Ao amigo que parte

Ao querido Henrique, que amanhã parte para o Velho Mundo, meu desejo de boa-viagem vem com Drummond. Espero que o amigo consiga, ainda que por um instante, "ser" cada cidade visitada, como o poeta foi o Rio...

"Coração numeroso"

Carlos Drummond de Andrade

"Foi no Rio.
Eu passeava na Avenida quase meia-noite.
Bicos de seio batiam nos bicos de luz estrelas inumeráveis.
Havia a promessa do mar
e bondes tilintavam,
abafando o calor
que soprava no vento
e o vento vinha de Minas.

Meus paralíticos sonhos desgosto de viver
(a vida para mim é vontade de morrer)
faziam de mim homem-realejo imperturbavelmente
na Galeria Cruzeiro quente quente
e como não conhecia ninguém a não ser o doce vento mineiro,
nenhuma vontade de beber, eu disse: Acabemos com isso.

Mas tremia na cidade uma fascinação casas compridas
autos abertos correndo caminho do mar
voluptuosidade errante do calor
mil presentes da vida aos homens indiferentes,
que meu coração bateu forte, meus olhos inúteis choraram.

O mar batia em meu peito, já não batia no cais.
A rua acabou, quede as árvores? a cidade sou eu
a cidade sou eu
sou eu a cidade
meu amor"



 Escrito por Marcelo às 11h23
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Diferença só de rebolado

Muito pertinente o artigo assinado por Fernando Rodrigues e publicado na Folha de S. Paulo na última segunda-feira, em que o jornalista lembra que nessa verdadeira cruzada "moralista" da oposição há mais hipocrisia do que moral. Longe de defender as lambanças do governo Lula, creio que a diferença ética com relação ao tucanato é apenas de rebolado. Segue o artigo, na íntegra:

"Tucanos e petistas"

Fernando Rodrigues

"É um fato a degradação ética e moral promovida pelo PT com Lula no poder. A discussão na praça é se está pior ou melhor do que com FHC. Para os tucanos, por óbvio, está pior. Para Lula e o PT, está melhor. Só o caixa dois que Márcio Thomaz Bastos recomendou a todos assumirem não tem problema, pois esse crime seria generalizado no país.
Condenado a Brasília já há dez anos, sinto informar que aos olhos deste repórter o grau de degradação é quase idêntico em Lula e em FHC. Há diferenças na forma, mas as traficâncias são da mesma ordem.
FHC foi mais hábil do que Lula para matar no nascedouro as CPIs que poderiam encalacrá-lo. Por exemplo, em 1997, sufocou a investigação sobre a compra de votos a favor da emenda da reeleição. O caso explodiu em 13 de maio daquele ano. Nove dias depois, Íris Rezende virou ministro da Justiça e Eliseu Padilha entrou para os Transportes. Ambos do PMDB, ajudaram a matar a crise.
Um ministro de FHC acertou tudo com os réus confessos da compra de votos -os dois deputados que renunciaram. Depois da negociação, o emissário fernandista saiu do local deitado no banco de trás de um veículo para não ser visto. Esses detalhes não estão em "A arte da política", livro recém-lançado pelo ex-presidente, e, compreensivelmente, recheado de omissões históricas.
No caso do "mensalão", Lula estava em convescote pela Coréia do Sul e Japão quando a CPI foi criada. Na dúvida, operou de maneira modesta para impedir a instalação. Não agiu por espírito democrático, mas por se achar melhor que seu antecessor.
No Congresso, é verdade, os petistas são mais bobos que os tucanos. Não se viu ninguém do PSDB dançar no plenário quando foi arquivado o caso de Eduardo Azeredo, também acusado de envolvimento com o "mensalão". Mas houve comemoração em privado, com certeza.
Os tucanos e os petistas se atacam mutuamente, mas não sabem como são iguais. No fundo, eles sabem."



 Escrito por Marcelo às 11h11
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É campeão!

 

Ontem me peguei gritando e socando a parede (meu estado "normal" em jogos decisivos do Fluminense) ao torcer pelo Madureira na partida final da Taça Rio, contra o Americano. O jogo em si teve domínio absoluto do tricolor suburbano, que só não garantiu um placar maior pela falta de pontaria de alguns dos seus jogadores. Atuaram muito bem o Odvan, o Maicon e o Djair.

Seria lamentável (dentro desse quadro já suficientemente triste do Campeonato Estadual) que um time como o Americano vencesse um turno que fosse. A equipe baseia seu jogo em dois elementos: a violência, comprovada pela absurda quantidade de faltas anotadas a cada "exibição", e a retranca. Ontem, contra o Madureira, mais uma vez o clube do abominável Caixa D'Água abdicou do ataque. Os contragolpes, porém e felizmente para o nosso futebol, não funcionaram.

 

Ainda sobre o jogo, foi bonito ver a torcida do Madura enchendo quase meio anel do Maracanã. A animação, assim como acontecera na semifinal, ficou por conta da bateria do Império Serrano, cuja quadra, aliás, foi o palco da festa após a conquista histórica. Esse dado confirma uma impressão que tenho há bastante tempo (e que me levou a me interessar pela Tradição, quando ainda parecia uma tentativa de resgate da verdadeira Portela, e a me apaixonar pela verde-e-branco da Serrinha): quando morava em Madureira, e mesmo mais tarde, época em que já não residia lá mas freqüentava muito o bairro, sentia um crescente hiato afetivo entre a comunidade local e das proximidades e a Portela.

Creio que esse hiato deve-se, entre outros motivos, ao pacto de Fausto assinado pela escola, que se voltou radicalmente para a busca de recursos, abrindo-se sem muito critério para a miragem da grana que, vinda de longe (e este longe não é meramente geográfico), podia pagar fantasias caras, mas cobrava seu preço sobretudo com a perda da identidade. Certamente, há outras razões, que talvez só um estudo sério possa apontar com clareza. Ainda assim, me soa esquisita a ausência da tradicional Águia na merecida festa em azul, amerelo e grená. Esquisita e sintomática.



 Escrito por Marcelo às 10h37
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11 x 30

"Retrato ardente"

Eugénio de Andrade

"No teu peito
é que o pólen do fogo
se junta à nascente,
alastra na sombra.

Nos teus flancos
é que a fonte começa
a ser rio de abelhas,
rumor de tigre.

Da cintura aos joelhos
é que a areia queima,
o sol é secreto,
cego o silêncio.

Deita-te comigo.
Ilumina meus vidros.
Entre lábios e lábios
toda a música é minha"


P.S. A pintura é do Klimt...



 Escrito por Marcelo às 11h37
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O plano perfeito

. Roteiro inspiradíssimo, a la David Mamet;

. Grandes atuações de Clive Owen, Denzel Washington e Jodie Foster;

. Direção precisa, sem afetação ou panfletarismo, de Spike Lee;

Em suma: não deixem de ver.



 Escrito por Marcelo às 11h12
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E salve o Madureira!

Meu falecido pai era o sócio número 2 do Madureira Esporte Clube, que teve origem na unificação de três agremiações: Imperial Basquete Clube (do qual o velho era o associado número 1), Magno Futebol Clube e Madureira Atlético Clube. Quando pequeno e ainda morador do bairro, participei ativamente das atividades promovidas pela instituição, como as colônias de férias que me permitiram encarar algumas peladas no gramado do Estádio Aniceto Moscoso.

Mais tarde, já não tão criança mas ainda bem jovem, costumava ir com meu Tio Chico aos jogos do Madureira, em geral nas tardes de sábado. Ficávamos nas sociais e, entre coca-colas e coxinhas de galinha, xingava juízes, saudava jogadores e sofria com a equipe em memoráveis partidas contra o Olaria, o Mesquita, o Campo Grande, a Portuguesa...

Já adolescente, integrei o Departamento de Futebol de Mesa do clube. Com a camisa do Madureira, cheguei a disputar dois campeonatos cariocas da modalidade. Era, por assim dizer, uma "revelação" do "esporte", que acabei abandonando.

É por isso tudo – e, claro, pelo fato de se tratar do "tricolor do subúrbio" – que na próxima quarta e (queira Deus!) nas finais contra o Botafogo estarei com minha camisa amarela, azul e grená, torcendo muito para gritar Madureira campeão! "Ô cachorrada, pode esperar..."


P.S. Bonito ver parte da bateria do Império animando a torcida do Madureira no Maracanã ontem...



 Escrito por Marcelo às 10h54
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Pérola parlamentar

"Como ginecologista, aprendi a lidar de perto com as mulheres, a entender muito profundamente a sensibilidade feminina."

A assertiva do deputado federal Morazildo Cavalcanti (PTB-RR) foi ouvida ontem, quando ele, empolgado, votava a favor da indicação da ministra Ellen Gracie na sabatina que confirmou sua indicação à presidência do Supremo Tribunal Federal...



