Jogão

Bela, belíssima partida do time reserva do Fluminense contra o São Paulo agora há pouco no Morumbi. Mesmo com o time repleto de suplentes, jogamos de igual para igual com o campeão da Libertadores - e na casa deles. Aliás, aos urubulinos que, cabisbaixos e irritados com os dois anos e quatro meses de jejum contra nós, reclamavam tanto da arbitragem do FlaxFlu: é bom que saibam que no jogo de hoje, os prejudicados fomos nós (gol legal anulado), e ainda assim estamos na liderança. É um indicador que as diferenças entre as duas equipes não se devem a meros erros arbitrais, não?



 Escrito por Marcelo às 23h48
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Tempo demolidor

Está bonito de doer o texto do amigo Paulo Roberto Pires em sua coluna desta semana no site No Mínimo. Sob o pretexto de lamentar o fim do Caneco 70 - um bar que, aliás, me traz amarguíssimas lembranças pessoais -, Paulo observa que certos lugares, quando demolidos, soterram também a alma da gente. Segue a íntegra do artigo, com um longo (e emocionado) grifo meu sobre aquele que entendo ser o "coração" do texto: os parágrafos que aludem aos efeitos sempre belos e terríveis do crepúsculo, de todos os crepúsculos... 

"O bar demolido"

Paulo Roberto Pires

"Maio foi o mais cruel dos meses para os boêmios cariocas. Aqui, a terra devastada caiu um mês depois do calendário oficial, mas minha ficha é que não tinha caído: não me uni, de imediato, ao coro de carpideiras do bravíssimo Caneco 70, derradeiro bar decente da orla chique da cidade, no final do Leblon, longe da turistada e da favelização copacabanense. Mas nestes dias esplendorosos de outono, quando o Rio parece uma cidade viável e feliz, deparei-me com as ruínas, avançadas, do bar e invoquei um T.S. Eliot (de botequim, é claro) e me preparai para digerir a subida de mais um horrendo edifício envidraçado.

Outono é estação de muda, de suave ocaso. Ao ver o Caneco derrubado lembrei que ia abaixo o único lugar da cidade em que ainda se podia brincar de “Fotografia”. Pois nele ficava o único terraço à beira mar em que eu, você, nós dois, podíamos olhar o sol cair e, quando os olhos encontrassem a cor do mar, não topássemos com camelôs, travestis e turistas. Um camarote para a subida de Niemeyer, o Caneco era o anti-Copacabana, o Rio como Tom Jobim imaginou e que vive na nossa fantasia e em raros lugares como mais este que desaparece.

Como madeleine de boêmio é chope, lembrei também, a poucas semanas da expectativa da Copa de 2006, que comemoramos ali, eu, ela e amigos queridos, o Penta de 2002. Nós, que jamais gostamos de futebol mas nunca dispensamos uma festa, saímos andando pelo Leblon em busca de uma vaguinha para bebemorar, um pouco que fosse, a vitória do Brasil. Na peregrinação, encontramos dois amigos que nos passaram, em voz baixa, a senha: “O Caneco vai abrir agora!”

Graças a esta inside information, fomos literalmente os primeiros a entrar no bar que abria as portas e escolhemos a mesa central do terraço. Pioneiros de uma série de outras mesas emendadas com euforia, passamos um dia inteiro comentando o jogo mas também relembrando onde estávamos em outras vitórias, em outras derrotas. Naquela mesa muito especial, reuniam-se ainda três apaixonados torcedores do América, de gerações diferentes, que davam testemunhos de fé e convicção para todos aqueles que vacilam, no futebol e fora dele.

No fim de semana passado, ver o Caneco demolido foi experimentar, de um só lance, o tempo demolidor. Mesmo que sua varanda estivesse orgulhosamente de pé, sobrevivente de sua época, a mesa daquele domingo de julho de 2002 não seria mais possível. Desfizeram-se namoros sérios e frívolos, romperam-se gravemente amizades e até o “nós” é hoje conjugado de outra forma. De certa forma, tudo foi embora com a promessa de felicidade de um terraço à beira-mar.

Sobre o mapa de uma cidade todos desenham, com imaginário e delicado papel vegetal, os próprios mapas afetivos que, superpostos uns aos outros, devem fazer a tal da alma de um lugar. Uma alma que não tem nada de eterno e, para valer, vai se despedaçando a cada avanço do que já se chamou “progresso”, “especulação imobiliária”, e hoje não se chama mais de nada, destruição banalizada com a qual nos conformamos.


O mapa boêmio do Leblon já foi bem maltratado ao longo dos últimos anos. Foram-se, em nome do nada, o Antonio’s (que virou lenda), o Real Astória e o Luna. A Plataforma permanece e o Degrau também, ambos reformados e em muito pouco ou quase nada lembrando seus bons tempos. Destes não guardo lembranças especiais, já que não conheci os dois primeiros e estive pouquíssimo nos demais.

O Caneco tampouco era um pouso constante. Mas as raras idas até lá – uma delas com um amigo jornalista e escritor, inglês e apaixonado pela capirinha um tanto duvidosa que se servia no estabelecimento – foram estranhamente marcantes. Como a mesa que comemorou aquela Copa do Mundo e, sem o saber, anunciava um crepúsculo que se materializa hoje. O bar demolido é a ruína de um pouquinho da alma que cada um deixou naquele terraço."



 Escrito por Marcelo às 15h54
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Os nomes da Flip

   

Foi no blog do Sérgio, aliás, que fiquei sabendo dos nomes realmente confirmados na próxima Flip - e que entre eles, para minha imensa alegria, está o do argentino Ricardo Piglia, autor do sensacional Formas breves, que tive a honra de resenhar para o Prosa & Verso. Além de Piglia, estarão em Paraty Lilian Ross, Edmund White, Adélia Prado (alvíssaras! alvíssaras!), Toni Morrison, Jonathan Safran Foer, Olivier Rolin e Nicole Krauss.



 Escrito por Marcelo às 10h46
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Toda prosa

Com atraso, recomendo aqui o blog Toda prosa, que o Sérgio Rodrigues assina dentro do site No Mínimo. Com atualização diária, Sérgio faz, em seu espaço, um ótimo panorama do que acontece no âmbito da literatura - no Brasil e no mundo. Confiram aqui!



 Escrito por Marcelo às 10h36
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1 ano + 1 mês

Porque ela põe cor até mesmo nos dias cinzentos...

