Vale lembrar

 

A cidade sitiada já foi apenas um livro da Clarice.



 Escrito por Marcelo às 13h30
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Dez melhores filmes

Depois de renhida discussão e votação em dois turnos, a Associação de Críticos de Cinema do Rio de Janeiro - da qual faço parte - elegeu os dez melhores filmes de 2006. Os infiltrados, de Martin Scorcese, foi apontado como o número um, e, ao lado das demais produções listadas abaixo, integrará mostra a ser realizada no CCBB, com projeção e debates, entre 23 de janeiro e 5 de fevereiro. A equipe do site Críticos.Com também escolheu os seus 'Dez Mais', que poderão em breve ser conferidos aqui

"Os infiltrados", de Martin Scorcese

“2046 – Segredos do amor”, de Wong Kar Wai

“Árido Movie”, de Lírio Ferreira

“Boa noite e boa sorte”, de George Clooney 
“O céu de Suely”, de Karim Ainouz

“O homem urso”, de Werner Herzog

“O novo mundo”, de Terrence Malick

“Pequena Miss Sunshine”, de Jonathan Dayton

“Ponto final – Match Point”, de Woody Allen

“Volver”, de Pedro Almodóvar



 Escrito por Marcelo às 09h19
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Conto de Natal

A pedido do pessoal do Idéias (Jornal do Brasil), escrevi um conto de Natal, que o suplemento publicou na capa da edição de hoje. Segue o texto para quem não leu...

 

 

Um cartão para Joana

 

Marcelo Moutinho*

 

No princípio, bastavam termos como Feliz Natal, Boas Festas, Próspero Ano Novo, e estava resolvido. Com o tempo, a exigência cresceu: tornou-se necessário espremer a imaginação até escapulir algo menos banal. A premissa: palavras doces, suaves, poéticas.

Passei então a frases mais longas: “Que os anjos o iluminem na noite natalina”, “Um ano novo fulgurante de paz, amor e felicidade”, “Natal é tempo de benevolência, generosidade e perdão”, “Que o menino Jesus esteja presente em seu lar”.

Às vezes dá vontade de arriscar uma traquinagem qualquer, bagunçar o presépio, lembrar que nem todo mundo é filho de Papai Noel. Desisto por estar certo de que pouco adiantaria. A supervisão não aprovará o cartão. Eles são rigorosos, lêem tudo, catam os mínimos erros de gramática ou qualquer coisa que extrapole os objetivos da empresa: palavras doces, suaves, poéticas.

Ao contrário do que as pessoas pensam, dezembro não é mês tranqüilo para tipos como eu. Por mais que me adiante e consiga entregar todas as mensagens solicitadas, sempre há tarefas novas, textos a fazer. “Todo mundo fica mais carinhoso nessa época”, me diz o chefe. As vendas vão bem, a empresa não paga mal e o resultado é que a carga horária dobra.

Dezembro é uma farpa no correr do ano. Festas de confraternização, caixinhas de Natal, trenós, bolas vermelhas, neve de algodão, ruas iluminadas, apreços compulsórios, tudo parece uma extensão do meu trabalho: um colorido e sorridente cartão de dois reais. É como se eu estivesse escrevendo uma mesma história, pincelando um mesmo desenho.

Joana não entende por que não gosto desse período. Ela se apraz em montar a árvore com antecedência, enche a casa de enfeites, projeta a ceia quase um mês antes do dia 25. Joana gosta dos meus cartões.

 “Você cria frases lindas. Como pode não se emocionar?”, ela indaga, e fala que Natal é tempo de renascimento, que todos nós renascemos em Cristo e nos salvamos com Ele.

Talvez o Natal seja isso mesmo, e eu não perceba. Joana sempre foi mais sensível. É nela em quem penso agora, dirigindo rumo à nossa casa, vendo a cidade no lusco-fusco das pequenas lâmpadas que se acendem em contraste com a tarde que vai dormir. Ao acelerar, imagino meus cartões nos bolsos e bolsas de todos por quem passo; visualizo os contornos, brilhos e frases guardando a felicidade que um deseja ao outro – ou, sem desejar, o finge.

Paro no sinal vermelho. A multidão que atravessa é como uma cortina que se move ligeira à minha frente, tampando a visão. Penso novamente em Joana: arrumando a mesa, conferindo o ponto do pernil, fritando as rabanadas. Joana: os cabelos presos no rabo-de-cavalo, os seios escapando pelo vão do vestido. Joana: aguardando o vinho que carrego, o pão fresco, o gelo filtrado. Joana: de banho tomado, cheirando a alfazema. Joana: à minha espera.

Na pasta, levo um cartão para ela. Entre os 116 modelos que criamos lá na empresa, escolhi o de número 87-A, que tem purpurina na capa. Foi o mais elogiado pelos chefes, um dos mais vendidos. Traz estampado algo simples: “Muita paz e alegria em suas festas natalinas”. Uma frase fisgada no coletivo de muitas outras. Uma junção de letras enfileiradas: doces, suaves, poéticas.

Ao chegar em casa, abraçarei Joana. Jantaremos, trocaremos beijos, presentes, afagos. Depois sentaremos no sofá da sala — Joana escondendo, com a almofada marrom sobre o colo, o abismo que já não posso preencher. Veremos a festa na TV, um flash da missa, o anúncio de Panetone. Nada direi. De tanto escrevê-las, as palavras ficaram ocas. Então, no mais completo silêncio, desejarei por um instante que ela seja a destinatária de todos os cartões já impressos — e iremos dormir.

