais: que o samba composto por Aloísio Machado e pelo saudoso Beto Sem Braço anunciaria, de forma profética, o futuro do próprio Império. Prestes a completar 60 anos, a agremiação hoje parece relegada a segundo plano ante a espetacularização que rege as Superescolas de Samba S.A.
Sem patronos, o Império patenteou desde o berço sua principal marca: a democracia. A escola surgiu da revolta de integrantes da antiga Prazer da Serrinha frente à imposição de um samba ao escolhido pela maioria. Comandado por Sebastião de Oliveira, o Molequinho, o grupo se amotinou e decidiu fundar uma agremiação diferente, na qual não haveria ordens verticais sem debate. Essa aparente utopia ganhou corpo na casa de Dona Eulália, onde foram escolhidos o nome e as cores que pintariam o estandarte. O líder Molequinho queria tingir o Império de ouro e azul, mas, derrotado na votação que consagrou o verde-e-branco, acatou o resultado. Naquele 23 de março de 1947, a vocação libertária se confirmava.
A estréia da nova escola sinalizaria o início de uma trajetória vitoriosa. Já no ano seguinte, o Império faturou o título, o que se repetiu sucessivamente até 1951. Em seis décadas, foram nove conquistas e 10 vice-campeonatos, jóias reluzentes de uma caminhada repleta de desfiles memoráveis que, se muitas vezes não receberam o reconhecimento dos jurados, sempre tiveram a acolhida popular.
Foi o caso da homenagem a Betinho, em 1996, quando a Serrinha passou pela Sapucaí aos prantos. A falta de dinheiro se evidenciava na dimensão dos carros alegóricos e na pobreza das fantasias — e, no entanto, o Império desfilou com vigor e coragem. A beleza, ali, brotava da valentia. Não à toa: de certo modo, assim como o Betinho, éramos almas intensas num corpo frágil — e conscientes disso.
Algo semelhante aconteceu em 2004, quando a escola levantou a Avenida como há tempos não se via ao reviver “Aquarela Brasileira”. A reverência a Silas de Oliveira, compositor que, ao lado de Mano Décio da Viola, formatou o samba-enredo nos moldes clássicos, remetia ao carnaval de outrora: a essência do desfile fora o prazer de brincar, não a riqueza.
Silas, aliás, é responsável por dois outros hinos que figuram entre os mais geniais já escritos: “Heróis da Liberdade” e “Os Cinco Bailes da História do Rio”. E não foi só nisso que o Império inovou. O primeiro destaque, a comissão de frente, os pratos, o reco-reco e o agogô chegaram à Avenida através da Serrinha.
Claro que essa bonita história — contada graças aos sonhos de tantos, mas também ao trabalho admirável de Rachel Valença — tem seus momentos tristes. O maior deles quando a escola resolveu, em seu Jubileu de Ouro, vender-se por 30 dinheiros e cantar a vida de Beto Carrero. Pagou o preço do rebaixamento. São, porém, notas de rodapé que não chegam a tirar o foco da luz que guia o Império: a tradição.
E é justamente pela fidelidade à tradição que a Serrinha se distingue. Muitos defendem que a agremiação se adapte, enverede pelo espetaculoso, já que hoje uma alegoria modesta conta ainda menos do que um samba ruim, numa inversão perversa. Não! Se, com as atuais regras, a escola está fora do jogo, pior para o jogo. Nada contra organização, capricho e requinte. Mas o Império Serrano tem que continuar a ser o “Menino de 47”, de Campolino e Molequinho, a escola da “Serra dos Sonhos Dourados”, o reduto do jongo, a casa de Roberto Ribeiro, Dona Ivone Lara, Mestre Fuleiro e Wilson das Neves.
Imperiano de fé não cansa, não.
* MARCELO MOUTINHO é jornalista
Escrito por Marcelo às 15h45
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Primeiras impressões
Com todo o respeito à Viradouro (escola que trocou a identidade - se é que um dia teve - pela grife Paulo Barros: parecia uma Unidas da Tijuca com mais grana) e à Mangueira (que trocou Preta Gil pela Beth - precisa dizer mais alguma coisa?), minha torcida será pelo Salgueiro neste ano. Foi um desfile belíssimo e sobretudo digno: o melhor samba do Grupo Especial, componentes cantando a plenos pulmões, de emocionar mesmo. Além disso: trata-se de uma escola de samba, na propriedade do nome. Das poucas.
No entanto, a grande passagem pela Sapucaí em 2007 não aconteceu no Grupo Especial, mas no Acesso. O Império da Tijuca, que já tinha, de longe, o melhor samba do carnaval carioca, fez um desfile admirável. Sem o "espetaculoso" de um Paulo Barros, porém com aqueles ingredientes que costumavam ser essenciais: garra, ritmo no pé, emoção, fidelidade à tradição, essas coisas fora de moda.
Quanto ao meu Império, meu querido Império: a bateria comprovou minha teoria - está léguas à frente das demais. Mas a falta de grana pesou, e ainda tivemos que arcar com a incompetência da empresa Carvalhão, que, contratada pela Liesa, quebrou um de nossos carros, o que deve acarretar pontos perdidos em alegorias e evolução. Enfim, torceremos para não cair.
Escrito por Marcelo às 01h08
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A hora se aproxima

