Saravá, 2006!

Ao Paulo Thiago e ao Jefferson, amigos novos já com cara de definitivos, saravá, ao Marceuzito, ao Alfredinho, à Regina, ao Chiquinho e a todo o povo do Bip, saravá, ao querido Flávio Vaz, que teve um 2005 difícil, saravá, a um dos meus irmãos, o Henrique, que volta a viver dias amarelos e sorridentes, saravá, à Claudinha e ao Pepe, sempre presentes mesmo quando ausentes, saravá, ao Hugo e ao Marechal, amigos imperianos dos quais tanto e com tanta alegria me aproximei este ano, saravá, ao casal querido Cuenca (a quem tanto chateei no começo deste ano) e Rosana, para quem 2005 será desde sempre inesquecível, saravá, ao meu irmão mais velho Sidney, saravá, à Hilda e sua crença nos moinhos de vento da política, saravá, à Manu, que entrou na minha vida pra ficar, saravá, ao Janot, cada vez mais parceiro e querido, saravá, à Lu Sabóia e à Rosana, de tantos encontros felizes, saravá, ao Zé Gustavo, escritor das minúcias, saravá, à Tatiana, que o Brasil em boa hora resgatou, saravá, à Luise, Vicki (e Binho), Ângela, Eugênia, Joana, Marcinho, Pri, Fipo, Arlindo, Nininho, Michele, Mariana, de quem muito me afastei em dias escuros e a quem este ano tentei resgatar, saravá, à minha irmã gêmea Moniquitcha, que está conhecendo (de novo) o amor, saravá, ao Rodolfo, meu barman preferido, que sem querer fez cair a ficha de que já é reveillon, saravá, ao pessoal todo da OAB e da CAARJ – Flávia, Renata, Paola, Ricardo, Wesley, Natalie, Catarina, Solange, Salgado, Carla, Chico, Reis, Márcio e Rabaço, que colorem meus dias comuns com cores singulares, saravá, ao meu irmão Flávio Izhaki e à sua amada Ba, queridos de todas as horas e que integram de forma inexorável a minha vida, saravá, às Julianas Franklin e Prado (esta, com quem refiz laços fundamentais), saravá, ao Guiu, que vibra comigo em sensibilidade, saravá, à Camila e a todos os que me ajudaram fazer o "Contos sobre tela", saravá, ao pessoal do "Prosas cariocas", saravá, ao Moa, querido, e à Ize, sua mulher, saravá, ao Antonio Torres, mestre de todos nós, saravá, à minha afilhada Tathy, que cada vez me orgulha mais, saravá, à sua mãe, saravá, à grande cantora Nilze, que neste ano enfim chegou ao disco solo, saravá, à Camila e a todo o pessoal do Sururu, saravá, ao sumido Bráulio, saravá, ao Jaime, à Ramoneda, ao Dutra, ao Sales, ao Mariel e à Ronize, saravá, à Diana, Ana Paula, Chico Bosco, Beá, Martha, tanta gente que conheci melhor em 2005, saravá, à Adriana Lisboa, talento genuíno sem afetação, saravá, ao Marcelo Pachecco, chapa de primeira, saravá, à Elis, saravá, ao Jorge, meu médico e amigo, saravá, à Alessandra, ao Lúcio, ao Milton e à Zilmar, desde a faculdade ao meu lado, saravá, ao Paulo Maurício, que voltou, saravá, à Mariana Blanc e ao Marquinhos, saravá, ao Paulo Pires, saravá, ao Vitinho, saravá, ao Anderson, que tanto tem feito à frente do meu Império, saravá, às queridas Mariana e Crib, saravá, ao Christiano e ao Chico, saravá, 'as minha sobrinhas Sofia e Joana, saravá, aos meus manos Flávio, Flávia, Lílian e Mary, cujo amor é tanto que é indizível, saravá, à minha mãe Guida, que não gosta de saravás, saravá, ao meu amor F., que ajudou a transformar este ano no mais importante dos meus 33, saravá, ao Fernando Toledo e ao Roberto Moura, que cantaram pra subir – e, se bem os conheço, continuam cantando lá em cima -, saravá, ao meu pai, que lá está e ainda assim não deixa de estar ao meu lado, saravá, aos que lêem este blog, saravá, a todos os que, de uma forma ou de outra, estiveram comigo e me ajudaram a vencer com garra e felicidade mais um ano, para estar aqui, agora, e brindar: saravá, saravá, saravá, saravá, saravá, saravá, saravá!

Um grande 2006 para todos nós!



 Escrito por Marcelo às 11h42
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Oito meses...

... dançando juntinhos, afinados, harmônicos, entrosados, felizes. Um casal perfeito, como Ginger e Fred.



 Escrito por Marcelo às 11h36
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Os melhores do site Críticos.Com

Dia desses divulguei aqui a relação dos Melhores Filmes de 2005, segundo a Associação dos Críticos de Cinema do Rio de Janeiro (ACCRJ). Tal lista servirá de base para a mostra que acontecerá no CCBB entre 24 de janeiro e 5 de fevereiro. Com um quórum menor, e ainda assim significativo, os resenhistas do site Críticos.Com, entre os quais me incluo, também elegeram seus preferidos, confirmando a primeira posição para Ninguém pode saber (foto), de Hirokazu Koreeda. Seguem o resultado da votação do Críticos.Com e minha listinha particula. Leia os selecionados por outros resenhistas (como Marcelo Janot, Carlos Alberto Mattos, Pedro Bucther e Nelson Hoineff) aqui.

Críticos.Com:

7 votos
NINGUÉM PODE SABER (Dare mo Shiranai), de Hirokazu Koreeda / Japão
6 votos
UM FILME FALADO, de Manoel de Oliveira / Portugal
5 votos
BOM DIA, NOITE (Buongiorno, Notte), de Marco Bellocchio / Itália
4 votos
O CLÃ DAS ADAGAS VOADORAS (Shi Mian Mai Fu), de Zhang Yimou / China
MENINA DE OURO (Million Dollar Baby), de Clint Eastwood / EUA
3 votos
CONTRA A PAREDE (Gegen die Wand), de Fatih Akin / Alemanha
DE TANTO BATER MEU CORAÇÃO PAROU (De Battre Mon Coeur s´est Arrêté), de Jacques Audiard / França
EXÍLIOS (Exils), de Tony Gatlif / França
OLDBOY, de Park Chan-wook / Coréia do Sul
A PESSOA É PARA O QUE NASCE, de Roberto Berliner / Brasil

Marcelo Moutinho:

Melinda & Melinda
De Tanto Bater, Meu Coração Parou
Bom Dia, Noite
Um Filme Falado
Cidade Baixa
Quase Dois Irmãos
Closer: Perto Demais
A Queda! As Últimas Horas de Hitler
O Segredo de Vera Drake
Ninguém Pode Saber



 Escrito por Marcelo às 10h54
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Zero Hora

O livro Contos sobre tela foi objeto da matéria de capa do jornal Zero Hora de hoje. Segue a íntegra do texto do repórter Carlos André Moreira:

"Quando as artes se misturam"

"Contos sobre tela" apresenta 16 histórias baseadas em pinturas ou esculturas

CARLOS ANDRÉ MOREIRA


 

"Desafiando o clichê de que uma imagem vale mais do que mil palavras, 16 escritores contemporâneos tentam mostrar no livro Contos sobre tela que um determinado número de palavras pode valer tanto quanto a obra de grandes mestres das artes plásticas.

Contos sobre tela (144 páginas, R$ 39) é um lançamento da editora carioca Pinakotheke, com organização do jornalista e escritor Marcelo Moutinho e prefácio do crítico e jornalista José Castello. Nele, autores contemporâneos de vários estados do Brasil foram desafiados a criar um conto inspirado por uma pintura ou escultura de algum grande nome brasileiro. A história resultante deveria ser uma obra autônoma que dialogasse com sua inspiração original.

Como as telas e esculturas que deram origem às histórias, os contos apresentam grande diversidade de estilos. Alguns textos aproveitam a sugestão da imagem evocada pela tela, outros buscam uma aproximação complexa entre a linguagem usada no conto e ideário artístico de cada pintor ou escultor.

O gaúcho Fabrício Carpinejar, por exemplo, pertence ao primeiro grupo. Exercita seu lado contista sem abandonar a poesia no jogo de espelhos Leite empedrado, conto sobre duas duplas de gêmeas inspirado no retrato duplo que o modernista Alberto Guignard pintou de duas mulheres também gêmeas.

Adriana Lunardi parte de Barra do Ribeira, bucólica cena de pescaria pintada no estilo acadêmico do gaúcho Pedro Weingärtner para criar uma delicada história de infância vazada em uma linguagem também clássica. O organizador da antologia, Marcelo Moutinho, inspira-se na sombria pintura Tudo te é falso e inútil, de Iberê Camargo, para criar a história de um menino que vê seu mundo sumir aos poucos.

O livro traz reproduções das 16 obras que inspiraram os contos, favorecendo mesmo quem não é versado em artes plásticas. Um diálogo tão rico que poderia ser retomado em novos volumes. Este repórter, por exemplo, fica imaginando como seria um conto de ação baseado em alguma das aquarelas da série Farrapos de José Lutzenberger."



 Escrito por Marcelo às 12h25
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Melhores filmes de 2005

Em acalorada discussão, a Associação de Críticos de Cinema do Rio de Janeiro (ACCRJ) elegeu na sexta passada os dez melhores filmes de 2005. As obras selecionadas serão objeto de uma mostra no CCBB entre os dias 24 de janeiro e 5 de fevereiro (com sessões gratuitas e deabates com críticos e convidados especiais), que terei a honra de organizar, ao lado do Janot. Ninguém pode saber, de Hirokazu Kore-Eda conquistou o posto de "melhor filme do ano" (as demais posições são aleatórias) e fiquei feliz com o resultado, apesar da supresa com a inclusão de dois Tim Burton na lista final (que reputo um exagero) e com a exclusão, apesar do meu voto, de Melinda & Melinda (Woody Allen) e A queda! Os últimos dias de Hitler (Oliver Hirschbiegel). As dez produções eleitas fotam:

Ninguém pode saber, de Hirokazu Kore-Eda (Japão)

Bom dia, noite, de Marco Bellochio (Itália)

Cidade baixa, de Sergio Machado (Brasil)

Cinema, aspirinas e urubus, de Marcelo Gomes (Brasil)

A Fantástica Fábrica de Chocolate, de Tim Burton (EUA)

Um Filme falado, de Manoel de Oliveira (Portugal)

Marcas da violência, de David Cronenberg (EUA)

Menina de ouro, de Clint Eastwood (EUA)

A noiva-Cadáver, de Tim Burton (EUA)

Oldboy, de Chan-wook Park (Coréia do Sul)



 Escrito por Marcelo às 10h57
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Então é Natal!

Amigos, amanhã parto para Lima Duarte (MG), onde enfim conhecerei a casa de meu irmão, que está morando por lá desde o início do ano. Como o próximo domingo será dia 25 de dezembro, antecipo-me reproduzindo o belo poema que o amigo Henrique Rodrigues escreveu inspirado pela data. Os versos ficam, aqui, como símbolos do meu sincero desejo de um natal fraterno e bem bacana para todos nós! 