 

* Escritor. Autor de Somos todos iguais nesta noite (Rocco)



 Escrito por Marcelo às 20h23
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No Festival

A foto acima é um registro do debate de abertura do Festival do Contemporâneo, na segunda passada. Na mesa, estavam Ana Paula Maia, Joca Terron, João Paulo Cuenca (o mediador), André Laurentino e Bruna Beber, além de mim. Interessante notar que tais nomes confirmam um traço inequívoco da produção contemporânea brasileira: a diversidade. Cada um dos seis escritores presentes tem trajetória e estilo bem singulares, como comprovam os seus livros. 

 

Ontem, rolaram as adaptações de conto para peça, e vice-versa, das quais participei ao lado de Antônia Pellegrino, Paloma Vidal e Francisco Slade. Bacana demais. A transposição de nossos textos em prosa para o palco foi extremamente criativa (méritos para os dramaturgos) e bem interpretada (mérito para os atores). Amanhã terá nova sessão da brincadeira.

Em breve, comentarei aqui com mais detalhes sobre como foi o evento.



 Escrito por Marcelo às 11h21
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Na Folha de S. Paulo

Meu novo livro foi indicado na seção Vitrine, da Ilustrada (Folha de S. Paulo), no sábado passado. Tudo bem, eu perdôo pelo "ainda" antes do "jovem". Ainda sobre o livro, vale informar que a Fnac está vendendo cada exemplar a R$ 13,30 (o preço de tabela é R$ 19,00).

Somos Todos Iguais Nesta Noite
MARCELO MOUTINHO
Editora:
Rocco; Quanto: R$ 19 (128 págs.)
SOBRE O AUTOR: Nasceu no Rio de Janeiro, em 1972. É autor do livro, também de contos, "Memória dos Barcos" (7Letras, 2001) e publicou outros textos curtos em três antologias.
TEMA: Relatos sobre o cotidiano de personagens comuns (mesmo quando travestis; não somos todos iguais?) que oscilam entre o prazer e a melancolia, na boa tradição brasileira que aproxima o conto da crônica.
POR QUE LER: O (ainda) jovem autor não segue a corrente de seus contemporâneos que crêem que o mundo todo, com a única exceção de seus livros, é uma grande desgraça.



 Escrito por Marcelo às 11h15
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Literatura e Dramaturgia

Hoje, às 17h, dentro do Festival do Contemporâneo, vão rolar as leituras que eu e mais três escritores fizemos a partir de esquetes inéditas de jovens dramaturgos. Trabalhei com base na peça Tempo, de Rodrigo Nogueira, que virou o conto Luz amarela*. Antonia Pellegrino, Paloma Vidal e Francisco Slade apresentarão suas adaptações de textos teatrais de Julia Spadachini, Juliana Pamplona e Henrique Tavares. Os dramaturgos, em contrapartida, mostrarão as transposições, para o palco, de contos nossos. O 'jogo' é bastante interessante, porque há total liberdade no desfrute estético da criação alheia. Na quinta, também às 17h, tem repeteco das leituras.

* O conto foi editado num simpático livrinho que está à venda, por módicos R$ 2, lá no Festival. Ah, sim: o evento está acontecendo no Oi Futuro (antigo Centro Cultural Telemar), no Flamengo, e tem entrada gratuita



 Escrito por Marcelo às 11h20
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Carnaval com selo

Leio que a Prefeitura de São Paulo criou um selo "que identificará os diversos eventos que fazem parte do roteiro oficial do carnaval paulistano". Carnaval com selo oficial? Depois não querem que a gente repita a máxima do velho Vininha...



 Escrito por Marcelo às 14h20
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Saudemos o joio

  

Diante desse escandaloso, imoral e debochado auto-aumento concedido por nossos (in)dignos parlamentares federais, vale o registro daqueles que, fazendo parte da mesa diretora, honraram seus mandatos e votaram contra. São eles: a senadora Heloísa Helena (que vai fazer muita falta à Câmara Alta), do PSOL, e os deputados Chico Alencar (PSOL) e Henrique Fontana (PT). 



 Escrito por Marcelo às 14h48
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Festival Contemporâneo

A partir da próxima segunda-feira, o Oi Futuro (antigo Centro Cultural Telemar) vai sediar o I Festival Contemporâneo. Como explica o folder do evento, "durante cinco dias, 70 jovens criadores que estão renovando a cena cultural do Rio de Janeiro mostrarão a importância de suas atuações em Artes Visuais, Dança, Dramaturgia e Literatura. Em simultaneidade, realizações inéditas acontecerão no local durante todo o tempo, fazendo com que expressões artísticas diversas se relacionem, provocando troca inusitada entre os próprios jovens realizadores e deles com o público, que poderá circular livremente, interagindo com as novas propostas".

O Festival incluirá lançamentos de livros, encontros com escritores, impressão de textos inéditos, projeção de poemas visuais, perfomances de poesia e uma troca de papéis entre prosadores e dramaturgos, com a mútua adaptação de textos (de esquete para conto e vice-versa). Além disso, cinco protagonistas da nova dramaturgia promoverão releituras de clássicos, "num choque estético destinado a sacudir o cânone" e haverá ainda apresentações de dança e um debate entre críticos da área de cultura.

Fui convidado a participar do Festival e estarei na mesa de abertura, na própria segunda, às 19h30, ao lado dos escritores André Laurentino, Joca Terron, Ana Paula Maia e Bruna Beber, com mediação de João Paulo Cuenca. Em seguida ao debate, vai rolar um lançamento conjunto de nossos novos livros. Na terça (dia 19) e na quinta (dia 21), lerei o conto que criei com base na esquete Tempo, de Rodrigo Nogueira. Na mesma oportunidade, os escritores Antonia Pellegrino, Paloma Vidal e Francisco Slade apresentarão duas adpatações de textos teatrais de Julia Spadachini, Juliana Pamplona e Henrique Tavares. Os dramaturgos, em contrapartida, mostrarão as transposições de nossa prosa para o palco.

