João Antônio

O Portal Literal publica boa matéria do amigo Bruno Dorigatti sobre o grande João Antônio, o escritor dos malandros, dos otários, dos vagabundos - em suma, daqueles que chamava de "merdunchos". No texto, Bruno analisa o volume de cartas que acaba de ser lançado pela Ateliê Editorial/Oficina do Livro, atrelando o conteúdo à obra do autor. Além disso, o Portal traz o único poema escrito por ele, o relato de um encontro com Darcy Ribeiro e um link para o arquivo do escritor, cedido por dez anos pela família à Faculdade de Ciências e Letras de Assis e que contém correspondência, produção intelectual (livros e artigos publicados e originais, além de várias versões da maioria dos textos), iconografia, discografia, biblioteca, troféus, móveis e outros objetos. Acesse tudo isso aqui.



 Escrito por Marcelo às 10h30
[   ] [ envie esta mensagem ]




Um crime delicado

"Eu, definitivamente, não acredito na inteligência humana. Por que num teatro as pessoas não riem diante de uma gag inteligente, mas explodem em gargalhadas frente a um simples "Vai pra em geral puta que o pariu!"? O caso daquele garoto propaganda das Casas Bahia é exemplar. Ele é oligofrênico e faz sucesso justamente porque os espectadores também o são."

Sergio Sant'anna, ontem, no debate realizado no CCBB



 Escrito por Marcelo às 10h00
[   ] [ envie esta mensagem ]




Homenagem ao Toledo

Hoje acontecerá também o Gurufim do amigo Fernando Toledo. A roda de samba começará às 19h e será no Clube de Engenharia, com participação de vários artistas. Segue o convite:

"Fausto Wolff, Sérgio Ricardo, Sérgio Cabral, Surica, Ziraldo, Aldir Blanc, Moacyr Luz, Dorina, Noca da Portela, Zé Luiz do Império Serrano, Délcio Carvalho, Arthur Poerner, Agenor de Oliveira, Eliomar Coelho, Moysés Ajchaenblat, Roberto Moura, Luís Pimentel, Beto Caratori, Carlos Mauro, Raymundo de Oliveira, Telmo Lustosa, Miramar Mangabeira, Tânia Malheiros, Ernesto Pires e muitos outros amigos ainda não contatados – mas que o serão convidam para a homenagem a Fernando Toledo no dia 30 de agosto, terça-feira, às 19 horas, no salão do 24º andar do Clube de Engenharia (Av. Rio Branco, 124, esquina com rua Sete de Setembro). O acompanhamento musical será feito por Marcos Bezerra e seu grupo “Samba quem Sabe”. O local tem bar e a capacidade é de 400 pessoas.A censura é livre e a entrada franca.
Fernando Toledo era crítico de musica e de literatura, jovem intelectual denso e engajado, colaborador do Jornal do Brasil, d’ “O Pasquim 21”, da “Revista Música Brasileira” (www.revistamusicabrasileira.com.br) e da “Agenda do Samba & Choro” (www.samba-choro.com.br) – entre outros. Ele faleceu dia 8 deste mês, em conseqüência de um atropelamento em frente à sua casa, na rua Conde de Bonfim na sexta-feira dia 5 (para quem não leu, em anexo o artigo de Fausto Wolff sobre ele). Essa é mais uma atividade do “Música do Casa Grande”, realizado toda última terça-feira do mês com o objetivo de angariar fundos para o Instituto Casa Grande (ICG). Neste, por sua natureza, não será cobrado ingresso."



 Escrito por Marcelo às 10h58
[   ] [ envie esta mensagem ]




Sant'anna, Torres e Moriconi

Hoje, no CCBB, vai rolar mais uma edição do ciclo Literatura brasileira. Sergio Sant'anna (foto), Antônio Torres e Italo Moriconi debaterão os rumos de nossa ficção a partir das 18h30. A entrada é franca, com retirada de senhas meia hora antes.



 Escrito por Marcelo às 10h44
[   ] [ envie esta mensagem ]




Nilze na rede

Quem avisa aos amigos que acaba de criar um blog é a talentosa e mui querida Nilze Carvalho. No espaço, Nilze fala sobre sua carreira, seus shows e seu cotidiano. Vale a visita, e o link entra desde já para os blogs indicados pelo Pentimento. Acesse aqui.



 Escrito por Marcelo às 10h39
[   ] [ envie esta mensagem ]




Quatro meses

Nesses quatro meses tem sido um amor assim: leve, harmônico, colorido*... Ontem disseram que nós parecemos gêmeos, talvez por causa dos cabelos bem curtos e dos óculos de aro preto. Sei lá. Só sei que à medida que a gente se conhece, mais a gente se gosta. É simples assim - e sincero. E, como as coisas simples e sinceras, é bom toda vida!

* (como esta foto da Mariana Newlands)



 Escrito por Marcelo às 13h59
[   ] [ envie esta mensagem ]




Violão & voz

É de uma beleza singela o disco Violão & voz, novo trabalho do grande Moacyr Luz, que será lançado com dois shows na Sala Funarte, nos próximos dias 7 e 8. No CD, Moa registra em formato minimalista algumas de suas pérolas, como Anjo da Velha Guarda e Cachaça, árvore e bandeira, ambas feitas em parceria com Aldir Blanc, além de homenagear três de seus mestres: Cartola, com Acontece, Noel, com Feitio de oração, e Nelson Cavaquinho, com Palhaço. O grande destaque do disco, contudo, é a belíssima Coração do agreste, já gravada pela Fafá de Belém e que muitos desconhecem ser composição da dupla Aldir e Moacyr. A letra inspirada do primeiro ganhou na canção uma melodia à altura das melhores criações do Moa. Aquilo a que os músicos chamam de "segunda" ("Eu voltei no curso / Revi meu percurso..."), então, é de arrepiar o mais frio dos homens. Uma faixa que vale o cd.

"Coração do agreste"

Moacyr Luz / Aldir Blanc

"Regressar é reunir dois lados
A dor do dia de partir
Com os seus fios enredados
Na alegria de sentir
Que a velha magoa
É moça temporã
Seu belo noivo é o amanhã

Eu voltei para juntar pedaços
De tanta coisa que passei
Da infância abriu-se um laço
Nas mãos do homem que eu amei
O anzol dessa paixão me machucou
Hoje sou peixe
E sou meu próprio pescador

E eu voltei no curso
Revi o meu percurso
Me perdi no leste
E a alma renasceu
Com flores de algodão
No coração do agreste
Quando eu morava aqui
Olhava o mar azul
No afã de ir e vir
Ah! Fiz de uma saudade
A felicidade"



 Escrito por Marcelo às 13h36
[   ] [ envie esta mensagem ]




Chuva

Certa vez li em algum lugar que Chuva, uma das minhas canções preferidas, é uma música "sentimental". Talvez toda música seja "sentimental", mas poucas mecerem tanto esse adjetivo. A composição de Durval Ferreira e do Pedro Camargo, que capta com rara felicidade aquele misto de beleza e desolação que costuma caracterizar um dia chuvoso, foi gravada pela primeira vez em 1965, no disco Os gatos, com arranjo de Eumir Deodato e solo de Maurício Einhorn. No mesmo ano, foi vertida para o inglês por Ray Gilbert com o nome The day it rained. Mais tarde receberia várias regravações. Silvinha Telles, Wilson Simonal, Claudette Soares, Dick Farney, Baden Powell, Sarah Vaugh, Emílio Santiago e o maestro Lindolfo Gaya foram alguns que a registraram, seja de forma cantada ou instrumental. A versão que mais gosto, porém, é mesmo a do Zimbo Trio, no seminal disco O fino do fino, que o grupo gravou junto com Elis Regina. As modulações do piano de Amilton Godói são líricas toda vida, e a orquestração cresce e decresce de acordo com o solo, como se a chuva aumentasse e diminuísse, do temporal à simples garoa. Bonito, muito bonito. E adequado a um dia como hoje...