"Nós, os crucificados"

Henrique Rodrigues

"E foi anunciado que um tipo azul de rosa tímida eclodiu por esses dias
- Azul porque do céu longínquo, e o mesmo da tristezas inexpugnáveis -
Que na redenção íntima e universal comportaria o peso dos aflitos
E em cuja face repousaria eternamente o sumo insidioso dos pecados.
Mas eis que num repente desabrocha a inssureição das madrugadas
E o canto dos perdidos, na clemência dos abismos, das desgraças
Se eleva em tom doce-sulfúrico nos desertos dos teus dias.

Pecebes? As vozes todas gritam gritam gritam até virarem um clarão
E se te prometem rio cobrem teu deserto com barragem
E as tuas cidades destruídas com a ânsia de fluência choram inutilmente sepultadas.

Repara na tua carne, tuas mãos, teus dedos: pouco lhe cabem
E ainda assim permaneces responsável pelo imenso fardo
Das noites e dos dias e da sensação perene de abandono
E a fé como um suspiro procrastinador dos desalentos
Te imprime a cada ciclo a nódoa taciturna e lenta.

Silenta.
O que lhe cabe é cruz, mas repara que ela tem o mesmo formato de tua mão.
E caminha, imaginando que nela repousa a lembrança de uma rosa azul.
E na firme experimentação de que o teu silêncio é ouro, incenso e mirra,
Renascerás por sobre as máculas como um tipo infinito de ternura."



 Escrito por Marcelo às 18h12
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Mais uma vez, Gabeira

Duas análises me chamaram a atenção nos últimos dias em meio à verdadeira barafunda política que nos cerca  - e que provoca, conseqüentemente, um tufão de besteiras em forma escrita. O primeiro exame é assinado por Elio Gaspari e foi publicado em sua coluna na edição de ontem de O Globo. O jornalista mostra, com o habitual refino estilístico, como na atual briga política o oportunismo tomou a frente do debate (em texto que reproduzo no post subseqüente). A outra leitura foi feita pelo cada vez mais admirável Fernando Gabeira, em entrevista ao repórter Luiz Antônio Riff, do site No Mínimo. Gabeira é, de longe, o político mais da lúcido da atualidade, agregando ainda uma singularidade digna de aplauso: costuma abdicar da hipocrisia tão comum à espécie. Como a matéria do Riff é muito extensa, destaco abaixo alguns trechos. Leia a íntegra aqui.

"(...) Agora, Gabeira direciona sua indignação contra seus antigos parceiros de sonhos e ideais. Diz que está perdendo o pudor porque não pode silenciar diante do graves desvios cometidos pelos governantes e aliados. Não há lealdade ao passado que possa ser invocada: “Senão, você acaba entrando no clima de cumplicidade para acobertar equívocos e erros. Estou aprendendo a tratá-los como os cafajestes que eles são”, diz ele, que deixou o PT em 2003, já descontente com os novos rumos tomados pelo partido no governo.(...)"

"(...) O governo Lula, para ele, é o fim dos sonhos da esquerda no Brasil. Uma trajetória de promessas brilhantes que terminou de forma melancólica, segundo Gabeira, que lamenta o fracasso retumbante de sua geração ao chegar ao governo. “Não há mais conteúdo transformador nenhum. A única preocupação deles é se manter no poder. Querem ter um carro preto oficial e as garotinhas correndo atrás com o microfone querendo ouvir o poder”, critica. “Dói ver os antigos amigos se transformarem em pessoas mesquinhas que vivem dando chutes para ninguém chegar perto e ameaçar o poder deles." (...)"

"(...) Hoje, o ex-guerrilheiro Gabeira tem uma visão crítica do marxismo, que diz ter abandonado ainda no exílio, no final dos anos 70. “Já não explicava o mundo para mim.” Ele reconhece que a doutrina foi a grande teoria revolucionária do século 20, mas o socialismo foi um fracasso histórico. “E, com a eleição de Lula, estamos inseridos nesse fracasso, junto com a maioria do eleitorado brasileiro”, diz. “O marxismo era um colchão intelectual. Dava pra interpretar qualquer fato sob a sua ótica. É muito confortável. Mas gera um conformismo intelectual”, avalia ele, que começou a rever seus dogmas quando estudava antropologia na Suécia.
Sua passagem pela luta armada (contada no livro autobiográfico “O que é isso, companheiro?”, que virou filme) também é vista sem condescendência. Não se vê como um herói lutando contra os bandidos representados pelos militares que comandavam o país na ditadura. Ele admite que a guerrilha pode até ter contribuído para o fim do regime. Isso não quer dizer, porém, que eles lutassem pela democracia. “Estávamos lutando para substituir um sistema totalitário por outro sistema totalitário”, admite ele, que fez curso de formação de guerrilha urbana e rural em Cuba quando viveu no exílio.(...)"

"(...) aí vai uma crítica aos seus colegas da esquerda do PT que, expulsos do partido, criaram o PSOL. Um movimento político que ele compara a um cisma religioso. “Quando a Igreja entra em crise, há sempre um grupo que critica o afastamento do texto essencial. E prega uma volta à leitura e à interpretação ortodoxa do texto original.” Aliás, essa ortodoxia e visão restrita não é privilégio do PSOL. “O grande problema da esquerda e da direita é não ver o mundo como ele é, mas como eles gostariam que fosse, através de filtros." (...)"

"(...) Gabeira não vê apenas problemas na atual crise política. Ele acha que a desilusão provocada pelo envolvimento de lideranças petistas em práticas condenáveis e ilegais tem um aspecto positivo. Está forçando o eleitorado a amadurecer. “É o funeral da última esperança. E é preciso que as pessoas não tenham mais esperança em salvadores e em salvação.”  Ele acha que, como reflexo dessa frustração, a mentalidade do eleitorado já começou a mudar na eleição municipal de 2004, quando as urnas mostraram preferência por um pragmatismo empreendedor nas escolhas para prefeito. Gabeira ilustra essa transformação com uma metáfora simples e um pouco cruel. “A opinião pública é como uma amante que se cansou do namorado que faz serenata e sempre promete uma lua-de-mel no Caribe. Ela agora optou pelo maridão medíocre que cumpre o seu papel no dia-a-dia.” (...)"

"(...) Atualmente, para se eleger, um candidato muitas vezes tem de esconder suas qualidades ou pontos de vista. “Um candidato tem que parecer o mais babaca possível para parecer com o homem comum”, lastima ele, que não está disposto a fazer concessões à mudança de imagem ou ao seu discurso engajado, que envolve a defesa de minorias, de prostitutas e da legalização da maconha.(...)"

"(...) Sua convicção é de que seu esforço individual pode ser mais útil se envolvendo em questões específicas. Uma delas é a assegurar a proteção da reserva da Serra da Canastra, onde a nascente do São Francisco está ameaçada, com programas de desenvolvimento sustentável envolvendo os vizinhos do parque.  E pretende continuar usando seu mandato parlamentar para denunciar imposturas, como a de Severino Cavalcanti na presidência do Câmara. Algo que o ex-guerrilheiro vê com uma dose de ironia: “Você passa a vida inteira brigando pelas coisas e só te descobrem quando você briga com o Severino”, ri.(...)"



 Escrito por Marcelo às 14h13
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Briga política

"Lembrai-vos de 1954"

Elio Gaspari

"O tucanato teve mais um surto de demofobia. Seu líder no Senado, Arthur Virgílio, sugeriu que o aumento do salário mínimo para R$ 350 está entre “meia dúzia de atos demagógicos” destinados a ajudar Lula a transpor o primeiro turno da eleição do ano que vem.

Aumentar o salário mínimo em cerca de 20% não é demagogia. Demagogia é votar um aumento para R$ 384, como fez em agosto um pedaço da bancada liderada por Virgílio. É demagogia no sentido mais puro da palavra, porque os trinta senadores que votaram a medida sabiam que ela seria derrubada na Câmara ou vetada por Lula.

Beneficiada pelo irracionalismo da retórica do “Nosso Guia”, a oposição quer encurralar o país. Procede como se precisasse de juros altos e estagnação econômica.

Se Lula segura os gastos, o tucanato acusa o governo de frear o crescimento. Se a ministra Dilma Rousseff diz que a idéia de um vago ajuste fiscal de longo prazo é “rudimentar”, o campo banqueiro do PSDB a ataca como se ela planejasse o fim do mundo. Se Lula derruba o salário mínimo de R$ 384, a oposição o acusa de não cumprir o prometido (“Nosso Guia” prometeu dobrá-lo). Se o companheiro vai na direção dos R$ 350, é um irresponsável que torrará R$ 4,6 bilhões.

Admitindo-se que alivie o confisco do Imposto de Renda sobre os salários do andar de baixo elevando em 10% o teto da isenção dos trabalhadores, gastam-se mais R$ 1,3 bilhão. Juntando-se as duas despesas, chega-se a cerca de R$ 6 bilhões. É muito dinheiro, mas nunca é demais lembrar que os encargos da dívida interna e externa custam ao país cerca de R$ 120 bilhões anuais.

Ao contrário do que acontece com o rentismo dos juros, cada centavo gasto com o salário mínimo retorna ao mercado da produção nacional. Esse dinheiro compra comida e vestuário. O que sobra serve para a construção de um puxado ou de uma laje. Estima-se que um aumento de 10% no salário mínimo reduz a pobreza nacional em 4%. Quando a Viúva esvazia a bolsa pagando os juros dos doutores Henrique Meirelles e Afonso Bevilacqua, esse fato é apresentado como uma fatalidade histórica. Quando se fala em melhorar a vida do trabalhador, é demagogia.

O PSDB tem dois candidatos a presidente da República (José Serra e Geraldo Alckmin) que ainda não conseguiram cumprir a promessa de campanha de integrar os bilhetes de ônibus, trens e metrô de São Paulo. Tudo indica que, se o fizerem, cobrarão uma tarifa burra mais elevada que o carnê dos trabalhadores de Nova York. No Rio de Janeiro, onde está o terceiro candidato oposicionista, a situação dos transportes públicos é ainda pior.

A oposição que acusa Lula de demagogia teme que iniciativas sociais e a melhoria da renda do andar de baixo permitam a reeleição do companheiro. Vai embutida nesse raciocínio a idéia de que a patuléia é composta por uma massa incapaz de discernir o alcance de seu voto. Se ele for reeleito, reeleito estará.

As teorias conspirativas do PT são pouco mais que fantasias. Mesmo assim, é verdade que a política brasileira convive com uma militância demófoba. Quando lhe convém, ela investe contra as conseqüências da elevação do salário mínimo, erguendo a bandeira da moralidade, contra “o clima de negociatas, desfalques e malversação de verbas que vem, nos últimos tempos, envolvendo o país”. Essas palavras, que poderiam ter saído de um discurso de “Nosso Guia” na sua encarnação oposicionista, foram tiradas de um documento bem mais antigo: o “Manifesto dos Coronéis”, de fevereiro de 1954. Seis meses depois, Getúlio Vargas se matou."



