Ouvidor

 

"A rua tem ainda um valor de sangue e de sofrimento: criou um símbolo universal. Há ainda uma rua, construída na imaginação e na dor, rua abjeta e má, detestável e detestada, cuja travessia se faz contra a nossa vontade, cujo trânsito é um doloroso arrastar pelo enxurro de uma cidade e de um povo. Todos acotovelam-se e vociferam aí, todos, vindos da Rua da Alegria ou da Rua da Paz, atravessando as betesgas do Saco do Alferes ou descendo de automóvel dos bairros civilizados, encontram-se aí e aí se arrastam, em lamentações, em soluços, em ódio à vida e ao Mundo. No traçado das cidades ela não se ostenta com as suas imprecações e os seus rancores. É uma rua esconsa e negra, perdida na treva, com palácios de dor e choupanas de pranto, cuja existência se conhece não por um letreiro à esquina, mas por uma vaga apreensão, um irredutível sentimento de angústia, cuja travessia não se pode jamais evitar."

João do Rio


P.S. Fiz as fotos acima no crepúsculo do Dia de São Sebastião - sábado em que, num pequeno trecho da Rua do Ouvidor, vicejou a alma de toda uma cidade. Obrigado a Rodrigo e Dani (da Livaria Folha Seca), que permitiram a mim e a um bando de gente bacana estar lá para ver (e viver) aquela tarde/noite de um Rio que não desiste.



 Escrito por Marcelo às 11h53
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Ô Copacabana

  

  

Estes são alguns registros do sábado, quando, estimulados pelo pessoal da Bagatelas, participamos de evento lembrando os 70 anos que João Antônio faria na data, caso estivesse vivo. O périplo começou no Bar Cevada, -plantado na Praça Serzedelo Correa, onde o autor morava - e terminou (ao menos para mim e para F.) no Bip Bip, com samba e (mais) cerveja. 

Fotos: 1. Eu e o grande (em todos os sentidos) Wilson Flora, o Baiano, a quem encontrei por lá na companhia luxuosa de Luiz Carlos da Vila e Chico Paula Freitas; 2. Seu Walter Alfaiate, que apareceu na área, mas não lembrava por nada de quem fora João Antônio; 3. F., dentro do Bar Cevada; 4. Marcelino, com o mapa astral de João Antônio, que foi levado por Dona Jacy, amiga do homenageado. Ela levou também o famoso cuscuz paulista, de que ele tanta gostava, para o povo experimentar, além de cartas trocadas com João; 4. Dona Jacy, à beira dos 70, dá entrevista, na qual deixa bem claro: "Ele (João Antônio) comia lá em casa, mas não me comia lá em casa"; 5. A esticada ao Bip, onde nos supreendemos com uma roda de samba (em geral, não há roda aos sábados) comandada pelo querido Luís Pimentel. Raphael Vidal, big boss da Bagatelas e principal organizador do tributo a João, assumiu o tantã e não fez feio...

P.S. O mais impressionante: depois de uma tarde/noite como essa, encarar uma feijoada na casa do Loredano. Mas estamos aí...



 Escrito por Marcelo às 10h48
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No Diário de Cuiabá

Na edição de hoje, o Diário de Cuiabá publica resenha generosa, assinada pelo gente boníssima André de Leones, sobre meu novo livro. Segue o texto na íntegra:

"Todos iguais em meio ao caos"

Os contos de Marcelo Moutinho são como um antídoto literário eficiente contra o cinismo e a brutalidade

André de Leones*
Especial para o Diário de Cuiabá

"O carioca Marcelo Moutinho, um sujeito discreto, afável e educado, parece ter transposto estas e outras características para a sua literatura. A forma como desenvolve os contos de seu segundo livro (fora participações em antologias), Somos todos iguais nesta noite (ed. Rocco), funciona magnificamente como uma espécie de antídoto contra a brutalidade, a gratuidade e a banalização da vida, da morte e da violência. Moutinho redescobre e explicita a plenitude dos mínimos gestos de seus personagens, contruindo-os e inventando-os a partir daí, desses pequenos nadas que, a rigor, compõem o grosso da vida, do dia-a-dia.

Em meio à situação do mundo em geral e do Rio de Janeiro em particular, de caos e extrema instabilidade, um autor que resolva se voltar para os citados “pequenos nadas” da existência é alguém, sim, ousado e corajoso, mesmo arrojado. Não é que Moutinho vire as costas para toda a desgraça social, moral e política que nos circunda ou nos sufoca. O que ele faz é optar por uma outra via de expressão, avessa a didatismos e demagogias, abraçando as mínimas coisas do cotidiano e reinaugurando, assim, de uma maneira nada óbvia e nunca melosa, alguma possibilidade de esperança – mesmo que forçosamente dolorosa.

Há dor nos contos de Somos todos iguais nesta noite. Há solidão neles, e algum desespero. Mas há uma solidariedade possível, palpável. Há um ideal de união, a possibilidade de comungarmos cada qual com a nossa própria solidão, com a nossa própria dor, mas reconhecendo a dor e a solidão do outro também como legítima, similar à nossa. Todos iguais nesta noite, na vida, em meio ao caos.

Tome-se como exemplo o belíssimo trecho final do conto que dá título ao livro:

“Mal sabíamos que ali, ao dobrar a esquina, meio curvado e já bastante molhado, vencendo cada metro do asfalto com dificuldade e frio, o Rapaz carregava a dor da Gorda de ser gorda, a dor dos jornais e das revistas de Arlindo, a dor discreta de Rodolfo, e também as minhas dores, as mais espessas e permanentes. O Rapaz carregava a dor daqueles que dormiam nos apartamentos da Marquês de Abrantes, dos mendigos sobre as marquises, dos porteiros dos prédios, de suas esposas, de seus filhos. Carregava a dor dos que beberam oito ou dez chopes, dos que beberam apenas dois, a dor dos que não bebem. A caminho de casa, ensimesmado, ante o ruído dos grossos pingos da chuva sobre as poças e do vento que fazia mexer levemente as folhas dos canteiros, o Rapaz carregava a dor de cada criança, de cada mulher, o Rapaz carregava a dor de cada homem dessa cidade (página 124).”

