5 meses

Semana corrida, muito a falar sobre a Primavera dos Livros e o corpo emite claros sinais de que está sentindo a pegada. Nada disso pode impedir, contudo, que eu registre aqui a efeméride dos cinco meses mágicos que a F. amorosamente me proporcionou. Foram dias plenos - como serão os próximos e os próximos e os próximos... Não tem jeito: é sublime mesmo quando a gente sabe que num jardim como este aí em cima existe uma flor especial cuja beleza - singular, arrebatadora, especialíssima - só a nós é dado ver em plenitude.



 Escrito por Marcelo às 19h38
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Floripa

A partir de segunda, estarei em Florianópolis, cobrindo a XIX Conferência Nacional da OAB. Volto no dia 1º de outubro, mas tiver algumas brechas lá prometo tentar colocar alguns posts sobre a cidade e a viagem aqui no Pentimento. 



 Escrito por Marcelo às 16h57
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Lembrando...

... que amanhã e domingo tem Primavera dos Livros no Jóquei da Gávea. Espero vocês lá no domingo, às 16h, quando (possivelmente ao lado da Paloma Vidal) vou mediar o painel Ficção em diálogo: a literatura e outras artes, com Beatriz Resende, Juva Batella, Francisco Bosco e Daniela Pereira de Carvalho. Em seguida, às 18h, tem Moacyr Luz, Nei Lopes, Hugo Sukman, Luiz Fernando Vianna e Pedro Paulo Malta debatendo a bibliografia sobre samba.

P.S. Na foto acima, alguns dos editores que estarão por lá...



 Escrito por Marcelo às 16h49
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Lição de Pessoa para a manhã de hoje

"Segue o teu destino

Rega as tuas plantas,

Ama as tuas rosas.

O resto é sombra

De árvores alheias"



 Escrito por Marcelo às 11h41
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Castelinho do Flamengo

Espero vocês lá hoje, às 18h30, na abertura do ciclo Palavras virtuais!

 Escrito por Marcelo às 11h49
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Primavera com Gonzaguinha

A Estação das Flores chega hoje e, junto com ela, vem a lembrança de duas canções que adoro: Sol de primavera e Só primavera, ambas crias do querido - e atualmente subestimado - Clube da Esquina. Mas 23 de setembro é também dia de lembrar do saudoso Gonzaguinha, que nasceu nesta data e cuja primeira composição, escrita no verde de seus 14 anos, chamava-se curiosamente Lembranças de primavera. Filho de Luiz Gonzaga com a dançarina e cantora Odaléia Guedes, Gonzaguinha participou dos festivais unievsritários de música popular e lançou seu primeiro disco em 1973. Até sua trágica morte, vítima de um acidente de automóvel nas proximidades de Curitiba, em 1991, presenteou a todos nós com canções que com rara beleza conseguiam unir dois dos principais traços de sua personalidade: a paixão e a luta política.

Minhas lembranças de Gonzaguinha remetem especialmente a três ocasiões: um show que ele fez com o percussionista Mingo, e no qual falava sobre o contexto em foi composta cada uma das músicas (deve ter sido pelos idos de 1987, 1988...); o grande comício final de Lula na Candelária, em 1989; e a peça em homenagem póstuma, dirigida pelo Dácio Malta, que conferi duas vezes, em ambas saindo aos prantos. O fato é que Gonzaga Jr representou - e continua a representar - para mim mais do que simplesmente um artista na plena concepção da palavra. Ele é uma referência, que deve ser lembrada sempre, sobretudo nestes tempos em que tudo o que a gente espera é que floresçam mil flores.

"De volta ao começo"

Gonzaguinha

"E o menino com o brilho do sol
Na menina dos olhos
Sorri e estende a mão
Entregando o seu coração
E eu entrego o meu coração
E eu entro na roda
E canto as antigas cantigas
De amigo irmão
As canções de amanhecer
Lumiar e escuridão
E é como se eu despertasse de um sonho
Que não me deixou viver
E a vida explodisse em meu peito
Com as cores que eu não sonhei
E é como se eu descobrisse que a força
Esteve o tempo todo em mim
E é como se então de repente eu chegasse
Ao fundo do fim
De volta ao começo
Ao fundo do fim
De volta ao começo"



 Escrito por Marcelo às 11h40
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Cachimba

Este ano, meu primeiro texto lá no Críticos foi sobre o filme Cachimba, do chileno Silvio Caiozzi. Segue um trecho do texto. A íntegra estará amanhã no site.

FALTAM FOCO E CONCISÃO À CRÍTICA GALHOFEIRA DE CAIOZZI

Cachimba, do chileno Silvio Caiozzi, recai em dois pecados recorrentes no cinema deste início de século (ou de milênio, se preferirem). O primeiro deles é a falta de concisão, em geral provocada por precária ou inexistente autocrítica dos próprios cineastas, ignorando a máxima de que muitas vezes "menos é mais". A segunda, a carência de foco, que esmorece e dilui em água a ânsia de abarcar numa mesma película um sem número de questões.(...)



 Escrito por Marcelo às 11h32
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Festival do Rio

Hoje, o Críticos.Com coloca no ar um Guia do Festival do Rio, no qual o amigo Janot dá algumas dicas para quem teme ficar perdido em meio à verdadeira maratona de filmes que o evento comporta. O site terá atualização diária, com resenhas de seus articulistas (inclusive este que vos escreve) sobre as produções da Mostra.



 Escrito por Marcelo às 10h53
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Arbitragens e P.S.s

Domingo, contra o Coritiba, um zagueiro deles defendeu a bola com as mãos dentro da área e o árbitro, além de nada marcar, deu cartão amarelo ao Tuta, autor do chute ao gol. Ontem, contra os Urubulinos, falta fora da área virou pênalti contra a gente. Se continuar sendo roubado desta forma, o Flu não chega ao título mesmo.

P.S. 1: Ainda sobre ontem: tudo bem que o Kléber engoliu um frango, mas ele está com crédito. O que não dá pra aceitar, mesmo se jogando com o time quase todo reserva e colocando três bolas na trave, é empate com equipe que briga para não cair.

P.S. 2: Sabia que o Diego Souza era mau caráter, mas não que era burro. Comentando a expulsão idiota por subir no alambrado na comemoração de um gol (mesmo sabendo que seria penalizado com cartão), ele afirmou: "Faria tudo de novo". Gênio da raça. 



 Escrito por Marcelo às 23h55
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Canção para hoje

"A página do relâmpago elétrico"

Beto Guedes / Ronaldo Bastos

"Abre a folha do livro
Que eu lhe dou para guardar
E desata o nó dos cinco sentidos
Para se soltar
Que nenhum som clareia o céu
Nem é de manhã
E anda debaixo do chão
Mas avoa que nem asa de avião
Pra rolar e viver levando o jeito
De seguir rolando
Que nem canção de amor no firmamento
Que alguém pegou no ar
E depois jogou no mar
Pra viver do outro lado da vida
E saber atravessar
Prosseguir viagem numa garrafa
Onde o mar levar
Que é a luz que vai tecer o motor da lenda
Cruzando o céu do sertão
Não ter medo de nenhuma careta
Que pretende assustar
Encontrar o coração do planeta
E mandar parar
Pra dar um tempo e prestar atenção nas coisas
Fazer um minuto de paz
Um silêncio que ninguém esquece mais
Que nem ronco do trovão
Que eu lhe dou para guardar
A paixão é que nem sobra de vidro
Que também pode quebrar
Faz o jogo e abre a folha do livro
Apresenta o ás
Pra renascer em cada pedaço que ficou
E o grande amor vai juntar
E é coisa que ninguém separa mais
Que nem ronco do trovão
Que eu lhe dou para guardar..."



 Escrito por Marcelo às 11h19
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Esquecimento

“Este ruído das nascentes ao longo dos meus dias. Correm em volta de mim, através dos prados ensoalhados, depois mais perto de mim ainda e em breve terei este ruído dentro de mim, esta nascente no coração e este ruído de fonte acompanhará todos os meus pensamentos. É o esquecimento.”

Albert Camus

(Do Absorto)



 Escrito por Marcelo às 10h39
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Blog Paralelos

Está no ar desde a semana passada está no ar, dentro do Globo On Line, o Blog Paralelos. Sob o comando dos colaboradores da revista eletrônica, o espaço não está nem ficará restrito à literatura. A idéia é estender o cardápio a "crônicas, historietas, egotrips e textos aperitivos sobre moda, cinema, televisão, música, quadrinhos, artes visuais, além de dicas de sobrevivência na selva da cultura de massa", como explica o post inaugural, escrito pelo amigo Augusto Sales. Confiram!



 Escrito por Marcelo às 09h50
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Atenção!

É na próxima quinta, às 18h30. Espero vocês lá!



 Escrito por Marcelo às 18h31
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Aliás e a propósito

Tanto o Prosa & Verso (O Globo), quando o  Idéias (Jornal do Brasil) publicaram no sábado passado matérias sobre a Primavera. O Prosa deu na capa uma ótima entrevista com o João Ubaldo. Já a reportagem do JB, assinada por Vivian Rangel, se focou mais sobre o evento em si, falando a respeito da Libre e da programação da edição deste ano. Foi lá que contei um pouco sobre como será a mesa A ficção em diálogo. Segue a íntegra do texto da Vivian:

"Estação das letras"

Vivian Rangel
 
"O público que chegará ao Jockey na sexta não estará usando chapéus enfeitados e provavelmente não sabe o nome do eqüino mais veloz do momento. São leitores, editores e pesquisadores que aproveitam o caráter híbrido da Primavera dos livros - obras com descontos, debates, música e até mesmo conversas sobre futuras publicações. Alguns devem saber que a feira ajudou a revelar autores contemporâneos - como o grupo de escritores do sítio Paralelos, que lançou contos na edição de 2003. Ou talvez busquem novidades do mercado editorial, detalhados em números em um estudo apresentado no ano passado. Mas é provável que a grande maioria esteja mesmo em busca de pechinchas, novos títulos ou daqueles preciosos cinco minutos de bate-papo com o escritor preferido.
- O diferencial da Primavera é que os leitores podem se sentar e saborear as obras, comprando ou não os livros. Além disso, há todo um estímulo a novos autores que podem conversar com os editores, presentes durante toda a feira - explica o presidente da Liga Brasileira de editoras (Libre), Angel Bojadsen.
A previsão para a quinta edição carioca do evento é receber 20 mil leitores nos três dias de feira, um recorde para um movimento que começou tímido, quando um grupo de pequenos editores se reuniu para organizar um evento que viabilizasse o contato direto entre livreiros e leitores. O objetivo era unir forças e burlar as dificuldades de distribuir as obras em um país de grande extensão e com uma quantidade de leitura per capita vergonhosa. Hoje, cerca de 90 editoras dividem o espaço dos estandes, durante três dias que ajudam a eliminar as sobras de edições e solidificar a identidade do pequeno selo para o público.
- O desenvolvimento de pequenas editoras é evidente na produção dos livros, que mantiveram o que havia de bom e charmoso do artesanal e conquistaram qualidade de produção e acabamento - elogia o escritor Marcelo Moutinho.
Exclusiva para os editores e livreiros, a quinta-feira é reservada para discutir a crise do mercado editorial. No ano passado, uma pesquisa financiada pelo BNDES revelou que entre 1995 e 2004 a quantidade de livros vendidos caiu 31%, enquanto o valor do preço de capa teve uma perda de 49%. Este ano, o objetivo é apresentar soluções para sair da crise.
- Falaremos de medidas fiscais e de programas de financiamento que já existem, mas ainda não foram bem divulgados, como o cartão de crédito para o livreiro. E também de fundos de estímulo à leitura - adianta o economista Fábio Sá Earp, que desenvolveu a pesquisa ao lado do também economista George Korni.
A partir da sexta, o público poderá escolher os debates e lançamentos que deseja assistir. O homenageado dessa edição é o escritor João Ubaldo Ribeiro, que terá uma coletânea que reúne livros como Viva o povo brasileiro, Casa dos budas ditosos e Sargento Getúlio, além de contos, lançada na feira. O escritor baiano é tema ainda de dois debates, o primeiro deles sobre as dificuldades e riquezas de transpor seus textos para outras linguagens. A outra discussão traz o escritor analisando a própria obra, o que promete render momentos divertidos, considerando o famoso senso de humor do literato.
Na programação infantil, leituras de As aventuras e desventuras de Dom Quixote de La mancha, de Ana Maria Machado, debates sobre o clássico de Cervantes com participação de Ferreira Gullar e Marina Colasanti, oficinas recreativas e jogos lúdicos. Os mais crescidos poderão analisar a produção brasileira contemporânea, debatida pelos escritores Marcelo Moutinho e Paloma Vidal, que identificam traços estéticos comuns ao teatro, cinema e a ficção.
- Queremos falar sobre os novos autores indo além das discussões sobre internet e blogs, abordando as influências que as outras artes trazem à literatura. Obviamente isso não é algo novo, mas é preciso propor uma reflexão sobre esses fios, já que ficção atual está absolutamente embebida em outros campos - afirma Moutinho.
Entre os lançamentos, a Casa da Palavra promete mais um volume para os bibliófilos, o Livro entre aspas, de Carlo Carrenho e Rodrigo Magna Diogo, uma coletânea de frases ''para escritores, leitores, editores, livreiros e demais insensatos''. Chico César apresentará Catáteis - cantos elegíacos da amozade (Garamond) , um poema que o artista levou 15 anos para concluir e define como um ''cordel pós-moderno''.
Os cantores Gabriel, o Pensador e o Nei Lopes participarão do último dia da feira autografando e debatendo. O rapper assinará o infantil Um garoto chamado Rorbeto (Cosac Naify) e o sambista lançará Partido alto, samba de bamba (Pallas). Com sorte, o leitor ainda terminará o domingo em uma animada roda de samba."