 Escrito por Marcelo às 11h39
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É tudo verdade + Jorge Bodanzky

Começa amanhã a 11ª edição do Festival É tudo verdade... O evento representa uma ótima oportunidade para os amantes do documentário (como este que vos escreve) ficarem em dia com os filmes que têm sido exibidos ao redor do planeta além, evidentemente, de revirar o passado do nosso próprio cinema. Neste ano, as retrospectivas terão como objeto as obras do alemão Werner Herzog e do brasileiro Jorge Bodanzky, cineastas que têm em comum a paixão pela busca de imagens dos confins do mundo e o gosto pelo embate direto com a realidade. Bodansky co-dirigiu (com Orlando Senna) Iracema - Uma transa amazônica, trabalho que marcou época ao misturar tintas reais e ficcionais na narração da história entre um caminhoneiro e uma jovem prostituta ao longo de uma Transamazônica em construção; uma espécie de road-movie documental.

No ensejo da homenagem, será lançado o livro Jorge Bodanzky – O Homem com a Câmera, que foi escrito pelo amigo Carlos Alberto Mattos. O lançamento aconterá no dia 31 (sexta da semana que vem), às 18h30, no Centro Cultural Banco do Brasil. Logo em seguida, às 20h30, haverá uma mesa-redonda em torno da obra de Bodanzky. Segue um trecho do livro do Carlinhos:

"(...) Um novo caminho para o cinema brasileiro foi literalmente aberto por Iracema, em 1974. Admirador de Jean Rouch e John Cassavetes, Bodanzky criou uma forma inédita de mestiçagem entre a invenção ficcional e o compromisso documental. Transformou diálogos em entrevistas, gente de verdade em personagens, cenários reais em sets de filmagem não-invasiva, e colocou as convenções do road movie a serviço da denúncia social. A novidade, exibida clandestinamente em tempos de censura, exerceu forte influência em muitos cineastas que viam exauridas as formas de representação eleitas pelo Cinema Novo para dar conta da realidade brasileira. Passou-se a falar no gênero “semidocumentário”, denotando uma interação de linguagens que nunca mais deixaria de inspirar parcela significativa e avançada do nosso melhor cinema.(...)"



 Escrito por Marcelo às 10h52
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Tucano-pavão

Sempre atento, o Elio Gaspari alertou em sua coluna de ontem (O Globo e Folha de S. Paulo) para a hipocrisia dos tucanos, que andam mais parecendo pavões, inflados de moralidade, enfeitados por badulaques éticos pendurados em seus bicos. Para que não confirmemos a máxima de que "o brasileiro tem a memória fraca", vale ler o texto do Gaspari, que se segue na íntegra:

"Depois da farsa petista, a farsa tucana"

Elio Gaspari

"Quem acreditou no monopólio da ética pela nação petista fez papel de bobo e, com razão, zangou-se. Só falta agora que essas mesmas pessoas resolvam acreditar no monopólio da ética pelo tucanato. Em matéria de parolagem vem aí uma sucessão presidencial onde se encontrarão Geraldo Alckmin e seu “banho de ética” e Lula com sua megalomania: “Está para nascer alguém que venha discutir ética comigo.”

Tome-se um exemplo destes dias, quando se discute a palavra do caseiro Francenildo Costa, aquele que chama Antonio Palocci de mentiroso. Que opinião uma pessoa formará desse cidadão depois de ler o seguinte diálogo:

— No sábado, eu tô aí. (…)

— Taí, se esse dinheiro sair, você pega uma boa bolada. (…)

— Quanto o senhor tem? Seis, é?

— (…) Tenho não. Dá uns dois.

Pode formar a opinião que quiser, porque Francenildo não tem nada a ver com essa conversa. Ela reproduz um trecho da gravação de uma cabala do deputado federal Domiciano Cabral do PSDB-PB com o empresário Julião Medeiros, seu sogro. (A Paraíba é governada pelo tucano Cássio Cunha Lima.)

O diálogo, gravado pela Polícia Federal com autorização judicial e divulgado no sábado pelo repórter Felipe Patury, não mereceu um só comentário da casa de banhos do PSDB. Na tarde de ontem, passados quatro dias da revelação, a página que o partido mantem na Internet tinha 32 notícias. Vinte e seis se referiam às roubalheiras-companheiras. Nenhuma mencionava Domiciano Cabral. Nem para que ele se defendesse.

É a lógica do Barão de Araruna (Osmar Prado na novela das seis) — “Não se discute maracutaia da casa-grande na frente dos criados.”

O PSDB repete a empulhação petista. Proclama-se monopolista da ética, e manda ver. Quer colocar seu candidato no Planalto julgando-se beneficiado por um habeas-caixa concedido pelo Padre Eterno. Fez isso no ano passado, quando impôs à choldra a permanência do senador Eduardo Azeredo na presidência do partido. Ele fora o cabeça de uma coligação partidária que recebeu R$ 9 milhões das arcas valérias.

Pode-se admitir o argumento segundo o qual esse ervanário se referia à campanha de 1998. Pode-se até admitir que, com a candidatura de Alckmin, a conta deveria começar no zero. Pois bem: o doutor Domiciano Cabral está na jurisdição básica de Alckmin.

O PSDB quer derrubar Palocci (a quem dedicou interessada idolatria, ao tempo em que até o caseiro Nildo sabia de seus feitos valorosos). É uma idéia. Querem encurralar o governo, confrontando-o com a prepotência que cultiva. É uma ótima idéia. Desde que não toquem trombetas no proscênio para fazer acordos nas coxias. Noves fora a proteção dada a Palocci pelos grão-tucanos, o deputado João Paulo Cunha foi presenteado no Conselho de Ética com uma indulgência do deputado Bosco Costa (PSDB-SE). Nenhum tucano se mostrou surpreso, nem o partido noticiou o feito.

Uma coisa é lutar contra a corrupção, bem outra é manipular essa luta. Essa foi a principal bandalheira petista. O surto moralista dos tucanos é falso como os depoimentos dos comissários petistas nas CPIs.

Suas denúncias devem ser estimuladas, pois é preferível um PSDB denunciando Palocci do que seus senadores defendendo-o. O que não se deve é acreditar na animação desse baile de solteironas. Muito menos em “banho de ética”. A um banho desses é preferível lamber sabão."



 Escrito por Marcelo às 10h29
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Palavras palavras

"É preciso encher o vazio de palavras, ainda que seja tudo incompreensão?"

Caio F.



 Escrito por Marcelo às 17h50
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Artificialismo?

Já faz alguns anos que fui ao Metropolitan (era assim que se chamava) animado para assistir a Memórias, crônicas e declarações de amor, da Marisa Monte. Terminado o show, eu destoava completamente da empolgação dos amigos que me haviam acompanhado. Ao contrário deles, achei o show frio. Mais do que isso: gélido. Ainda mais: artificial.
Se há algo que não suporto em um artista é artificialismo. Por esta razão, talvez, goste tanto, por exemplo, de uma Bethânia, que pode repetir o mesmo repertório milhões de vezes e sempre soa verdadeira, honesta do ponto de vista artístico.

Todas essas questões me vieram à cabeça hoje, depois que li o artigo Olha a Marisinha do Ukelele aí!, escrito pelo Paulo Roberto Pires e publicado no site No Mínimo. Adianto que não ouvi os novos discos da cantora e compositora, o que impediria desde já qualquer julgamento crítico. Não se trata, portanto, de subscrever ou não a análise dele. O que me chamou a atenção no texto foi o fato de o Paulo ter tocado justamente no ponto a que aludi acima, esse artificialismo que notei no show do Metropolitan e que o articulista atesta estar presente no álbum "Universo ao meu redor". Segue a íntegra da coluna:

"Olha a Marisinha do Ukelele aí!"

Parlo Roberto Pires

"Olha a Marisinha do Ukelele aí, gente! Pois é, Marisa Monte agora é do samba, e empunhando, garbosa, o instrumento típico da música havaiana (sim, isso mesmo), faz nas 14 faixas de "Universo ao meu redor" o que tem sido mais freqüente desde "Memórias, crônicas e declarações de amor" (2000): pose. Muita pose. Mas tanta pose que seu excepcional talento de cantora fica, mais uma vez, em segundo plano.