"Chuva"

Durval Ferreira / Pedro Camargo

"Vem, amor que é meu
Olha a chuva a nos chamar
Ouve a chuva a nos dizer que existe um bem

Sente, amor que é meu
Todo o amor em mim que é teu
E esse bem que a chuva em nós faz renascer

Todo um sonho lindo
Fez-se em nós para dizer
Toda beleza de lembrar que existe um bem

Vem, amor que é meu
Olha o amor a nos chamar e esta chuva que traz
Do céu nosso bem
Que o sonho nos deu
E a vida também
Razão de cantar
Sorrir pelo bem de amar...

Rain, I wonder why
Today there's such a different sky
It isn't raining rain
It's teardrops that I see
And how can you forget
The happy hours when we met
Those happy hours when my lover and I was there

Rain now he is gone
But all the memories remain
So maybe that's why
The sky is so gray
You heard his goodbye
When he went away
Now both of us cry
recalling the day, it rained"


P.S. Você pode ouvir a música na versão de que falo na Rádio Uol...



 Escrito por Marcelo às 10h48
[   ] [ envie esta mensagem ]




Rápidas e variadas

. Ótima a notícia que o Joaquim Ferreira dos Santos nos deu na coluna Gente Boa de ontem: os belos jardins do Museu da República ganharão nova iluminação e um espaço para jantares ao ar livre. A conferir (de preferência acompanhado);

. A Vizinha Faladeira, escola de samba que desfila no Grupo de Acesso, parece ter adquitiro a "síndrome de Beto Carrero" que vitimou meu Império há alguns anos. O enredo escolhido pela agremiação para 2006 é simplesmente o Edifício Chopin. Já dá pra imaginar Narcisa Tamborideguy e Bruno Chateaubriand como destaques. Ai, carnaval carioca...;

. No próximo dia 30, acontecerá no Canecão a terceira edição do projeto Loucos por música. Com renda destinada ao sensacional trabalho desenvolvido na Casa das Palmeiras, o show vai reunir Maria Bethânia, Dona Ivone Lara, Ana Carolina e Alcione. Pelas demais cantoras, vale a pena até agüentar os berros da Ana, não é não?;

. Também no dia 30 será aberta no Centro Cultural Arte Sesc a exposição MPB - Musique populaire brésilienne, que esteve em cartaz no Cité de la Musique como parte das comemorações do Ano do Brasil na França e aqui em nossas terras ganhará o nome de Raízes musicais do Brasil. A mostra reúne fotos (como a postada acima) e documentos dos acervos da Biblioteca Nacional, do Museu da Imagem e do Som, do Instituto Moreira Salles e da Associação Jackson do Pandeiro, entre outras entidades, incluindo também material de acervos particulares. As visitações rolarão até dia 13 de novembro;

. "Entediante", Xexeo? Há como se apontar defeitos em Dois filhos de Francisco. Mas "entediante"?

. Pra quem curte este tipo de literatura: a Estação das Letras promoverá, a partir do dia 1º de setembro, um curso dobre A estrutura do romance policial. Nas aulas comandadas pela professora Cláudia Mattos, serão discutidas as técnicas específicas, os processos de fabulação e a construção dos personagens. Informações, pelo telefone 3237-3947;

. Atenção, atenção! Está chegando às lojas um dos DVDs mais aguardados por quem gosta de bom cinema. Sim, Lavoura arcaica enfim chega ao mercado, e trazendo como extra imagens do trabalho de preparação que o diretor Luiz Fernando Carvalho realizou com os atores, que passaram quatro meses na fazenda mineira onde a produção foi rodado realizando tarefas cotidianas, como arar a terra e ordenhar vacas, e estudando o conteúdo e o contexto do livro.

. Por enquanto, é só. Mas só por enquanto...



 Escrito por Marcelo às 10h18
[   ] [ envie esta mensagem ]




Sobre o poeta

Para o amigo HR:

"Se por poeta entendemos funcionalmente aquele que escreve poemas, a razão para que os escreva (não se discute a qualidade) nasce de que seu estranhamento como pessoa suscita sempre um mecanismo de challenge (desafio) and response (resposta); assim, cada vez que o poeta é sensível à sua lateralidade, à sua situação extrínseca em uma realidade aparentemente intrínseca, reage poeticamente (quase diria profissionalmente, sobretudo a partir de sua maturidade técnica); dito de outra maneira, escreve poemas que são como petrificações desse estranhamento, o que o poeta vê ou sente em lugar de, ou ao lado de, ou por debaixo de, ou diante de, remetendo este "de" ao que os demais vêem tal como acreditam que é, sem deslocamento nem crítica interna. Duvido que exista um só grande poema que não tenha nascido dessa estranheza ou que não a traduza; mais ainda, que não a ative ou a potencialize ao suspeitar que é precisamente a zona intersticial por onde cabe ascender"

Cortázar



 Escrito por Marcelo às 10h31
[   ] [ envie esta mensagem ]




Trânsito

Acabo de fazer a prova renovatória da carteira de habilitação. Acertei 87% das questões. Teoricamente, isto implica dizer que sou um bom motorista. Praticamente, isto não quer dizer absolutamente nada.



 Escrito por Marcelo às 10h05
[   ] [ envie esta mensagem ]




Paulinho pela manhã

Hoje acordei ouvindo esta pérola. É ou não é presságio de um bom dia?

"Samba do amor"

Paulinho da Viola / Elton Medeiros / Hermínio Bello de Carvalho

"Quanto me andei
Talvez pra encontrar
Pedaços de mim pelo mundo
Que dura ilusão
Só me desencontrei
Sem me achar
Aí eu voltei
Voltar quase sempre é partir
Para um outro lugar

O meu olhar se turvou
E a vida foi crescendo
E se tornando maior
Todo o seu desencanto
Ah, todos os meus gestos de amor
Foram tragados no mar
Ou talvez se perderam
Num tempo qualquer
Mas há sempre um amanhecer
E o novo dia chegou
E eu vim me buscar
Quem sabe em você"



 Escrito por Marcelo às 09h31
[   ] [ envie esta mensagem ]




Parabéns!