Bom, a hora se aproxima. Tenho que confessar, assim como fez o amigo Andreazza lá no Tribuneiros, que já estou com aquele misto de nervosismo/ansiedade/expectativa pelo desfile de domingo. Mas otimista. Apesar dos percalços de sempre - falta de grana, desprezo da Liesa e de boa parte da mídia -, assim como no ano passado o Império está mais bem organizado (sobretudo, em comparação há alguns anos). Ademais, a escola parece de fato ter se reencontrado - e a volta do jongo ao convívio na quadra foi apenas a ponta de maior visibilidade nesse (feliz) processo.
Eu e F. pegamos ontem as nossas fantasias, e estão belíssimas: dignas do Grupo Especial - e, para além disso, criativas, lúdicas, diferentes, como quer o enredo. Sobre este quesito, aliás, faço aqui o devido mea culpa: de pronto, não gostei. Achava - e, de certa forma, ainda acho - que o Império deve um tributo a Roberto Ribeiro, Dona Ivone Lara e Silas de Oliveira, e que seria adequado fazê-lo nesse aniversário de 60 anos. Ao participar, ao longo dos meses, da construção deste carnaval, pude no entanto notar o tamanho da sua relevância nos olhos de cada 'diferente' que, emocionado, cantava a plenos pulmões o samba da escola. Não sei se a concretização, na passarela, dará conta disso. Mas a esperança é verde (e branca).
No domingo, às 22h, será a hora de levar para a Sapucaí o trabalho de um ano inteiro. O trabalho do carnavalesco Jack Vasconcellos, do puxador Nego, da impressionante bateria de Mestre Átila, mas também o trabalho das senhorinhas que cozinham o feijão a cada sábado, de cada costureira, do pessoal que vende comida e bebida no entorno da Avenida Edgar Romero, dos que ajudaram a constuir os carros alegóricos, do moço que limpa o xixi que a gente despeja no banheiro por conta da cerveja. É o que deve estar na consciência dos componentes: que, ali, somos parte deste formidável todo, poderoso e ancestral, que somos a alma de tantos homens e mulheres que construíram essas seis décadas de história. Tudo isso precisa ser honrado na Avenida. Que Deus nos ajude...
"Império, quando te vejo na Avenida
Meu coração bate na vida
Como se fosse a tua batucada
Império, é tão grande tua arte
Que a noite pega o estandarte
E vem sambar na madrugada
Império, és a felicidade que caminha
Tua mulata que passa tem um porte de rainha
Teu verde e branco mostra raça
E um tamborim que é bamba
Só sei que a vida lá fora
Não tem vida,
Chora, quando longe do teu samba"
Bom carnaval para todos!
Escrito por Marcelo às 11h06
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As jóias da coroa / 1996

