A última madrugada

Depois de alguns textos nos quais parecia estar ainda tomando o pulso dos novos leitores, o amigo Cuenca acertou na mosca ontem. Em sua coluna no suplemento Meganize (O Globo), escreveu aquela que julgo ser simplesmente a sua melhor crônica, inclusive considerando as publicadas no Caderno B. Reproduzo o texto aqui, ainda sob o efeito bom da leitura: 

"A última madrugada"

João Paulo Cuenca



"Na última madrugada, nos encontraremos sob um pirulito de esquina marcando o cruzamento de duas ruas que não se encontram (Rio Branco com Vinicius, Barata Ribeiro com Paissandu), e ali você apertará minha mão antes da nossa correria pelas avenidas desocupadas, entrando e saindo de jardins e parques imaginários, nossos corpos iluminados por uma lua minguantemente fria, vigiados por umas poucas janelas acesas no topo dos prédios. Por trás delas, cortinas vermelhas guardarão o sono de sabe se lá quem, e nós dois perderemos horas sentados numa pedra de calçada, despindo as paredes num jogo de adivinhação sobre o que aconteceria por trás da fachada dos últimos andares, na penumbra dos quartos calados (uma luz de cabeceira desenha um círculo no teto, um vulto se mexe) e nos grandes salões vazios da Avenida Atlântica (quadros azuis na parede, o movimento interrompido dos bibelôs).

Suas histórias sobre os apartamentos e seus moradores de ficção serão sempre melhores do que as minhas, e com essa doce derrota será inaugurada nossa última noite. Sem alarde ou o desejo de estar em algum lugar em especial, e, ao mesmo tempo, estando em todos os lugares, nos esparramando pela cidade aberta, asfaltando o chão com os nossos pés, erguendo a paisagem com os nossos olhares de criança. Depois desses jogos de imaginação na calçada, entraremos, sob a proteção de toda a cavalaria de Jorge da Capadócia, num subsolo qualquer em Copacabana onde você esquecerá meu nome depois de duas batidas de abacaxi e eu enlaçarei seu corpo num passo desastrado enquanto todos do lado de fora de nós dois desbotarão, perdidos num outro fuso. Abafados pela fumaça, dois andares abaixo das pedras portuguesas, riscaremos com os pés o traço de fronteiras entre países desconhecidos: eu perdido num cabaré da europa oriental, você escondida num beco em Damasco, vestindo um véu nos ombros sob a marcação de um surdo desafinado e o fim do terceiro refrão.

Lá fora, abandonando o tempo do mundo, espreguiçaremos nossos tentáculos um para dentro do outro, dançando o último samba da última madrugada, que será entoado no meio da rua, na passagem dos carros ausentes, por um grupo de malandros cabisbaixos, daqueles que, como nós, varam a noite batucando tamborins até o início do dia. Depois, e recorrentemente, teremos sono na última madrugada. Deitaremos na praia, você pousada nas minhas coxas, eu perdido nas suas órbitas, e veremos o oceano riscar elipses na areia. Sobre o mar, a ponte prateada derramada pela lua se esticará do abismo (o horizonte, atrás das Ilhas Cagarras) até a ponta dos nossos dedos descalços e sujos (os seus num movimento constante, os meus, calados e embrutecidos). Na nossa última madrugada, seremos como os galhos de duas árvores que não se vêem, mas que se tocam quando venta.

Teremos fome, e iremos comer numa confeitaria no Leblon, num hotel na Presidente Vargas, num bingo no Catete, no Capela da Lapa. Depois, numa calçada da Mem de Sá, você vai me empurrar num balcão iluminado onde comprará uma ficha de videokê para cantar, trôpega, a última de amor. Longe, carros vão frear, alguém vai quebrar uma janela. Haverá também o miado dos gatos, as baratas e ratos inaugurando bueiros. Um grito abafado de mulher. E a multidão silenciosa, deitada em milhões de camas, encolhida sob as marquises, flutuando sobre nós e a cidade.

Antes de voltar para casa, no ponto de um ônibus que nunca chegará, você vai me perguntar se eu posso ouvir, por trás do silêncio, os sonhos de todos os que dormem: "São milhões sonhando enquanto estamos acordados". E eu vou te contar mentiras e dizer que sim. Que posso ouvir todos os sonhos do mundo. Que, na verdade, eu e você somos sonhados por outros, que agora dormem. Que a nossa última madrugada jamais amanhecerá."


P.S. A gravura é Céu vermelho, de Goeldi...



 Escrito por Marcelo às 11h47
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A capa

Acaba de ficar pronta e mostro aqui em primeira mão a capa do meu novo livro, Somos todos iguais nesta noite. A foto que a ilustra é do amigo Christiano Menezes. Como nunca é demais lembrar, o lançamento será no dia 13 de novembro, a partir das 20h, na Livraria da Travessa de Ipanema. Espero vocês todos lá!



 Escrito por Marcelo às 10h27
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Tim Festival? Aonde mesmo?

Foi um fim-de-semana carioquíssimo o que passou. Carioquíssimo porque alimentado daqueles elementos que essa nossa cidade flechada mas ainda vigorosa tem de melhor: samba, amigos, descontração, informalidade e paixão. Tudo começou na sexta à noite, quando, apesar de cansados pacas, eu e F. resolvemos enfrentar a festa de apresentação das fantasias do Império Serrano para 2007. Mais uma vez, tive a comprovação de que a verde-e-branco da Serrinha está em ótimas mãos. Como bem disse o imperiano de fé Carlos Andreazza, é ótimo constatar que a escola hoje é, de fato, administrada.

O evento foi extremamente organizado, a quadra estava limpa e arrumadinha, e pude ter a certeza de que as expectativas para o ano que vem são alvissareiras: embora me pareçam um pouco pesadas, as fantasias são de muito bom gosto, e o enredo - confuso, como já salientei aqui - começou a fazer algum sentido após a apresentação oficial. Foi uma madrugada cheia de coisas boas, duas delas em especial. A primeira: a iniciativa, digna de todos os elogios, de colocar o pessoal que trabalhou no barracão fazendo as fantasias para desfilar na mesma passarela por onde transitaram, antes, os "modelos" com os protótipos. Os aplausos da quadra lotada foram uma forma de dizer a eles o quanto são fundamentais no processo todo do carnaval. 

Mas a cena mais bonita da festa aconteceu no fim. O desfile das fantasias havia se encerrado e fui dar uma passada no banheiro para poder viajar em paz na volta para o Jardim Botânico. No palco, os puxadores lembravam o célebre Bum bum paticumbum prugurundum, acompanhados da bateria (que bateria, meu Deus!). Dentro do banheiro, um senhor negro, com poucos dentes na boca, dançava com a própria vassoura. Era o responsável pela limpeza do banheiro, que cantava os versos do samba e bailava, sob a poça de água e xixi, "com a dignidade de um mestre-sala". Os olhos cheios d'água revelavam lembranças e emoções que decerto viveu, talvez pelos idos de 1982, e naquele momento eram resgatados pela composição de Beto Sem Braço e Aluízio Machado. Parei e fiquei observando, por alguns segundos, aquele homem sendo feliz. E saí de lá feliz também, com a impressão de que a felicidade é quase sempre simples assim.

