15 meses

"Pra conquistar teu coração"

Wanderley Monteiro / Luís Carlos da Vila

"Se o limite for o infinito
Vou subir até o pico do Everest
Nadar o oceano sem um grito
E de joelho atravessar o agreste
Faço isso tudo e muito mais
Pra te encontrar, te conquistar
E até provar que é minha paz
O inverso dos meus ais

Preto no branco num poema, vou pôr sim
E onde houver um mal começo pôr fim
Fazer de tudo pra mudar
Um novo mundo instalar
E com o mundo em minhas mãos
Onde houver talvez ou não eu vou sim
Com as próprias mãos andar a pé ao Bonfim
E num xaxim eu vou plantar
Um baita de um jequitibá
Enraizar mesmo sem chão
São Tomé vai crer sem olhar
E todo mundo vai cantar
Que eu conquistei teu coração"



 Escrito por Marcelo às 11h54
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Luís Carlos da Vila

Depois de assistir em DVD ao mediano Feira das vaidades, já estava convencido a sucumbir à gripe e passar o sábado recolhido em casa com a F. Uma ligação do amigo Hugo Sukman, contudo, reavivou o projeto inicial que havíamos formulado para aquela noite: ver o show de Luís Carlos da Vila no Teatro Rival. Envolto num casaco aparentemente exagerado para o frio que apenas se insinuava depois do veranico, resolvi enfrentar a chuva e parti, com ela, em direção à Rua Álvaro Alvim.

O ambiente estava meio esqusito. Nunca havia visto o Carlitos tão vazio. De habitual mesmo, só um tricolor figuraça que vive lá com sua batida de gengibre na mão (ave, Fernando Toledo!). Aos poucos, porém, as pessoas foram chegando e em pouco tempo o Rival se transformou num espaço de encontro de gente da melhor qualidade: Hugo, Baiano, Lefê Almeida, Vanusia Basílio, Luiza Dionísio, Claudio Jorge (com a mulher) e outro tanto de desconhecidos que, assim como nós, decidiram esquentar o dia típico de inverno com as canções do mestre da Vila (da Penha, diga-se).

E o moço fez por onde, realizando um show arrebatador desde a primeira música - Benza, Deus, parceria dele próprio com o Moacyr Luz. O repertório incluiu sucessos absolutos, como o samba-enredo Kizomba, a festa da raça, a homenagem a Candeia em A luz do vencedor e o esquecido Por um dia de graça (que fez marola na voz de Simone). Contou, também, com o belíssimo Pra conquistar teu coração, samba de metáforas desconcertantes que o artista compôs com Wanderley Monteiro, e com canções que se não são tão conhecidas, trazem sempre as duas marcas inexoráveis da assinatura de Luís Carlos da Vila: o lirismo preciso e a tessitura formal rigorosa.

Por tudo isso, o show já mereceria nota 10, mas quem foi ao Teatro Rival ainda pôde se deleitar com duas participações especialíssimas: Luís Melodia e Dirceu Leite. O primeiro, completamente entrosado ao clima efusivo do espetáculo, solou em Estácio, Holly, Estácio, dividiu os vocais com Luís Carlos em Pérola negra e relembrou a linda (e pouco tocada) Estácio, eu e você. O segundo nos deu uma pequena prova do que vem aí em seu novo trabalho, calcado numa excepcional idéia que, pelo que foi mostrado no sábado, resultará num disco também excepcional. O cd será totalmente dedicado a versões instrumentais dos sambas da turma do Cacique de Ramos. Na palinha que nos ofereceu, Dirceu apresentou versões simplesmente magistrais para Além da razão e Coisa de pele, ressaltando, nos dois registros, uma beleza melódica que por vezes acaba solapada pela força das letras.

Depois de tanta alegria, ainda teve esticada ao Getúlio. Gripe? Que gripe?



 Escrito por Marcelo às 11h01
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Amor, carnaval e sonhos

Por falar em Império, quem quiser ver cenas históricas do desfile de 1972 (vencedor com o enredo sobre Carmen Miranda) não deve perder Amor, carnaval e sonhos, de Paulo César Saraceni (foto), que passará amanhã dentro do programa Cadernos de Cinema (TVE Brasil). Contando com elenco que reúne Arduíno Colassanti, Ana Maria Miranda, Leila Diniz, Hugo Carvana, além do próprio Saraceni, o filme apresenta tramas vividas durante o carnaval carioca, tendo como cenário o registro da folia de rua, de salão e os blocos carnavalesco da época. Após a exibição, que rola a partir de meia-noite, será transmitido o tradicional debate mediado pela Vera Barroso, do qual participo ao lado da crítica Andréa França, do diretor de teatro e documentarista Marcos Vinícius Faustini e do grande Arduíno. No domingo da outra semana tem reprise, às 23h. 



 Escrito por Marcelo às 12h12
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Império 2007

Alertado pelo imperiano de fé Carlos Andreazza, fui conferir o logotipo da verde-e-branco da Serrinha para o enredo de 2007. Aproveitando a visita ao site imperial, chequei também a síntese preparada pelo carnavalesco Jack Vasconcelos (reproduzida abaixo). Minha conclusão? Bem, é que o tema fica naquela tênue fronteira entre a glória e o fracasso. Se radicalizado, sobretudo na concepção estética - e aí vale lembrar que "diferença" nem sempre é "beleza" em sentido restrito -, pode resultar num desfile inesquecível, daqueles capazes de marcar época por soprar novidade na mesmice do carnaval. Por outro lado, se faltar coragem, corremos o risco de soar patéticos e descer novamente ao segundo grupo. Fica, aqui, o meu voto de confiança.



 Escrito por Marcelo às 11h55
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Síntese do enredo

"Força inovadora do carnaval desde sua fundação, o Império Serrano foi a primeira escola de samba vinculada a um segmento profissional, os trabalhadores do porto do Rio de Janeiro. Nem por isso se tornou um gueto: a diferença era respeitada e havia lugar para todos. Jornalistas, funcionários públicos, donas de casa também opinavam e participavam. Por isso surgiu de forma tão forte e impressionante que se sagrou campeã, provocando violenta cisão na entidade representativa das escolas de samba da época, já que as co-irmãs se recusaram a aceitar a vitória da estreante. Em sua origem está a luta pela liberdade de opinião e de expressão, que se mantém até hoje. No Império Serrano todo mundo é igual, apesar das diferenças, e o orgulho verde-e-branco recebe de braços abertos todos os interessados em trabalhar unidos em prol de um objetivo comum, numa lição de harmonioso convívio. O resultado está aí: sessenta anos de paixão e glória, fazendo a diferença na história do samba.

Foi fácil? Não. Nunca é fácil harmonizar o que não é igual. A dificuldade que o ser humano tem de conviver com a diferença (seja ela estética, social, religiosa, étnica ou cultural) é o grande mote do romance Notre-Dame de Paris, que elevou o escritor francês Victor Hugo a figura máxima do espírito literário do romantismo, movimento que valorizava o predomínio do conteúdo sobre a forma. Na torre da catedral de Notre-Dame vive isolado o sineiro Quasímodo, um homem de aparência deformada e feições distorcidas, porém sensível às manifestações de beleza, como as diversas festividades que acontecem em torno da catedral gótica. Adotado por uma autoridade religiosa que fez da rigidez seu modo de vida, apaixona-se por uma cigana e enfrenta uma série de peripécias por conta desse amor não correspondido.