"Sete mil vezes"

Caetano Veloso

"Sete mil vezes
Eu tornaria a viver assim
Sempre contigo
Transando sob as estrelas
Sempre cantando a música doce
Que o amor pedir pra eu cantar
Noite feliz
Todas as coisas são belas

Sete mil vezes
E em cada uma outra vez querer
Sete mil outras
Em progressão infinita
Quando uma hora é grande e bonita assim
Quer se multiplicar
Quer habitar
Todos os cantos do ser

Quarto crescente pra sempre
Um constante quando
Eternamente o presente você me dando
Sete mil vidas
Sete milhões e ainda um pouco mais
É o que eu desejo
E o que deseja esta noite
Noite de calma e vento
Momento de prece e de carnavais
Noite de amor
Noite de fogo e de paz"



 Escrito por Marcelo às 18h54
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Novas prosas (e poesias)

Aliás, o JB trouxe, no sábado, novas e alvissareiras notícias sobre alguns de nós que participamos da antologia Prosas cariocas: Uma nova cartografia do Rio, que tive a honra de organizar ao lado do meu amigo Flávio Izhaki. Segue a nota publicada na coluna Informe Idéias (dentro do suplemento Idéias):



 Escrito por Marcelo às 11h44
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Seleção das Letras no JB

Fui convidado pelo JB a integrar a Seleção das Letras, que o jornal montou para a cobertura da Copa do Mundo da Alemanha. No caderno especial e diário sobre a competição, ao lado do material noticioso serão veiculados antigos textos do Drummond a respeito do futebol e crônicas especialmente escritas por gente como Sérgio Sant'Anna, Fabrício Carpinejar, Adriana Lisboa, Márcia Denser, Milton Hatoum, Alberto Mussa, Nelson de Oliveira, Marcelino Freire, Luiz Rufatto, Marçal Aquino, João Paulo Cuenca, Cecília Giannetti e este que vos digita, entre outros. A idéia é enfocar coisas que acontecem durante uma Copa e em geral não são alvo da observação dos jornalistas. No grupo, há desde fanáticos por futebol (como eu) até gente que não costuma ligar muito para o assunto. Acho que vai ser bacana... 



 Escrito por Marcelo às 10h47
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Escritores e livros

"Os escritores nunca são tão interessantes quanto os seus livros"

Nicole Krauss, em entrevista à Helena Celestino, no Segundo Caderno (O Globo) de hoje...



 Escrito por Marcelo às 16h57
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Poema para hoje

"A mulher e a casa"

João Cabral de Mello Neto

"Tua sedução é menos
de mulher do que de casa:
pois vem de como é por dentro
ou por detrás da fachada.

Mesmo quando ela possui
tua plácida elegância,
esse teu reboco claro,
riso franco de varandas,
uma casa não é nunca
só para ser contemplada;
ou melhor: somente por dentro
é possível contemplá-la.

Seduz pelo que é dentro,
ou será, quando se abra;
pelo que pode ser dentro
de suas paredes fechadas;
pelo que dentro fizeram
com seus vazios, com o nada;

pelos espaços de dentro,
não pelo que dentro guarda;
pelos espaços de dentro:
seus recintos, suas áreas,
organizando-se dentro
em corredores e salas,

os quais sugerindo ao homem
estâncias aconchegadas,
paredes bem revestidas
ou recessos bons de cavas,

exercem sobre esse homem
efeito igual ao que causas:
a vontade de corrê-la
por dentro, de visitá-la."



 Escrito por Marcelo às 10h12
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Dois jogos, oito gols

E o tal sólido e bem montado sistema defensivo do Renato Gaúcho, tão elogiado pela crônica esportiva?



 Escrito por Marcelo às 10h07
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MM South Park

By F.



 Escrito por Marcelo às 17h47
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Prêmio para a Índigo

Acaba de sair o resultado do I Concurso Literatura para Todos, promovido pelo Ministério da Educação. E a boa notícia é que a amiga Índigo foi uma das vencedoras na categoria Contos, com o livro Cobras em compota. Além de receber R$ 10 mil, a autora terá seu trabalho impresso em tiragem de 300 mil exemplares, que serão distribuídos em escolas de todo o país. Parabéns, moça!



 Escrito por Marcelo às 13h10
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Saldanha

Como fã ardoroso do técnico e cronista esportivo, não poderia deixar de saudar o lançamento, na próxima terça-feira, do livro Vida que segue: João Saldanha e as Copas de 1966 e 1970, que reúne textos da época. O evento contará com a participação de Oscar Niemeyer, Sérgio Cabral, Afonsinho, Bebeto de Freitas e Carlos Vilarinno e acontecerá no auditório Machado de Assis da Fundação Biblioteca Nacional (Rua México s/nº), a  partir das 18h.



 Escrito por Marcelo às 10h45
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O melhor time do mundo

Falando em futebol, o amigo (e botafoguense) Jorge Viveiros de Castro convida para o lançamento de seu novo livro, o infanto-juvenil O melhor time do mundo, que acontecerá amanhã, a partir das 19h, na simpática Livraria Timbre (Shopping da Gávea). Editada pela Cosac Naify, a obra centra-se numa história transcorrida em torno de um campo de jogo. As ilustrações são de Daniel Bueno.



 Escrito por Marcelo às 13h13
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Da Matta e o futebol

Bem bacana a entrevista que o site No Mínimo traz esta semana com o antropólogo Roberto da Matta, um de nossos poucos intelectuais não-dogmáticos. No ensejo do lançamento da coletânea de crônicas e ensaios A bola corre mais que os homens (Rocco), da Matta conversa como jornalista José Castelo sobre a influência e o papel do futebol no nosso patropi. Confira a íntegra aqui. Abaixo, um pequeno trecho da entrevista, em que o cientista social comprova seu bom gosto e inteligência... ;)

Qual o seu time de coração e por quê? O que essa paixão significa para você?

Fluminense. Pelo fato de ter três cores, porque me relaciona a um tempo de inocência, de descoberta. Porque com o Fluminense eu descobri o amor coletivo, a solidariedade do companheirismo, a vontade de ter que ser excelente e o poder dos reveses, da frustração e do azar.



 Escrito por Marcelo às 10h41
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Momento "Caras"

Eu entre as duas Flávias da minha vida. Era aniversário da primeira, minha irmã quase balzaca...



 Escrito por Marcelo às 17h09
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Alheamento

Manchete e capa dos principais cadernos "culturais" (inclusive do Prosa & Verso - sim, sim, é necessário aqui uma pausa, pelo menos um minuto de pasmo...), pauta em boa parte das rodinhas de conversa, alvo de expectativa e (posterior) decepção no Festival de Cannes...