Em suma, o Festival promete ser bem bacana e espero vocês lá. Segue a programação completa:  



 Escrito por Marcelo às 11h21
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 Segunda-feira, 18.12

[ Abertura] 

Térreo

20h - Coquetel

4º nível

19h30 - 20h30 Despertadores - Julia Cseko

20h45 - 21h Eles assistem e eu danço - Mônica Burity

21h Porta das mãos - Michel Groissman

Performance itinerante

19h30 - 21h30 Diálogos - Daniela Mattos

5º nível

19h30 Performance de teatro

A Imprecisa Companhia apresenta

Interdições, com direção de Tato

Consorti e participação dos atores

Christian Landi e Deborah Bapt.

20h30 Instalação literária, vídeo-arte,

vídeo-dança, vídeo-poesia

Teatro

19h30 Mesa Redonda com a participação

dos autores Ana Paula Maia, André

Laurentino, Bruna Beber, Joca Terron

e Marcelo Moutinho.

Mediador: João Paulo Cuenca.

21h30 – 22h15 Lançamento do Álbum - Saulo.

Bistrô

19h30 Projeção de poemas visuais dos poetas

Marcelo Diniz e Fred Girauta.

21h Lançamentos cariocas dos livros:

André Laurentino, A paixão de Amaro Amâncio, Agir; Bruna Beber, A fila sem fim dos demônios descontentes, 7Letras; Joca Terron, Sonho interrompido por guilhotina, Casa da Palavra; Marcelo Moutinho, Somos todos iguais nesta noite, Rocco.

Terça-feira, 19.12

4º nível

11h Rádio Aberta - Romano + Observatorio Auditivo

12h Rádio Aberta - Romano + Universidade Nomade (Giuseppe Cocco)

11 às 19h Vende-se lebre - Julia Cseko

11 às 19h Pano de chão com a cara do Bush + Em caso de - Guga Ferraz

11 às 19h Poema Dadá - Ducha

13h Diáspora + Around - Chang Chi Chai

14h e 15h Eles assistem eu danço - Mônica Burity

14h30 e 15h30 Fragmentos de I’m not here ou A Morte do Cisne - André Masseno

16h Make Over - Daniela Mattos

16h30 e 17h30 Qual o nome disso? - Renato Cruz

17h e 18h Uma Peça Seleta - Michelle Moura

18h30 às 19h30 Capturando sombras + Primavera Derretida + Paisagem Humana + Cinema Manual # 2 - Domingos Guimaraens e Nadam Guerra.

5º nível

11h às 20h Instalação literária, vídeo-arte, vídeo-dança, vídeo-poesia

16h Performance de teatro A Imprecisa Companhia apresenta Interdições, com direção de Tato Consorti e participação dos atores

Christian Landi e Deborah Bapt.

Teatro

17h Prosa e Dramaturgia:4 jovens escritores criarão contos inéditos que serão transformados em cena por jovens dramaturgos. 4 jovens dramaturgos criarão cenas inéditas que serão transformadas em contos pelos prosadores.

Autores de prosa: Paloma Vidal, Antonia Pellegrino, Marcelo Moutinho, Francisco Slade.

Autores de dramaturgia: Rodrigo Nogueira, Julia Spadachini, Juliana Pamplona e Henrique Tavares.

18h Intervalo - Fred Paredes

19h30 Cem minutos

Cinco jovens dramaturgos, Alessandra Colassanti, Daniela Pereira de Carvalho, Daniel Tendler, Felipe Vidal e Walter Daguerre, escreverão textos inéditosde vinte minutos que serão apresentados numa seqüência ininterrupta. Todos os textos serão releituras de clássicos, provocando assim uma discussão estética em torno do "cânone".

Bistrô

11h às 19h Projeção de poemas visuais de Marcelo Diniz e Fred Girauta.

19h Performance de poesia com a participação dos poetas Botika e Luiz Felipe Leprevost.

Quarta-feira, 20.12

4º nível

11h Rádio Aberta - Romano + Radioescuta

12h Rádio Aberta - Romano + Cine Falcatrua

11 às 19h Vende-se lebre - Julia Cseko

11 às 19h Pano de chão com a cara do Bush + Em caso de - Guga Ferraz

11 às 19h Poema Dadá - Ducha

13h às 14h30 Since - Alexandre Sá

14h e 15h Qual o nome disso ? - Renato Cruz

14h30 e 15h30 Uma Peça Seleta - Michelle Moura

15h e 16h Fragmentos de I’m not here ou A Morte do Cisne - André Masseno

16h30 e 17h30 Eles assistem eu danço - Mônica Burity

19h Diáspora + Around - Chang Chi Chai

18h30 às 19h30 Capturando sombras + Primavera

Derretida + Paisagem Humana + Cinema

Manual # 2 - Domingos Guimaraens e Nadam Guerra

5º nível

11h às 20h Instalação literária, vídeo-arte, vídeo-dança, vídeo-poesia

16h e 18h Performance de teatro Domingos de Alcântara é diretor do espetáculo Afecto, que conta com a  participação dos atores Ana Luísa Cardoso, Aline Arteira, Beto Brown, Caio Zaccariotto, Domingos de Alcântara, Kira, Joana Medeiros e Paula Tolentino.

Teatro

17h Cem minutos

19h30 Anátema - espetáculo teatral de Roberto Alvim com a atriz Juliana Galdino

Bistrô

11h às 19h Projeção de poemas visuais de Marcelo Diniz e Fred Girauta.

19h Performance de poesia com a participação dos poetas Botika e Patricia Carvalho.