Aceitar e respeitar o outro como ele realmente é nunca foi tarefa simples, na literatura como na vida real. Na cidade alemã de Munique do final do século XIX um menino tímido, pouco sociável e bastante indisciplinado entrou cedo para a abominada lista de repetentes na escola. Alfabetizado somente aos nove anos de idade, apresentando raciocínio lento e aparente falta de memória, a dificuldade de aprendizado levou seus professores a crer que sofria algum tipo de retardo mental. Acabou interessando-se pelos emaranhados de números e cálculos da matemática e pela harmonia sublime da música, chegando a dominar o violino. Revelou-se uma mente brilhante e autor de numerosos trabalhos de física teórica; aplicando a teoria quântica à energia radiante, chegou ao conceito de fótons, que lhe valeu o Prêmio Nobel. Formulou a equação que seria a mais célebre do século XX, abrindo os caminhos para a era atômica e esclarecendo a origem da energia solar. Conhecida como teoria da relatividade, marcou profundamente a ciência moderna, mas sua importância só foi reconhecida posteriormente, transformando aquele “menino problema”, Albert Einstein, em um dos maiores cientistas de todos os tempos.

Além de lidar com a diversidade, há de se lidar também com a adversidade... A infância marcada por procedimentos médicos e um terrível acidente forjaram uma mulher fisicamente debilitada e deficiente. Foi quando a mãe pendurou um espelho em cima de sua cama, na dolorosa convalescença, que Frida Kahlo começou a pintar freneticamente. Sempre pintou a si mesma alegando que “era o assunto que conhecia melhor”. Apaixonadamente passional e extremante vaidosa, cobria-se de jóias, flores e vestidos coloridos, tradicionalmente mexicanos, o que fez dela grande colecionadora de amantes (de ambos os sexos). Frida chocava porque era diferente – e orgulhosa – demais. Embora tenha usado tintas fortes para estampar suas telas e entrado no mundo da vanguarda artística dos surrealistas, dizia que nunca pintou sonhos, pois apenas pintava a própria realidade: uma vida tumultuada por sofrimentos físicos e dramas emocionais. Ensinou-nos a pintora mais importante do século XX:
“ Para que preciso de pés quando tenho asas para voar?”

O trabalho dignifica o homem, e um gênio negro mostrou seu valor em verdadeiros tesouros. Vivia do produto de suas mãos e um dia descobriu uma doença que o degenerava lentamente. Como continuaria criando sua arte? Teria que enterrar o dom dentro de si? Absolutamente não. Antônio Francisco Lisboa não abandonou seu ofício. Quando as mãos se danificaram por completo, amarrou nelas correias de couro para poder segurar seus instrumentos; com os pés atingidos, foi obrigado a andar de joelhos. O povo o apelidou de Aleijadinho. Foi difícil obter o reconhecimento de seu talento, pois também não lhe perdoavam a condição de mestiço e, mesmo celebrado como grande escultor e projetista, a cor mulata ainda mantinha erguidas as barreiras do preconceito. Suas imagens sacras, profetas, altares e igrejas permanecem como testemunho do desenvolvimento artístico de Minas Gerais no século do ouro. A quantidade e a maestria de suas realizações levaram o biógrafo francês, Germain Bazin, a chamá-lo de “Michelangelo tropical”.

A sensibilidade e a competência revertem qualquer quadro que se apresente desfavorável à primeira vista. Lesionado no queixo pelo fórceps em seu nascimento, o violonista Noel Rosa encarou sua “diferença” com filosofia bem-humorada e irônica como um bom rapaz folgado. Ela nunca impediu seu feitiço de poeta de arrebatar corações apaixonados. Sua música tocou as ruas do Rio de Janeiro e ganhou notoriedade ainda muito jovem, mas combatia o constrangimento que o defeito físico lhe causava evitando grandes reuniões sociais e buscando refúgio em bares, botequins e cabarés. Captou e, acima de tudo, criticou as transformações de uma época de transição urbana carioca legitimando seu papel de cronista do samba. A modernidade da eletricidade, gramofones, rádios, apitos de fábricas e chaminés compunham um novo cotidiano e um modo de vida “diferente”.

O talento é realmente soberano, invencível e aleatório: bafeja inclusive os que não se enquadram adequadamente em padrões estabelecidos. Se ele não discrimina, por que discriminar?  Do manicômio para a liberdade criativa, o estranho mundo de Arthur Bispo de Rosário revelou um mestre das artes plásticas brasileiras com reconhecimento internacional. Seus divinos trabalhos multicoloridos consagraram seu delírio intelectual ao registrar para o Criador o universo ao seu redor. E se “de perto ninguém é normal”, no carnaval se abre o sanatório geral da sociedade, pois nos dias de folia as diferenças se diluem e se igualam como na marcha carnavalesca Exuberante da “verdadeira encarnação da alma musical brasileira”, o louco Ernesto Nazaré

“ (...) À folia! À folia!
Ao baile, TODOS
Neste brincar sem fim
À folia! À folia!
TODOS pulando assim (...)”



 Escrito por Marcelo às 11h44
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Curso sobre Santo Tomás

O amigo Sidney Silveira avisa que sua editora, a Sétimo Selo, realizará em agosto o curso Caminhos de Santo Tomás. A idéia é divulgar e debater aspectos relevantes da obra do filósofo medieval, a partir de tópicos como A política em Tomás de Aquino, A demonstração da existência de Deus em São Tomás de Aquino, O tema dos anjos em São Tomás de AquinoO tomismo da literatura: o caso de G.K. Chesterton. As aulas acontecerão aos sábados, entre 12 de agosto e 7 de outubro, na sede da Academia Brasileira de Filosofia, parceira no projeto. Os professores serão Carlos Nougué (tradutor da obra de Santo Tomás), Rosa Clara Helena (professora de literatura) e Sérgio Salles (professor de filosofia), além do próprio Sidney. Mais informações podem ser obtidas por intermédio do telefone (21) 2242-7634.



 Escrito por Marcelo às 11h13
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Nelson contra a rima

Sempre provocador, o amigo Nelson de Oliveira acaba de aprontar mais uma. Em sua coluna na edição deste mês do jornal Rascunho, ele afirma que "poemas regularmente metrificados e rimados pertencem ao passado glorioso" e aconselha os poetas a evitarem ao máximo expedientes das formas fixas, "fugindo da rima". De minha parte, creio que tais elementos são apenas suportes passíveis ou não de utilização para expressividade do poema. Posto abaixo um trecho do artigo (confira a íntegra aqui). E você, o que acha do assunto?

"(...) Aos poetas que freqüentam minhas oficinas recomendo que também sigam os seis conselhos publicados no Rascunho de junho e principalmente este, de longe o mais importante de todos: inventem sua própria métrica, evitem o verso de medida fixa, fujam da rima. O poema regularmente metrificado e rimado pertence ao passado glorioso. Hoje seu ritmo mecânico e engessado (cafona até à medula) só faz sentido na música popular e no canto lírico de baixa qualidade. Pensando bem, nem mesmo aí. A literatura não deve ser tratada como passatempo de burocratas afetados e pedantes. Repito: inventem sua própria métrica, evitem o verso de medida fixa, fujam da rima. Se quiserem apreciar a arte do decassílabo ou a do alexandrino, há nas livrarias e nas bibliotecas tamanha quantidade de poemas curtos, médios e longos - os melhores já escritos neste planeta -, que dez vidas serão insuficientes para dar cabo de todos eles.