Em 1996, desfilei pela primeira vez no Império Serrano. Lembro-me perfeitamente: meus amigos haviam resolvido passar o carnaval na Bahia e, como nunca suportei axé music, preferi ficar sozinho no Rio. Os blocos, na época, ainda não tinham recuperado o vigor, e estava pronto para relegar minha folia ao desfile na TV, além da praia e alguns filmes. Só que a Serrinha tinha um samba daqueles que entram imediatamente para a história. E, há três dias do carnaval, decidi: "vou desfilar, não posso perder um samba desses na Avenida, se não pelo samba em si, pelo homenageado". Era Betinho, o grande Betinho, que a Verde-e-Branco iria cantar na Sapucaí. Então liguei para a quadra. Não conhecia ninguém no Império e pedi a indicação de uma ala. Fui a Madureira, peguei a fantasia e, no domingo, abarquei na concentração com o coração derretendo: sim, eu ia defender o Império na Avenida - e com aquele samba!
Depois de rodear um pouco, vi algumas pessoas com a mesma fantasia tomando cerveja numa barraquinha. Me aproximei, fiz a devida apresentação e perguntei se podia beber com eles. Eles assentiram e nos tornamos melhores amigos por pouco mais de vinte minutos, até que foi feita a chama para a formação. O Império estava pobre, bastante pobre: os carros alegóricos faziam vergonha se comparados à grandeza de outras escolas, as fantasias tinham problemas visíveis de acabamento. Mas nunca, nem no inesquecível desfile que relembrou Aquarela brasileira, senti a escola entrar tão emocionada na Sapucaí. Tenho aquele desfile gravado em VHS e me impressiono até hoje com a quantidade de componentes que atravessou a Avenida aos prantos. Foi um daqueles casos em que a comunidade de fato se identificou com o enredo e faz questão de cantá-lo a pulmões plenos. Não à toa: de certa forma, assim como o Betinho, nós éramos ali almas intensas num corpo frágil.
Apesar de todas as deficiências, ficamos em sexto, mas naquele ano a Liesa decidiu que apenas cinco sairiam no sábado das campeãs. Foi uma pena. Posto, a seguir, a letra do samba - um samba fiel à trajetória imperiana, um samba de luta e contestação. Confira fotos e um pequeno vídeo do desfile aqui.
"E verás que um filho teu não foge à luta"
Aluísio Machado, Lula, Beto Pernada, Arlindo Cruz e Índio do Império
"O povo diz amém É porque tem Um ser de luz a iluminar O moderno Dom Quixote Com mente forte vem nos guiar Um filho do verde esperança Não foge à luta, vem lutar Então verás um dia O cidadão e a real cidadania
Quero ter a minha terra, ô ô ô Meu pedacinho de chão, meu quinhão Isso nunca foi segredo Quem é pobre tá com fome Quem é rico tá com medo (bis)
Vou dizer... Quem tem muito, quer ter mais Tanto faz se estragar Joga no lixo, tem bugica p'ra catar Senhor, despertai a consciência É preciso igualdade O ser humano tem que ter dignidade Morte em vida, triste sina Pra gente chega de viver a Severina Junte um sorriso meu, um abraço teu Vamos temperar Uma porção de fé, sei que vai dar pé Não vai desandar Amasse o que é ruim, e a massa enfim Vai se libertar Sirva um prato cheio de amor Pro Brasil se alimentar
Eu me embalei p'ra te embalar No balancê, balancear Vem na folia Chegou a hora de mudar O meu Império vem cobrar democracia"
Escrito por Marcelo às 11h34
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Arremedo de escola
Volta e meia refiro-me aqui, com indisfarçável nojo, a esse arremedo de escola de samba que é a Grande Rio. Sobre o assunto, recomendo a leitura da coluna Gente Boa (O Globo) de hoje. Vocês verão que eu não exagero.
Escrito por Marcelo às 17h21
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Verde-branco-azul

Apesar da desorganização - que deixou o público do lado de fora da quadra até 0h15, quando o início da festa estava marcado para 23h -, o último ensaio do Império antes do grande dia na Sapucaí foi bastante bom. Se não teve a animação do ano passado, quando a escola contava com um samba daqueles de entrar para a história, ao menos mostrou que o hino de 2007 está na ponta da língua. Um dos destaques foi a presença do puxador Quinzinho, que comandou a Serrinha nos anos 80 e no sábado relembrou sambas como Eu quero e Cerveja, o combustível da ilusão. O ensaio contou também com a participação dos amigos da co-irmã Portela: além de vários torcedores, o mestre-sala e a porta-bandeira da azul-e-branco estiveram no ensaio e se apresentaram ao lado do casal imperiano. Ao fim, as duas duplas dançaram juntas, segurando a quatro mãos os estandartes das duas agremiações, num ato de extrema emoção para quem tem amor ou mesmo apenas simpatia pelas escolas de Madureira. Foi uma cena rara e bonita pacas, que traz a certeza de que Império e Portela sabem estar no mesmo barco, remando contra a maré das Superescolas de Samba S/A*. É assim que deve ser.
* Sobre esse assunto, o Leonardo Bruno, do blog Roda de Samba (no Globo.com), tem se manifestado com toda pertinência. Ele lamenta que Império e Portela estejam cotadas para cair. Reproduzo, a seguir, um trecho do post mais recente, cuja íntegra pode ser lida aqui.
"Sou a favor de que escolas que não apresentem bons desfiles e que façam carnavais péssimos na Avenida sejam punidas no resultado. Se forem as piores do ano, têm que ser rebaixadas, e ponto final. Nos últimos tempos, vemos escolas tradicionais desta forma: fazendo vergonha na Sapucaí, muito por culpa de administrações incompetentes. Para mim, o julgamento não deve levar em conta história, tradição, idade, nada disso. Deve retratar o que foi visto na Avenida.
O que eu discuto, e aí vem a razão do meu post, é o direcionamento deste julgamento. Me assusta ver os jurados sendo instruídos a privilegiar quem gasta mais. Me assusta ver o visual ganhar um papel preponderante em um desfile de escola de samba. Me assusta ver elementos essenciais do carnaval, como o samba e a bateria, serem relegados a planos inferiores em relação a alegorias e fantasias - não foi à toa que tiraram daqueles dois quesitos a precedência em caso de empate, o que mostra o desprestígio destes itens na atual conjuntura do carnaval.
Combato essa tendência excessivamente visual do carnaval. É hora de valorizar um pouco mais alguns elementos que estão perdendo valor. Repetindo o que disse no outro post: alegorias lindas e iluminadas, fantasias luxuosas e requintadas... tudo isso tem na parada da Disney. Mas samba no pé, jogo de cintura e canto no gogó, só aqui. Infelizmente, o julgamento não está nem aí para isso."
Escrito por Marcelo às 12h53
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Alguma coisa acontecendo