 Escrito por Marcelo às 11h16
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Quinta-feira, 21.12

4º nível

11h Rádio Aberta - Romano + Angelo Ferreira de Sousa - Porto, PT

11h30 Rádio Aberta - Romano + Rádio Cidadão Comum - BR

12h Rádio Aberta - Romano + Universidade Nomade (Giuseppe Cocco)

11 às 19h Vende-se lebre - Julia Cseko

11 às 19h Pano de chão com a cara do Bush + Em caso de - Guga Ferraz

11 às 19h Poema Dadá - Ducha

13h às 14h30 Da natureza ao real - Alexandre Sá

14h e 15h Fragmentos de I’m not here ou A Morte do Cisne - André Masseno

14h30 e 15h30 Eles assistem eu danço - Mônica Burity

15h e 16h Uma Peça Seleta - Michelle Moura

16h30 e 17h30 Qual o nome disso ? - Renato Cruz

19h O curador - Daniel Murgel

18h30 às 19h30 Capturando sombras + Primavera

Derretida + Paisagem Humana + Cinema

Manual # 2 - Domingos Guimaraens e Nadam Guerra

5º nível

11h às 20h Instalação literária, vídeo-arte, vídeo-dança, vídeo-poesia

16h Performance de Teatro - Domingos de Alcântara

Teatro

17h Prosa e Dramaturgia

18h Intervalo de Fred Paredes

19h30 Anátema - espetáculo teatral de Roberto

Alvim com a atriz Juliana Galdino

Bistrô

11h às 19h Projeção de poemas visuais de Marcelo Diniz e Fred Girauta.

19h Performance de poesia com a participação dos poetas Patricia Carvalho e Luiz Felipe Leprevost.

Sexta-feira, 22.12

[Encerramento]

4º nível

11 às 19h Vende-se lebre - Julia Cseko

11 às 19h Pano de chão com a cara do Bush + Em caso de - Guga Ferraz

11 às 19h Poema Dadá - Ducha

14h e 15h Uma Peça Seleta - Michelle Moura

14h30 e 15h30 Qual o nome disso ? - Renato Cruz

15h e 16h Fragmentos de I’m not here ou A Morte do Cisne - André Masseno

18h Radio Aberta - Romano

5º nível

11h às 20h Instalação literária, vídeo-arte, vídeo-dança, vídeo-poesia

Teatro

17h Debate final com a participação de Miguel Conde (literatura), Daniela Labra (artes visuais), Michel Melamed (teatro), Vivian Cafaro (dança). Mediador: Francisco Bosco

19h30 Anátema - espetáculo teatral de Roberto Alvim com a atriz Juliana Galdino

Bistrô

11h às 19h Projeção de poemas visuais de Marcelo Diniz e Fred Girauta.

Instalação literária: três autores já publicados em livro estão apresentando textos inédito transformados em espetáculo de palavra e imagem. André Laurentino com imagens de Carolina Matos e voz de Marina Vianna • Cecília Gianetti com imagens de Christiano Menezes • João Paulo Cuenca com imagens de Christiano Menezes, edição de Úrsula Resende e voz de Selton Mello.

Vídeo-poesia: O coletivo Moleculagem e o VJ Tatavo fazem um trabalho exclusivo com os poemas dos poetas Bruna Beber e Lu Lapan, Angélica Freitas e Sérgio Cohn, respectivamente.

Vídeo-arte com os trabalhos dos artistas: Alice Miceli - Jerk off ) / 99.9... metros rasos ; Ana Torres – O atirador ; André Sheik – Demarcação ; Bernardo Pinheiro – Ontem ; . Bruno de Carvalho – Sem título ;  Bruno Prada – Vaga-lúmens  ; Cleantho Viana – Vigilância/Surveillance  /Zênite/Zenith;  Cleantho Viana, Cristina Amiran & Khalil Charif – Novos circuitos ;  Cristina Amiran – Esperando Lisette ; Deborah Engel – Fast food  ; Ducha – Poema Dadá ; Júlio Rodrigues – Vulto Sagrado;. Khalil Charif – Sem conteúdo ;  Marcelo Valls – Exercício.

Vídeo-dança com os trabalhos dos artistas:  Zoom – Evelin Moreira / Mariana Richard ; Corpo – Celina Portella / Elisa Pessoa ; Luzac! – Luciana Brites / Ricardo Nauemberg ; Corpocolado – Lilyen Vass e Alex Cassal ; Flipbook - Letícia Nabuco / Tatiana Gentile ; Killing an Arab – Joe Hiscott e Sheila Ribeiro ; Pas de Corn – Diego Mac ; Fontana – Eduardo Raccah ; Cubo – Georgia Goldfarb / Laís Rodrigues ;  Latência – Rita Aquino / Rodrigo Raposo / Verônica Prates ;  Duo (Pollock) – Allyson Mendes / Cecília Lang / Maíra Maneschy / Tatiana Gentile ; Corporrespondências – Manuela Berardo / Marina Collares / Thiago Sacramento ;  Acidente ao Vento – Beth Martins / Luciana Ponso;  Entro Ver – Lucas Rodrigues ; Hatama – Blu Anita ; Aminioptico – Oscar Malta / Romero Rocha / Patrícia Costa / Eron Villar / Gilson Almeida / Irma Brown / Kassandra Benevides Leonel Brum ; Conficcional – Paula Otero / Mónica Pimenta / Rita Albano.



 Escrito por Marcelo às 11h04
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Portal Literal

No gancho do lançamento de nossos livros-solo, o Portal Literal reuniu Ana Beatriz Guerra, Henrique Rodrigues e este que vos escreve numa entrevista bastante contundente sobre a produção literária brasileira contemporânea e os desafios do jovem autor. Leia, abaixo, alguns trechos do bate-papo. Confira a íntegra nossa conversa aqui

Henrique. Esse momento de efervescência é nacional. Por conta do meu trabalho, tenho acompanhado um pouco a produção de vários pontos do país. Estamos num momento muito feliz de produção. Infelizmente, a gente não está num momento muito feliz de número de leitores, de consumidores de literatura. Ele não tem crescido na mesma proporção do número de autores e das facilidades editoriais, que é um outro ponto que vem facilitando a divulgação de novos autores. Esse momento se deve a um natural processo histórico de levantada da literatura depois de um tempo de sono. Na segunda metade da década de 1980 e na década de 1990, a produção foi bem tímida.