Marisa tem seu lugar garantido na música brasileira por ter sido uma das mais fulgurantes estréias dos últimos anos e, também, por inventar o pop com nota de pé de página. A partir de um determinado momento em sua carreira, tudo passou a ter "justificativa", a tal da "referência". E tome baladinha babada com Eça de Queiroz declamado ao fundo, regravação de músicas "garimpadas" em pesquisa, o "tribalismo" para disfarçar em conceito um projeto caça-níqueis. No samba, brilhou para valer como intérprete de Candeia e Paulinho da Viola e como produtora de "Tudo azul", disco que a Velha Guarda da Portela gravou em 1999 e, depois, dos discos-solo dos também portelenses Argemiro Patrocínio e Jair do Cavaquinho.

Agora, com perfumes de antropóloga acidental, ela conta na quarta capa do disco que entrevistou muita gente em busca não apenas de compositores e sambas, mas "também das referências criativas, da gênese do samba feito por eles". O disco é, ainda segundo ela, que já gosta de explicar as coisas, "focado mais do que no samba, eu diria, na atmosfera do samba, com seus assuntos mais freqüentes – o amor, a natureza, a própria música, a condição humana, o canto dos passarinhos, o quintal, o convívio através da arte"... Haja.

Madame Natasha, que trabalha com exclusividade para o Elio Gaspari, traduziria sinteticamente: o disco une poucos belos e desconhecidos sambas (em geral de terceiros) com composições da cantora que enfileiram imagens banais e clichês do mundo do samba.

Os seis leitores desta coluna sabem muito bem que não canso de bater nos talibambas, defensores violentos de uma inexistente "pureza" do samba. Para mim, quanto mais misturado e menos ortodoxo, melhor. Mas artificialismo é praga em qualquer estilo ou visão de mundo – e é um vício constante em cada faixa de "Universo ao meu redor". Raras as faixas que não são pontuadas pelo que nossa cantora chamaria de "sonoridades surpreendentes": o mencionado ukelele, harpa, theremin, tuba, farfisa – e por aí vai. Barulhinho pode ser bom, mas na casa da vizinha.

Se não perdesse tempo com essas bobagens, Marisa seria apenas a fantástica cantora de "Para mais ninguém", a maravilha inédita de Paulinho da Viola que é, sem dúvida, o grande momento do disco. Ou a intérprete inspirada da inspirada "Vai saber?", em que Adriana Calcanhotto mostra por que, sem frescuras ou pés de página, é a compositora decisiva e realmente importante da sua geração. Ou ainda cantaria lindamente, como canta, a valsa "Pétalas esquecidas", de Dona Yvonne Lara.

Mas, cercada por Arnaldo Antunes e Carlinhos Brown, a moça prefere arremedos da poética do samba tradicional. Em "Quatro paredes": "Eu só não te convido pra dançar/ Porque quero encontrar com você em particular/ Há tempos tento encontrar um bom momento/ Alguma ocasião propícia/ Pra que possa pegar sua mão, olhar nos olhos teus". "A alma e a matéria": "Procuro nas coisas vagas ciência/ Eu movo dezenas de músculos para sorrir/ Nos poros a contrair, nas pétalas do jasmim". E, no momento mais constrangedor, o lirismo condescendente de "O bonde do dom": "Todo dia, vivo pensando em casar/ Juntar as rimas como um pobre popular/ Subi na vida com você em meu altar/ Sigo tocando só para te cantar". Como compositora de supostos sambas, deveria ouvir mais atentamente Teresa Cristina, Rodrigo Maranhão, Zé Renato e até Marcelo Camelo.

É claro que, depois de anunciar este como um disco "de samba", lançado em conjunto com o pop "Infinito particular", Marisa vai para as entrevistas de "trabalho" dizer que "Universo ao meu redor" não é um disco "de samba" – tendo lugar para a boba "Statue of liberty", cantada com David Byrne, ou para o chiclete da faixa-título, que começa com a narração da chegada do Homem à lua e tem, no lugar da batucada, um irritante lesco-lesco que, aliás, persiste num disco em que, sob o rótulo de "simplinho", basta um tche-tcheco no fundo para virar samba.

O universo ao redor de Marisa Monte até que não é ruim. Mas é chaaaaaaaaaaaaaaaaato..."



 Escrito por Marcelo às 13h06
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Tim Maia Racional

Disputadíssimo nos sebos na versão long-play, o mitológico disco Tim Maia Racional acaba de chegar às lojas em CD. O trabalho, dividido em dois volumes (que não sei se saíram juntos na versão digital), marca a filiação do cantor à seita Universo em Desencanto, numa tentativa de se livrar dos excessos que sempre o envolveram e encontrar o equilíbrio. Na faixa Bom senso, ele faz um bom resumo de sua atitude: "Já senti saudade/ Já fiz muita coisa errada / Já dormi na rua / Já pedi ajuda / Mas lendo atingi o bom senso: a Imunização Racional". O disco foi lançado em vinil originalmente em 1975, pelo selo Seroma, do próprio Tim, e é totalmente dedicado a disseminar as crenças contidas nos livros que nortevam os membros da seita. Mal recebida pelo público na época, a obra acabou virando cult, circulando em cópias piratas que traziam pérolas como Imunização Racional ("Que beleza é sentir a natureza / Ter certeza pra onde vai e de onde vem") e botando muita gente para dançar com seus grooves em festas como a Brazooka, do amigo Janot.



 Escrito por Marcelo às 11h52
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Escrevendo escrevendo escrevendo

Sei que o blog não anda tendo mais atualização diária, como acontecia antes. É apenas uma queda de ritmo até eu pôr o ponto final no novo livro, ok?



 Escrito por Marcelo às 12h14
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Clube da Lua

O site Críticos.com colocou no ar hoje minha resenha sobre o filme Clube da lua, de Juan José Campanella (mesmo diretor dos ótimos O mesmo amor, a mesma chuva e O filho da noiva). Abaixo, um trecho do meu texto. Confira a íntegra aqui.

Demasiadamente humano (e verborrágico)

Marcelo Moutinho

"(...) Em O Mesmo Amor, a Mesma Chuva, de 1999, as desventuras do escritor frustrado em seu emprego (e depois no amor) davam-se sob o pano de fundo de uma redemocratização que do idílio passa à frustração. De modo semelhante, a descida ao inferno do protagonista workaholic de O Filho da Noiva (2001) era detonada pela ameaça da perda do negócio da família para um poderoso grupo empresarial, num reflexo bastante nítido das conseqüências da abertura econômica geral e sem critérios do governo Menem.

Lançado originalmente em 2004 e atualmente em cartaz no Brasil, Clube da Lua parece fechar essa trilogia portenha da devastação. No novo filme, o cineasta aponta seu olhar para a decadência de um clube recreativo, tipo de instituição muito popular em Buenos Aires a partir dos anos 50. À beira da falência, o Luna de Avellaneda conta com nostálgicos sócios para lutar contra o seu fechamento, que se sugere iminente quando surge, por parte de alguns investidores, a proposta de transformação num rentável cassino. Na liderança dos resistentes, está o taxista Román Maldonado (Ricardo Darín, excelente mais uma vez). Enquanto se desdobra para manter aberto o clube, ele enfrenta problemas no casamento e a falta de dinheiro.

O embate quixotesco e o suplício individual vividos, respectiva e paralelamente, pelos antigos sócios e por Román – pontos centrais de Clube da Lua - são tratados com extrema delicadeza. A exemplo dos títulos anteriores e confirmando a vinculação entre os três filmes, o ator-assinatura de Campanella desempenha o papel de protagonista e o roteiro inclui diálogos bem-sacados, que fazem com competência a ponte entre o particular e o coletivo, esta uma marca patente na obra do cineasta. Também a condução da história reveste-se novamente de uma aura poética que, se por vezes esbarra no melodramático, não chega a perder a sutileza. (...)"



 Escrito por Marcelo às 20h50
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Mais Sampaio

Na esteira da matéria: se Sampaio acabou nunca compondo a tal canção que Roberto Carlos lhe encomendou, foi, contudo, gravado pelo Erasmo. E o parceiro do rei teve a felicidade de escolher uma pérola reluzente do repertório do moço. Esta que se segue é certamente uma das canções definitivas sobre o "feminino"...

"Feminino coração de Deus"

Sérgio Sampaio

"O coração de Deus é feminino
É a força de toda a criação
Capricho do destino, a Mãe da Invenção
O coração de Deus é uma criança
Que dança entre os sexos
É a força do Universo, uma eterna canção

E como é forte o feminino coração de Deus
O coração de Deus não tem segredos
Nem medos, só histórias bonitas
Carícias pequeninas para quem o quiser
O coração de Deus bate comigo
Me ensina e me ajuda a viver
Me dá matéria-prima para amar a mulher
E como é forte o feminino coração de Deus"



 Escrito por Marcelo às 10h53
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Sérgio Sampaio

O talentoso e pouco conhecido Sérgio Sampaio (cuja canção mais célebre, Eu quero é botar meu bloco na rua, postei aqui pouco antes do carnaval, é objeto de ótima matéria do meu chapa Silvio Essinger no site No Mínimo. Na reportagem, Silvio falara sobre a carreira e as canções do artista, que acaba de ter um disco póstumo lançado (por mais uma iniciativa bacana do Zeca Baleiro...). Segue um trecho do texto. Confira a íntegra aqui.  