A aparente simplicidade do texto potencializa o seu impacto emocional e empresta a ele uma sobriedade comparável à dos contos do norte-americano Raymond Carver, cujo trabalho inspirou o celebrado filme Short Cuts – Cenas da Vida (1993), de Robert Altman. Embora Moutinho afirme não ter ainda lido Carver, há afinidades gritantes entre os estilos dos dois autores. Em ambos, coisas aparentemente ínfimas servem como matéria-prima. No conto que abre o livro de Moutinho, Passeio em família, essa capacidade de, por assim dizer, “desbanalizar o banal” já aparece: o narrador nos conta um passeio no carro novo do pai, no qual um incidente quase bobo ganha dimensões dolorosamente gigantescas. Tanto quanto a violência, o lirismo de Moutinho é comedido, e é isso que impede o livro de resvalar no melodrama rasteiro, no sentimentalismo torpe.

Há algumas semanas, rascunhei algumas palavras a respeito dele no meu blog, Canis sapiens. Creio ter sido feliz ali ao me colocar muito, mas muito menor do que os contos que integram o livro, abraçando, por alguns instantes, as imagens que resplandecem nas páginas de Somos todos iguais nesta noite. A humildade intrínseca aos contos de Marcelo Moutinho é contagiosa. Logo, termino transcrevendo as minhas cruas, mas sinceras e firmes, impressões de então:

Não que Raymond Carver precise disso (está muito bom do jeito que está), mas o lance é que se ele, Carver, tivesse um lirismo assim escorrendo de cada linha, bem, Raymond Carver se chamaria Marcelo Moutinho. Não que o Marcelo precise de uma comparação dessas também, mas foi a primeira coisa que me ocorreu quando li o primeiro conto desse livro. Assim como o pai do referido conto, o livro de Moutinho parece despontar no jardim de banho tomado, tênis, bermuda, camisa sem mangas e Hollywood na mão. Ele parece não querer nada do leitor, e no entanto entrega tudo feito um fantasma bacana. A cada conto, como quem cultiva o anverso (que é sempre mais bonito), leva as nossas lágrimas de volta pros olhos. São contos às vezes insuportavelmente brancos que nos fazem contemplar o chão com toda a saudade de nem sei o quê. O lirismo de Marcelo é lindamente comedido, como se nenhum de nós, jamais, precisasse morrer de câncer ou de solidão."

* André de Leones é escritor, vencedor do Prêmio SESC de Literatura 2005 e colabora com o Caderno Ilustrado.



 Escrito por Marcelo às 13h50
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As jóias da coroa / 1971

O Pentimento inicia hoje esta série, que apresentará alguns dos grandes sambas-de-enredo da agremiação que historicamente melhor contribuiu nesse quesito: o querido, incompreendido e singular Império Serrano. A idéia é postar as letras, com alguns comentários, e fazer o link com o arquivo do site oficial da escola. No site, além de ouvir a melodia, em alguns casos é possível vermos cenas (raríssimas, diga-se) e fotos de antigos desfiles.

Iniciando a série, lembro o belo Nordeste, seu povo, seu canto, sua glória, samba de 1971, composto por Heitor Achiles, Maneco e Wilson Diabo para enredo que a Mangueira viria a copiar mais de três décadas depois. Conheci esse samba na regravação iluminada de Roberto Ribeiro, que pontua os versos do refrão ("Cantador colhe e semaia / suplicando pra chover") como se fossem, de fato, uma prece. Segue a letra. Para ouvir a gravação original, tecle aqui.

"Nordeste, seu povo, seu canto, sua glória"

Heitor Achiles, Maneco e Wilson Diabo

"Nordeste, o canto de tua gente
No Império está presente
Para se comunicar
No fandango irradias alegria,
Lendas, rezas, fantasias
Tudo isso faz lembrar
Dona Santa desfilou desde menina
O pierrô e a colombina
São eternos foliões
Pastorinhas, cirandeiras na cidade
Sai o bloco da saudade
Entram em cena os cordões
Eia, eia, eia, boiada
Eia, eia, o vaqueiro canta assim
Plantador colhe e semeia
Suplicando pra chover
Arrastão feliz na areia
As rendeiras a tecer
Olê olá olê olê
Quando a lua se alteia
Cantador canta vitória
Viola afinada ponteia
O canto de um povo em glória"



 Escrito por Marcelo às 12h56
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70 anos de João Antônio

Os camaradas lá da revista Bagatelas não páram: no próximo sábado, eles promoverão tributo ao grande João Antônio, o escritor dos 'merdunchos', que faria 70 anos (se vivo estivesse) na data. O evento vai rolar a partir das 14h, no bar Cevada, que fica na Praça Serzedelo Correia, onde o autor de Ô, Copacabana morou durante muito tempo. A idéia é celebrar o aniversário com três das coisas que João mais prezava: samba, cerveja e literatura. Haverá um bate-papo sobre o homenageado, com a participação da produtora Karina Francis - diretora de A jogo ou a passeio? (vídeo-reportagem sobre o mundo da sinuca, tão freqüentado pelo bacanudo) -, dos amigos Marcelino Freire e João Paulo Cuenca, e de Jacy de Castro, amiga do escritor. O samba ficará por conta do projeto cultural Nó de Gravata, que tocará músicas de Nelson Cavaquinho, Noel Rosa e Cartola, sambistas que João saudou em seus textos. E a cerveja... bem, a cerveja ficará por conta de cada um. Estarei lá! 



 Escrito por Marcelo às 10h10
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Uma escola de samba

Clique na imagem acima para ver uma pequena amostra da razão pela qual a bateria imperial anda sobrando na turma... 