Marcelo. Houve uma ressaca da ditadura. Teve uma produção forte ainda, com Sérgio Sant'anna, Rubem Fonseca nos anos 1970, uma reação frontal à ditadura. Depois, no meio dos anos 1980, tivemos Caio Fernando de Abreu e outros autores, mas também uma ressaca das utopias, tudo aquilo que a gente esperava, onde é que vai dar?, e não deu em nada. E essa ressaca, depois que os grandes temas nacionais se diluem, parece uma total falta de assunto.

Ana Beatriz. Ninguém aqui quer ser imortal. Perguntam-me muito duas coisas, se vou ser imortal e se vou virar tema de tese. Não me interessa isso. O que temos em comum é não estarmos atrelados ao real, como aqueles atrelados à imagem, que querem vender a imagem antes de vender o texto. Mas podemos usar o real como ferramenta para escrever.



 Escrito por Marcelo às 14h09
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Fiquem de olho!

Até a próxima sexta, colocarei mais informações aqui (inclusive a programação).



 Escrito por Marcelo às 11h39
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Parabéns

"Estava faltando você junto a mim..." E agora posso me orgulhar de ter sido coadjuvante de dois destes 31 anos. 



 Escrito por Marcelo às 11h03
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Cenas cariocas

Não deixem de ler, no Buteco do Edu, o tocante relato que ele faz de um encontro acontecido no sábado à tarde, em plena Rua do Ouvidor. Acompanhado de amigos como o Simas, o Pratinha e o Rodrigo Folha Seca, entre outros, nosso Goldenberg esbarrou com meninos do Jongo da Serrinha. E foi então que se deu uma daqueles instantes que fazem a vida valer a pena. Leiam tudo aqui.



 Escrito por Marcelo às 17h14
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A morte do canalha e o Brasil

A (tardia) partida do sanguinário Pinochet, em pleno Dia Internacional dos Direitos Humanos, marca o fim de tristes tempos, mas suscita mais uma vez a pergunta: e aqui, no Brasil, quando abriremos a caixa preta da ditadura militar?



 Escrito por Marcelo às 14h57
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Os curtas de Sabino

Uma ótima notícia: a Biscoito Fino acaba de colocar nas lojas um DVD com os célebres (e pouco vistos) curtas dirigidos em parceria pelo escritor Fernando Sabino e o cineasta David Neves. A seleta, que ganhou da gravadora o pouco imaginativo nome de Encontro marcado com o cinema, reúne os filmes realizados pela dupla na produtora Bem Te Vi, criada por eles em 1972, engendrando perfis de dez autores brasileiros: Carlos Drummond de Andrade, Vinicius de Moraes, Jorge Amado, Erico Verissimo, Manuel Bandeira, João Cabral de Melo Neto, Pedro Nava, José Américo de Almeida, Guimarães Rosa e Afonso Arinos. Comprei o DVD ontem e, logo que puder assistir, comentarei mais aqui.



 Escrito por Marcelo às 10h45
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No Prosa & Verso

Ao abrir o Prosa & Verso (O Globo) no último sábado, tive a felicidade imensa de encontrar uma resenha sobre meu Somos todos iguais nesta noite. O texto era assinado por ninguém menos do que José Castello, um dos mais respeitados críticos literários brasileiros. Leitor sensível, Castello conseguiu tocar no coração do livro, como demonstra o seu texto, que reproduzo aqui na íntegra:

"O mundo que se define nas pequenas coisas"

Em seu novo livro, Marcelo Moutinho se firma com escrita confiante e serena, marcada por benigna desesperança

José Castello

"Há um conto em Somos todos iguais nesta noite, o novo livro do carioca Marcelo Moutinho, que deve interessar muito aos biógrafos e a todos aqueles que escrevem na esperança inútil de deter, ou de restaurar a realidade. Chama-se "Fragmentos de um espelho partido" e trata da impotência humana para capturar o real.

O narrador visita o apartamento de uma mulher que acabou de morrer. Busca de uma vela que, ela sempre dizia, desejava ter ao lado de seu caixão. A primeira coisa que vê, no entanto, é o par de óculos da falecida, largados sobre a mesa da sala, a armação aberta, na espera confiante do retorno de sua dona.

Os óculos servem, agora, como uma assinatura da mulher morta, ou uma despedida. Falam também da inocência dos objetos, sempre prontos para atender pessoas que não existem mais. Ao registrar a visita ao apartamento, o narrador anota: "São linhas frágeis estas, frases e palavras frágeis". A rememoração, seja de uma visita, seja de um objeto, em vez de se referir ao real, fala muito mais da imaginação de quem relembra.

"As linhas que escrevo, elas mesmas quebram espelhos, me desmontam, me assassinam como se a própria literatura fosse para seus operadores um suicídio constante e inevitável". Escrever não para capturar, mas para matar. Trágico o destino das palavras: trair, desfigurar, assassinar aquilo mesmo que elas se empenham em trazer de volta. Destino funesto, também, o dos escritores, seres condenados a tarefas muito além de suas forças.

Não é comum um jovem escritor que escreva com tanta confiança e serenidade. Há nos relatos de Marcelo Moutinho, alguns tão fugidios que se aproximam da poesia, uma delicadeza, uma benigna desesperança, que raras vezes encontramos em escritores formados. A literatura, com suas pompas e extravagâncias, se aferra a demasiadas ilusões; autores jovens, em geral, escrevem movidos pela insolência e cheios de si.