"O mais maldito dos malditos"

Silvio Essinger

"(...) Filho de um fabricante de tamancos (que no entanto se esmerava mais como maestro de banda) e de uma professora primária, Sérgio Sampaio nasceu em Cachoeiro de Itapemirim. Cidade que entraria para a história da música brasileira por causa de um primo do cantor, Raul Sampaio Crocco (que compôs “Meu Pequeno Cachoeiro”, sucesso na era de ouro do rádio), e principalmente, claro, de Roberto Carlos (que, inclusive, regravou o “Cachoeiro”). Sérgio se beneficiou bastante da discoteca do primo, onde podia complementar a sua dieta de Orlando Silva e Sílvio Caldas que crescera ouvindo no rádio. Ao mesmo tempo, acompanhava o crescimento artístico de Roberto a uma certa distância – inicialmente, a sua pretensão não era a de ser cantor, mas locutor de rádio, e assim poder viver toda a boemia que Cachoeiro (e mais tarde o Rio de Janeiro) pudessem lhe proporcionar.

Quando veio o sucesso com “Eu Quero Botar Meu Bloco na Rua”, vieram também as comparações com o conterrâneo – Sampaio seria “o sucessor de Roberto”, segundo uma revista popular. Não poderiam ser mais antagônicos os dois personagens. “Nunca imaginei uma coisa dessas, porque o que Roberto canta é totalmente diferente do que eu canto. Inclusive, acredito que os objetivos de Roberto na canção sejam totalmente diferentes dos meus”, diria Sérgio em 1989. No entanto, ele não deixou de alimentar o desejo de ter uma música gravada pelo Rei, com quem poucas vezes cruzou, mas que mandara a ele um pedido de canção por meio de um assessor, no calor do sucesso do “Bloco”. De uma conversa com Odair José (o “cantor das empregadas”, maldito da MPB por diferentes razões, que também sonhava em ser gravado por Roberto) veio a Sérgio a idéia de “Meu Pobre Blues”, uma canção amarga, feita não para o astro gravar – mas para ele ouvir e botar a mão na consciência. “E agora que esses detalhes/ já estão pequenos demais /e até o nosso calhambeque não te reconhece mais/ eu escrevi um blues/ com cheiro de uns dez anos atrás/ que penso ouvir você cantar”, cantava ele, reconhecendo a impossibilidade de compor para o Rei.(...)"



 Escrito por Marcelo às 10h48
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Singeleza

"Pela claridade da nossa casa"

Beto Guedes / Murilo Antines / Márcio Borges

"Atirar na fonte
A pedra do reino atirar
Pela claridade de nossa casa
Vem procurar
Um lugar aonde a gente pra se alimentar
Bastaria a terra,
A calma de ribeirão

É tudo ser
E é nada não

Bastaria o tempo todo de viver
Vasculhar a terra até o mar
Pela claridade de nossa casa até cansar
Pela qualidade da nossa geração

É tudo ser
E é nada não

Bastaria a vida toda pra saber
Quando foi que tudo começou
Mais do que o cão cansado de estrada, meu amor
Pela qualidade da nossa geração"



 Escrito por Marcelo às 10h34
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Zeca e Hilda

Apaixonado pela poesia da Hilda Hilst - rigor formal em convivência com paixão demesdida -, estou curiosíssimo para ouvir o disco que o Zeca Baleiro dedicou totalmente a ela. O cantor e compositor, que é talentoso embora por vezes soe meio chato, passou dois anos trabalhando no projeto de musicar dez poemas publicados pela escritora no livro Júbilo, memória, noviciado da paixão. Os textos se transfomaram no cd Ode descontínua e remota para flauta e oboé — de Ariana para Dionísio, com canções gravadas por feras como Maria Bethânia, Ângela Ro Ro, Mônica Salmaso, Ná Ozzetti e Ângela Maria.

A conferir.



 Escrito por Marcelo às 13h15
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Gôndolas à venda

Não sei se é porque o escriba aqui anda por demais quixotesco. Mas é fatoque fiquei chocado com a matéria de capa da Ilustrada (Folha de S. Paulo) de segunda-feira passada. Assinada pelo sumido amigo Rafael Cariello e pelos jornalistas Isabelle Moreira Lima e Eduardo Simões, a reportagem tratava de uma prática cada vez mais comum entre as grandes redes de livraria: a compra de espaços estratégicos nas gôndolas e vitrines de suas lojas. "O consumidor não é informado, alguns editores e livreiros negam ou desconversam, mas a verdade é que o destaque dado a muitos livros em vitrines ou no interior de algumas grandes livrarias é comprado. Da mesma maneira que os supermercados fazem com sabão em pó ou saquinhos de batata frita, as livrarias cobram - e os editores pagam - para que os produtos, no caso livros, ocupem posições estratégicas em vitrines, gôndolas ou "pilhas" que chamam a atenção do público", afirma a matéria.

Questionadas pelos jornalistas, algumas das editoras negaram. A assessoria de imprensa da Rocco, por exemplo, garantiu que "não existe nada disso". Outras, porém, confirmaram a negociação. "Todas fazem", rebateu Ivo Camargo, diretor de vendas da Ediouro. Pelo que a matéria mostra, Camargo tem razão: "Redes como Fnac, Saraiva, Livraria Cultura e Laselva estabelecem preços para colocar livros em destaque. Embora a prática não seja ilegal, ela não é explicitada para os consumidores -que não sabem o que é indicação do livreiro e o que é espaço comprado. Os preços de um pedaço de vitrine ou de uma pilha de livros em destaque variam, de acordo com planilhas e negociações a que a Folha teve acesso, de R$ 700 a R$ 2.000, dependendo do local e do tempo de exposição. Embora os preços sejam estipulados em dinheiro e algumas livrarias tenham até tabelas específicas para o negócio, o pagamento, de forma geral, é feito em mercadoria (mais livros, o que, ao final, significa um abatimento no preço por unidade para as livrarias, em troca do espaço nobre e da divulgação para os leitores)."

Também a Cultura, uma das maiores redes do país, admitiu a prática, confirmando inclusive seus preços. "Sergio Herz, diretor da Livraria Cultura, que cobra R$ 900 por cerca de 1m de vitrine (por loja durante 15 dias, envolvendo até dez títulos de uma mesma editora), afirma que o espaço vendido é minoritário em relação ao destinado à indicação editorial da rede. "Se 15% forem comercializados, é muito", ele diz. "Não é toda a vitrine. Nós separamos partes da vitrine, senão a livraria fica sem liberdade", relata a reportagem, que ingadou a Herz se o fato de o consumidor não ter nenhuma indicação sobre qual espaço foi vendido e qual se trata de uma indicação não-comercial da livraria não traz prejuízo para o leitor. "Ele tem livre-arbítrio para comprar o que quiser. Não é impositivo. Ninguém está forçando nada nem é uma lavagem cerebral", ele respondeu.

Da mesma forma, segundo a reportagem, acontece na Fnac. Pierre Courty, diretor-geral da rede, revelou que cobra R$ 2.000 por uma "ponta de gôndola" acompanhada de anúncio no site da rede durante dez dias", e teve a cara de pau de defender que "essa política resulta em ganhos para o consumidor". "O trabalho da Fnac é o de tentar negociar o melhor preço possível e tentar baratear o livro", ele diz. As "pontas de gôndola" são as "esquinas" entre as estantes", ponderou, com certo cinismo.

E você, leitor, o que acha disso?