 Escrito por Marcelo às 11h50
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Os Melhores Filmes de 2006, no CCBB

A partir de amanhã (terça), o CCBB promove pela terceira vez a Mostra Melhores do Ano – ACCRJ, com a exibição dos dez filmes eleitos os melhores de 2006 pela Associação de Críticos de Cinema do Rio de Janeiro, seguidos de debates com críticos e convidados. Confira abaixo a programação completa do evento, produzido em parceria por mim e pelo Marcelo Janot:

PRIMEIRA SEMANA

TERÇA, 23 DE JANEIRO
17h: “Os Infiltrados”, de Martin Scorsese
Após a sessão, debate com os críticos João Marcelo F. de Mattos, Rodrigo Fonseca e Marcelo Janot (mediador).
Convidado: José Joffily (cineasta)

QUARTA, 24 DE JANEIRO
16h: “Árido Movie”, de Lírio Ferreira
18h: “O Céu de Suely”, de Karim Aïnouz
Após a última sessão, debate com os críticos Daniel Schenker Wajnberg, Gilberto Silva Jr. e Marcelo Moutinho (mediador)
Convidado: Karim Aïnouz (diretor de “O Céu de Suely”)

QUINTA, 25 DE JANEIRO
16h: “Ponto Final – Match Point”, de Woody Allen
18h: “Boa Noite e Boa Sorte” , de George Clooney
Após a última sessão, debate com os críticos Nelson Hoineff, Ricardo Largman e Marcelo Moutinho (mediador)
Convidado: Cid Benjamin (jornalista político)

SEXTA, 26 DE JANEIRO
16h: “Pequena Miss Sunshine”, de Jonathan Dayton e Valerie Faris
18h: “O Novo Mundo”, de Terrence Malick

SÁBADO, 27 DE JANEIRO
19h:“O Homem Urso”, de Werner Herzog

DOMINGO, 28 DE JANEIRO
16h: “Volver”, de Pedro Almodóvar
18h: “2046 – Segredos do Amor” , de Wong Kar-Wai


SEGUNDA SEMANA

TERÇA, 30 DE JANEIRO
16h: “Volver”, de Pedro Almodóvar
18h: “2046 – Segredos do Amor” , de Wong Kar-Wai
Após a última sessão, debate com os críticos Maria Silvia Camargo, Pedro Butcher e Marcelo Moutinho (mediador)
Convidado: João Paulo Cuenca (escritor)

QUARTA, 31 DE JANEIRO
16h: “Pequena Miss Sunshine”, de Jonathan Dayton e Valerie Faris
18h: “O Novo Mundo”, de Terrence Malick
Após a última sessão, debate com os críticos Leonardo Luiz Ferreira, Mario Abbade e Marcelo Janot (mediador)
Convidado: Sônia Torres (professora de literatura norte-americana da UFF)

QUINTA, 1 DE FEVEREIRO
16h e 18h: “O Homem Urso”, de Werner Herzog
Após a última sessão, debate com os críticos Carlos Alberto Mattos, Luiz Fernando Gallego e Marcelo Janot (mediador)
Convidado: Marci Dória Passos (psicanalista e professora da UFRJ)

SEXTA, 2 DE FEVEREIRO
16h: “O Céu de Suely”, de Karim Aïnouz
18h: “Árido Movie”, de Lírio Ferreira

SÁBADO, 3 DE FEVEREIRO
19h: “Os Infiltrados”, de Martin Scorsese

DOMINGO, 4 DE FEVEREIRO
16h: “Boa Noite e Boa Sorte”, de George Clooney
18h: “Ponto Final – Match Point” , de Woody Allen



 Escrito por Marcelo às 22h02
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No 'Estadão' e outras notas

O suplemento Cultura, do Estado de S. Paulo, publicou ontem resenha sobre meu novo livro. O texto, que se segue, é assinado pelo poeta Fabrício Carpinejar...

"Um Rio de Janeiro abençoado por Deus"

'Marcelo Moutinho retrata a capital carioca com leveza e otimismo'

Fabrício Carpinejar

"O que se espera da literatura urbana do Rio de Janeiro: guerra do tráfico, ônibus queimados, medo de assalto, mortes estúpidas? Não é o caso de Marcelo Moutinho, que publica Somos Todos Iguais Nesta Noite (Rocco, 124 págs., R$ 19), reunião de contos singelos, líricos e que em nenhum momento tematizam a violência.

Essa é a primeira coragem do autor de 34 anos, que tem na sua bagagem ainda Memória dos Barcos (7 Letras, 2001). Ele não imita a vida, não usa a literatura como uma forma mimética de produzir desconforto e aumentar o desespero, escapou da cilada das gerações contemporâneas de escandalizar pelo sangue e ser mais real do que o rei.

Não é o Rio de Rubem Fonseca, portanto trash e incontrolável. Nem do Nelson Rodrigues, com as traições à flor da pele. É um Rio possível, um Rio abençoado por enganos e amizades, dos almoços no meio da tarde na casa dos parentes, dos namoros à beira-mar. O Rio da bossa, de Braguinha, de Orfeu da Conceição. Com insegurança, sim, mas também com o devaneio amoroso do mar.

Marcelo Moutinho está longe de ser rotulado de alienado. É um impressionista, como João Carrascoza (O Volume do Silêncio) e Adriana Lisboa (Caligrafias). Um flautista dos fios telefônicos. Pinta as cenas pelo impacto emocional mais do que pela sucessão cronológica e pela ordem tátil das lembranças. Um tapa dado por erro pelo pai na coxa do filho, justamente no dia da estréia do carro novo em um passeio, continua a arder na maturidade, apesar do pedido de desculpa. É uma bofetada comum, leve e relapsa, em que o pai se confunde e pensa que seu filho bateu na irmã. Mas é um ruído na canção favorita e serve como bússola da eterna incompletude do rapaz.

Moutinho inverte as expectativas. Na verdade, ele converte a falta de expectativa em derradeira expectativa. Não há sequer um solavanco, soco, choque no fim do túnel. Há desencanto e amadurecimento em cada desenlace. Uma menina espera a visita de um cantor romântico todo o dia diante da televisão, insuflada pela mãe, que garante que ele vem, e ele não aparece mesmo. Um travesti, Teresa, precisa conseguir cinco clientes para garantir o pagamento das contas. Surge o primeiro, o segundo, o terceiro, já estamos aguardando um desfecho trágico, o quarto, sempre com as minúcias de uma descrição lenta, até que prorrompe o quinto e o trabalho termina, e nada acontece. Ela volta para casa com uma rosa escorregadia do banco de trás do Honda Civic do último programa. Quer mais anticlímax? É justamente a normalidade que deslumbra em Moutinho, a vida que continua sem estrondo. Como um suspiro. Entra-se nos personagens nunca pelo resultado de um obituário, porém para compreender a sensação interminável de sua rotina.

São 20 contos divididos em duas seções, Iguais e Noites, permeados por textos aforísticos, que acentuam o caráter iluminista do volume. 'Pescar nada tem a ver com pegar peixes' ou 'Às vezes, a solidão é a cafeteira vazia' ou 'Ignoravam que chorar é um fato, não uma opção'.