  Pratinha e Simas (foto do Edu)

E essa felicidade, simples, pura, desafetada e real, esteve presente na comemoração dos aniversários do Pratinha e do Simas, que levou uma pá de gente bacana para a Rua do Ouvidor. Em frente à Livraria Folha Seca, foi formada uma roda de choro e samba de primeiríssima, que reuniu alguns dos bons músicos da área, com direito à improviso, e se cercou de uma outra roda, ainda maior, de pessoas que nos dão a esperança de que o Rio tem jeito, sim. Gente como o Loredano, o Edu Goldenberg, o Rodrigo Ferrari, o Alfredinho do Bip, o Moacyr Luz, o Cid Benjamim, o Chiquinho Genu, a Rosana Lobo, o Henrique Rodrigues, o Alberto Mussa e os próprios Pratinha e Simas, que honravam, ali, a história cerzida nos paralelepípedos e prédios centenários do antigo Centro, resistindo contra uma onda de medo, terrorismo e violência que tenta, mas não consegue macular a cidade.

 

O fecho de ouro, no domingo, foi a vitória acachapante de Lula, ainda mais consistente no Rio, e que além de confirmar que a força às vezes escrota e mal utilizada da imprensa foi derrotada, significou também uma opção preferencial pelo pobres. Foi adequado o tom conliciatório e perfeita a afirmativa do presidente no primeiro discurso após o pleito: "governaremos para todos, mas os pobres serão prioridade". É assim que deve ser, mesmo que nossas consciências de classe média por vezes reclamem, mesmo que a alta burguesia paulistana não queira. Por fim, foi neste final de semana que eu e F. completamos 18 meses de namoro e um mês no novo apê. Uma coincidência boa, eu creio.



 Escrito por Marcelo às 11h42
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Fantasias para 2007

"Não me perguntes / Pra que samba eu vou / Porque eu lhe direi / Que vou pro Império, sim senhor"

Hoje, na quadra da verde-e-branco de Madureira, vai rolar a exibição das fantasias para 2007, com a presença da velha-guarda, da bateria nota 10 e sua madrinha Quitéria Chagas, do puxador Nego e do bom povo da Serrinha. Será também uma das primeiras apresentações do samba de Arlindinho Cruz, Aluizio Machado, Marcos Sena, João Bosco e Maurição após a escolha oficial. A festa começa às 22h e eu estarei lá!



 Escrito por Marcelo às 15h34
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Cuenca e Leones

 

Dois novos links estréiam hoje na lista de indicados do Pentimento: o Blog de Anotações, do amigo João Paulo Cuenca, que agora integra o rol de blogueiros do Globo; e o .Canis Sapiens, do talentoso André de Leones, que venceu o Prêmio Sesc de Litetura com o romance Hoje está um dia morto (Record). Ambos valem a conferida.



 Escrito por Marcelo às 10h58
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Heitor Ferraz

 

"Estrangeiro"

 

Heitor Ferraz

 

"O café tomado na esquina

- meio de lado

no balcão

a ponto de observar

a manhã que reproduz

e se mistura

em pernas rápidas

(decomposição do movimento)

 

O café pago no caixa

- troco, obrigado, cigarro na boca

de mais uma manhã

 

mais uma manhã

trocando olhares

medindo gestos

(somos todos estrangeiros

nesta cidade

neste corpo que acorda)

 

e não me misturo

- com essa gente,

não me misturo."



 Escrito por Marcelo às 09h44
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Moa no Al Farabi

O sebo Al Farabi, do amigo Carlos, programou para a próxima quinta-feira um início de noite especialíssimo: Moacyr Luz, em voz e violão, desfilando algumas das pérolas que compôs com feras como Aldir Blanc, Luiz Carlos da Vila, Hermínio Belo de Carvalho e Paulo César Pinheiro. O show custa apenas R$ 12. O Al Farabi fica na Rua do Rosário, 30, numa das regiões mais bonitas do Centro do Rio.



 Escrito por Marcelo às 09h38
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História sexual da MPB

O amigo Rodrigo Faour não pára: depois de escrever a biografia de Cauby Peixoto (Bastidores – Cauby Peixoto, 50 anos da voz e do mito), narrar a trajetória da Revista do Rádio e coordenar o lançamento de fundamentais long-players do nosso cancioneito em formato digital, agora ele se debruça sobre A história sexual da MPB. O livro - publicado pela Record e com lançamento marcado para amanhã, na Travessa de Ipanema - nasceu de uma pesquisa sobre as músicas que relatam a evolução comportamental do brasileiro nos temas de amor e sexo durante os últimos 250 anos. Ou seja: de nosso primeiro compositor popular oficial – Domingos Caldas Barbosa, em meados no século 18, às letras desbocadas do chamado funk carioca. Dividido em tópicos, o trabalho retrata O amor na MPB, falando do amor mal-resolvido que permeou a maior parte das letras românticas de nossa música até os anos 60; A evolução da mulherA sensualidade e o erotismo, O duplo sentido e a sacanagem, As canções de apelo gay, As transgressões em temas de amor e sexo; e, finalmente, o escândalo provocado pela dança do maxixe na virada para o século 20, comparado por Faour ao escarcéu que, há pouco tempo, se formou em torno do funk. Além disso, o livro traz um encarte com mais de 150 capas de discos que, nas últimas décadas, foram representativas do processo evolutivo. O lançamento acontecerá a partir das 20h, quando vai rolar um debate entre o autor e sexóloga Regina Navarro Lins.



 Escrito por Marcelo às 12h29
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Pedro Amaral

"Vívido"

"Não senhores não se importunem
com essa indisfarçável tristeza,
tristeza por nada, repentina,
que nada aplaca ou anima.

Não é amarga, não tem ranço,
não empesta o ar nem arrasa,
é como um pássaro batendo asas
pela casa
adentro, já passa."