 Escrito por Marcelo às 12h56
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Resquícios de tempos sombrios

Em sua coluna de hoje na Folha de S. Paulo, Jânio de Freitas verbaliza com equilíbrio e bom senso uma questão que vinha me perturbando desde o ataque de piti do coronel Francisco Alburquerque, que se mostrou mais mortal que os outros mortais quando conseguiu que um avião já em operação de decolagem voltasse à pista do aeroporto para embarcá-lo. A omissão do presidente Lula e do ministro da Defesa, José Alencar, com relação ao abuso de poder do milico, que agiu no melhor estilo Roberto da Matta ("você sabe com quem está falando") é mais um indício que infelizmente ainda não superamos resquícios de tempos sombrios. Segue a íntegra do artigo:

"Dejetos da ditadura"

Jânio de Freitas

"As últimas afirmações do general Francisco Albuquerque ainda não desmentidas a respeito do episódio que protagonizou no aeroporto de Campinas ruíram como mais inverdades, sob constatações da Folha e do "Estadão" em depoimentos e no registro de ocorrências da Infraero. Mas o que importa nem é mais a palavra do comandante do Exército: o episódio excedeu-o.
Fosse um civil a comprometer o governo com o escândalo de uma carteirada ministerial, para sustar a partida do avião e nele tomar lugares alheios, alguém duvida de que já estivesse demitido pelos rigores públicos do vice José Alencar, seu chefe? Ou por ordem de Lula? O José Alencar de várias atitudes francas preferiu, no entanto, acobertar a carteirada e enfeitá-la com reiterados elogios ao "sentimento democrático" do praticante de abuso de poder. Lula, sem causar surpresa, apressou-se em fazer o mesmo.
O que se ergueu da obscuridade com o autoritarismo do general Francisco Albuquerque foi a evidência do que todos fingem não ver: os dejetos do regime militar que até hoje, passados mais de 20 anos, minam a construção de um sistema democrático. O respeito ético e a obediência ao dever legal que faltam ao presidente e ao vice, na hora de aplicar as apropriadas conseqüências a um militar faltoso, não se explicam senão pela sobrevivência de temores e sujeições deixados no limbo, mas ativos.
Dejetos que levam não só a complacências, mas a prepotências também. Um exemplo: Lula disse muitas vezes, nos dois primeiros anos do mandato, não haver razão para um projeto de independência do Banco Central porque em seu governo o Banco Central já é independente, acima de interferências do ministro da Fazenda e mesmo suas, de presidente da República. Não há por que o contestar. Mas resulta só de arbitrariedade a entrega da moeda do país, e portanto de enorme influência sobre o futuro nacional, a quem não foi eleito para tanto, e só recebeu do Senado aprovação para presidir o BC subordinado. O verdadeiro poder de decisão sobre toda a economia do Brasil foi entregue por Lula, sem amparo nenhum para tanto, fosse legal ou político, a uma pessoa cuja política de juros estagnantes é criticada pelo vice-presidente e pelo próprio presidente da República, que legalmente seriam as duas maiores autoridades governamentais.
É a bagunça das prepotências e outros abusos antidemocráticos. Uma carteirada e as inverdades que a socorrem estão de acordo com as regras do autoritarismo. Umas inapagadas por interesse, outras por vocação, mas algumas por covardia. É só olhar à volta, e logo se identificam esses dejetos em ação nas decisões dos governos e nas ruas, nas empresas e no convívio urbano, no país todo. E ninguém os enfrenta -outro resquício do legado ditatorial."



 Escrito por Marcelo às 12h43
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Do Tribuneiros.Com:

Sei que o assunto já está desgastado, mas nao resisto a postar aqui o belo texto que o Carlos Andreazza escreveu no interessante site Tribuneiros (que, aliás, estréia hoje nos links pentimentais). Andreazza transmite, com extrema exatidão e melhor do que eu poderia, o que senti ao desfilar este ano...

"O Império tocou reunir" 

Carlos Andreazza

O Império Serrano passou lindo, leitor, e eu estou ainda sem voz – e eu estou ainda emocionado, leitor. Com efeito, não poderia ser melhor o desfile – e isso de acordo com o duro caminho da escola em busca de si mesma. A escola caminha e estamos todos satisfeitos. Orgulhosos. A escola se reergue, leitor, e vai aos poucos retomando seu lugar entre as grandes.

Talvez não brigue nunca mais por títulos – embora viva esteja sempre a esperança. Talvez não brigue nunca mais por títulos – mas é certo que há lugar para o Império Serrano entre as poderosas; é certo que há lugar entre as poderosas para a sorte de carnaval que faz o Império Serrano. Em outras palavras, o carnaval de 2006 mostrou que há ainda campo para a tradição e assim me permite escrever satisfeito a redundância que faz anos me escapava: o Império Serrano fez um desfile de Império Serrano.

Pela primeira vez desde que desfilo, pela primeira vez em catorze anos portanto, a escola fez um desfile completo, um desfile de se respeitar, de cabeça erguida, desfile de escola nove vezes campeã do carnaval, não só com o brilho de um samba-enredo extraordinário e com a cadência única de uma bateria impecável, mas também – enfim – com fantasias bonitas, bem-acabadas e por vezes até luxuosas, como exige a tradição imperiana, e com alegorias dignas. Já ao chegar na concentração e percorrer a armação da escola, pude ver com entusiasmo que o Império vinha forte e que a velha marra do imperiano tinha como se impor de novo, com razão. Havia até traços de organização - uma raridade. Ao contrário de anos passados, a escola não fazia feio diante por exemplo da muito mais luxuosa Unidos da Tijuca, que nos antecedeu na avenida. Era um Império Serrano bonito e sobretudo honesto, que não se envergonhava qual um bloco de sujos frente à riqueza concorrente. Era um Império Serrano, como gosto de dizer, da antiga, ou seja: uma escola a que se deve aguardar antes de proclamar um campeão. Deu-me gosto de pensar ali na concentração – sinceramente: não há vencedor antes deste Império desfilar.

É evidente que a escola ainda peca – e peca muito: a ala de passistas sem fantasias é um acinte e quanto mais no Império Serrano, onde nasceram e se firmaram inúmeros passos da dança do samba. A comissão de frente com pretensos ares de Imperatriz não combina com a tradição de simplicidade da escola e restou incompreensível por fim. É preciso ter cuidado: o Império se moderniza e é ótimo – mas convém calma; convém um avanço por vez e tudo medido. Como já escrevi e como escrevo sempre: a diferença de escolas como Império e Portela é a história – que precisa ser incondicionalmente valorizada como recurso de fazer superar quaisquer adversidades e sobretudo as financeiras. Trata-se uma bagagem exclusiva – e que pode, sim, fazer a diferença.

Foi muito bom – e emocionante demais – ver depois, na tevê, o histórico “pede-passagem” do Império Serrano a trazer de novo o nome da escola escrito em destaque, sob o qual se apresentava, com elegante reverência, a bandeira verde e branca. Lindo. Em seguida, a ala do jongo da Serrinha e assim o Império Serrano a dar terreno nobre para os seus; o Império Serrano a se lançar na avenida amparado pelo que tem de mais caro: a tradição que permanece viva; a tradição com viva força de permanência. No abre-alas: a Coroa Imperial – que jamais poderá faltar. Um começo arrebatador para quem conhece e gosta do carnaval das escolas de samba.

Confesso que entrei na avenida tomado pelo prazer de brincar solto o carnaval moleque no qual acredito - e que ainda é possível no Império Serrano, com "flores e alegria". Levei onze amigos comigo e via no rosto de todos também a expressão do prazer - e para alguns o prazer da descoberta, do primeiro desfile. Todos a cantar, a ala inteira a cantar, a grandiosa escola a cantar em harmonia e a incrível resposta do público ao samba extra-classe – e isso mesmo às cinco e meia da manhã. O bom samba tem dessas coisas: faz brotar energia onde a regra seria o cansaço. Como bem notou o Foca, aliás, o excelente samba do Império ainda encontrou forças para crescer na avenida e a escola cresceu junto. Foi um desfile que se reforçou à medida que evoluía, de modo que chegou inflamado ao final, com a bateria a levantar o setor 13 onde, apesar da omissão da imprensa, ouviu-se bem alto – sim – o grito de “é campeão”. Não importa. O Império Serrano, oitavo colocado, fez um desfile importante e importante para si; importante para o que virá a seguir.

Que venha 2007."



 Escrito por Marcelo às 00h32
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Três damas do samba

  

O Carioca de Gema reunirá amanhã, em show que vai brindar o mês da mulher, três damas do nosso samba. As amigas Nilze Carvalho e Ana Costa cantarão ao lado da novata (e talentosa) Roberta Sá, e eu estarei lá a partir das 21h para conferir...



 Escrito por Marcelo às 17h27
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Paulo "Burro" Campos

 

Já vai tarde!



 Escrito por Marcelo às 12h34
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Mais Caio F.

No ensejo da lembrança (e agora que a Editora Agir publica o terceiro volume, dedicado aos livros publicados pelo autor durante os anos 90), aproveito para reproduzir o texto que escrevi para o Prosa & Verso (O Globo) em maio passado, tendo como gancho o relançamento de Caio D - O melhor da década de 70.