Apesar de achados, o único incômodo do conjunto reside nesses respingos de sabedoria em breves pausas, que escancaram o que está implícito nos contos. Não que seja ruim, destoa. A série de reflexões expõe abruptamente as vísceras da linguagem, uma poesia moral, quando a delicadeza do livro estava em não ensinar, mas mostrar e acompanhar com compaixão a evolução das figuras. A autêntica sabedoria encontra-se nas falas dos personagens, no jeito peculiar de lidar com os atrasos e urgências. Ali, o escritor parece se intrometer no território sagrado da fruição.

Um exemplo de como funciona a engrenagem assobiada de Moutinho é no conto Desfile, em que registra a confecção de fantasias do carnaval por uma tradicional costureira. A costureira retarda a entrega até o último momento e fica-se indeciso entre concluir que ela já envelheceu e não acompanha o processo ou é caprichosa e tenta honrar seu passado. É inspirador perceber que, quase cega, ela combina as cores pelo som. As duas conclusões coexistem no final. A câmera de tinta de Moutinho convive, sem reduzir as sugestões. Ela mente que comparecerá no desfile e fica em casa assistindo à cobertura televisava. Sua recompensa é a felicidade dos outros. Um dos diálogos da Dona Dita cabe como norte do livro: 'Lembrança até quando é boa dói.'

As narrativas concentram-se no ambiente familiar, nas ilusões da infância que deseja mais do que lembra. Emblemática a narrativa em que a criança não entende como desaparecem os objetos de seu quarto. É uma parábola inversa de Peter Pan. O mobiliário infantil some simplesmente porque a criança vai crescendo. E assim a sala, os domínios, os corredores esfumam-se, incluindo a mãe, restando somente a bicicleta. Moutinho torna sua escrita matéria-prima de recalques.

Inteligente e criativo é o capítulo feito de dedicatórias, em que um casal troca livros de presente. Compreende-se a evolução do romance dos dois e o fortalecimento da intimidade pelos recados deixados na folha de rosto. A partir deles - e unicamente deles -, a trama se espirala em contradições, em fugas e falta de tempo, desembocando no término do namoro. O conteúdo das obras presenteadas aumenta o significado de cada carta. Moutinho renova o gosto pela metalinguagem de um jeito irreverente e nada óbvio.

Somos Todos Iguais Nesta Noite merece a seguinte dedicatória: 'Ler uma vida já é escrevê-la.' "

* Fabrício Carpinejar é jornalista e escritor, autor de O Amor Esquece de Começar (Bertrand Brasil, 2006), entre outros


P.S. Agradeço também à Carla Rodrigues, do site No Mínimo, que indicou o livro em sua coluna Contemporâneo ("São 22 contos desse jovem autor carioca que traz para o papel, com delicadeza, o universo urbano, sua solidão, angústia, vazio e tristeza. Narrativa fina, em edição bem cuidada"); e ao André Luís Mansur, que, na resenha sobre A feia noite (Simone Campos) no Prosa & Verso (O Globo), me citou entre os autores que "trilham caminhos de renovação, criatividade e originalidade".



 Escrito por Marcelo às 13h13
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São Sebastião somos nós

Não obstante as fechas cravadas em seu peito (que é o nosso peito), o Rio de Janeiro continua sendo 'a' cidade*. Sua singularidade, flagrante como a beleza, sinuosa como a poesia, é ainda maior para aqueles que aqui nasceram ou, vindos de cantos outros, não conseguiram mais voltar e o adotaram como torrão natal. Essa singularidade se esfrega em nossas fuças quando temos olhos para ver (ou sensibilidade para sentir), como aconteceu ontem, em pleno Centro. O amigo Edu Goldenberg preparava-se para assistir a um evento na Assembléia Legislativa, que acabou sendo adiado. A partir daí, desse fortuito "não acontecimento", ele viveu a extraordinária experiência de vibrar, ainda que por algumas horas, no diapasão de sua cidade. Entre cervejas, livros, sambas e bilhetes do jogo do bicho, assim como Drummond em Coração numeroso, o Edu ontem foi a cidade, e a cidade foi ele. Leia toda a história, narrada com a categoria peculiar à prosa do Goldenberg, aqui.

* Não há nessa assertiva nenhum traço de arrogância. O Rio é, para mim, "a" cidade - assim como Belo Horizonte pode ser para um mineiro, ou Campinas é para o Bruno Ribeito (do Pátria minha), ou ainda Lisboa para a Sophia de Mello Breyner ("Lisboa / Quando atravesso - (...) o rio / E a cidade a que chego abre-se como se do meu nome nascesse")...



 Escrito por Marcelo às 13h59
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Cinismo

"Artistas podem (e devem) ser pessimistas, ácidos e críticos. Nunca, porém, podem cair no cinismo – refúgio dos que nada têm a acrescentar, porque já não acreditam na vida".

Frase retirada de um ótimo artigo do jornalista Bruno Ribeiro, publicado no Pátria FC, blog que ele mantém lá de Campinas e que tenho lido a cada dia com mais satisfação. O Pátria, aliás, entra hoje na coluna dos indicados do Pentimento.



 Escrito por Marcelo às 11h36
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Dedé Mamata

No Críticos.Com, há também uma ótima resenha do Daniel Schenker sobre Dedé Mamata, trabalho de Dodo Brandão que acaba de ser lançado em DVD. Lembro-me à perfeição do dia em que assisti ao filme, muitos anos atrás, no velho Madureira 1, e da forte impressão que causou naquele garoto de 16 anos fascinado pela política e pelas primeiras leituras realmente definitivas. Lembro-me também da irresistível Falou, amizade, canção-tema de Dedé Mamata, composta pelo Caetano e que é interpretada no decorrer da história pela Gal. A chegada ao formato digital se dá em boa hora, apesar do atraso, e serve, como destaca o Daniel, para que a gente possa estabelecer distinções não só entre épocas, mas entre 'modos' se fazer cinema no Brasil. Reproduzo, abaixo, um pequeno trecho do texto. Confira a íntegra aqui.