Hoje é aniversário desta moça aí em cima, que há pouco mais de 33 anos concebeu o menino que está no colo dela. Menino que agora já é moço também, né? Parabéns, mãe!



 Escrito por Marcelo às 11h30
[   ] [ envie esta mensagem ]




+ poema

"Canção"

Eugénio de Andrade

"Hoje venho dizer-te que nevou
no rosto familiar que te esperava.
Não é nada, meu amor, foi um pássaro,
a casca do tempo que caiu,
uma lágrima, um barco, uma palavra.

Foi apenas mais um dia que passou
entre arcos e arcos de solidão;
a curva dos teus olhos que se fechou,
uma gota de orvalho, uma só gota,
secretamente morta na tua mão."



 Escrito por Marcelo às 10h08
[   ] [ envie esta mensagem ]




Um poema

"Poema"

Afonso Henriques Neto

"nada a desenhar
sob o diamante do ollhar
poeta no abismo
medular

nem há no fundo
do coração do mundo
sonho ou vento demiurgo
que tudo venha explicar

carne ou metáfora — não importa —
sendo nada tudo alcança:
o poeta é a viagem
mesmo contra a esperança"



 Escrito por Marcelo às 10h07
[   ] [ envie esta mensagem ]




Caio inédito

Quem costuma ler o Pentimento, bem sabe que sou fã dos escritos de Caio Fernando Abreu. Conheci sua literatura quando, ainda adolescente, procurava belezas secretas por detrás da dor. Desde então, devorei praticamente todos os seus livros, aos quais tive a felicidade de reler há poucos meses, quando resenhei Caio D - A década de 1970 para o Prosa & Verso (O Globo). "Escritor da paixão", como o chamava Lygia Fagundes Telles, Caio fez uma literatura literalmente à flor da pele. De seu intimismo, criticado pelos que não compreendem que a dor de um pode ser a dor de outro - e quase sempre é -, germinaram textos de uma beleza singular e sofrida, mas sobretudo humana. Pois bem: dito tudo isso, o fato é que ao acessar o site Paralelos hoje, deparei-me com um inédito do autor. E que inédito!

Trata-se de um escrito dedicado pelo Caio à amiga Jussara Silva, com quem conviveu durante muito anos. Quem felizmente convenceu-a a tornar público o texto foi o Caco Belmonte, amigo e jovem autor lá do Sul. O mesmo Paralelos traz uma introdução preparada pela própria Jussara, que serve de prelúdio ao conto, desenhando um panorama da época em que foi produzido e contextualizando a história. Não costumo reproduzir inteiramente aqui os textos que indico, mas com este isso foi impossível. De qualquer forma, a visita ao Paralelos vale - e muito - para que vocês possam conferir também a apresentação da Jussara. Agora, com a palavra, o Caio:

"Para um roxo dia de sol de fevereiro"

Caio Fernando Abreu

Para Jussara

"Este vazio de amor todos os dias: a cabeça pesada ao meio-dia, a boca amarga, um cheiro de sono e solidão nos cabelos, uma xícara de café bem forte espantando os arcanos da madrugada, e muitos cigarros, as roupas, o espelho, os colares, as pulseiras. Procuro e não acho. Mas saio para a rua todo de roxo, a barriga de fora.

O sol bate forte na cabeça. O sol bate forte e reflete na calçada e dissolve o corpo em gotas pegajosas escorrendo nojentas e brilhantes pelos braços e pelas pernas por baixo do roxo até cair sobre o asfalto formando pequenas poças que logo se evaporam subindo pelos raios do sol cor de cenoura de fevereiro para novamente descer do alto despertando o suor roxo adormecido no meu corpo.

E na esquina riem. Eu não ligo, mas riem e falam baixinho entre si, homens dispostos na calçada com as camisas abertas entre as verduras da tenda da esquina, os homens de pelos aparecendo pelas aberturas da camisa cochicham entre si e riem. Mas eu piso firme e ergo a cabeça e dentro do meu roxo caminho só-rindo entre as verduras e os cochichos, e ninguém entende: mas silenciam e principiam a rir baixo, apenas para eles, e não têm coragem de dizer nada. Eu passo por seu silêncio irônico e perplexo, a minha bolsa oscila, é como se o sol coroasse minha cabeça e ninguém soubesse ao certo se rir ou calar, de espanto, porque nunca naquela rua passou alguém coroado por um sol roxo de fevereiro.

Depois são os corredores e as escadas e o balcão claro do bar e os grupos de pessoas que não distingo umas das outras, mas vou sorrindo, sou um projétil orientado até certo ponto, depois dele, e é agora o depois dele vou furando o desconhecido, violentando o mistério, vou penetrando no incompreensível, e sorrio para o inesperado, o corpo ereto projetado, e alguém me faz uma saudação oriental na porta de entrada e eu sorrio ainda mais largo: é alguém semelhante a um cão são bernardo, falta apenas o barrilzinho de chocolate, desses abençoados que riem o tempo todo e o tempo todo cantam e dizem coisas e soltam notas musicais por entre os pelos espessos da barba e do cabelo grande.

E entro na sala e sinto que os olhares se debruçam sobre mim e cumprimento alguns e outros e não penso nada: gozo a glória deste momento e sei que brilho mesmo sem saber para onde vou. E tombo sobre a mesa e tento arranjar no rosto um ar compungido, qualquer coisa modesta e bucólica, à beira do perdão, um olhar no horizonte nas janelas do arquivo, para que me amem, para que se condoam, para que não se ofendam com meu sol de hoje.

Mas hoje. Hoje não. É impossível perdoar no meio destas máquinas histéricas e destas pessoas que tão pouco sabem de si destas calças desbotadas do feltro verde do jornal mural das vozes que passam misturando marchas de carnaval john lennon e carlos gardel é impossível sofrer entre os telefones que gritam e o suor que escorre e as laudas numeradas e as pilhas de jornais e livros e a porta que vezenquando abre libertando vanderléias comerciais e meninos de roupas coloridas e ar desvairado.

E hoje não. Que não me doa hoje o existir dos outros, que não me doa hoje pensar nessa coisa puída de todos os dias, que não me comovam os olhos alheios e a infinita pobreza dos gestos com que cada um tenta salvar o outro deste barco furado. Que eu mergulhe no roxo deste vazio de amor de hoje e sempre e suporte o sol das cinco horas posteriores, e posteriores, e posteriores ainda."



 Escrito por Marcelo às 18h21
[   ] [ envie esta mensagem ]




Dois filhos de Francisco

Deixe o seu preconceito em casa e corra para ver Dois filhos de Francisco, o belíssimo filme que, sob o pretexto de contar a vida de Zezé de Camargo e Luciano, narra na verdade uma exemplar história de luta, coragem e - vá lá - um pouco de loucura. O trabalho de Breno Silveira é um mergulho no Brasil profundo, o Brasil das rodoviárias, das ruas de terra, do analfabetismo, da pobreza digna, dos dentes faltando. O Brasil brega e sentimental que, queiramos ou não, acaba falando também a nós, supostos cosmopolitas.

