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Um dia comum de chuva

"O vento pela manhã na Rua Ipiranga. A mulher pontual e pálida, sempre vestida de calça preta, blazer preto, sapatos pretos e blusa branca hoje usava um cachecol com listras azuis - novidades. Passamos um pelo outro antes que eu chegasse à rua do viaduto, uns seis metros antes do ponto em que normalmente passamos um pelo outro. Penso que não resistirá ao frio. Este corpo esquálido, os dentes amarelos, o caminhar sem graça, estas roupas repetidas parecem um tímido anúncio de desistência. Com este desinteresse por tudo (principalmente por si mesma) ela está desprotegida, não importa se enrolou um cachecol em torno do pescoço. Ela parece saber disso. Não sofrerá de gripe, não terá febre nem três dias de cama, não terá folga do trabalho. Vai se apagar de uma vez.
O guarda-chuva aberto dentro do ônibus é um acidente. Quase não me sinto embaraçado. O guarda-chuva encosta na minha calça, que fica molhada, como meu casaco. Seria melhor tomar um táxi, mas justamente por isso o ato de subir os degraus do ônibus - banal, repetido todos os dias - ganha agora um ar grandioso, é convertido em minha imaginação no início de um penoso processo de preparação para os anos em que o dinheiro do táxi será um dinheiro a menos em casa, os anos em que terei uma família pela qual farei estes pequenos sacrifícios, os anos em que terei enfim adquirido um verdadeiro zelo pelo meu dinheiro e serei cuidadoso na hora de gastá-lo, os anos em que vou adquirir, como a mulher de blazer preto e blusa branca, uma intimidade crescente com a morte.
No ônibus, o motorista mirrado, com cara de quem ainda não tem idade para tirar habilitação, usa o mesmo gorro dos outros dias, enterrado até as sobrancelhas, e segura o volante com as mãos cobertas por luvas. Sua figura cômica destoa do ar solene da manhã. Debaixo dos agasalhos, os corpos estão retesados, num impulso instintivo para se abrigar do vento. Posturas contidas, mãos nos bolsos, cabeças baixas. Nas partes do corpo expostas ao ar gelado, porém, não há nada que sugira entorpecimento ou obliteração. O frio chama o corpo à vida. O rosto e as mãos estão despertos e doloridos. Entre eles, no entanto, há uma massa morna, entorpecida e imóvel, que resiste à convocação. Tem-se ao mesmo tempo a consciência de que é necessário andar e a certeza de que seria mais conveniente voltar para casa e dormir.
A trocadora, uma negra imensa e jovem com piercing na sobrancelha esquerda, faz pensar numa adolescente com problemas de aprendizado, que já deveria estar no fim do curso mas ainda é mantida aqui, com o motorista quatro anos mais novo, cheia de tédio, sonhando com rapazes de sua idade. Ela usa um casaco de imitação de pele de animal e grandes brincos prateados. Está sempre mastigando chiclete enquanto conta as moedas.
O ônibus avança e os poucos passageiros olham pelas janelas, indiferentes uns aos outros. A viagem de ônibus é um momento vazio. Nada se pode fazer para apressá-la. Depois que se paga a passagem, cada um que trate de experimentar a melhor posição no banco e de inventar uma distração para passar o tempo. O passageiro de ônibus é um homem que adquire, subitamente, a consciência da própria liberdade, justamente no momento em que está confinado no veículo, preso a um destino específico. Enquanto transita entre os dois pontos, fora da própria vida, ele experimenta o alívio de não ter obrigações. Precisa descer no momento certo, mas para isso haverá tempo. Até lá, apenas espera que o levem, anonimamente mudo e circunspecto, a um ponto qualquer onde retomará seu dia.
Lembro de todas as vezes em que este mesmo motorista se aproximou da curva de descida do viaduto numa velocidade que me parecia excessiva, que me fazia pensar que um dia eu morreria ali mesmo, naquela curva, dentro do ônibus, e isso não seria tão ruim. A viagem de ônibus nos aproxima da morte. Um descanso circunstancial de si mesmo, que no meu caso se apresenta como possibilidade definitiva cinco minutos mais adiante.
A marcha à frente do ônibus, num dia de chuva como esse, tem algo de heróico. Desbravamos a cidade, os descobridores mudos e indiferentes, exploradores da mesma paisagem dia após dia. As pessoas nas ruas estão paradas, ou se movem muito devagar. Nós vamos em frente, e ninguém parece assustado. Tanta certeza e nosso destino nas mãos de um estranho, um rapaz que olhamos rapidamente ao subir no ônibus, achando graça em sua maneira de usar o gorro. Não é difícil imaginar o volante escorregando pelas mãos cobertas de lã. No meio de uma curva, o volante escorregando e o ônibus virado. Tão rápido que você só lembraria dos barulhos: os pneus, os vidros, o metal. E o cheiro de queimado. Nessas horas, os olhos ficam baratinados.
Cada um sabe o ponto em que deve descer. É isso que significa a vaga aparência de heroísmo. Por alguns minutos, estamos próximos de recuperar algo - a crença em nossos atos, um empenho espontâneo e pessoal; mas sabemos que isso não pode durar. Nessas horas, com nuvens cobrindo o céu e água sobre o asfalto, o dia tomado pela expectativa de um momento decisivo, não é difícil desejar um acidente, um jeito qualquer de preservar esta convicção.
E então, o ônibus faz a curva."
Esta beleza de texto, que eu acabei titulando para postar, é do amigo Miguel Conde, e foi publicado no seu Olivetti 22. Quando a gente lê crônicas sensíveis assim, fica a se perguntar: por que nossos jornais não têm mais cronistas?
Escrito por Marcelo às 17h53
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Barco a seco

"Existe um limite para tudo. Não é medo, não é convenção. Pelo menos, não é só isso. Marcas invisíveis deslizam no chão, atravessam nosso caminho. Uma fronteira, um litoral, nem sabemos em que nossos pés tropeçam, nem imaginamos em que parede nosso ombro esbarra. Só um louco pode supor que o céu tem o tamanho dos seus olhos. Só uma criança pode acreditar que o mundo inteiro cabe no prato da sua fome"
Rubens Figueiredo, em Barco a seco
Escrito por Marcelo às 11h20
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Sete meses amarelos

"Guarda a manhã Tudo o mais se pode tresmalhar
Porque tu és o meio da manhã O ponto mais alto da luz Em explosão"
Daniel Faria
Escrito por Marcelo às 11h28
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Deu Bettega no Portugal Telecom