"(...) Há falas sintomáticas que destacam a passagem ideológica e a negociação com princípios éticos de uma outra época. Soa simbólica a imagem do avô de Dedé, dono de um passado político ilustre mas praticamente imobilizado na sala do apartamento, quase sem esboçar reações diante do que se descortina na sua frente. Alpino, por sua vez, o melhor amigo de Dedé, não hesita em perguntar: “não dá para pegar um pouco da grana da política para viver?”. Um pouco adiante, o traficante que fornece cocaína para Dedé e Alpino é taxativo: “prefiro morrer rico do que ficar 80 anos com dinheiro pingadinho”, responde, após ser confrontado por Dedé, que sobrevive à base do dinheiro do INPS do avô, com o risco de morrer jovem.

A discussão em torno da ruptura e da continuidade pode ser estendida ao próprio contexto do cinema nacional. A terminologia “fase da retomada” parece pressupor um corte e um posterior resgate do que foi interrompido. Talvez não caiba apenas verificar se a produção cinematográfica brasileira chegou a ser reduzida a zero durante o período Collor, mas pensar o que o impacto desde momento acarretou nos filmes que começariam a ser realizados a partir dele. Assistir hoje a Dedé Mamata causa um certo estranhamento, em especial no que diz respeito às questões de acabamento que incomodam diante do padrão de qualidade técnica alcançado pela maior parte dos diretores contemporâneos – por exemplo, a presença artificial dos figurantes, em especial na seqüência que abre o filme; mas o filme de Dodô Brandão também tem muito a dizer ao realizado nos dias de hoje no Brasil porque há um movimento de vida não muito fácil de ser encontrado nas produções atuais, que tendem a arriscar menos, a serem concebidas a partir de um pensamento de mercado. Mas existem exceções: o inédito Proibido Proibir , de Jorge Durán, traz algo da centelha de juventude, presente em suas personagens. Não por acaso, Durán havia realizado, um pouco antes de Dedé Mamata, o excelente A Cor do seu Destino , no qual sobressaía a habilidade do cineasta em filmar jovens (...)"



 Escrito por Marcelo às 10h48
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Os dez mais do Críticos.Com

O site Críticos.Com, cuja equipe integro, também escolheu os seus 10 melhores filmes de 2006 e, curiosamente, a relação ficou bem diferente da lista da Associação de Críticos de Cinema do Rio de Janeiro. Nas produções arroladas pelo site, entrou, por exemplo (e com o meu voto), o belo Estrela solitária, em que Wim Wenders uma volta a seus melhores dias. Caché, Estamira, A última noite, Dália Negra e Munique são outros trabalhos que figuram na relação, reproduzida a seguir:

Com 5 votos:

ESTRELA SOLITÁRIA (Don´t Come Knocking), de Wim Wenders (EUA/França/Alemanha)
OS INFILTRADOS (The Departed), de Martin Scorsese (EUA)

Com 4 votos:

CACHÉ (Caché), de Michael Haneke (França/Áustria/Alemanha/Itália)
A ÚLTIMA NOITE (A Prairie Home Companion), de Robert Altman (EUA)

Com 3 votos:

DÁLIA NEGRA (The Black Dahlia), de Brian De Palma (Alemanha/EUA)
ESTAMIRA, de Marcos Prado (Brasil)
MUNIQUE (Munich), de Steven Spielberg (EUA)
PONTO FINAL/MATCH POINT (Match Point), de Woody Allen (Inglaterra/EUA/Luxemburgo)
VOLVER (Volver), de Pedro Almodóvar (Espanha)


P.S. Como há alguns anos estudei minuciosamente o cinema de Wim Wenders para a monografia de conclusão de um curso de pós-graduação na PUC, já sabia de sua admiração (que compartilho) por Edward Hopper. Mas ao pesquisar imagens de Estrela solitária no Google para ilustrar este post, fiquei mais uma vez admirado: talvez como em nenhum outro filme as citações tenham sido tão evidentes. Os enquadramentos e a iluminação, como se pode notar no plano acima, são alusões flagrantes aos quadros do pintor americano.



 Escrito por Marcelo às 10h23
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Império 2007 - Ala dos Devotos

Ainda restam alguns (poucos) lugares na Ala dos Devotos, do querido Império Serrano, onde desfilo religiosamente ano sim, ano também. A fantasia é de um bate-bola na visão de Arthur Bispo do Rosário (um dos personagens 'diferentes' do enredo 'Ser diferente é normal') e o preço, de R$ 360, que podem ser pagos em duas parcelas. Quem tiver interesse em participar da ala, repleta de gente bacana, pode deixar o e-mail aqui nos comentários.



 Escrito por Marcelo às 13h09
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Rápidas

. Sábado que vem tem comemoração dupla - Dia de São Sebastião do Rio de Janeiro e três anos da Livraria Folha Seca, dos queridíssimos Dani e  Rodrigo - lá na Rua do Ouvidor. As atividades começam às 13h e prometem se estender por toda a tarde, com choro, samba, cerveja e gente da melhor qualidade;

. Não deixem de assistir ao documentário Vocação do poder, de José Joffily: é um raio X preciso de como se faz 'política' no Rio de Janeiro;

. Por falar em cinema, na terça que vem começa a mostra Os melhores filmes do ano, reunindo dez produções selecionadas pela Associação de Críticos do Rio de Janeiro entre os centenas de títulos lançados em 2006. Organizado em parceria por mim e pelo Marcelo Janot, evento incluirá debates com críticos e convidados especiais, como o jornalista político Cid Benjamim, a professora de Literatura Norte-americana Sonia Torres e os cineasta Karim Anöuiz. Na segunda, vou postar a programação;

. Do cinema para o carnaval: foi promissor, muiro promissor, o ensaio técnico do Império sexta passada na Sapucaí. O samba está na ponta da língua de 99% da escola e desta vez 'pegou';

. Esta é para quem é advogado: fique de olho nas próximas edições do jornal da OAB/RJ. Estamos promovendo mudanças gráficas e (sobretudo) editoriais por lá. Em fevereiro, sairá uma entrevista engraçadíssima, que me foi concedida por Nei Lopes; 

. Ah, sim: sexta tem Chico no Canecão...