 Escrito por Marcelo às 14h03
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Geografia carioca do samba

O livro Geografia carioca do samba, escrito pelo amigo Luiz Fernando Vianna e lançado em 2004, será base de uma série de shows às terças-feiras do mês de janeiro próximo. Com coorndenação de Tulio Feliciano e direção musical do onipresente e gente-muito-boa Paulão Sete Cordas, os espetáculos terão roteiro de João Máximo em parceria com o próprio Luiz Fernando. As cantoras Ana Costa e Bianca Calcagni centralizarão o repertório, recebendo convidados que cantarão sambas originados em diferentes regiões da cidade. Zé Renato e Joyce, no dia 3, enfocarão a Cidade Nova, a Penha e o Estácio. No dia 10, será a vez de Mangueira e Madureira, com o nobrilíssimo imperiano Wilson das Neves, acompanhado de Tantinho. Os trabalhos seguirão no dia 17, com Mart'nália e Moska encarregando-se da Vila Isabel, da Tijuca, do Centro e de Botafogo. Os subúrbios em geral ecoam nas gargantas de Dorina e Dudu Nobre, que no dia 24 encerram a série.



 Escrito por Marcelo às 11h46
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A festa

Festa de primeiríssima a que marcou o lançamento do Rio Literário, ontem, no Rio Scenarium. Os muitos amigos presentes, vários dos autores da antologia (Sérgio Sant'Anna, Adriana Lisboa, João Paulo Cuenca, Cecília Giannetti e Pedro Sussekind), além da organizadora Beatriz Resende, do fotógrafo Bruno Veiga, da designer Mariana Newlands e dos editores Martha Ribas e Júlio, garantiram o brilho de um evento onde não faltaram simpatia, boa música, comidinhas de boteco (distribuída em porções fartas), cerveja gelada e um open bar, com capirinhas e outros drinques. No centro do anexo da casa, onde tudo aconteceu, havia um pequeno palco, ilustrado por um das das imagens da obra (curiosamente, a que foi publicada junto ao meu conto). No local, um rapaz tirava fotos polaroid dos que prestigiaram o lançamento, numa iniciativa bem bacana, sobretudo por ligar claramente a festa ao livro - que, aliás, esgotou por lá.

P.S. Na foto: Beatriz Resende, eu, Pedro, Cuenca e Cecília...



 Escrito por Marcelo às 11h57
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É hoje!



 Escrito por Marcelo às 18h06
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Orestes Barbosa

Uma ótima notícia: o jornalista, crítico, cronista e grande letrista Orestes Barbosa acaba de ganhar uma biografia, escrita por Carlos Didier (co-autor de alentado estudo sobre Noel Rosa) e lançada pela Editora Agir. Intitulado Orestes Barbosa – Repórter, cronista e poeta, o livro de Didier é objeto da acurada análise de José Castello em matéria para o site No Mínimo, na qual são sublinhadas as múltiplas facetas do biografado, que teve uma vida "estilhaçada entre a poesia, o jornalismo, a diplomacia e a música popular". Orestes é autor (com Sílvio Caldas) dos versos de Chão de estrelas, que, armados em sextilhas, são considerados por muitos os mais belos de nossa música. Também com o parceiro mais freqüente, criou a belíssima Arranha-céu, repleta de imagens densas e expressionistas, como as que se desenham nos versos "Cansei de esperar por ela / toda a noite na janela, / vendo a cidade a luzir / nesses delírios nervosos / dos anúncios luminosos / que são a vida a mentir..." Orestes destacou-se como uma figura catalisadora dentro da boêmia dos anos 30 e 40, levando para as mesas de bar uma ampla cultura que era divida com seus pares. “A convivência com Orestes Barbosa traz para Silvio Caldas o benefício da cultura literária”, Didier escreve. “Nas conversas boêmias, o poeta fala em Euclides da Cunha, cita Machado de Assis, declama Olavo Bilac.” Foi - do mesmo modo que Vinicius - um erudito entre intuitivos.", sintetiza Castello. A biografia além de ser um retrato da época, reconstitui com justiça um "lugar" para os compositores da modinhas e dos sambas-canção, que foram relegados aos escaninhos do "mau gosto" após a chegada da bossa nova. Segue a letra completa da já citada Arranha-céu, uma de minhas preferidas. Leia o artigo de José Castello na íntegra aqui.

"Arranha-céu"

Sílvio Caldas / Orestes Barbosa

"Cansei de esperar por ela
Toda a noite na janela
Vendo a cidade a luzir

Nesses delírios nervosos
Dos anúncios luminosos
Que são a vida a mentir

E cada vez que subia
O elevador não trazia
Essa mulher, maldição

E quando lembro
Gemia o elevador e descia
Fundia o meu coração

Cansei de olhar os reclames
E disse ao peito: não ame,
Que o teu amor não te quer

Descansa, feche a vidraça
Esquece aquela desgraça
Esquece aquela mulher

Deitei então sobre o peito
Vieste em sonho ao meu leito
E eu acordei, que aflição

Pensando que te abraçava
Alucinado apertava
Eu mesmo meu coração"



 Escrito por Marcelo às 10h40
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30 anos do HR

De Madureira para Jacarepaguá, porque o longo sábado ainda incluiu o aniversário do meu irmão Henrique Rodrigues, que "apresentou" sua casa nova aos amigos. O HR chegou aos 30 muito bem: amando, feliz e escrevendo melhor do que nunca.



 Escrito por Marcelo às 18h11
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Caravana Imperial

No sábado, eu e os amigos Antonio Torres, Hugo Sukman, Álvaro "Marechal" e Flávio Izhaki (com sua Bá) integramos uma pequena caravana que seguiu - de metrô, trem e táxi - rumo à histórica quadra do Império Serrano, em Madureira. Mais tarde, juntariam-se a nós ainda João Paulo Cuenca, Rosana Caiado e Antônio Prata (com a namorada). Foi uma tarde de muito calor, samba, feijoada e ótimos papos com o grande Anderson Baltar (assessor de imprensa da escola e estudioso do carnaval) e com a querida Rachel Valença, pesquisadora e hoje vice-presidente Cultural da agremiação. Ela acaba de reunir, em três cds que são vendidos na quadra, todos os sambas-de-enredo da Serrinha desde 1948. Os imperianos podem comprar lá também o registro em DVD do célebre desfile de 1982, com Bum bum paticumbum prugurundum. É um bom aquecimento para a festa de 2006, quando cantaremos na Sapucaí as festas religiosas brasileiras. Quem quiser desfilar, aliás, deve entrar em contato o mais rapidamente possível comigo...



 Escrito por Marcelo às 14h27
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Rio Literário

 
No sábado passado, o suplemento Prosa & Verso (O Globo) trouxe matéria de capa sobre o Rio Literário, livro organizado pela Beatriz Resende que reúne poemas, contos e trechos de romances ambientados na cidade, acompanhados de fotos polaroid do ótimo Bruno Veiga. O volume, em capa dura e elegantemente projetado pela amiga Mariana Newlands, junta feras como Carlos Drummond de Andrade, Ferreira Gullar, Sérgio Santanna, Antonio Torres, Chico Buarque, Clarice Lispector, Rubem Fonseca e João Antônio a autores recentes, como Adriana Lisboa, Arthur Dapieve, Pedro Sussekind e - mui orgulhosamente - este que vos escreve. Segue a matéria sobre a obra, cujo lançamento será amanhã, a partir das 20h, no Rio Scenarium. Todos vocês estão desde já convidados...
 
"Geografia literária do Rio"
 
Mauro Ventura
 
"2005 foi o ano das antologias. Quer conhecer a “voz” da periferia? Cate nas estantes o livro “Literatura marginal”. Procura uma compilação de textos femininos? Folheie “25 mulheres que estão fazendo a nova literatura brasileira”. Está entediado? Leia “Veneno antimonotonia”. Busca histórias policiais brasileiras? Consulte “Crime feito em casa”. Há outros exemplos recém-chegados às livrarias, como “A visita”, “Tarja preta”, “Contos sobre tela” e a série “Contos para ler...” ( leia ao lado ).

Natural que o ano se encerre com o lançamento de uma nova antologia, “Rio literário — Um guia apaixonado da cidade do Rio de Janeiro” (Casa da Palavra, R$ 52), que reúne 33 textos produzidos por 29 escritores entre 1960 e 2005, entre eles Rubem Fonseca, Ferreira Gullar e Antônio Torres. O livro, que será lançado terça-feira, às 19h30m, no Rio Scenarium, é ilustrado por 71 fotos de Bruno Veiga.

Em se tratando de Rio, o caminho óbvio seria recorrer à crônica, expressão literária mais identificada com a cidade. Mas Beatriz Resende, organizadora do livro, percebeu que o Rio das crônicas já é por demais conhecido. Além disso, é um gênero que identifica e detalha demais os espaços, quando a idéia era traçar não só a geografia física como também a cartografia sentimental e afetiva da cidade.

Beatriz abriu mão dos atalhos literários e reuniu poemas, contos e trechos de romances que, juntos, esboçam uma espécie de “biografia” do Rio — uma das muitas possíveis. A única crônica do livro é a que abre a antologia. Num trecho de “Estado da Guanabara”, Vinicius de Moraes brinca com a fama de bon vivant que acompanha o morador da cidade: “Que outra criatura no mundo acorda para a labuta diária como um carioca? Até que a mãe, a irmã, a empregada ou o amigo o tirem de seu plúmbeo letargo, três edifícios são erguidos em São Paulo.”

Ao mesmo tempo hospitaleira e hostil, tolerante e áspera, envolvente e traidora, graciosa e vulgar, a cidade do Rio, diz Beatriz, “apresenta-se inevitavelmente como espaço percebido numa relação amorosa”. Nesta espécie de guia de viagem literário, o leitor encontra referências explícitas a bairros e alusões mais sutis à geografia carioca. No primeiro caso, estão, por exemplo, o Largo do Machado e o Catete, que ganham ruas e detalhes em trecho de “Um crime delicado”, de Sérgio Sant’Anna. Mas há instantes em que se dispensam nomes, como faz Antonio Cicero, que fala do museu e do aeroporto em “O parque”, numa menção ao MAM, ao Santos Dumont e ao Aterro do Flamengo.

Os 25 anos que separam o primeiro texto — de Vinicius — do último — “Sexta-feira de cinzas”, de Marcelo Moutinho — estão visíveis no livro com o desaparecimento do Estado da Guanabara, a transformação da Confeitaria Colombo da Rua Barão de Ipanema em agência do Banco do Brasil, a mudança de Rua Montenegro para Vinicius de Moraes e o fim do Cinema Miramar. Um Rio que também vai se perdendo está em “Carioca da gema”, de João Antônio, dos anos 70, que traz uma visão hoje idealizada dos morros: “Gosto de lembrar aos sabidos, perdedores de tempo e que jogam conversa fora, que o lugar mais alegre do Rio é a favela. É onde mais se canta no Rio.”

Beatriz optou também por uma escolha arriscada: incluir na seleção um punhado de autores novos.