 Escrito por Marcelo às 18h19
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Primavera dos Livros

No próximo fim-de-semana vai acontecer a charmosíssima Primavera dos Livros. A edição deste ano será novamente no Jóquei da Gávea e homenageará João Ubaldo Ribeiro. A programação está repleta de painéis interessantes, como Dom Quixote para os jovens, que reunirá Ferreira Gullar e Marina Colasanti, na sexta, às 15h. Borges e a literatura fantástica será o tema do debate entre Braulio Tavares e Antonio Fernando Borges, com mediação de Júlio Silveira, no sábado, às 19h. No domingo, às 16h, eu e Paloma Vidal estaremos na mesa A ficção em diálogo: literatura e outras artes, ao lado da crítica Beatriz Resende, da dramaturga Daniella Pereira de Carvalho, do escritor Juva Batella e do poeta e letrista Francisco Bosco. O ciclo de fecha no próprio domingo, às 18h, com Samba para ler, painel mediado pela amiga Rachel Valença, com Moacyr Luz, Hugo Sukman, Luiz Fernando Vianna e Nei Lopes. Durante a Primavera, provavelmente faremos o pré-lançamento do Manual de sobrevivência nos butiquins mais vagabundos, livro do Moacyr, organizado por mim para a Editora Senac Rio. A programção completa está aqui. Espero vocês lá!


Serviço: A Primavera abre para o público na sexta-feira, dia 23, no Jockey Club Brasileiro (Praça Santos Dumont, 31 — Tribuna A, Gávea), e termina no domingo, dia 25. Poderá ser visitada das 10h às 22h e terá estacionamento (entrada pela tribuna A) a R$ 5 (preço fixo). Ingressos a R$ 2 (R$ 1 para estudantes com carteira e idosos). Professores, bibliotecários e crianças até 12 anos não pagam.



 Escrito por Marcelo às 18h01
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Vladimir Palmeira

Sei que o texto é grande pacas, mas a leitura vale cada linha. Falo da entrevista com o Vladimir Palmeira que o Caderno B de ontem publicou. Lúcido, coerente e, principalmente, vacinado contra aqueles que apostam no radicalismo como atestado de ética, Vladimir começa a ganhar meu voto para governador do Estado. Segue, em quatro partes, a íntegra da entrevista (que vocês terão que ler de baixo para cima:

"Invertendo o mando de campo"

Em 1968, às vésperas do AI-5, Vladimir Palmeira, meu colega de turma na Faculdade Nacional de Direito, era um dos quatro principais líderes do movimento estudantil que assumira a vanguarda da resistência à ditadura militar. Com os demais (José Dirceu, Luís Travassos e Jean-Marc von der Weid), foi preso, em outubro daquele ano, no 30º Congresso da UNE, em Ibiúna, e, junto com Dirceu e Travassos, trocado um ano depois pela libertação do embaixador norte-americano, Charles Burke Elbrick. Com Dirceu passou alguns anos em Cuba e, depois da volta ao Brasil, com a anistia, participou também com ele da ascensão do PT no plano nacional. Continuam amigos mas em campos opostos. Dirceu tenta salvar o chamado Campo Majoritário, responsabilizado pela crise em que se debate o partido. Vladimir, que está se doutorando em História com uma tese sobre o xará russo, Lênin, é o candidato ao governo do Estado apoiado pela juventude, que defende a reconstrução do PT pelas bases. É o que ele nos contou neste papo, de que participou a equipe do Caderno B – Ziraldo, Ricky Goodwin, Zezé e Paula Sack, Poerner e Maria Lucia Dahl – reforçada por Paulo Celso Pereira, repórter de Política do JB, e pela deputada Heloneida Studart, fazedora de política do PT. (Arthur Poerner)

Ricky Goodwin – Neste domingo, enquanto as pessoas estiverem lendo esta entrevista, estarão acontecendo as eleições internas no PT. O que sairá dessa eleição?

Vladimir Palmeira – Não tenho idéia. Só posso dar um chute: a Articulação não vai ter mais a maioria e isso cria uma situação original.

Ricky – O nome da tendência vai passar a ser Campo Minoritário?

Vladimir – Não, ainda será a maior tendência do PT, mas não terá a maioria e seus dirigentes terão que negociar. É isso que Tarso Genro está querendo fazer. E eu quero pegar uma parte da esquerda do PT e negociar com Tarso Genro. Senão, vai ser o mangue.

Paulo Celso Pereira – Há três meses eu o entrevistei e você falou que o PT ainda era diferente porque havia nele uma cultura sistemática contra a corrupção. Você repetiria essa declaração?

Vladimir – Sim, na base, essa cultura existe. Se você for ver, o número de envolvidos do PT nessa confusão é mínimo. É algo da direção do partido. Agora, se conseguiremos reconstruir alternativas em cima dessa base depende da cúpula. Esta eleição está viciada porque as chapas foram apresentadas antes da crise e não expressam o retrato do partido. A cúpula à qual José Dirceu está ligado é mais forte na direção do que na base.

Arthur Poerner – Vou lançar então a famosa pergunta de Lênin: o que fazer?

Vladimir – Tentar consertar. Tarso Genro lançou a palavra de ordem “refundação do PT”. Gosto e aprovo. Agora, não é simples, há diferentes visões políticas no PT. A direção do PT é uma vergonha. Não puniu ninguém. Sou a favor de que todos os membros da direção nacional se demitam. No mínimo, foram irresponsáveis. Nós, do PT, que sempre realizamos um trabalho de massa, na rua, não podemos abrir mais a boca porque só se pergunta sobre a roubalheira. Não existe proposta política a médio prazo para o Brasil sem antes responder a esta questão básica. O PT tem que antes punir para depois discutir seu próprio futuro.

Ricky – Mas não adianta só punir pessoas sem reformar o esquema.

Vladimir – Aí é que está. Noventa por cento desses parlamentares que vão cassar os outros 18 também têm caixa dois. É ridículo Duda Mendonça chegar lá e dizer que só quem fez caixa dois foi o PT, isso partindo de quem fez campanha para Paulo Maluf, que certamente terá suas qualidades, mas a ética não chega a ser uma delas. Há um paradoxo: os culpados vão julgar os culpados que foram pegos.



 Escrito por Marcelo às 13h26
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Maria Lucia Dahl - Isso está estourando no PT, mas não foi sempre assim?

Heloneida – O Instituto Brasileiro de Ação Democrátrica (Ibad), em 82, recolheu milhões de dólares e elegeu uns 250 deputados federais, 600 deputados estaduais e vários senadores. O dinheiro do Ibad vinha dos EUA através de uma empresa de publicidade chamada Promotion. Houve um grande clamor popular contra isto, mas todos os envolvidos tomaram posse. E mais: um ano ou dois depois, Lincoln Gordon declarou às escâncaras que os EUA contribuíram com US$ 4 milhões para o Ibad.

Vladimir – Mas independente disto ser uma prática histórica ou não, se tem nomes do PT pegos em flagrante eles têm que ser punidos. Não tem jeito. Punir é dar um passo para combater a impunidade. Todo mundo passa a acreditar no PT. Se não punir, dizendo que todo mundo faz, está se entrando no reino da canalha.

Ricky – Qual é a sua proposta?

Vladimir – A executiva do PT do Rio está defendendo uma Constituinte exclusiva, como queria a OAB nos anos 80. Todo deputado e senador seriam inelegíveis para esta Constituinte. Cometeremos alguns erros com isto, mas, em geral, eles não poderão participar de uma Constituinte que regulamentará, por exemplo, as campanhas para o Legislativo. Mais: não basta esta Constituinte se compor de partidos políticos. É necessário sindicatos, associações patronais, ONGs... Uma eleição assim representaria a oxigenação do poder. Aí acredito numa reforma política, pois já não dependerá de deputados e senadores, porque não adianta – fui constituinte e sei. Eles fazem política cartorial. Não passa nada que altere a sua legislatura.

Ricky – Esta Constituinte seria imediata?

Vladimir – Para o ano, possivelmente em março. Os deputados e senadores continuariam fazendo suas campanhas e disputando a reeleição. Basta fazer um pacote de 30 leis básicas complementares que já dá uma melhorada. Outra coisa: uma Constituinte com 150 pessoas. O tamanho dessa Câmara é um escândalo! Seiscentos deputados? Aquilo é feito pra não andar. Um dia um cara me disse: “Vladimir, isso é de propósito. O objetivo da Câmara é não fazer leis”. Ali, quanto mais projetos você faz, mais você é um sujeito extraordinário. O senador José Ignácio fez 750 emendas! Na minha época, tinha 4 mil processos circulando na Câmara. Tem para tudo! O sistema político dos estados brasileiros é outro absurdo. Qualquer motivo vale para se criar estados novos. O Triângulo Mineiro quer ser um estado porque é rico. Queimados virou um município porque é pobre. Tem que ter uma lógica cultural! Minas tem uma identidade cultural. Mas Sergipe? Alagoas? Pernambuco? São todos semelhantes. Tirando o futebol, onde realmente existe uma rivalidade, não há diferenças. Temos um número impensável de municípios. Como pode haver municípios que dependem do governo federal?

Poerner – Você é a favor da manutenção da Fusão?

Vladimir – Claro. Tem um sentido no que Gabeira e outros companheiros estão propondo, porque a Fusão não adiantou nada nem para a antiga Guanabara nem para o Estado do Rio, mas agora há uma integração que não dá para desfusionar. Seria refazer a História. É impossível tratar o Rio urbanisticamente sem a Baixada. Até Niterói, uma cidade bem administrada e de alta qualidade de vida, hoje perdeu peso para a Baixada. O que acontece é que se implantou no Estado do Rio a política distrital, com políticos que só pensam em sua região.