 Escrito por Marcelo às 10h58
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Bansky

Interessantíssimo o trabalho desse grafiteiro inglês chamado Bansky, que o Marcelo Coelho citou recentemente em seu blog. Longe do grafismo gratuito de muitos artistas que atuam na área, Bansky faz uma intervenção ao mesmo tempo crítica e bem-humorada no ambiente urbano, alcançando resultados sensacionais. Quando desenha em espaços internos, seu traço ganha contornos pacifistas e dialoga com cenas clássicas do conflito bélico (a imagem que retrata Mickey Mouse e Ronald McDonald de mãos dadas com a menina sobrevivente de Hiroshima é desde já antológica). Posto, abaixo, alguns de seus grafites. Confira mais aqui

 

 



 Escrito por Marcelo às 11h51
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Aliás e a propósito

Hoje é o Dia do Escritor Brasileiro.



 Escrito por Marcelo às 11h58
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No Canal Futura

 

Hoje à noite participarei do programa Sala de Notícias em Debate, do Canal Futura. Serei o calouro de uma mesa que reunirá ainda os escritores Antonio Torres e Affonso Romano de Santanna para discutir, com transmissão ao vivo, o ofício do escritor hoje. Para quem tiver interesse em conferir: o programa começa às 21h30.



 Escrito por Marcelo às 11h37
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Murilo Rubião

Conheci a obra de Murilo Rubião por indicação de meu professor Renato Cordeiro Gomes, que me sugeriu a leitura de O pirotécnico Zacarias. Mais do que o traço claramente fantástico da literatura do autor mineiro, que em alguns momentos lembra Kafka, o que me interessou em seu trabalho foi sobretudo a facilidade com que ele consegue inserir o absurdo, o nonsense, no cotiano prosaico, obtendo um efeito de "estranhamento" ainda maior.

Ao saber que seus livros seriam relançados pela Companhia das Letras, sugeri ao Prosa & Verso a elaboração de uma resenha, saudando a iniciativa e decifrando alguns aspectos do estilo singular de Rubião. O amigo Miguel Conde, no entanto, já havia feito tal proposta. E ao ler seu texto na edição de sábado passado, tenho que admitir que dificilmente conseguiria escrever uma análise melhor. O olhar do Miguel sobre a literatura de Rubião é preciso e muitíssimo bem redigido. Faço questão de recomendá-lo e, já que O Globo não me deixa mais copiar, ao menos indicar o link: se quiser ter acesso, clique aqui.



 Escrito por Marcelo às 11h12
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Ecos da Flap

Fui à Flap no domingo, ver a mesa Para onde vamos?, que reuniu Maria Rezende, André Gardel, Fábio Aristimunho Vargas e os amigos Cláudia Roquette-Pinto, Marcelino Freire e Chico Bosco. O tom geral foi o esperado: "e lá sabemos para onde vamos?", responderam todos. Destacaria, entre os pronunciamentos, o humor sempre crítico do Marcelino, ironizando a "necessidade" de se pensar em "projeto literário", e a análise curta e densa que o Chico fez sobre a literatura a partir da modernidade, carregando nas tintas contra o vanguardismo tardio. Melhor do que o debate, no entanto, foi o papo posterior no Bar Lagoa, que se não mostrou exatamente pra onde vamos, ao menos deixou claro que nos divertimos aqui mesmo onde estamos - ainda mais se acompanhados de gente bacana e de um bom chope.



 Escrito por Marcelo às 15h12
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Mentiras sinceras

Aluguei despretensiosamente, mas o filme acabou se revelando bem interessante: Mentiras sinceras, de Julian Fellowes, encerra uma dolorida investigação sobre a traição - e mais do que isso, sobre a linha escorregadia que define os contornos possíveis entre verdade e mentira. Tom Wilkinson vive (no tom correto) o bem-sucedido advogado que, casado com a personagem interpretada por Emily Watson, terá que enfrentar um verdadeiro furacão em sua vida a partir do momento que descobre a infidelidade da mulher. Fellowes foi acusado por parte da crítica de regurgitar clichês na condução do enredo. Remando contra a corrente, creio que ele conseguiu um bom ajuste entre a questão precípua - citada acima - e a trama policialesca que lhe confere ainda mais dramaticidade. Longe de ser excepcional, Mentiras sinceras um filme pequeno e correto, mas que faz doer. Ah, se faz...



 Escrito por Marcelo às 12h04
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Poesia hoje

"Agulhas"

Marcelo Diniz

"Não precipitemos as
coisas: essa vertigem
que parece insuflar
fôlego, palpitação
ao inanimado ainda
é muda, saibamos
perceber esse estado.
Não devotemos ainda
às pedras ou a qualquer
outro ente que nesse
perímetro nos afete
o discurso esperado
do cosmos, não estimemos
apelos dos astros no que
ainda é simples vibração
inaudita e presente
nesse íntimo espanto.
Sintamos apenas - não
denominemos o amor -
na língua as agulhas
do instante translúcido,
o conteúdo evanescente
após estourada a fina
esfera de toda metáfora."



 Escrito por Marcelo às 11h58
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Flap

 

Depois da Flip, a Flap. O evento alternativo que rolou pela primeira vez em Sampa no ano passado chegou agora ao Rio. No próximo fim-de-semana, a UniverCidade (urgh!) de Ipanema (Rua Epitácio Pessoa, 1664) vai sediar debates sobre assuntos diversos ligados à literatura, reunindo gente como o meu querido professor Victor Hugo Adler Pereira, os amigos Chico Bosco e Rafael Vidal, e os escritores Affonso Romano de Santanna, Affonso Henriques Neto, Jorge Rocha, Chacal, Cláudia Roquette-Pinto e Marcelino Freire (fotos acima), entre outros. Em São Paulo, as atrações incluirão Manuel da Costa Pinto, Xico Sá, Ferréz, Nelson Oliveira e Luiz Ruffato, mas lá os trabalhos acontecerão nos dias 29 e 30. Confira a programação completa aqui.



 Escrito por Marcelo às 11h08
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Cremerie Geneve

 

No fim-de-semana passado, fui com a F. para Teresópolis. Sempre que subimos a Serra, ela me mostra lugares interessantes, e desta vez não foi diferente. A Cremerie Geneve fica no início da Estrada Teresópolis-Friburgo (km 16, neste sentido). Trata-se de uma pequena fazenda de criação de cabras, que produz queijos simplesmente espetaculares. Com a minha ignorância, não tinha idéia de que há uma razoável variedade de tipos do produto, que podem ser provados no próprio local. Além disso, a Cremerie mantém um charmosíssimo restaurante, cuja varanda volta-se para a mata e cujo cardápio inclui tábuas, filés e trutas de encher os olhos - e a boca, evidentemente. Fica, aqui, a dica para quem passar por perto. E quem quiser conhecer um pouco, ao menos virtualmente, sobre a fazenda, pode acessar aqui o site deles.



 Escrito por Marcelo às 11h55
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Delicioso papo sobre as coisas do Rio

Quem não foi, perdeu: foi um verdadeira aula o que tivemos na edição de ontem dos Encontros no Subsolo, talvez a melhor desde que assumi a curadoria do evento. Sob o tema Ficções do Rio: imagens literárias da cidade, o jornalista João Carlos Rodrigues desfilou seu profundo conhecimento sobre a história da cidade, relacionando-a com diferentes manifestações culturais, como a própria literatura, a música, o teatro e a arquitetura. Com a verve afiada de sempre, João Carlos encantou a platéia ao contar episódios curiosos da vida de escritores como João do Rio e Lima Barreto, sem deixar de soltar farpas na direção do poder público (que por vezes atua contra o Rio, ficando omisso ou mesmo agindo para sua descaracterização. 