Será que sou a única pessoa que não está nem um pouco interessada em ver esse tal Código da Vinci



 Escrito por Marcelo às 12h08
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Contos de Pedro

O suplemento Idéias (Jornal do Brasil) publicou no último sábado a resenha que escrevi sobre o livro Contos de Pedro, do Rubens Figueiredo. Segue, para quem não leu, a íntegra do texto:

Pedros que não mais esperam: sobrevivem

Marcelo Moutinho

Pedro pedreiro penseiro fica esperando, esperando, esperando e o tempo passa. Na célebre aliteração dos versos de Chico Buarque, apesar do sol que não vem, do trem que não chega, do aumento sempre adiado, ele ainda acredita. Há também um Pedro pedreiro entre os muitos imaginados por Rubens Figueiredo no livro Contos de Pedro. Mas este, a exemplo dos protagonistas de oito das nove narrativas que compõem o volume recém-lançado pela Companhia das Letras, não tem mais expectativas. Simplesmente toca adiante, à margem das utopias, cobrindo as próprias feridas com a resignação dos que se sabem vencidos desde o berço.

Além de pedreiros, os Pedros de Rubens são porteiros, ajudantes de cozinha, entregadores de empada, garimpeiros que equilibram seus dias entre o emprego e o claustrofóbico confinamento em casebres cercados de mangue, lixo, puxadinhos, rebocos, esgoto, cortumes, fossas e balas perdidas. Mesmo quando incorporados à classe média – há um Pedro professor e outro que goza de boa aposentadoria - vêem-se cercados por indivíduos sem eira, nem beira, em geral migrantes solitários e desamparados, cujos contornos remetem aos "merdunchos" sobre os quais falava João Antônio.

A exclusão, contudo, não ganha de Rubens o tratamento naturalista que é marca do estilo de boa parte dos escritores de sua geração. No novo livro, o autor confirma a virada que se esboça em sua obra a partir da seleta de contos As palavras secretas (1999) e que foi sedimentada no excepcional romance Barco a seco (2001), ambos laureados com o Prêmio Jabuti. O flerte com o humor - traço de trabalhos anteriores como O mistério da samambaia bailarina (1986) e Essa maldita farinha (1987) - deu lugar a um lirismo cuja seiva escorre da secura, da precisão. Matriz emocional de seus textos, a metáfora irrompe na aridez da narrativa com a força de uma miragem no deserto.

Na maioria das vezes, as imagens poéticas surgem "dentro" dos personagens, configurando um contraste entre o cotidiano exterior cinzento e a cores quentes que jazem, ao menos em potencial, no interior de cada um deles. Desta forma, a aparente pasmaceira do ato do zelador que protagoniza O dente de ouro, abrindo e fechando portas, pode levá-lo à presunção de ser "uma alavanca, um eixo em que o mundo se apoiava para girar, a mola para o incessante ir e vir das pessoas". De igual modo, o Pedro de O nome que falta enxerga nos objetos catados no lixo – o caco de um cinzeiro, o pedaço da bola de natal - brilhos e luzes inusitados, que engendram um universo particular em meio ao "inferno dos vivos". Dentro do inferno, o que não é inferno, como queria Calvino.

São "faíscas de ouro" que trincam a reta horizontal do dia-a-dia, ainda que só por um instante. Quase sempre é preciso em seguida voltar à "normalidade", conforme sugere o narrador desse mesmo conto, ao lançar um olhar lânguido sobre a crescente banalização da violência: "Por mais que a palavra ‘baleado, baleado’ tropeçasse entre os soluços enquanto a mulher subia, às vezes descalça, os três degraus da porta da frente do ônibus, e ainda que só uns quinhentos metros adiante o gemido ‘covardia’ conseguisse romper dos olhos vermelhos, (...) Pedro achava que as outras pessoas, as pessoas em geral, mal tinham tempo de provar o peso de um crime. Mal conseguiam deter a atenção e, bem ou mal, educar-se com aquilo. Eram logo empurradas de roldão na correria desarvorada para os ônibus, para o trabalho, para o sono, para o fogão, para o baralho, para um lugar na fila, para os copos de cerveja, na correria para segurar as crianças (...), as pessoas eram logo empurradas no atropelo para o que houvesse, para o que chamasse por elas, antes do baleado seguinte".

Esse "empurrão" é similar ao que move um promissor escritor, no corrosivo A última palavra, a optar pela estabilidade do emprego público em detrimento da literatura, e o homem de meia-idade de Céu negro a abortar qualquer laço afetivo, mantendo-se alheio inclusive ao "acidente" de ter feito um filho. Leva ainda o adolescente Pedro, em De forno a forno, a encarar as feridas e a conseqüente morte dos mendigos que pedem esmola nas ruas por onde trafega como "algo que já estava latente desde sempre na ordem alfabética e na classificação numérica dos arquivos e das estantes".

É entre tantos Pedros, tão iguais e tão distintos, que Rubens faz resplandecer o Pedro de nossa época. Aquele que, se não pode dar conta do mundo, constrói mundos próprios, estilhaçados e velados, dentro de si; aquele que, desde o nome, é pedra dura de quebrar. Pedro que já não espera: sobrevive.

* Escritor e jornalista



 Escrito por Marcelo às 11h30
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Tungas conteporâneas

"Do crítico Ferreira Gullar, terça-feira, em sua última aula no curso A invenção da arte contemporânea, na Casa do Saber, falando sobre a instalação de Tunga no Jardim Botânico: “Se o sujeito quer ir ver mosca no microscópio, o problema é dele. Eu não vou. O nome já diz tudo. É uma tunga que se faz na arte contemporânea.”


* Nota publicada ontem, na coluna Gente Boa (O Globo)...



 Escrito por Marcelo às 11h23
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Escritores no CCBB

O evento vem acontecendo desde o mês abril, mas só soube hoje: refiro-me à série Laboratório do escritor, que segue até outubro no CCBB do Rio, tendo com próxima atração o hilário Luiz Vilela. O autor conversará com a platéia sobre seu processo de criação no dia 1º de junho, às 18h30. Completam a agenda Silviano Santiago (3 de agosto), Luiz Alfredo Garcia-Roza (6 de setembro) e João Ubaldo Ribeiro (5 de outubro).



 Escrito por Marcelo às 13h17
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Contardo Calligaris

Não deixem de ler a excelente entrevista que o psicanalista Contardo Calligaris concedeu à revista Primeira Leitura deste mês. Destilando inteligência, recusando dogmas e, sobretudo, exibindo extrema lucidez, Contardo fala sobre história, política, cultura, filosofia e - claro - psicanálise com a clareza dos que verdadeiramente são livre-pensadores. Posto, abaixo, um trecho da entrevista, no qual ele comenta sobre a possibilidade de definição da arte (o grifo é meu):

Primeira leitura - Você falou do Barthes e da estética como uma ética. Em que medida a arte propõe uma mediação que pode alterar profundamente a relação do indivíduo com o mundo? E presa a essa pergunta: como vê aqueles que dizem que a arte é a expressão de uma neurose ou a sublimação dela?