 Escrito por Marcelo às 11h13
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Canção necessária para os dias que correm

"Nos horizontes do mundo"

Paulinho da Viola

"Nos movimentos do mundo
Cada um tem seu momento
Todos têm um pensamento
De vencer a solidão
E quem pensar um minuto
Saberá tudo dos ventos
E se tiver sentimento
Estenderá sua mão
Nos movimentos do mundo
Quem não teve um sofrimento
E não guardou na lembrança
Os restos de uma paixão
Coração recolha tudo
Essas coisas são do mundo
Só não guarde mais o medo
De viver a vida, não

Nos movimentos do mundo
Requerer perdas e danos
É abrigar desenganos
Sem amor e sem perdão
Nos horizontes do mundo
Não haverá movimento
Se o botão do sentimento
Não abrir no coração"



 Escrito por Marcelo às 10h57
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Farpas de Dori

Com aquele irresistível mau-humor que é parte de seu charme, Dori Caymmi critica hoje, em entrevista à Mônica Bergamo (Folha de S. Paulo), a falta de uma "dose Brasil" na cultura que temos importado. "Vejo cultura brasileira nesses 500 anos nossos. É o folclore, a influência dos portugueses e holandeses, whatever. É o que o africano fez na Bahia: o afoxé, a capoeira, o samba de roda. Nós todos temos influências, mas é preciso aplicar uma dose de Brasil", afirma ele, que também soltou farpas na direção de Caetano Veloso: "Fui informado do CD do Caetano, que é mais rock, e, já sem ouvir, eu sou contra. Ele é uma das pessoas que eu mais gosto. Mas é polêmico, porque gosta de fazer esse tipo de coisa. Prefiro lembrar do Caetano pelas coisas que ele já fez, e não pelas coisas que ele pretende fazer pra mídia. Transformar rock'n roll em cultura e chamar de brasileira me cansa a beleza". Ressalvas, só para Chico Buarque - "a resposta da minha geração foi dada por ele" - e Paulo César Pinheiro: "É o que me resta neste país. Ele é uma espécie de muleta para suportar esse empobrecimento cultural e essa tentativa burra de globalização musical".



 Escrito por Marcelo às 15h05
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Balada Literária

Começa hoje em São Paulo a I Balada Literária, mais uma boa idéia do amigo Marcelino Freire. Para quem estiver na cidade, será uma excelente oportunidade de conhecer alguns dos bons autores que estão ajudando a fazer a novíssima literatura brasileira. O evento será aberto com o lançamento de Sonho interrompido por guilhotina, de Joca Terron, às 20h, na Mercearia São Pedro. Entre amanhã e domingo, haverá diversas mesas (nenhuma delas têm título, o que abre a discussão), reunindo nomes como Glauco Mattoso, Mário Bortolotto, Ronaldo Bressane, Cadão Volpato, Lourenço Mutarelli, Xico Sá, Nelson de Oliveira, Santiago Nazarian, Sérgio Sant'Anna, Ivana Arruda Leite, Flávio Moreira da Costa, Antônio Carlos Vianna, Paulo Scott, Daniel Galera e José Miguel Wisnik. A programção completa está aqui.



 Escrito por Marcelo às 11h12
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Blog do Paulo Pires

Quem acaba de estrear um blog - que já foi para a lista de indicados - é o amigo (sumido) Paulo Roberto Pires. Em seu Toca Tudo, hospedado no sítio No Mínimo, ele vai falar sobretudo de música boa, como demonstram os primeiros posts, dedicados a sons tão diferentes quanto os do recifense Ortinho e do genial pianista Keith Jarret*.


*Do artista, aliás, indico o sensacional Keith Jarret no Blue Note, que inspirou livro homônimo e também muito bom do Siviano Santiago...

 Escrito por Marcelo às 11h01
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Pobre Briza

Mais do que constrangedor, foi triste, muito triste, ver Geraldo Alkmin discursando hoje com o lenço vermelho, símbolo clássico do brizolismo, no pescoço. O lenço lhe fora passado por militantes do PDT de São Paulo (e eu que achei que isso não existia), gente ligada à Força Sindical. Pobre Briza: o que são capazes de fazer com sua mais do que digna e admirável memória? Como bem disse a Beth Carvalho durante o encontro com artistas e intelectuais no Canecão, onde estive anteontem, apesar de eventuais diferenças "os verdadeiros brizolistas não estão neutros no segundo turno, muito menos com o tucano-pefelismo. Os verdadeiros brizolistas estão com Lula".



 Escrito por Marcelo às 00h41
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30% de desconto

Ótima sacada este anúncio, feito pela agência de publicidade Saatchi & Saatchi para uma liquidação da rede de livrarias italiana Mondadori e reproduzido no blog do Sérgio Rodrigues. Como os títulos inteligentemente demonstram, a loja fazia uma promoção com desconto de 30% na compra dos livros.



 Escrito por Marcelo às 12h28
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Curso sobre a história do cinema

O amigo Marcelo Carvalho, que conhece profundamente o assunto, inicia hoje o curso História do cinema – uma introdução ao diálogo com os filmes, autores e movimentos essenciais. As aulas acontecerão às quartas-feiras, sempre às 19h30, no Instituto de Estudos Contemporâneos Antônio Abranches, em Laranjeiras. A idéia é apresentar a história da chamada Sétima Arte paralelamente à discussão de temas essenciais para a compreensão do próprio cinema (como a definição de plano, o raccord, a montagem, tempo e movimento, a questão da autoria etc) e a apresentação de trechos de filmes. Segue a Ementa: Genealogia e invenção do cinema. Os primórdios. O Expressionismo Alemão e o cenário na França: Impressionismo, Surrealismo, Dadaísmo, Realismo Poético. O documentário. A montagem orgânica americana. Hollywood. Vanguardas soviéticas e a “montagem rainha”. Nazismo e cinema. Neo-Realismo Italiano e desdobramentos. Cinema Verdade. A Nouvelle Vague da França. Cinema japonês. Cinema experimental. Cinema e vídeo. Novo Cinema Alemão. Underground norte-americano. O Cinema Novo Brasileiro e o Cinema Marginal. Dogma 95. O cinema iraniano e o cinema chinês. O plano e a seqüência. As duas faces do plano. Espaço fora da tela. Roteiro X filmagem: onde o filme é decidido? A montagem. Movimento e tempo no cinema. Cinema de Poesia. A Política dos Autores.

Mais informações podem ser obtidas através do telefone 2556-8430.



 Escrito por Marcelo às 11h07
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E deu Arlindo e Aluisio de novo

Acabo de saber, através do Carlos Andreazza*, que o meu samba preferido entre os 28 concorrentes foi o escolhido para levar o Império Serrano à Sapucaí no ano que vem**. A grande sacada dos compositores Arlindinho Cruz, Aluisio Machado, Maurição, Carlos Sena e João Bosco foi driblar o dificílimo tema do enredo centrando-se em seu conceito básico: a diferença. Segue a íntegra da letra, que promete ecoar pela nossa quadra já a partir de sábado...

"Ser diferente é normal"

Arlindo Cruz, Aluisio Machado, Maurição, Carlos Sena e João Bosco

"Eu quero ver
O amor florescer,
Ser diferente é normal,
E o Império taí
Pra levantar seu astral,
Se liga no meu carnaval.

Serrinha vem pedir respeito,
Temos de olhar de outro jeito.
Quem nasceu diferente
E venceu preconceito,
A gente de que admirar,
Harmonizar pra ser feliz,
Diferença social pra quê?
Tá na cara que a beleza
Está nos olhos de quem vê,
Romantismo irradia energia pra viver
Nesse mundo, onde tudo é relativo,
Minha escola é meu motivo,
Meu maior prazer!