 Escrito por Marcelo às 13h25
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Ricky – Você vai ser candidato ao governo do estado pelo PT. Ainda vai ter PT na próxima eleição?

Vladimir – Ah, não tenha dúvida! O PT não é um partido de ocasião. Na crise do Collor, ninguém se preocupava se o PRN iria se salvar. Hoje ninguém pergunta se o governo vai acabar e sim se o PT vai acabar. Gramsci dizia que um partido só pode se constituir quando tem sargentos e cabos. O PT tem uma ossatura de militância querendo continuar. Vai sofrer? Vai. Merece sofrer.

Heloneida – Meus militantes, majoritariamente mulheres, me procuraram todos: “Você não vai sair do PT não, vai?”. Veio mulher da Baixada, de tamanco no pé, para me dizer que o PT tem que continuar.

Vladimir – Veja bem, não sou nem petista religioso, mas eu só sairia por uma opção política. Os que estão saindo agora é por uma questão moral: vão para qualquer lugar que não seja o PT. É muito pouco.

Paula Sack – Vai haver mesmo uma migração em massa de petistas para outros partidos?

Vladimir – Aqui no Rio há muitos anos os militantes petistas vêm saindo do partido e indo para casa desencantados.

Ziraldo – O Temer foi para casa, mas depois foi para o PSOL.

Vladimir – Que programaticamente não é a dele. Já viu o programa do PSOL? É uma lenha! Qualquer coisa que existe eles são contra. Respeito os meninos do PSOL, o PT seria melhor se tivesse ficado com eles. Mas não entraria para o partido deles porque não sou de extrema-esquerda.



 Escrito por Marcelo às 13h23
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Ricky – Você citou sua proposta da Constituinte-Já. Isso só vai sair se houver uma intensa pressão popular, porque se depender desse Congresso nada acontece. Como mobilizar o povo em torno disso?

Vladimir – Enquanto o PT não se resolver não tem como organizar. Os militantes não têm como ir para a rua. Nas feiras, nos botequins, em todo lugar as pessoas chegam para mim: “Cadê o mensalão?”. Volto a dizer: o PT tem que punir. E quem tem que tomar essa iniciativa é o Lula. O presidente da República está olhando muito o seu mandato, tem que olhar mais longe, tem que ter uma proposta política. Lançou a reforma eleitoral, mas este projeto já estava no Congresso e já não andava. Aliás, deixem-me lançar aqui uma provocação: sou contra o financiamento público das campanhas, que é o imposto sindical dos partidos políticos. Sou contra inclusive o fundo partidário. Os partidos têm que viver dos militantes. Um partido tem que expressar os setores sociais que o apóiam. O PT, por exemplo, podia não ter dinheiro, mas tinha um grande apoio no setor artístico. Por que não uma campanha com base nisto, ao invés de se querer fazer programas caros como os da burguesia?

Paulo Celso – Você disse que as providências deveriam partir do Lula. Ao mesmo tempo, há uma profusão de denúncias em torno de pessoas próximas ao Lula, como Gilberto Carvalho, embora nada tenha sido provado documentalmente.

Vladimir – Quando começa uma campanha de denúncias isso é normal. Boa parte dessas denúncias parte de gente mal intencionada, que vê oportunidade de se vingar. Tudo tem que ser investigado, nenhuma denúncia pode ficar sem resposta, mas há pessoas que num dia falam uma coisa e no outro mudam sua versão. A mulher vai muito feliz fazer um depoimento em Brasília: quem sabe vira capa da Playboy.

Paulo Celso – Mas no cruzamento dos depoimentos muitas coisas batem, embora não surjam provas.

Vladimir – A pior mentira é aquela que tem 80% de verdade. Roberto Jefferson não chegou a dizer que era ingênuo? Como 80% do que disse era verdade, as pessoas aceitaram o núcleo de sua mentira. Sou muito ponderado. Já vi muita gente acusada injustamente, inclusive pelo PT. Nunca fui da bancada do escândalo. Não tenho prazer em perseguir os outros.

Paulo Celso – Você ainda é um socialista convicto?

Vladimir – Me considero de esquerda porque estou do lado dos oprimidos. Sou pela propriedade pública dos meios de produção. Mas não estatal. O exemplo da União Soviética mostrou: botou na mão do Estado virou uma desgraça. Mas o que é ser socialista hoje, depois da queda do Muro? O socialismo fabricado nos termos marxistas era bom no século 19, mas hoje é insuficiente. Vai aparecer outros Marxs e um novo socialismo. Se a época não é revolucionária, não adianta fazer a trajetória do deserto e passar 40 anos pregando por nada. A história mostra que todo partido no estilo do PT, ao ganhar legalidade democrática, vira reformista. Quem vai fazer a coisa então é a sociedade. O socialismo não tem mais sujeito histórico. Quando eu era pequeno dizíamos: “Nós somos o partido da classe operária”. Hoje a classe operária perdeu sua força política e o socialismo precisa ser repensado.



 Escrito por Marcelo às 13h21
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Zezé – E Cuba?

Vladimir – É uma ditadura. Cuba está doida para aderir mas não pode porque o Bush é burro: se tivesse restabelecido relações comerciais com o país as relações capitalistas acabariam se impondo. A China é um país capitalista. A economia estatal nas condições históricas de hoje é um fiasco.

Poerner – O capitalismo também é um fiasco.

Vladimir – Mas é o regime mais flexível da história. Mesmo quem não gosta tem que respeitar. É que nem os outros times quando vêem a Seleção brasileira. O capitalismo, rapaz, absorveu tudo: a luta dos negros, a das mulheres, a dos homossexuais. Quem está na vanguarda hoje na questão do homossexualismo é os EUA. O movimento negro teve um impulso enorme nos EUA.

Poerner – Mas veja o furacão Katrina agora e o furacão Ivan, com a mesma intensidade, há um ano, arrasando Cuba, com 25 mil casas destruídas. O povo cubano comportou-se tranqüilamente, todos sabiam o que fazer, para onde ir.

Vladimir – É claro que o regime de Cuba é mais solidário. Em Cuba houve uma mobilização daquelas porque o povo é extraordinário. E numa economia estatal é mais fácil mobilizar recursos de maneira imediata. Só que, no centralismo democrático, quando o líder acerta é uma beleza, mas quando a liderança começa a errar é uma catástrofe. Sou anticapitalista, mas reconheço a flexibilidade do capitalismo, inclusive para poder propor formas de superá-lo.

Poerner – Quando e como você começou a se tornar de esquerda com um pai que era de família tradicional?

Vladimir – A família de meu pai tem origens no latifúndio. Quem leu José Lins do Rêgo sabe que tem o usineiro e o fornecedor de cana. Meu pai era fornecedor. Foi criado numa casa grande com 33 meninos. Um foi ser padre, outro professor, outro militar, os destinos dos meninos no interior. Meu pai conseguiu ir pra Recife, onde se formou advogado e foi fazer carreira em Maceió. Quando jovem, era de esquerda, foi da Aliança em 1935, mas em 46 foi para a UDN. Virou deputado estadual e aí foi senador até o final da vida. Era tolerante, com ele nunca tivemos problemas, a não ser aqueles de pai que não gosta de ver o filho metido em confusão. Meu irmão mais velho, Moacir, era mais sectário do que eu, é um teórico da questão agrária no Brasil. Eu fazia política secundarista, mas isso era bobagem. Eu era inclusive de direita. No segundo ano é que virei de esquerda.

Zezé – Endireitou e foi para a esquerda.



 Escrito por Marcelo às 13h20
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Ziraldo – Você viveu duas grandes emoções humanas. Uma foi seu poder de mobilização em 68, eu chorava ouvindo você discursar. E e outra foi ganhar um milhão de dólares na loteria.

Vladimir – Sou um cara chegado a um anticlímax. Só tenho grandes alegrias nas coisas pequenas. Sabe qual foi minha grande emoção em 68? A ocupação da Reitoria da UFRJ. Me emocionei porque vi que o pessoal estava disposto mesmo a apanhar para ficar ali. Mandei o pessoal quebrar as portas e arrumar madeira para enfrentar a polícia. Havia um silêncio absoluto e apenas o som da madeira sendo quebrada. As pessoas sabendo que o conflito seria desfavorável, mas todos calmos e prestando atenção na liderança.

Ziraldo – E a Passeata dos Cem Mil?

Vladimir – Claro que foi bonito. Gilberto Gil com aquele bigode, as freiras, as crianças... Mas foi mais a realização de uma coisa pela qual tínhamos nos sacrificado antes. Era uma beleza mais suave porque ninguém ali seria reprimido. Antes dessa passeata tinha tido a Sexta-feira Sangrenta.

Poerner – Morreu muita gente nesse dia.

Ricky – No meu tempo tínhamos dois heróis. Dois catalisadores do movimento estudantil, com discursos de arrebatar. Um deles era Vladimir Palmeira. Outro era José Dirceu. Como você vê as trajetórias dessas duas vidas, que por tanto tempo correram em paralelo e depois foram para campos diferentes?

Vladimir – Veja bem, sou amigo pessoal do José Dirceu. Saio com ele, janto, temos um relacionamento marcado pela polidez. Visitei-o quando estava no auge, não vou visitá-lo agora que está por baixo? Mas não discuto política com ele. Não fazemos mais nada a quatro mãos e sim a duas vozes e bem separadas, desde a crise de 98.

Ricky – Você se refere ao acordo imposto pelo PT, quando você abriu mão de sua candidatura para Garotinho poder ser governador do Estado do Rio?

Vladimir – Acordo?! Você usou uma palavra amena. Mas o pior sentimento do mundo é a vingança. Te prende ao passado. Cresci em Alagoas vendo aquelas brigas de família, onde o cara mata outro por causa de uma desfeita há 75 anos... Não tenho o sentimento do ódio. José Dirceu cometeu um erro político do qual não é maior representante e sim o Lula que disse: “Ou ele ou eu”. Dirceu foi o executante de uma política do Lula aprovada inclusive em convenção nacional.

Ziraldo – Esse dinheiro que o Zé levantou era para um projeto de poder por 30 anos? Ou era para a corrupção?

Vladimir – José Dirceu é o responsável político por isso que aconteceu, não tem prova nenhuma de corrupção contra ele. Mas nunca vi nele traços de querer ficar no poder por 30 anos. É um entusiasmado pelo Brasil, fazendo uma política com a qual não concordava, tentando superar uma posição, administrando o inadministrável. Uma vez comentei com ele: “Zé, são 25 grupos interministeriais. Isso não tem como dar certo”. Na próxima vez em que encontrei com ele havia 55 grupos interministeriais! E na terceira vez, tinha 105! Não havia condições de ele gerir essa estrutura de governo, como Dilma Roussef também não terá.

Maria Lucia – Mas se o dinheiro não foi para esse projeto de poder stalinista, foi para onde?

Vladimir – Não tenho idéia. Paulo Rocha disse – e está provando – que deu o dinheiro para o PT do Pará. Acho que na maior parte dos casos é isso: caixa dois para pagar as despesas do partido.

Ziraldo – E como foi ganhar um milhão de dólares na loteria?

Vladimir – Acertei os seis números da Sena. Eu faço macrobiótica, e nesse dia almoçava na Vera, um talento na cozinha. Ouvi o jornal local anunciando “o ganhador é de Brasília” e conferi os números. Quando cheguei no gabinete disseram: “Ligaram para você da Loteria”. (calmamente) “É porque ganhei sozinho na Sena.” Pensaram que eu estava brincando. Fui fazer os discursos marcados e na volta é que vi o que tinha que fazer.