Fiquei muito feliz ao saber que, para surpresa geral, a coletânea de contos Os lados do círculo, de Amilcar Bettega Barbosa, foi o livro vencedor do prêmio Portugal Telecom de Literatura. Em segundo lugar, ficou o romance O Falso mentiroso, de Silviano Santiago, e, em terceiro, Histórias mirabolantes de amores clandestinos, de Edgard Telles Ribeiro. Tive a honra de resenhar o livro do Amilcar, logo que saiu, para o Prosa & Verso, em texto elogioso que reproduzo aqui, no ensejo do prêmio conquistado:
O eterno movimento mesmo do círculo
Marcelo Moutinho*
Mestre do gênero, Cortázar comparava o conto à imagem do círculo, forma geométrica perfeita, em que um ponto não pode se separar da superfície total. Diferentemente do romance, cujas possibilidades de bifurcação e abertura de novos campos revelam-se ilimitadas, ao conto não bastaria uma trama interessante: seria preciso enredá-la dentro de tal esfera. A tese de Cortázar semeia as 12 breves narrativas que compõem "Os lados do círculo", terceiro livro do gaúcho Amilcar Bettega Barbosa, ora lançado pela Companhia das Letras.
Dotado de impressionante organicidade, o novo trabalho de Bettega funde-se acima de tudo nos vasos comunicantes que os contos estabelecem entre si, encenando uma mímeses possível do movimento do círculo, cuja linha percorre infinitamente o mesmo trajeto. A proposta fica evidente na própria estrutura da obra, erigida sobre ciclos que se encerram e recomeçam, como um moto-contínuo: os capítulos inicial e final trazem a palavra "puzzle" em seu título, e os dois ajuntamentos de contos que completam o livro – chamados pelo autor de "Um lado" e "Lado um" – sugerem, tal um espelho, reflexos invertidos de um elemento comum. Nesse jogo, as peças estão nas mãos do leitor: cada um à sua maneira deve procurar (e estabelecer) ligações entre os textos.
A evidente conexão com o legado de Cortázar, contudo, não se limita ao aspecto formal. Assumindo sem rodeios a influência, Bettega chega a transformá-lo em personagem de um dos contos. "A/c editor cultura segue resp. cf. solic. fax", estruturado numa série enumerada de respostas a um jornalista, alude ao suposto encontro entre o protagonista e o ficcionista portenho. "Quando conheci Cortázar eu já o imitava", admite o narrador, que oferece uma chave possível para se compreender na essência os afetos que unem as escrituras de Bettega e do argentino ao eleger, entre as razões pelas quais o "imita", a ânsia por romper "com os códigos puídos de uma tradição literária por vezes conservadora e até reacionária, aferrada quase sempre a um realismo ilusório, que muito mais ocultava do que revelava a verdade das coisas". Aqui, como em outras partes de "Os lados do círculo", autor e personagem se confundem, pois tal ânsia também move Bettega. E não é de hoje.
Se em "Deixe o quarto como está", livro anterior, ele apostava no insólito para asseverar seu questionamento sobre a obediência cega a uma idéia de "real" que comporta permanentemente uma "falta", e nunca nos redime, na nova seleta, com intuito similar, o fantástico dá lugar à multi-leitura, à constante reordenação. A gênese é apresentar as várias possibilidades narrativas que uma história comporta.
Algumas vezes, tal prática dá-se entre textos diferentes – caso de "A próxima linha" e "The end". Embora separados por algumas páginas e narrados de modo distinto – o primeiro com diálogos embaralhados, numa diagramação que obriga o leitor a "montá-los"; o segundo, num trajeto mais linear –, ambos vislumbram um único acontecimento, experimentado pelos mesmos personagens. Noutras, como no ótimo "Círculo vicioso", a cadeia fecha-se dentro da própria narrativa – início e fim deslocam-se e voltam a se encontrar como uma cobra que morde o próprio rabo.
Mas todos os expedientes citados denotariam apenas "mais do mesmo" se Bettega não conseguisse encontrar uma simbiose afinada entre as formas (o plural aqui é necessário) e o conteúdo. Remetendo à Porto Alegre soturna esboçada por alguns de seus pares, como João Gilberto Noll e Caio Fernando Abreu, os personagens do livro parecem dominados pela apatia melancólica de quem tateia "sentidos" que ficaram estagnados em algum lugar ou momento pretérito. Aparentes tentativas de escape passam pela reordenação, seja do passado idílico da juventude (nos dois "Puzzle"), seja dos relacionamentos amorosos ("Crônica de uma paixão") ou, mais prosaicamente, apenas dos móveis da casa ("Mano a mano"). Buscas por novas configurações, em geral. Inventários sobre perdas, quase sempre.
Não por acaso na maioria dos textos a noite desponta como cenário preferencial. Ambígua, a escuridão enseja "uma espécie de ausência" que apaga "as formas das coisas", e nela os personagens de Bettega vagam como "débeis faíscas", esgarçando suas ilusões. Assim o fazem os jovens que promovem misteriosas reuniões à beira do Guaíba, numa brincadeira aleatória na qual procuram "dialogar com o outro, com o vizinho, (...) com o ser invisível que passa o jornal por baixo da tua porta todas as manhãs", e tentam vislumbrar algum jeito de "se acharem vivos". Os mesmos amigos, já não tão jovens, retornarão nas últimas páginas personificados em recortes de papel que guardam "pedaços de vida", "gritos de socorro", ou "retratos falsificados, meras tentativas, inúteis, de dar sentido àquelas vidas", como um "puzzle a ser formado".
Na epígrafe do livro, Amaro Barros assinala que o "esforço inútil para ir a qualquer lugar" explica-se porque, "com seu centro fixo, um quadrado em movimento gera o círculo que o aprisiona". Movimento que encerra, portanto, um eterno retorno, sinalizado com nitidez por todo o livro e ainda mais nas palavras do repórter protagonista de "Círculo vicioso". Ao desenhar uma linha sobre a folha de papel, ele digressiona: "Eu poderia continuar traçando esta linha indefinidamente (...), acabaria a página mas eu seguiria riscando sempre em linha reta, acabaria o território da cidade, do país, mas eu seguiria, cruzaria os campos e as coxilhas, depois as montanhas, os mares, sempre à frente através da superficie terrestre. Parece um caminho infinito mas na verdade há um fim: quando eu terminar a volta e chegar de novo aqui, (...) nesta página, no mesmo ponto onde comecei. Só que aí, com o círculo fechado, já não há mais início nem fim, e eu fico perdido no meio do trajeto, preso, não no meio do círculo mas no próprio círculo, como um elemento dele". Eis o drama de Bettega. E, por que não?, também o nosso.
* Jornalista e escritor
Escrito por Marcelo às 10h34
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Post em construção

Dois flagrantes do lançamento de Contos sobre tela na Mercearia São Pedro, em São Paulo, na quinta passada. O texto vem depois!
Nas fotos: 1. Marcelino Freire, Ana Paula Maia, Andrea Del Fuego, Índigo, (?), eu, Ivana Arruda Leite, Santiago Nazarian e João Anzanello Carrascoza. 2. Nelson de Oliveira e Camila Perlingeiro...
Escrito por Marcelo às 14h07
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Versos do Aldir

Não vai dar para fazer uma análise mais acurada, porque o tempo de audição foi pouco. Mas não resisto a reproduzir aqui algumas das pérolas em forma de verso que o Aldir Blanc reuniu em seu novo disco, que tem um "climão" bolero e samba canção:
. "Acendo um cigarro / molhado de chuva até os ossos / e alguém me pede fogo: / é um dos nossos" (esta idéia de um coletivo difuso que juntaria os amantes da boêmia é tão genial quanto verdadeira), em Vida noturna (com João Bosco);
. "Apenas o armário de espelho / no banheiro / diz o que é solidão", em Flores de lapela (com Maurício Tapajós);
. "E um dia, na hora fo fim,/ diz juntinho a mim, bandolim, / tim-tim por trsiteza / o elã da beleza / que há na corda arrebentada", em Cordas (com Guinga)
. "O bom-bocado conhece a medida do fel", em Constelação maior (com Hélio Delmiro);
Claro, claro, claro: tudo isso sem contar com Resposta ao tempo (com Cristóvão Bastos), obra-prima do primeiro ao último verso...
Escrito por Marcelo às 09h48
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Já, já
Deixem as fotos chegarem e falo como foi o lançamento do Contos sobre tela em São Paulo...
Escrito por Marcelo às 09h46
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O sexo de Zola