De sua parte, o Bruno Veiga fez um relato sobre sua experiência de 'fotógrafo-flanêur', que resultou em livros como Geografia carioca do samba, Rio literário, Praias do Rio e Rio Botequim. Veiga concentrou-se sobretudo sobre a topografia do subúrbio, destacando sua profusão de cores, que contrapôs ao que chamou de "manhattização" da zona sul*. Como mediador, limitei-me a passar a palavra a um e ao outro - e aprender com eles.


* A foto acima, do Bruno Veiga, foi especificamente citada ontem por ele no decorrer do debate...



 Escrito por Marcelo às 11h42
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Narrativas para quem está com pressa

Nosso amigo Henrique Rodrigues, o Buddy, começou uma nova (e divertidíssima) série em seu blog, o Fullbag. Depois de satirizar vários autores brasileiros, escrevendo textos à moda de, HR agora dedica-se às Narrativas para quem está com pressa, sintetizando com humor - e, vá lá, algum sarcasmo - alguns dos maiores clássicos da literatura. Reproduzo um dos textos, o de Grande Sertão: Veredas, abaixo. Acompanhe a série inteira aqui.

"Nonada. O senhor, que é de respeito e prumo, sabe que é no desvão dos entretudos se alojam as maculagens. Não sou de plantar fé no Cabrunco, no Insidioso, no Inominado; ele é que me impõe a trilha das desgraceiras. Como da vez em que deparei com Diadorim, guerreiroso e façanhudo. Era todo não-se, e eu no-que - aquantas segue o fio da peixeira?, eu me inqueria. E então somei: de rependendo, temia saltar do meio daquele buritizal uma presença avolumada. Poisque Diadorim, afinal, era nada de sertão - era sertinha."



 Escrito por Marcelo às 10h53
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Esquentando os tamborins

No Tribuneiros, o gente-boa Carlos Andreazza debruça-se mais uma vez as coisas do Império Serrano, num texto em que divide sua curiosidade (e, por que não dizer?, perplexidade) com o enredo escolhido para 2007: Ser diferente é normal. Escrito com aquela paixão que costuma mover os imperianos de fé, o artigo passeia pelos grandes sambas da história da Serrinha, lembrando de Silas de Oliveira, Mano Décio (foto), Beto Sem Braço e Roberto Ribeiro. Confira, na íntegra, aqui. Abaixo, o trecho final do texto:

"(...) Faz pouco a escola anunciou o título de seu enredo para 2007 – “Ser diferente é normal; o Império Serrano faz a diferença no carnaval”. De acordo com a sinopse distribuída à ala compositores, uma homenagem aos sessenta anos da agremiação – ela mesma um complexo inacreditável de divergências e disputas sem fim –, através de um mergulho compreensivo por toda sorte de diversidade humana, seja física, sexual, religiosa etc.
Não sei no que vai dar e preferia que, ao completar sessenta anos, o Império cantasse a si mesmo e a um dos seus – e cheguei mesmo a sugerir formalmente um enredo sobre Dona Ivone Lara. Não deu. Paciência e esperança num bom resultado - sempre. Também: um pouco de curiosidade a respeito do tema escolhido – muita curiosidade, aliás.
Afinal, não deixa de ser interessante que o Império Serrano – aquele que, quando rebaixado pela primeira vez, em 1991, desfilou o mais agressivo e auto-referente samba-enredo da história do carnaval, não obstante genial-genial, com o refrão politicamente incorreto “Sou Império, sou patente/Só demente é que não vê/Do samba sou expoente/Abra meu livro, pois tu sabes ler” (Beto Sem-Braço/Jangada/Maurição) – aposte-se agora numa missão de tolerância e reflexão. Vamos a ver. Vamos a desfilar e torcer. E é certo que mais um lindo samba virá - esta que é a vocação da escola...  Mas registro: eu prefiro o Império marrento - sempre."

De meu lado, completo: eu também, Andreazza.



 Escrito por Marcelo às 11h15
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Blogs

Ah, sim, tem links novos na coluna ao lado: Santa Bárbara e Rebouças, do Gustavo de Almeida, JX Blog, do Ximenes Braga, e Opiário, do Saint Clair Stokler.

 Escrito por Marcelo às 20h38
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Ficções do Rio

Na próxima quarta, às 18h30, acontecerá mais uma edição dos Encontros no subsolo, promovidos pela Livraria Leonardo da Vinci (Av. Rio Branco, 185). O fotógrafo Bruno Veiga, que fez as fotos que ilustram os livros Rio literário, Geografia carioca do samba, Rio botequim e Praias do Rio, e o jornalista João Carlos Rodrigues, autor de João do Rio: uma biografia e organizador das crônicas de Vida vertiginosa (também de João do Rio), falarão sobre o tema Ficções do Rio: imagens literárias da cidade. A idéia é bater um papo descontraído sobre como a literatura se relaciona com a topografia carioca, em conversa que será mediada por este que vos escreve. Espero por vocês!



 Escrito por Marcelo às 13h09
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A solidão da criança de botequim

O Paulo Pires anda com a pena afiada. Há algumas semanas, ele me emocionou com um texto dolente sobre as coisas que ficam pra trás, utilizando como gancho o fechamento do Caneco 70. Pois hoje ele volta à tona e me transporta para os final dos anos 70 e começo dos 80, num bar daqueles em que se bebem em pé, na Rua Carvalho de Souza, quase esquina com Edgard Romero. Vejo, ali, o garoto que puxa a calça jeans do pai e pede para ir embora, enquanto ouve "esse é o último, esse é o último" e pensa: por que os adultos gostam tanto disso? Ah, o tempo...

"A criança de botequim"

Paulo Roberto Pires

"É impressionante a solidão da criança de botequim. Esta sensação, aguda, me veio na festa que comemorou, mês passado, os 50 anos do encontro de Vinicius de Moraes e Tom Jobim. Como se sabe, o poeta, já consagrado, e o músico iniciante foram apresentados um ao outro por Lucio Rangel, discreto super-herói da música brasileira, numa mesa da uisqueria Villariño, que continua de pé no Centro do Rio de Janeiro, alegremente habitada por seus fantasmas camaradas.

No fundo do bar, há a reprodução, que ocupa toda uma parede, da famosa fotografia de uma mesa dos anos 50, tirada naquela exata posição no Villariño. Nela estão Vinicius, Lúcio, Paulo Mendes Campos, Fernando Lobo, José Condé, Sérgio Porto (de costas), um sujeito de óculos que jamais foi reconhecido e, solitariamente, encarando a câmera, uma criança. É Pedro de Moraes, filho do poeta e hoje fotógrafo de primeira, que na época devia ter uns 10 anos e, na foto, parece perdido entre baldinhos de gelo, copos longos, garrafas de uísque e boêmios históricos.

Se eu fosse francês e semiólogo como Roland Barthes, diria que aquela foto tem um studium, que é seu contexto histórico, que determina sua importância e faz com que a gente fale dela até hoje, e um punctum, que é o ponto de fuga, o detalhe que rouba a atenção e nos leva para além de todo o contexto, às vezes até anulando-o. Como sou carioca e estou mais para Escola de Samba do que Collège de France, diria que ser criança de botequim não é mole não.

Pois a criança de botequim não conhece geração, época ou lugar. É filho ou filha de boêmio e, em idade tida como imprópria e hora havida como incorreta, acaba freqüentando com o pai (ou a mãe) um meio em que adultos bebem, conversam, riem, namoram, contam histórias, casam, descasam, comemoram, lamentam. Um mundo que se abre diante de uma criança entre perplexa e entediada, a quem procuram agradar com revistas, lápis de cor e balas. E que finge entreter-se, destinando aos adultos a sábia condescendência infantil.

