1 ano

Feliz, feliz, feliz.



 Escrito por Marcelo às 21h58
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Cruzeiro x Flu

Que jogaço ontem no Mineirão!

Mais uma prova da riqueza que é o Centro de Treinamento do Flu em Xerém, de onde saíram os melhores em campo: Arouca e Lenny.



 Escrito por Marcelo às 10h01
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Blogs em mudança

Quase ao mesmo tempo, as amigas Moniquitcha Ramalho e Mariana Laura decidiram mudar de blog e endereço. Os antigos Fotograficamente (Monica) e Do meu outro lado de dentro (Mariana) deram lugar, respectivamente, ao Alabê na roda e ao Baiaty, já devidamente linkados.

 Escrito por Marcelo às 10h57
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"Estar lá sem estar escrito"

"O difícil não é escrever, mas corrigir: tirar toda a areia, a terra que vem com o diamante. Demorei muito para compreender como tirar a gordura dos livros. Quando escreve, você tem vontade de dizer tudo e ainda não compreende que o importante é o que está lá sem estar escrito."

Antonio Lobo Antunes



 Escrito por Marcelo às 10h54
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25 de abril

"Cada dia tenho menos uma letra,
uma boca e a mão para a dizer.
Fui colhendo a noite, palavras surdas,
o silêncio que a morte continua
sob a pele da madrugada.
Cada dia tenho menos um coração,
menos uma noite. Resta-me a memória
de abril dentro um copo de esquecimento,
o fundo da liberdade
que alguém bebeu de nós:
a canção morena da alegria,
o cravo ao rubro de fundir a paz.
Menos uma boca, uma criança
alada. Menos uma cidade onde a esperança
se cola ao rosto. Os meus passos presos
ao chão são menos o olhar que a manhã
oferece. Mas era uma vez e aconteceu
um dia, em todos os outros desse dia,
por muito tempo e ainda agora:
acordar, pôr o café na chávena
e barrar o pão com a liberdade."

Rosa Alice Branco



 Escrito por Marcelo às 10h51
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Encontros no subsolo - Teatro

Ao lado do amigo Augusto Sales, estou agora fazendo a curadoria dos Encontros no subsolo, que acontecem uma vez por mês na Livraria Leonardo da Vinci. A edição de abril acontecerá na próxima quarta e vai girar em torno do tema Dramaturgia brasileira contemporânea: as tessituras do novo, tendo como debatedores Tânia Brandão (professora da Unirio e pesquisadora do teatro brasileiro) e Roberto Alvim (ator, diretor e drematurgo). A mediação será do jornalista e crítico Daniel Schenker. O evento começará às 18h30, com entrada gratuita. A Leonardo da Vinci fica na Av. Rio Branco, 185.



 Escrito por Marcelo às 12h13
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Pitacos

Moços e moças,

Estou nos últimos detalhes do meu livro e, portanto, ainda enrolado para atualizar este espaço aqui. Mas alguns pitacos precisam ser dados. Ei-los:

 

. Jornais: para minha surpresa, ficou muito bonita a nova diagramação do Jornal do Brasil. As páginas estão mais leves, há novas colunas (o contraponto negativo, aliás, é a coluna do Renato Gaúcho. Técnico empregado falando de futebol?) e a roupagem arejada sugere (torçamos!) uma recuperação. Ainda dentro desse assunto, registro as coberturas da morte de mestre Telê, excepcional em O Globo (texto do grande João Máximo), razoável no JB, e pobre, pobre, pobre na tão festejada Folha de S. Paulo. Seguindo seu estilo "idiota da objetividade", o jornal assim abria a matéria principal sobre o falecimento do ex-jogador e técnico: "Morreu Telê Santana da Silva. O ex-treinador, de 74 anos, estava internado desde o dia 25 de março no hospital Felício Rocho, em Belo Horizonte. A morte por falência múltipla dos órgãos foi confirmada às 11h50 de ontem". Que primor de criatividade, não?;

 