Ziraldo – E deu os 10% para o partido?

Vladimir – Claro. Ganhei um milhão de dólares e dei cem mil para o PT.

Zezé – Como você gastou os outros US$ 900 mil?

Vladimir – Aprendi na vida que é dando que se recebe. Fiz campanhas políticas, fiz um jornal, mas a maior parte do dinheiro dei para amigos. Em compensação, quando estou na pior, recebo. Eu ajudei as pessoas e depois as pessoas me ajudaram sem perguntar nada.



 Escrito por Marcelo às 13h19
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Maria Lucia – Sendo eleito governador, como reorganizar esse caos que virou o Rio?

Vladimir – Os militantes do Rio querem fazer um PT diferente, que reúna, que debata, e se a gente ganha, essa massa crítica vai fazer um trabalho diferente. Agora, temos que fazer um governo acima do partido, pegando o que há de melhor na sociedade. Isso sem demagogia. Não adianta dizer “vou resolver o problema da violência no Rio” porque não tem como. Vou dizer na TV que não existe essa solução que o povo espera. Mas se pode reduzir a violência do Rio a níveis compatíveis com os de grandes cidades no mundo.

Ziraldo – Isso tira voto.

Vladimir – Eleição não é só para ganhar, é para formar consciência, é para dizer que a longo prazo você é uma alternativa. Não é só ganhar de qualquer jeito, fazendo qualquer tipo de aliança. Eu acredito que a população está madura para ouvir esse tipo de coisa. E mesmo que não estivesse... a população é a favor da pena de morte, mas eu vou dizer que sou contra. Temos que ter uma ruptura com o método de campanha de Cesar Maia, que pega uma pesquisa e vai olhando o que vai dizer.

Ziraldo – A gente tem que criar um pensamento no Rio que tenha importância nacional. Não existe hoje uma presença na cidade para as questões nacionais.

Vladimir – Quero ser governador para ajudar o Lula a avançar – porque já tem quem segure ele. Mas, principalmente, para ajudar o Rio. Vamos fazer política nacional. Vamos pressionar o governo para que avance. Mas veremos também o interesse do Rio, que está um caos, embora pelas propagandas do Garotinho parece que tudo está uma maravilha. Tirando o petróleo e a construção naval, a estrutura industrial vai mal.

Heloneida – Garotinho se apropria das coisas do governo federal, como as plataformas, os estaleiros, tudo coisa onde diz que foi ele.

Vladimir – Em matéria de cultura é uma vergonha. O Rio é o centro cultural natural do Brasil, os próprios paulistas acham isso. Mas, culturalmente, estamos uma lástima. O que fazer? Falar com quem entende. Intelectual e artista também são um problema, né? Uma vez fiz uma reunião com o pessoal da cultura para ver o que poderíamos fazer no governo. Passaram oito horas discutindo o que é cultura! Não dá. O que é o PV no Rio? O partido que ganha sempre no terceiro turno. Disputa o primeiro, perde; disputa o segundo, perde; no terceiro, entra no governo pegando a Secretaria de Meio Ambiente. Para quê? Para fazer ciclovia. Enquanto isso, as indústrias todas poluem o Rio. Quem quiser tratar do meio ambiente tem que fazer uma super Secretaria ligada ao governador e com direito a intervir nas demais. Com os negros, a mesma questão. O que fazem? Botam um secretário negro, de preferência uma mulher negra, para programar o Dia de Zumbi. Quero criar uma super Secretaria dos Direitos para entrar em todas as secretarias. Vai na Saúde, por exemplo, para ver como está o atendimento aos negros. É para chatear mesmo.

Ziraldo – A Secretaria da Cultura também tinha que ser assim.

Vladimir – Não pensei nisso, mas podemos discutir. Assisti com atenção à discussão do Cacá Diegues sobre as contrapartidas sociais e achei que houve exagero dos dois lados. O problema está no tipo de contrapartida. Estou plenamente de acordo em que o Estado não pode interferir na obra de arte. Mas o Estado tem que ter contrapartidas. Por exemplo: qual a repercussão de pegar os artistas de um filme financiado por você e levar nas escolas da Baixada para conversar com os meninos? Não tem nada de ideológico nisso, o cara vai lá e diz o que quer. Por que não dizer: “Eu ajudo a financiar o filme mas quero que vocês façam uma turnê por áreas necessitadas de cultura?”

Poerner – Você ainda espera vivenciar um Brasil mais justo?

Vladimir – Não sou idealista. Não espero o paraíso na Terra. Tem muita gente que está satisfeita com esse regime, que tem uma profissão boa e produz. Mesmo gente modesta. Não imagino que todo mundo despreze seu trabalho. Eu, por exemplo, estou aqui. Às vezes ser político é muito chato, mas você faz o que pode fazer, porque está do lado dos oprimidos. Não é preciso fazer uma revolução, mas coisas pontuais podem ser melhoradas.



 Escrito por Marcelo às 13h19
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Feijoada e brechó no Império

Amanhã vai rolar também mais uma Feijoada do Império Serrano. Neste edição, os convidados serão o Jongo da Serrinha e o portelense Monarco, que promete cantar sucessos como Vai vadiar e O lenço. Outra atração bacana do evento será o Brechó de Samba e Carnaval, onde estarão à venda LPs de sambas-enredo das décadas de 50, 60 e 70, além de camisetas e bandeiras antigas da Verde e Branco da Serrinha. Feijoada a R$ 7, a partir de 13h.

P.S. A foto, que registra a quadra durante o Grito de Carnaval, é da F.



 Escrito por Marcelo às 10h27
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Robert Wise

Possivelmente derradeiro representante do cinema clássico de Hollywood, Robert Wise morreu ontem, aos 91 anos, em Los Angeles. Wise dirigiu o supra-sumo dos filmes "água com açúcar" - A noviça rebelde - e o último suspiro da época de ouro dos musicais - o delicioso Amor sublime amor (West side story), entre outras marcantes produções. Além disso, foi o montador da obra-prima Cidadão Kane, de Orson Welles (de quem montou também o belo Soberba).



 Escrito por Marcelo às 09h52
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Debuzizondeteibou

O amigo Renato Portugal, parceiro da época da Facha em iniciativas como o fanzine Cinema Mundi e a quem não vejo há tempos, acaba de criar um blog, o Debuzizondeteibou, que ele próprio define como "uma mistura de nada com coisa nenhuma. O supra-sumo da babaquice. Palavras soltas, frases de efeito, textos vazios, conteúdo inócuo, idéias insípidas". Confira lá o que tudo isso quer dizer...



 Escrito por Marcelo às 09h49
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Batagelas homenageia Sant'Anna

 

O pessoal do site Bagatelas convida para a homenagem que farão amanhã, no Odeon, ao escritor Sérgio Sant'Anna. O autor estará presente para a uma roda de leitura e bate-papo. A partir das 14h.



 Escrito por Marcelo às 09h43
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Tempo

(...) Da varanda do sobrado, debruçada, surge a moça de coque no cabelo, cujo olhar esbarra no meu. Ela se põe a me observar, enquanto arruma as roupas molhadas pela sacada. As paredes do prédio acusam desde já uma deterioração que vem mais do tempo do que do descaso. Vão perdendo a cor bege escuro, descascam, como se trocassem de pele sem a rapidez de um solvente, no compasso dos anos. A moça, pela idade, deveria estar por aqui na época em que circulei por essas vias. Assistiu a tudo passivamente, ao desenrolar dos fatos, ao envelhecer das pessoas, ao fechar e abrir de lojas, sem poder no entanto notar o que eu noto agora. Ela não tem esse susto, esse estampido de bala tão fervente e barulhento que me atinge, e de certo modo me fere sem me matar. Um susto que me domina, o tremido aparentemente inconseqüente que vai subindo da sola dos pés e passeando pelo corpo – panturrilha, joelhos, coxas, virilha, barriga, peito – até chegar à cabeça e estourar.

Numa troca um tanto involuntária, meu olhar insiste em carregar o dela para a margem do rio. Ela sequer notou que a tinta da parede começou a se soltar, a se desprender do concreto e dos tijolos por ter abrandada a força de seus elementos químicos. Sei lá. Talvez tenha a moça também deixado aos poucos em algum lugar a sua força, e nem sinta mais as mãos esticarem as roupas molhadas que pedem um pouco de sol; uma dormência tomou conta do corpo. Talvez eu mesmo os tenha deixado, e sem susto algum (...)"


Estive relendo esse antigo conto que escrevi em Memória dos barcos. Tanto ele, quanto a maioria dos textos do livro têm um espírito português. Estão embebidos daquela topografia do Porto, de Vila Nova de Gaia, dos mistérios que habitam a alma lusitana. Hoje,  sei lá por quê, me deu vontade de postar este trecho aqui...



 Escrito por Marcelo às 17h43
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O jogo da ficção

"Com as primeiras nuvens recolher ao Café. Tomar a mesa de canto, preenchendo o olhar.
Ao lado, uma mesa vazia. Cadeiras desencontradas. Uma garrafa despida. Um prato, branco de migalhas, guardanapos consumidos.
Tentar adivinhar quem poderia ali ter estado. O tempo que terá deixado, o gosto ou não por tabaco, definir esse rosto pelo rótulo do que bebeu, atribuir-lhe uma idade, um sexo, um perfil, explorar cada detrito na resenha de vestígios.
Perceber quanto existe, nesse jogo, de infrutífero. Tanta gente poderia ter-se sentado aí."

João Luís Barreto Guimarães


P.S. O quadro é de Van Gogh...



 Escrito por Marcelo às 17h26
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Só vergonha

Cerca de 18h30 de ontem e eu seguia de carro pela Rua Barata Ribeiro em direção à casa da F. (que está gripadíssima). Estava feliz da vida, levando flores e o meu carinho, quando, na altura da Praça Cardeal Arcoverde, fiquei preso no habitual engarrafamento. Como já estou vacinado contra as diatribes de morar no Rio, mantive-me atento ao que acontecia ao redor, até porque já havia presenciado um assalto naquela redondeza. Não tardou, um menino aproximou-se do carro ao lado e, na frente de todos, rendeu a motorista. Sob os olhares atônitos e passivos de todos nós, ele caminhou calmamente até a calçada, onde ficou, esperando a próxima vítima.

Cenas como essa já viraram rotina, e é emblemático que começemos a achar tudo muito normal...



 Escrito por Marcelo às 10h18
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Vergonha e Orgulho

O jogo do Flu contra o argentino Banfield, pela Copa Sul Americana, me trouxe tristes lembranças da época em que a Liberatadores era um torneio "carniça". Ou seja, uma competição na qual os brasileiros eram sempre caçados com a cumplicidade dos árbitros. Ontem, bastou o tricolor virar o jogo (com menos um em campo) para que a violência começasse. O soprador de apito que expulsou o Leandro no primeiro tempo por comemorar "demais" seu gol e depois simular um pênalti (expulsão justa, aliás) simplesmente assistiu aos jogadores do Banfield cometerem três verdadeiras agressões, atingindo o Preto, o Beto e o Petkovic, respectivamente. Foram entradas daquelas que podem inutilizar um atleta por meses e meses, e o soprador se limitou a dar o cartão amarelo (quando o fez). 


P.S. 1: Diante de tudo, o Flu foi mais uma vez motivo de orgulho. Sem medo, mesmo com dez partiu para cima, tentando (e conseguindo) vencer a partida. Dá gosto ver esse time jogar...

P.S. 2: Parece que a cisma com nossos "hermanos" e a revolta com sua violência mobilizou até mesmo torcedores de outros times. No terceiro gol do Flu, ouvi os gritos de meu vizinho urubulino xingando os argentinos...