Quem traz o botequim na lembrança como uma bicicleta ou um álbum de figurinhas sabe do que estou falando. Mas os que não têm esta referência que não se apressem em identificar nela um trauma infantil ou pesadelo similar: a criança de botequim é, na verdade, cumulada de afeto, do afeto possível do pai ou da mãe que, não resistindo aos apelos do desregramento boêmio, precisam manter um vínculo com a vida dos calendários e relógios.

Pois boêmio que é boêmio sempre vive no dilema entre a casa e a rua, uma das muitas formas, aliás, de perceber a luz e a sombra da existência, a ordem e desordem dos sentidos, o dia cheio de exigências e a noite aberta em liberdade. Esta é uma vida um tanto turvada e, no fundo, solitária – quando se volta para a família um pouco alterado, quando a manhã arromba todas as ilusões e os carros passam com os faróis ainda acesos com a barulhada de pardais.

A criança de botequim é uma doce garantia de que nada disso vai acontecer. Ela, por ser criança, inibe a madrugada jogada fora, a errância do desejo de quem quer tudo ao mesmo tempo, a tal da solidão do boêmio. Na intimidade do boêmio, ela é a companhia essencial, o esteio.

Filha de um ilustre boêmio, uma ex-criança de botequim me contou que, aos 15 anos, acompanhou o pai a um bar, à espera de conhecer um de seus célebres amigos músicos. Para seu espanto, o pai pediu dois uísques. “Eu não bebo, pai”, argumentou. “Mas eu não gosto de beber sozinho”, respondeu ele, iniciando-a, assim, numa vida boêmia própria. Uma outra ex-criança de botequim, também filha de pai ilustre, acabou fazendo da própria filha sua companhia, ao ponto em que a criança dizia, sem problemas: “Minha mãe trabalha em tal lugar (o escritório de verdade) e no (o bar em questão)”.

Politicamente corretos de todas as extrações e níveis de paranóia podem ver nisso tudo uma denúncia terrível de como o álcool desestrutura famílias, pode ser passado de geração em geração, é danoso para as relações humanas, etc. É, pode ser. Mas o principal para entender a criança de botequim não é a dissolução, mas a união.

Pois se a criança, quando no botequim, vive a solidão, pouco tempo depois acaba assimilando alguns valores nada desprezíveis. Sabe, desde cedo, que a vida só é rica com o encontro, com a troca, com a conversa, com a disponibilidade. Descobre que o “fazer nada” do papo furado é, quase sempre, um “fazer tudo”, exercício de inteligência. Experimenta como a amizade, de botequim ou não, é um antídoto contra a cretinice da vida. Lembra, para sempre, do pai ou da mãe como um amigo próximo, com quem a qualquer momento você pode sentar e trocar idéias de igual para igual, como sempre os viu fazer com os outros.

É impressionante a solidão da criança de botequim. Mas, com a distância do tempo, ela é um afago na alma se comparada à solidão que nos espreita a todos quando morre, em nós, aquela criança que, entre perplexa e entediada, era movida a curiosidade pelo mundo que descobria."



 Escrito por Marcelo às 11h19
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De volta à realidade

 

A julgar pelos resultados de hoje, que coroam quase 40 dias de treinamento e preparação das duas equipes, será muito interessante a finalíssima da Copa do Brasil. O Vasco foi derrotado por um dos lanternas do Brasileirão, o Palmeiras, levando de lambuja quatro gols. O Urubu não fez por menos: mesmo jogando em casa, caiu de quatro diante da poderosa esquadra do Paraná Clube. Agora vai!



 Escrito por Marcelo às 22h29
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Prêmio Jabuti 2006

Acaba de ser divulgada a relação dos indicados, em primeira fase, ao Prêmio Jabuti 2006. É claro que discordo de muitas - mas muitas mesmo - das indicações, mas pelo menos a presença de não-medalhões na lista é algo digno de comemoração. Seguem as relações preliminares nos gêneros romance, conto e poesia:

Romance

 

1. CINZAS DO NORTE - MILTON HATOUM - COMPANHIA DAS LETRAS

2. MANDRAKE, A BÍBLIA E A BENGALA - RUBEM FONSECA  - COMPANHIA DAS LETRAS

3. NA NOITE DO VENTRE, O DIAMANTE - MOACYR SCLIAR – OBJETIVA

4. MENINO OCULTO - GODOFREDO DE OLIVEIRA NETO - EDITORA RECORD

5. OLHO DE REI - EDGARD TELLES RIBEIRO - EDITORA RECORD

6. MENINOS NO PODER - DOMINGOS PELLEGRINI - EDITORA RECORD

7. JOANA A CONTRAGOSTO - MARCELO MIRISOLA - EDITORA RECORD

8. MAGNÓLIA - ROMANCE EM 100 FATOS E UM VÕO DE INSETO - MARCIA TIBURI - BERTRAND BRASIL

9. EU RECEBERIA AS PIORES NOTICIAS DOS SEUS LINDOS LÁBIOS - MARÇAL AQUINO - COMPANHIA DAS LETRAS

10. BANDEIRA NEGRA, AMOR - FERNANDO MOLICA – OBJETIVA

 Escrito por Marcelo às 15h00
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Contos

 

1. CONTOS NEGREIROS - MARCELINO FREIRE - EDITORA RECORD

2. HISTÓRIAS MAL CONTADAS - SILVIANO SANTIAGO - ROCCO

3. A MILÉSIMA SEGUNDA NOITE - FAUSTO WOLFF - BERTRAND BRASIL

4. DISCURSO SOBRE O CAPIM - LUIZ SCHWARCZ - COMPANHIA DAS LETRAS

5. 23 HISTÓRIAS DE UM VIAJANTE - MARINA COLASANTI - GLOBAL EDITORA

6. ORGIAS - LUIS FERNANDO VERISSIMO - OBJETIVA

7. A HORA EXTREMA - MÁRIO ARAÚJO - EDITORA 7LETRAS

8. HISTÓRIA UNIVERSAL DA ANGÚSTIA - WALDEMAR JOSÉ SOLHA - BERTRAND BRASIL

9. AO HOMEM QUE NÃO ME QUIS - IVANA ARRUDA LEITE - AGIR EDITORA

10. HOMENS COM MULHERES - BERNARDO AJZENBERG - ROCCO

 

Poesia

 

1. VESTÍGIOS - AFFONSO ROMANO DE SANT`ANNA - ROCCO

2. ELEGIA DE AGOSTO - RUY ESPINHEIRA FILHO - BERTRAND BRASIL

3. COMO NO CÉU & LIVRO DE VISITAS - FABRICIO CARPINEJAR - BERTRAND BRASIL

4. POESIA REUNIDA - IVAN JUNQUEIRA - A GIRAFA EDITORA

5. PEDRA DE LUZ - RODRIGO PETRONIO - A GIRAFA EDITORA

6. O RESMUNDO DAS CALAVRAS - MARCUS FABIANO GONÇALVES - WS EDITOR

7. QUASE UMA ARTE: PAULA GLENADEL - PAULA GLENADEL - COSAC NAIFY

8. FAZER SILÊNCIO - MARIANA IANELLI - EDITORA ILUMINURAS

9. GAIOLA ABERTA - DOMINGOS PELLEGRINI - BERTRAND BRASIL

10. ESTALEIROS DE VENTO - FRANCISCO ORBAN - OROBÓ EDIÇÕES



 Escrito por Marcelo às 14h59
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JBlogs

Estão muito interessantes (e bonitos) os blogs que o Jornal do Brasil inaugurou há pouco tempo em sua página na internet. Os blogs são temáticos e tratam, entre outros assuntos, de cinema, literatura, música, gastronomia, tecnologia e esportes. Destaque para Santa Bárbara e Rebouças - Idas e vindas de uma cidade-país, assinado pelo gente-boa Gustavo de Almeida - que, aliás, me joga confetes num texto que postou lá. Acesse todos eles aqui.