. Música: Bom pacas o show da Fabiana Cozza no Trapiche Gamboa (haverá nova apresentação na próxima quinta). Em que pese não ter cantado a linda Embarcação, que interpreta como ninguém, mais uma vez ela demonstrou ser uma artista completamente "à flor da pele", como eu gosto. Uma "pá" de amigos apareceu e tornou ainda mais gostosa minha noite de "retorno" à boêmia, que contou com canja especialíssima do Moacyr Luz (as sensacionais fotos que ilustram estes pitacos, tiradas pela F., são daquela noite. Notem que beleza a imagem em que a Fabiana está ao microfone e a F. flagrou, através do espelho, um casal que assistia ao show). Bacana também as apresentações que o amigo tricolor Toni Platão vem fazendo semanalmente (às terças) na Letras e Expressões de Ipanema.  Num espetáculo conceitual, que se concentra sobre canções que tratam da dor sob a ótica masculina, Toni passeia por um repertório que vai de Angela Ro Ro a Antonio Marcos;

. Futebol: Nense!



 Escrito por Marcelo às 12h01
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Chorando no cinema

Os amigos Joana e Edison, da Joaninha Produções, convidam para a edição de 2006 da mostra Chorando no cinema, que acontecerá hoje e amanhã, sempre às 19h, no Armazém Digital de Botafogo, com exibição gratuita de filmes sobre Pixinguinha, Ernesto Narareth, Radamés Gnattali e Raphael Rabello (este co-dirigido pela querida Moniquitcha Ramalho). O evento será aberto e fechado com apresentações do grupos Regional Carioca e Chorando à toa. Segue a programação:

Hoje

Pixinguinha, de João Carlos Horta (1969)
Nosso amigo Radamés, de Aluisio Didier e Moises Kendler (1991)

Amanhã

Dor secreta, de Luiz Carlos Lacerda (1980)
O Choro dele, de Leilany Fernandes (1975)
Raphael Rabello, de Lara Velho e Monica Ramalho (2005)



 Escrito por Marcelo às 13h10
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João do Rio

O gente-muito-boa Rodrigo, lá da Folha Seca, avisa que acaba de ser relançado pela editora Martins Fontes o livro Vida vertiginosa, de João do Rio. Coordenada pelo João Carlos Rodrigues (que sempre nos dá a honra de sua presença por aqui), a nova edição traz 25 crônicas em que elementos/personagens da cidade, como o samba, o jogo do bicho, os prostíbulos, as ruas, os automóveis, as favelas, espelham as tranformações pelas quais o Rio passava na virada do século XIX para o XX, enquanto ingressava na chamada "modernidade". Papa fina.



 Escrito por Marcelo às 17h10
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A magia do negativo

No sábado passado o Prosa & Verso trouxe ótimo artigo do Pedro Karp Vasquez (a quem tive o prazer de conhecer há alguns meses) sobre a morte da fotografia nos moldes em que a conhecemos. Longe de ser meramente saudosista, mas dando um comovente testemunho sobre a magia que é ver uma imagem nascer a partir do negativo, Pedro compartilha com o leitor sua visão sobre as incipientes mudanças trazidas pela virtualidade, que parece inaugurar uma ainda mais nova "era da reprodutibilidade técnica". Segue o texto na íntegra:

"O ocaso dos mágicos: o digital e o fim da mística da fotografia"

Pedro Karp Vasquez

"A transição da fotografia de suporte de película, para a imagem digital é um processo irreversível que vem ocorrendo nas duas últimas décadas, e tem em 1995 seu grande marco simbólico. Foi nesse ano que o jornal canadense Vancouver Sun tornou-se o primeiro do mundo a trabalhar somente com digital. Desde então, as coisas avançaram de modo rápido e, hoje, o fotógrafo profissional não tem opção, ou adota o digital ou fica restrito ao gueto de luxo do mercado de arte, único feudo capaz de entender e valorizar as sutilezas da fotografia clássica. A imagem digital, por ser tão radicalmente inovadora, nasceu sob o signo da polêmica e tem crescido sob o signo da imprecisão, provocando acaloradas discussões e redigindo uma das mais ricas e empolgantes páginas da história da fotografia, equivalente apenas ao período pioneiro das décadas de 1830 até 1860.