— Quis pôr um olhar sobre a cidade que não fosse nostálgico. O livro traz uma fruição inédita, um olhar mais fresco que é difícil de achar em escritores mais consagrados — explica Beatriz, professora da Uni-Rio, pesquisadora da UFRJ e organizadora do livro “Cronistas do Rio”. — E os trechos selecionados fazem com que “Rio literário” funcione como aperitivo para o leitor conhecer seus autores."



 Escrito por Marcelo às 12h03
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Carpinejar + Klee

"Quando a gente ama, a cidade encolhe.

Quando a gente ama, atravessa-se a cidade sem contar as quadras. Rodoviária é perto de qualquer lugar. É como nadar em uma raia infinita. Não se percebe o trajeto, não se controla o esforço, não se repara no cansaço. Desenhos em portas, fruteiras e fachadas antigas estimulam o gosto de seguir adiante. Os bares e lugares são descobertos ao acaso, como gravuras avulsas de um livro. Caminha-se ao som dos anéis, embalado pelas conversas que não terminam, pelo muro que se sobe para testar as molas dos pés na descida, pelas escadarias que são o sofá dos namorados noturnos.

Quando se ama, a cidade baixa os telhados. Não é preciso se escorar para respirar. Não precisamos de bengalas, aldravas, guarda-chuvas, esteios, muletas, corrimões, maçanetas e trincos. Não se envelhece, a gente se espalha.

Quando se ama, não há fim, não há mapa, não há tristeza sozinha, não há taxímetro estipulando preço. As paredes dão licença. As estátuas conspiram datas. As praças mudam de lugar. É uma corrida solta, dispersa, distraída, como uma alegria nova. A voz não sobe mais do que um pássaro. A cidade se torna menor do que a amizade, menor do que os cílios engavetando a lua. A cidade se torna pequena, que caberia no bolso do casaco como um isqueiro. Caberia no bolso do casaco como uma aspirina. Caberia no bolso do casaco como um preservativo. Caberia no bolso do casaco como um relógio quebrado.

Quando se ama, as ruas escorrem como calçadas lavadas. Escorrem como temporal. O meio-fio incha de barcos. As garagens perdem seu declive. As ruas ficam líquidas, as lombas só descem, as curvas acentuam as luzes.

Fácil ir, pois não tem volta; fácil ir, pois não tem a cobrança do retorno; fácil ir, pois a mão descansa do ônibus; fácil ir, pois não procuramos moedas e o contorno dos nomes. Não existe velocidade comparável a dois corpos decididos, doados, dados, esculturas mais juntas do que fogo.

Quando se ama, as vitrines são as janelas das pernas. Consulta-se o retrovisor para ajeitar a carne dos lábios. A camisa está dobrada no corpo com a sobra de uma mala. Vontade de viajar pela língua e pela ponta dos dedos.

Já quando a gente se separa, a cidade aumenta."

Fabricio Capinejar (roubado descaradamente do blog dele...)



 Escrito por Marcelo às 11h13
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Minutos

"A calma de uma árvore que reluz, nas suas folhas íntimas, o langor do gatos como príncipes, um livro lido ao som de uma confidência, na tarde.
Os minutos de uma espera são, por vezes, a vida."

Mário Rui de Oliveira



 Escrito por Marcelo às 11h04
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Impressões

Do blog Todo urso polar é canhoto, mantido pelo jornalista Paulo Maurício:

"Há três preciosidades em 'Contos sobre Tela': "Menino no escuro", de Marcelo Moutinho, "A sala dos pássaros", de João Paulo Cuenca, e "Poente", de João Anzanello Carrascoza. Num livro desigual – natural numa coletânea de contos, especialmente se levarmos em conta serem as peças de autores diferentes – esse três sobressaem. Acredito, porém, que o conjunto é digno de estar nas listas dos mais felizes lançamentos deste ano. É o tipo de livro que se lamenta o término da leitura.

Se existe unidade, arrisco dizer que está numa poética da dor – gente tão jovem, e tão capaz de expressar a paixão, a abissal vontade de agarrar o tempo, de preencher seus (e dos outros) espaços vazios com as cores e tintas que tiverem à mão. Mas é com igual coragem que eles se lançam ao abismo. Não fosse assim, o que levaria João Paulo Cuenca, de 27 anos, a escrever: "nós, de paixões arraigadas que pouco nos agüentamos sobre as pernas; nós, e a nossa poesia disfuncional e enferma, derramada pelo chão" (...).

Iberê Camargo "pinta porque a vida dói". Essa turma nos faz crer que a literatura – e por que não o conto, esse injustiçado? – continua a melhor fonte de resistência à inflação de imagens e de informação audiovisual de que diariamente nos alimentamos e que apenas imaginamos compreender. E é ao livro – a 'Contos sobre Tela', à 'Canção da torre mais alta', de Rimbaud, à 'Ascese', de Kazantzákis, aos aforismos nietzscheanos, etc. – que vamos acabar voltando, hoje e amanhã, sempre que o menino em nós permanecer com um certo medo da noite, no escuro."

 

Se Luciano Trigo não dá conta de sua própria pretensão, e João Filho tropeça nas experimentações com a linguagem, não tem problema. Nada de mais. Nem de menos. Corra à livraria mais próxima.  



 Escrito por Marcelo às 16h01
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Livro em construção

Foi um dos posts mais bonitos que já li/vi: uma seqüência de fotos nas quais a amiga Andréa del Fuego, ao lado de amigos e do pessoal da editora Fina Flor, costura os exemplares de seu novo livro, Nego tudo, para que fiquem prontos a tempo do lançamento. As imagens constróem um pequeno filme (revelador, tocante, poético), capaz de mostrar que o amor pela literatura supera o próprio ofício de escrever - e de sobretudo nos dar força para continuar insistindo nisso. Confira aqui.



 Escrito por Marcelo às 10h39
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Doré e o Quixote

 

Encerrando as comemorações sobre os 400 anos do célebre Dom Quixote, romance fundador do gênero, a Opera Graphica acaba de lançar uma obra inédita no Brasil - e desde já imperdível: um luxuoso volume em capa dura e papel couchê com as 375 ilustrações que o gravurista francês Gustave Doré (1833-1883) fez especialmente para o texto de Miguel de Cervantes na segunda metade do século XIX. Cada imagem vem acompanhada de um fragmento do romance diretamente relacionado à mesma. O livro tem organização do jornalista Gonçalo Junior, que assina longo ensaio sobre Doré na introdução. A relação entre o romance e as ilustrações de Doré é tamanha que hoje dissociá-las parece uma tarefa impossível - isto embora os dois artistas tenham vivido em épocas diferentes. Doré dividiu seu trabalho em três blocos bem distintos: pequenos desenhos (croquis) de personagens secundários ou mesmo do protagonista, espalhados com recorte no texto; desenhos mais elaborados de cenas da trama e do cotidiano em formato horizontal mediano; e grandes gravuras em pranchas meticulosamente construídas - cerca de uma centena, sempre com a retratação de alguma cena na qual Dom Quixote aparecia na companhia do fiel Sancho Pança ou de outros personagens.



 Escrito por Marcelo às 10h16
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Esquizofrenia

"Esquizofrenia é uma arma quente para se conseguir a posteridade artística. Dá, além de camiseta em Santa Teresa, radicalidade intelectual."

Frase iluminada de Joaquim Ferreira dos Santos na sua coluna (em O Globo de ontem).



 Escrito por Marcelo às 13h13
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Trio sagitariano

  

E tem mais gente bacana engrossando hoje o coro dos sagitarianos-aniversariantes: os sambistas-tricolores Noca da Portela e Wilson Moreira e o maestro Wagner Tiso. Um trio de respeito, que o Pentimento homenageia através de uma canção do Noca, composta em parceria com o grande Mauro Duarte e de excepcional melodia, que a também tricolor Cristina Buarque gravou em disco hoje clássico. É um dos sambas-assinatura do Bip Bip...

"Timidez"

Noca da Portela / Mauro Duarte

"Nossa timidez
Fez conosco, fez
O que faz com muitos
Sinceramente, amor
Sem ela
Há tempo estaríamos juntos
Nosso olhar fugia
Temendo a realidade
E a gente sem saber
Que os nossos corações
Se amavam se verdade

Lalaiá lalaiá lalaiá laiá...
Lalaiá lalaiá lalaiá laiá...
Quanto tempo chorado
Quanto tempo sofrido
Vamos recuperar esse tempo perdido...

Lalaiá lalaiá lalaiá laiá...
Lalaiá lalaiá lalaiá laiá...
Quanto tempo chorado
Quanto tempo sofrido
Vamos recuperar esse tempo perdido..."



 Escrito por Marcelo às 18h38
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30 anos

"Meu amor, eu já tenho trinta anos de projetos / Nada claro, nada firme, nada certo...". Cantei os versos de Ivan Lins e Vítor Martins já lá se vão quase quatro anos - e fiz questão de comemorar (muito) a data, ao lado dos mais queridos. Hoje, quem chega a essa idade tão redonda e tão bonita, meio-termo entre as pulsações da juventude e a calma da maturidade, é a F. E meu presente, entre os outros que já dei pessoalmente, é este poema do Torquato (lembra desse nome, F.? ;)), que ressalta, num dia especial, a beleza que todos os dias aparentemente banais ganham ao lado dela. 

"Coisa mais linda"

Torquato Neto

"Coisa mais linda nesse mundo
É sair por um segundo
E te encontrar por aí
E ficar sem compromisso
Pra fazer festa ou comício
Com você perto de mim

Na cidade em que me perco
Na praça em que me resolvo
Na noite da noite escura
É lindo ter junto ao corpo
Ternura de um corpo manso
Na noite da noite escura

A coisa mais linda que existe
É ter você perto de mim

O apartamento, o jornal
O pensamento, a navalha
A sorte que o vento espalha
Essa alegria, o perigo
Eu quero tudo contigo
Com você perto de mim"



 Escrito por Marcelo às 11h00
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Contos sobre tela no No Mínimo

O livro Contos sobre tela, que tive o prazer de organizar, entra hoje na lista de indicados para o Natal pelo site No Mínimo. A relação foi feita pela crítica Carla Rodrigues. Segue o que ela escreveu sobre a coletânea. Leia a matéria na íntegra aqui.

“Contos sobre tela” (Edições Pinakotheke), organizado por Marcelo Moutinho, promove o encontro entre 16 autores e seus quadros favoritos. É um livro pequeno, que pode não chamar sua atenção na vitrine. Mas é uma preciosidade criativa: os textos trabalham com a percepção, alguns são mais diretos, outros mais oblíquos, mas todos jogam com essa relação entre arte e literatura, entre pintura e percepção do mundo. Cada autor tenta dar conta da sua própria forma de enxergar a realidade, e assim lembrar ao leitor que que nunca haverá narrativa capaz de capturar o que está num quadro, da mesma maneira com que não se pode dar conta do que vai na realidade. Temos e compartilhamos apenas nosso olhar particular sobre o fatos. O mundo, assim como os quadros e os contos sobre tela, é impreciso.