Não acredito muito no conceito básico de sublimação, cujo pressuposto inicial é o de que tudo o que não é diretamente sexual, no fundo, é desvio do essencial. Não acredito nem que Freud acreditasse nisso. Acho que é um travesti da idéia freudiana. Estamos nos aventurando em terrenos escorregadios, estamos tentando definir o que é arte...

Primeira leitura - Não será uma definição última, pode ficar tranqüilo (risos)...

Isso não tem nenhuma chance (risos). Mas a idéia de produzir objetos - vou usar uma definição de arte que, no fundo, é a minha preferida, que é a definição kantiana - cuja finalidade é completamente interna ao próprio objeto me parece profundamente humana. Esse objeto não tem outra finalidade além do tipo de harmonia interna que produz. Eu diria que é fundamental para a própria saúde mental. Se for uma neurose, é bem-vinda. E estou falando de algo diferente da arte conceitual. Se eu tivesse que fazer alguma objeção à arte moderna em geral - digamos, a partir de Duchamp -, diria que a produção de um objeto cuja finalidade é externa, por exemplo, que é ideológica e declarativa, não é mais uma produção artística. Isso vale tanto para a arte conceitual como para  o realismo socialista. (...) 



 Escrito por Marcelo às 10h30
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By Flávia Rocha

Atravessando uma fase de impressionante criatividade, F. tem canalizado seu talento para a confecção de bijuterias. Nem precisa dizer que, assim como tudo o que ela faz, o resultado tem ficado uma beleza. Os produtos estão em exposição e à venda em dois endereços virtuais: seu fotolog e o blog Feito por neguinha suburbana. Confiram!

 


 Escrito por Marcelo às 10h15
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Covardia premiada

No jogo de ontem, mais uma vez o time do Vasco comprovou que a covardia é sua marca patente. A tática resume-se em ficar o tempo todo na defesa, torcendo para não levar gol e, com sorte, uma das três bolas chutadas a favor entrar. Deu certo na Copa do Brasil, não dará no Brasileiro. De qualquer maneira, pela primeira vez na minha vida torcerei pelo Flamengo numa final. Time covarde não merece ser campeão.



 Escrito por Marcelo às 23h53
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Dançando Elis & Tom

Muito interessante a proposta do grupo Quasar Cia de Dança no espetáculo Só tinha de ser com você, que fica em cartaz até domingo no Teatro João Caetano. O coreógrafo Henrique Rodovalho criou os movimentos inspirado nas canções do célebre e obrigatório disco Elis & Tom, tentando extrair novas emoções da interseção entre as músicas do álbum e a dança. As sessões acontecem hoje e amanhã, às 20h, e no domingo, às 19h, com ingressos a R$ 20 (platéia), R$ 10 (balcão) e meia-entrada para estudantes.



 Escrito por Marcelo às 14h57
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Os cupins de Oswald

Por indicação do pessoal do Cronópios, encontrei (aqui) a reprodução de uma sensacional entrevista de Oswald de Andrade à revista Sombra e veiculada originalmente em 1954. Sem papas na língua, as respostas de Oswald ao repórter Flávio Pôrto são de uma contudência cortante: sobra tiro para tudo que é lado. A entrevista se segue, na íntegra:

Não foi difícil achar Oswald de Andrade; pelo telefone mesmo, disse-lhe do motivo pelo qual pretendia avistá-lo. Trazia uma recomendação de Paulo Mendes Campos e gostaria de fazer uma entrevista. Ponderei-lhe que não tomaria muito de seu tempo. Já tinha as perguntas formuladas e, além do mais (isso não lhe disse), ia com as idéias imbuidas num tópico do jornal Última Hora, publicado com certo destaque semanas antes de minha visita a São Paulo, onde li: "Deu cupim na cabeça do velhinho". O velhinho era Oswald de Andrade. Entrei no apartamento de Oswald (agora já o chamo assim), e encontrei-o bonachão em meio a alguns papéis escritos, esparramado numa poltrona.

- Sente-se e não me dê recomendação alguma; os jovens não precisam de recomendação para falar comigo, disse-me ele, deixando-me logo à vontade. Conversamos longamente sobre coisas boas e ruins, e logo percebi que havia dado cupim era na cabeça de quem havia redigido a nota de "Última Hora", pois o "irreverente" Oswald de Andrade era aquele mesmo homem inteligente e espirituoso de quem tantas vezes ouvi falar na casa - saudosa casa - de Alvaro Moreyra. Falou-me da desesperança literária que o assaltou um dia. Durante algum tempo no Brasil, contava-me, a ausência de valores tornou-se de uma maneira tal, que quase suicidei-me literariamente. Mais tarde melhorou, prosseguiu, surgiram elementos realmente de valor, apareceu poesia de Vinicius de Moraes, surgiu Paulo Mendes de Campo. Sérgio Milliet continuava a ser o maior informante do Brasil, produto de seus esforços como estudioso de tudo e de todos, e também fez versos muito bons por sinal. Havia ainda Cassiano Ricardo, Rachel de Queiroz e tantos outros que me ressucitaram para a literatura, pois continuavam a produzir coisas boas, disse ele, desta vez já afastado de seu trabalho e com todas as atenções para o que me dizia. Não me refiz totalmente, porque o número de "picaretas" na imprensa e na literatura era tão grande, que seu analfabetismo fazia-me esquecer esses que, ainda, achava bons. Um grande número de mulheres, invadiu a literatura nacional, na sua maioria "semi-analfabetas" fazendo movimento estéril. Depois sim, melhorou e muito. Até mesmo nos menores setores, surgiram e continuam surgindo valores positivos. E aí desandou a citar nomes.