Pretendo comentar aqui, no entanto, apenas um dos aspectos do presente período de transição, subsidiário, porém fundamental: o da perda da mística da imagem, num momento em que até os telefones, os relógios e até mesmo os reles chaveiros fotografam. Ao criar a Kodak, em fins do século XIX, George Eastman acreditava estar democratizando em definitivo a prática da fotografia, ao alforriá-la das complicações técnicas com seu célebre slogan: "Aperte o botão e nós faremos o resto". Enganava-se, pois até a fotografia com câmaras descartáveis exige, se não uma certa ciência, pelo menos um determinado grau de atenção dos seus praticantes. Ao passo que com a imagem digital, realmente basta apertar o botão e o equipamento faz o resto. Tal facilidade tornou a imagem fixa onipresente, num nível de saturação que beira o insuportável. Como a imagem digital é, aparentemente, feita "de graça", se desconsiderarmos o custo inicial do aparelho, os amadores inundam a rede com milhões de imagens, tanto da própria autoria, quanto capturadas na Web e depois alegremente repassadas em anexos pesados que são o desespero daqueles que não dispõem de Internet de banda larga. Os Fotologs são muito interessantes e já começam a ser estudados pelos acadêmicos mais velozes e antenados. Entretanto, a falta de critério devida à autocomplacência narcisista os torna tão insuportáveis hoje – com suas imagens mal-enquadradas, fora de foco e inexpressivas – como o foram no passado as projeções de slides das férias dos amadores.

Um sujeito como eu, mais perto da cova do que do berço, não consegue compartilhar do irrestrito entusiasmo do amador contemporâneo pelo caráter instantâneo da imagem digital. O "é bom porque que você pode ver na hora", seduz os sedentos por gratificação imediata, porém jamais impressionará quem já teve a ventura de ver um dia uma fotografia em preto e branco surgir diante de seus olhos no ambiente mágico do laboratório fotográfico. Era, com efeito, uma verdadeira "revelação", uma epifania iniciática vivida com encantamento e relatada com enlevo.

Tudo era mágico no universo da fotografia clássica. Quando surgiram os estúdios, os clientes neles entravam contritos e admirados, como quem ingressa num templo. Espaço sagrado que, naturalmente, possuía sua câmara secreta, de acesso restrito apenas aos iniciados: o laboratório, onde se processavam misteriosos procedimentos alquímicos para transformar a prata das emulsões nos envolventes tons da imagem em preto e branco. A mística prata, venerada como símbolo maior do princípio feminino e, portanto, associada à Lua, companheira do Sol, representado pelo ouro. Nos mitos dos antigos egípcios, os ossos dos deuses eram feitos de prata e a carne de ouro, ao passo que na mística cristã a prata simbolizava a sabedoria divina e o ouro o amor de Deus pelos homens. Não é de se estranhar, portanto, que um sistema de produção de imagens baseado no caráter fotossensível dos sais de prata seja dotado de uma aura mágica e encantadora. Não existe fotografia sem luz, como a própria etimologia do termo explica: "escrita da luz". A principal fonte de luz era, e continua sendo, o Sol. Assim, quando o Sol fecundava a prata contida na emulsão das chapas, e, depois, dos filmes fotográficos, era preciso fazer com que essas imagens pudessem vir à luz de novo, que pudessem nascer, graças aos sábios procedimentos do fotógrafo/obstetra. O filme exposto e ainda não processado havia de fato sofrido uma espécie de fecundação, e continha a chamada imagem latente, que só podia ser visível graças a um procedimento similar ao do parto, capaz de tornar visível o que se sabe existente porém ainda não pode ser visualizado. Não por acaso, deu-se o nome de revelação a esse processo, que mescla triunfo e angústia, fé irrestrita e dúvida insidiosa. A mãe aflita conta os membros e os dedinhos do recém-nascido, para verificar se está tudo em ordem. O fotógrafo também se angustia com eventuais imperfeições, verificando se a exposição foi correta e se a imagem está em foco, pois ele sabe que a fecundação – exposição, em linguagem fotográfica – é apenas parte do processo, que só terminará no laboratório/maternidade, onde ele trará essa imagem à luz, com o mesmo carinho com que a mãe dá à luz seu bebê.