O jornal O Globo traz hoje, na capa da editoria de Esportes, matéria sobre Weggis, cidade em que a seleção brasileira ficará hospedada na Copa do Mundo da Alemanha. Em certa passagem do texto, a repórter e enviada especial Deborah Berlinck menciona personalidades que já estiveram em Weggis, como a rainha Victoria e Otto Bismark, fundador do império alemão. O inusitado é que, entre as tais celebridades, ela inclui a escritora Emile Zola, decerto referindo-se ao autor de Germinal e um dos principais representantes do naturalismo na literatura. Regra do jornalismo: quando a cultura falta, não pode faltar é checagem. Segue o trecho bizarro:
"(...) A marca registrada de Weggis, entretanto, é o silêncio. “Lugar de relaxamento”, diz a propaganda. E a seleção não será a única marca de prestígio nesse vilarejo perdido. O escritor Mark Twain e o compositor russo Sergej Rachmaninoff eram freqüentadores e a cidade ergueu monumentos em homenagem a eles. Na lista de freqüentadores famosos, não há jogadores de futebol, mas várias pessoas que fizeram história: a rainha Victoria, da Inglaterra, o imperador Karl I, da Áustria, Otto Bismark, fundador do império alemão, e a escritora Emile Zola. (..)"
Escrito por Marcelo às 13h05
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Combustão

"Minha alegria"
Wally Salomão
"Minha alegria permanece eternidades soterrada e só sobe para a superfície através dos tubos alquímicos e não da causalidade natural. Ela é filha bastarda do desvio e da desgraça, minha alegria: um diamante gerado pela combustão, como rescaldo final de um incêndio."
P.S. A foto (linda, linda, linda) é da amiga Sabine Marins...
Escrito por Marcelo às 10h47
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Carpinejar + Newlands

"Amo não terminar de começar. Já me separei várias vezes da minha mulher. Vivo me separando. Experimento aquelas brigas do final de noite, em que o choro se mistura à confusão. A voz se levanta como uma campainha e nenhuma palavra pousa. Sou passional e não nego. Não é tanto o ciúme, é a vontade de se aproximar de qualquer jeito, de provocar mais amor. Desconfio de quem resolve tudo pela conversa, sereno, compassivo, com a calma de um obituário distante. Amar é comprar fiado, um dia seremos cobrados. Um dia teremos que devolver o corpo. Um dia as marcas das unhas nos braços voltam a sangrar. A morte é muito longa para separar. É a vida que separa. O excesso de vida. Um armário, uma estante, um coração nunca serão suficientemente altos como uma escada. O teto é o chão das lagartixas. Na briga, os casais são lagartixas que se escondem da luz atrás do porta-retrato. Casais brigam para descobrir onde estão as fronteiras. Casais brigam para renovar os votos. Casais brigam para se comover. Reclinar, declinar. Repelir, retornar. Já fiz as malas, já desfiz as malas, as lentas horas da madrugada nas quais os dois se olham com medo e paciência. A vigília pelo próximo vocábulo. A vigília da mímica. Será que acabou? Será que iniciou? Ela pode sair correndo e telefonar apaziguada. Pode sair correndo e ser alcançada no corredor. Pode sair correndo estando parada. Todo o andar fechado para a discussão. "Fala mais baixo, o filho dorme". Ninguém mais em casa para apartar. A intimidade é atrito, é estourar, é explodir, é não deixar para depois. A altivez do sussurro, as chaves na mão, as chaves fora da mão. A porta do banheiro trancada, o homem se agachando como um carteiro. A porta do banheiro aberta, o chuveiro ligado para disfarçar o ócio do rosto. O ódio do rosto. O formigamento dos pés. Não se briga de meias. O casal estará de pés descalços ou de sapatos, não entendo o porquê. Lembranças vencidas voltam, conservas de lembranças vencidas são abertas. A briga é a memória do casal - o rancor não faz esquecer coisa alguma. O rancor é uma coruja. Ambos se ameaçam, se censuram, se ferem com sinais e ofensas. As sobrancelhas se deitam como aves inconsoláveis. A cama vazia como um túmulo, sem as flores acesas do abajur. Tem certeza disso? Tem certeza disso? Não há rotina quando se ama, mas a aventura de um copo contra a parede. Logo aquele copo de cristal. Não se escolhe um copo de requeijão para se estilhaçar na parede, arremessa-se sempre o mais caro. Depois se varre em silêncio os cabelos do copo. E o outro logo se aproxima para ajudar com a pazinha. A brasa quase extinta é enrubescida pelo vento. Ao varrer juntos, já estamos casados novamente."
P.S. Meu papel foi só juntar o texto inspirado do Carpi à linda foto da Mariana...
Escrito por Marcelo às 10h41
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Vergonha vergonha vergonha

Vocês, que lêem o Pentimento, têm acompanhado minha indignação contra os claros e ilegais benefícios ilegais que o time da Máfia Russa recebeu de forma crescente neste Campeonato Brasileiro. O que aconteceu no domingo passado, contudo, superou as mais surreais expectativas sobre a falta de vergonha na cara. O Internacional foi assaltado (pênalti não marcado e, no mesmo lance, espulsão do atacante que o sofreu), sob o silêncio da CBF e das equipes co-irmãs, no mais evidente flagrante de que este é um campeonato de cartas marcadas. Ou melhor, compradas.
Escrito por Marcelo às 10h52
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Sonetista

Tomei um susto ao abrir a edição de março da revista Poesia sempre (só publicada agora) e me deparar com minha assinatura no belíssimo poema A não tormenta, escrito originalmente pelo amigo Henrique Rodrigues. Por alguma confusão interna, misturaram o material que mandei pra lá a pedido do então editor, Luciano Trigo, com o texto enviado pelo HR. Resultado: acabei virando sonestista...
"A não tormenta"
Henrique Rodrigues
"E novamente vejo o mar parado. As ondas se deitaram. O próprio vento, Que outrora me ofertava movimento, Parece que dormiu de tão cansado.
Ao norte nada, e em seu oposto lado Lembranças, que sussurram num alento, No oeste um sol se põe, já sonolento, Do leste surge um céu revigorado:
É noite grande. Cada estrela é um marco De quem pôs resistência em naufragar. E assim, com cada braço faço um arco.
Sem ver para onde vou, passo a remar. Não sei quanto de mim constrói o barco, Nem sei quanto de mim preenche o mar."
P.S. A capa da revista a que me refiro não é a que está acima. A edição de março traz a imagem da Adélia Prado...
Escrito por Marcelo às 10h42
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"Contos sobre tela" em Sampa

Um convite ao povo que mora em São Paulo: na próxima quinta, a partir das 20h, vamos lançar o Contos sobre tela aí na cidade. A festa vai acontecer na Mercearia São Pedro (Rua Rodésia, 34), na Vila Madalena. Eu e Ana Paula Maia estaremos lá, ao lado dos três co-autores paulistas do livro: Nelson de Oliveira, Ivana Arruda Leite e João Anzanello Carrascoza. Esperamos vocês!
Escrito por Marcelo às 10h36
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Vinicius

Ainda hoje o site Críticos.Com colacará no ar minha resenha sobre o filme Vinicius, de Miguel Faria Jr. Leia um trecho do texto abaixo. A íntegra estará aqui.
Sob o signo da paixão (e do saudosismo)
Marcelo Moutinho
(...) Miguel Faria optou por costurar as seqüências utilizando como fio um show fictício em que os atores Camila Morgado e Ricardo Blat declamam célebres poemas do repertório de Vinicius, como o Soneto da Fidelidade. No mesmo espetáculo, estão algumas de suas canções - que recebem registros desiguais, da técnica gelada de Monica Salmaso em Insensatez à bem-vinda descontração de Zeca Pagodinho em Pra que chorar - e uma desnecessária versão para rap de Bules para Emmett, escrito em tributo ao jovem negro assassinato por motivos raciais nos EUA dos anos 50. Tentando "atualizar" o que em si já é moderno, a adaptação acaba soando redundante e sintomaticamente revelando um dos problemas do documentário: a ânsia de jogar sobre Vinicius uma luz fervorosa e parcial por vezes embota a livre fruição do espectador (...)
Escrito por Marcelo às 18h05
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Elis...