 Escrito por Marcelo às 10h07
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No Castelinho

Eu, JP, Carla Rodrigues (do No Mínimo) e Cecilia Giannetti estaremos no Castelinho do Flamengo a partir da próxima semana, sempre às quintas-feiras, a partir de 18h30, debatendo a Palavra virtual. O ciclo de debates abre comigo, no dia 22, e tem entrada franca, com vagas limitadas. Para se inscrever, basta mandar um email para castelinho@pcrj.rj.gov.br. Apareçam!



 Escrito por Marcelo às 17h37
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Ismael centenário

Filho de um operário e de uma lavadeira que viria a se tornar nome de expressão dentro da história do samba e da cultura popular, o niteroiense Ismael Silva completaria 100 anos hoje, caso estivesse vivo. Ainda criança, Ismael mudou-se com a família para o bairro do Estácio, onde junto com outros bambas do bairro fundou a Deixa falar, primeira escola de samba da cidade. Segundo consta, seria dele, aliás, a expressão "escola de samba", criada por analogia com a Escola Normal existente na região. Ismael teve seus sambas cantados por feras como Francisco Alves e Mário Reis e foi grande parceiro de Noel Rosa. Sua assinatura está em pérolas como Se você jurarA razão dá-se a quem tem. E para lembrá-lo aqui no Pentimento, posto a composição que, dentre sua vasta obra, é a de que mais gosto:

"Não tem tradução"

Noel Rosa / Francisco Alves / Ismael Silva

"O cinema falado é o grande culpado da transformação
Dessa gente que sente que um barracão prende mais que o xadrez
Lá no morro, seu eu fizer uma falseta
A Risoleta desiste logo do francês e do Inglês
A gíria que o nosso morro criou
Bem cedo a cidade aceitou e usou
Mais tarde o malandro deixou de sambar, dando pinote
Na gafieira dançar o fox-trote
Essa gente hoje em dia que tem a mania da exibição
Não entende que o samba não tem tradução no idioma francês
Tudo aquilo que o malandro pronuncia
Com voz macia é brasileiro, já passou de português
Amor lá no morro é amor pra chuchu
As rimas do samba não são I love you
E esse negócio de alô, alô boy e alô Johnny
Só pode ser conversa de telefone"



 Escrito por Marcelo às 10h36
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O suingue da Juli

Na página de críticas musicais de O Globo de hoje, o gente-boa Hugo Sukman elogia o disco Ao vivo 2, da Turma da Bossa. O grupo é capitaneado pela querida Juli Mariano, que também recebe o afago do Hugo na nota, que segue:

"Cover X criatividade"

"Os músicos da Turma da Bossa e sua cantora, uma Juli Mariano cheia de suingue, são bons o suficiente para alçarem vôos maiores que este “Ao vivo 2” (CID). O samba djavânico “Âmbar”, de Julio Carvana (violão) e Gustavo Rocha (piano), prova que poderiam sair da dieta de batidos clássicos da bossa e do problema maior, o cover . (H.S.)"



 Escrito por Marcelo às 11h17
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Nova editoria

"Os amigos Carlos Roberto Aquino, 39 anos, e Joel da Silva, 23, queriam descobrir qual dos dois bebia mais. No sábado, sentaram-se num bar, no povoado Cobra D'Água, município de Pacatuba, a 116 quilômetros de Aracaju, e beberam até morrer. Carlos morreu no local, enquanto Joel foi levado para um dos hospitais do interior, mas não resistiu. Ambos tiveram intoxicação por excesso de álcool. A notícia chegou a Aracaju porque o Instituto Médico Legal (IML) foi acionado, mas como se tratava de morte natural, os corpos não foram recolhidos. Pelo mesmo motivo, o caso não foi registrado na delegacia de polícia do município. O desafio entre os amigos era saber quem teria coragem de beber um copo cheio de cachaça pura. Nesta brincadeira, consumiram oito garrafas de cachaça. O primeiro a cair, no próprio bar, foi Calos Roberto. Segundo os peritos do IML, a família não permitiu que o corpo de Carlos fosse levado para Aracaju a fim de ser necropsiado. O laudo cadavérico foi dado por médicos da região. O Joel ainda chegou a ir para casa, depois foi medicado num posto de saúde. Ao retornar para casa, dormiu e não acordou mais."


A matéria acima foi publicada no IG, ontem, e me foi repassada pela amiga Crib, com o adequado comentário: "Os jornais deveriam ter uma editoria chamada Surrealidades, não é não?

 Escrito por Marcelo às 19h32
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Lançamento da Ácaro

Para quem está em São Paulo, a boa hoje é o lançamento do terceiro número da revista Ácaro, editada pelo gente-boa Chico Mattoso. Nesta edição, há textos do próprio Mattoso, do Marcelino Freire, da Clarah Averbuck, da Índigo, da Cecilia Giannetti e do André Sant'anna, entre outros novos autores, e de cânones da literatura, como Ezra Pound. O embalo começa às 19h, na Garagem Hermética (Rua Fidalga, 340 - Vila Madalena).



 Escrito por Marcelo às 18h41
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Nilze na Travessa

Hoje, às 19h, a querida Nilze Carvalho se apresentará na Livraria da Travessa do Centro. É grátis! Quer melhor opção de uma esticada pós-trabalho?



 Escrito por Marcelo às 18h34
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Comentários

Só para vocês, mais tímidos, saberem: a gente gosta pacas quando os posts são comentados, tá?



 Escrito por Marcelo às 18h27
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Ah, sim...

Saudações tricolores!



 Escrito por Marcelo às 13h53
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Movimento dos Compositores da Baixada

Nesta profusão de posts de hoje, deixo para amanhã os comentários sobre a ótima tarde que passei ontem em Vilar dos Telles. Fui visitar a escola de música da Associação do Movimento dos Compositores da Baixada Fluminense, que tem o elogiável e árduo trabalho de formar artistas entre os jovens que vivem no coração da pobreza de nosso Estado. Foi lá que flagrei um delicioso encontro de gerações, ao ver a querida Nilze Carvalho cantar acompanhada do violão de 7 cordas de Samara. Expressão comovente de tão tristonha (o que não quer dizer que ela é triste, mas que "sente" de forma singular), a menina é fera. E tanto a pequena Samara, mal saída de seus 17 anos, quanto os demais garotos que mostravam seus domínios sobre os instrumentos olhavam para Nilze pensando que poderão um dia brilhar como ela. Dava pra notar isso. E também que talvez possam mesmo. Amanhã conto mais.



 Escrito por Marcelo às 11h05
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No Sarau de Santa

  

 

No sábado, foi a vez de participar do Sarau de Santa, ao lado dos amigos Flávio Izhaki, Henrique Rodrigues (ri muito com os textos dele) e Diana de Hollanda. Num clima descontraído, nós quatro lemos alguns de nossos minicontos de até 300 caracteres e ouvimos outras pessoas fazerem as suas leituras. Das edições em que estive, essa foi uma das mais bacanas, e ainda contou com a esticada para a cerveja no Simplesmente. Acima, algumas das fotos feitas pela F.



 Escrito por Marcelo às 10h34
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Milton e Caetano

Do show do Moa, eu e F. seguimos para o Canecão, onde conferimos Caetano Veloso e Milton Nascimento cantando as músicas do filme O coronel e o lobisomem, além de canções ligadas ao cinema e algumas composições da dupla. Num clima harmônico mais próximo de Milton (a banda era dele e o tom do espetáculo foi beeeeem mineiro), a dupla fez uma apresentação equilibrada, bastante valorizada pela iluminação deslumbrante de Maneco Quinderé. Meus destaques ficam com os registros de Coração de estudante, quando Milton conseguiu - não me perguntem como - dar jovialidade à canção, e Luz do sol, com Caetano, secundadas de perto pela nova (e bela) Senhor do tempo e pelo lírico samba Sou você, que o baiano fez para o Orfeu do Cacá Diegues.

P.S. Ah, sim, fiquei mais uma vez impressionado com a Marina Machado, que fez participação especial no show...



 Escrito por Marcelo às 10h22
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"Cabô, meu pai"

Estava estranhamente vazio o show de lançamento do disco Violão e voz, do grande Moacyr Luz, sexta passada, na Sala Funarte. Não sei se por problemas de divulgação (pelo preço do ingresso - R$ 10 - é que não foi), mas pouco mais de 30 pessoas assistiram ao cantor apresentar as novas versões que criou para alguns de seus sucessos e ainda prestar homenagens a Cartola, Nelso Cavaquinho e Noel Rosa. Entre as canções que o Moa mostrou, destaque para a belíssima Cabô, parceria dele com Aldir e Luiz Carlos da Vila, e que curiosamente não conta do novo disco. A música está, na verdade, neste cd aí em cima, o primoroso Samba da cidade, lançado há cerca de dois anos. Já nos primeiros versos, Cabô, meu pai traz uma lição de humildade a todos aqueles que muitas vezes anseiam em quebrar paradigmas sem ao menos conhecê-los: "Meu pai me disse / que a tradição é lanterna / vem do ancestral e é moderna / bem mais que o modernoso..." Segue o restante da letra: 

"Cabô, meu pai"

Moacyr Luz / Aldir Blanc / Luiz Carlos da Vila

"Meu pai me disse

que a tradição é lanterna

vem do ancestral e é moderna

bem mais que o modernoso

e aí é o meu coração que governa

na treva é a luz mais eterna

e tudo mais poderoso

E também me disse daquele jeito orgulhoso

que o samba é mais que formoso

que ninguém lhe passa a perna

É a marola que vira um mar furioso

Netuno misterioso

O tesouro na caverna

A jura é para quem rezar

A reza é para quem jurar

A alma que fica é a do fundador

futuro é para quem lembrar

E é isso que o pai me ensinou

Cabô

Cabô, meu pai, cabô

Cabô, meu pai, cabô"



 Escrito por Marcelo às 09h57
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Kafka vai ao cinema

Sábado passado o Prosa & Verso publicou minha resenha sobre o livro Kafka vai ao cinema, de Hanns Zischler (ator que trabalhou, entre outros diretores, com Wim Wenders). Segue a íntegra do texto para quem não leu no jornal:

Kafka no refúgio da sala escura


Kafka vai ao cinema, de Hanns Zischler. Tradução de Vera Ribeiro. Editora Jorge Zahar, 168 páginas. R$ 34
Marcelo Moutinho