Falou demoradamente e com grande entusiasmo de Millor Fernandes, o Vão Gogo, dizendo da sua capacidade de criar coisas novas, e todas boas. Comentou "Uma mulher em três atos", peça teatral de autoria de Millor, onde diz ter encontrado finalmente quem não escrevesse "bobagens". Demorou-se também falando sobre Tiago de Mello, em quem vê um bom poeta, que, apesar da bagagem literária que já possui, tem ainda capacidade de escrever muito mais, com tendências a melhorar. Falou sobre Geir Campos - "um grande estudioso" - e deteve-se para dizer da grande importancia de Paulo Mendes de Campos. "Paulinho faz tudo direito. Crônica, verso, ensaio, tradução e se derem cinema para ele, garanto que vai fazer melhor que muito italiano idiota que anda por ai". Quanto a vocês, dizia isso referindo-se a mim, vocês todos que iniciaram a pouco tempo a escrever, tem uma responsabilidade muito grande. No meu tempo, eu escrevia para um país de analfabetos, mas hoje todo mundo lê, todos se interessam pelo que se escreve por aí, em suma, o público está muito mais esclarecido, e há um número muito maior de pessoas escrevendo bem. Acredito que muitos vençam, muitos dessa novíssima geração. E citou Darwin Brandão e Carlos de Oliveira como repórteres. Maria Karam como pintora e Millor Fernandes (qualquer setor).

Às seis horas da tarde - tinha um compromisso para jantar em Santos - entreguei-lhe as perguntas, que foram respondidas prontamente, e surgiu o clássico cafezinho acompanhado de uma verdadeira bateria de remédios, que por mais amargos que fossem, deviam saber-lhe doces, dado o carinho de quem os trouxera, esse monstro de simpatia que é a Sra. Oswald de Andrade . Um a um, ele foi tomando-os e comentou com um sorriso: "Tem gente à beça torcendo para que eu morra, mas os médicos estão de safadeza com eles. Cada dia eles inventam um negócio novo e, hoje em dia, eu estou quase perfeito". A Sra. Andrade retirou-se sorrindo, e afirmando: "Esteja tranqüilo, Oswald, você não morrerá nunca". No que, indubitavelmente, tem razão.

Quais os livros essenciais a humanidade ?
Não são, nem a Bíblia, nem o Alcorão, nem Margarida La Rocque.
- Onde gostaria de morar ?
Em Paris.
- SãoPaulo é uma grande coisa?
Mezzo a mezzo.
- O que você acha de sua poesia ? seus romances? suas idéias ?
Não posso dizer, porque você não publica.
- Acha "O Cangaceiro " um bom filme ?
É, sem dúvida. Quanto a Lima Barreto, há um engano. Não se trata de nenhum super-ego e sim, de uma super-égua.
- O que acha do Museu de Arte Moderna do Rio e de São Paulo ?
Prefiro o do Rio.
- O que o mundo deve fazer entre os EE.UU. e a Rússia ?
Ficar com os dois.
- Conheceu Stephen Spender ? Que achou ?
Muito crescido.
- De quem foi a idéia da semana de arte moderna ?
Do grande Di Cavalcanti.
- Você procurou fazer as pazes com Mário de Andrade ?
Não.
- Qual o maior sociólogo brasileiro ?
Eu.
- Quais os melhores e piores romancistas brasileiros ?
Os piores são: o búfalo do Nordeste, José Lins do Rêgo, e o bem-te-vi do Sul, Érico Veríssimo. Mas pior poeta há um só: Augusto Frederico  Schmidt.
- Você se acha um homem justo ?
Perfeitamente.
- Quais são os mais requintados imbecis do Brasil ?
Pedro Calmon, Pedro Bloch e Nelson Rodrigues.
- Você acha que a Bienal vai ser um sucesso ?
Não. O Sr. Cicillo Matarazzo já começou a fazer compadrismo, aquele incansável compadrismo que já fez do plagiário Di Preti um pintor conhecido.
- Que acha do Plínio Salgado ?
Uma vaca.
- Getúlio é homem inteligente ?
É.
- Qual o maior defeito da política brasileira ?
Existir.
- Por que o Brasil perde os campeonatos de futebol ?
Por causa do José Lins do Rêgo.
- Que escritores jovens você deportaria do Brasil ?
Mandava o poeta Loanda voltar para Loanda. Lêdo Ivo ia para a Oceania, de onde veio. O José Conde ficava porque não é jovem nem escritor.
- Que ministro você poria no Governo ?
Josué de Castro, Gilberto Freyre e Cassiano Ricardo.
- É capaz de definir a UDN em poucas palavras ?
Não.
- Quais as mulheres você acha que escrevem bem no Brasil ?
Clarice Lispector, Rachel de Queiroz, Lucia M. e Adalgisa Nery.
- Qual seria sua atitude se Getúlio desse um golpe ?
Aderia.
- Acha que o samba melhorou ?
Piorou.
- Alguma coisa melhorou no Brasil depois de 1930 ?
O salário e o custo de vida.
- Que acha dos auxiliares de Getúlio ?
Quais?
- O baile de Coberville é um sinal de decomposição de nossas elites ?
Não. Foi uma das raras coisas boas que fez o senador Chatobrioso.


P.S. No quadro, Oswald retratado por Tarsila do Amaral...



 Escrito por Marcelo às 13h44
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Bizarrices em dois tempos

 

1) Já li sinopses bizarras, mas a do filme Soltando os cachorros, que estréia hoje, supera qualquer expectativa:

"Dave Douglas (Tim Allen) é um promotor público que assumiu recentemente o caso de um laboratório de animais, tendo assim que se dedicar mais ao trabalho do que à família. Porém, Dave é acidentalmente mordido por um cachorro budista (!!!) que tem 300 anos de idade (!!!). Infectado, ele passa a se transformar periodicamente num cão. Seus novos sentidos o fazem ver sua família sob outra perspectiva, mudando sua opinião sobre a vida que leva. Mas para poder mudar algo ele antes precisa anular os efeitos do soro."

2) Quem conseguir decifrar o que o Gilberto Gil e o Jorge Mautner quiseram dizer com aquele amontoado de declarações pretensamente inteligentes e cheias de rebuscamento na matéria de capa do Segundo Caderno (O Globo) de hoje, por favor explique ao moço aqui. O coitado do Arnaldo Bloch deve ter sofrido para escrever a reportagem e conseguir dar algum sentido a tanta ininteligilidade.



 Escrito por Marcelo às 13h19
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Blog novo

Ah, sim: o amigo Flávio Vaz, ex-Balcão de idéias, está de blog novo, o Expurgação. Já devidamente linkado...

 Escrito por Marcelo às 11h44
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Dora Ferreira da Silva

Morreu no início de abril (dia 4) a poeta Dora Ferreira da Silva, a quem - não sem lamento - vim a conhecer tardiamente. Tradutora das célebres Elegias de Duíno (Rilke) e artesã minuciosa da palavra, Dora vem me impressionando desde anteontem, quando comprei sua Poesia reunida (Topbooks). No livro, há pérolas como esta: 

"O nascimento do poema"

Dora Ferreira da Silva

"É preciso que venha de longe
do vento mais antigo
ou da morte
é preciso que venha impreciso
inesperado como a rosa
ou como o riso
o poema inecessário.