Os temas de Moutinho, ao contrário, são antigos, vêm de muito longe: a velhice, a morte, a despedida, o desapontamento. "Queria uma liberdade à qual não sabia dar nome; um vôo rasante, um salto impossível", escreve no brevíssimo "Peso", um dos quase-poemas que, como sopros de atleta sem fôlego, se esquivam entre seus relatos. "Hoje flutua - lívido, leve como pluma -, sem as enormes asas de ferro".

Há em seus contos, como recomenda Ítalo Calvino, uma leveza que, em tempos acelerados e fastidiosos, se tornou um bem nobre. A literatura de hoje está sobrecarregada: de vaidades, de fixações no mercado, de antecedentes intelectuais, de dogmas. Não é o caso de Marcelo Moutinho - e é aqui, nessa exceção, que sua vocação se evidencia. Ele não precisa de temas chocantes, ou de estratégias espalhafatosas. Narra com brandura, sem açodamento, e se detém, aplicado, sobre as pequenas coisas, ciente de que é nelas que o mundo se define.

O livro se divide em duas partes: "Iguais", com onze relatos, e ""Noites", com outros onze. A forma bipartida, a disposição clássica, porém, é falsa. Os contos de Moutinho deslocam as expectativas do leitor. Durante o primeiro passeio no novo carro do pai, um menino recebe um castigo pelo que não fez. Ao rememorar o grande amor de sua vida, uma mulher chega não a um desejo apaziguado, mas a uma decepção. Uma velha dama usa suas últimas forças para costurar fantasias de carnaval; tarefa feita, da festa só receberá os reflexos. Um menino visita o tio favorito, orgulhoso dos centímetros que cresceu desde a última vez; seu amor-próprio desaba, contudo, diante de uma parede em branco. Depois de batalhar nas ruas durante a noite, um travesti encontra a felicidade em um ramo de flores que lhe caiu nas mãos por engano.

Os personagens de Moutinho travam lutas pequenas e se apegam ao mínimo para sobreviver. Vivem no mais extremo desamparo, e nele se igualam. Como o garoto de "Menino no escuro", eles se aferram a "uma precariedade que parecia lhe fazer bem". Preferem a incerteza da escuridão dentro da qual, por contraste, chegam a ter alguma luz.

"Deus é uma luz que vê", anotou, em seus aforismos, um gênio esquecido como o escritor francês Joseph Joubert (1754-1824), que foi amigo de Diderot e secretário de Chateaubriand. Não é por acaso que recordo os Pensamentos, de Joubert: também nos relatos de Moutinho a realidade se revela, por fim, pouco mais que um efeito, um golpe do olhar. Isso quando não é o próprio olhar que a extermina.

O narrador de "Menino no escuro" nota que os objetos que procura desaparecem. "Onde vão parar as coisas que somem?", ele se pergunta. Indiferente, a mãe o tem como um "pequeno neurótico". Até que ela mesma se apaga, e em seguida as peças do quarto do menino, uma a uma, somem também. Nesse estado de evaporação, que afinal define o mundo contemporâneo, a história sequer se conclui.

Era Joseph Joubert ainda quem dizia que, para escrever bem, se requer uma facilidade natural e uma dificuldade adquirida. Ambas estão presentes na escrita de Moutinho, o que basta para afirmar um talento. Suas histórias são simples. Para seus personagens, crianças inquietas, velhos sem sonhos, pais atrapalhados, seres excluídos, mesmo o mais banal se torna muito doloroso. Viver é uma luta fadada ao fracasso. Escrever também é - embora, pelo caminho, surjam bons livros como este de Marcelo.

É sempre temerário apostar em novos valores, até porque, como diz o próprio Marcelo Moutinho em outro intervalo, "pescar nada tem a ver com pegar peixes". Não se captura o real, no máximo sincronizamos com ele e com sua luz fraca, ou nem isso. Moutinho faz, por fim, um breve exercício de crítica literária em "Dedicatórias", relato que vem a ser a sucessão das dedicatórias que Eduarda e Pedro anotam nos livros que se presenteiam durante uma longa relação.

Ali, nestes livros, surgem pistas das paixões literárias do próprio Moutinho: Carlos Heitor Cony, Caio Fernando Abreu, Clarice Lispector, Mário Quintana, Fernando Pessoa. Nas dedicatórias, confirma-se sua sábia avareza, seu apego à palavra plena, sua preferência pelas coisas que se dizem com o silêncio e no escuro. Somos todos iguais nesta noite é um livro corajoso. E isso, em si, vale muito. Até porque, está escrito, o medo na maior parte das vezes dá lugar ao fastio, e não à coragem." 



 Escrito por Marcelo às 10h40
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Rápidas sobre o fim-de-semana

. Hoje tem ensaio técnico do Império Serrano na Sapucaí. Sem a obrigação de se apresentar para os jurados, a escola desfila leve e tranqüila mas com bateria, baianas, intérprete oficial e alas completas, as arquibancadas ficam abertas para quem quiser assistir e a cerveja é farta e barata. Não existe programa melhor, ainda mais porque se trata da verde-e-branco da Serrinha. A batucada começa às 21h;

. Amanhã vou fazer uma espécie de 'lançamento não-oficial' de meu Somos todos iguais nesta noite lá no Bip Bip. A idéia é possibilitar uma segunda chance para aqueles que não puderam ir à Livraria da Travessa no mês passado, além, é claro, de ser uma ótima oportunidade para tomarmos uma(s) cerveja(s) juntos. Repassarei o percentual normalmente destinado à livraria na venda dos livros aos projetos sociais tocados pelo Alfredinho. Se bobear, rola até uma roda-de-samba? Estarei lá a partir das 20h e espero vocês.