Sob o signo da angústia, Franz Kafka esquadrinhou ao longo de sua admirável obra um misterioso território limítrofe entre a solidão e a companhia, que lhe serviria como frágil refúgio às diatribes da vida cotidiana. Esse desamparo, que através da literatura procurou atenuar, foi reconhecido pela própria Felice Bauer, seu grande amor. Felice lamentava que Kafka “não tivesse um asilo protetor”. “Todos nós, aparentemente, conseguimos ir vivendo porque, num momento dado, somos capazes de nos refugiar na mentira, na cegueira, no entusiasmo, numa convicção absorvente, no pessimismo ou em não importa o quê”, escreveu ela em carta remetida a Max Brod, o dileto amigo que, desobedecendo às ordens expressas de queimá-los, preservou os escritos do autor tcheco.
Pois o que o livro “Kafka vai ao cinema” nos revela é que o escritor buscou também na sétima arte alguma espécie de abrigo. A investigação conduzida por Hanns Zischler joga luz sobre suas primeiras experiências como espectador, num momento em que o cinema ainda engatinhava. A base do estudo não é, como se poderia imaginar, o legado ficcional do autor, mas seus diários e a correspondência trocada com Felice e Brod. São anotações esparsas, nas quais faz comentários sobre filmes a que assistiu. E mais: registra seu estupor diante da incipiente contemporaneidade, traduzida na aceleração mecânica e na profusão de imagens que brotavam dos cartazes, dos panoramas, dos cartões-postais, das revistas, dos jornais.
Uma nova subjetividade nascia, e o livro de Zischler capta muito bem a relação ambígua que Kafka, então um jovem recém-formado em jurisprudência e ainda sem títulos lançados, teria com as abruptas transformações que tomavam corpo, sobretudo no âmbito do espaço urbano. É um acerto a opção pela não-linearidade, e a fragmentada diagramação mostra-se adequada aos conflitos internos que atingiam o escritor.
Outra virtude do trabalho é não se limitar à esfera do cinema, reproduzindo também a iconografia e trechos de reportagens da época, além de anotações de Kafka sobre suas andanças pelas grande metrópoles, como a viagem feita a Paris, em 1919. A capital francesa foi experimentada como “um teatro grotesco e angustiante de descontextualização, um mundo de cabeça para baixo e incorrigível”.
O cinema representava, pois, uma das pontas mais visíveis da radical transformação que se operava. Kafka tinha a firme convicção de que eram necessárias “visitas mais demoradas e numerosas” às salas de projeção “para poder compreender esse assunto, não só para nós, mas para o mundo”, como confidenciou a Brod em outra das cartas. Contudo, se o amigo concebia o cinema como “uma extensão da literatura e um novo processo de montagem”, Kafka questionava seu componente técnico — que julgava “demoníaco” — e o caráter fugidio da imagem fílmica. O escritor argumentava que os filmes ofereciam ao espectador a “agitação de seu movimento”, quando a calma do olhar lhe parecia mais importante. Talvez por isso, como salienta Zischler, a cinematografia não tenha efetivamente se transformado em elemento de sua ficção, nem sobre o aspecto temático, nem sobre o viés formal. “A rigor, não se pode fugir à impressão de que ele queria manter essas imagens fora de sua prosa, exatamente como se elas existissem num agregado tão provisório e fugaz que só poderiam ser descritas de maneira compreensível num sentido mimético, e não numa tradução imediatamente substantiva de seu conteúdo”, argumenta.
Só que há uma brecha nessa concepção, que o próprio Zischler discretamente vai apontar. E sugere que a perspectiva assaz desconfiada relegada por Kafka à imagem guarda uma ambigüidade que por vezes se radicaliza, explodindo em paradoxos. O mais flagrante deles ocorre durante a produção de “Ricardo e Samuel”, romance a quatro mãos com Brod que nunca chegou a ser terminado e cujos trechos são decalcados no livro. Kafka imagina uma cena em que a protagonista hesita entre embarcar ou não num carro. Recorda-se, então, de uma seqüência de “A escrava branca”, filme que viu fazia algum tempo. A analogia é imediata e não restam dúvidas: a imagem “fugaz” enfim permanecera, indicando que, embora ele mesmo não soubesse, suas visitas à sala escura tiveram uma mão contrária. Que, de certo modo, o cinema também foi a Kafka.

* MARCELO MOUTINHO é jornalista e escritor



 Escrito por Marcelo às 09h32
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Blog do Paulo Thiago

Hoje, o Pentimento estréia novo link: é o blog Pindorama, do gente-finíssima Paulo Thiago. Em seu espaço virtual, além de postar suas ótimas fotos (como esta aí em cima), ele comenta a respeito de política, arte, jornalismo - e sobretudo sobre o assunto que domina como poucos: a boêmia. Vale a conferida! 



 Escrito por Marcelo às 10h56
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Sexta-feira com Helder

De Lisboa, chegaram dois volumes de poesias: um de Herberto Helder, outro de Eugénio de Andrade. Estou, em resumo, às voltas com esses dois livros, cada um melhor do que o outro, ambos repletos de pequenas iluminações em forma de versos, de sutis delicadezas. A sucessão de poemas aqui no Pentimento começa com a segunda parte do Tríptico, de Helder:

"II"

Herberto Helder

"Não sei como dizer-te que minha voz te procura

e a atenção começa a florir, quando sucede a noite

esplêndida e vasta.

 

Não sei o que dizer, quando longamente teus pulsos

Se enchem de um brilho precioso

E estremeces como um pensamento chegado. Quando,

iniciado o campo, o centeio imaturo ondula tocado

pelo pressentir de um tempo distante,

e na terra crescida os homens entoam a vindima

- eu não sei como dizer-te que cem ideias,

dentro de mim, te procuram.

 

Quando as folhas da melancolia arrefecem com astros

ao lado do espaço

e o coração é uma semente inventada

em seu escuro fundo e em seu turbilhão de um dia,

tu arrebatas os caminhos da minha solidão

como de toda a casa ardesse pousada na noite.

- Então eu não sei o que dizer

junto à taça de pedra do teu tão jovem silêncio.

Quando as crianças acordam nas luas espantadas

que às vezes de despenham no meio do tempo

- não sei como dizer-te que a pureza,

dentro de mim, te procura.

 

Durante a primavera inteira aprendo

os trevos, a água sobrenatural, o leve a abstracto

correr do espaço –

e penso que vou dizer algo cheio de razão,

mas quando a sombra cai da curva sôfrega

dos meus lábios, sinto que me faltam

um girassol, uma pedra, uma ave – qualquer

coisa extraordinária.

Porque não sei como dizer-te sem milagres

que dentro de mim é o sol, o fruto,

a criança, a água, o deus, o leite, a mãe,

o amor,

 

que te procuram."



 Escrito por Marcelo às 10h45
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Sarau de Santa

Amanhã, a partir das 18h, acontecerá na charmosa Livraria Largo das Letras mais uma edição do Sarau de Santa. Desta vez, o evento será dedicado aos minicontos de até 300 caracteres. Sou um dos convidados, ao lado dos amigos Henrique Rodrigues e Flávio Izhaki e da promissora Diana de Hollanda. E quem quiser pode levar seus textos para ler, já que o sarau é aberto a participações. Esperamos vocês lá, e já fica também o convite para a cerveja posterior!



 Escrito por Marcelo às 10h31
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Moacyr na Funarte

Hoje a amanhã, na Sala Funarte, o querido Moacyr Luz faz o lançamento de seu novo disco, Violão e voz (já recomendado aqui). Ótima chance para conferir ao vivo a belíssima interpretação do cantor para a pérola Coração do agreste, parceria dele como Aldir Blanc. Os shows começam às 18h30, com ingressos a R$ 10. A Sala fica na Rua da Imprensa, 16 (esquina com a Rua Araújo Porto Alegre).



 Escrito por Marcelo às 13h54
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Tricolor de coração

Pode ser que não sejamos campeões. Pode ser que nem para a Libertadores a equipe se classifique. Mas que dá orgulho ver esse time jogar, ah, isso dá...



 Escrito por Marcelo às 09h14
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Gabeira, novamente

Estive lá, aos 14 anos de idade, naquele Abraço à Lagoa que, entre tantos eventos, mostrava ser possível uma política e um país diferentes. A admiração vem daquela época e só se reforçou com o passar do tempo. Por isso, é com orgulho do meu voto que assino embaixo do Tutty:

"Pela refundação do Gabeira"

Tutty Vasques

"Se as eleições de 1986 fossem hoje, Fernando Gabeira seria o novo governador do Rio de Janeiro. Naquela ocasião, o candidato da coligação PV-PT ficou em terceiro lugar, atrás de Darcy Ribeiro e Moreira Franco. O cara que a política não muda consolidou a mudança de opinião de muita gente a seu respeito depois que foi curto e particularmente grosso com o Abominável Severino Cavalcanti das Neves: “Ou Vossa Excelência começa a ficar calado ou vamos iniciar um movimento para derrubá-lo”. Foi aplaudido até por quem no passado temia vê-lo governar o Rio de tanga fumando maconha no Palácio Guanabara.
É sempre assim: nessas horas em que os políticos perdem inteiramente a credibilidade, Fernando Gabeira faz a diferença. Sempre que as esquerdas se vêem em apuros, refundam o Gabeira. O jornalista e escritor é, há mais de duas décadas, a esperança de algo novo no poder. Está grisalho, rechonchudo, menos extravagante na indumentária, mas não há nada mais jovem e abusado no Congresso. ACM Neto, Eduardo Paes e Rodrigo Maia parecem tios do nobre colega de Câmara dos Deputados.
Solitário no trabalho parlamentar, Fernando Gabeira continua o mesmo sujeito de idéias abertas de sempre, coisa rara entre os políticos que migram para Brasília. Ao final do primeiro mandato, todos ficam iguais na forma barriguda e no conteúdo oco. Poucos discursos resistem ao tempo. Em geral o que se disse ontem não faz mais qualquer sentido hoje. Gabeira é uma ilha de coerência no mar de lama da política brasileira. Suas declarações na época em que deixou o PT, em 2003, continuam absolutamente atuais. Confira só nesse texto que escrevi e “Veja Rio” publicou há quase dois anos:
Fernando Gabeira vive em paz com sua biografia, ainda que certas passagens marcantes da história que escreve tenham autoria desconhecida. Já desistiu de tentar esclarecer, por exemplo, que não foi nem de longe o cérebro da operação de seqüestro do embaixador americano Charles Elbrick, em 1969. Assume total responsabilidade pela famosa tanga que abalou Ipanema no final da década de 70, mas também não imagina quem inventou que o tapa-sexo era de crochê, e não de lycra Fiorucci como é correto afirmar. No futuro, quando lembrarem da ala do PT que primeiro se rebelou contra os rumos do governo Lula, seu nome estará decerto à frente do da senadora Heloísa Helena, e não adianta o nobre deputado brigar com seu carisma a bem da verdade. Ele é o cara, e pronto!
Defensor da legalização da maconha, da regulamentação das prostitutas, da união civil homossexual, da prática do nudismo, dos direitos dos presidiários e da liberdade sexual, entre outros temas que somou à tarefa ecológica na volta do exílio, Gabeira é um fenômeno de projeção política num país que associa tais idéias à inteligência do demônio. Jamais ninguém o viu possuído. A serenidade com que foi flagrado saindo pela porta da frente do PT mereceu do jornalista Elio Gaspari epitáfio de quem vai para o Céu: “Bendito o país que tem Gabeiras, gente que sabe dizer quando vai embora”. É a glória!
Da geração de esquerda que entrou na vida parlamentar decidida a mudar a cara da política, talvez seja o único que continua com a mesma cara. Aos 62 anos, mistura ainda ousadia e modernidade na fala pausada de quem está curtindo o que diz. Faz charme com seus vícios mais recorrentes, como aquele de linguagem para separar orações: “Entende?”, para ele, é vírgula. Não tem embocadura, sotaque, cacoete ou pinta de parlamentar. É um estranho no ninho de Brasília.
É muito chato ser deputado federal? “À tarde, é!” Refere-se às cinco horas diárias de discursos que atura no plenário. “É tudo muito heterogêneo, previsível e moralista, quando não patético.” Não entra em bola dividida de discussões inúteis. Aprendeu em seis anos de mandato que no Congresso vigora a máxima de Didi “quem corre não é você, é a bola.” Seleciona parceiros para tabelas. Troca passes com Patrus Ananias (PT-MG) sobre História do Brasil, faz dois-um com Maria do Rosário (PT-RS) no campo dos Direitos Humanos, encosta em Roberto Brandt (PFL-MG) quando procura um bom papo para falar mal dos políticos. Tem gente no PT, ele jura, que acha que Maurício de Nassau é deputado federal por Pernambuco.
Quando não tem algo importante para dizer ou ouvir, faz como Roberto Campos: procura um canto do plenário para ler. Lê muito. À noite, quando políticos, lobistas e michês de toda sorte invadem os bares de Brasília, Gabeira toca sua moto para o acampamento que montou em um apartamento de dois quartos da 107 Norte. “Vivo lá três dias por semana em regime de prisão albergue.” Pela manhã, nada na associação de funcionários do Banco Central e almoça num restaurante natural (não come carne há 30 anos). Diz ele que faz tempo não vai a Amsterdã.
“Amsterdã”, no dialeto do deputado, é um lugar – não necessariamente a cidade holandesa – onde o consumo de maconha não fere o decoro parlamentar. “Passo períodos longos sem ir a Amsterdã e às vezes vou à Amsterdã todo dia.” Entende? Quando volta à realidade do Congresso tem a sensação de que a democracia representativa está em decadência. Vem daí seu desejo de procurar outros caminhos. A via partidária já era, “o dínamo da mudança do país está em outra parte, está na sociedade”. Pode parecer maluquice mas ele está antenado com “redes anárquicas e autônomas que se unem horizontalmente para a troca de informações sem essa caretice de partido”. A Internet e as novas tecnologias têm lhe feito a cabeça.
O deputado cumpre mandato até 2006, não descarta a possibilidade de tentar reeleição, mas já tem planos de escrever um livro avaliando sua passagem pela política convencional, a exemplo das contas que prestou em “O Que É Isso, Companheiro?” de sua militância na luta armada, “um sonho errado que me fez perder pedaços do rim, do fígado e do estômago, além de 10 anos de exílio”.
A saída do PT não doeu nada. Fernando Gabeira jamais manteve com o partido a passionalidade que dramatiza a despedida de Heloísa Helena. A senadora ligou para o colega chorando quando ele anunciou sua partida. Não precisava. A idéia que ela faz de um político sem destino não tem nada a ver com a sensação de liberdade que o momento enseja ao deputado. A luta continua!"