"Transversal do tempo"
Aldir Blanc / João Bosco
"As coisas que eu sei de mim São pivetes da cidade Pedem, insistem e eu Me sinto pouco à vontade Fechada dentro de um táxi Numa transversal do tempo Acho que o amor É a ausência de engarrafamento As coisas que eu sei de mim Tentam vencer a distância E é como se aguardassem feridas Numa ambulância As pobres coisas que eu sei Podem morrer, mas espero Como se houvesse um sinal Sem sair do amarelo"
Escrito por Marcelo às 17h58
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O fim e o princípio

É bom - como sói acontecer com os trabalhos do Eduardo Coutinho - o documentário O fim e o princípio. No entanto, não concordo com grande parte da crítica, que exaltou o filme como sendo "superior" a pérolas como Santo forte e Edifício Master. Isto, malgrado fazer-se necessária uma ponderação: a culpa não é do diretor; são os depoimentos que não têm a mesma força daqueles que serviram de essência aos outros longas.
Na verdade, creio que ter conferido anteriormente o belíssimo Morro da Conceição, de Cristina Grumbach, prejudicou minha avaliação. A diretora é assistente de Coutinho, claramente influenciada por ele, e os dois filmes, embora em locações distintas (o sertão naquele, parte da região central do Rio neste), transitam por um tema afim: a proximidade da morte, seja em seu aspecto individual, seja na perspectiva antropológica - de costumes que falecem. Só que o documentário de Cristina, graças aos testemunhos, se sustenta melhor, além de ser menos repetitivo.
As delícias de O princípio e o fim imiscuem-se sobretudo no campo da linguagem. São momentos em que o filme transcende. Em certas passagens, torna-se difícil compreender o que dizem os moradores de São João do Rio do Peixe, no interior da Paraíba, tamanha é a discrepância entre as expressões deles e as nossas. E desse rico - e aparentemente estranho - material vocabular, saem frases poderosas, como a pronunciada pelo figuraça Nato, ao falar sobre a ambição humana: "A medida do ter nunca enche". Guimarães Rosa assinaria.
Escrito por Marcelo às 10h51
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Mudanças
Como vocês podem notar, este blog passa por mudanças para melhor servi-los. Até segunda acho que acerto tudo. Agradeço pela paciência...
Escrito por Marcelo às 12h15
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Coutinho