 Escrito por Marcelo às 14h06
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Leituras: "Leda"

O eterno movimento

Em Leda, Roberto Pompeu de Toledo explora as zonas de sombra entre realidade e ficção

Marcelo Moutinho

Mestre da arte gráfica, o holandês Maurits Cornelius Escher é autor de uma conhecida gravura na qual duas mãos desenham a si próprias em traços de lápis. Na imagem, torna-se impossível ao observador precisar qual das mãos efetivamente iniciou o esboço, sugerindo-se um movimento contínuo, circular e infinito entre os dois entes que aparecem embaralhados na figura: criador e criação.

Neste sentido, a gravura de Escher representa também uma metáfora possível da história encenada no romance Leda, estréia do jornalista Roberto Pompeu de Toledo na ficção. O livro configura um delicioso inventário sobre as tensões entre realidade e fantasia, delineado a partir das relações de um escritor celebrado com seu biógrafo. Autor do belo A capital da solidão e titular de uma coluna semanal na revista Veja, Pompeu de Toledo não se ressente dos cacoetes de ensaísta, que poderiam turvar a narrativa, e consegue construir uma trama cheia de reviravoltas, na qual sobram farpas irônicas na direção dos críticos, especialmente quanto ao uso de jargões e aos mecanismos de produção de "auras" literárias.

O escritor em questão no enredo é Bernardo Dopolobo, "aclamado pela crítica e querido pelo público, autor de obra extensa e original", que se encontra no auge da carreira quando procurado por Adolfo Lemoleme. Admirador confesso de Dopolobo, o professor de literatura da Universidade Luiza B. lhe propõe erigir "a mais abrangente e profunda biografia já feita em nosso idioma, em qualquer tempo" com base em sua vida.

Durante a empreitada, Lemoleme não se limita a vasculhar documentos e entrevistar o autor e aqueles que o rodeiam ou rodearam. A investigação se expande para terrenos inusitados: o biógrafo refaz as viagens de Dopolobo utilizando os mesmos meios de transporte e hospedagem e, à medida que a pesquisa avança, começa a incorporar também as sensações experimentadas pelo biografado. Nos fundões do Rio Negro, na Amazônica, sente febre; no Reino da Espadócia, participa de uma batalha; na Chapada do Simples, é vítima de um acidente – assim como acontecera com Dopolobo.

No decorrer do trabalho, Lemoleme convive com dilemas internos, personificados em duas figuras absolutamente imaginárias que concebeu "para melhor encaminhar os argumentos e contra-argumentos em que se debatia sua pobre dialética". Com Carlos Nochebuena, seu "analista", conversa sobre questões afetivas, ao passo que Albert Spielverderber, seu "orientador", serve-lhe de interlocutor para discutir tópicos ligados ao ofício a que resolveu se dedicar. "Tão importante quanto a obra, para conhecimento pleno de um artista, é entender-lhe a vida. A vida preenche as lacunas deixadas nos interstícios da obra", pondera-lhe Lemoleme. "Como reproduzir, na letra fria dos parágrafos, os impulsos, as emoções, as retensões, as esperanças e os medos que constituem o estofo de uma existência?", retruca Spielverderber, antes de vaticinar: "Toda biografia é uma fraude".

Tais diálogos funcionam como "comentários" a respeito do tema que se desenvolve no romance, no qual as fronteiras entre biógrafo e biografado vão se esfumaçando cada vez mais. O sucesso do livro sobre Dopolobo lega a Lemoleme grande reconhecimento, suscitando especulações "se doravante o biografado será mais lembrado como autor ou como personagem". Repentinamente alçado à fama intelectual, Lemoleme é também visto pela cidade na companhia da fotógrafa Felícia Faca, ex-mulher do protagonista de sua obra.

Vem, então, o contra-ataque: Dopolobo lança A catedral invertida, uma biografia de seu biógrafo. E, a exemplo dele, toma-lhe de empréstimo alguns fatos de sua vida. Da mesma maneira que Lemoleme lamentara, em entrevistas, a morte terrível do pai, apropriando-se de um drama originalmente inscrito na trajetória de Dopolobo, este inclui em seu currículo uma passagem profissional pelos Correios, em verdade vivenciada pelo primeiro.

No esteio de todos esses intrincados vínculos, embaralhados com engenho pelo narrador, Lemoleme finaliza o segundo volume da biografia de Dopolobo, do qual passa a fazer parte também como personagem. A catedral invertida "convertera-o num biógrafo enganchado na vida do biografado, assim como o peixe se engancha no anzol" e, nesse jogo de espelhos, o dois vêem-se investidos no duplo papel de autor e protagonista. Perde-se então - e irremediavelmente – a frágil nitidez que ainda havia entre esses dois pólos. Lemoleme e Dopolobo desenham e são desenhados, tecem e são tecidos, como as mãos compostas por Escher e – por que não? – como vida e arte, afinal.

* Escritor e jornalista



 Escrito por Marcelo às 11h33
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John Cassavetes

Ele foi um cineasta independente muito antes de o adjetivo virar cacoete nas mãos de diretores menos talentosos. Ele trabalhava como ator em Hollywood sobretudo para sustentar seus projetos pessoais. Ele unia ao improviso do olhar documental uma extrema liberdade de improviso, que muitas vezes se estendia à montagem. Ele é John Cassavetes, cineasta que conheci através do professor Cláudio Ulpiano no célebre grupo de estudos filosóficos que funcionou na Rua dos Oitis nos anos 90. Pois bem: Cassavetes é objeto de uma mostra que o CCBB realiza de hoje até dia 17, incluindo algumas de suas obras-primas, como Sombras, de 1960, Faces, de 1968, e Gloria, de 1980 (este ganhou uma refilmagem fraquinha há pouco tempo). Como seus filmes rarissimamente passam por aqui e nunca foram lançados em DVD, a hora é de aproveitar, pois o evento parece bastante completo: contempla todos os seus 12 longas, quatro produções em que atuou, além de dois documentários a respeito de sua trajetória. Confira a prograação completa aqui.