A história do samba mudou,
Bateria diferente, olha o toque do agogô,
O primeiro destaque e a comissão (de frente)
São novidades verde e branco, meu irmão.

Difícil
Conviver na adversidade,
Com arte ser eficiente,
Fazer da pintura sua liberdade,
Fazer esculturas usando a paixão,
Feitiço de poeta invade o coração,
Divino é o poder da criação.
Eu pergunto a você
Será que existe?,
Limite entre a loucura e a razão”.


* O Andreazza, aliás, faz lá no Tribuneiros uma linda descrição sobre o que foi a finalíssima de ontem à noite. Segue um trecho: "(...) O samba, leve e animado, positivo mesmo, esperançoso, a percorrer o enredo mas sem nele se aprofundar, função que é do desfile em conjunto, joga a favor do tema escolhido para 2007, que já classifiquei dificílimo, “Ser diferente é normal, a diferença o Império faz no carnaval”, e que abordará na avenida as diferenças – físicas, étnicas, sociais, religiosas etc. – a partir da história da própria escola, ela também marcada pela diversidade, pela adversidade!, primeira escola de samba vinculada na origem a um segmento profissional, os estivadores do porto do Rio, discriminados mas sem jamais se cerrar em guetos, ao contrário, desde o início idealizadores duma escola de samba franca, popular, e de saída atraente, desde o início a ocupar e expandir seu espaço, de Madureira, do subúrbio, dos subúrbios da Central para toda a cidade, lançando-se – sem precedentes na história do carnaval – a quatro conquistas seguidas e logo em seus quatro primeiros anos de desfile, os “quatro anos de vitórias sem igual”, chegada portanto avassaladora do Império, motivadora aliás de cisão na Liesa da época, o jovem e já de cara glorioso Império Serrano a incomodar e destronar as poderosas Portela e Mangueira. Isso tudo faz sessenta anos (...)"

** Quem estiver afim de desfilar na Ala dos Devotos, da qual faço parte, basta me mandar um email (m.moutinho@uol.com.br)...



 Escrito por Marcelo às 10h56
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Zé Ruela - O legítimo

A coluna Gente Boa (O Globo), do Joaquim Ferreira do Santos, publica hoje uma breve entrevista com o engenheiro José Carlos Ruela, o verdadeiro Zé Ruela. Em uma das perguntas, a coluna indaga ao engenheiro se ele "se sente um vacilão", como consagrou a gíria que pegou seu nome emprestado. A resposta: "Que nada, tiro de letra! Às vezes, a empresa me destaca para resolver um pepino. Quando chego os caras brincam: 'Lá vem aquele Zé Ruela que a diretoria mandou'. E eu digo: 'É comigo mesmo!"



 Escrito por Marcelo às 13h50
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Gilbert Kate Chesterton

O amigo Sidney Silveira convida para o lançamento de A inocência do padre Brown, de G.K. Chesterton, que acontecerá amanhã, a partir das 18h, no sebo Al Farabi. O livro é o primeiro título de ficção publicado pela Sétimo Selo e vem acrescido de um prefácio assinado por Rosa Nougué(Chesterton: uma vocação para o mistério) e de um apêndice da lavra do próprio autor (o artigo Como escrever uma história de detetive), que é um dos mestres do gênero policial, embora ainda não tão conhecido no Brasil. A professora Rosa Nougué e o tradutor do romance, Carlos Nougué, estarão no Al Farabi, onde prometem fazer uma introdução sobre a literatura de Chesterton para os convidados.



 Escrito por Marcelo às 10h27
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Sonho interrompido por guilhotina

No sábado passado, o Prosa & Verso publicou resenha minha sobre Sonho interrompido por guilhotina, o novo livro do Joca Reiners Terron. Segue a íntegra do texto:

A palavra inútil

Narrativas de Joca Reiners Terron encenam impotência do escritor diante do mundo

Marcelo Moutinho

Paul Valéry distinguia o discurso poético por sua inutilidade. Sob esse prisma, os versos não atenderiam a necessidade alguma, exceto àquelas que eles mesmos são capazes de criar – e se atrelam, de modo quase compulsório, "a coisas ausentes, ou a coisas profundas e secretamente sentidas". "Sonho interrompido por guilhotina", o novo livro de Joca Reiners Terron, destila a máxima de Valéry no alambique da prosa.

Mais do que uma seleta de contos, o volume lançado pela Casa da Palavra é um quase-romance, composto de 16 narrativas sobre as quais paira uma questão-chave: o ceticismo sobre a possibilidade de a literatura transformar a sociedade. Tal certeza fica evidente já na primeira das duas epígrafes, de Lichtenberg: "Meu corpo é a parte do mundo que meus pensamentos podem mudar. Até as enfermidades imaginárias podem se tornar verdadeiras. No resto do mundo, minhas hipóteses não podem turvar a ordem das coisas".

Se a assertiva de Lichtenberg dá o tom orgânico do livro, a segunda epígrafe, de Kafka, adianta um de seus modelos: o diário. Não que "Sonho interrompido por guilhotina" tenha caráter confessional. Sua estrutura, misturando caderno de notas, citações, reprodução de textos alheios, autofagias e ensaios, sugere uma espécie de jogo de montar auto-referente, cujas ramificações se interligam, numa alegoria possível do movimento da própria literatura. Para ficarmos novamente com Valéry: a linguagem dentro da linguagem.

Assim como em "Hotel Hell" e "Curva do rio sujo", incursões anteriores pela prosa, Terron flerta com o escatológico e com os experimentalistas. No novo trabalho, contudo, a alusão a seus "pais" literários é mais direta. Valêncio Xavier, José Agrippino de Paula, Glauco Mattoso e Raduan Nassar aparecem como personagens, numa homenagem que não se encerra no mero tributo, mas propõe um diálogo, franco e criador, entre escrituras cujo afeto é mútuo.

Essa interação acontece também com autores que, menos conhecidos por aqui, integram o particular cânone de Terron. É o caso dos americanos Washington Irving e Wallace Stevens, que no livro dividem espaço com Narcís Monturiol i Estarriol, inventor do submarino, e Jor-El, pai biológico de Clark Kent, numa diluição de fronteiras entre realidade e ficção característica de sua obra. Em "Curva do rio sujo", ele se valera desse expediente ao imaginar Peter Pan, Huckleberry Finn e Nemecek acompanhando um menino em suas aventuras.

Quando manejado com precisão, esse emaranhado de referências acrescenta novas camadas à leitura. Algumas vezes, no entanto, atravanca a fluência do texto, que perde a força, justamente uma das maiores virtudes da prosa do autor. Os (poucos) pontos baixos do livro ocorrem quando, a despeito desse vigor que a narrativa em si contém, ele carrega demais no grotesco e resvala no gratuito. O insólito não precisa de negrito. E a literatura de Terron já insinua o que se torna explícito em contos como "Algo embaraçoso deixado para trás": "Para a montanha de poetas parnasianos que existem em pleno terceiro milênio insistir numa linguagem floreada e asséptica, deve haver sua contraparte, a descarga de sintaxe em que palavras proibidas bóiem".