 Escrito por Marcelo às 10h16
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Kar Wai em estado bruto

Marcelo Moutinho *

O cinema de Wong Kar Wai equilibra-se numa delicada tensão: ao tratamento refinadamente estetizado da forma contrapõe-se a dura e humaníssima imperfeição do conteúdo que desvela. Os planos que fogem dos clichês do enquadramento, o clima sessentista pontuando uma espécie de estação ideal da memória e a movimentação sinuosa da câmera que capta, mais do que a cena, sua atmosfera, flagram relações amorosas plenas de potência e que, no entanto, caminham sempre para o inevitável precipício.

Idéia-motriz de sua obra, o tema da impossibilidade do amor já está presente em Dias selvagens, produção de 1991 e que, portanto, precede sucessos como Amores expressos (1994), Felizes juntos (1997) e o recente 2046 (2004). O filme inaugura a parceria de Kar Wai com seus dois atores-assinatura - Leslie Cheung e Maggie Cheung - e centra-se na figura de Yuddi, enteado de uma prostituta de luxo cujo sonho é conhecer a mãe natural.

O conquistador Yuddi atrai a paixão de duas mulheres, Su e Mimi, a quem trata com desprezo. Sua vaidade - sublinhada no recorrente ato de pentear os cabelos em frente ao espelho - e o aparente egoísmo são destilados em diálogos que se tornam ainda mais lânguidos pelo calor que o cenário sugere na presença constante de ventiladores.

É através do cenário, aliás, que o diretor sublinha a ambiência de Dias selvagens: a recorrência dos relógios e as paredes que descascam indicam a força opressiva da passagem do tempo; as cortinas, a chuva e a fumaça dos cigarros turvam a imagem, criando camadas outras antes da mera "realidade" que a cena parece retratar. Do mesmo modo, o filme antecipa elementos que se tornariam marcas do diretor, como as elipses, os planos-seqüência e a trilha sonora nostálgica que encontra no bolero o ritmo ideal para suas obsessões.

Todos esses elementos, contudo, aparecem ainda em estado bruto, redundando por vezes em maneirismos que, com o decorrer dos anos, Kar Wai felizmente refinou. Essa crueza, se não chega a atrapalhar a fruição do filme, responde por seu único senão: a tentativa de justificar a incapacidade de estabilidade afetiva de Yuddi a partir da carência primordial da falta do colo materno.

Também neste caso, mais acaba sendo menos. Pois a impossibilidade do efetivo encontro amoroso e seu conseqüente desejo, como sinalizaria o próprio diretor em trabalhos posteriores, não se presta a conexões tão prosaicas. Em suma, é uma conta que nunca fecha.

* Escritor e jornalista

[Este texto foi publicado na seção Filme em debate, na edição de hoje do Caderno B (Jornal do Brasil)]



 Escrito por Marcelo às 09h54
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Jornalistas e escritores

O ciclo Entre o fato e a ficção, que vai rolar a partir de terça que vem na Casa do Saber, tem como objetivo analisar o produtivo diálogo entre a vida nas redações e a atividade solitária da literatura - relação que, aliás, que conheço muito bem. Organizado pela amiga Cristiane Costa, autora do livro Pena de aluguel - Jornalista e ecritores no Brasil, o evento contará com a presença de quatro dos mais importantes jornalistas escritores do país - Carlos Heitor Cony, Zuenir Ventura, Ruy Castro e Marçal Aquino - e pretente propor uma reflexão sobre o cruzamento das fronteiras do jornalismo e da literatura, que legou às letras brasileiras a produção de nomes como Machado de Assis, Lima Barreto, Graciliano Ramos, Carlos Drummond de Andrade, Nelson Rodrigues, Caio Fernando Abreu e tantos outros que viveram de forma intensa e criativa entre os fatos e a ficção. A abertura do ciclo acontece na próxima terça, às 20h, quando o convidado será o Cony. Ruy Castro falará no dia 23, Zuenir Ventura, no dia 30, e Marçal Aquino, no dia 6 de fevereiro. Como não existe almoço grátis, cada palestra custa, como diria a saudosa Araci, 80 merréis.



 Escrito por Marcelo às 10h18
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Já vão tarde

"Acaboooooooouuuuuuuuu"

Tutty Vasques

"Se em vez de cidade do norte do estado fosse bairro da mesma região da capital, Campos seria a Tijuca. Um lugar simples, conservador, apegado à família, longe do mar e da badalação, esteticamente apagado, comercialmente decadente, feio e muito querido de sua gente. Conheço Campos menos que a Tijuca, mas tenho certeza de que, se Rosinha e Garotinho tivessem sido criados onde eu fui, seriam até hoje pacatos moradores da Rua Uruguai. Ou não! Aconteceu comigo de ir muito mais longe do que imaginava, mas não existe – nunca existiu nem existirá – outra história de casalzinho de banco de praça como a que sucedeu no Palácio Guanabara. Uma pena que não tenhamos sido apenas bons vizinhos. Tenho certeza de que eles achariam o mesmo se eu fosse eleito um dia para governá-los. Não é possível um troço desses!

Eu estava falando isso por que mesmo? Ah, sim, porque acabou, amigo carioca, acabou o pesadelo de ser governado pelos Garotinho. Este réveillon não vai ser igual àquele que passou. A virada para 2007 inaugura o fim de uma era em que o Rio de Janeiro perdeu o orgulho de sua afamada identidade política, mas não é hora para lamúrias. Ei, você aí que não consegue encontrar um bom motivo para comemorar o Ano-Novo, ponha a cabeça pra fora da janela e grite com pulmão de Galvão Bueno: "Acabooouuu, acaboooooouuuuuu!!!". Os Garotinho estão voltando para a Rua Uruguai ou pra República do Chuvisco. Que fiquem em Ipanema se quiserem, mas Palácio Laranjeiras nunca mais.

Nunca mais aquela conversinha mole de tudo a 1 real. Nunca mais exorcismos aos domingos, nunca mais aquelas roupas cafonas, esses nomes ridículos, nunca mais notícias sobre o fluxo menstrual dela ou a greve de fome dele. Nunca mais Álvaro Lins, Chiquinho da Mangueira, Pudim... Nunca mais historinhas como a do rapaz gordinho de apelido "Bolinha" que, para impressionar a namorada, invadiu a pracinha montado, caiu do cavalo e, machucado no peito, conquistou para sempre o coração de sua amada. Ou aquela outra do desastre de automóvel que transformou o jovem político ateu, de formação marxista, em seguidor de Jesus Cristo. Vocês se lembram da primeira imagem de 2006, a foto da governadora de ponta-cabeça nas corredeiras de Bonito (MS)? Meu Deus, que vergonha!