No escopo da principal estréia cinematográfica de hoje - O princípio e o fim, novo filme de Eduardo Coutinho, posto novamente aqui resenha que assinei no Prosa & Verso (O Globo) em abril do ano passado e tinha como objeto dois livros sobre a obra do diretor. Na época, fiz também uma entrevista com ele, na qual me revelou que seu próximo intento era d"fazer um filme no Nordeste". Coutinho anda não sabia exatamente aonde filmaria, nem se o trabalho de fato seria realizado: " Quero viajar sem saber a cidade, sem ter feito nenhuma pesquisa. Será um filme sobre as pessoas que moram lá. Não quero saber de nada previamente, descobrirei lá... Pode ser que encontre um filme, pode ser que não.". Pelo visto, ele encontrou...
Segue o texto da resenha:
Marcado pela ética
Dois livros jogam luz sobre o gênio minimalista de Eduardo Coutinho, o maior documentarista brasileiro
Marcelo Moutinho*
Ao formular o conceito central de sua concepção de linguagem – o "dialogismo" –, Mikhail Bakhtin caracteriza-o como princípio da constituição de nossa própria identidade. O "eu" só existiria em "relacionamento tenso", ou seja, em diálogo com tudo o que possa ser chamado de "outro". A construção teórica elaborada pelo lingüista russo extrapolou os limites dos estudos literários, aplicando-se às mais díspares manifestações artísticas. Ressurge, por exemplo, na essência do cinema de um dos maiores documentaristas vivos: o mestre Eduardo Coutinho. A pertinente aproximação entre as teses de Bakhtin e os filmes do diretor de "Cabra marcado para morrer" é um dos bons achados da professora Consuelo Lins em "O documentário de Eduardo Coutinho - Televisão, cinema e vídeo". Editado pela Jorge Zahar, o livro é lançado no mesmo momento em que chega ao Brasil "O homem que caiu na real", do crítico Carlos Alberto Mattos, uma publicação do Festival de Cinema Luso-Brasileiro de Santa Maria da Feira.
São dois esplêndidos estudos que jogam luz sobre a obra única de Coutinho, erigida em 40 anos de uma trajetória profissional que após o reconhecimento quase unânime da crítica parece enfim ter encontrado o merecido eco popular. Os livros incluem observações sobre seus métodos, procedimentos de criação, condições de realização e opções estéticas, além de mais de uma centena de imagens e as fichas técnicas de todos os filmes. Seja para quem há muito admira o diretor, seja para quem o conheceu assistindo às mais recentes produções, revela-se fascinante acompanhar através das análises rigorosas dos dois autores o percurso do cineasta até que alcançasse o minimalismo puro de trabalhos como "Edifício Master".
Filme a filme, Coutinho submeteu-se a um processo de depuração estética que obedeceu a premissas éticas cada vez mais definidas. Impôs-se a tarefa de "pensar" seu cinema à medida que o desenvolvia, sem contudo recair em exercícios vazios de teorização. As reflexões mantiveram-se – e continuam – irremediavelmente atreladas à prática. A caminhada do diretor é dissecada nos dois livros de modo cronológico. A pesquisa de Consuelo decerto configura a mais completa já realizada sobre o cineasta, abarcando desde seus primeiros trabalhos na área de ficção, como "O pacto" (episódio de "ABC do amor") e "Faustão", passando pela experiencia à frente do Globo Repórter nos anos 70, a aventura de "Cabra marcado para morrer", as produções em vídeo, as influências de outros documentaristas (como Jean Rouch), até chegar à fase madura, com "Santo forte", o já mencionado "Edifício Master" e o ainda inédito "Peões". Traz também curiosidades – como a conquista do prêmio de U$ 2 mil ao responder sobre Charlie Chaplin no programa "O dobro ou nada", da TV Record, em 1957, e informações de bastidores das filmagens colhidas pessoalmente por Consuelo, que desde "Babilônia 2000" participa pessoalmente das produções do diretor. Mais introdutório, o livro de Mattos apresenta separadamente minuciosas contextualizações históricas, considerações críticas e uma longa entrevista com o cineasta.
Escrito por Marcelo às 11h40
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São estudos complementares, cuja interseção se dá principalmente quando apontam continuidades e rupturas na jornada autoral do diretor, não só nos filmes mais celebrados, como também em títulos menos famosos, casos de "Boca do lixo" e "O fio da memória". Tanto Consuelo quanto Mattos indicam "Theodorico, imperador do sertão", episódio produzido para o Globo Repórter em 1978, como marco inaugural da decantação que germinaria no rompimento com os instrumentos do documentário clássico. O contato entre o diretor e Theodorico Bezerra, típico representante do coronelado rural brasileiro, déspota e líder populista, é sempre cordial. "Coutinho jamais o coloca contra a parede como modo de enfatizar para o espectador que o que está sendo dito é um despaupério e que Theodorico é o diabo do sertão. O que interessa ao cineasta não é definir o personagem à revelia dele, nem tratá-lo como um fenômeno da realidade, dotado de rígidos traços típico-sociais; (...) é a visão de mundo do personagem, o ponto de vista específico que ele tem sobre o mundo e sobre si mesmo", anota Consuelo. Eis a complexidade buscada por Coutinho, em depoimento do próprio: viver a perturbadora experiência de "encontrar no latifundiário, no ditador, no monstro, aquilo que o aproxima de nós".
A professora considera que o posterior "Cabra marcado para morrer" vem sedimentar esta postura. "O que faz "Cabra Marcado" é justamente identificar as variações, as inflexões, as marcas sutis que mostram que essas trajetórias anônimas não são homogêneas e que não há o "camponês" propriamente. Há, sim, uma multiplicidade de existências com uma experiência comum nas lutas sociais dos anos 60, mas com inserções diferenciadas nessas lutas e caminhos posteriores bastante distintos", explica ela. O filme, iniciado em 1964, interrompido pelo Golpe Militar e retomado 17 anos depois, acaba servindo como espelho de duas épocas. Originalmente pensado como peça de ficção baseada em fatos reais e desenhada dentro da proposta da arte engajada típica dos anos 60, "Cabra Marcado" transformou-se num documentário sobre as transformações vividas pelos personagens e do próprio olhar do cineasta. "Em seu novo périplo, Coutinho distancia-se do monolítico para recolher o contraditório", como assinala Mattos.
Centrado nesta diretriz, o diretor se concentrará cada vez mais no registro de seus "encontros", tecendo um cinema despojado que progressivamente abole roteiro, narração em off, música incidental e imagens "de cobertura", entre outros procedimentos, para concentrar-se basicamente na interação proporcionada pela entrevista (ou "conversa", como ele prefere). É por intermédio do diálogo que atinge a meta de fazer filmes "com os outros", e não "sobre os outros", tentando entender as razões alheias, "ainda que não lhes dê razão", e evitando raciocínios sobre "categorias gerais" – a classe média, o favelado, o negro, o religioso... Não à toa a palavra "singularidade" repete-se tantas vezes ao longo das mais de 200 páginas do livro de Consuelo. Afastando a indiferença pelo "já visto", estilhaçando imagens preconcebidas, Coutinho tenta desvelar individualidades escondidas sob estereótipos e reveladas no instante mesmo da filmagem. Algo especificamente fílmico que se cria naquele encontro – e só ali. "A entrevista torna-se um fato eminentemente cinematográfico, em lugar de quimérica reprodução do real", como observa Mattos.
Tais postulados obedecem a prévios "dispositivos" (na expressão de Consuelo) ou "prisões" (como os chama Mattos), principalmente quanto a espaço e tempo – o último dia do ano, em "Babilônia", o prédio de Copacabana, em "Edifício Master" –, delimitando campos. Há, também, recusa em proporcionar fechos apaziguadores ou que cristalizem algum "sentido", ainda que isto implique modificar pressupostos aparentemente rígidos, como a montagem de acordo com a ordem de filmagem . Citando "Master", Consuelo lembra que Coutinho deslocou, para o meio da projeção, a tocante seqüência em que um dos personagens canta "My way", uma das últimas a serem registradas.
Assim é o Eduardo Coutinho que resplandece nos dois estudos. Acima de tudo, um autor. Que mesmo pretendendo refrear "a vaidade da autoria, dissolvendo-se no ato de simplesmente ouvir os outros" e reduzindo seus filmes ao essencial e à fala popular pura, torna-os únicos, "indissociáveis do seu criador", exatamente em razão disso, como sabiamente frisa Mattos. Para Coutinho, "não há impulso mais poderoso no ser humano do que ser escutado e reconhecido", e o respeito ao que o "outro" tem a dizer, esta fala "sagrada", está acima de qualquer "refresco visual". Por isso, é de uma "ética" que seu cinema constitui sua "estética", o que o distingue radicalmente da obra de documentaristas atualmente mui queridos pela crítica e cujos filmes são antes de tudo preitos às próprias vaidades. Por isso, a leitura dos dois livros é obrigatória.
* Jornalista e escritor
Escrito por Marcelo às 11h07
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Cabaré Kalesa

A primeira vez em que vi o amigo Janot atuar como DJ foi no Cabaré Kalesa, uma espécie de inferninho onde nos anos 90 rolavam strip-teases, ótima música e uma sopa de aspargos no fim da madrugada. Pois bem: a novidade é que a casa será reaberta hoje, às 20h, com show do grupo Casuarina e som a cargo do dj Rogério Galalau. Aos sábados, o próprio Janot comandará as carrapetas, com cinco horas de música brasileira e uma hora de estrangeira. Aém disso, haverá, às quintas, o Balacobaco no Cabaré, que apresentará gravações raras de canções perfeitas para quem gosta de dançar juntinho (com dançarinos gratuitamente à disposição). Doris Monteiro inaugura o Balacobado no próximo dia 25. Pra saber mais, dê uma conferida no site do Kalesa.
Escrito por Marcelo às 10h28
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Links e blogs
Pois bem: decidi hoje ajeitar os links, que estavam meio desatualizados. Aproveitando, acrescentei os blogs do Joca Terron (Hotel Hell), do Gustavo de Almeida (Blogus), do Tony Monti (Às moscas) e do Cardoso (que fica dentro do site Insanus).
Escrito por Marcelo às 18h21
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Mais poesia: Hilst

"Cantares de perda e predileção II"
Hilda Hilst
"Que dor desses calendários Sumidiços, fatos, datas O tempo envolto em visgo Minha cara buscando Teu rosto reversivo.
Que dor no branco e negro Desses negativos Lisura congelada do papel Fatos roídos E teus dedos buscando A carnação da vida.
Que dor de abraços Que dor de transparência E gestos nulos Derretidos retratos Fotos fitas
Que rolo sinistroso Nas gavetas.
Que gosto esse do Tempo De estancar o jorro de umas vidas."
Escrito por Marcelo às 17h46
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Poesia, hoje