A estranha beleza de "Sonho interrompido por guilhotina" está nas margens, nos soluços de lirismo que rompem o cerco aparentemente insuperável do bizarro — não raro brotando de dentro dele, como no tocante "A flor de nenhum buquê". O protagonista, migrante do interior, respira a fuligem na metrópole enquanto espera a amada. Sonha recebê-la com flores, mas quando a moça enfim chega não consegue comprá-las. A vida concreta, então, fura a bexiga do sonho: os dois ouvem um estampido de bala e flagram um corpo boiando na água. Desfigurada pelo tiro, a face do cadáver sugere uma rosa cálida: "As pétalas sanguinolentas cheirando a pólvora pertenciam à flor que em nossa entrega a cidade e eu oferecíamos à Esperança".

Outro destaque é "Pequenos danos", no qual autor se assume como o protagonista que recebe cartas de um detento, solicitando a remessa de livros para a biblioteca da penitenciária. O enredo é erigido em camadas narrativas que comportam outras dentro de si e desenham o ciclo moto-contínuo e infinito que, no fundo, toda história encena. Mas é em "Monumento ao escritor desconhecido" que Terron faz convergirem todos os fios que costuram o livro. O conto enfoca a viagem de um escritor para cidade interiorana. Durante o périplo, ele carrega consigo uma cordinha de descarga, na qual acredita levar presa a realidade, e conhece Nassar Cassis Nassar, poeta louco que inventa nomes para coisas e lugares. "Alterava o nome para depois corrigir as formas e assim escapar à continuidade de todos os dias, do verão sucedendo o outono, (...) da calmaria precedendo a tempestade", observa o narrador. Nassar acabará enforcado com a cordinha do escritor. Estrangulado, em sua utopia, pelo mundo que sua ficção não foi capaz de transformar.

* Escritor e jornalista



 Escrito por Marcelo às 10h18
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Trecho

“A imaginação excessiva do início me adoece hoje, e a fuligem dos dias deixa algo no ar, além de alergias. Infelicidade venal, talvez. Ou apenas tristeza”

Joca Terron, in A flor de nenhum buquê



 Escrito por Marcelo às 14h49
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Joe Gould

Ao comentar sobre as eleições, o amigo Paulo Thiago fez referência em seu blog à interessantíssima figura de Joe Gould, um baixinho excêntrico que circulou pelo Village entre os anos 30 e 50. Vivendo do favor de alguns poucos amigos e perambulando pelas ruas quase como um mendigo, Gould dizia escrever A história oral da humanidade, um compêndio de narrativas aparentemente banais sobre as "pessoas comuns" que circulavam por Nova York. O post do Paulo Thiago no Pindorama me fez lembrar dos dois excepcionais perfis que Joseph Mitchel, um dos símbolos do new journalism, publicou sobre Gould na revista New Yorker. Os textos foram reunidos há alguns anos pela Companhia das Letras em livro que tive o prazer de resenhar para o Prosa & Verso. Reproduzo o artigo aqui em homenagem ao Paulo e ao sentimento quixotesco que, por vezes, a todos nós assalta.

A nobre arte de ouvir

Em dois perfis sobre o enigmático Joe Gould, personagem das ruas de Nova Iorque, Mitchell nos relembra o poder da palavra contra o esquecimento

Marcelo Moutinho *

Joe Gould, um "homenzinho alegre e macilento", era figura fácil nos bares mais ordinários do Village durante os anos 40 e 50. Gabava-se de ser o último dos boêmios e a maior autoridade dos EUA em privação: "Vivo de ar, auto-estima, guimba de cigarro, café de caubói, sanduíche de ovo frito e catchup". Sob tintas de ficção, Gould lembraria Pierre Menárd, célebre personagem de Borges, mas o notívago baixinho, com suas roupas invariavelmente grandes demais e seu ensebado portfólio repleto de rabiscos manuscritos, realmente existiu. E foi objeto de dois perfis produzidos pelo jornalista Joseph Mitchell para a revista New Yorker. Tais textos, publicados originalmente com um hiato de 22 anos, estão reunidos no livro "O segredo de Joe Gould", lançado pela editora Companhia das Letras como parte da coleção Jornalismo Literário.

Talvez somente um semanário do quilate da New Yorker pudesse bancar a demora que Mitchell em geral levava para apurar, redigir e burilar suas matérias. "O professor Gaivota" (1942), primeiro perfil de Gould, por exemplo, ficou pronto após meses e meses de conversas. A possibilidade de ouvir Joe por um longo período decerto foi fundamental para a excepcionalidade dos perfis. Colaborou para isto também a complexidade do personagem. Gould não chamaria a especial atenção de Mitchell caso fosse simplesmente mais um dos boêmios que vagavam pelas ruas da cidade. O "professor Gaivota" descendia de uma família de médicos, formara-se na Universidade de Harvard, estudara a eugenia dos índios americanos e trabalhara como jornalista. Cheio de si, malgrado a sujeira e a aparência desleixada, dormia em estações de metrô e albergues baratos. Para se proteger do frio rigoroso do inverno, valia-se de folhas de jornais entre as roupas. Mesmo nesses momentos exalava esnobismo: "Só uso o "Times".



 Escrito por Marcelo às 11h55
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Gould assumira uma quixotesca missão: escrever a "História Oral de Nossa Época", reunindo em dezenas de volumes conversas travadas dia após dia com desvalidos como ele. Nas palavras de Mitchell, um "repositório de tagalerice, uma coletânea de disparates, mexericos, embromações, baboseiras, despautérios", cuja idéia surgira num dia prosaico. Gould passara por um sebo onde esbarrou numa coletânea de contos em cujo prefácio o poeta William Butler Yeats assinalava: "A história de uma nação não está nos parlamentos e nos campos de batalha, mas no que as pessoas dizem umas às outras em dias de feira e em dias de festa, e na maneira como trabalham a terra, como discutem, como fazem romaria". Foi o que bastou para que Gould decidisse a partir de então dedicar todo o tempo a colher informações necessárias ao monumental livro. Sem emprego fixo, custeava suas mínimas despesas pedindo contribuições pelos bares da cidade, em nome de um tal "Fundo Joe Gould", sempre detalhando seus nobres propósitos. Entre os colaboradores, além de bêbados anônimos e turistas curiosos, constavam nomes como e.e.cummings, que chegou a dedicar-lhe um poema.