 Escrito por Marcelo às 09h53
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Leitura na Baratos

Amanhã e quinta, os escritores que publicam nos sites Patife e Aglomerado Terra Plana - entre eles o amigo Nix - farão leituras de seus textos na Baratos da Ribeiro. Informações na filipeta acima.



 Escrito por Marcelo às 09h42
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Morrissey em Londres

É nada menos que sensacional o disco Morrissey live at ealrs court, que registra o show realizado pelo cantor inglês no dia 18 de dezembro de 2004 em Londres, diante de quase 18 mil pessoas. Além de pérolas dos Smiths, como How soon is now?, There is a light that never go out e Shoplifters of the world unite, Morrissey desfila canções próprias, interpretadas sempre à flor de sua melancolia, que de certa forma é a melancolia que mora dentro da gente e às vezes bota a cabeça pra fora. Ando ouvindo muito o cd por esses dias, sobretudo a faixa 3, a bela November spawned a monster, que divido aqui com vocês.

"November spawned a monster"

Morrissey

"Sleep on and dream of Love
Because it's the closest you will
Get to love
Poor twisted child
So ugly, so ugly
Poor twisted child
Oh hug me, oh hug me
One November
Spawned a monster
In the shape of this child
Who later cried :
"But Jesus made me, so
Jesus save me from
pity, sympathy
And people discussing me"
A frame of useless limbs
What can make GOOD
All the BAD that's been done ?
And if the lights were out
Could you even bear
To kiss her full on the mouth
(Or anywhere?)
Oh, poor twisted child
So ugly, so ugly
Poor twisted child
Oh hug me, oh hug me
One November
Spawned a monster
In the shape of this child
Who must remain
A hostage to kindness
And the wheels underneath her
A hostage to kindness
And the wheels underneath her
A symbol of where mad, mad lovers
Must pause and draw the line.
So sleep and dream of love
Because it's the closest
You will get to love
That November
Is a time
Which I must
Put out of my mind
Oh, one fine day
Let it be soon
She won't be rich or beautiful
But she'll be walking your streets
In the clothes that she went out
And chose for herself" 



 Escrito por Marcelo às 09h32
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Herberto Helder

"Dormes na minha insónia como o aroma entre os tendões da madeira fria"

Verso do grande Herberto Helder, infelizmente quase desconhecido no Brasil. Hoje, receberei a antologia encomendada a uma prima que foi à Lisboa. A expectativa é grande, e vocês podem esperar muitos poemas dele por aqui.



 Escrito por Marcelo às 10h00
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Patente imperial

A pedido do "Marecha", que também é nobre integrante da família imperiana, coube a mim a subretranca (matéria conjugada, no jargão jornalístico) sobre a feijoada no Império. Segue o meu texto:

Almoço com patente imperial

Marcelo Moutinho

Aos quarenta quilos de feijão com lombo, pé e orelha de porco, carne seca, bucho, rabo e paio, acompanhados de arroz, couve à mineira, laranja e caipirinha, Dulcinéia do Nascimento (foto), a responsável pela cozinha do Império Serrano, acrescenta um ingrediente especialíssimo.

- É o amor, meu filho. Nosso diferencial é que aqui nessa escola fazemos tudo com amor, do samba à feijoada - entrega ela, que está à frente das 12 cozinheiras auxiliares que abastecem os estômagos famintos da verde-e-branco de Madureira a cada terceiro sábado do mês.

O lugar comum que a declaração de Dona Déia poderia sugerir desfaz-se quando ela se põe a falar dos 10 anos em que freqüenta a agremiação e seus olhos, antes centrados no interlocutor, começam a passear pela quadra. As mãos afagam uma à outra, a voz ameaça fraquejar diante da simples menção à escola. O Império de hoje é mesmo um desafio à banalidade de certas expressões; talvez mais: um vigoroso exemplo de que muitas vezes o clichê exprime verdades genuínas. Porque se há um conceito abstrato que parece tomar forma em cada folião presente à feijoada é justamente este: um desmedido amor.

Amor que, como ressaltou Dona Déia, está no preparo do feijão, servido a R$ 7 a partir das 13h, numa comprida mesa onde cada um faz seu próprio prato. Que está também na maneira caprichosa com que Jorginho do Império - 40 anos de escola - organiza o evento, compondo um repertório que mescla clássicos sambas-de-enredo de Silas de Oliveira e Beto Sem Braço a canções de mestres como Nelson Cavaquinho, passando pelo suingue do Rei dos Bailes Bebeto e chegando ao sotaque rítmico à la Fundo de Quintal de Arlindo Cruz e Jorge Aragão. Amor que está sobretudo no clima familiar da quadra.

A feijoada integra um movimento que parece ter tomado a escola de modo definitivo. Ciente do enfraquecimento que a desarmonia interna provocava e de que acabara sendo umas das principais vítimas da auto profecia - quando denunciou que o luxo e o gigantismo das ''Superescolas de Samba S.A.'' esconderia gente bamba -, o Império decidiu tirar energias de sua própria tradição. A contratação de um novo carnavalesco (Paulo Menezes) e de um casal de mestre-sala e porta-bandeira (Robson e Ana Paula), a renovação do contrato do puxador Nêgo e a escolha do promissor enredo sobre as festas religiosas brasileiras - léguas distantes de aventuras tresloucadas como a homenagem a Beto Carrero - alimentam a esperança de um bom desfile em 2006. Mas tais iniciativas pouco efeito teriam se, paralelamente, a escola não se reaproximasse de seu berço.

E isto de fato vem acontecendo, como evidenciam o projeto de um Centro de Memória, capitaneado pela vice-presidente cultural, Rachel Valença, e a retomada do Grito de Carnaval. Realizado há pouco menos de um mês, o evento reuniu o Jongo, a Velha Guarda, a harmônica bateria e uma multidão de convictos imperianos, que esbanjaram felicidade ao encontrar a quadra limpíssima e reformada e doaram 700 quilos de alimentos não-perecíveis, posteriormente entregues à comunidade da Serrinha. Jorginho do Império salienta que a idéia é manter o espaço movimentado de segunda a sábado e, para aqueles que torcem ou simpatizam com as históricas patentes imperiais, acena com uma programação que inclui roda de samba, shows, bailes dançantes e aulas de percussão, além dos ensaios normais. E, claro, a feijoada, cuja próxima edição acontecerá dia 16, tendo como atração a Velha Guarda. É preparar o apetite - e o coração.



 Escrito por Marcelo às 09h49
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O feijão e o samba

Nosso amigo Álvaro "Marechal" e a repórter Ellis Pinheiro assinaram matéria bem bacana no JB de sábado passado, enfocando as feijoadas que vêm movimentando as quadras de Portela, Mangueira e Império Serrano pelo menos um sábado por mês. Abaixo o texto da dupla:

 "O feijão e o samba"

Alvaro Costa e Silva e Ellis Pinheiro

"É o encontro de Macunaíma com Pantagruel: as duas mais tradicionais escolas do Rio, Portela e Mangueira, decidiram contribuir com o movimento Baixa Gastronomia Carioca, que a cada dia conta com mais adeptos, e passaram a servir feijoada em suas quadras - a azul-e-branco no primeiro sábado do mês, a verde-e-rosa no segundo. Mas que feijoada! É coisa para dois mil talheres: dependendo do dia e da fome, são servidos de 50 a 60 quilos de feijão, mais de 60 quilos de arroz, 50 de farinha, 30 de carne-seca coxão e 30 de carne-seca entremeada, 50 de costela, 50 de lombo, 40 de pé de porco, 15 de orelha, 15 de rabo, 40 de bucho, 30 de peito de boi, 25 de lingüiça fina, dois de alho, 220 molhos de couve cortada e lavada, cinco sacos de laranja-pêra, sem falar nas quantidades menores de louro e cominho. A sede de cerveja ou de caipirinha fica a gosto do freguês. E, para fazer uma digestão tranqüila, samba do bom.

A Portela inaugurou a moda. Na quadra da Rua Clara Nunes, 81, em Madureira, sua feijoada rola desde abril de 2003. Na primeira vez atraiu cerca de 300 portelenses saudosos das reuniões que aconteciam na antiga Portelinha, em Osvaldo Cruz, ocasião em que os compositores mostravam seus sambas de terreiro embaixo da famosa jaqueira. A idéia de retomar os encontros foi do compositor Marquinhos de Osvaldo Cruz, que já tinha sido o responsável pela retorno do Pagode do Trem, criado por Paulo da Portela na década de 40, para marcar o Dia Nacional do Samba (2 de dezembro).

- Tínhamos que unir a escola, que andava muito espalhada. Para isso, nada melhor que servir um prato forte, que é tradição no samba, e atrai muita gente. A feijoada é um clássico e foi uma escolha natural - disse Marquinhos, que convidou Tia Surica para comandar as panelas. Ao todo são 21 cozinheiras envolvidas no preparo do prato desde a quinta-feira a partir das 14h, quando as carnes são colocadas em água corrente.

A partir das 13h, o prato começa a ser servido - custa R$ 7; a entrada na quadra, R$ 5. O Portelão está decorado com galhardetes dos grandes da escola, Natal e Paulo, e de baluartes da Velha Guarda já falecidos, Manacéa, Mijinha, Aniceto, Chico Santana, Alcides Malandro Histórico, Chatim, Alberto Lonato, Osmar. O que destoa são os enormes painéis em que aparecem políticos fazendo as vezes de papagaios-de-pirata dos sambistas: lá estão, sorrindo amarelo, os deputados federais João Paulo Cunha (PT-SP) e Júlio Lopes (PP-RJ), e o presidente Lula ao lado de sua Marisa.

Predomina o ambiente familiar e de meia-idade, com muitos casais de cabelos brancos disputando as mesas; com o passar do tempo, continua familiar, mas mais jovem: é a turma que chega da praia. A partir das 16h, a quadra está lotada, e, com todos de barriga cheia, o samba come.