É preciso que ferido de amor
entre pombos
ou nas mansas colinas
que o ódio afaga
ele venha
sob o látego da insônia
morto e preservado.

E então desperta
para o rito da forma
lúcida
tranqüila:
senhor do duplo reino
coroado
de sóis e luas."



 Escrito por Marcelo às 10h52
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Paulo Scott no Rio

Hoje, na Livraria Dantes (Cine Odeon), vai rolar o lançamento do livro de poemas Senhor escuridão, do polivalente Paulo Scott (que passeia também pela prosa). O autor - que iniciou a carreira publicando pela editora Livros do Mal (Ainda orangotangos, contos) e chegou às majors ao lançar, pela Objetiva, o romance Voláteis e a seleta de poemas A timidez do monstro - comprova a versatilidade e a grande capacidade de produção com o novo volume, que sai pela Bertrand Brasil. O evento acontece a partir das 20h.



 Escrito por Marcelo às 10h46
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Mais João do Rio

O Cronópios publica interessante artigo de João Carlos Rodrigues, leitor que nos honra, sobre o grande João do Rio. Especialista na obra e autor de dois livros sobre o cronista, Rodrigues disponibilizou para o site também a crônica Modern girls, escrita por João do Rio originalmente em 1910, tendo como objeto temas atualíssimos: a pedofilia e a prostituição infantil. Leia abaixo um trecho do ensaio. Confira tudo aqui.

(...) João do Rio foi um mestre da crônica, essa interessante simbiose entre o jornalismo e a literatura. Quase uma invenção luso-brasileira, a crônica fora inicialmente intitulado folhetim, para distingui-lo da crônica histórica, considerada mais nobre. José de Alencar, Machado de Assis, Coelho Neto, Olavo Bilac e Artur Azevedo, grandes medalhões, foram cultores desse tipo de literatura. Agrippino Griecco (A evolução da prosa brasileira, 1933) o considerava “confuso e ilusório, híbrido e borboleteante”, e o Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa o define como “texto literário breve, em geral narrativo, de trama pouco definida, e motivos extraídos do cotidiano imediato”. Para Machado de Assis é a “fusão admirável do útil e do fútil” e para Afrânio Coutinho (Enciclopédia da Literatura Brasileira, 1990), um “gênero literário de prosa, ao qual menos importa o assunto, em geral efêmero, do que as qualidades do estilo”. Esse mesmo autor revela que João do Rio, “iniciador da crônica social moderna”, provocou uma revolução na “ousada tentativa de levar a crônica à categoria de um gênero não apenas influente, mas também dominante”. (...)



 Escrito por Marcelo às 13h45
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Francis Hime

 

E por falar em forma, revela-se exuberante a de Francis Hime, que está em cartaz no Mistura Fina. Acompanhado por formação jazzística (piano, baixo, guitarra e bateria), o cantor centra o espetáculo em canções do novo disco, o belo Arquitetura da flor, que traz parcerias com Geraldo Carneiro, Simone Guimarães, Olívia Hime, além de uma inédita letra de Cartola, musicada por Francis - infelizmente, a melodia não se afinou ao lirismo triste do texto do mestre mangueirense e tricolor. Trata-se, porém, de pequeno reparo em meio ao nível alto das composições, que fazem lembrar o ótimo e recente Brasil lua cheia. Vale destacar que o show, com novas edições de quinta a sábado desta semana, contempla também alguns dos clássicos do repertório de Francis, como Trocando em míudos, Pivete e Embarcação (para mim, o ponto alto da apresentação). No último sábado, não obstante os protestos da platéia, infelizmente ficou de fora a romântica e tocante Minha.



 Escrito por Marcelo às 11h39
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Wenders de volta

Aqueles que, assim como este que vos escreve, gostam das pinturas do Hopper não devem deixar de conferir A estrela solitária (tradução botafoguense para o original Don't come knocking), que provavelmente sairá de cartaz na próxima quinta. Embora ainda longe da grande forma mostrada em filmes como Alice nas cidades e Asas do desejo, Wim Wenders ensaia no novo trabalho uma "volta por cima", cuja ambiência, aliás, remete bastante à sua obra-prima, o dilacerante Paris, Texas, de 1984. Não por acaso, mais uma vez está presente Sam Shepard. Autor do conto que lhe deu origem e roteirista da película filmada há 22 anos, Shepard novamente assina o roteiro e desta vez encarna também o protagonista, um ator de westerns que, em crise, decide voltar à cidade de origem. Tema de obsessão de Wenders, essa viagem de retorno ao torrão natal (ou, ainda, a procura por ele) é filtrada em A estrela solitária por belíssimos jogos de luz e sombras sob paisagens desérticas que remetem aos quadros de Hopper (como se pode notar já no cartaz da produção). Há, sim, pequenos problemas de ritmo e edição (cerca de quinze minutos de "gordura" no início) , mas o que importa é ver novamente Wenders em forma.



 Escrito por Marcelo às 11h14
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A invenção de Morel

O suplemento Idéias (Jornal do Brasil) publicou no último sábado resenha minha sobre A invenção de Morel, novela mais célebre do argentino Adolfo Bioy Casares que acaba de ser relançada pela Cosac Naify. Segue a íntegra do texto:

As peripécias de Bioy Casares

Marcelo Moutinho

Fantasmagórica e opressiva, a sombra de Jorge Luis Borges projeta-se invariavelmente sobre a obra de seu conterrâneo Adolfo Bioy Casares. Apesar das patentes diferenças estilísticas, o fato de ambos enveredarem pelos labirintos da narrativa policial, a parceria em insuspeitos anúncios publicitários e seis livros e, sobretudo, a amizade que os uniu durante 54 anos acabaram suscitando comparações e carimbando no trabalho de Casares uma suposta "inferioridade" com relação ao do mais famoso escritor portenho. Tal impressão infelizmente ajudou a eclipsar, pelo menos fora das fronteiras argentinas, pequenas delícias literárias como Histórias de amor e Plano de evasão, e uma obra-prima inequívoca: a novela A invenção de Morel, que acaba de ser relançada no Brasil pela Cosac Naify.

Embalado com o costumaz capricho gráfico da Cosac, o novo volume acresce uma cuidadosa análise de Otto Maria Carpeaux (veiculada originalmente em 1966) ao célebre prólogo de Borges para a primeira edição, de 1940. Borges, a quem o livro é dedicado, salienta que o texto escrito por Casares na flor de seus 26 anos representa um contraponto prático às teorias que advogavam, na época, a supremacia dos chamados "romances sem argumento" (ou psicológicos) sobre os "romances de peripécias". Sim, porque é neste escaninho conceitual que se inscreve A invenção de Morel.