Breno optou por uma narrativa clássica - algo raro e que os diretores do cinema brasileiro costumam evitar, na maioria dos casos por menos opção do que por incompetência mesmo. Foi assim, com uma singeleza que parece - e só parece - simples, que ele conseguiu realizar um filmaço, no qual se destacam as brilhantes atuações - sobretudo de Ângelo Antônio, Diras Paes e todo o núcleo das crianças -, a extraordinária fotografia, a trilha sonora de ótimo gosto (acreditem!) e a mão-firme do diretor na criação de seqüências de grande expressividade. Como, por exemplo, a que registra o primeiro encontro entre Zezé e a futura mulher (vivida em tom correto por Paloma Duarte). Os dois se conhecem num baile em que ele (antes da fama) cantou. Ao som de Como vai você, eles conversam enquanto aproximam lentamente as mãos, até o convite para a dança e enfim o beijo. Além de bonita toda vida, a seqüência presta uma homenagem bacana a Paloma, que é filha de Antonio Marcos, o cantor que se notabilizou ao gravar a canção que embala a cena (e está postada abaixo, como lembrança boa do filme - e também da minha companhia na sessão ;)).

Não deixe de conferir. Garanto que se você for ao cinema de coração aberto, vai sair com ele aos saltos. Porque Dois filhos de Francisco é cinemão de primeira qualidade. E não é em Hollywood não, é no Brasil mesmo.

"Como vai você?"

Antonio Marcos / Mario Marcos

"Como vai você?
Eu preciso saber da sua vida
Peça alguém pra me contar sobre o seu dia
Anoiteceu e preciso só saber 
Como vai você
Que já modificou a minha vida
Razão da minha paz já esquecida
Nem sei se gosto
Mais de mim ou de você 
Vem, que a sede te amar
Me faz melhor
Eu quero amanhecer
Ao seu redor
Preciso tanto me fazer feliz 
Vem, que o tempo
Pode afastar nós dois
Não deixe tanta vida pra depois
Eu só preciso saber
Como vai você?"



 Escrito por Marcelo às 11h59
[   ] [ envie esta mensagem ]




Dia Mundial da Fotografia

“A fotografia não rememora o passado. O efeito que ela produz em mim não é o de restituir o que é abolido (pelo tempo, pela distância), mas o de atestar que o que vejo de fato existiu. Ora, esse é um efeito verdadeiramente escandaloso. A Fotografia sempre me espanta, com um espanto que dura e se renova, inesgotavelmente”.

Roland Barthes, em A câmara clara

"Fotografar é colocar na mesma linha a cabeça, o olho e o coração"

Cartier-Bresson

"Muitas vezes a fotografia é isso, um abismo iluminado. Um xeque-mate na superfície" 

Arthur Omar

"A fotografia é a escrita com luz"

Autor descohecido



 Escrito por Marcelo às 12h22
[   ] [ envie esta mensagem ]




Poema do HR

Não são muitos os escritores que passeiam com o mesmo talento e destreza pela prosa e pela poesia. Meu amigo Henrique Rodrigues é um deles. Depois de nos presentear com Translúcida - aquela beleza de conto que foi publicado no Prosas cariocas - e de escrever um texto ainda mais inspirado para a coletânea Verso em prosa, que estou organizando e em breve será lançado, HR agora voltou a se dedicar aos poemas. Aliás, já está na hora do amigo lançar seu primeiro livro no gênero. A poesia abaixo, inédita ainda, é um aperitivo desta publicação que um dia virá.

Com a permissão do autor, dedico à minha F.

"A vida liquefeita"

Henrique Rodrigues

"Quando pensarem em levar embora
A tua mínima essência, no argumento
Falso – mas sedutor – de que esta é a vida,
E não há escapatória nem caminhos,
Porque só resta macerar teu sonho,
E entregar dele o sumo, dize não.

E deixa que o teu pensamento escorra
Por sobre o próprio arauto – nota que ele
É também um ser de substância fluida
Pagando o mesmo preço que te impele.
Recusa, se puderes. E te eleva
Por sobre esse deserto do teu peito.

Logo perceberás com quem dialoga.
Ninguém senão a tua imagem dupla,
É teu outro, és tu mesmo te dizendo
Que tens um corpo feito só de lágrimas.
É é certo que concordarás no ato:
Difícil disputar consigo mesmo

E ter-se vencedor de uma peleja
Que nem chega a ser luta, só briguinha,
Se olhares bem mais solto dos teus vícios.
Esforça e sente. Lá no teu passado
Repousa uma lembrança duradoura
De aquosa e permanente liberdade.

Vitória é a luta feita no silêncio,
Como em teus nove meses de placenta.
Não lembra? É que foi tão certo o preparo
Que te deixou em branco para a vida.
Repara, ocultamente liquefeita,
É ela quem apura as tuas cores.

Escorre e, se possível, evapora
A cada passo dado no teu rumo.
Suando o corpo ri, então trabalha.
Merecerás o pão de cada dia.
E quando o amor banhar-te condensado
Celebra. E bebe a ti na mesma taça."



 Escrito por Marcelo às 11h58
[   ] [ envie esta mensagem ]




Celebração das cinzas

A Áurea, mulher do saudoso Fernando Toledo, avisa aos amigos:

"No próximo dia sábado, às 14h, será realizada a Celebração das Cinzas de nosso querido Fernando Toledo. Segundo sua vontade, suas cinzas serão lançadas em um barco no Rio Maracanã, ao som da Valsa do Maracanã (Paulo Emílio e Aldir Blanc). Será no cruzamento da Rua Garibaldi com a Avenida Maracanã, na Muda. No dia 21, às 18h, a pedido de pais e avós, ele será lembrado em missa  na Igreja de Nossa Senhora do Desterro, Praça Dom João Esberard, 141 - Campo Grande (em frente ao Banco do Brasil).



 Escrito por Marcelo às 12h14
[   ] [ envie esta mensagem ]




Réquiem para o Fernando

Conheci Fernando Toledo no reveillon de 2001/2002. Havia mudado para a Urca exatamente naquele 31 de dezembro, e organizamos uma festa na casa do Rodrigo, juntando um bando de gente que estava meio que exilada naquele momento. Fernando namorava a Rachel, uma amiga da pós-graduação, e já chegou no apartamento com limões e apetrechos para fazer caipirinha. "Vou fazer à maneira que aprendi com o Monarco", disse ele, ao entrar, com um sorriso generoso nos lábios.