 Escrito por Marcelo às 13h35
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Ingressos para a Flip: novo caos

Assim como no ano passado, foi uma verdadeira zona a venda de ingressos para a Flip. A exemplo do que tinha acontecido com as Lojas Americanas, a Ticketmaster se mostrou despreparada para prestar um serviço minimamente decente aos muitos que se acotovelaram nos pontos escolhidos para a comercialização - aliás, alardeada em páginas inteiras nos principais jornais. Não foi diferente com aqueles que tentaram comprar via internet ou telefone. Na Modern Sound, onde cheguei às 11h45 e encontrei uma pequena fila, havia três (!!!) funcionários, morosos que só, que levavam em torno de 40 minutos para atender cada comprador. Possivelmente, assistiremos ao mesmo triste espetáculo de 2005: ingressos teoricamente esgotados e vários lugares vazios na Tenda Principal. Começou mal a Flip 2006.

Em tempo: consegui - e graças ao HR - apenas ingressos para o telão...



 Escrito por Marcelo às 11h34
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Iberê em catálogo

Leio na Ilustrada (Folha de S. Paulo) de hoje que toda a obra do Iberê Camargo foi catalogada e está sendo reunida em três volumes (dedicados às gravuras, pinturas e desenhos) num trabalho em parceria da Cosac Naify com a Fundação que leva o nome do artista. O primeiro livro, que acaba de ser lançado, tem 500 páginas e reúne 329 gravuras, muitas delas com temas da obsessão de Iberê, como os carretéis. É um magnífico presente (caro, é bem verdade) para aqueles que, como eu, são fãs do expressionismo melancólico do pintor.



 Escrito por Marcelo às 17h24
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Canção para hoje (sempre)

"Clube da Esquina"

Milton Nascimento / Lô Borges / Marcio Borges

"Noite chegou outra vez,
de novo na esquina os homens estão
todos se acham mortais
dividem a noite, e lua e até solidão
neste clube, a gente sozinho se vê, pela última vez
à espera do dia, naquela calçada
fugindo de outro lugar
perto da noite estou
o rumo encontro nas pedras
encontro de vez
um grande país eu espero,
espero do fundo da noite chegar
mas agora eu quero tomar suas mãos
vou buscá-la aonde for
venha até a esquina
você não conhece o futuro
que eu tenho nas mãos
agora as portas vão todas se fechar
no claro do dia, o novo encontrarei
e no curral D'El Rey
janelas se abrem ao negro do mundo lunar
mas eu não me acho perdido
no fundo da noite partiu minha voz
já é hora do corpo vencer a manhã
outro dia já vem
e a vida se cansa na esquina
fugindo, fugindo pra outro lugar"



 Escrito por Marcelo às 11h12
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Somos todos iguais nesta noite

Ontem recebi da Rocco a primeira prova do meu livro - Somos todos iguais nesta noite -, que sairá no segundo semestre. Não posso esconder que ando meio tenso por lançar um novo trabalho-solo depois de cinco anos.



 Escrito por Marcelo às 11h01
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Razão

Por que o Zidane deu aquela cabeçada bizarra no italiano Materazzi?

Ah, vai ver que foi porque durante a infância ele ficou jogando bola, em vez de estudar.



 Escrito por Marcelo às 22h58
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Cortázar em dois tempos

Quem gosta da literatura do Cortázar não deve deixar de conferir a nova edição do site Paralelos, que traz um ótimo texto do amigo Cassiano Vianna. Cassiano trabalha atualmente numa biografia do autor argentino e tem traduzido contos da lavra do escritor ainda não lançados no Brasil. Um deles, alás, será lido na próxima quarta, às 20h, na Livraria Dantes (dentro do Cine Odeon), com posterior debate. O conto chama-se Bix Beiderbecke e nunca foi terminado. Posto um trecho abaixo:

"(...) Escrevo porque não há mais o que fazer e porque é certo ou parecerá certo para alguém que seja como eu. Existem, esbarro neles perto ou longe na vida. Nem todos vivem atados ao que lhes ensinaram. Veja, Rimbaud disse que se apaixonara por um porco e os professores dizem que era um grande poeta, o fazem provavelmente sem convicção, porque devem pensar assim para não parecerem idiotas. Porém, eu sei que era um grande poeta e Bix também o sabia, ainda que jamais tenha lido uma linha em francês e eu tinha que lhe traduzir Rimbaud, ao que ele colocava a mão na cabeça e ficava pensando, ou ia até o piano e começava a tocar essa coisa que agora se chama In a Mist e que era sua maneira de dizer que entendia a poesia francesa, porque entendia Debussy e como quase tudo lhe chegava pela música, essa era a única maneira de entender certas coisas, a vida, por exemplo, a ordem disso que chamo realidade e que ele entendia somente por dó maior ou fá sustenido, soprando docemente seu trompete ou indo ao piano para deixar nascer Lost in a fog, queimando os lábios com o cigarro esquecido pelas mãos, aranhas que teciam e teciam no teclado até que tudo acabava em um palavrão e num salto, eu sempre tinha por perto um tubo de creme para lhe curar os lábios; depois nos beijávamos sorrindo e ele voltava a xingar porque lhe doía e porque o trompete ia lhe doer ainda mais à noite, quando tivesse que tocar no Blue Room por oitenta dólares a apresentação.(...)"



 Escrito por Marcelo às 11h47
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Em resumo

A finalíssima entre Itália e França, decidida nos penais, não poderia ter sido mais adequada a essa Copa da Alemanha, uma competição marcada pela mediocridade geral e irrestrita. Exceto alguns brilharecos eventuais, como a goleada dos hermanos contra Sérvia e Montenegro, não houve nada realmente arrebatador. Faltou "o" craque, aquele camarada que carrega o time com ele e decide, em geral com maestria. E não venham me citar o camisa 10 francês - apesar de ser, de fato, um "estilista", Zidane esteve longe de brilhar intensamente (como em 1998) e ainda nos ofereceu um triste espetáculo no jogo de ontem. Deu Itália, como poderia ter dado França, ou outra equipe do chamado primeiro escalão; qualquer resultado que apontasse uma delas seria "justo", mas o nível foi baixíssimo.

Quanto à nossa Seleção, foi, entre os medíocres, o maior deles. Aliás, a melhor definição para a "campanha" brasileira na Copa eu ouvi hoje pela manhã: "A volta dos que não foram". Sigamos, pois, com o Brasileirão.



 Escrito por Marcelo às 11h01
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Bebeto Castilho

 

As últimas semanas, repletas de trabalho, impediram que eu escrevesse antes sobre o cd Amendoeira, de Bebeto Castilho – decerto um dos mais interessantes entre os que ouvi este ano. Trata-se do segundo disco-solo de Bebeto – o álbum de estréia, lançado em 1976, está há muito tempo fora de catálogo no Brasil -, cantor bissexto do mítico Tamba Trio, que se destaca pela voz pequena, suave e sem afetação. Poderíamos dizer que sua interpretação é cool, se o termo não estivesse tão desgastado pelo mau uso.