 Escrito por Marcelo às 10h11
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Bife sujo

Ah, sim: estréia hoje na coluna ali ao lado (a prestigiosa coluna dos links indicados ;) o blog Bife sujo, da escritora Bruna Beber.

 Escrito por Marcelo às 18h20
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Mais impressões

Mariel Reis (no blog Paralelos) e Marcelo Alves (em seu Argonauta digital) postaram mais duas análises sobre o livro. Seguem os textos:

"Menino do Rio"

Mariel Reis

"A palavra certa para definir o conjunto de narrativas enfeixadas em "Somos todos iguais nesta noite", o novo livro de Marcelo Moutinho, é singularidade. As narrativas têm o ponto comum da lembrança afetiva, e partindo dela estabelecem relações com a realidade. Outro ponto importante é a presença de um subúrbio nostálgico, idealizado na mente do escritor e recriado através de sua lembrança, resgatando fatos julgados imprescindíveis para a formação de sua memória.
Marcelo Moutinho investe sobre a cidade. Esquadrinha a alma dos subúrbios cariocas à moda de um Ribeiro Couto. Soma à investigação um olhar cinematográfico um road movie do menino que no modelo de automóvel novo do pai acompanha a movimentação dos anônimos que cruzam seu caminho.
O lirismo bêbado de Moutinho não esquece dos clowns. E tampouco dos sonhadores. O pescador jogando sua tarrafa nas estrelas metaforiza nossa incessante busca através da vida de um sentido, e nele podemos enxergar a tarefa do escritor, mergulhado no irremediável de si mesmo.
"Rosa Noturna" e "Dedicatórias" são os dois pontos altos do livro. Ambos versam sobre a dissolução do humano e atravessam a própria crise que engendram para recriarem a si mesmos no ambiente inóspito de um futuro sem esperança. Marcelo Moutinho é franco como o próprio sorriso estampado em sua fotografia. E cada conto de seu livro é este mesmo sorriso, em todas as possibilidades e significados. E por cada sorriso passeia uma imagem do Rio, um enigma. Basta entrarmos para começarmos a decifrá-lo".

"Memórias e noites: o livro de contos de Marcelo Moutinho"

Marcelo Alves

“O livro de contos Somos todos iguais nesta noite, de Marcelo Moutinho, se destaca pela delicadeza extraída a partir de situações aparentemente banais, sobretudo na primeira parte, "Iguais". Neste conjunto, é possível perceber elementos de uma memória social que pontuam cada um dos contos, lembrando, em muitos momentos, trabalhos acadêmicos como Memória e sociedade, de Ecléa Bosi. Convém destacar que o livro de contos não somente resgata, mas partilha com o leitor; o título (tirado de uma canção, creio eu), muito feliz, nos envolve na construção das tramas: "somos todos iguais...". Na segunda parte, "Noites", há um pouco do elemento fantástico, algo do realismo mágico, porém sobressai temas que muitas vezes, são ou foram agregados ao mito da "noite", como, por exemplo, a solidão, o mistério, entre outros. Tal título, da segunda parte, não agrega uma experiência singular, antes diversifica. A singularidade ocorre no termo "nesta", no título do livro, momento único em que autor e leitores agregam-se sob o manto indefinido da memória e do noturno. O melhor conto do livro que traduz todas essas possibilidades aqui destacadas, em minha opinião, é "Rosa noturna". Também gostaria de pontuar o conto "Desfile", não somente pelo tema do carnaval (e sobre carnaval e literatura temos pouco), mas principalmente pela construção dos diálogos, que permitiu uma fusão entre forma e conteúdo bem elaborada. Quem acompanha o trabalho de Marcelo Moutinho percebe o crescimento e o amadurecimento literário em Somos todos iguais nesta noite.”



 Escrito por Marcelo às 18h05
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"E um trem de luxo parte..."

 

Na Central, com George, Loredano e Rosana (foto da F.)

Graças ao fato de o dia 2 de dezembro ter caído num sábado, pude ir pela primeira vez ao Trem do Samba. E a impressão - descontada a desorganização da Supervia, que impossibilitou, por exemplo, que a Velha Guarda do Império embarcasse no primeiro trem, como programado - foi das melhores. Antes, durante ou depois da viagem, eu e F. encontramos muitos amigos (Loredano, Rô Lobo, Chico, Marcelo de Mello, Paulo Thiago, Andreazza e Ana P., para citar alguns), passamos por diversas rodas de samba e, sobretudo, nos deliciamos com os sambas entoados pela Velha Guarda a caminho de Osvaldo Cruz.

De Heróis da Liberdade a Império do Divino, de Os cinco bailes da história do Rio a Eu quero, de Aquarela brasileira ao tema de 2007, as célebres músicas que legaram à Serrinha a primazia absoluta quando se trata de samba-enredo foram cantadas em coro por quem viajou, apertadinho, no vagão imperial. Ao parar em Osvaldo Cruz, a surpresa: uma pequena multidão aguardava em cima da passarela, para saudar a chegada do trem - que se deu, aliás, ao som dos versos de Estrela de Madureira ("e um trem de luxo parte / para exaltar a sua arte / que encantou Madureira"). Depois de 'tomarmos uns copos' numa barraquinha, esticamos para a roda do Bip, finalizando a noite no Getúlio, onde esperávamos encontrar o Baiano, que já tinha recolhido. Mas a festa continua na sexta, quando terá ensaio técnico do Império na Sapucaí. Evoé.

 

Já em Osvaldo Cruz, com Marcelo de Mello, Chico, F. e George (foto do Paulo Thiago)



 Escrito por Marcelo às 09h56
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