Sob o olhar marcial do presidente Nilo Figueiredo, a Velha Guarda abriu os trabalhos no primeiro sábado de agosto. Rara oportunidade de ver Surica, Doca, Monarco, Casquinha (que, desinibido, trocou de roupa no palco, mostrando o físico de ex-jogador de futebol), David do Pandeiro, Serginho Procópio, a bela voz e o balanço de Guaracy. Deu gosto notar o quanto eles se sentem felizes em poder cantar em Madureira. Em casa.

Na segunda parte do show, foi a vez das canjas: Marquinhos Diniz (filho de Monarco), Diogo Nogueira (filho de João Nogueira), Genaro da Bahia, Bandeira Brasil, Marquinhos de Osvaldo Cruz (que fez questão de lembrar os 70 anos de nascimento de Candeia). A Velha Guarda de Vila Isabel foi a convidada especial. Ao lembrar os velhos sambas-enredos da madrinha Portela, fez com que a tarde chegasse ao auge, com todos cantando e sambando na quadra.

No começo da noite, o comandante Nilo pediu a palavra para encerrar a festa:

- Quero agradecer a todos pelo bom comportamento. Nossa feijoada é um sucesso. Dizem que Madureira é longe, mas longe mesmo é Nova York ou New Orleans. Agora todas as escolas querem nos imitar - provocou ele.

A feijoada da Mangueira, verdade seja dita, é mais recente. Começou em novembro do ano passado, sob a orientação da Ala dos Boêmios. Quem levar um quilo de alimento não perecível não paga a entrada. Mas quem chegar de mãos abanando não é barrado na quadra da Rua Visconde de Niterói, 1.072, que fica sempre lotada com cerca de mil pessoas.

A feijoada - cujo preparo é iniciado na quinta-feira à noite, a cargo de apenas quatro pessoas, todos homens por sinal - é saborosíssima. Mas recomenda-se apressar a fome, pois, no segundo sábado de agosto, alguém errou a mão e o feijão acabou mais cedo - por volta das 16h. Deu pena ver a carinha de vontade com que ficou uma menina que viu o último prato ser servido à pessoa que estava à sua frente na fila. Teve de contentar-se com um salsichão na farinha. Mas acompanhado de cerveja gelada.

Em que pese a presença de Gabrielzinho do Irajá - o menino-partideiro com deficiência visual, que é destaque da novela América, da TV Globo - o samba em Mangueira continua excelente. Sob o comando de Renatinho Partideiro, o grupo Nação Mangueirense (formado por Saliva no violão de sete cordas, Claudinho Guimarães no cavaquinho, Andrezão no repique de anel, Marcinho no pandeiro, Eddie Murphy no tantã e Chá-chá-chá no surdo, na verdade todos do Cacique de Ramos) mantém alto o pique. Os convidados se apresentam no chão na quadra - a cantora Simone Miranda, os compositores Bandeira Brasil e Roberto Serrão, o inacreditável Deni de Lima - e, em torno deles, o povo vai fechando a roda. Como mestre-de-cerimônias informal e faz-tudo de plantão, a figura ubíqua de Chico da Curimba, mais que uma simples pessoa: virou personagem de Zeca Pagodinho.

O compositor Serginho Meriti, nome ainda pouco conhecido fora do mundo do samba, lançou lá seu mais recente CD. Reúne novos sambas - destaque para Não quero mais saber mais nada, parceria com Mariozinho Lago - e grande sucessos como Meu bom juiz, Manera, mané, Filial da matriz, Quando eu contar e Deixa a vida me levar, hino informal da conquista do pentacampeonato. Na hora em que Serginho cantou a não menos conhecida Negra Ângela, todo o público em coro o seguiu. Foi a deixa para que o teto retrátil da quadra se abrisse, permitindo a visão da noite estrelada. O momento lembrou os versos de Cartola: Habitada por gente simples e tão pobre/ Que só tem o sol que a todos cobre/ Como podes Mangueira cantar?/ Pois então saiba que não desejamos mais nada/ A noite e a lua prateada/ Silenciosa ouve as nossas canções."



 Escrito por Marcelo às 09h44
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Mercado Odeon

Também amanhã, só que na Livraria Dantes, rolará a primeira edição do Mercado Odeon. A partir das 10h, a parte da Cinelândia que fica em frente ao sebo será ocupada por barracas que venderão livros, discos e revistas, além de roupas e acessórios de grifes alternativas. A quermesse prevê ainda trocas de objetos entre os participantes e dois shows: às 12h, um quarteto de cordas tocará música erudita, e às 15h, haverá uma roda de samba. Fechando a programação, às 17h acontecerá um bate-papo com o escritor João Ximenes Braga e as amigas Cecilia Giannetti e Antônia Pellegrino, sobre o tema Blog: ficção e intimidade, um show de realidade. Após a conversa, Ximemes comandará o pré-lançamento do livro Juízo (7 Letras).



 Escrito por Marcelo às 10h08
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Livros na mesa

Amanhã, na Estação das Letras do Centro (que funciona dentro do sebo Al Farabi) vai acontecer mais uma edição do Livros na mesa. Além de estimular a troca de livros entre os participantes, o evento programa sempre um bate-papo com um convidado especial. Desta vez, será o amigo Luís Pimentel, que falará sobre o tema Conto e poesia: aproximações e fugas. As atividades começam às 11h, e o Al Farabi fica na Rua do Rosário, 30. 



 Escrito por Marcelo às 09h57
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Novos links

O Pentimento estréia hoje dois novos links. O primeiro é uma antiga dívida com o amigo Paulo Maurício Costa, que foi meu colega de turma na pós em Jornalismo Cultural na Uerj. No blog De-lírios, ele comenta, com a inteligência habitual, sobre cinema (sua grande obsessão), literatura, música e artes plásticas, entre outros assuntos. Já no Sujeito a chuvas, da querida Rosana Caiado, traz pequenos ensaios de roteiro e narrativa, além de observações sobre o cotidiano. Indico ambos.



 Escrito por Marcelo às 09h39
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Milágrimas

Conheci isso lá no blog do querido Guiu. A canção está originalmente no Pré pós tudo bossa band, novo disco da Zélia Duncan...

"Milágrimas"

Itamar Assumpção / Alice Ruiz

"Em caso de dor, ponha gelo
Mude o corte do cabelo
Mude como modelo
Vá ao cinema, dê um sorriso
Ainda que amarelo
Esqueça seu cotovelo
Se amargo for já ter sido
Troque já este vestido
Troque o padrão do tecido
Saia do sério, deixe os critérios
Siga todos os sentidos
Faça fazer sentido
A cada milágrimas sai um milagre
Em caso de tristeza vire a mesa
Coma só a sobremesa
Coma somente a cereja
Jogue para cima, faça cena
Cante as rimas de um poema
Sofra apenas, viva apenas
Sendo só fissura, ou loucura
Quem sabe casando cura
Ninguém sabe o que procura
Faça uma novena, reze um terço
Caia fora do contexto, invente seu endereço
A cada milágrimas sai um milagre
Mas se apesar de banal
Chorar for inevitável
Sinta o gosto do sal
Sinta o gosto do sal
Gota a gota, uma a uma
Duas, três, dez, cem mil lágrimas, sinta o milagre
A cada milágrimas sai um milagre"



 Escrito por Marcelo às 10h47
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Congresso de Vitimologia

Na sexta passada, participei do VI Congresso Brasileiro de Vitimologia, que foi promovido pela Sociedade Brasileira de Vitimologia e pela Comissão de Direitos Humanos da OAB. Experiência muito interessante, por sinal. Meu painel foi sobre Vitimologia e novos direitos e reuniu, além de mim, os professores Celso Niskier (reitor da Unicarioca), João Mestieri (da PUC) e Heloísa Helena Barboza (ex-diretora da Faculdade de Direito da Uerj). Eu e Celso éramos os únicos sem formação jurídica (ele é pesquisador da área de Informática) e centramos nossas palestras nos desafios que a internet veio nos trazer, principalmente quanto à possibilidade de fomentar uma nova espécie de "vítima". Iniciei lembrando que a primeira grande "vítima", no caso, eram as próprias premissas clássicas do pensamento ocidental, que, centradas na divisão entre conceito e imagem, viam tal cisão ir por terra - ou pelo menos ser questionadas - com a virtualidade. O público, formado basicamente de universitários, mostrou bastante interesse, sobretudo quando enveredamos pelos dilemas trazidos pelo jornalismo on line (rapidez X qualidade de apuração) e, indo mais além, pela superexposição da intimidade através dos blogs e do orkut. Superexposição que tantos prejuízos têm causado às relações, notadamente no campo amoroso. Mais do que conclusões, levei para o Congresso minhas perplexidades sobre o assunto que, por tão recente, ainda não permite inferências definitivas.



 Escrito por Marcelo às 10h23
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Sobre o desejo

Muito boa a coluna de hoje do Contardo Calligaris na Folha de S. Paulo, na qual ele comenta sobre o filme Dois filhos de Francisco, já elogiado aqui. Além da leitura acurada da história da dupla sertaneja (e sobretudo de seu pai), o texto do psicanalista envereda pelos mistérios do desejo, ponderando que, embora "a intensidade do desejo não leve necessariamente ao sucesso", há boas razões para "se desejar com força". Abaixo, a melhor parte do artigo:

"(... )A história de Zezé di Camargo e Luciano não é apenas comovedora: ela é a quinta-essência do espírito country (ou sertanejo, tanto faz). Há a roça da infância, que, na saudade da lembrança, aparece como paraíso perdido, embora fosse pobre e obcecada pela vontade de ir embora (é o desejo "louco" de Francisco para seus filhos). Há, na dureza da vida, o constante consolo da música, não como ocasião de devaneio, mas como vontade de dar à experiência a intensidade de um vibrato. Há a estranheza do encontro com a cidade, a dor de uma mudança que troca a miséria tranqüila do campo pela inquieta miséria urbana. Há a errância do menestrel pelo mundo, que cobra um preço, às vezes, fatal. Há a dificuldade de amar e a obstinada permanência dos afetos básicos, familiares.
Em suma, a história da dupla é um repertório quase completo dos temas de sempre da música country, que canta os sentimentos dos desterrados, ou seja, de todos nós, que vivemos na viagem entre a saudade e a esperança.
Mais uma questão: na história de Zezé e Luciano, é crucial o desejo de Francisco que os filhos se tornassem músicos e que a música os levasse longe, na vida e no mundo. É um pai que tem precedentes ilustres -entre eles, o pai de Mozart, o qual tinha uma vantagem: podia pagar as aulas para o filho. Francisco trocou um porco, uma colheita, sei lá quantos queijos e seu revólver por um violão e uma sanfona para os filhos. Será que ele era "doido", como pensava o sogro?
Em geral, não se aconselha os pais a terem um desejo tão definido sobre o futuro dos filhos. No entanto, o drama de muitos pais é que não conseguem transmitir aos filhos nem sequer a capacidade de desejar (seja lá o que for). E o fato é que Francisco conseguiu passar sua paixão para Mirosmar (Zezé), Emival e Welson (Luciano). Foi um fardo para eles? Pois é, desejar não é de graça.
Enfim, é banal ler, em textos de auto-ajuda, que, à força de desejar, a gente consegue: quem não larga o osso é recompensado um dia. Aviso: não é verdade. A "loucura" de Francisco e a paixão que ele transmitiu a seus filhos não garantiam nada: eles poderiam fracassar. A intensidade do desejo não leva necessariamente ao sucesso.
Mesmo assim, há uma boa razão para desejar com força: quase sempre, quem não se atreve a querer "doidamente" sofre da única culpa que a gente nunca se perdoa, a culpa de não ter ousado viver segundo nosso desejo."



 Escrito por Marcelo às 10h07
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