A "História Oral", segundo cálculos do próprio Gould, alcançaria nove milhões de palavras, escritas por extenso em papéis manchados de gordura, cerveja e café, e guardados na casa de amigos e numa granja, em Long Island. Ele adorava falar sobre o livro, que incluía ensaios autobiográficos e hilários estudos eivados de sofisma, como o que ironiza o uso desmedido de estatísticas pela sociedade americana, relacionando o consumo de tomates por engenheiros ferroviários ao aumento do número de acidentes de trem. Freqüentemente, Gould invadia concorridas festas no Village, onde, após alguns copos de cerveja, punha-se a recitar poemas e trechos da "História Oral", ou simplesmente a imitar gaivotas. Quando alguém tentava classificá-lo de exibicionista, emergia outro de seus mais marcantes traços: o sarcasmo. Mitchell reproduz a resposta dada por Gould à jovem que criticara sua performance durante um coquetel. Disse-lhe: "Se minha informalidade a leva a pensar que sou um bêbado bobo (...), atenha-se firmemente a essa convicção, atenha-se firmemente, atenha-se firmemente, e mostre sua ignorância".

Graças à franqueza, ganhou muitos desafetos no meio artístico e intelectual novaiorquino. Gould debochava dos colegas poetas, de religiosos e pintores ditos de vanguarda. Numa ocasião, insistiu para participar do sarau de respeitada sociedade literária, que sempre lhe negara entrada e naquela oportunidade promovia a Noite da Poesia Religiosa. Pediu licença para ler "Minha religião", poema de sua autoria. Diante da concordância, disparou: "No inverno sou budista / E no verão sou nudista". Na Noite da Poesia da Natureza, implorou para declamar outro, chamado "A gaivota". Saltou, então, da cadeira, sacudindo os braços e gritando: "Sriiic! Scriic! Scriic!".

Seus pontiagudos comentários atingiram também um "promissor" pintor que atacara quadro feito por Alice Neel, amiga de longa data: "Fiquei muito contente (...), pois é um abstracionista de sucesso, está na linha de frente da vanguarda e só se impressiona com quadros totalmente sem sentido e concluídos em meia hora". A mordacidade ganhava relevo quando as vítimas eram gente ligada à arte engajada. Teriam perdido o senso de humor e, para irritá-los, Gould revezava-se pelos cafés a declamar o poema "As barricadas": "As barricadas / E, por trás destas barricadas, (...) / Os camaradas morrem - / De tanto comer."

Na tarefa de desenhar em palavras esse fascinante personagem - arrogante, caçoante, intrometido, politicamente incorreto, por vezes grosseiro – Mitchell corria o risco de recair no melodrama. Mas sua prosa límpida foca-se na análise psicológica e contextual do enigmático Gould. Mesmo no segundo perfil, veiculado somente após a morte do protagonista e no qual Mitchell reflete sobre o desenvolvimento da reportagem, explorando suas contradições, brilha a precisão do autor, que viria a revolucionar o jornalismo, remando na maré contrária ao meramente investigativo por revestir de técnicas literárias a narrativa.

Por intermédio de uma série de descobertas do próprio Mitchell, o leitor compreende que, apesar de lidar com prática que supõe total transparência - o jornalismo -, no fundo tanto o personagem quanto o autor dos perfis em algum instante vestem máscaras. Mitchell o escutou sóbrio, bêbado, depressivo, radiante, sempre com extrema paciência. Mais como ouvinte, menos como interlocutor. Observou em minúcias o ambiente que o rodeava, desenvolvendo certa intimidade, tentando captar através da topografia uma visão mais completa sobre quem enfim seria Gould. Porém, ante a desconfiança sobre a verdadeira existência da "História oral", absteve-se de desnudá-la.

Como observa o cineasta João Moreira Salles no posfácio do livro, a construção artesanal das matérias de Mitchell liga-se à necessidade de tempo para "entender" e "mostrar" a beleza que se esconde em universos aparentemente banais. Salles sublinha que Mitchell busca na alma encantadora das ruas e nos personagens urbanos "um grande semiparadoxo: a permanência – aquilo que não muda, ou muda pouco. Mais ainda: aquilo que resiste à mudança, às vezes militantemente". Ele quer ler as entrelinhas da cidade, não seus pontos de exclamação; e explorar o "elo secreto" que há entre "lentidão" e "memória", já apontado por Milan Kundera.

A interseção de interesses entre Mitchell e Gould dá-se justamente neste anseio. Tanto um quanto o outro, cada qual a seu modo, desejou "escutar o mundo" - e registrá-lo, lutando contra o esquecimento. Após a morte de Gould num hospital psiquiátrico e a veiculação do segundo perfil, Mitchell curiosamente nunca mais publicou mais nada. Findo o misterioso Joe Gould, findo o que por anacrônico lhe era caro, Mitchell preferiu calar-se também.

* Escritor e jornalista



 Escrito por Marcelo às 11h54
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Fim de carreira

Do Globo.com:

"Romário é jogador do Tupi-MG"

"Romário vai jogar pelo Tupi-MG. Segundo o representante da empresa que administra o futebol do clube mineiro, Omar Perez, o atacante já vestiu a camisa do clube e assinou contrato após encontro na tarde desta segunda-feira, dia 9, com dirigentes no condomínio onde mora na Barra da Tijuca, Zona Oeste do Rio. Romário, inclusive, já dá suas primeiras declarações como novo reforço do Tupi.

-  Acertei com o Tupi para poder ajudar o time na Taça Minas. Tenho o sonho de marcar o milésimo gol, mas não foi por isso que vim para cá - diz Romário ao repórter Carlos Alberto, da TV Panorama, afiliada da TV Globo em Juiz de Fora.

Segundo o diretor-administrativo do Tupi, Marcelo Peres, Romário assinou contrato com o Tupi-MG por quatro jogos da Taça Minas, podendo ser prorrogado por mais duas partidas. E ainda consta no documento assinado pelo Baixinho uma cláusula que dá ao Galo Carijó, apelido da equipe mineira, o direito de contar com ele para o quadrangular final da competição, que garante ao campeão uma vaga na Copa do Brasil de 2007.
 
Os salários de Romário serão pagos pelo grupo Panorama e não foram divulgados valores por pedido do craque. Com afirma o diretor-administrativo do Tupi-MG, Marcelo Peres.
 
- O Romário chega amanhã (terça-feira) na cidade e já treina às 11h com o grupo no estádio Municipal Radialista Mário Heleno. E acredito que não vai ter maiores problemas para ele estrear contra o Democrata, de Sete Lagoas, na quinta-feira – diz, por telefone, à reportagem do GLOBOESPORTE.COM.
 
O Alvinegro da Zona da Mata Mineira já colocou ingressos à venda (R$ 10 antecipado e R$ 15 na hora do jogo) e estima um público de pelo menos 15 mil torcedores para a estréia do Baixinho.
 
A pressa em poder contar com Romário é tanta que o contrato do jogador mal foi assinado e já se encontra em poder da Federação Mineira de Futebol. O Tupi está em quinto lugar na Taça Minas e precisa, pelo menos, subir uma colocação para avançar ao Quadrangular Final e assim sim sonhar com o título da competição.

Mesmo acertando com o time mineiro, Romário vai jogar pelo Adelaide United. Depois da estréia pelo Tupi, Romário vai à Austrália e fica até o final da próxima semana quando retorna para o segundo jogo do Tupi na Taça Minas (dia 22)".