Durante muito tempo, o cinema dominou meus interesses. Nesse período, assistia a todos os filmes que pudesse, lia as análises dos principais teóricos e tentava construir uma linha de pensamento própria, que acabou se personificando em minha monografia de pós-graduação sobre a obra de Wim Wenders. Um dia acabei concluindo - com a precariedade que rege toda conclusão - que, pelo menos no âmbito da chamada Sétima Arte, raramente um crítico brasileiro daria conta tão bem de um filme de Wenders quanto um crítico alemão. Isto porque, não obstante tratar de questões que podem ser consideradas 'universais', sempre haverá algo em seus trabalhos cujos afetos atingem somente - e tão somente - àqueles que nasceram ou viveram num mesmo espaço geográfico, com as mesmas referências culturais.
Não falo aqui que é preciso ser alemão para entender um filme alemão, mas que as potências que uma obra encerra se efetivam mais plenamente quando, além da universalidade que possa comportar, há o componente da 'cor local', aquele ingrediente que passa ao largo das outras platéias. Mas para quê essas considerações com pinta de nariz de cera? Seguinte: tenho notado que tenho esticado os tentáculos de tal certeza - com a precariedade que rege toda certeza - para outras áreas da cultura. Meus interesses - seja no cinema, seja na música ou ainda na literatura - vêm cada vez mais se voltando para o que é brasileiro, ou seja, para aquelas obras que compartilham comigo singularidades que pessoas que vivem em outros cantos do planeta simplesmente não conseguem fisgar.
Sei que esse discurso pode ser confundido com xenofobia, 'meu Brasil brasileiro', etc. etc. Adianto que não é o caso: não há desqualificação quanto ao que vem de fora. Continuo a ver filmes, a ouvir músicas, a ler livros de autores estrangeiros e a gostar deles. No entanto - e não me perguntem a razão, porque não sei responder -, parece lhes sempre faltar um elemento, o plug que faça a conexão entre a minha sensibilidade e a obra. Ando pensando nisso ultimamente, sobretudo quando estou diante de um filme como O céu de Sueli, de um disco como Sem compromisso, de Moacyr Luz e Marçalzinho, de um show do Wanderlei Monteiro, de uma canção como As curvas da estrada de Santos, cantada pelo Roberto, de um ensaio do Império Serrano. É disso que eu quero falar nos meus textos, no jornalismo, na literatura e nos bares. Talvez seja coisa da idade, mas algo mudou (ou vem mudando) no meu repertório, e ainda não processei direito. Mais do que explicações, portanto, este post traz perplexidade.
Escrito por Marcelo às 10h50
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Poesia & Prosa

Dois eventos litreários vão movimentar a cidade hoje. Na Livraria da Travessa do Leblon, que fica dentro daquele shopping esquisito que abriu na Av. Afrânio de Melo Franco, os amigos Henrique Rodrigues e Bruna Beber debaterão a poesia brasileira contemporânea, ao lado de Paulo Henriques Britto e Rogério Skylab. O bate papo, com mediação do Miguel Conde, começará às 19h.

Se na Travessa a atração será a poesia, o Odeon dará vez à prosa. O evento Um certo Julio Cortázar contará com leituras de inéditos do autor portenho, em traduções do amigo Cassiano Viana (que, aliás, finaliza um biografia do argentino). Após as leituras, haverá discussão sobre os contos. As atividades começarão às 20h.
Escrito por Marcelo às 10h47
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As jóias da coroa / 1974

A escolha de hoje é uma homenagem ao imperiano de fé Carlos Andreazza, que aniversariou ontem (adivinhem se ele não comemorou em Madureira?). Titular de uma (ótima) coluna no site Tribuneiros, o Andreazza não raramente dedica sua prosa a saudar as coisas boas da nossa escola, em atitude pouco comum sobretudo a se tirar pela cobertura jornalística do carnaval, na qual só há lugar para a Mangueira (quando o objetivo é falar da 'escola do povo'*) ou para excrecências como a Grande Rio e suas assemelhadas. Foi com Dona Santa, rainha do maracatu que o Império desfilou em 1974, alcançando o 3º lugar. Escute o samba e confira imagens da época aqui. Segue a letra:
"Dona Santa, rainha do maracatu"
Wilson Diabo / Malaquias / Carlinhos
"Vejam em noite de gala As nações africanas Que o tempo não levou É maracatu Olhem quanto esplendor Na festança real Vêm as nações importantes Saudando a rainha Dona Santa Cantarolando num baque virado alucinante Ô ô ô ô ô Olha a costa velha do batuque do tambor (bis) Ô ô ô "Maracatu Elefante" chegou Perto do pálio da soberana Um festival em cores Enfeita a nação Vejam a garbosa rainha Na matriz do Rosário (bis) Depois da coroação Chegou maracatu no Império original Maracatu tradição do Carnaval (bis)
* Por acaso algum jornal se interessou em cobrir a festa de 60 anos do Império? Ou foram todos os repórteres correndo pro Canecão, babar em cima das celebridades que viram Mangueira uma vez ao ano?
Escrito por Marcelo às 10h10
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60 anos do Império