Acabooouuuuu!!! Nunca mais um governo com nome de locutor esportivo. Nunca mais pousos de barriga, panes em helicópteros. Nunca mais contos da carochinha como o da regressão mental do ex-governador após queda de palanque. Nunca mais!!! Nunca mais tanta coisa esquisita, basta de espírito de quermesse no trato da coisa pública. Nunca fomos tão provincianos! Viramos piada de paulista: sabe a última da Rosinha? Com um telhado de vidro desses, francamente, quem vai atirar pedra no Maluf dos outros? A política perdeu inteiramente a graça para o carioca, mas, insisto, não é hora de chorar o leite derramado. Sorria!!! Você sobreviveu ao maior acidente democrático da história do Rio de Janeiro!

Em nenhum outro lugar deste país sua gente tem tanta motivação para festejar a chegada de 2007. Vamos lá, rapaz, abrace um cabisbaixo na rua e lembre a todos os passantes que acabou, entende? Acaboooouuuuu!!! Se, do Oiapoque ao Chuí, ninguém sabe ao certo o que virá por aí, só nós sabemos como foram esses últimos oito anos de humilhação democrática. O Rio de Gabeira, de Brizola, de Lacerda e de Lula condenou-se pelo voto à gozação nacional, como se já não bastasse o papel diminutivo que Flamengo, Vasco, Fluminense e Botafogo vêm fazendo ultimamente no Brasileirão.

O carioca anda levando ao pé da letra a máxima "futebol, política e religião não se discutem". Mesmo "mulher" vira assunto perigoso quando a maior autoridade da paróquia é a dona Rosângela Rosinha Garotinho Barros Assed Matheus de Oliveira, crente de que está abafando na terra de Leila Diniz, terreiro de Danuza Leão. Estamos mal na fita, mas, pelamordedeus, gente, tá chegando a hora, caramba! Corre lá pra botar mais champanhe no gelo, chame os amigos para a ceia, prepare os fogos com a máxima segurança, nada pode sair errado num momento político tão importante quanto será para o carioca este réveillon. Acabou, pessoal, acabou. Acabooooouuuuu, cacilda!!!

Acabou a era Garotinho. O casal vai voltar para o rádio, para Campos, para a Rua Uruguai, pra... Não importa o destino! Os Garotinho vão sumir do noticiário, das conversas de botequim, vão sumir de sua vida, caro leitor. Não é cedo para soltar fogos coisíssima nenhuma: feliz Ano-Novo! – temos desta vez boas chances de não frustrar um desejo antigo de todo carioca."



 Escrito por Marcelo às 10h58
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A melhor bateria do Rio

"Fui ao ensaio técnico de sexta-feira na Avenida e pude ouvir aquela que, atualmente, é a melhor bateria do carnaval carioca: a do Império Serrano. Com Mestre Átila à frente, os ritmistas da Serrinha, que sempre se destacaram, vêm se aperfeiçoando ano a ano e estão num nível de excelência que enche os ouvidos de quem está à beira da pista.

O andamento da bateria do Império é próximo do ideal. Não é muito acelerado, tem uma batida gostosa, uma cadência perfeita. E os agogôs? Ah, os agogôs do Império! Que som delicioso, aquele ruído metalizado que faz qualquer um identificar a escola a quilômetros de distância. O agogô imperiano (e o surdo mangueirense) é um dos poucos elementos numa bateria que fazem um folião leigo identificar a bateria que está tocando, em poucos segundos. E isso é uma marca e tanto.

Que bom seria se as escolas mantivessem suas marcas desta forma. Mas basta uma mudança no comando, uma troca de diretores, para as baterias perderem suas características e se tornarem cada vez mais iguais às outras. Fazer o quê?

Mas voltemos ao Império: o som dos agogôs é espetacular, não é? E agora está sendo muito bem aproveitado por Mestre Átila, em suas paradinhas (que, de tão longas, podem ser chamadas de "paradonas"). No último carnaval, ela deu show no desfile (mereceu um dos décimos extras) e, nos ensaios técnicos, costuma ser o destaque da escola - com as convenções sempre acompanhadas de coreografias, a nova quase-obrigatoriedade das baterias, o que não deixa de ser preocupante."


O texto acima foi publicado originalmente no blog Roda de Samba, do Globo On, e reitera algo que venho falando já há algum tempo: não é apenas pela qualidade altíssima, mas sobretudo pela singularidade que a bateria do Império hoje está um grau acima das demais. Para conferir tudo isso que Frederico Soares e Leonardo Bruno, os titulares do blog, escreveram, basta dar um pulo na quadra aos sábados à noite. OU, ainda melhor, esticar até a Sapucaí na próxima sexta, às 21h, quando vai rolar o segundo ensaio técnico da escola. As arquibancadas ficam abertas ao público. Estarei lá, só que dentro da Avenida...



 Escrito por Marcelo às 10h42
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Documento Especial

Boa notícia para quem curtia o Documento Especial, programa capitaneado pelo amigo e ex-professor Nelson Hoineff e que inovou a televisão brasileira com tratamento ousada e contundente de temas polêmicos e pautas até então ausentes da telinha: o Canal Brasil vai fazer, a partir do próximo dia 6, uma retrospectiva com as melhores edições veiculadas na Manchete, na Bandeirantes e no SBT. As atrações irão ao ar em seu formato original e com comentários prévios do próprio Nelson. O programa passará aos sábados, às 22h.



 Escrito por Marcelo às 10h03
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Sobre sumiços e listas

Ando enroladíssimo, como vocês podem ver pelo sumiço nos últimos dias. A mudança de poder na OAB e os preparativos para a Mostra Os Melhores Filmes do Ano, que vai rolar no CCBB, estão tomando todo o tempo disponível. Pedindo compreensão pela escassez de posts, reproduzo aqui a generosa e bonita análise que o André de Leones fez do meu e de outros livros que ele leu durante 2006:

"[Bruna, Henrique, Simone, Maira e Marcelo]

Dentre os melhores livros que li em 2006 estão os de Bruna Beber (A fila sem fim dos demônios descontentes), Henrique Rodrigues (A Musa Diluída), Simone Campos (A feia noite), Maira Paula (Não feche seus olhos esta noite) e Marcelo Moutinho (Somos todos iguais nesta noite). Abaixo, minhas impressões acerca de cada um deles.