 Escrito por Marcelo às 17h06
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Dennis Radünz

Mais uma vez coube ao grande Henrique me apresentar um poeta novo, que divido aqui com vocês, ainda em deslumbre com os versos secos e rigorosos de As medidas...

"As medidas"

Dennis Radünz
 
"(i)

abolir o rumor
na barbárie do grito
e rumar o abalo
ao abrigo da gruta

não ruir


(ii)
abolir o bolor
na blasfêmia do rito
e remir o labor
no bailado da grita

rir"



 Escrito por Marcelo às 16h41
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O primeiro debate

Lula perdeu uma grande oportunidade no debate de ontem. Diante do acesso súbito de raiva de Alkimin (será que algum cachorro o mordeu?), o candidato do PT ficou demasiadamente acuado, na defensiva, e chego a imaginar os admiradores do 'mauricinato' dando gritos efusivos em frente à TV, saltando de suas poltronas em comemoração (para em seguida e bem rápido retomar a compostura, recolocando as camisas para dentro da calça).

A timidez nas rebatidas de Lula não impediram, contudo, que ele obtivesse bons momentos, sobretudo quando fez as irrefutáveis comparações irrefutáveis entre os números de seu governo e o de FHC e lembrou o escândalo de gastos publicitários da Nossa Caixa. Mas faltou mais ofensividade. Faltou, por exemplo, lembrar o preço escandaloso com que foi vendida a Vale do Rio Doce (não sou radicalmente contra privatizações, mas a empresa foi rifada por um valor menor do que seu faturamente em um ano). Faltou, também, efntaizar melhor que a compra de votos no Parlamento remonta, no mínimo, à aprovação da emenda da reeleição, na época do mesmo FHC.

Faltou principalmente explicitar a oposição central das duas candidaturas: visões diferentes sobre o papel do Estado. De um lado, a postura gerencial e economicista de Alkimin, que corrobora com a visão tucana de que o país deve ser administrado como uma empresa privada - o que vale é o azul no balancete, nem que para tal se sacrifique o investimento no social. Do outro, a idéia de que tal postura é simplificadora e impede a redução da desigualdade e o desenvolvimento. Isto é o que está em questão neste segundo turno, e Lula deve explicar com toda didática possível a diferença. Esperemos o próximo debate.



 Escrito por Marcelo às 15h01
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Pizarnick

"Amantes"

Alejandra Pizarnick

"Uma flor

zzzzzzzzzzzznão longe da noite

zzzzzzzzzzzzmeu corpo mudo

se abre

à delicada urgência do sereno"



 Escrito por Marcelo às 11h34
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João Ubaldo no CCBB

Hoje, às 18h30, rolará mais uma edição do Laboratório do Escritor. Quem vai estar no CCBB para falar sobre a sua obra e o seu processo de criação será o boa-praça João Ubaldo Ribeiro, autor, entre outros, de Viva o povo brasileiro, O sorriso do lagarto e Sargento Getúlio. A entrada é gratuita, com distribuição de senhas meia hora antes.



 Escrito por Marcelo às 13h28
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Raro mar

Ontem comprei Raro mar, novo livro do Armando Freitas Filho. Numa primeira folheada, me chamaram a atenção os poemas que tratam da cidade, desta nossa tão maltratada São Sebastião do Rio de Janeiro, através de pequenos flashes, lançando  um olhar desconcertante sobre a paisagem ao mesmo tempo terrível e bela. Destaco, de pronto, o contundente Litoral, que posto abaixo. 

"Litoral"

Armando Freitas Filho 

"Cidade em armas, rabiscada.

Cheiro de suor morto à luz latejante

da sirene, com sonoplastia feita

de rumores, dos sustos curtos sob o cerco

das amontoadas montanhas atomentadas

não pelo raio, nem por nuvens pretas

ou chuva de pedra, trovoada, tempestade.

A natureza, num instante, sai do lugar

da margem de risco que o mapa permite:

nada, como um dia depois do outro, nada.

O insulto do azul automático reina

absurdo e indiferente, e sugere

sol, férias, verão, que ocorrem, paralelos

ao desastre deste dia intransitável:

na calçada, calçada de corpos

no sinal vermelho coagulado em cima

dos malabaristas do mal-estar

diante dos carros de caras amarradas

nas praias, de mar impróprio".



 Escrito por Marcelo às 13h25
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Eucanaã Ferraz

O querido Henrique Rodrigues foi quem me chamou atenção para este poema, que está no livro Rua do mundo, do Eucanaã Ferraz. Por vertentes muito distintas, é um poema que hoje fala a mim e a ele, Henrique. Certamente falará, de alguma forma, também a vocês.

"Já"

Eucanaã Ferraz

"Estrelas desabassem,
pesadas, inteiras,
como a água cai
da torneira.

Assim, um amor
absoluto e agora,
na emergência de
umas poucas horas.

Nelas coubessem, porém,
gestos por onde, gáveas
acima, ciências,
alianças, edifícios

que só imaginamos possíveis
na urdidura de anos. Tudo,
momentaneamente, largo
na caixa mínima de um dia.

Um dia? Menos: uma pouca hora.
Tempo suficiente para ignorarmos
o metro dilatado do medo, do talvez,
dos mapas e planos.

O porvir (desejá-lo) sumiria
num rapto. Em seu lugar,
o fio repentino do êxtase,
a luz plena de um raio."



 Escrito por Marcelo às 17h56
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Uma outra eleição

 

O Portal Literal fez uma pesquisa entre seus leitores para apurar quem foram os escritores brasileiros jovens de maior destaque nos últimos cinco anos. O amigo Marcelino Freire ganhou, de longe, com 30% dos votos. Em segundo lugar, ficou o Santiago Nazarian, com 20%, seguido de Marcelo Mirisola (meu Deus!), Ricardo Lísias, Daniel Galera, Silas Correa (de quem nunca ouvi falar) e Joca Terron. Nenhum autor do Rio foi citado, o que não sei se diz sobre a perda de projeção cultural de nossa cidade, sobre a falta de leitores especificamente para a nossa literatura, ou se não significa porra nenhuma mesmo.