Foi muito, mas muito emocionante mesmo, a festa dos 60 anos do Império Serrano, que aconteceu ontem no Teatro Rival. Descontada a participação algo constrangedora do grande Jorge Goulart (não precisavam deixá-lo cantando em playback por tanto tempo), o show foi absolutamente preciso, assim como o interessante vídeo sobre a escola que o precedeu, produzido pela incansável Rachel Valença. Não vou entrar nos detalhes do espetáculo porque na quarta que vem tem mais e não quero estragar a fruição de quem for. Estarei (novamente) lá e a dica é: não percam desta vez!
Fotos: 1. O Jongo da Serrinha; 2. Jorginho do Império; 3. Aluísio Machado, à frente da Velha Guarda; 4. Mestre Sala e Porta Bandeira.
Escrito por Marcelo às 13h38
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Wanderlei Monteiro

Na sexta passada, fui no Céu Aberto (uma casa linda na Rua do Lavradio*) conferir o show que o Wanderlei Monteiro está fazendo por lá semanalmente. Já havia visto ele cantar aqui e ali, mas sempre em participações especiais nas apresentações alheias. A experiência de assistir a um espetáculo solo, no entanto, foi diferente. E fiquei muito bem impressionado. Além de compositor de mão cheia - o que sambas como Água de chuva no mar e Somos nós já comprovaram -, Wanderlei canta o fino e consegue (atributo raro) encher de alma cada verso. Coisa de quem tem mesmo o samba nas veias.
Naquele dia, ele prestou tributo ao grande Zé Luiz do Império, que teve a oportunidade de mostrar canções próprias, como Malandros maneiros (que particulamente adoro). Quando falou sobre a escola que nós dois aprendemos a amar, o Zé fez questão de (generosamente) citar meu nome. Fiquei emocionado como poucas vezes na vida. Às vezes são coisas aparentemente pequenas assim que nos tocam, não?
* De nada adianta uma casa ser linda que não tem um bom garçom. Não é o caso do Céu Aberto. Muito solícito e simpático, o rapaz que me atendeu mostrou que entende do riscado: quando informei que não gosto de beber em tulipas ou copos grandes, ele falou apenas: "deixa comigo". Seguiu, então, para o bar, voltando com um legítimo 'lagoinha' (aquele copo pequeno de café que não deixa a cerveja esquentar). Garçom à moda antiga é outro papo.
Escrito por Marcelo às 17h23
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As jóias da coroa / 1977

Foi o compositor Jorge Lucas quem levou Roberto Ribeiro para o Império Serrano, no final da década de 60. Em 1971, o cantor se tornaria puxador oficial da escola e, seis anos depois, venceria com o mesmo Lucas seu primeiro concurso de samba-enredo. O hino era Brasil, berço dos imigrantes, que levou a Serrinha ao 6º lugar. A dupla Roberto Ribeiro/Jorge Lucas (acrescida de Jorge Paiva) ganharia novamente em 1979, com Municipal, 70 anos de glórias. Segue a letra do samba de 1977. Confira fotos e trechos do desfile aqui.
"Brasil, berço dos imigrantes"
Roberto Ribeiro e Jorge Lucas
"É tempo de Carnaval Hoje as cores do Império Vem saudar a imigração Numa dourada alegria Neste dia de folia O samba é anfitrião Desta gente que ao chegar Semeou nesta terra Seu folclore popular Brasil, berço dos imigrantes Sua raça é mistura Sem cessar O povo com seu sorriso Vem pra avenida festejar Violas de pássaros Clarins de vento (bis) O Arlequim Entoando um canto lento Num céu de serpentinas Um Pierrô vai desfilar O dominó ganhou confete E ao imigrante foi saudar Olha o passo da mulata Esplendor da Colombina Canta e samba minha gente Nesta festa que domina (bis) Lá, lá, laiá Lá, laiá, laiá Lá, laiá, lá, laia (bis)"
Escrito por Marcelo às 12h43
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Carnaval: o central e o periférico