É sabido, no entanto, que todas as coisas devem passar. E, em breve, toda essa magia da fotografia clássica só restará na memória de uns poucos privilegiados, nas páginas dos livros, ou será apanágio de raros guardiões da luz que insistirão em cultivar a mística da fotografia como quem procura da pedra filosofal. Mas nem tudo está perdido, pois da mesma forma que a avassaladora difusão da fast food gerou o movimento reformista da slow food, é bem provável que o tisunami da fast picture seja contrabalançado pelo regenerador contra-movimento da slow photography. Quem viver, clicará..."

* Escritor e fotógrafo, e membro do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro



 Escrito por Marcelo às 10h52
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Mais Fabiana

Se vocês desconfiaram da dica que postei aqui na semana passada, leiam o que o Paulo escreveu hoje no site No Mínimo:

"Uma semana santa"

Paulo Roberto Pires

"Este sítio virtual, que como tal não costuma ter endereço certo, hoje tem rua e número. Carioca-se, como é freqüente, para dar duas boas notícias: Fabiana Cozza, uma das maiores cantoras de samba de sua geração – ela tem quase 30 anos – vai deixar de ser privilégio dos paulistas para dar expediente, uma vez por semana, no balneário. A segunda e melhor notícia é que isso vai acontecer, a partir da próxima quinta-feira, no Trapiche Gamboa, casa de samba da geração pós-Lapa que é luxo só.

Há três anos o colunista embasbacou-se por Fabiana. Na época, ela era um segredo bem guardado principalmente pelos freqüentadores do Ó do Borogodó, numa roda de samba que acontecia às segundas-feiras na fabriqueta da Vila Madalena transformada em bar. De lá para cá, Fabiana gravou um bom disco, também comentado aqui, fez shows, ganhou fãs de responsa como Francis Hime e Paulo Moura e já começa a pensar em voltar aos estúdios. Ainda é pouco para seu talento.

Apesar de completamente familiarizada com repertório e estilo do samba carioca, esta é a primeira temporada de Fabiana na cidade. Antes, ela esteve por aqui em shows isolados na Funarte e em duas inesquecíveis noites no Bip-Bip, armadas para que ela fosse apresentada a músicos locais e até a ídolos, como Wilson das Neves, de quem gravou, em versão definitiva, “O samba é meu dom”. Agora volta cantando para a gente dançar, uma espécie de extensão do trabalho que vem fazendo em São Paulo, onde anima toda sexta-feira uma gafieira no veterano Blen Blen.

“Esse chão é uma maravilha”, avaliou ela, com olhos de pé-de-valsa e ouvido de crooner, ao entrar no Trapiche Gamboa semana passada para uma roda, quase secreta, em que esquentou repertório e afinou-se com os músicos. Meninos, eu ouvi: o que vem por aí é bom de dançar e melhor ainda de ouvir. Pois além de emendar Ivone Lara, Luis Carlos da Vila, Dorival Caymmi e até Jerônimo (a deslumbrante “É d’Oxum”) para não deixar ninguém parado, Fabiana suínga como as melhores cantoras de jazz, improvisa sem exagero e, se bobear, faz até chorar.

A estréia carioca demorou mas não poderia acontecer em lugar melhor. Nestes tempos que passam aceleradamente, o Trapiche desperta uma nostalgia do que era a Lapa antes da explosão de casas de samba – e não vai aí um lamento de baixo-astral, pois do jeito que está hoje, entupido de gente, o bairro ficou bem melhor e todo mundo sai ganhando. Mas o Trapiche lembra mesmo o velho Empório, um antiquário na rua do Lavradio onde começou muito do modismo de hoje.

O casarão da rua Sacadura Cabral poderia ser um cenário, mas é legítimo: foi construído em meados do século XIX. Os donos do lugar levaram quase um ano reformando-o. Desapareceram os pisos que separavam os andares e formou-se um impressionante pé-direito. Peças de demolição ajudam a ambientar o lugar e dar-lhe um jeitão de quintal irresistível. O samba é tocado numa mesa enorme, encimada por um espelho que reflete a pista – mas no Trapiche pode-se dançar onde der vontade. Um terceiro andar cresce na encosta do morro da Conceição e, colado na pedra, abre-se um inacreditável jardim.