Amendoeira distingue-se, antes de tudo, pelo repertório irrepreensível. O disco é aberto com uma deliciosa pérola de Caymmi: A vizinha do lado ("A vizinha quando passa / Com seu vestido grená..."). De Caymmi vamos a Benedito Lacerda (e Erastótenes Frazão), na melodia sinuosa de Sabiá da Mangueira ("Desde o dia em que me despedi de Mangueira / Nunca mais eu vi o povo de lá...") e, além deles, o cd traz Ataulfo Alves (com Américo Seixas, em Infidelidade), J. Cascata (Minha palhoça), Geraldo Pereira (com Marino Pinto, em Pode ser?), Sílvio Caldas (com Rogaciano Leite, em Cabelos cor de prata) e as participações de Wilson das Neves (ave, mestre!), Thalma de Freitas e Nina Becker. Entre meus destaques particularíssimos, aponto ainda a lírica Beijo distraído, de Durval Ferreira e Regina Werneck, uma composição bem à feição da voz de Bebeto, e, finalmente, a bela Amendoeira, na qual o sobrinho do cantor, Marcelo Camelo (sim, o rapaz dos Los Hermanos), comprova que seu talento pode passear entre gêneros distintos da música. A tristeza leve que marca as criações de Camelo encontra, no samba-canção, um ótimo ninho, onde brilham ainda com mais intensidade os seus versos: 

"Amendoeira"

Marcelo Camello

"Amendoeira à beira da janela

é ela sim

quem olha por mim

chora nas folhas derradeiras mágoas

das primeiras horas

galhos rasos d’água

fosse ainda coisa passageira essa tristeza

feito assim um peso que se leva sem notar

fosse ainda um peso verdadeiro

fosse inteiro eu carregava, amendoeira,

de certeira eu carregava

cava essa tristeza companheira de janela

deixa que com ela a gente fica à vontade

cabe nos teus galhos o meu peso

que beleza, amendoeira,

a certeza de ser triste do seu lado"



 Escrito por Marcelo às 11h57
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Por que torcer por Portugal

Ao comentar sobre minha ansiedade com o jogo de hoje, entre Portugal e França, tenho ouvido críticas de alguns amigos, que não admitem torcer pelos lusos. Alegam eles que nossos "colonizadores" são culpados por boa parte das chagas que nos dóem até hoje. Curioso o raciocínio: parte do pressuposto de que a colonização seria boa se conduzida por outras nações. Como se ingleses ou holandeses, só para ficarmos nos exemplos mais citados, fossem nos tratar como algo diferente de simples "colônia".

Evidentemente, as relações entre "colonizadores" e "colonizados" são sempre movidas por desvãos de amor e ódio, cabendo ao tempo e à história amainar tais sentimentos - até porque já estamos bem crescidinhos para assumirmos nossas próprias falhas, não é verdade? Reducionista é acreditar que a herança de outro país, que não Portugal, pudesse nos ser mais valiosa. Ora, Portugal nos legou, entre outras coisas, esse traço sentimental que tanto nos é caro e que vivemos a contrapor, orgulhosos, à frieza dos anglosaxões. Legou-nos também o prazer em bem receber o outro, característica tão marcante dos lusitanos (e que tive a alegria de experimentar in loco quando estive por lá, há sete anos). Legou-nos, sobretudo, a língua portuguesa, essa catedral semântica e singular que, longe da objetividade idiota do Inglês, parece ter sido perfeitamente talhada para expressar na palavra emoções que são tão nossas, de brasileiros e portugueses.

Esses são apenas alguns argumentos possíveis para justificar minha torcida. Todos eles caem por terra, contudo, diante de um motivo maior: a emoção que tenho sentido com essa seleção comandada pelo Felipão desde o início da Copa. Muito em virtude do trabalho dele, é claro. Mas ainda mais por enxergar naquela bela camisa grená algo bastante familiar, que de alguma forma e para além de raciocínios lógicos, diz ser uma parte de mim.



 Escrito por Marcelo às 10h47
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Gosto, cânone e relativismo

Muito pertinentes as observações que o Bernardo Carvalho faz em sua coluna na edição de hoje da Ilustrada (Folha de S. Paulo). Alfinetando o "raciocínio relativista" típico dos chamados "estudos culturais", Carvalho lembra que a literatura deve ser apreciada pelo que "é", não pelo que "representa" - e que, em última análise, o relativismo radicalizado não é senão (e também) uma forma de absolutismo. Segue a íntegra do texto:

"Robespierre e eu"

Bernardo Carvalho

"Num texto publicado há um mês na revista "The New Yorker", o crítico Adam Gopnik escreveu a propósito de uma biografia de Robespierre: "[Ele] representa a ascensão do nerd assassino de massa -um homem que, tendo lido um livro, resolve matar todos os que não o apreciam tanto quanto ele. (...) O intelectual pequeno e fastidioso, o homem com uma idéia, o protótipo de Lênin ouvindo Beethoven enquanto a Tcheka inicia seus expurgos. Em tempos normais, esse tipo de homem vira professor universitário, resenhista de livros ou bloguista. São necessárias circunstâncias históricas especiais para que se torne assassino".
Exercendo com alguma freqüência uma das três funções que o modelo de homem identificado com Robespierre assume em tempos de paz, me sinto à vontade para concordar com a definição. De fato, já tive vontade de matar quem não gosta dos livros que aprecio. Várias vezes.
Uma amiga, professora universitária, encorajada pela minha confissão, não hesitou em se abrir, como quem se livra do peso de anos de silêncio: "O pior é quando eles [os alunos] adoram um livro que você odeia".
Um desses alunos uma vez me perguntou quais eram os meus autores preferidos. A minha resposta só produziu desdém. O aluno reiterou a pergunta: "Você não consegue citar nada além do cânone?".
O "cânone", para ele, reproduzindo a visão histórica e sociologicamente relativista do departamento de letras onde estudava, era a literatura moderna, criada sob a égide da burguesia florescente e imposta como modelo ao resto do mundo, durante o auge do capitalismo industrial e imperialista. Gente como Conrad, Proust, Joyce, Kafka, Beckett etc. Como alternativa, o aluno propunha "outras vozes" (das mulheres, dos negros, dos gays e dos excluídos sociais, em geral de países periféricos massacrados pelo imperialismo e pelo capitalismo). Propunha as vozes dos autores no lugar das obras, que lhe eram indiferentes (ou, pelo menos, secundárias), uma vez que estas, ao contrário daquelas, se beneficiavam dos critérios subjetivos impostos pela hegemonia do poder.
Em outras palavras, já que era impossível analisar objetivamente as obras, sem as ferramentas da história e da sociologia, o que contava eram as "vozes". Eram o único parâmetro objetivo para uma compreensão engajada da literatura. Sua visão, imbuída em aplicar às artes os mesmos princípios de justiça social e de democracia que deveriam reger toda sociedade digna, reduzia a ficção a testemunho e a literatura a expressão e representação (de classe ou extração social, gênero, raça). O aluno era um filho típico dos estudos culturais e do multiculturalismo.
O que ele não queria ver é que o seu raciocínio relativista, por mais objetivos que fossem os seus critérios, não deixava de reproduzir a sanha de Robespierre. Não só ele continuava com vontade de matar quem não gostasse dos livros que ele apreciava, mas agora estava munido de argumentos objetivos para tanto.
Não estava me dizendo somente que o meu gosto ("burguês e reacionário", segundo ele) era resultado de uma formação cultural entre outras. Estava me anunciando o fim da discussão, com um argumento absoluto e irrefutável, ao transferir o foco de uma subjetividade (a obra) para uma objetividade sociológica (a voz que se exprime por meio da obra e por ela é representada). O aluno endossava, assim, uma compreensão bastante comum da literatura, segundo a qual um romance deve ser lido e apreciado "pelo que ele representa" e não "pelo que ele é", pelo que ele diz e não por inaugurar um outro modo de dizer e de pensar, ampliando assim a própria compreensão da literatura.
O que desperta o espírito de Robespierre em mim é menos o fato de haver gente no mundo que não gosta do que eu gosto do que o fato de dizerem que não percebem a diferença entre o que eu gosto e o que eu não gosto, por conta de uma ordem extraliterária, moral ou política.
Tanto eu como o aluno, entretanto, teremos que aprender a lidar e conviver com subjetividades conflitantes, se quisermos que a literatura sobreviva do modo libertário como foi concebida pela modernidade no Ocidente. Uma literatura que rompe com o que os seus contemporâneos (o aluno e eu) esperam e exigem dela e se recusa a seguir os caminhos que lhe indicam a crítica, a moral ou o mercado. Pois está determinada a ir além da mera representação social ou do documento de identidade, até onde eu e o aluno (e os nossos discursos) seremos obrigados a nos reinventar junto com ela."