Literatura de paixão, sombras e luz

Marcelo Moutinho

Ao receber a folha com o resultado do exame a que se submetera, e onde em letras geladas constava a palavra “positivo”, Caio Fernando Abreu talvez não imaginasse que ali estava, mais do que o prenúncio de morte, o início de uma completa reviravolta em seu modo de ver o mundo — e de escrevê-lo. Diante da perspectiva do confronto iminente com o fim, o sol negro que até então semeara melancolia em sua obra se tornaria claridade pura, intensa, regeneradora. Tal mudança, flagrante nas crônicas a que se dedicou nos últimos anos e nas cartas remetidas a amigos e parentes, transpareceria de forma ainda mais concreta no olhar que passou a legar aos escritos passados, nos quais chegou a promover alterações. A mais visível delas, decerto, a tênue (mas significativa) adição de um hífen no título de “Inventário do irremediável”, seu primeiro livro de contos. Na revisão feita 25 anos depois do lançamento original, de 1970, Caio transformou a fatalidade daquele “irremediável” num “ir-remediável” — que pode ser reparado.

Esta segunda grafia foi mantida pela Editora Agir na coletânea “Caio 3D — O essencial da década de 1970”, que republica o trabalho de estréia do autor ao lado de contos dispersos e inéditos, poemas, correspondências e depoimentos, numa seleta que se centra sobre sua produção intelectual entre 1970 e 1980. O livro é o ponto de partida de uma série que contará ainda com volumes sobre os anos 80 e 90. Além disso, marca o início do relançamento, pela própria Agir, da obra completa de Caio, numa bem-vinda iniciativa que possibilitará ao leitor acompanhar, livro a livro, o desenrolar da carreira daquele a quem Lygia Fagundes Telles chamava de “escritor da paixão”. De títulos célebres, como “Onde andará Dulce Veiga?” e “Morangos mofados”, a trabalhos menos conhecidos, casos de “Limite branco” e do compêndio de crônicas “Pequenas epifanias”.

O primeiro volume da coleção “Caio 3D” evidencia a influência ainda excessiva de Clarice Lispector, mas já contempla questões que se firmariam como grandes obsessões do autor. Estão presentes o flerte com o fantástico, que alcançaria graus máximos em contos como “Mergulho I”, de “Pedras de Calcutá”, e as recorrentes referências à astrologia, que seriam levadas ao paroxismo em “Triângulo das águas”, cujas três novelas relacionam-se com os arquétipos dos signos de peixes, escorpião e câncer.
O livro investiga também a solidão, que na literatura de Caio aparece menos como uma condição permanente, e mais como uma espécie de hiato entre dois amores — o que se foi e o que virá. Tal traço é explicitado, por exemplo, no conto “Itinerário”: “Por entre essa infinidade de formas (...); por entre esse amontoado de lembranças feitas de imagens incompletas como retratos rasgados; por entre essa idéia à qual faltam braços, pernas, cabeças (...); eu busco. Sem encontrar”. Há ainda uma ânsia quase desesperada por paixão, “com a consciência dolorosa de que ela importa mais do que seu objeto”, como anota Maria Adelaide Amaral no prefácio, em observação que pode ser sintetizada numa frase do belo “Anotações de um amor urbano”. O narrador, abalado pelo rompimento, assevera: “Amanhã não desisto: e te procuro em outro corpo, juro que um dia te encontro.”

Um clima soturno paira sobre “Caio 3D”, em especial sobre seus personagens, sempre às voltas com o entrave do não-pertencimento, da inadequação. “Eu tinha qualquer coisa como andar de costas, quando todos andam de frente. Qualquer coisa como gritar, quando todos calam. Qualquer coisa que ofendia os outros, que não era a mesma deles e fazia com que me olhassem vermelhos, os dentes rasgando as coisas, eu doía neles como se fosse ácido, espinho, caco de vidro”, confessa, lamentoso, o protagonista de “O mar mais longe que eu vejo”.
Porém, acima de tudo, o livro antecipa uma apatia que Caio retrataria de maneira mais elaborada em trabalhos posteriores, como “Pedras de Calcutá”, “Os dragões não conhecem o paraíso” e “Morangos mofados”. Apatia de uma geração que perde a dimensão da utopia, mergulha no desbunde, mas consegue pouco além do que tatear sentidos num mundo fragmentário, cada vez menos compreensível. O desabafo do protagonista de “Domingo” — “Tudo já foi pensado: vida, amor, cultura, civilização, liberdade, anticoncepcionais, comunismo, esterilização da Amazônia, exploração das potências estrangeiras, mais do que nunca é preciso cantar, guerra fria e vem quente que eu estou fervendo. Tudo a mesma merda” — não está distante da voz do narrador de “Diálogo”, conto publicado em “Morangos”: “Já li tudo, cara, já tentei macrobiótica psicanálise drogas acupuntura suicídio ioga dança natação cooper astrologia patins marxismo candomblé boate gay ecologia, sobrou esse nó no peito, agora faço o quê?”. Dois tempos, uma só perplexidade.

O mesmo sentimento sobressai em algumas das cartas reunidas no volume. Em março de 1970, Caio lastimava-se com a amiga Hilda Hilst: “Cada dia, quando abro o jornal, tenho um novo choque e uma revolta que se acumula e, logo após, uma terrível sensação de inutilidade (...) Nos contatos que eu tenho com gente da minha geração, ou de outras, mas unidos pela mesma lucidez, percebo de maneira intensa a mesma sensação de abandono e de inutilidade. Sobretudo de impotência”. Era este o gosto do mofo dos morangos que os “sobreviventes” de sua época sentiram “ampliar-se na boca”, embora por vezes pudessem timidamente vislumbrar a possibilidade de cultivar morangos outros, “vivos, vermelhos”; de, como confidenciou ao amigo José Márcio Penido em outra carta, esta de 1979, “vomitar” aquilo que fartamente os alimentou e daí ver sair uma flor.

Foi o que Caio efetivamente fez. Frente a frente com a morte, que o levaria em 1996, aos 48 anos, decidiu plantar rosas e viver cada dia “arrancando das coisas, com as unhas, uma modesta alegria”. Talvez já tivesse então desvendado, através da literatura mas sobretudo da vida, o segredo da árvore mágica que, apesar de fincada num terreno taciturno e sombrio, encanta o protagonista do conto “Caixinha de música”: extrair do emaranhado de dor, angústia fria e solidão escura a beleza a ser lançada para fora.

MARCELO MOUTINHO é jornalista e escritor



 Escrito por Marcelo às 11h53
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Dez anos sem ele

"Dois ou três almoços, uns silêncios"

Caio Fernando Abreu

"Há alguns dias, Deus — ou isso que chamamos assim, tão descuidadamente, de Deus —, enviou-me certo presente ambíguo: uma possibilidade de amor. Ou disso que chamamos, também com descuido e alguma pressa, de amor. E você sabe a que me refiro.
Antes que pudesse me assustar e, depois do susto, hesitar entre ir ou não ir, querer ou não querer — eu já estava lá dentro. E estar dentro daquilo era bom. Não me entenda mal — não aconteceu qualquer intimidade dessas que você certamente imagina. Na verdade, não aconteceu quase nada. Dois ou três almoços, uns silêncios. Fragmentos disso que chamamos, com aquele mesmo descuido, de "minha vida". Outros fragmentos, daquela "outra vida". De repente cruzadas ali, por puro mistério, sobre as toalhas brancas e os copos de vinho ou água, entre casquinhas de pão e cinzeiros cheios que os garçons rapidamente esvaziavam para que nos sentíssemos limpos. E nos sentíamos.

Por trás do que acontecia, eu redescobria magias sem susto algum. E de repente me sentia protegido, você sabe como: a vida toda, esses pedacinhos desconexos, se armavam de outro jeito, fazendo sentido. Nada de mal me aconteceria, tinha certeza, enquanto estivesse dentro do campo magnético daquela outra pessoa. Os olhos da outra pessoa me olhavam e me reconheciam como outra pessoa, e suavemente faziam perguntas, investigavam terrenos: ah você não come açúcar, ah você não bebe uísque, ah você é do signo de Libra. Traçando esboços, os dois. Tateando traços difusos, vagas promessas.

Nunca mais sair do centro daquele espaço para as duras ruas anônimas. Nunca mais sair daquele colo quente que é ter uma face para outra pessoa que também tem uma face para você, no meio da tralha desimportante e sem rosto de cada dia atravancando o coração. Mas no quarto, quinto dia, um trecho obsessivo do conto de Clarice Lispector "Tentação" na cabeça estonteada de encanto: "Mas ambos estavam comprometidos. Ele, com sua natureza aprisionada. Ela, com sua infância impossível". Cito de memória, não sei se correto. Fala no encontro de uma menina ruiva, sentada num degrau às três da tarde, com um cão basset também ruivo, que passa acorrentado. Ele pára. Os dois se olham. Cintilam, prometidos. A dona o puxa. Ele se vai. E nada acontece.