 Escrito por Marcelo às 10h02
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As perguntas do Dossiê

Muito pertinentes as questões levantadas pelo Jânio de Freitas em sua coluna de hoje, na Folha de S. Paulo. O jornalista salienta que há alguns pontos estranhos na história da suposta compra de documentos contra Serra e Alckmin por gente do PT e pondera sobre interesses outros que podem estar escondidos no subtexto do chamado "escândalo do dossiê". "Na hipótese de maior influência do dinheiro fotografado, uma constatação é imediata: o contrabando das fotos para jornais e TV, menos de 48 horas antes da votação, teve o intuito de influir na disposição de possíveis eleitores de Lula, ou de Mercadante, ou de ambos. A longa vantagem de Serra torna apenas figurativa a inclusão do Mercadante batido por antecipação. Lula foi o alvo certo. E sua recente hipótese de que toda a história do dossiê tenha origem e propósitos diferentes dos supostos até aqui, na mídia e mesmo na investigação oficial, não deixa de fazer sentido", afirma o articulista. Segue a íntgra da coluna, com grifos meus:

"Perguntas presentes"

Jânio de Freitas

"A resposta dos votos não eliminou a segunda interrogação presente na conduta do eleitorado: o terremoto que, no último momento, atingiu o intervalo entre as preferências por Lula e por Alckmin foi provocado pela ausência do candidato-presidente ao debate, na TV Globo, ou pelo sentido ambíguo da exibição do dinheiro destinado, até onde se sabe, a prejudicar José Serra?
A questão é mais relevante do que parece. No caso de influência predominante da falta ao debate, seria a segunda participação determinante desses programas de TV em eleições presidenciais com a participação de Lula. E ambas de conseqüências desfavoráveis a Lula. A primeira delas, o seu debate com Collor, no qual o pobre desempenho que teve foi agravado, em exibições no dia seguinte, por remontagem adulteradora e demolidora feita por um então diretor da TV Globo.
A ausência, agora, foi da sua estrita decisão de "não se submeter aos insultos combinados dos adversários", embora as condições do debate estivessem aprovadas por assessores seus. E previam a repressão a insulto. Mas, vá lá, o insulto feito não seria tirado. Sobreveio então, nos dois dias seguintes, a superexposição na TV e em jornais, em intensidade e em dimensões, de reportagens locais e alegadas repercussões da ausência, como jamais foi feito em relação às ausências de Fernando Henrique nas eleições passadas. Nem agora, por exemplo, em ausência idêntica de Aécio Neves.
Se a falta de Lula ao debate teve influência no movimento do seu eleitorado, isso foi produzido por um programa no portal da madrugada ou pelo volume e modalidade da repercussão que lhe foi dada em quase todos os principais meios de comunicação? O provável é jamais termos a resposta. Nem por isso a indagação deixa de ser útil para considerações futuras sobre o processo eleitoral brasileiro, a relação entre ele, os meios de comunicação e outros aspectos da atividade política, e mais ainda.
Na hipótese de maior influência do dinheiro fotografado, uma constatação é imediata: o contrabando das fotos para jornais e TV, menos de 48 horas antes da votação, teve o intuito de influir na disposição de possíveis eleitores de Lula, ou de Mercadante, ou de ambos. A longa vantagem de Serra torna apenas figurativa a inclusão do Mercadante batido por antecipação. Lula foi o alvo certo. E sua recente hipótese de que toda a história do dossiê tenha origem e propósitos diferentes dos supostos até aqui, na mídia e mesmo na investigação oficial, não deixa de fazer sentido. Claro que esse sentido será logo carimbado de vício da teoria conspiratória -carimbo que é um vício.
Mas o comportamento noticiado, e já bem comentado por Elio Gaspari, do procurador da República em Mato Grosso, Mário Lúcio Avelar, tem conexões esquisitas com declarações e comportamentos do delegado Edmilson Pereira Bruno, que fez, entre outras coisas, a distribuição sub-reptícia das fotos, mentiu negando-a, e terminou por confirmá-la. Foi também em plantão seu, talvez não só por acaso, que se deu a prisão dos que aguardavam, no hotel, a entrega do dossiê (até então, um DVD vazio). Isso, como parte da inexplicada precipitação de prisões em Mato Grosso e em São Paulo, evitando o flagrante, sempre desejado pela polícia e pelo Judiciário, da tal compra e venda do dossiê. A história desta eleição não parece encerrar-se nas votações".



 Escrito por Marcelo às 16h04
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Agora é Lula

A melhor notícia destas eleições foi a notável votação de Fernando Gabeira para o Parlamento. Quem costuma acompanhar o Pentimento, sabe que Gabeira há muito tempo é o político que mais admiro, um dos poucos em quem voto sempre com alegria renovada. O expressivo número de votos que ele obteve no atual pleito foi algo inédito na trajetória dele – e merecidíssimo.

Ainda no rol das notícias boas, estão as reeleições de Chico Alencar e Miro Teixeira, dois ótimos deputados federais, que de alguma forma dão alento diante de nomes como Pudim, Leonardo Picciani, Nelson Bornier e Andreia Zito. Lamentavelmente, não conseguiram chegar à Câmara outros dois por quem torcia muito: o Biscaia, cujo mandato foi exemplar, e o Luiz Eduardo Soares, que teria muito a contribuir lá em Brasília.

O panorama entre os deputados estaduais eleitos é parecido, talvez um pouco mais sombrio. Meu candidato, o Cid Benjamim, teve cerca de oito mil votos e não se conseguiu a vaga. No entanto, o Alessandro Molon, o Carlos Minc e o Fernando Gusmão emprestam algum otimismo frente a tristes recorrências, como Zito, José Nader e Dionisio Lins.

Entre as tristezas da eleição, aliás, está a vitória de Francisco Dornelles sobre a Jandira Feghali. Certamente faltou tato na reta final ao comando de sua campanha, que rompeu uma regra básica – nunca responder com força demasiada a um ataque pequeno, sob pena de amplificá-lo – no caso da briga contra a Igreja.

Quando ao governo do Estado, surpreendeu e me deixou alegre a votação do Vladimir, a quem as pesquisas davam 2% e que no fim das contas teve quase 8%. Se os institutos tivessem se aproximado mais do índice real talvez ele conseguisse uma perfomance ainda melhor. No segundo turno, sem convicção e convencido de que se trata de uma fraude, como bem disse o Eduardo Paes, digitarei o número da juíza.

Deixei para comentar no fim o panorama nacional. Antes de tudo, queria saudar a vitalidade do PT. Muitos analistas julgavam que, em virtude da seqüência de problemas vividos pelo partido, quase todos originários da máfia paulista comandada pelo Zé Dirceu, a bancada federal cairia para cerca de 50 deputados. Pois bem: foram eleitos mais de 80. E houve vitórias expressivas, como na Bahia, onde o candidato do hamster ACM foi colocado para correr. O PT não é apenas essa mácula que ganhou projeção, demonstraram efetivamente milhares de eleitores - bastante machucados, vá lá, mas ainda assim crentes de que a tal "refundação" é, sim, possível. E que os novos arautos da moralidade, aqueles mesmo que estiveram no poder desde a colônia e ultimamente vem tentando se enfeitar com uma plumagem ética, ainda terão que aturar muito.

Já revelei aqui que meu voto no primeiro turno era do Cristovam Buarque. Entendo que foi muito salutar a extensão do pleito ao segundo turno, até para que nosso presidente desça um pouco do pedestal e seja obrigado a pender novamente para a esquerda. Mas a pendenga na segunda rodada é outra - e bem mais clara: derrotar mais uma vez a visão restrita da administração política como mero gerenciamento e a soberba intelectual do mauricinato tucano. A hora é do preto no branco. Então agora é Lula.



 Escrito por Marcelo às 10h53
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