 Escrito por Marcelo às 10h39
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Convocação geral: vote Nilze!

Convoco todos os leitores do Pentimento a darem uma força à talentosa amiga Nilze Carvalho, que foi indicada pelo jornal O Globo entre os três destaques da música em 2005 no Prêmio Faz Difereça. Nilze concorre com Ivan Lins e com o grupo O Rappa. Gosto dos outros dois candidatos, mas está mais do que na hora de ser reconhecido o grandioso talento da moça. Vote aqui.



 Escrito por Marcelo às 16h54
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Daslu x Daspu

Em matéria para o site No Mínimo, o repórter Luiz Antônio Riff revela a mais recente (e decerto mais hilária) briga judicial brasileira: a Daslu contra a Daspu:

"Templo do luxo contra boca do lixo"

Luiz Antônio Riff

"Um trocadilho virou motivo de discórdia entre o templo de luxo paulistano e a boca do lixo carioca. É que, quando resolveu criar uma confecção que gerasse uma renda para as prostitutas da Lapa carioca, a escritora Gabriela Leite teve a idéia de batizar a grife de Daspu. Mas na marginal Pinheiros, em São Paulo, na loja mais famosa do Brasil, ninguém riu. E a Daslu resolveu brigar na Justiça para impedir que o trocadilho batize as roupas feitas para vestir mulheres que ganham a vida se despindo.
A Daslu entregou uma notificação extrajudicial para a ONG Davida, que bancaria a confecção, para que o nome Daspu não seja utilizado. “Não há nenhum tipo de preconceito contra a atividade da ONG”, declara Rui Fragoso, advogado da loja paulistana. Ele afirma que esse é um procedimento padrão de defesa da marca: “Ocorre sempre que surge uma empresa com um nome similar ao da Daslu e que possa causar confusão”.
É difícil imaginar, entretanto, qualquer possibilidade de confusão entre as duas marcas. São dois mundos distantes, separados não apenas pelos 450 km de distância entre São Paulo e Rio de Janeiro. Afinal, pelo preço de uma camiseta da Daspu (R$ 20) não dá nem para entrar com o carro no estacionamento da Daslu (R$ 30 a primeira hora, se você não for cliente). O público-alvo também é bem diferente. O da Daslu é o da endinheirada elite paulistana, capaz de pagar até R$ 15 mil por uma jaquetinha de pelica D&G anunciada na inauguração da loja em junho. O da Daspu são as meninas de vida nada fácil que, em média, teriam que fazer vários programas por noite durante 15 meses seguidos para conseguir juntar esse dinheiro.
Se os produtos, os preços e o público não poderiam ser mais diferentes, o que dirá de suas mentoras? A escritora Gabriela Leite não lembra em nada sua colega empresária Eliana Tranchesi. Artista plástica de formação, Eliana transformou a loja herdada da mãe (Lúcia, que fundou a loja com a amiga Lourdes, o que motivou o “das Lu”) na meca do consumo no Brasil. Nos seus 20 mil metros quadrados, a Daslu vende roupas exclusivas de grife própria e de outras 120 marcas chiques como Gucci, Chloé, Chanel, Prada e Louis Vuitton. Vende também outros produtos como vinhos, iates e helicópteros, e enfrenta um rumoroso processo por suspeita de sonegação e fraude.
A Daspu não tem heliponto, como sua colega paulistana, nem vende marcas famosas. Aliás, não vende nada por enquanto. Sua primeira peça – uma camiseta do bloco carnavalesco Prazeres da Vida, organizado pela ONG – só será apresentada na segunda-feira, dia 5. A mulher por trás da Daspu é uma ex-estudante de sociologia que abandonou a USP e fez programas durante 11 anos. Hoje Gabriela Leite dirige a Davida, uma ONG voltada para as profissionais do sexo, realizando programas de prevenção de Aids (só no Rio são 4.120 mulheres atendidas).
Paulistana de 54 anos, Gabriela começou a se prostituir na Boca do Lixo, em São Paulo, passou por Belo Horizonte e chegou à Vila Mimosa, no Rio de Janeiro. A prostituição foi deixada para trás. Assim com a militância no PT. Mas desilusão, diz que só teve com a segunda. Não que a decisão de assumir publicamente sua opção não tenha sido traumática. Sempre é: “Por mais que você tenha uma cabeça aberta, você está entrando no coração do estigma”. O mais difícil costuma ser a aceitação da própria família. “Minha mãe tem problemas até hoje com isso”, admite Gabriela, que não glamouriza nem condena a atividade. “É um trabalho como outro qualquer. Só que está associado à sexualidade”, define ela, reconhecendo a lógica capitalista de que “se existe a profissão, é porque existe demanda”.
Ela diz que, como em qualquer outra profissão, ou quase toda, há coisas boas e ruins. “A ilegalidade do trabalho faz com que se viva em uma marginalidade grande. Muitas vezes há falta de higiene e não dá pra fazer reclamações trabalhistas para uma cafetina. Muitas preferem dar dinheiro para um policial a melhorar a vida das meninas.”
Sua opção pela prostituição foi uma alternativa à vida de datilógrafa em escritórios do centro de São Paulo. Odiava acordar cedo e pegar ônibus lotado todo dia. Até hoje não gosta de andar em um. “E eu gosto da madrugada. Fazia meu próprio horário, conhecia pessoas... E sempre tive curiosidade sobre as coisas proibidas.” Foi uma rebeldia juvenil, segundo ela. Hoje a rebelde da família é uma neta adolescente. “Ela é punk”, ri Gabriela, que tem seu trabalho reconhecido internacionalmente e é representante da América Latina e Caribe no Conselho de Coordenação (PCB) do Programa Conjunto das Nações Unidas sobre HIV/Aids (Unaids).
Mãe de duas filhas, Gabriela não tem problemas com sua antiga profissão. Ao contrário, nunca teve o medo de dar a cara a tapa. Começou a organizar uma associação de defesa dos direitos das prostitutas quando ainda fazia programa. Foi no período da redemocratização, quando os movimentos sociais se reestruturavam. Não foi fácil, mesmo entre os militantes de esquerda e do movimento feminino havia preconceito e tendência a folclorizar a questão. Em 1987, por sua iniciativa, foi promovido no Rio o I Encontro Nacional de Prostitutas. Dele nasceram associações de classe em todo o país, reunidas na Rede Brasileira de Prostitutas –hoje já são 29 associações coordenadas por ela. No ano seguinte, Gabriela fundou o jornal Beijo da Rua, veículo de circulação nacional dirigido à categoria.
A Aids acabou fortalecendo a causa. “Fomos o segundo grupo a assumir a luta contra a doença. Os primeiros foram os gays”, diz. Nos quase 20 anos em que organiza associações de prostitutas em todo o país ela vê avanços, principalmente no tratamento dado pela polícia, que costumava ser “extremamente violento”. Embora no interior do Brasil a situação não tenha mudado muito. Ela salienta, contudo, que há muitas realidades nessa atividade que tem um “leque diversificadíssimo” – abrange o luxo do Café Photo, em São Paulo, e o sexo por um prato de refeição atrás da Central do Brasil, no Rio de Janeiro.
Em qualquer caso, contudo, Gabriela diz que o melhor é sempre trabalhar por conta própria, sem patrão. Mas que a ilegalidade dificulta isso. “A gente não pode nem criar uma cooperativa de prostitutas”, lamenta ela, que apóia o projeto do deputado federal Fernando Gabeira (PV-RJ) que regulariza a situação da atividade.
Por enquanto, uma cooperativa de costureiras é mais simples. E essa é a idéia por trás da Daspu. Gabriela admite que o nome é uma alusão à Daslu. E que a idéia é transformar a grife em um negócio rentável para “as meninas”. Inicialmente 22 prostitutas serão responsáveis pela confecção das roupas. Cada uma produzirá em casa. Uma parte do faturamento irá para os projetos de prevenção.
O plano da Daspu é ter três linhas: de festa, figurinos básicos e os de uso na “batalha”. Sonhos há muitos. Que as peças sejam usadas não apenas pelas prostitutas, por exemplo. “Eu gostaria de algo moderno, de bom gosto, criativo e coerente com a nossa luta”, afirma Gabriela, que sorri feliz com a possibilidade de a grife participar das semanas da moda no Rio e em São Paulo. Não só. “Quem sabe a gente não tem as nossas coisas vendendo na Daslu?”, sonhava ela antes de receber a notificação extrajudicial. Agora não sabe nem se conseguirá usar o nome escolhido ou terá que encontrar outro. A realidade das prostitutas não tem glamour."



 Escrito por Marcelo às 11h27
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Tarde/Noite memorável

Pensei em postar aqui sobre o sensacional lançamento do Manual de sobrevivência nos butiquins mais vagabundos, de Moacyr Luz, no Bar Botequim, em Botafogo. Foi um encontro memorável, que reuniu grandes amigos, gente que foi entrevistada no livro (Arthur Dapieve, Jaguar, Sérgio Cabral, Jards Macalé) e feras da arte, como Hermínio Bello de Carvalho e Antonio Pedro. Não haverá, contudo, um relato melhor sobre a tarde/noite de terça do que o feito pelo Paulo Thiago no seu Pindorama. Confira lá o texto e as fotos.



 Escrito por Marcelo às 11h02
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Faltou dizer...

Como foi hipervalorizado esse Flores partidas, do Jim Jarmush, que ganhou o prêmio da Crítica no último Festival de Cannes. Em que pese a (habitual) ótima atuação de Bill Murray, o filme tem um anódino artificialismo (que não é intencional, como no caso dos trabalhos do Kubrick e, tenta o tempo todo ser "estiloso", "profundo", valendo-se de planos tão banais quanto o detalhe de uma taça de champagne borbulhando. É imperdoável, como se vem fazendo, comparar Flores partidas a uma pérola cinematográfica como Encontros e desencontros (Sofia Coppola), este sim um inventário caudaloso e visceral sobre a solidão.



 Escrito por Marcelo às 11h22
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Jornais pra quê?

Em sua coluna desta semana no site No Mínimo, o Zuenir Ventura aborda uma questão preocupante: a crescente escassez dos leitores de jornais. Sou tão leitor, mas tão leitor, que é como se os jornais fizessem parte de minha fisiologia, e talvez por isso não consiga disfarçar minha estranheza quando as pessoas me dizem que não têm o costume de ler. Zuenir, citando outro coleguinha, o Marcos Sá Corrêa - mostra que o fenômeno é mundial...