De mais a mais, eu não queria. Seria preciso forjar climas, insinuar convites, servir vinhos, acender velas, fazer caras. Para talvez ouvir não. A não ser que soprasse tanto vento que velejasse por si. Não velejou. Além disso, sem perceber, eu estava dentro da aprendizagem solitária do não-pedir. Só compreendi dias depois, quando um amigo me falou — descuidado, também — em pequenas epifanias. Miudinhas, quase pífias revelações de Deus feito jóias encravadas no dia-a-dia.

Era isso — aquela outra vida, inesperadamente misturada à minha, olhando a minha opaca vida com os mesmos olhos atentos com que eu a olhava: uma pequena epifania. Em seguida vieram o tempo, a distância, a poeira soprando. Mas eu trouxe de lá a memória de qualquer coisa macia que tem me alimentado nestes dias seguintes de ausência e fome. Sobretudo à noite, aos domingos. Recuperei um jeito de fumar olhando para trás das janelas, vendo o que ninguém veria.

Atrás das janelas, retomo esse momento de mel e sangue que Deus colocou tão rápido, e com tanta delicadeza, frente aos meus olhos há tanto tempo incapazes de ver: uma possibilidade de amor. Curvo a cabeça, agradecido. E se estendo a mão, no meio da poeira de dentro de mim, posso tocar também em outra coisa. Essa pequena epifania. Com corpo e face. Que reponho devagar, traço a traço, quando estou só e tenho medo. Sorrio, então. E quase paro de sentir fome."



 Escrito por Marcelo às 11h45
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Fornada da Som Livre

  

Fiquem de olho: a Som Livre acaba de lançar em cd um pacote com 25 discos dos anos 70 e início dos 80, a maioria inédito em formato digital. Na fornada, com seleção de Charles Gavin, estão o trabalho de estréia de Alceu Valença (Molhado de suor), dois clássicos infantis (Vila Sésamo, que era um dos meus vinis preferidos quando criança, e Sítio do picapau amarelo), álbuns de Tom Zé (Nave Maria), Rosinha de Valença (Rosinha de Valença) e Sidney Miller (Língüas de fogo), o segundo volume de A voz do morro (com Paulinho da Viola, Zé Zetti, Seu Jair...), Vinícius, Marília Medalha e Toquinho (em Como dizia o poeta), além de vários títulos de bossa-jazz. Entre os cds que já comprei, destaco o do Osmar Milito (... E deixa o relógio andar!), que traz um registro absolutamente delicioso de Cantaloup island (do grande Herbie Hancock) e o do Sambossa (5), quarteto comandado por Walter Wanderley, com uma versão singelíssima da minha adorada Chuva (Durval Ferreira / Pedro Camargo).



 Escrito por Marcelo às 11h27
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8 de março

"Essa mulher"

Joyce

"De manhã cedo essa senhora se conforma
Bota a mesa, tira o pó, lava a roupa, seca os olhos
Ah, como essas santa não se esquece de pedir pelas mulheres
Pelos filhos, pelo pão
Depois sorri, meio sem graça e abraça aquele homem, aquele mundo
Que a faz assim, feliz

De tardezinha essas menina se namora
se enfeita se decora, sabe tudo, não faz mal
Ah, como essa coisa e tá bonita
ser cantora, ser artista
Isso tudo é muito bom
e chora tanto de prazer e de agonia
de algum dia qualquer dia
entender de ser feliz

De madrugada essa mulher faz tanto estrago
tira a roupa, faz a cama, vira a mesa, seca o bar
Ah, como essa louca se esquece
Quanto homens enlouquece
Nessa boca, nesse chão
Depois parece que acha graça
e agradece ao destino aquilo tudo que a faz tão infeliz

Essa menina, essa mulher, essa senhora
em que esbarro toda hora
no espelho casual
É de sombra e tanta luz
De tanta lama e tanta cruz
Que acha tudo natural"



 Escrito por Marcelo às 11h52
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Livro do Mariel

Hoje, a partir das 20h, o querido Mariel Reis vai lançar seu primeiro livro: a coletânea de contos Linha de recuo. O regabofe, que acontecerá na Livraria da Travessa de Ipanema, irá marcar também a estréia da Paradoxo Editorial, empreitada de coragem do amigo Delfim. É mais um espaço que se abre para a literatura brasileira contemporânea. Estarei lá para prestigiar os dois!



 Escrito por Marcelo às 11h43
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Fernanda Cunha

E por falar em cantoras bacanas, quem também vai estrear show, só que em série de três dias, é a Fernanda Cunha. As apresentações acontecerão nos dias 15, 22 e 29 de março, no Vinícius, com couvert a R$ 30. Acompanhada de feras como Cristóvão Bastos (piano) e Jorjão Carvalho (baixo), a querida Fernanda provavelmente concentrará o repertório nas canções de seu ótimo disco de estréia, em que gravou composições de Sueli Costa e Johnny Alf.



 Escrito por Marcelo às 21h36
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Ana Costa

O Caderno B publica hoje matéria bacana da minha querida Moniquitcha Ramalho sobre o show de lançamento do cd solo de Ana Costa, que acontece esta noite, no Teatro Rival. Cantora de timbre singular e uma simpatia de pessoa, Aninha gravou no disco bambas do naipe de Wilson Moreira, Almir Guineto e Arlindo Cruz, além de canções de amigos nossos, como Moacyr Luz, Marceu Vieira e Toninho Galante. O texto informa ainda que ela é a produtora do trabalho de estréia do meu colega de faculdade Lucio Sanfilippo (que comentarei aqui em breve). Segue a reportagem da Monica, na íntegra:  

"Samba entre amigos"

Monica Ramalho

"Entre a estréia amadora num barzinho em Vila Isabel e este primeiro álbum solo, Meu carnaval (do novato selo independente Zambo), muito prugurundum marcou a evolução da cantora, compositora e instrumentista Ana Costa na passarela do samba. O momento de lançamento - hoje, às 19h, no Teatro Rival BR - foi escolhido com esmero pela artista, que assopra 38 velinhas amanhã. "Exatamente há um ano fiz um show para comemorar meu aniversário e a platéia, formada só por gente querida, gostou tanto do repertório que acabei gravando boa parte dele neste disco", diz.

Foi para os amigos e com os amigos, aliás, que Ana Costa entrou em estúdio e pretende levar esta pequena amostra do samba carioca pelo Brasil a fora. A próxima parada ainda será em território conhecido: na Modern Sound. É bom avisar que acabaram as reservas de todas as mesas da loja de Copacabana para o pocket-show gratuito do dia 13 de março. E hoje, no Rival, só restam 20 bilhetes da cota de 200 pagantes com desconto de 50%. O resto já foi vendido.

Mas o desfile desta noite promete, com participações especialíssimas dos sambistas Analimar e Oswaldo Cavalo. Eles são alguns dos músicos que selaram amizade com Ana Costa ao longo de cerca de 15 anos de carreira. Como no disco, a voz poderosa de Analimar estará presente em Quintal do céu, de Wilson Moreira e Jorge Aragão. "Ela foi a primeira pessoa a me dar força no mundo do samba, quando me chamou para fazer parte do grupo Coeur Sambá, produzido pelo pai dela, o Martinho da Vila", lembra.

Analimar, por sua vez, só se encantou com as habilidades musicais de Ana em virtude do convite do sambista Mombaça para ela soltar a voz e exorcizar os demônios em um boteco suburbano. "Gravei um samba maravilhoso dele, Mulata trabalhada na cintura, em sinal de eterna gratidão pelo gesto que me abriu tantas portas."

E dentre essas portas, uma das mais significativas é a do Carioca da Gema, na Lapa, onde ela se apresenta às sextas-feiras com o percussionista Oswaldo Cavalo. A potência vocal de Cavalo pode ser medida na faixa Pra que pedir perdão, de Aldir Blanc e Moacyr Luz.

A lista fraterna, como se vê, é extensa. Vai da cantora de timbre rascante Mart'nália, com quem Ana trabalhou por dois anos e a quem ela só deixou recentemente para dar um impulso à carreira individual, até um punhado de compositores da sua geração, como Fred Camacho (Supremo e divinal, em parceria com Almir Guineto e Arlindo Cruz) e Marceu Vieira (Brasileiro da gema, com Toninho Galante), jornalista nos moldes de um Antônio Maria, só que bem mais otimista na poesia.

Meu carnaval também revela o lado autoral de Ana: Não importa mais o dia, feita com Agrião e Bianca Calcagni - que acumula as funções de arranjadora, corista, diretora e produtora artística -, Felicidade, rabiscada num momento de crença absoluta no amor, e Não sei o que dá, uma das, até então, três parcerias com Zélia Duncan e Mart'nália (com direito à participação da ex-patroa).