Ficamos amigos já naquela madrugada. Leitor compulsivo de jornais e dos clássicos da literatura, militante fiel de uma esquerda que nem sei se existe mais, firme como poucos em suas opiniões, Fernando sempre escondeu por detrás daquele trajar simples uma intensidade intelectual impressionante. Quando nos encontrávamos, ele perguntava sobre o que eu andava lendo - e vice-versa -, e gostava de me gozar, indagando se andava resenhando muitos livros ruins da "nova geração". Eu ria, ele também, e pedíamos mais uma cerveja para esticar o papo.

A última vez que o vi foi no dia do show de lançamento do cd solo da querida Nilze. Cheguei ao Carlitos, onde marquei com F., e lá estava ele, acompanhado da fiel companheira Áurea. Brinquei com a seriedade de seu terno - "Trabalho", justificou ele, num sorriso tímido - , antes de me fazer provar a batida de gengibre que derrotava com indisfarçável prazer. Fernando contou-me então que estava indo morar na Muda. Falei-lhe sobre o livro do Moacyr Luz, que estou editando, e ele já começou a imaginar encontros nossos no Bar da Maria, nos quais conversaríamos sobre a política, o cinema, a literatura, o amor; a vida, enfim, em seus sumos mais saborosos. Ele parecia feliz.

Foi lá, próximo à casa nova na Muda, que Fernando foi atropelado, no acidente que acabou por causar a sua morte, na semana passada. E se resolvi escrever essas linhas aqui hoje foi porque me emocionei logo pela manhã, ao ler a coluna do Fausto Wolff no Jornal do Brasil. De início, pensei: "mas eu definitivamente não gosto das coisas que o Fausto Wolff escreve. Nem sei porque tem tanto prestígio, no JB e fora dele". Em seguida, compreendi. Se discordo de boa parte do que o Fausto defende, se nem acho que o estilo dele tem tanto primor, havia uma função secreta e maior em sua volta ao jornal este ano: criar o mais belo réquiem que o amigo Fernando recebeu". Segue a íntegra do texto:

"Réquiem para um girassol"

"Quando um homem mete na cabeça que quer fazer papel de idiota, dificilmente alguém pode obrigá-lo a mudar de idéia. Isso aconteceu comigo, quando fui convidado pelo PDT para disputar uma cadeira de deputado federal em 1990. Pedi dinheiro ao partido e disseram-me que eu tinha de dar-lhes certa quantia em dinheiro - mil dólares se não me engano - em troca de alguns bônus que eu me encarregaria de vender. Desisti na hora e, diante disso, eles desistiram de me cobrar a grana.

Só estou falando nisso porque no meu único (sei do cacófato) comitê na Rua da Lapa, 24, o Madame Satã, vinha muita gente trabalhar de graça. Um deles era um rapaz magro, desengonçado, voz característica, pois engrolava os érres, cabelo encaracolado, que parecia estar sempre de bom humor. Não devia ter mais de 20 anos. Ele ficava no comitê e distribuía material, instruía eleitores que quisessem me ajudar. Entre um comício e outro - sem que ele visse - ouvi-o explicar claramente a mais-valia e seus efeitos a um grupo de operários. Ficamos amigos e ele - como mais uma meia dúzia de moças e rapazes - tornou-se uma espécie de filho emprestado. Eu e Fernando, este seu nome, jamais deixamos de manter contato. Nesse meio tempo, ele se casou com Áurea Alves, como ele, uma das maiores estudiosas de música do Brasil.

Autodidata, falava várias línguas e escrevia muito bem. Para dizer a verdade, ele estava entre os dez jornalistas que melhor escrevem neste país. Quando leu Joyce, foi paixão à primeira vista e não conheço ninguém que conhecesse melhor os truques literários do grande escritor irlandês. Porrista como o autor de Ulysses era coisa que Fernando também era, mas seu porre tinha uma alegria calma. Continuava inteligente. Gostava mais de escutar, sempre olhos fixos nos teus e um sorriso que demonstrava o incrível prazer que tinha em aprender algo novo. Era um prazer dar qualquer coisa a ele - de um chope a um livro - pois parecia que você estava sempre lhe dando o mundo. Morava na Lapa e o dinheiro lhe era de pouca serventia, pois o usava apenas para pagar suas contas, comprar suas canas e seus livros.

Atrás daquele garoto com cara de nerd gozador havia um grande filósofo encontrável, aliás, na resenha que publicou neste Caderno B, no dia 27 de julho último, sobre um livro menor de Herman Melville, Bartleby. Trata-se de um escrivão de Wall Street que descobre a mediocridade da vida que leva e começa a se recusar a fazer tarefas sem dar justificativa a não ser que a tarefa não lhe agrada. O homem negando-se a permitir que o transformem num objeto. Este era o Fernando. O que aos outros preocupava - sucesso, dinheiro, boa vida - estava em terceiro plano para ele. Um dia telefonou-me da Finlândia. Fora fazer um curso de projetista de instrumentação meteorológica para aeroportos. Explicou-me que era um trabalho que não o obrigava a pensar fora das horas de trabalho. ''O resto do tempo é para ler, escrever e ouvir música e beber.'' Não tinha um inimigo porque não discutia bobagens. Uma vez por mês bebíamos e eu tomava conhecimento dos seus progressos literários. Um gênio, tinha um cérebro privilegiado, um bom coração e não mentia nunca. Confirmação viva da minha teoria de que, se lhe derem o básico, o homem será feliz, pois nasceu para isso. Pretendo encontrar um editor para sua obra. Será o nosso grande póstumo.

Nos últimos anos perdi alguns dos meus melhores amigos - Albino Pinheiro, Elmar Machado, Ferdy Carneiro, Silvio Redinger, Jurij Moskvitin. Estes, porém, já haviam se preparado para a visita da sinistra senhora. Fernando Toledo morreu aos 37 anos, uma semana atrás. Às nove horas da noite. Três dias antes, fora atropelado na Muda por um irresponsável em alta velocidade. Conversei com ele em seu coma. Não respondeu. A morte levou um homem que tornaria qualquer rua, qualquer cidade do mundo um lugar melhor para se morar, um criador. Talvez houvesse descoberto coisas que não interessava ao Infinito revelar. Por isso o levaram. Como quem corta um talo de girassol com uma espada."



 Escrito por Marcelo às 10h07
[   ] [ envie esta mensagem ]




Aracy de Almeida

Há muita gente que só conhece Aracy de Almeida através daquela personagem matrona e mau-humorada que julgava calouros no programa do Sílvio Santos. Pois bem: tanto estes, quanto aqueles que já estão cansados de saber que Araca foi uma de nossas grandes cantoras de samba poderão conferir algumas das canções que fizeram parte de seu repertório no Centro Cultural Carioca, em espetáculo que marcará seu aniversário. Caso estivesse viva, Aracy completaria 91 anos no próximo sábado. A lembrança da data, porém, acontecerá na segunda-feira, dia 22, a partir das 21h, com a apresentação dos amigos Ana Costa e Lúcio Sanfilippo. Acompanhados de de Wallace Peres (cavaquinho), Marcello Mattos e Anderson Vilmar (percussão) os dois contarão ainda com a participação especialíssima de Dóris Monteiro, cantando sucessos de Noel Rosa gravados por Aracy. Imperdível. Ingressos a R$ 15.