Há muitos anos não vejo uma cobertura tão bizarra sobre o carnaval quanto a que o jornal O Globo vem fazendo este ano. Mesmo a coluna do Cesar Tartaglia (que costuma ser ótima) anda esquisita, privilegiando aquilo que deveria ser periférico, mas virou central na festa: a estética dos corpos. A edição de domingo foi estarrecedora. Duas matérias ocuparam a pauta sobre o tema: na primeira delas, com o título Na avenida, os músculos e a sensualidade masculina, a repórter Ana Cláudia Costa falava sobre a "presença crescente" de homens de porte atlético nas escolas de samba. A segunda, assinada por Leticia Helena e Paula Autran, dava dicas de "artifícios" para esconder as "imperfeições" corpóreas durante a passagem na Sapucaí.
Em comum, portanto, o foco no corpo. Não o corpo que se movimenta e dança o samba, que saltita no ritmo da percussão, mas o corpo-objeto, o corpo-fetiche, que parece importar tanto a ponto de esfumaçar os quesitos que de fato são a alma do carnaval: os sambas-enredo, os personagens verdadeiramente significativos de cada agremiação, as baterias, as comunidades que trabalham em seu entorno, o folião de rua, a história que se contrói durante o ano e os anos todos. Depois não entendem por que Preta Gil se torna madrinha da bateria da Mangueira, ou por que uma excrescência como a Grande Rio vira escola respeitada, enquanto um Império Serrano, uma Estácio, instituições que se mantém fiéis à sua trajetória, passam a segundo plano. Sim, os jornais também colaboram para isso.
P.S. Um antídoto contra essa visão canhestra e viciada do carnaval será oferecido amanhã: o Teatro Rival vai sediar a festa de 60 anos do Império Serrano, num evento que contará com a participação do pessoal do Jongo da Serrinha, da Velha Guarda, de antigos cantores da escola, como Jorge Goulart e Jorginho do Império, do puxador Nego e da bateria nota 10. O show começa às 19h30, e os ingressos custam R$ 20.
Escrito por Marcelo às 16h10
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São Paulo S/A

São paulo S/A, um dos filmes brasileiros mais interessantes dos anos 60, será exibido hoje, às 20h, no Unibanco Arteplex. Marcando o lançamento do trabalho de Luiz Sergio Person em DVD, a projeção terá entrada gratuita e se seguirá de debate (mediado por Pedro Butcher) que reunirá o crítico Ismail Xavier, os cineastas Walter Salles e Sergio machado, e a documentarista Marina Person, diretora do ainda inédito Person. As senhas poderão ser retiradas a partir das 19h.
A história de São Paulo S/A se passa no centro da euforia desenvolvimentista da instalação da indústria automobilística no Brasil. A trama centra-se no personagem Carlos (Walmor Chagas), que ingressa numa empresa e rapidamente é alçado a gerente de auto-peças. A "bem-sucedida" carreira inclui um casamento e muita insatisfação com o vazio que cotidinamente ganha espaço em seu interior. No elenco do filme, estão também Eva Wilma e Darlene Glória.
Escrito por Marcelo às 16h09
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O volume do silêncio