Se não bastasse o lugar – privilegiado mas distante da muvuca, o pólo noturno mais próximo é a Praça Mauá e suas incríveis boates em que abnegadas profissionais ainda atendem marinheiros de todo o mundo – o serviço é um primor. Há cerveja gelada e das que não se encontra em qualquer bar, comidas deliciosas, aliciantes caipirinhas e, o que é melhor, um serviço atenciosíssimo e simpático, o que é muito raro. A casa já faz parte do circuito da cidade mas ainda não foi invadida pela turba. É um oásis, que não se sabe até quando vai durar.

A temporada da Fabiana no Trapiche une, portanto, o melhor dos dois mundos, com música boa de ouvir e de dançar. Quem é daqui que apareça, quem vem para o feriado também. Pois esta é, sem dúvida, uma santa semana para os cariocas."



 Escrito por Marcelo às 10h24
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Jornalistas

Hoje é o nosso dia. Parabéns a todos os "coleguinhas"...



 Escrito por Marcelo às 18h13
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Tempo tempo tempo tempo

(...) "O tempo é o maior tesouro de que um homem pode dispor; embora inconsumível, o tempo é o nosso melhor alimento; sem medida que o conheça, o tempo é contudo nosso bem de maior grandeza: não tem começo, não tem fim; é um pomo exótico que não pode ser repartido, podendo entretanto prover a todo mundo; onipresente, o tempo está em tudo; existe tempo, por exemplo, nesta mesa antiga: existiu primeiro uma terra propícia, existiu depois uma árvore secular feita de anos sossegados, e existiu finalmente uma prancha nodosa e dura trabalhada pelas mãos de um artesão dia após dia; existe tempo nas cadeiras onde nos sentamos, nos outros móveis da família, nas paredes de nossa casa, na água que bebemos, na terra que fecunda, na semente que germina, nos frutos que colhemos, no pão em cima da mesa, na massa fértil de nossos corpos, na luz que nos ilumina, nas coisas que nos passam pela cabeça, no pó que dissemina, assim como em tudo que nos rodeia; rico não é o homem que coleciona e se pesa no amontoado de moedas, e nem naquele, devasso, que se estende, mãos e braços, em terras largas; rico só é o homem que aprendeu, piedoso e humilde, a conviver com o tempo, aproximando-se dele com ternura, não contrariando suas disposições, não se rebelando contra o seu curso, não irritando sua corrente, estando atento para o seu fluxo, brindando-o antes com sabedoria para receber dele os favores e não sua ira; o equilíbrio da vida depende essencialmente deste bem supremo, e quem souber com acerto a quantidade de vagar, ou a de espera, que se deve por nas coisas, não corre nunca o risco, ao buscar por elas, de defrontar-se com o que não é;(...)"

Raduan Nassar, em Lavoura arcaica... 


P.S. A pintura é A persistência da memória, de Salvador Dalí...



 Escrito por Marcelo às 11h59
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Ficção

"(...) Então, o que é autobiográfico nas minhas histórias, e o que é imaginado?

Tudo é autobiográfico: se um dia eu escrever uma história sobre o caso de amor entre madre Tereza e Abba Eban, com certeza vai ser uma história autobiográfica, não há história que não seja confessional. O mau leitor quer sempre saber, e rápido, "o que realmente aconteceu", qual é a história que está por trás, do que realmente se trata, quem está contra quem, quem afinal transou com quem.

O mau leitor vem me pedir para que eu descasque especialmente para ele o livro que escrevi. Exige que jogue minhas uvas no lixo com minhas próprias mãos, e lhe sirva apenas os caroços.

O mau leitor é um tipo de amante psicopata que pula em cima e rasga a roupa da mulher que cai em suas mãos. E quando ela já está completamente nua, ele continua em sua sanha e arranca a pele, impaciente, joga fora sua carne e, por fim, quando já está chupando seus ossos com os dentes grosseiros e amarelados, só então é que se dá por satisfeito: Cheguei. Agora estou dentro, bem dentro, por dentro. Cheguei.