"Em jogo, meu ganha-pão"

Zuenir Ventura

"Na semana passada, uma das matérias que mais me fizeram pensar não saiu no “New York Times” ou no “Le Monde”, nem em qualquer dos grandes jornais brasileiros. Saiu em “A Voz da Serra”, de Nova Friburgo. Foi a cobertura de uma palestra do jornalista Marcos Sá Corrêa sobre a imprensa, sua ética e seu futuro. Ele não é das pessoas mais otimistas que conheço, mas como sei também que não é chegado à retórica – nunca foi surpreendido cometendo um excesso de estilo –, o que ele falou me deixou preocupado, inclusive porque ameaça o meu ganha-pão.
“O jornalismo, tal como o conhecemos hoje, está com os dias contados”, afirmou, “e toda a ética que cerca a profissão terá que ser repensada.” Citando dados e pesquisas, Marcos informou que os jovens não lêem mais jornal. Nos EUA, por exemplo, o índice de pessoas na faixa dos 14 aos 45 anos que ainda têm esse hábito está abaixo dos 5%, e de revistas semanais, abaixo de 3%. “O jornal ‘Washington Post’ calcula que em 2020 não sairá mais em papel, tendo que ser publicado por outros meios.”
Os jornais só estão sendo lidos por aquelas pessoas que se habituaram, “em tempos idos”, a ler. Essa mudança de hábito terá efeito sobre um código de ética baseado numa restrição ao poder do jornalista de influenciar as pessoas. Segundo Marcos, perdemos esse poder. Os leitores que sobraram são mais exigentes e esclarecidos. “Ninguém é mais freguês de jornalista ou de jornal algum.”
O mais surpreendente é que o índice de telespectadores da TV americana também está em queda. As pesquisas indicam que a população passa duas vezes mais tempo olhando uma tela de computador e se informando através dela do que de uma tela de televisão. Também o rádio, como disse Marcos, “já foi. Hoje eu ouço rádio pelo meu iPod na hora em que quero, onde tenho acesso a centenas de estações, inclusive americanas”.
O quadro descrito por Marcos e mais o resultado da pesquisa “Retrato da leitura no Brasil”, da Câmara Brasileira do Livro, que acabo de ver, apontam para um futuro desanimador. O “retrato” concluiu que existem 86 milhões de brasileiros acima de 14 anos com pelo menos três anos de estudo. Destes, 40 milhões têm até 29 anos e não lêem, ou pelo menos não têm o hábito da leitura. A situação é de fato crítica, mas não sem saída.
A internet, como revelou Marcos, pode estar ameaçando os jornais, mas não a leitura. Umberto Eco defende a tese de que o computador veio para salvar a palavra escrita que a televisão, essa sim, estava matando. De fato, nunca se escreveu e leu tanto. Pode-se discutir a qualidade do que se está lendo e escrevendo, mas por pior que seja é melhor do que nada. Um dos editores que comentou a pesquisa da CBL também acredita que um jovem que participa de bate-papos virtuais, que se comunica por meio de e-mails e MSN está mais preparado para se tornar um leitor de livro.
De minha parte, continuo acreditando na palavra escrita, mesmo admitindo que os suportes podem mudar. Outro dia um jovem, me olhando como um sobrevivente da espécie gutemberguiana em extinção, me desafiou com a famosa afirmação de que uma imagem vale por mil palavras. Respondi: “Mas até para dizer isso você precisa de palavras”. Ele calou, nenhuma imagem veio em seu socorro."



 Escrito por Marcelo às 11h04
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Sobre o mal

A editora Sétimo Selo, do querido Sidney Silveira, lança hoje o segundo título de seu catálogo: trata-se do clássico Sobre o mal, de São Tomás de Aquino, inédito em língua portuguesa. O livro foi traduzido pelo professor Carlos Ancênde Nogué e traz apresentação assinada pelo filósofo Paulo Faitanin. O evento começa às 17h, com o debate Santo Tomás e o mundo contemporâneo, que reunirá Nougué, Faitanin, João Ricardo Moderno (da Academia Brasileira de Filosofia) e o editor. As atividades acontecerão no auditório do 4º andar do Centro Cultural Banco do Brasil.



 Escrito por Marcelo às 10h53
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Mais literatura de boteco

Na próxima segunda (dia 12), o gente-boa Eduardo Goldenberg lançará no Estephanio's Bar (Rua dos Artistas, 130 - Vila Isabel) o livro Meu lar é o botequim - Histórias, palpites e feitiço sem fim. A obra tem capa assinada pelo Lan, prefácio de Aldir Blanc e apresentação de Fausto Wolff. Os trabalhos etílicos começam às 20h.



 Escrito por Marcelo às 13h42
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Especial sobre Cartas no Paralelos

O site Paralelos colocou no ar hoje um especial sobre Cartas. Estão lá missivas reais e virtuais imaginadas por gente como João Paulo Cuenca, Rosana Caiado, Crib Tanaka, Guilherme Tolomei, Sabine Marins e Antonia Pellegrino, além deste que vos escreve. Organizado pela Ronize Aline, o especial traz também resenhas de livros que reúnem correspondências entre grandes escritores. O amigo Henrique Rodrigues, por exemplo, analisa as cartas de Caio Fernando Abreu. Jaime Gonçalves Filho investiga o diálogo entre Mário de Andrade e Fernando Sabino. E eu acabei optando mesmo pela Clarice e tento decifrar alguns de seus mistérios em Correspondências. Segue um trecho da minha resenha. Confira tudo aqui.

Cartas adicionam novas faces ao enigma Clarice

Marcelo Moutinho

A todo escritor pressupõe um certo grau de desalinho com o mundo. Refiro-me aqui a uma espécie de desconforto, de náusea, que se interpõe entre ele e a vida, potencializando sua inventividade e possibilitando que - tal um escultor – entalhe, dentro da chamada realidade aparente, novas e alternativas dimensões. Independentemente disso, há em geral um espaço natal, ou pátrio, com o qual se identifica e de onde partem, para virar coisa distinta, as suas memórias. Este espaço pode ser sua família, sua vila, seu país – pode ainda ser múltiplo. Mas poderia simplesmente inexistir? Poderia o escritor alimentar-se, ao inverso, justamente do expatriamento absoluto?
Sim, respondo eu, para enfim enveredar pelo objeto desta resenha: Correspondências, livro que reúne 129 cartas (algumas delas incompletas) enviadas e recebidas por Clarice Lispector entre as décadas de 1940 e 1970. Isto porque - como apontou Antonio Callado - ela, Clarice, era em essência uma estrangeira. E não em razão de ter nascido na Ucrânia. “Criada desde menininha no Brasil, era tão brasileira quanto não importa quem. Clarice era estrangeira na terra. Dava impressão de andar no mundo como quem desembarca de noitinha numa cidade desconhecida onde há uma greve geral de transportes. Mesmo quando estava contente ela própria, numa reunião qualquer, havia sempre, nela, um afastamento”, bem assinalou o crítico.(...)



 Escrito por Marcelo às 11h48
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Sambas-de-enredo

Mais um especialista no assunto atesta a qualidade do samba do meu Império para 2006. Desta vez, é o amigo Janjão, que publica no Segundo Caderno (O Globo) de hoje sua crítica sobre o disco das escolas. Andei ouvindo o cd neste fim de semana e posso garantir: foram mesmo as duas agremiações de Madureira - o samba da Portela tem uma beleza de melodia - as responsáveis pelas melhores composições do próximo carnaval...

"Império Serrano ensina a receita do bom samba"
 
João Pimentel

“O meu Império é raiz, herança/ E tem magia a sambar o ano inteiro/ Imperiano de fé não cansa/ confia na lança/ do santo guerreiro/ E faz a festa porque Deus é brasileiro”. Com este refrão, o Império Serrano vai apresentar o seu enredo “Império do divino”, lembrando as festas religiosas brasileiras. Escola que andou algum tempo pisando na bola em homenagens a Beto Carreiro e coisa que o valha, e chegou a cair para o Grupo de Acesso, já há alguns anos está em um processo de recuperar sua identidade de escola tradicional, campeã, de raiz, como está no melhor samba do ano. Curiosamente, a Portela, vizinha da Escola da Serrinha e maior campeã do Carnaval, e a Mangueira, irmãs do Império nos quesitos importância histórica e autoridade, também apresentam bons sambas, dignos de suas histórias.

Em princípio é importante ressaltar que as escolas vivem o dilema hoje de optar entre um samba nos moldes tradicionais, melódico, cadenciado e centrado numa boa letra, e um hino que se preste ao carnaval nos moldes de hoje, ou seja, mais curto, mais acelerado e com refrãos fáceis. As três conseguem o equilíbrio entre as duas receitas, e assim tem sido nos últimos anos.

É importante o registro de que o samba do Império tem entre seus autores Aluízio Machado e Arlindo Cruz, e o da Portela, Mauro Diniz, Ary do Cavaco e Marquinhos de Oswaldo Cruz, todos sambistas de primeira. Já o samba da Mangueira foi contestado por parte da bateria que preferia um samba, digamos, mais marcheado. Valeu a escolha.

Os demais sambas são corretos, com destaque para o Frankenstein do Salgueiro — que remendou dois sambas para fazer um terceiro — o milagre da Beija-Flor, que fez algo razoável com Poços de Caldas, e a auto-exaltação da cinqüentona Mocidade. De muito ruim mesmo, as lamentáveis letras da Caprichosos, da Porto da Pedra e da Unidos da Tijuca, que, depois de uma série de bons hinos, apresenta uma letra que dói nos ouvidos, inclusive com uma cacofonia de dar pena: “A música ganha”. A música perdeu."



 Escrito por Marcelo às 11h22
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Os filmes da minha vida

A edição do Prosa & Verso de sábado passado foi mesmo especial. Além da resenha do Paulo Thiago, o suplmento trouxe ótimos textos do Luiz Ruffato (sobre a literatura latino-americana) e do amigo Luiz Camillo Osório (sobre artes plásticas). Também fiz parte dela, com a resenha do livro Os filmes da minha vida, do chileno Alberto Fuguet (foto). Segue a íntegra do meu texto:

As memórias ‘pop’ de Fuguet
 
Marcelo Moutinho
 
Em “A câmara clara”, Roland Barthes mapeou dois elementos que agiriam sobre o observador de uma fotografia: o studium , compreendido como o aspecto “óbvio” da imagem, aquilo que se apresenta ao intelecto de forma direta; e o punctum , mecanismo que aciona, no extracampo, afetos particularíssimos, capazes de machucar, emocionar, fascinar, pungir. É justamente essa substância caudalosa e obtusa que, deslocada para o campo da sétima arte, atravessa os 50 títulos que compõem “Os filmes da minha vida”. O segundo romance do chileno Alberto Fuguet expõe o dolorido balanço que seu protagonista, o sismólogo Beltrán Soler, traça sobre a própria existência a partir da notícia da morte do avô, que lhe inspirou a carreira.

As reminiscências da infância nos EUA e da adolescência no Chile, com tudo que as envolve — idiossincrasias familiares, dilemas ontológicos, dores e alegrias do amor — são despertas pela lembrança de produções a que assistiu. De clássicos como “A felicidade não se compra” a bobagens como “Os dobermans atacam”, os filmes desfiam seu novelo de recordações; eles são as madeleines de Beltrán.

Importam menos, portanto, o enredo ou a qualidade das produções, e mais o seu entorno, as situações que bordejaram o contato com as películas, rigorosamente fixado em local e data. Em alguns casos, os relatos são esboçados a partir do testemunho alheio, como acontece com “A história de Elza”, o primeiro filme da lista. Beltrán tinha apenas 2 anos quando o viu, num drive in . Ele então se imagina no carro, junto com os pais e a irmã Manuela, que, saberemos depois, sequer havia nascido. É uma pena que Fuguet não explore com mais profundidade esses lapsos, que poderiam enriquecer a narrativa ao inventariar o caráter transversal da memória, a fusão que ela arregimenta entre o presente e um passado meio real, meio construído.