"No temas al silencio cuando ya no hay palabras en tus manos
En el desván del alma las cosas desempolvan nuevos nombres que habrán de obedecerte dócilmente."
Elizabeth Azcona Cranwell
Escrito por Marcelo às 10h40
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Telma Costa
Falecida prematuramente em 1989, quem faria aniversário hoje seria Telma Costa. Irmã das compositoras Lisieux e Sueli Costa (com ela, na foto) e mãe da querida Fernanda Cunha, a cantora é conhecida sobretudo pelo dueto que fez com Chico Buarque na bela e dorida Eu te amo. A parceria com Chico, no entanto, é bem mais antiga: quando tinha apenas 15 anos de idade e ainda integrava um grupo vocal, foi convidada por ele para dividir a interpretação da música Sem fantasia, em show realizado no Clube de Juiz de Fora, onde morava.
Já no Rio, Telma integrou - ao lado de Miucha, Olívia Hime e Elizabeth Jobim - conjunto que participou de shows de Tom Jobim e Vinicius de Moraes, gravou participações em discos da irmã Sueli, até em 1983 lançar seu primeiro trabalho, que levou o nome da própria artista e trazia canções como Coisa feita (João Bosco, Aldir Blanc e Paulo Emílio), Lembra (Ivan Lins e Vitor Martins), Ilusão (Dori Caymmi e Paulo César Pinheiro), Fruta boa (Milton Nascimento e Fernando Brant), Não vale mais chorar (Toninho Horta e Ronaldo Bastos), Certeza da beleza (Caetano Veloso), Adoração (Lisieux Costa e Tite de Lemos), Espelho das águas (Tom Jobim), Sem dor (Danilo Caymmi e Helena Jobim) e Chuá chuá (Pedro Sá Pereira e Ary Pavão), com arranjos assinados por César Camargo Mariano.
Fica, aqui, a lembrança
Escrito por Marcelo às 10h14
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E um pitaco sobre jornais:

. Como é fraquinho o tão esperado "novo jornal vespertino que vinha pra brigar com o Globo pelo público de classe A/B". Superficial sob o aspecto da informação e da análise, desenhado numa diagramação que ser quer moderna, mas é apenas feia, o tal do Q! é uma decepção só. Uma pena, porque precisamos - e muito - de novos veículos.
Ah, sim, eles têm uma página na internet.
Escrito por Marcelo às 17h19
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Três pitacos sobre cinema...

. Não deixem de assistir a Cinema, aspirinas e urubus, estréia em longas de Marcelos Gomes. Destaques para a fotografia expressionista de Mauro Pinheiro Júnior, que capta a beleza singular (quase feia) um sertão moinocromático, o roteiro "a três mãos" do próprio Gomes, com Paulo Caldas e Karim Aïnouz, e as grande interpretações dos dois atores protagonistas, João Miguel e Peter Ketnach;
. Outra ótima pedida é o violento Oldboy, do coreano Park Chan-uk. O filme engata mesmo é a partir da segunda metade, quando comprova que por vezes é real o adágio que reza: "Vingança é um prato que se come frio";
. Vinícius, o documentário que o cineasta Miguel Faria Jr fez sobre o Poetinha, vale pelos depoimentos e pelas imagens raras. Sob o ponto de vista formal, o longa é bastante careta (ao contrário, aliás, do personagem enfocado), recorrendo até mesmo ao desgastado e banal uso da narração em off. Minha resenha sobre o filme estará no ar a partir de sexta-feira no site Críticos.Com.
Escrito por Marcelo às 10h11
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Henri Salvador

Foi através da música abaixo, gravada por Caetano, que conheci o gênio de Henri Salvador, hoje já parte da minha listinha preferencial de cantores. Curiosamente, nunca tinha ouvido a canção com o próprio autor, o que finalmente aconteceu na segunda passada, quando comprei o ótimo Essential Henri Salvador. Ficam, aqui, a dica e a música.
"Dans mon île"
Henri Salvador
"Dans mon île Ah comme on est bien Dans mon île On n'fait jamais rien On se dore au soleil Qui nous caresse Et l'on paresse Sans songer à demain Dans mon île Ah comme il fait doux Bien tranquille Près de ma doudou Sous les grands cocotiers qui se balancent En silence, nous rêvons de nous Dans mon île Un parfum d'amour Se faufile Dès la fin du jour Elle accourt me tendant ses bras dociles Douces et fragiles Dans ses plus beaux atours Ses yeux brillent Et ses cheveux bruns S'eparpillent Sur le sable fin Et nous jouons au jeu d'adam et eve Jeu facile Qu'ils nous ont appris Car mon île c'est le paradis
Escrito por Marcelo às 09h53
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Um Stevie antigo...
...enquanto não compro o novo.

"A place in the sun"
Stevie Wonder
"Like a long lonely stream I keep runnin' towards a dream Movin' on, movin' on Like a branch on a tree I keep reachin' to be free Movin' on, movin' on
'Cause there's a place in the sun Where there's hope for everyone Where my poor restless heart's gotta run There's a place in the sun And before my life is done Got to find me a place in the sun
Like an old dusty road I get weary from the load Movin' on, movin' on Like this tired troubled earth I've been rollin' since my birth Movin' on, movin' on
There's a place in the sun Where there's hope for everyone Where my poor restless heart's gotta run There's a place in the sun And before my life is done Got to find me a place in the sun
You know when times are bad And you're feeling sad I want you to always remember
Yes, there's a place in the sun Where there's hope for everyone Where my poor restless heart's gotta run There's a place in the sun Where there's hope for everyone Where my poor restless heart's gotta run There's a place in the sun Where there's hope for everyone..."
Escrito por Marcelo às 10h37
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Wilson das Neves