No sábado passado, o suplemento Prosa & Verso (O Globo) publicou resenha minha sobre o livro O volume do silêncio, de João Anzanello Carrascoza. Segue o texto na íntegra:
Carrascoza vê imensidão nas miudezas
Marcelo Moutinho*
Não nasce da falta – caso de Fabiano, em "Vidas secas" -, tampouco da recusa à palavra – como Mersault, em "O estrangeiro" -, o silêncio a que João Anzanello Carrascoza faz alusão logo no título de seu novo livro. Os contos que integram o volume lançado pela Cosac Naify abrem uma terceira possibilidade, propondo um contraponto à algaravia do mundo em histórias sussurradas, cerzidas em fiapos de enredos que tratam de situações aparentemente banais: uma viagem de negócios do pai em companhia de seu filho, o encontro entre dois casais amigos, a visita de um irmão depois de muitos anos.
"O volume do silêncio" reúne narrativas publicadas originalmente em antologias e nos livros "Hotel Solidão" (1994), "O vaso azul" (1998), "Duas tardes" (2002), "Meu amigo João" (2003) e "Dias raros" (2004), além de um texto inédito. A seleção, feita por Nelson de Oliveira, permite um interessante vôo sobre a trajetória do autor, evidenciando o processo de depuração estilística a que se submeteu, ainda que de modo inconsciente.
É o próprio Nelson quem afirma, no posfácio, que "a linha que separa o sublime do kitsch é invisível e se move o tempo todo". Nos contos mais remotos, Carrascoza claramente ultrapassa tal linha. Isso acontece, por exemplo, em "Caçador de vidro" e "O vaso azul", nos quais os comentários do narrador soam excessivos e parecem querer reiterar aquilo que já foi insinuado. À medida que o leitor avança nas páginas do livro, contudo, pode notar com nitidez a evolução do domínio do autor sobre a própria escritura. Fiel a seus temas mais caros – as minúcias da vida cotidiana, a infância, a dor e as delícias do amadurecimento -, o texto de Carrascoza ganha em sobriedade e precisão: as metáforas tornam-se mais nuançadas, o volume do silêncio aumenta.
Então nos deparamos com pequenas preciosidades como "O menino e o pião", relato da espera de um garoto por seu pai, que culmina com a cena do velho a observá-lo, do corredor às escuras, enquanto brinca, sozinho. "O menino não cogita que um dia esse cordel se partirá. E, sem ele, o pião jamais será o que foi, como a roseira não é mais a semente que a gerou, nem o sol, a poeira que se aglutinou para formá-lo, círculo de luz, esplendor", anota o narrador, reproduzindo a espécie de elegia que o pai experimenta ali.
Essa conexão entre imagens externas e sentimentos interiores, marca do trabalho de Carrascoza, repete-se em "Chamada", diálogo salpicado de não-ditos entre a mãe doente e a filha que vai para a escola. A mãe, com "os olhos inchados de insônia, nos quais ainda se podia apanhar a noite, como uma moeda no fundo do bolso"; a filha, sentindo o peso de deixá-la ao informar que seguirá para a aula: "A mulher escutou como se a filha nada tivesse dito senão Vou para a escola, mamãe, e ignorasse que existiam outras palavras, agarradas aos pés dessas, esguichando silêncio".
Embora raramente invista-se na primeira pessoa, o narrador de Carrascoza parece ganhar os olhos dos personagens, tal a sua proximidade. É o que ocorre quando expõe as dúvidas do garoto que, em "Dias raros", retorna das férias na casa da avó. Ele sofrera com a obrigação de ir, mas se dilacera ainda mais ao ter de voltar, sem compreender como duas vontades tão díspares puderam brotar em tão breve intervalo: "Sempre uma ida às coisas e sua seqüente despedida. Na mesma hora que ganhava a vivência, nele ela se perdia. Sorte que vinha outra, a cicatrizar a alegria ou a abrir nova ferida, também logo substituída. E as pessoas nesse renovar-se, envelhecendo (...) com suas raízes sujas de terra, cavoucando seus mistérios, bem-querendo-se (...). E todas, todas, o tempo inteiro, indo embora".
São assim, plenos de alma num tempo de estridências ocas, os personagens de Carrascoza. Enxergam a poesia possível nos pequenos acontecimentos; buscam, como queria Calvino, o que não é inferno no meio do inferno. Ainda que essa exceção responda pela simples imagem da mata, que arrebata o menino de "Travessia". "A terra, seca ou gelada pela chuva, não dizia para ele senão terra; a árvore, pousasse ou não nela um pássaro, não dizia senão árvore; (...) as coisas anunciavam o que eram, e no entanto ele já sabia que, além de terra, árvore, folha, elas diziam somos o que somos". Num movimento análogo à literatura de Carrascoza, o garoto via "imensidão naquelas miudezas".
* Escritor e jornalista
Escrito por Marcelo às 10h36
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As jóias da coroa / 1983

No carnaval de 1983, era grande a expectativa com o desfile do Império. Campeã do ano anterior, a escola despontava como favorita ao título, repetindo, em seu samba-enredo, a dupla de compositores vitoriosa: Beto Sem Braço e Aluísio Machado. Numa das grandes injustiças da história, a Verde e Branco de Madureira fez um desfile espetacular, ao amanhecer do dia, mas acabou tendo que se contentar com o terceiro lugar (sim, naquela época nenhuma agremiação podia se dizer vencedora antes de o Império Serrano passar). No entanto, o samba daquele ano, que na lista particular e subjetiva deste que vos escreve fica entre os cinco de maior predileção, me marcou para sempre. Até hoje me emociono quando escuto os primeiros versos de Mãe baiana mãe serem cantados na quadra. Salve o saudoso Beto Sem Braço! E salve Aluísio Machado, lenda felizmente viva da Serrinha!
Confira pequenos trechos do desfile e ouça o samba, cuja letra posto abaixo, aqui.
"Mãe baiana mãe"
Beto Sem Braço / Aluísio Machado
"Abre as portas, oh folia Venho dar vazão à minha euforia A musa se vestiu de verde e branco E o pranto se fez canto Na razão do dia-a-dia Mãe, baiana mãe Empresta o teu calor Eu quero amanhecer no teu colo Onde deito, durmo e rolo E isolo a minha dor Eu quero, quero te saudar nesta avenida Pra valorizar a vida Que a vida valorizou
Mãe negra, sou a tua descendência Sinto tua influência No meu sangue e na cor Iê, abará, acarajé Capoeira, filho da mãe Pregoeiro, homem da mulher
Okolofé mamãe Kolofé-lorum Aieieu, aieieu mamãe oxum (bis)
Baiana, baianinha boa Teu requebro me enfeitiçou Enfeitiçado, sambando eu vou Baiana mãe Baiana É belo o teu pedestal Eu te adoro e adorando imploro Teu carinho maternal
Tia Ciata, mãe amor O teu seio o samba alimentou
E a baiana se glorificou (bis)"
Escrito por Marcelo às 14h52
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Roberto Ribeiro