A trama enredada através dos filmes é enriquecida com a reprodução de e-mails, a descrição de diálogos telefônicos, anotações esparsas e até um currículo do protagonista. Apesar dessa fragmentação, há certa linearidade na história narrada por Beltrán, sob a qual paira por todo o tempo uma analogia simbólica entre a explosão telúrica do protagonista e o ofício que exerce: o estudo dos abalos sísmicos. “Os terremotos são a maneira que a terra tem de se livrar de seus fantasmas”, costumava dizer seu avô. A assertiva sintetiza a condição do próprio Beltrán, que aparentemente falhou naquela que acreditava ser paralelamente a missão e o pior defeito de um sismólogo: ver além, procurar fendas, detectar falhas e resistências para prever e evitar tragédias.

A escolha dos filmes — a maioria bastante conhecida — e o sotaque pop do livro refletem uma das principais facetas da literatura de Fuguet. O autor lidera o movimento McOndo, germinado numa revista publicada na Espanha em 1996, e cujo nome remete, com ironia, à mítica cidade imaginada por Gabriel García Márquez. O McOndo proclama o fim do realismo mágico e a luta contra o clichê de uma América Latina folclorizada. Tal crítica ecoa em “Os filmes da minha vida” fundamentalmente quando o escritor explora o choque cultural que atinge Beltrán ao retornar a Santiago depois dos anos vividos na Califórnia. O olhar de estranhamento que lança em direção à cidade, o desejo de não “ser parte daquilo”, a dificuldade inicial com o idioma, tudo isto ressoa no romance, chegando às raias do satírico no episódio em que o protagonista registra o embevecimento dos compatriotas ao se sentirem “parte do mundinho de Hollywood” só porque o astro Yul Brynner casara-se com uma chilena.

Ao expor a trajetória e os dilemas de Beltrán através de produções exibidas em todo o mundo, o autor efetiva sua crença numa “nova sensibilidade artística”, característica de “almas globais” que partilham produtos culturais comuns, como músicas e programas de TV. Estende-se a essas esferas a máxima, constante do livro, de que “todos os filmes foram importantes ao menos para alguém em determinado momento, por algum motivo” — e aí voltamos ao punctum identificado por Barthes.

Assim, uma produção-catástrofe como “Terremoto” pode remeter Beltrán, além das impressionantes seqüências de destruição, para o instante em que, ao enxergar a tez transparente do avô, compreendeu que ele estava velho. Os tesouros magníficos e a enormidade do oceano em “O fundo do mar” tornam-se pouco diante do plano em detalhe de Jacqueline Bisset nadando com os mamilos endurecidos sob a camiseta molhada. A frase “Não estamos sozinhos”, perdida no cartaz de “Contatos imediatos do terceiro grau”, pode lembrá-lo de que o pai partira e, sim, ele está sozinho. E a vida banal de um jogador de tênis, em “Amor em jogo”, fazê-lo enfim perceber que os filmes — e decerto também os livros — emocionam as pessoas sobretudo quando falam sobre elas mesmas.

MARCELO MOUTINHO é jornalista e escritor


 Escrito por Marcelo às 10h59
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Moa no Prosa & Verso

O livro do Moacyr, aliás, mereceu resenha também no Prosa & Verso, em texto assinado pelo amigo Paulo Thiago (que é um notório conhecedor do assunto 'boteco'). Segue a íntegra:

"Para sobreviver ao balcão"
Paulo Thiago de Mello
 
"O Ministério da Saúde adverte: toda cautela é pouca nos botequins da cidade. Mas, se mesmo assim, o destemido leitor resolver se aventurar num desses pequenos templos dedicados ao ócio e à bebida, já pode contar com um instrumento precioso para sobreviver ao balcão. Lugar por excelência para se jogar conversa fora, o boteco caiu de tal maneira no gosto popular que já se incorporou à identidade boêmia do Rio, como uma de suas expressões mais originais. Não é à toa que sua fama tenha ultrapassado os balcões e chegado às livrarias.

Cantado em verso e prosa, o boteco, além da esquina, está presente também em crônicas, colunas de jornais, teses acadêmicas, guias de boemia e roteiros gastronômicos. E, agora, o leitor tem a seu dispor uma nova opção: o “Manual de sobrevivência nos butiquins mais vagabundos”. Escrito pelo compositor e boêmio (não necessariamente nessa ordem) Moacyr Luz, um especialista no assunto, o livro — que será lançado na próxima terça-feira, no restaurante Botequim, (Visconde de Caravelas 184, Botafogo), a partir das 16h — é uma divertida brincadeira com a fina etiqueta que regula a convivência diária nos botequins. Ou butiquins , como prefere o autor.

Ao descrever de forma caricata situações em que estão presentes aspectos emblemáticos do cotidiano desses estabelecimentos, Moacyr Luz nos ensina, nesta sua estréia como escritor, não só como sobreviver aos pés-sujos mais vagabundos, mas sobretudo como se comportar neles. Afinal, suas histórias enumeram as competências que todo freguês deve dominar quando está entre seus pares, com um copo na mão. Também ensina como evitar algumas armadilhas típicas.

Num texto tão saboroso quanto o universo que retrata, o livro de Moacyr recobre vários estereótipos acerca dos pés-sujos cariocas, mas sem transformá-los em meros fetiches. O autor consegue essa proeza graças à forma bem-humorada como constrói sua narrativa, amarrando os capítulos por temas que se interligam de alguma forma.

Desse modo, estão lá considerações filosóficas que variam da conversa fiada ao “choro” na dose de uísque; da saideira ao banheiro imundo; do “pendura” ao pagamento com cheque; e por aí segue. Moacyr acaba descrevendo, sem adotar um tom professoral, as características que diferenciam o chamado pé-sujo das casas mais modernas, que se autodenominam “botecos”.

Ao eleger as crônicas que compõem o livro, o autor não se fia apenas na autoridade de quem passou a vida nos bares. Moacyr recorre também a ilustres boêmios da cidade, cujo notório saber sobre o assunto é reconhecido por todos. A começar por Martinho da Vila, autor do prefácio do livro. Outros companheiros de copo também dão seu pitaco sobre o assunto em entrevistas que separam os capítulos temáticos. Estão ali Jaguar (autor das ilustrações do livro), Baiano, Alfredinho do Bip Bip, Paulão Sete Cordas, entre outros.

Mais do que um manual, como promete o título, o livro de Moacyr Luz se inscreve numa tradição da literatura boêmia do Rio de Janeiro que surge com a transformação da cidade num centro urbano cosmopolita, no fim do século XIX. A Proclamação da República, a libertação dos escravos, a chegada de levas de imigrantes e o início da industrialização deram ao Rio a sua fase belle époque . Com isso, as pequenas boticas, as botiquinhas, ou botequins se transformaram em pontos de encontro desse novo cidadão urbano.

Perseguidos nos períodos em que a moral e os bons costumes impunham cruzadas contra o alcoolismo e o ócio (onda que parece estar voltando em algumas cidades do país), os botequins foram durante muito tempo vistos como espaços de desvio e lugar da malandragem, sendo condenados pelas instituições e perseguidos pelas autoridades. Mas, como espaço alternativo de lazer, o bar também é vivido por parte da população como uma espécie de clube social da esquina, ponto de encontro de proximidade.

Assim, entre suas mesas e balcões não está apenas o desvio, mas igualmente uma das formas mais originais de ser do carioca. Formas que são expressas em narrativas mitológicas, cheias de heróis e vilões, como as que estão no manual de Moacyr.

As crônicas do livro seguem na esteira dessa mentalidade cosmopolita, galhofeira, plena de uma ética que se impõe por bravatas, jocosidades e uma convivência que se traduz em amizade. Por isso, o “butiquim” de Moacyr é simultaneamente um espaço público que tem dono e um lugar de intimidade. As chaves para transitar nesse universo estão no livro."



 Escrito por Marcelo às 10h57
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Moa na Carta Capital

Na edição desta semana da revista Carta Capital, a coluna de Nirlando Beirão versa sobre o Manual de sobrevivência nos butiquins mais vagabundos, livro de Moacyr que tive a honra de organizar. O texto ficou bem bacana, leve, gostoso de ler e, por isso, faço questão de reproduzir aqui:

"Geografia da ressaca de copo em copo"

Nirlando Beirão

"Butiquim é estado de espírito. “Os mais vagabundos”, então, nem se fala. Só uma aptidão para bas fond, o jeitão xexelento pode explicar seu permanente carisma. Eles é que acabam de merecer minuciosa pesquisa etílico-antropológica do connaisseur Moacyr Luz. Virou livro: Manual de Sobrevivência nos Butiquins Mais Vagabundos (Senac Rio, 125 páginas). Butiquins – assim como está escrito. Nem boteco chega a ser. Bar, menos ainda. Antro, mafuá – lugar que inspira frases e compassos, papos e porres, músicas e cantadas, verdades e mentiras (mais mentiras que verdade).
Moacyr Luz é compositor, boêmio e botequeiro, o que, mais do que sugerir a versatilidade que ele de fato tem, simboliza uma confluência. Todo esse talento pode ter um mesmo lugar para se manifestar. “Lugar sagrado”, como reza Martinho da Vila no prefácio.
O boêmio do incansável violão (Moacyr já foi cantado por Bethânia, Gil, Nana) juntou crônicas ouvidas ao pé de uma “brahma” e à frente de um torresminho. Rascunhou. Topou uma noite com Marcelo Moutinho, jornalista com dotes de psicanalista da alma carioca – estavam os dois numa inauguração de bar, claro.
Com a ajuda de Moutinho, o livro nasceu. Vem recheado de entrevistas dos boêmios de antologia (Tia Surica, Haroldo Costa, Lan, Chico Caruso, Antônio Pedro, Sérgio Cabral e um vasto e enressacado etc.), de ilustrações de – quem mais? – Jaguar e com o design original e nada óbvio de Christiano Menezes (que saiu retratando aqueles azulejos encardidos dos quais nenhum butiquim que valha o nome pode prescindir).
É livro de clima, de ambiente, “um manual sobre um Rio que insiste em resistir”, nas palavras do parceiro Moutinho – e que o próprio Moacyr Luz tanto celebra na sua outra mídia, em canções como Só Dói Quando eu Rio (com letra de Aldir Blanc) e aquele que é quase hino Saudades da Guanabara (com Aldir e Paulo César Pinheiro). De fato, as crônicas de Moacyr como que reiteram que “boteco é coisa carioca e ponto final”, afirma Moutinho, já sabendo, porém, do risco de que o próprio autor venha desmenti-lo.
Na verdade, tanto Moacyr Luz quanto a própria informalidade do butiquim carioca acabaram por ser adotados em São Paulo, e não por acaso seu livro ganhou lançamento brindado com chopinho e tremoços no Pirajá, o mais carioca dos bares para além da avenida Brasil. Ao Pirajá não falta sequer a legitimação definitiva dos painéis de Nilton Bravo, o Michelangelo dos mocós.
E, paradoxo supremo, essa inusitada Via Dutra da baixa gastronomia (expressão do jornalista Ruy Castro) hoje funciona em mão dupla. A São Paulo que saiu para copiar o estilo, a arquitetura, a cultura do boteco carioca tem hoje know-how de chope bem tirado, de croquete e até de boemia e decidiu exportá-lo para... o Rio de Janeiro.
Assim como o Pirajá poderia estar no Rio, o Devassa, o Informal, o Belmonte de figurino novo têm cara de São Paulo – naquele mix sincrético de eficiência com malemolência que, como sugere outro demiurgo da condição carioca, o jornalista e escritor Joaquim Ferreira dos Santos, é a única fórmula que ainda há de salvar o Brasil. Se Deus quiser e a bebida não faltar."