O amigo Janjão assina ótima matéria que o Segundo Caderno (O Globo) publicou ontem, versando sobre os 50 anos de carreira do grande mestre imperiano Wilson das Neves. No texto, o cantor e baterista fala um pouco sobre sua história, seu jeito de levar a vida e a produtiva parceria com Paulo César Pinheiro, ao lado de quem criou o clássico absoluto O samba é meu dom. Segue a reportagem:
"Sambas na cabeça e baquetas na mão"
João Pimentel
"Considerado um dos melhores bateristas do mundo, Wilson das Neves completa 50 anos de carreira na música. Figura simpática, sempre com um provérbio malandro na ponta da língua, o imperiano cresceu no samba mas sua versatilidade fez com que ele acompanhasse de Elis Regina a Wilson Simonal, de Ney Matogrosso a Chico Buarque, com quem toca há mais de 20 anos. Não bastasse isso, gravou um disco com composições próprias, meio por acaso, que acabou sendo a porta de entrada para uma tardia e interessante carreira de cantor. Convidado recentemente para substituir Seu Jorge na badalada Orquestra Imperial, ele divide os vocais com as jovens Nina Becker e Thalma de Freitas. É por essas e outras que haverá festa para ele, hoje, no Centro Cultural Carioca, na Praça Tiradentes, no show “50 anos de baquetas na mão”. — Sempre gosto de repetir uma frase do Chico (Buarque): “Eu sempre tive tudo o que eu quis, porque eu nunca quis nada”. É isso, nunca crio expectativa. Deixo as coisas acontecerem. E isso vem desde o início, quando ainda molecote ajudava o baterista Bituca a carregar suas peças para os bailes. Mas o intuito não era aprender a arte das baquetas, mas sim entrar de graça nos bailes. Incentivado pelo amigo, inscreveu-se na escola Flor do Ritmo, no Méier. O ano era 1954. Um ano depois já cobria as folgas do seu mestre em bailes em Realengo, Ricardo de Albuquerque. De lá para a animada Copacabana dos trios e quartetos instrumentais e dos crooners da noite foi um pulo. — Tocava na Rádio Nacional, nas gafieiras e nos taxi-dance, que eram boates onde havia dançarinas de primeira à disposição. Você pegava a cartela na entrada e, no fim pagava por dança. Não tinha nada a ver com prostituição, eram dançarinas mesmo — conta. — Muita gente freqüentava estes lugares para aprender a dançar. No sobrado onde hoje está o Centro Cultural Carioca, funcionava o Eldorado Dancing. Fez concurso para ingressar na Orquestra do Teatro Municipal. Passou, mas, depois de três meses sem receber, desistiu: — Nunca fiz outra coisa na vida e não consigo entender como é que o cara faz para viver depois de ficar três meses sem receber. Mas acabou sendo bom para mim. Se eu tivesse ficado por lá, hoje estaria aposentado, não teria conhecido os lugares que conheci e nem tocado com as pessoas que acompanhei — diz o baterista, apelidado carinhosamente de Das Neves. Certo dia, o produtor Esdras Pereira convidou o baterista a gravar um disco instrumental. Wilson das Neves disse que não queria fazer, porque já tinha gravado sete discos e não tinha valido a pena: — Eu tenho sete discos instrumentais que não me deram um tostão. Então eu contei para ele que tinha músicas guardadas, inclusive uma parceria com o Chico Buarque, e que poderíamos chamar alguns cantores para interpretá-las. O produtor pediu para que ele as gravasse e mandasse em uma fita. — Quando ele ouviu, disse que não precisávamos chamar ninguém, que eu mesmo gravaria cantando. O parceiro mais constante, Paulo César Pinheiro, lembra que a história de Wilson não é semelhante a de outros compositores que só conseguiram gravar tardiamente por falta de oportunidades: — É diferente. Neste caso foi ele quem demorou anos para mostrar as músicas. Ele já tinha uma carreira estabelecida, era um craque das baquetas. Só na década passada que ele tomou coragem e mostrou umas melodias para o Raphael Rabello — lembra Pinheiro. — O Raphael aprovou e disse que ele deveria mostrar aquilo para mim. Pouco tempo depois, Pinheiro já tinha em mãos uma fita com dezenas de sambas. — O sucesso dele é explicável. Vem de uma escola de canto de samba, influenciado por Cyro Monteiro, pelo João Gilberto, pelo Marçal. Pessoas com quem ele trabalhou. De uma tacada fizeram mais de 50 músicas, entre elas “O samba é meu dom”, cujos versos dão nome ao show: ““É num samba que eu quero morrer de baquetas na mão/ Pois quem é do samba meu nome não esquece mais não”. — Não sou cantor, sou apenas um baterista que canto as minhas músicas — diz, malandramente, o sambista. Hoje ele vai mostrar as músicas dos seus dois primeiros discos como cantor enquanto se prepara para novos shows com a Orquestra Imperial e aguarda um chamado mais que especial: — O Chico avisou que em breve estaremos juntos. Ele sabe que é só dizer a roupa e a hora — brinca. — Ele não abre a boca para dizer besteira. Em 50 anos, eu vi poucas pessoas tratarem os músicos com respeito. Ele é raro, assim como é o Ney Matogrosso e como era a Elizeth Cardoso."
Escrito por Marcelo às 09h32
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As fotos do lançamento
Agora, sim: seguem algumas das fotos do lançamento de Contos sobre tela. Você pode conferir outras imagens aqui.





Foto 1. os livros!, 2. Com Pepê (que saiu correndo pra cantar no Mangue Seco) e Claudinha Lamego, os primeiros a chegar, 3. com mestre Antonio Torres e Chico Bosco, 4. Ana Paula Maia, 5. Com Pedro Süssekind, Bianca Ramoneda e João Paulo Cuenca, 6. Diana de Hollanda, 7. Bá e Flávio Izhaki, 8. André Mansur e Crib Tanaka, 9. Ana Beatriz Guerra e Antônio Dutra, 10. Rosana Lobo e Loredano, 11. com Sidney Silveira (a mão, entre a gente, é da Bianca), 12. Rodrigo Zaidan e Luisa Sabóa, 13. Roberta, Monica Ramalho e Marcelo Pacheco, 14. a mana Flávia, com Thaís Salema e marido, 15. Zeh Gustavo com as Marianas, 16. Rosana Caiado e Ronize Aline, 17. Guilherme Fiúza, 18. Vicki Yung Porto (rs), Roberta, Fipo e Angela, 19. Mariana Newlands (a designer do projeto) e Camila Perlingeiro (a editora), 20. com F., fotógrafa e amor :)
Escrito por Marcelo às 12h31
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Torquato Neto
Hoje, se vivo, o poeta faria aniversário. Nossa homenagem...

"Cogito"
Torquato Neto
"eu sou como eu sou pronome pessoal intransferível do homem que iniciei na medida do impossível
eu sou como eu sou agora sem grandes segredos dantes sem novos secretos dentes nesta hora
eu sou como eu sou presente desferrolhado indecente feito um pedaço de mim
eu sou como eu sou vidente e vivo tranqüilamente todas as horas do fim."
Escrito por Marcelo às 14h01
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Centro Virtual Goeldi

Ainda na seara das artes, queria dividir com vocês o encantamento que me assaltou ao visitar pela primeira vez o Centro Virtual Goeldi. No ótimo site, há dados sobre a vida do autor, a reprodução de suas soturnas e poéticas gravuras, além de desenhos, ilustrações e entrevistas, que dão um panorama completo sobre sua obra. É, de fato, um belo trabalho.
Escrito por Marcelo às 13h58
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Lançamento
Um imenso obrigado aos autores presentes, à querida F. e a todos os amigos que prestigiaram o lançamento de Contos sobre tela, ontem, na Pinakotheke Cultural. Foi uma noite bastante agradável, em que até São Pedro resolveu colaborar, cessando com a chuva.
Essa força aos nossos projetos é fundamental para que a gente possa continuar fazendo coisas bacanas, neste país em que as capas dos suplementos ditos culturais são reservadas às Ivetes Sangalos. Obrigado, mesmo.
(Posto as fotos mais pro fim da semana...)
Escrito por Marcelo às 13h53
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Em tempo...

Esta (Tudo é falso e inútil, de Iberê Camargo) foi a pintura que escolhi para escrever meu conto, Menino no escuro...
Escrito por Marcelo às 10h59
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Em O Globo

O Segundo Caderno (O Globo) publicou hoje uma pequena matéria sobre o lançamento de Contos sobre tela. Segue o texto da querida Suzana Velasco:
"Traços, tintas e instalações em 16 escritos inéditos"