Essencialmente fantástica, a novela tem uma estrutura simples. É a trama o elemento precípuo e, assim como em outros livros de Casares, a narrativa não se presta a afetações ou malabarismos formais: serve apenas à história do fugitivo da Justiça que se esconde numa ilha deserta do Pacífico onde há suspeitas de uma epidemia letal. Sob a forma de um diário, coalhado pelas notas de um presumido editor, o protagonista sustenta seu relato em parcas alusões ao passado e no registro da luta por sobrevivência na ilha, pasmaceira que é quebrada quando encontra um improvável grupo de veranistas. Entre eles, Faustine, a jovem que ao final de cada tarde contempla o crepúsculo e por quem se apaixonará profundamente.

Na ânsia de se aproximar dela e ao mesmo tempo manter-se invisível aos olhos dos outros - já que no fundo era um fugitivo -, ele sofre com paranóias persecutórias e com o alheamento ante a visão da misteriosa mulher. No entanto, consegue com a devida cautela imiscuir-se progressivamente no grupo, até enfim reparar que eles não podem enxergá-lo. A perturbação se intensifica e é destilada em especulações: estaria sofrendo alucinações decorrentes da peste que amaldiçoou a ilha? Seriam os turistas entes de outra essência, para além do homem? Ou simplesmente teriam todos morrido?

O enigma se desfaz à medida que percebe - de início através de sinais sutis e mais tarde flagrando um importante diálogo - a aterradora verdade. Faustine e todos os veranistas que a cercam são apenas projeções, imagens gravadas num aparelho concebido por Morel, o líder do grupo. Também tomado de paixão pela moça, que o desprezava, ele conseguira apreender ainda que no campo esfera virtual a eternidade de sua companhia, de resto impossível na esfera da realidade sensível.

A máquina é o pacto de Morel - corruptela do Moreau da ilha fictícia de H.G. Wells – com esse Fausto encenado por Faustine, que lhe deu o sortilégio do amor mas lhe tomou a vida, pois aqueles que foram filmados pelo inventor arcaram com o preço dos efeitos radioativos de seu notável porém precário equipamento. O protagonista então compreende que desde a chegada à ilha encontrara-se diante de um espelho que amalgama real e simulacro, como demonstra a passagem na qual reencontra um livro anteriormente folheado: "Ao passar pela sala, vi o fantasma do tratado de Berlidor que levara comigo quinze dias antes; estava no mesmo suporte de mármore verde, no mesmo lugar do suporte de mármore verde. Apalpei os bolsos: puxei o livro; comparei-os: não eram dois exemplares do mesmo livro, mas duas vezes o mesmo exemplar, com a tinta azul-celeste borrada, envolvendo como uma nuvem a palavra Perse; com o rasgo oblíquo no canto de baixo do lado de fora." Um "duplo", portanto, que se manifesta também na convivência entre um tempo absoluto (o da máquina de Morel) e um tempo relativo (o da natureza), permanentemente tensionados, ou na simultaneidade revelada nos dois sóis e nas duas luas que resplandecem em certos momentos no céu da ilha.

A descoberta do aparato e, conseqüentemente, da origem daquelas coisas e pessoas que o rodeiam, leva o fugitivo a imaginar os efeitos revolucionários do projeto de Morel: "Quando intelectos menos toscos se ocuparem de sua invenção, o homem escolherá um lugar apartado, agradável, reunirá as pessoas mais caras e pendurará num íntimo paraíso. Um mesmo jardim, caso as cenas a perdurar sejam gravadas em momentos distintos, alojará inumeráveis paraísos, cujas sociedades, ignorando-se entre si, funcionarão simultaneamente, sem colisões, quase nos mesmos lugares."

Esse paraíso, que pode parecer "atroz ao espectador", é satisfatório para seus protagonistas, ele pondera. Está convicto de que não tem para onde escapar, que seu futuro é a acachapante solidão na infinita e terrível contemplação de Faustine, por quem o fascínio perdura. Encurralado pela falta de perspectivas, decide então se submeter à máquina. Durante alguns poucos dias capta a si mesmo, encaixa-se nas cenas já gravadas, ajustando suas frases às da moça, e opera a troca dos discos responsáveis pela projeção. Transforma-se, como os demais, em imagem pura, condenando-se a viver o mais do mesmo de uma trajetória circular. E assim, no eterno retorno que aniquila o futuro em nome de uma existência previamente filtrada, mergulhado na inconsciência que exclui a chaga da dor mas também a efusão do gozo, perde a condição humana.

* Escritor e jornalista



 Escrito por Marcelo às 22h51
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Ana Costa

A sempre simpática Ana Costa foi perfilada ontem, no Segundo Caderno, pelo amigo João Pimentel. Na capricaha matéria, Janjão salienta as contundentes assertivas da cantora contra o passadismo demasiado, tão a gosto das patrulhas talibambas. Segue a íntegra do texto:

"Sambista sem trato com o passado"

João Pimentel

Marina Lima mandou um e-mail elogiando a releitura de “Olhos felizes” e dizendo que o disco “Meu carnaval” é de uma sinceridade rara. Zélia Duncan, parceira mais recente, diz-se feliz com o seu reconhecimento mais que merecido. Mart'Nália apenas sorri e lembra que fez questão de levá-la para o seu lado. Acarinhada por estrelas do universo pop, a cantora Ana Costa deixa para trás o carimbo de sambista “de raiz” e lança um disco em que extrapola suas qualidades de intérprete, testando sonoridades, gravando compositores contemporâneos e apontando para o futuro. Ela, que ganhou projeção na Lapa, apesar de ter, antes, cantado em bares e integrado os grupos Couer Samba e Roda de Saia (hoje chamado de O Roda, que completou, recentemente, dez anos de estrada), ressalta que não acredita em samba arraigado e diz que há policiamento hoje em dia.

— Achei que fosse ser muito difícil fazer esse disco. Queria fugir dessa onda de cantar sambas antigos. O samba tem muito dessas coisa de quem é sambista e quem não é. Quem disse que o Moacyr Luz não é sambista? — questiona. — Por isso fugi dos produtores de samba. Queria dar a minha cara às músicas. Chamei a Bianca (Calcagni, também integrante do Roda), que conhece a minha história na música. Fiz a maioria dos arranjos, exceto dois, que entreguei ao Alceu Maia e ao Paulão Sete Cordas.