 Escrito por Marcelo às 10h36
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Toninho e os bichos

Hoje, Dia do Samba, é também aniversário do gênio da harmonia Toninho Horta. Curiosamente, lembrei dele há cerca de dois dias, ao ler, no No Mínimo, um tocante texto escrito pelo amigo Paulo Roberto Pires. Paulo falava da estranha relação construída entre ele e Sig, o basset que ganhou há cerca de três meses e repentinamente adoeceu. "Discos, livros e filmes não têm vez esta semana porque há quase um mês ele ficou doente e nossa relação mudou completamente. Remédios na hora certa, exames, idas ao médico. Ficamos mais próximos; e eu, estranhamente, mais dependente dele. Os amigos mais próximos sabem o quanto foi difícil. Agora está tudo bem e resolvi escrever aos meus seis leitores por ter descoberto, talvez da pior forma, pelo sofrimento de um e a preocupação do outro, a profundidade de nosso relacionamento", observa Paulo.

A coluna do Paulo me fez pensar em como tenho me afeiçoado a uma dessas figurinhas - no caso, um Yorkshire folgado que gosta de biscoitos e carinho na barriga (quem não gosta?). E, em seguida, no Toninho, que compôs uma beleza de música que trata exatamente desse assunto. A canção chama-se Diana e sua letra se segue, em homenagem ao aniversariante e a esses quase indizíveis sentimentos que unem os humanos aos (outros) bichos.

"Diana"

Toninho Horta / Fernando Brant

"Velha amiga, eu volto à nossa casa
Já não te encontro alegre, quase humana
Corpo pintado de branco e marrom
E uma tristeza no olhar
Como se conhecesse dor milenar

Já não te encontro, à espera, ao pé da porta
Correndo viva e bela ou descansando
Tanto vazio por todo lugar
Tanta tristeza sinto ao chegar
Ao nosso território de brincar

Almoço aos domingos, a velha farra
Todos vão inventando novos segredos
Fica a ausência branca e marrom e a tristeza milenar
Mas os meninos voltaram a brincar
Como se ainda sentissem o teu olhar"



 Escrito por Marcelo às 10h51
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Desfile em 2006

E por falar em Império, já estou articulando com o pessoal da Ala dos Devotos minha fantasia para 2006. Há dois anos, no histórico repeteco de Aquarela Brasileira, através aqui do Pentimento consegui arregimentar mais de 15 amigos para desfilar - e aposto que não se arrependeram. Eles foram testemunhas do astral do grupo, formado em sua maioria por jornalistas e imperianos de raiz, como a presidente da ala, Inês Valença (filha da nossa querida Rachel). Quem quiser garantir seu lugar para o ano que vem, portanto, já pode se manifestar aqui. O preço da fantasia será fixado ainda este mês, e o pagamento poderá ser feito em três parcelas. Por enquanto, fiquemos com o samba:

"O Império do Divino"

Autores: Arlindo Cruz, Maurição, Carlos Sena, Aluízio Machado e Elmo Caetano

Puxador: Nego

"Cantando em forma de oração
Serrinha pede paz, felicidade
Pra nossa gente que não pára de rezar
E como tem religiosidade

Senhor, olhai por nós
Até por quem perdeu a fé
Vem meu amor
Na festa pr’o Divino
Pagar promessa
De joelho ou de pé

Hoje tem maracatu, bate tambor
Cai na folia, é Festa de Reis
Chão colorido
Fogaréu, Semana Santa
Pode chegar
Que aqui tem festa todo mês

Tem romaria lá no Juazeiro
A procissão do Círio faz chorar
Mas o Brasil é tão alegre e festeiro
É um celeiro de cultura popular

A esperança vem do índio caiapó
É louvação com muito amor no coração
Do povo negro, veio todo axé
Lá do terreiro umbanda e candomblé
Um mar de flores para Iemanjá
Água de cheiro, águas de Oxalá

O meu Império é raiz, herança
E tem magia pra sambar o ano inteiro
Imperiano de fé não cansa
Confia na lança do Santo Guerreiro
E faz a festa porque Deus é brasileiro"



 Escrito por Marcelo às 10h18
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"Congonha, Tamarineira"

Sou suspeito, já que meu coração (como vocês bem sabem) é imperiano. Cumpre, no entanto, informar que o samba-enredo de 2006 da Serrinha vem sendo apontado quase que por unanimidade como o melhor da safra, seguindo uma tradição que remonta ao grande Silas de Oliveira. Claro, claro: nós só vamos ouvir nas rádios o samba da Mangueira e de outras 'queridinhas', sejam estes bons ou ruins - e o grande público mesmo acabará não conhecendo a composição de Arlindo Cruz, Carlos Sena, Aluízio Machado (foto), Maurição e Elmo Caetano. Mas não tem nada, não: imperiano é imperiano "na alegria e na dor". Seguem as matérias sobre as enquetes dos jornais O Dia e Extra:

O DIA:

"Júri do DIA escolhe samba da Portela e do Império Serrano os melhores para o Carnaval 2006"

Alberto João e Nilton Carauta

"O DIA pediu a seis especialistas em Carnaval que avaliassem os 14 sambas. O pódio ficou com Madureira: Império Serrano e Portela empataram no primeiro lugar. "É um hino de louvor e tem a cara da Serrinha", opinou o comentarista Sérgio Professor. Na avaliação dos membros do júri do DIA, os sambas da Portela de Mauro Diniz, filho de Monarco, e do Império Serrano, de Arlindo Cruz, serão verdadeiros hinos no próximo carnaval. As duas escolas conquistaram 27 trófeus. A proposta da avaliação era de fazer um jogo com os julgadores. Eles tiveram que dar troféus para  os sambas de 2006. A escala era de 1 até 5. Na lanterna ficou a Rocinha. "Essa música peca pela falta de criatividade", sentenciou o sambista Ivo Meirelles. Dudu Nobre preferiu não julgar, mas deu seu recado: "Hoje é tudo muito técnico. Aquele samba que você canta 10 anos depois nunca mais vai existir". Leonardo Bessa, produtor do CD do Grupo A, deu a avaliação mais baixa. "O samba da Porto da Pedra ficou com um andamento prejudicado, após a gravação do CD. Por isso, eu dei somente um troféu para agremiação", disse."

EXTRA:

"Serrinha na cabeça: Samba do Império Serrano é eleito o melhor do carnaval 2006"

"O canto de fé do Império Serrano falou mais alto e levou a vitória na oitava enquete promovida pelo EXTRA, na qual cinco jurados apontaram o melhor samba para o carnaval. Com 46 pontos em 50 possíveis, "O Império do Divino", em homenagem às festas religiosas brasileiras, de Arlindo Cruz, Carlos Sena, Aluízio Machado, Maurição e Elmo Caetano, foi a preferida dos especialistas e leva à verde-e-branco a esperança de conquistar um título que não vê desde 1982. Participaram da votação o cenógrafo Fernando Pamplona, os pesquisadores Haroldo Costa, José Carlos Rêgo e Jorge Coutinho e o maestro Reginaldo Bessa. - O Império é uma escola religiosa. Por isso, esse samba toca fundo - diz Arlindo Cruz."



 Escrito por Marcelo às 13h14
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DVD de Justiça

Acaba de chegar às lojas e locadoras o DVD do filme Justiça, de Maria Augusta Ramos. O documentário, um dos mais elogiados pela crítica no ano passado (abaixo, posto trecho da pertinente análise de Ricardo Kalil), chega acrescido de extras, entre eles audiências inéditas que ficaram fora do corte final. Além disso, traz depoimentos dos principais personagens - a desembargadora Fátima Clemente, a defensora pública Maria Ignez Kato e o juiz Geraldo Prado - e entrevistas com os sociólogos Luiz Eduardo Soares e Julita Lemgruber, e com a deputada Denise Frossard,  em trabalho que tive a honra de conduzir.

"Justiça" retrata um microcosmo da sociedade – o Tribunal de Justiça no Rio de Janeiro – e acompanha o cotidiano de alguns de seus principais personagens – réus, juízes, defensores públicos. O método escolhido pela diretora para captar esse universo foi o do cinema direto, sem entrevistas formais e com uma câmera que tenta se misturar ao ambiente e não chamar muita atenção.
O documentário consegue demonstrar a enorme distância que se estabeleceu no país entre a justiça com maiúscula, a do poder judiciário, e a com minúscula, daquilo que é simplesmente justo. Condenações desproporcionais aos crimes cometidos, desprezo por evidências atenuantes, desinteresse pelas versões dos acusados fazem parte do cardápio do filme – ao lado de algumas imagens aterradoras de cadeias superlotadas.
Isso seria o suficiente para garantir o interesse de “Justiça”. Mas o documentário apresenta uma segunda camada de profundidade. Como definiu o crítico Jean-Claude Bernardet, o filme “traz à tona o teatro de uma instituição”, captando ritos, posturas e palavreados de um poder muitas vezes mais interessado na forma do que no conteúdo. Contrariando a tendência documental para a câmera na mão, Ramos produz imagens de grande beleza formal com a câmera fixa – a denotar, de maneira discreta, mas contundente, o imobilismo da Justiça nacional."



 Escrito por Marcelo às 10h52
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Vacina anti-ploc

E amanhã, embora eu vá estar no show da Bethânia, vale conferir o espetáculo que o amigo tricolor Toni Platão faz no Madame Vidal. Com repertório fundado no que há de bom no rock brasileiro e estrengeiro dos anos 80 e 90, o show é uma vacina contra a triste "onda ploc" que maltratou nossos ouvidos e agora começa (de forma por demais tardia) a se esvair...



 Escrito por Marcelo às 10h45
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Cinema e Choro

Boa pedida para hoje é a mostra Chorando no Cinema, organizada pela Joaninha Produções, da querida Joana Cunha. No evento, que acontecerá no Armazém Digital de Botafogo, às 19h30, serão exibidos cinco curtas cujos temas se relacionas com o choro, entre eles Conversa de Botequim, de Luz Carlos Lacerda. A entrada é gratuita, e abertura será feita pelo grupo Chorando à toa, da Escola de Música da Rocinha.



 Escrito por Marcelo às 10h41
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