O amigo Paulo Roberto acertou na mosca em seu artigo de hoje no site No Mínimo. Dedicado a Roberto Ribeiro - um dos nossos maiores cantores de samba (se não, o maior) -, o texto lamenta o ocaso a que o artista foi relegado depois de sua morte. Assim como o Paulo, comprei vários CDs 'alternativos' que reproduzem os discos antigos do imperiano na banca do Carlinhos, ali na Rua Pedro Lessa. É a forma possível de ouvirmos precisosidades (tanto de interpretação, quanto de repertório) que as gravadoras não se interessaram em transformar em versão digital. Segue a íntegra da coluna do Paulo:
"Onde está Roberto Ribeiro?"
Paulo Roberto Pires
"A posteridade não foi nada generosa com Roberto Ribeiro. Vá a uma loja e tente encontrar um CD deste excepcional cantor de samba: estão lá uma ou duas coletâneas e pronto. Com exceção de um disco gravado com Simone no início dos anos 1970 (e pouco relevante em sua obra), nehum, nenhumzinho dos 14 discos que gravou está disponível.
Então vamos combinar que toda a vida de Dermeval Miranda Maciel, esse era o seu nome na identidade, ficou resumida ao cantor de “Todo menino é um rei”? Nada contra o belíssimo samba de Zé Luiz, mas Roberto Ribeiro foi muito mais.
E isso tudo vem ao post porque, apelando para cópias “alternativas” vendidas por um dos sujeitos que mais colabora para manter discos raros disponíveis, caiu em minhas mãos três maravilhas: “Arrasta povo”(1976), “Roberto Ribeiro” (1978) e “Corrente de aço” (1985) - os dois primeiros numa edição daquelas 2 em 1.
Em arranjos, repertório e estilo são eles, sem exagero, pequenas obras-primas de samba. Da interpretação antológica de “Meu drama” a maravilhas como “Malandros maneiros”, estes discos são um banho de bom gosto que inclui ainda “a” versão de uma das melhores composições de Nei Lopes, o “Samba do Irajá” (”Trago impressa no meu rosto/ e no peito ao lado oposto do direito/ uma saudade”).
Todos sabemos da dificuldades de vender disco, do público restrito, etc. Mas é impossível que, quando o samba finalmente saiu da choradeira de renegado e está “na moda”, não haja lugar para um artista deste tamanho. Que morreu cego, meio esquecidão, aos 55 anos, em 1996.
Bem que 2007, que pinta com eflúvios altamente favoráveis para a Império Serrano do cantor, poderia lembrar a quem gosta de RR foi muito mais do que uma bela música que o marcou."
P.S. No ano passado, chegou a loja este disco aí de cima, que reúne duetos dos quais Roberto Ribeiro foi parte. O CD é excelente. Mas ouvi-lo é uma dificuldade, porque instalaram um sistema de proteção 'anti-pirataria' que impede que, mesmo sendo original, o disco rode em alguns aparelhos de som...
Escrito por Marcelo às 12h42
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Você é tão bonito

Poucos filmes merecem tanto o adjetivo "adorável" quanto o francês Você é tão bonito, que passou discretamente pelos cinemas cariocas e está para sair de cartaz. Estrelado por Michel Blanc e Meddea Marinescu, o trabalho da diretora Isabele Mergault narra com delicadeza e humor a história de Aymé, fazendeiro viúvo que vai à Romênia atrás de uma mulher que substitua a esposa falecida nas tarefas cotidianas (refiro-me às atividades domésticas, não ao sexo). Se o enredo não prima pela originalidade, o modo preciso com que a diretora conduz a trama arrebata e emociona, fatos cada vez mas raros quando se trata da Sétima Arte.
Escrito por Marcelo às 17h22
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Bruna B.

"Lusofeelings"
"quando formiga e arde o nariz e o olho engulo
choro com saliva ou qualquer coisa que comprometa a fala
a despedida é tão intrigante quanto a saudade desnecessária ou quanto a rima desnecessária
banho de água fria se cura com um balde de café
beijo a mão e aceno para o espelho o dedo do meio"
Escrito por Marcelo às 11h36
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Ana C.
"Aventura na Casa Atarracada"
"Movido contraditoriamente por desejo e ironia não disse mas soltou, numa noite fria, aparentemente desalmado; - Te pego lá na esquina, na palpitação da jugular, com soro de verdade e meia, bem na veia, e cimento armado para o primeiro a andar.
Ao que ela teria contestado, não, desconversado, na beira do andaime ainda a descoberto: - Eu também, preciso de alguém que só me ame. Pura preguiça, não se movia nem um passo. Bem se sabe que ali ela não presta. E ficaram assim, por mais de hora, a tomar chá, quase na borda, olhos nos olhos, e quase testa a testa".
Escrito por Marcelo às 11h21
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