E como tudo acaba mesmo na folia, Ana Costa transformou duas músicas conhecidas do grande público em puro baticum: a pop rock Olhos felizes (Marina Lima e Antônio Cícero) e a bossa nova Meu carnaval (Celso Fonseca e Ronaldo Bastos), que está no disco Juventude/Slow motion bossa nova, de Celso, e que virou a faixa-título de Ana. "Lá aparece como bossa, mas sempre achei que era um samba de empolgação, típico dos blocos carnavalescos, e gravei assim". explica a sambista, que engatinhou na música a bordo de um bandolim, estudou com afinco o violão e abraçou o cavaquinho meio na brincadeira, por gostar da sonoridade. Só bem depois é que vieram o canto e a composição. "Eu era fã da (bandolinista) Nilze Carvalho e cresci ouvindo aqueles quatro LPs da série Choro de menina. Achava o máximo. Comprei um bandolim em Madureira e comecei a tocar na marra. Era um instrumento bem vagabundo, mas me aproximou desse universo musical", recorda.

Muito tempo depois, Nilze voltou do Japão, onde morou por sete anos, e fez uma temporada no Empório 100, que funcionava na Rua do Lavradio. Ana arrastou a amiga Bianca até lá, a fim de ser testemunha ocular do que seus ouvidos nunca duvidaram. Para encurtar a história, o fato é que ficaram amigas e Nilze Carvalho chegou a participar de alguns shows do trio feminino O Roda, originalmente chamado Roda de Saia.

Ana Costa e Bianca Calcagni fundaram o grupo há dez anos e agora uniram forças mais uma vez para criar o Zambo Discos. O selo já começa fazendo valer o significado do nome de batismo: mistura as raças de Ana e Lucio Sanfilippo, que coloca nas prateleiras o álbum Canções de amor ao Léo, sob direção da polivalente guerreira Ana Costa."



 Escrito por Marcelo às 21h26
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Pitacos sobre o resultado oficial

 

Antes de tudo: fiquei feliz com a vitória da Vila Isabel, sobretudo por, num ano com tantas notas bizarras, ter impedido aquela que seria a bizarrice-mor - uma vitória da Grande "Globais" Rio. Mais feliz ainda com a consagradora conquista da Estácio, que merecidamente retorna à chamada "elite". Agora, aos pitacos:

. Os entusiastas do irregular desfile da Tijuca não cansam de reclamar que a escola merecia melhor sorte. Acenam com os pontos tirados em alegorias (a meu ver, justos) e em fantasias (estes, sim, injuntos). Mas - sinceramente - dá para se queixar quando os mesmos jurados deram quatro notas máximas para o samba do cacófato? Não seria nada demais se neste quesito a agremiação perdesse pelo menos seis pontos, já que quatro conceitos oito já soariam como uma boa-vontade com o Framboesa de Ouro;

. A vitória da Vila não representou, como alguns têm argumentado, uma grande injustiça. A escola fez mesmo um dos melhores desfiles;

. A Mangueira talvez tenha sido a mais prejudicada pelo júri, perdendo pontos em quesitos nos quais brilhou intensamente, como fantasia. Mas se lembramos dos títulos conquistados graças à boa vontade do "socialismo moreno" de Leonel Brizola, que comandava os jurados da Riotur, fica mais difícil justificar o choro;

. Como previ aqui em post anterior, de pouco adiantou o Império ter o melhor samba do ano. Na hora de dar a nota neste quesito, quase todo mundo acaba ganhando conceito máximo. O mais espantoso (apesar de meu aviso anterior) foram mesmo as quatro notas dez para a "a música ganha";

. Estranhei também as notas altas da Mocidade para enredo. Qual enredo mesmo?;

. Neste quesito - enredo - o Império perdeu pontos injustificados. Por outro lado, minha escola ganhou um dez em alegorias que não tem razão de ser;

. Fiquei supreso com as notas da Portela. Sinceramente, o enredo era de uma pobreza só (e recebeu notas mais altas do que a do Império do Divino, por exemplo). Apesar do imenso carinho que tenho pela escola, achei o desfile apenas mediano, merecedor de uma posição intermediária;

. Quanto ao Salgueiro: fez jus a uma colocação melhor, acima da Portela e da Imperatriz, no mínimo.;

. Grande Rio em segundo? Ora, nem gastarei palavras para comentar isso. Só digo que Império e Salgueiro não poderiam ter ficado em posição inferior aos lugares da Portela e da própria Grande Rio (que correu e ainda assim ganhou notas altíssimas em harmonia e conjunto);

. Numa visão mais fechada sobre o meu Império, creio que a escola está no caminho certo. O objetivo da nova diretoria era mesmo alcançar em torno do oitavo lugar (repito: acho que mereceu colocação melhor) para, no ano que vem, estar entre as cinco primeiras. É um trabalho de "formiguinha", de reerguimento passo a passo após os muitos e tristes anos no limbo do carnaval. Um dia a gente chega de novo no nosso lugar de direito. Até porque, como lembram os felizes versos do samba de 2006, "imperiano de fé não cansa"...



 Escrito por Marcelo às 22h07
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Análise do Luiz Fernando Vianna

Entre tantas análises que li sobre o desfile do Grupo Especial, a que mais se aproximou do que eu penso foi a do Luiz Fernando Vianna, em texto publicado na Ilustrada (Folha de S. Paulo) de hoje. Discordo quando ele afirma que a passagem do Império foi "a melhor do ano" (para mim foi a da Mangueira, não obstante a verde-e-branco ter feito, de fato, "um dos melhores desfiles), mas no resto assino embaixo de praticamente tudo. Segue a íntegra da matéria (com grifo meu):

"Rabugentas ou realistas, muitas pessoas dizem que desfile de escolas de samba é uma mesmice, variando só as cores das agremiações. Mas há repetições que vêm para o bem. Os destaques deste ano do Grupo Especial do Rio de Janeiro foram escolas que cometeram algum tipo de repetição. Uma delas sairá campeã hoje da apuração dos votos dos 40 jurados, transmitida às 15h45 pela TV Globo.
A Mangueira, a mais aclamada de todas as 14 que entraram no sambódromo no domingo e anteontem, passou uma borracha no desfile sombrio -nas cores e nas idéias tiradas do tema energia- de 2005, e voltou à predominância do verde-e-rosa.
Mais e melhor: voltou ao entusiasmo dos melhores anos e à região que lhe deu o último título, em 2002, o Nordeste, agora na figura do rio São Francisco.
Já a Unidos da Tijuca repetiu, no enredo sobre a música, os ingredientes que a levaram ao vice-campeonato nos últimos dois anos: alegorias criativas e com muita gente em cima, marca do carnavalesco Paulo Barros, somadas à empolgação de uma escola que tem três quartos de seus componentes participando efetivamente de seu cotidiano.
O Império Serrano, de quem se esperava apenas mais um esforço para se manter entre as grandes, fez um desfile como nos velhos tempos -naqueles em que era campeã, o que não acontece desde 1982: o melhor do ano e sobre um tema popular (a religiosidade brasileira), alas transbordando alegria e soluções simples mas eficientes para suprir a impossibilidade financeira de ter fantasias e alegorias luxuosas. É pena que os velhos tempos tenham pouca chance de ganhar nos novos tempos.
A Unidos do Viradouro mostrou o que sabe fazer: carros com tecnologia e algum luxo, componentes animados e ousadia na comissão de frente e na bateria -a que mais ousou em efeitos cênicos e sonoros neste Carnaval. Também repetiu a irregularidade que a marca, mas ganhou gritos de "é campeã" e saiu da avenida com esperanças.
Para os destaques de domingo, o problema vai ser superar o estilo vitorioso da Beija-Flor: eficiência técnica, alegorias grandiosas e -felizmente- a forte participação da chamada comunidade, chave do sucesso da escola de Nilópolis, atual tricampeã.
Com um desfile muito parecido com o dos anos anteriores, mas falando de águas e da cidade mineira de Poços de Caldas, a Beija-Flor foi ovacionada pelo público que resistiu no sambódromo até a manhã de segunda-feira.
Como toda regra tem uma exceção, a Unidos de Vila Isabel é candidata ao título com uma apresentação que nada teve a ver com a sua história. Sem a simplicidade visual que é a sua marca e sem Martinho da Vila, que brigou com a diretoria por ter seu samba-enredo preterido, a escola falou de latinidade com um desfile preciso, luxuoso, de carros imponentes, mas também com componentes entusiasmados.
Do outro lado, o de baixo, tudo indica que Unidos da Porto da Pedra e Acadêmicos da Rocinha, vítimas de vários problemas, serão as rebaixadas.
A Portela, que correu risco em 2005, desfilou bem melhor neste ano. Falta a ela, que venceu 21 vezes, reencontrar sua cota de feliz repetição."



 Escrito por Marcelo às 21h59
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