A Fila Sem Fim dos Demônios Descontentes (Bruna Beber - ed. 7Letras) – Conheço a Bruna desde pequeno. Desde quando eu ainda nem existia. E o mais bacana é que a gente nem se conhece pessoalmente. Bruna é a menina que, quando chove, chove botões de rosas. É uma das melhores poetas que conheço. Nunca li um verso dela que fosse ruim. Ela é do tipo que berra pros guitarristas: “mata-me/de blues”. Qualquer pessoa que quer ser assim morta de blues merece o meu respeito e a minha admiração. Mesmo que seja uma pessoa assim tipo a Bruna, que às vezes não vê a própria sombra. Eu vejo sempre. Vejo nos blogs dela, nas crônicas dela e, claro, na poesia dela. A fila sem fim dos demônios descontentes é um dos melhores livros de poesia que li na vida. Na minha prateleira mental está pau a pau com Montale e Plath, meus favoritos. Bruna Beber é uma das minhas favoritas. O livro dela dorme no meu criado-mudo. Todo dia releio um poema, um que seja. Higiene mental e afetiva. Poesia da melhor qualidade. Obrigado, Bruna. Todo o orgulho do mundo por você.

A Musa Diluída (Henrique Rodrigues – ed. Record) – Também conheço o Henrique desde pequeno. A gente já bateu perna por Curitiba e costuma defender o mundo contra toda e qualquer obscuridade. A gente meio que é uma dupla de super-heróis, mas sem a ostensiva veadagem de Batman e Robin, por favor. O livro dele, Henrique (não do Batman ou do Robin, please), é uma maravilha esquizofrênica que pega a famigerada tradição e a dispõe horizontalmente, servindo-se do que lhe apetece como se num banquete. Não há frugalidade nele. Dilui o leitor e suas expectativas. Ao mesmo tempo em que evoca a Musa, Henrique nos desarma explicitando onde podemos encontrá-la: nos bares, nos rios, nas poças. Troca armas por braços, deixa de lado os varões dignos de nota – porque, ele deixa bem claro, “aqui a escolha é minha”. A escolha é dele. Percebe que maravilha isso? É meio que um inventário poético logo de cara, deixar bem claro de quem é a escolha. E, ao contrário da noite, a poesia de Henrique não é artificialmente construída. Nasce, a exemplo de todas as pessoas, de um rio. Henrique é esse rio. Nada lodoso, limpo feito o quê. Amigo meu, o Henrique. Dá um puta orgulho escrever isso.

A Feia Noite (Simone Campos – 7Letras) – Simone dedica esse seu segundo romance (o primeiro é o supimpa No Shopping) à Vitamina D. Cheio de Vitamina D, A feia noite é magro, mas não raquítico. É um livro de ossos fortes e que demonstra ser de grande ajuda nas funções cardíacas, musculares e, claro, neurológicas. É um painel, todas aquelas pinceladas largas e uma dor funda que rasga a tela e os nossos olhos aqui e ali. É um livro que li e reli em silêncio, desligado de tudo, boquiaberto e horrorizado. Porra, falando francamente: é um livro que eu queria ter escrito. Digo isso de poucos livros. Digo isso do Angústia, do Graciliano Ramos, e d’O Teatro de Sabbath, do Philip Roth. A feia noite é um livro que torna audível o barulho do silêncio e que não se perde em momento algum. Denso, não é capaz de evitar, entretanto, eventuais afogamentos. Estes, diga-se, são todos de leitor – jamais dele, livro. Não é por acaso que, às duas da tarde, Deus descanse numa maldita espreguiçadeira branca. Deus é cego e surdo. Não é capaz de aprender o que Simone ensina: que as palavras nos seguram; as palavras são gravidade.

Não Feche Seus Olhos Esta Noite (Maira Parula – Rocco) – Eu também não sei o que esse ímpeto significa, mas ele, porra, está todo aqui, nesse livro da Maira. Um livro que já começa explodindo uma primeira boca em duas linhas e que pára logo adiante pra fritar alguns bifes. Um livro que se descolou de mim e passou a me tratar como sombra. Um livro que me arrastou linha após linha só pra me deixar assuntar o que ele estava fazendo. Um livro que faz coisas. Eu o li na penumbra, dentro de um ônibus Goiânia-Brasília, na noite em que o Brasil perdeu pra França. Não tentei, mas mesmo que tentasse (pra quê?) eu não conseguiria medi-lo. Um livro que faz ruídos engraçados enquanto mastiga o leitor. Um livro que me deixou com tesão e com vontade de fodê-lo e até hoje não sei bem por quê. Também não quis pensar a respeito. Um livro dos mais loucos, com um corte de cabelo bem estranho. Não conheço a Maira pessoalmente, embora me corresponda com ela desde pequeno. Ela me ensinou uma pá de coisas. Me ensinou que é preferível quebrar ao meio a se dobrar. Não feche seus olhos esta noite é um livro quebrado ao meio. Igualzinho a mim. Maira o escreveu pra mim. Talvez nem ela saiba disso, mas eu sei que foi. Nem sei como agradecer.

Somos Todos Iguais Nesta Noite (Marcelo Moutinho – ed. Rocco) – Não que Raymond Carver precise disso (está muito bom do jeito que está), mas o lance é que se ele, Carver, tivesse um lirismo assim escorrendo de cada linha, bem, Raymond Carver se chamaria Marcelo Moutinho. Não que o Marcelo precise de uma comparação dessas também, mas foi a primeira coisa que me ocorreu quando li o primeiro conto desse livro. Assim como o pai do referido conto, o livro de Moutinho parece despontar no jardim de banho tomado, tênis, bermuda, camisa sem mangas e Hollywood na mão. Ele parece não querer nada do leitor, e no entanto entrega tudo feito um fantasma bacana. A cada conto, como quem cultiva o anverso (que é sempre mais bonito), leva as nossas lágrimas de volta pros olhos. São contos às vezes insuportavelmente brancos que nos fazem contemplar o chão com toda a saudade de nem sei o quê. O lirismo de Marcelo é lindamente comedido, como se nenhum de nós, jamais, precisasse morrer de câncer ou de solidão."


 Escrito por Marcelo às 10h04
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