Quem procura a essência de um conto no espaço que fica entre a obra e o seu autor comete um erro: é muito melhor procurar não no terreno que fica entre o escritor e sua obra, mas justamente no terreno que fica entre o texto e seu leitor.(...)"


Amós Oz, em De amor e trevas... (peguei emprestado da Ivana)



 Escrito por Marcelo às 11h08
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O braço do pai

 

Sempre que viajava no carro do meu pai, gostava de me sentar no banco da frente. Nunca soube explicar a razão - talvez seja um comportamento comum aos garotos, pois já ouvi de amigos relatos semelhantes. Pensei nisso hoje um pouco mais cedo, movido por um acontecimento fortuito: dirigia meu Ford Ka a caminho de casa e, surpreendido pelo sinal vermelho, fui forçado a pisar no freio repentinamente. O corpo deu um leve salto para a frente e lembrei que quando meu pai se via obrigado a dar uma freada brusca dessas, em ato-contínuo esticava o braço para o lado direito, tentando (ou imaginando tentar) proteger alguma topada minha contra o pára-brisa. Em pouquíssimas ocasiões chegou a evitar de fato; em geral eu mesmo me segurava, mas era bom saber que o braço dele invariavelmente estaria ali para qualquer coisa. Ao afagar essa recordação há algumas horas, senti uma saudade pontiaguda, breve porém funda, e lamentei: é que o braço do pai não está mais aqui para me proteger das freadas que a vida por vezes dá.


P.S. A imagem é de Iberê Camargo...


 Escrito por Marcelo às 21h43
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Céu

... e as pipas, alheias, seguem seu vôo.



 Escrito por Marcelo às 18h58
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Seu Jair

Acabo de receber (pela Vicki) a triste notícia da morte de Seu Jair do Cavaquinho, que estava internado desde a semana passada (quando sofrera  um infarto). Até então mais antigo integrante da admirável Velha Guarda da Portela, Seu Jair tem uma longa folha de serviços prestados ao samba e à cultura brasileira, como a maioria de vocês bem sabe e será ressaltado agora em matérias aqui e acolá. A lembrança mais emocionante que guardo dele, contudo, é de uma noite no Semente. Eu havia chegado cedo, como de costume, e me acomodado naquela mesa que ficava esprimida entre uma pilastra e o controle de som. Eis que Seu Jair despontou no bar, discretamente, vestido num terno bege. A Teresa Cristina me perguntou se ele poderia sentar-se à minha mesa. "Será uma honra", respondi, e dividi com ele uma cerveja, conversando sobre o subúrbio, o samba, a vida enfim, e ouvindo os músicos. Referência para todos ali, inclusive para aquele moço que com ele falava, Seu Jair emanava a elegância da simplicidade. Vai deixar saudade.



 Escrito por Marcelo às 10h56
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Fabiana Cozza no Rio

O amigo Marcelino Freire me avisou ontem e repasso o recado com entusiasmo aqui para vocês: a paulistana Fabiana Cozza, cantora que me impressionou muitíssimo em shows no Bip Bip (já há algum tempo) e no Che Bar de Paraty (durante a última Flip), vai se apresentar no Trapiche Gamboa durante todas as quintas-feiras do mês de abril, com estréia hoje. Filha de Oswaldo Santos, antigo puxador da escola de samba Camisa Verde e Branco, Fabiana viveu desde pequena no meio do samba e se destacou em São Paulo com apresentações no bar Ó do Borogodó. Com a propriedade de quem já assistiu, posso garantir a vocês que Fabiana é uma artista com pleno domínio do palco, dona de uma "emoção densa" (como bem destacou o Paulo Pires), que trasborda no repertório de primeiríssima qualidade, do qual constam, ao lado de canções de novos compositores, pérolas de Wilson das Neves, Geraldo Filme, Paulo César Pinheiro e Silas de Oliveira. A interpretação da cantora para a linda Embarcação (Francis Hime / Chico Buarque) é de emocionar o mais frio dos homens. Não percam essa jóia rara.



 Escrito por Marcelo às 10h30
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