 Escrito por Marcelo às 09h47
[   ] [ envie esta mensagem ]




Cinema e teatro

 

Foi um fim-de-semana pródigo, em gastronomia e - principalmente - em cultura. Na sexta, conferi Um dia sem mexicanos, de Sergio Aral (filho do Alfonso Arau de Como água para chocolate), que estréia na próxima sexta. Partindo de uma ótima premissa - certo dia os mexicanos simplesmente desaparecem da Califórnia, transformando o lugar num verdadeiro caos e reiterando que é sobretudo na "falta" que valorizamos -, o filme infelizmente estica demais a piada. Talvez rendesse um bom média, formato que o mercado repudia. Como longa, deixa um pouco a desejar, apesar de algons bons momentos.

No sábado, foi a vez do teatro: assisti a Um caminho para dois, comédia de Flávio Marinho que reúne no palco os ótimos Osmar Prado e Luciana Braga. Os dois vivem um casal - ele, um típico intelectual de esquerda; ela, uma estudante de Letras deslumbrada com a incipiente discoteque -que se conhece no final da década de 70. A peça acompanha suas aventuras e desventuras ao longo de 25 anos de relação, sempre tendo com pano de fundo a história do Brasil. A perspectiva é absolutamente romântica, ou seja, o casamento perdura porque para além das dificuldades, das idissincrasias e das mudanças pelas quais ambos passam, há o amor. Então, é daqueles espetáculos para sair feliz, de mãos dadas com a namorada, e de preferência tomar um vinho tinto depois. Foi o que fiz.



 Escrito por Marcelo às 10h04
[   ] [ envie esta mensagem ]




Canção do fim-de-semana

"Coisa mais bonita"

Carlos Lyra / Vinícius de Morais

Coisa mais bonita é você
Assim, justinho você
Eu juro
Eu não Sei por que
Você
Você é mais bonita que a flor
Quem dera
A primavera da flor
Tivesse todo esse aroma de beleza
Que é o amor
Perfumando a natureza
Numa forma de mulher
Por que tão linda assim não existe
A flor
Nem mesmo a cor não existe
E o amor
Nem mesmo o amor existe
E eu fico um pouco triste
Um pouco sem saber
Se é tão lindo o amor
Que eu tenho por você"



 Escrito por Marcelo às 09h57
[   ] [ envie esta mensagem ]




Janela da alma



Hoje, às 23h30, a TVE Brasil exibe no programa Cadernos de Cinema o documentário Janela da alma, de João Jardim e Walter Carvalho. O interessantíssimo filme propõe uma reflexão sobre a deficiência visual - da simples miopia à cegueira -a partir do depoimento de 19 entrevistados, entre eles o cineasta Wim Wenders, o músico Hermeto Pascoal e o fotógrafo Eugen Bavcar. Após o documentário, o programa apresenta um debate com o oftalmologista Almir Ghiarone, professor de cinema da PUC Miguel Pereira e este que vos escreve. No sábado que vem, à 1h, tem reprise.

 Escrito por Marcelo às 12h09
[   ] [ envie esta mensagem ]




Mais "Conversando com mamãe"

O site Críticos.Com publica hoje minha resenha sobre o filme Conversando com mamãe, do argentino Santiago Carlos Olves. Abaixo, um trecho do texto. Leia a íntegra aqui.

(...) assim como grande parte da recente – e em geral ótima – produção cinematográfica portenha, o trabalho de Santiago Carlos Olves procura esmiuçar os efeitos da crise econômica a partir do microcosmo de um núcleo familiar, conjugando o drama particular às razões coletivas que o suscitaram. A obra acrescenta mais uma peça no vigoroso processo de auto-reflexão que a ruína financeira do país impingiu aos argentinos - e cuja ponta mais visível encontra-se justamente no cinema feito por lá hoje.

O enfoque temático e o tom agridoce que envolvem Conversando com Mamãe são similares aos de outros filmes da atual safra, como O Filho da Noiva, de Juan Jose Campanella, e Lugares Comuns, de Adolfo Aristarian, para ficarmos com apenas dois exemplos. A premissa da trama é quase banal: Jaime (Eduardo Blanco) leva uma cômoda vida de classe média até conhecer o desemprego. O dinheiro começa a faltar, impossibilitando que mantenha a confortável casa, as viagens, o colégio dos filhos. Vê-se também obrigado a se desfazer de sua incrementada picape. Diante de tantas dificuldades, acaba sendo pressionado pela mulher (Silvina Bosco) e pela sogra (Floria Bloise) a vender o pequeno apartamento onde mora, de favor, a sua mãe (China Zorrilla). No intuito de convencê-la a deixar o imóvel, ele passa a visitá-la diariamente – e essa reaproximação quase que compulsória irá provocar mudanças radicais em sua existência. (...)



 Escrito por Marcelo às 09h57
[   ] [ envie esta mensagem ]




"Renascer da própria força, própria luz e fé"

Diante de tudo, vale ouvir novamente o querido Gonzaga Jr, na voz da Elis...

"Redescobrir"

Gonzaguinha

"Como se fora brincadeira de roda, memória 
Jogo do trabalho na dança das mãos, macias
O suor dos corpos na canção da vida, história
O suor da vida no calor de irmãos, magia
Como um animal que sabe da floresta, perigosa
Redescobrir o sal que está na própria pele, macia
Redescobrir o doce no lamber das línguas, macias
Redescobrir o gosto e o sabor da festa, magia
Vai o bicho homem fruto da semente, memória
Renascer da própria força, própria luz e fé,
memória
Entender que tudo é nosso, sempre esteve em nós,
história
Somos a semente, ato, mente e voz, magia
Não tenha medo, meu menino bobo, memória
Tudo principia na própria pessoa, beleza
Vai como a criança que não teme o tempo, mistério
Amor se fazer é tão prazer que é como se fosse dor,
magia
Como se fora brincadeira de roda, memória
Jogo do trabalho na dança das mãos, macias
O suor dos corpos na canção da vida, história
O suor da vida no calor de irmãos, magia"


P.S. Meu Deus, não tinha me tocado que o título do show da Elis era tão emblemático...



 Escrito por Marcelo às 09h42
[   ] [ envie esta mensagem ]




Duas notas sobre política

Dois apontamentos sobre política, assunto que raramente freqüenta este blog:

. Concordo com o Veríssimo. Não consigo compreender o tamanho regozijo de algumas pessoas ao ver o processo de dissolução do discurso ético que sempre marcou o PT. Se houve sérios desvios - que devem ser denunciados e investigados, com dura punição aos comprovadamente culpados -, isto não pode invalidar premissas que me parecem corretas. A quem serve o mote "todos os políticos são iguais"? É claro que não são.