Suzana Velasco
"Há um mês, a escritora e jornalista Bianca Ramoneda foi à casa do artista plástico Waltercio Caldas e entregou-lhe um texto. Ele pediu que ela o lesse em voz alta. Com ansiedade, Bianca pronunciou suas próprias palavras escritas, inspiradas pela instalação “Einstein”, de Waltercio. Nada de crítica de arte, nada de descrição da obra, nada de reportagem. Apenas um conto, cuja única referência em comum com a instalação é o nome, “Einstein sobre Einstein”. A tarefa de escrever ficção a partir da obra de um artista plástico brasileiro lhe foi atribuída pelo também escritor e jornalista Marcelo Moutinho, que propôs o mesmo desafio a si e a outros 14 escritores. Em apenas 45 dias, todos tiveram que escolher uma obra e escrever, sem a obrigação de citá-la ou contextualizá-la no conto. A obra poderia ser só inspiração. O resultado, o livro “Contos sobre tela”, com prefácio de José Castello, será lançado hoje, às 19h, pela Editora Pinakotheke, na galeria Pinakotheke Cultural, em Botafogo. As obras estão reproduzidas no livro. Bianca foi a única que escolheu uma instalação. Para ela, a dificuldade foi usar como suporte uma obra que essencialmente não precisa de palavras. Um problema solucionado por diferentes vias dentro do livro, dando um caráter de diversidade literária que acompanha a variedade das obras — dos modernos Di Cavalcanti e Guignard aos contemporâneos Adriana Varejão e o próprio Waltercio. — A graça da literatura é criar imagens na cabeça do leitor. E a graça das artes plásticas é não usar as palavras para se comunicar de maneira poética. Não queria empobrecer as artes nem prender o leitor a uma imagem — diz Bianca. — Mas a tela tem um enquadramento, e queria dizer coisas que estão além da moldura. E assim cheguei ao Waltercio. Não há moldura possível para ele. Waltercio fala do espaço e a partir do espaço. E o que é mais rico: não explica. A solução de Bianca foi usar a idéia de convívio entre as diferenças que a imagem — um alfinete de frente para uma bola de bilhar — sugeriu-lhe para criar uma narrativa independente. Assim também fizeram autores como João Paulo Cuenca, no conto “A sala dos pássaros”, baseado na obra “Ampla visão”, de Leonilson, que ilustra a capa; e Arnaldo Bloch em “As pedras”, inspirado na obra homônima de Gonçalo Ivo. Nesses textos, a imagem é como um sopro que percorre as palavras. Já no conto “Menino no escuro”, de Moutinho, estão ali um menino e sua bicicleta, como na tela “Tudo é falso e inútil”, de Iberê Camargo. — Minha relação é maior com cinema e música, mas as artes plásticas dão mais liberdade de criação. Elas têm menos um conceito fechado. Fiquei impressionado com os autores que escolheram quadros mais clássicos, porque é difícil sair da imagem. É o mesmo que uma narrativa em poesia — diz Moutinho, que está organizando o livro “Verso em prosa”, com contos inspirados em poetas."
P.S. A imagem á a escultura do Waltércio, escolhida pela Bianca...
Escrito por Marcelo às 10h02
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Última chamada

Queria reiterar o convite para o lançamento de Contos sobre tela, que vai acontecer amanhã, a partir das 20h, na Pinakotheke Cultural (Rua São Clemente, 300). Espero vocês todos lá, para conferir o que eu e outros 15 escritores criamos inspirados em pinturas como estas, respectivamente de Di Cavalcanti, Leonilson e Milton Dacosta, sobre as quais escreveram Flávio Izhaki, João Paulo Cuenca e Pedro Süssekind.
Escrito por Marcelo às 11h36
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Fragmentos...
... porque estou enrolado hoje:

. Não deixem de ver Cidade baixa, estréia em longas de Sérgio Machado. Com o mesmo apuro técnico de outras produções da atual safra, o filme tem uma contudência impressionante (nisso, lembra Amarelo manga) e grandes atuações do trio protagonista - Lázaro Ramos, Wagner Moura e Alice Braga;
. Boa pedida, esta na área da gastronomia, é o chamoso Bistrô Arte Temperada, que fica dentro da Casa França Brasil. Se for lá, não deixe de provar o couvert - que tem um patê de foie com geléia de frutas vermelhas espetacular;
. Enfim, o futebol: o negócio é continuar ganhando; quem sabe a Máfia Russa não tropeça?
Escrito por Marcelo às 10h45
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Monsueto

Hoje, se vivo, completaria 81 anos o grande Monsueto Menezes. Nascido na Gávea e criado no Morro do Pinto, Monsueto foi guaraddor de carros, tintureiro e baterista de diversas gafieiras e cabarés. Ele é autor de sambas conhecidos nas rodas, como A fonte secou, Mora na filosofia e Sambamba, e também deste aqui, gravado pelo Galotti em seu único cd e que, como me contou o sumido amigo Pepê, foi composto em homenagem ao nosso Capela (atual Nova Capela).
"Couro do falecido"
Monsueto Menezes
"Um minuto de silêncio Para o cabrito que morreu Se hoje a gente samba É que o couro ele nos deu
Castigue o couro do falecido Bate o bumbo com vontade Que a moçada quer sambar Castigue o couro do falecido Morre um para bem de outros A verdade é essa, não se pode negar... (Tá bom? Tá...)"
Escrito por Marcelo às 10h11
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Rui Pires Cabral

"Morada"
Rui Pires Cabral
"Nós vivemos na cidade quase sempre perdidos nas nossas pequenas razões. Estas ruas ainda prometem mais do que podem cumprir? A breve epifania do amor ou simplesmente um cúmplice que nos diga, à mesa de um café, que não faz mal, que pouco importam as perdas e danos que sofremos.
De qualquer modo o mundo continua.
Entre o medo e a esperança procuramos a nossa incerta morada e enquanto isso envelhecemos mais um dia, colhidos pelo tempo em plena queda. Nas praças, nos quintais, a noite aparece depois do jantar cheia de boas promessas, mas já vem condenada ao tropel dos crentes, ao cego movimento da manhã."
P.S. Essa deslumbrante xilogravura é do Goeldi. Sou cada vez mais fã dele...
Escrito por Marcelo às 10h03
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Morro da Conceição

Comovente, engraçado, singelo e minimalista do ponto de vista formal, Morro da Conceição é um pequeno grande filme. Mais do que propor uma investigação sobre as aprazíveis ruas que fazem parte daquela histórica área da cidade, o documentário de Cristiana Grumbach apresenta ao espectador um interessantíssimo inventário do decorrer do tempo. Os personagens - antigos moradores que viveram a maior parte da vida lá - são testemunhas de um Rio de Janeiro que se foi, para dar lugar a outro. Seja nos temas recorrentes nos depoimentos - as rezas para curar doenças, a nostalgia da juventude e de uma cidade menos violenta... -, seja na paisagem - captada por planos fixos que pontuam toda a projeção -, Cristiana consegue explorar com eficiência e graça as relações de significado entre o indivíduo e o espaço urbano, este tema que tanto me interessa. Com clara influência de Eduardo Coutinho, mas traços que denotam singularidade, a estréia da moça na direção é, no mínimo, promissora.
Escrito por Marcelo às 10h38
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Valsa para os seis meses

"Valsa brasileira"
Edu Lobo - Chico Buarque
"Vivia a te buscar Porque pensando em ti Corria contra o tempo Eu descartava os dias Em que não te vi Como de um filme A ação que não valeu Rodava as horas pra trás Roubava um pouquinho E ajeitava o caminho Pra encostar no teu
Subia na montanha Não como anda um corpo Mas um sentimento Eu surpreendia o sol Antes do sol raiar Saltava as noites Sem me refazer E pela porta de trás Da casa vazia Eu ingressaria E te veria Confusa por me ver Chegando assim Mil dias antes de te conhecer"
Escrito por Marcelo às 10h27
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Dupla afinada

Muito bacana o show que os camaradas Thiago Pelegrino e Márvio Ciribelli fizeram sexta passada no St. Moritz. Nem a chuva - que causou o caos habitual na cidade e decerto prejudicou o afluxo do público - foi capaz de desanimar a dupla, que transformou o espetáculo numa deliciosa "apresentação entre amigos". No repertório, clássicos do jazz e pérolas da MPB, incluindo canções de Fátima Guedes, Nelson Cavaquinho e Paulo Cesar Pinheiro e participações especialíssimas de outras vozes presentes ao bar. Que venham novos shows!
Escrito por Marcelo às 10h05
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Orgulho do Rio

Depois das últimas rodadas, definitivamente se aplica a feliz assertiva de um cronista esportivo:
"O Fluminense é um time que se recusa a perder".
Uma pena que o STJD tenha dado tanta vantagem à equipe da Máfia Russa. Porque há um fato evidente: o Tricolor joga mesmo o futebol mais empolgante deste Campeonato Brasileiro.
Escrito por Marcelo às 09h57
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