 Escrito por Marcelo às 16h54
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Charles Kiefer

 

O Prosa & Verso (O Globo) publicou, na edição de ontem, minha resenha sobre dois livros (Logo tu repousarás também e Quem faz gemer a terra) do gaúcho Charles Kiefer, autor que terá toda a sua obra relançada pela Record. Segue a íntegra do texto:

Literatura que brilha mas subumbe às grades invisíveis do panfletarismo

Marcelo Moutinho

O gaúcho Charles Kiefer é exemplo clássico de um fenômeno literário típico dos pampas. Autor de 27 livros, que chegaram a respeitáveis 300 mil exemplares vendidos, e laureado com dois Jabutis, entre outros prêmios importantes, ele permanece praticamente desconhecido no resto do país. Tal quadro decerto começará a mudar a partir de agora. De contrato recém-assinado com a Record, Kiefer terá relançada toda a sua obra em plano nacional, incluindo incursões pelas searas da prosa, da poesia e do ensaio. “Logo tu repousarás também” e “Quem faz gemer a terra”, os dois títulos inaugurais da fornada, acabam de chegar às livrarias.

O primeiro trabalho é uma seleta com 14 contos inéditos, que confirmam a opção do escritor por uma narrativa realista e de cunho social. Em alguns momentos, como nos ótimos “Medo” e “O boneco de neve”, Kiefer consegue penetrar com sutileza naqueles misteriosos sulcos dramáticos que se escondem por detrás dos fatos cotidianos. Uma prosaica corrida de táxi pode, então, conduzir aos traumas mais agudos de um torturador, e uma brincadeira aparentemente inocente entre garotos, resultar em morte.

Quando flerta com o fantástico, caso de “O terceiro cão”, o resultado é igualmente satisfatório, embora as referências à própria literatura — através de personagens emblemáticos como o flanêur ou de poetas como Drummond — sejam, além de demasiadas, desnecessárias. Essas alusões, que evidenciam um incômodo conflito entre seus ofícios de professor de letras e autor, aparecem também no pretensamente borgiano “Rosa rosarum”. Estruturada sob a forma de um ensaio, inclusive com as tradicionais notas de rodapé, a trama centra-se na investigação do próprio Kiefer sobre as origens de “A biblioteca de Babel”, célebre conto do escritor argentino.

O grande senão do livro, contudo, é a luz desconfortável — porque exageradamente intensa — que o autor acende naquela zona de penumbra que deve pairar sobre a narrativa ficcional. Mesmo o realismo necessita desse espaço negociável entre o texto e o leitor, sob pena de sucumbir ao meramente discursivo — como ocorre, só para citarmos um exemplo, no engajado “Insônia”.

Já evidente na seleta de contos, tal traço se explicita ainda mais em “Quem faz gemer a terra”, novela publicada originalmente em 1991 e baseada no episódio verídico de um soldado morto em conflito com os sem-terra em Porto Alegre. A história é narrada sob o ponto de vista de Mateus, o camponês que assassinou o policial. Como se prestasse um depoimento, o protagonista faz uma retrospectiva da própria vida, desde a infância até o ingresso no assentamento e o posterior crime. É que “contar clareia”, como observa ele.

Kiefer brilha ao desenhar, com criativas metáforas, as recordações mais remotas de Mateus, referentes ao tempo em que ainda defrontava-se com as dúvidas e descobertas de criança. Coalhadas por imagens poéticas, as reminiscências abarcam a companhia da deliciosa figura do avô, que dormia num caixão a fim de aguardar pela morte devidamente preparado. São personagens que remetem ao lirismo do moçambicano Mia Couto, configurando uma espécie de poética da infância, povoada por cheiros, cores e sensações que, uma vez experimentados, a memória preserva para sempre.

Assim como nos contos, Kiefer imprime ritmo perfeito à narrativa, que flui sem solavancos. Mas à medida que avança, a novela vai perdendo matizes, até chegar ao puramente maniqueísta quando a questão social enfim se exacerba. Então o ideológico — ainda que supostamente meritório — se sobrepõe ao literário, e o viés político torna-se direto, como demonstra a passagem em que o protagonista, indignado com a repercussão dos atos dos sem-terra, indaga: “Agora, querem fazer da foice o símbolo da nossa violência. Me diga, não é violência o que passam os velhos doentes, as crianças e as mulheres nos acampamentos?”.

Persuasivo em essência, esse jogo sem meio-termos que define mocinhos e bandidos espreme a ficção em sentenças categóricas, parecendo esquecer que mesmo a narrativa realista é uma “reescritura” do real. Como se fosse necessário oferecer ao leitor um prato-feito repleto de respostas, achata o campo da dúvida e confunde a perspectiva humanista — que viceja na obra de escritores como Albert Camus e Graciliano Ramos — com dicotomias redutoras. Nessa operação, a literatura de Kiefer acaba refém de sua própria ânsia: ao se querer livre e crítica, sucumbe no fim das contas às grades invisíveis do panfletarismo.

* MARCELO MOUTINHO é escritor e jornalista



 Escrito por Marcelo às 18h27
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Sejamos lusos agora

 

A derrota para a França foi a exacerbação de traços que já se insinuavam desde os primeiros jogos. Mais do que faltar esquema tático (o que se consegue com treinos, inclusive coletivos, que não foram vistos na Alemanha) e uma escalação mais adequada, faltou sobretudo foi "alma". A equipe brasileira por quase todo o tempo teve a cara do Parreira: o que parecia equilíbrio era passividade e o que parecia segurança, soberba. A Seleção foi oposto radical do time português, que, dirigido por Felipão, tem vencido suas fragilidades justamente por não faltar-lhe a tal "alma". Hoje, quando Portugal fez o gol que seria anulado, eu dirigia pela Urca e ouvia o embate pelo rádio. Ainda sem saber que o tento acabaria invalidado, peguei-me vibrando, aos gritos e com os braços erguidos, como gostaria de ter feito com o Brasil - mas nosso time, com muita sinceridade, não ajudou.

Estamos merecidamente fora da Copa. E o caminho agora é dar todo o apoio à "equipa" portuguesa. Sejamos lusos, pois.



 Escrito por Marcelo às 18h25
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