. Foram tristes, muito tristes, as imaens do querido Chico Alencar chorando compulsivamente na sessão de ontem da CPI, após assistir ao pronunciamento de Duda Mendonça. As lágrimas do Chico e de tantos outros que continuam a honrar o PT (sim, porque não se pode confundir o partido com uma banda podre, equívoco em que o próprio PT recaiu ao julgar outrem) são também as minhas lágrimas.


P.S. A foto é do Ailton de Freitas (O Globo)



 Escrito por Marcelo às 09h07
[   ] [ envie esta mensagem ]




Canção para ontem

"Stormy weather"

Ted Koehler / Harold Arlen

"Don’t know why
There’s no sun up in the sky
Stormy weather
Since my man and I ain’t together
Keeps raining all of the time

Oh yeah
Life is bad
Gloom and misery everywhere
Stormy weather, stormy weather
And I just can get my poor self together
Oh I’m weary all of the time
The time, so weary all of the time

When he went away
The blues came in and met me
Oh yeah if he stays away
Old rocking chair's gonna get me
All I do is pray
The Lord will let me
Walk in the sun once more

Oh I can't go on, can't go on, can't go on
Everything I have is gone
Stormy weather, stormy weather
Since my man and I, me and my daddy ain’t together
Keeps raining all of the time
Oh, oh, keeps raining all of the time
Oh yeah, yeah, yeah raining all of the time
Stormy stormy
Stormy weather"

* Esta canção está agora irremediavelmente ligada a uma inesquecível noite de vinhos e flores... Quando eu pude comprovar que cozinhar para o outro pode ser mesmo um ato - singularíssimo - de amor. 



 Escrito por Marcelo às 11h11
[   ] [ envie esta mensagem ]




Concurso literário

Com o apoio do Singraf, da Fundação Gutemberg de Artes Gráficas e da Abrigraf, o Sebrai está promovendo um concurso literário que contempla cinco gêneros literários: romance, conto, poesia, infanto-juvenil e acadêmico. Os livros podem ser inscritos até o dia 31 de agosto, e os vencedores terão direito à impressão de 200 exemplares de sua obra. Mais informações, aqui.


P.S. Imagem do Escher...



 Escrito por Marcelo às 11h06
[   ] [ envie esta mensagem ]




Gurufim do Fernando

Atenção, pessoal: hoje, a partir das 18h, no Carlitos, vai rolar o gurufim do amigo Fernando Toledo. Será uma forma de prestarmos um tributo ao querido amigo, que faleceu na última segunda-feira. Para quem não sabe, gurufim é um ritual de despedida sem choros, velas ou lamentações, mas com bebida, música e dança. Trata-se de uma velha tradição, herança dos escravos bantos, que foi costume nas comunidades mais carentes do Rio de Janeiro até a década de 60 e marcou a partida de personalidades importantes do samba, como Paulo da Portela (que reuniu 15 mil pessoas em Madureira - foto acima), Silas de Oliveira e, mais recentemente, Zé Ketti e João Nogueira.



 Escrito por Marcelo às 10h40
[   ] [ envie esta mensagem ]




Cinema e debate no Sesc

O amigo Bruno Dorigatti convida para o evento acima.



 Escrito por Marcelo às 14h05
[   ] [ envie esta mensagem ]




Canção para hoje

"Cuide bem do seu amor"

Herbert Viana

"A vida sem freio me leva, me arrasta, me cega
No momento em que eu queria ver
No segundo que antecedo o beijo, a palavra que destrói o amor
Quando tudo ainda estava inteiro, no instante em que desmoronou
Palavras duras em voz de veludo
E tudo muda, adeus velho mundo
Há um segundo tudo estava em paz
Cuide bem do seu amor, seja quem for
Cuide bem do seu amor, seja quem for

E cada segundo, cada momento, cada instante
É quase eterno, passa devagar
Se seu mundo for um mundo inteiro, sua vida, seu amor, seu lar
Cuide tudo que for verdadeiro, deixe tudo que não for passar
Palavras duras em voz de veludo
E tudo muda, adeus velho mundo
Há um segundo tudo estava em paz
Cuide bem do seu amor, seja quem for
Cuide bem do seu amor, seja quem for

Palavras duras em voz de veludo
E tudo muda, adeus velho mundo
Há um segundo tudo estava em paz
Cuide bem do seu amor, seja quem for
Cuide bem do seu amor, seja quem for"


P.S. A foto não tem a ver? É que às vezes as coisas não respondem às palavras mesmo...



 Escrito por Marcelo às 12h28
[   ] [ envie esta mensagem ]




Conversando com mamãe

O tom agridoce e a reflexão sobre os efeitos da crise econômica a partir do microcosmo das relações familiares são dois traços marcantes da recente - e em geral ótima - produção cinematográfica recente argentina. Uma das qualidades de filmes como O filho da noivaLugares comuns (para ficarmos com apenas dois exemplos) é justamente conseguirem o equilíbrio entre o drama individual e a visão coletiva, que permite a compreensão sobre os efeitos do problema social sem panfletarismos. E é a falta desse equilíbrio que impede que Conversando com mamãe (leia a sinopse abaixo), de Santiago Carlos Oves, tenha a excelência dos demais. Se Oves acerta na direção de atores, principalmente dos protagonistas vividos pelos excelentes China Zorrilla e Eduardo Blanco, que interpretam mãe e filho, erra - e muito - a mão nos desnecessários flashbacks. Ao se pretender lírico, beira o piegas, apelando para imagens supostamente "poéticas", como folhas que caem marcando a passagem de tempo. É uma pena, já que a trama se sustentaria nas seqüências lineares, por si dramáticas e tocantes, que narram passo a passo o processo de reaproximação entre o personagem vivido por Blanco e sua mãe. A sensação é que se trata de um filme mediano, que não alçou maiores vôos por exagero no açúcar.

Sinopse: Mamá tem 80 anos e seu filho Jaime tem 50. Ambos vivem em mundos bem diferentes. Jaime está casado, tem dois filhos, uma bela casa, dois carros e uma sogra para cuidar. Mamá vive só e da mesma forma simples que viveu ao longo da vida. Um dia, porém, ocorre o inesperado. A empresa para qual Jaime trabalha o despede por uma questão de ajuste interno. A lamentável situação o leva a tomar decisões drásticas. Uma delas é a de vender o apartamento da mãe para pagar a hipoteca da casa e as mensalidades atrasadas dos colégios dos filhos. Quando vai ao apartamento de Mamá lhe dar a triste notícia, Jaime acaba sendo surpreendido, afinal, Mamá tem um noivo treze anos mais novo e pretende formalizar sua união com ele. E, naturalmente, nem pensa em abrir mão do apartamento.