A preocupação de Ana Costa de se desgarrar do fenômeno Lapa é compreensível. Mesmo cantando às sextas-feiras no Carioca da Gema — onde se apresenta também, quinzenalmente, com O Roda — mesmo sendo, claro, uma intérprete de sambas, sua escola é outra. Já arranhava um violão em São João de Meriti e Nilópolis, na Baixada Fluminense, quando foi convidada para cantar bossas, standards e sambas em bailes suburbanos. Resolvida a morar em Santa Teresa, na Zona Sul, começou a tocar em bares. Em Vila Isabel conheceu Mart'Nália, Analimar e Tunico Ferreira, filhos de Martinho. E foi aí que o samba entrou em sua vida.

— Eles me convidaram para o Couer Samba, em 1994. Foi idéia do Martinho, numa época em que o que se falava de samba era Raça Negra. Ele produziu nosso disco. Mas, pouco depois, a música “Mulheres” estourou e o grupo se desfez, já que Analimar e Tunico eram da banda dele.

Pouco depois conheceu as percussionistas Bianca Calcagni e Márcia Viegas, além da cavaquinista Manuela Marinho, núcleo do que viria a ser O Roda.

— Voltamos a fazer as coisas como deveriam ser feitas. Sem amplificação, em um barzinho na Rua dos Artistas, em Vila Isabel. Depois surgiu o trabalho no Butiquim do Martinho, e o grupo ganhou projeção.

Grupo tocou em bares que antecederam a nova Lapa

Então surgiu a renovada Lapa. Na verdade o grupo já freqüentava dois bares que existiam antes da explosão do bairro: o Arco da Velha, que ficava exatamente embaixo dos arcos, na Rua Joaquim Silva, e o Lapazes, na Rua da Lapa.

— Era outro esquema, mais relaxado. No Lapazes, o Monarco comandava a roda e sempre apareciam por lá o Zé Kéti, o Guilherme de Brito.

Por tudo isso, a Lapa foi apenas mais uma etapa do percurso. Para chegar ao seu primeiro disco — o segundo do selo Zambo, criado por ela e por Bianca — contou com a ajuda fundamental de Mart’Nália, com quem foi trabalhar e com quem aprendeu que o samba também floresce no fundo de outros quintais.


— Talvez a Mart’Nália nem saiba o quanto eu sou agradecida. Foi quem mais me deu força. Tocando com ela conheci a Zélia, o Moska, o Celso Fonseca. Com ela pude viajar, ver como funciona a coisa da música brasileira no exterior. Ela tem uma visão parecida com a minha. Gosto de sambas, mas sem compromisso firmado com a raiz.

Mart’Nália avaliza a cantora e diz que fez tudo de forma premeditada mesmo:

— A nossa parceria (“Não sei o que dá”) foi a forma que encontrei para aproximá-la da Zélia. Ana tem uma musicalidade impressionante.

Zélia também é só elogios:

— Além de tocar bem e compor, Ana Costa tem qualidades muito importantes: uma voz que convida, amacia os ouvidos, e uma presença de palco cheia de delicadeza.

Cantora gravou apenas compositores vivos

Ana gravou apenas autores vivos e tem em sua ficha técnica alguns dos melhores músicos em atividade. O diferencial são os arranjos que fogem à tradição do samba e às fórmulas cada vez mais repetitivas. De Moacyr Luz e Aldir Blanc regravou “Pra que pedir perdão?”, um clássico das rodas. Outra pérola pinçada é “Quintal do céu”, parceria de Wilson Moreira e Jorge Aragão. De Almir Guineto, Arlindo Cruz e Fred Camacho, com gosto de Cacique de Ramos, “Supremo e divinal”. A dupla Toninho Galante e Marceu Vieira faz uma viagem carioca em “Brasileiro da gema”.

— Não vou cantar com o mesmo sentimento aquilo que não vivi — diz."



 Escrito por Marcelo às 14h49
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Festival Ibsen

O Espaço Sesc (Copacabana) abriga a partir de hoje o Festival Centenário Ibsen, que acontecerá todas as quintas-feiras do mês de maio, centrando-se na dramatização e em palestras sobre as peças escritas pelo dramaturgo norueguês. Os trabalhos se iniciam às 20h, com a leitura de Solness, o construtor, sob direção de Moacyr Góes e a condução de elenco que inclui a minha querida amiga Tânia Pires. A entrada é franca, com retirada de senhas meia-hora antes.



 Escrito por Marcelo às 10h01
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Sala Funarte

 

Está bem bacana a programação da Sala Funarte-Sidney Miller para o mês de maio. Destacaria os shows dos dias 4 e 5 (Jussara Silveira e Luiz Brasil mostrarão, em voz e violão, canções de Chico Buarque, Luiz Melodia, Dorival Caymmi e José Miguel Wisnik), 9 e 10 (Fabiana Cozza dará outra oportunidade a quem perdeu suas recentes apresentações no Rio, relendo clássicos e passeando por temas inéditos), 11 e 12 (a ótima Roberta Sá cantará músicas de seu disco de estréia, que traz composições de Teresa Cristina, Pedro Luís, Ney Matogrosso e Rodrigo Maranhão) e 30 e 31 (homenagem de Tantinho da Mangueira ao grande Silas de Oliveira, incluindo pérolas de Zé Ketti e Cartola, entre outros bambas). A Sala Funarte fica na Rua da Imprensa, 16 - Centro e os show acontecem às 18h30, com ingressos a R$ 10 (meia-entrada para estudantes).



 Escrito por Marcelo às 10h06
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Primeiro arroubo autoritário

Foi sem surpresa que assisti ao arroubo populista do festejado presidente da Bolívia, Evo Moralez, expropriando (sem eufemismos, por favor: esta é a palavra) unidades da Petrobras em seu país. Talvez o fato seja bom para que o pessoal da nossa patrulheira, dogmática e ingênua extrema esquerda possa enxergar que "pimenta nos olhos dos outros é refresco" e xenofobia não é bom em lugar algum, muito menos quando acompanhada de gestos tirânicos (em geral feitos "em nome do povo").

Ao rasgar contratos previamente assinados por um governo anterior  - que, embora de outra coloração, era tão legítimo quanto o dele, posto que democraticamente eleito -, Moralez desnuda seu pouco apreço pela democracia e sua filiação à lamentável linhagem de demagogos latino-americanos, quase sempre autoritários, que inclui gente como Hugo Chavez e Fidel Castro. A resposta do governo brasileiro deve ser incisiva e imediata.



 Escrito por Marcelo às 13h59
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Greve de fome

Torçamos, pois.



 Escrito por Marcelo às 11h55
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Araras

Sim, sim, a viagem foi uma delícia (fotos no Neguinha suburbana) e trouxe muitas novidades boas...



 Escrito por Marcelo às 11h44
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