 Escrito por Marcelo às 09h34
[   ] [ envie esta mensagem ]




Os jornalistas e o bar

 

Foi bastante descontraído o bate-papo que o Getúlio promoveu na última segunda sobre Os jornalistas e o bar. Calouro da turma (pelo menos em metragem de cerveja), fiz parte da mesa ao lado de feras como Roberto Moura, Paulo Thiago, Hugo Sukman, João "Janjão" Pimentel, Marceu Vieira e Jefferson Lessa, numa conversa regada a calderetas e cheia de "causos", comandada pelo Baiano e pelo Mário Lago Filho. Curiosamente, foi o amigo que faltou - nosso grande Álvaro "Marechal" - quem mais esteve presente no lugar; pelo menos como protagonista de várias das histórias contadas. Entre relatos históricos (Moura), musicais (Hugo), desajeitados (Marceu e eu), experientes (Paulo) e hilários (Janjão), faltou apenas o Jefferson, titular da coluna Pé Limpo do Rio Show (O Globo). Sem vencer a timidez, ele foi o único que não se pronunciou. Pelo menos durante o debate propriamente dito. Sim, porque a conversa seguiu sem microfone (graças a Deus!) entre os protagonistas até quase meia-noite.



 Escrito por Marcelo às 09h24
[   ] [ envie esta mensagem ]




...

Minha intenção era escrever aqui sobre o bate-papo sobre Os jornalistas e o bar, do qual participei ontem, no Getúlio. Mas eis que recebo a notícia que não queria receber: a de que o amigo Fernando Toledo, que muito melhor do que eu falaria naquele debate, acaba de falecer. Ele lutava bravamente para viver após ser vítima de um butal atropelamento. Triste, muito triste é como estou me sentindo. Que o Fernando tenha paz, seja lá onde for.

P.S. O corpo está sendo velado no Memorial do Carmo, onde fica até 11h de amanhã.



 Escrito por Marcelo às 15h19
[   ] [ envie esta mensagem ]




Canção para afastar pesadelo

"Sonho real"

Lô Borges

"À primeira vista
A paixão não tem defesa
Tem de ser um grande artista
Pra querer se segurar
Faz tremer a perna
Faz a bela virar fera
Quando alguém que a gente espera
Quer se chegar

Só de pensar
Já me faz mais feliz
Nem bem o amor começa
Eu já quero bis

Chega e instala a beleza
No mesmo momento. . .

Ilusão tão boa
Quanto o astral de uma pessoa
Chega junto, roça a pele
E já quer se enroscar
Lê seu pensamento
Paralisa seu momento
Ao se encostar

Felicidade pode estar pelo sim
Às vezes do teu lado
Tem alguém afins

Chega e instala a beleza
No mesmo momento. . .

Vem andar comigo
Numa beira de estrada
Desse lado ensolarado
Que eu achei pra caminhar
Vem meu anjo torto
Abusar do meu conforto
Ser meu bem em cada porto
Que eu ancorar

Felicidade pode estar pelo sim
Às vezes do teu lado
Tem alguém a fim

Chega e instala a beleza
Momento de sonho real..."



 Escrito por Marcelo às 11h52
[   ] [ envie esta mensagem ]




Menino de 47

 

É uma grande alegria constatar que meu Império Serrano está de fato reencontrando suas história. No sábado, eu e F. estivemos na quadra para o Grito de Carnaval da escola. Com a diretoria nova, várias providências foram tomadas (a troca do carnavalesco, a contratação de um assessor de imprensa que conhece do assunto e a postura claramente construtiva são traços evidentes disso), e os resultados já ficaram claros para quem esteve lá. A quadra está um brinco - limpíssima, funcional e confortável -, a segurança é total e as atrações da noite confirmaram que a agremiação compreendeu de vez que somente com a união interna e a alimentação permanente com a seiva de suas tradições pode manter a Serrinha de pé (ainda que estejamos, talvez definitivamente, fora das competições do carnaval).

A marca forte da ligação com tudo aquilo que fez do Império, Império deu-se sobretudo neste quesito. A noite foi aberta com a apresentação do Jongo da Serrinha. Em seguida, foi a vez de a Velha Guarda brindar o público com sambas de terreiro, com destaque para as pérolas de Silas de Oliveira. Houve também um pequeno mas bonito tributo a Tia Eulália, morta recentemente. Do meio para o final, a bateria deu o habitual show (não tem jeito: a harmonia dos agogôs faz mesmo da bateria do Império um fenômeno singularíssimo), ajudando o puxador Nego a interpretar os clássicos sambas-de-enredo da Serrinha: de Aquarela brasileira à homenagem ao Betinho, de Uma pequena notável a Mãe baiana mãe, de Lendas das sereias a Bum bum paticumbum prugurundum.

Contudo, em meio a tanta beleza, o grande momento da madrugada foi mesmo a passagem da bandeira para os novos mestre-sala e porta-bandeira. Coube a Jamelão, lenda-viva da verde-e-branco de Madureira, conduzir o estandarte de um lado a outro da quadra, enquanto se ouvia, apenas com a marcação de um surdo, Jorginho do Império desbravar lentamente os versos do hino Heróis da liberdade. Elegantemente trajado com terno bege e gravata verde, Jamelão tinha os olhos marejados - e não houve como ficarmos todos, principalmente os imperianos de coração, emocionados também. Era como se dignidade daquele sambista veterano trouxesse sintezidada em si a dignidade de uma escola que teima em permanecer, mesmo que não integrada às regras do jogo do carnaval de hoje.

"Uma escola de samba", aliás, era o que se via estampado nas camisas de alguns dos integrantes. Perfeito. Por detrás da expressão que aparentemente dizia o óbvio, estava a essência de tudo: se ali não há imensos carros alegóricos, se ali as fantasias pecam por falta de luxo e de acabamento, em contrapartida ali há, sim, uma escola. Dessas que deram (e seguem a dar) lições de samba, não de modismos ou tecnicismos, e às quais, lamentavelmente, o carnaval já não aplaude mais...



 Escrito por Marcelo às 10h44
[   ] [ envie esta mensagem ]




Os amanhãs

No sábado passado, o suplemento Idéias, do Jornal do Brasil, publicou resenha minha sobre Os amanhãs, promissor livro de estréia do franco-argelino Hafid Aggoune. Segue a íntera do texto:

Sutis pinceladas sobre o vazio da existência
 
Marcelo Moutinho
Jornalista e escritor

Pentimento é o termo utilizado para designar o aparecimento, numa pintura, de desenhos feitos antes do traço final do artista. Esboços primários, que acabaram escondidos sob a mão definitiva e dos quais por vezes nem o próprio pintor recorda-se mais. Trazendo a expressão da esfera da arte para os domínios tão ou mais complexos da vida, é uma espécie de pentimento o que ocorre com Pierre, o protagonista do notável romance de estréia do franco-argelino Hafid Aggoune. Lançado pela Rocco, Os amanhãs erige-se nas lembranças fluidas desse atormentado personagem, que, após hibernar por quase meio século em um asilo para doentes mentais, enfim reencontra-se consigo mesmo.

Tal reencontro acontece quando já soma 76 anos de idade e irá concluir que é um indivíduo sem época, um ''velho sem velhice''. Talvez inconscientemente, Pierre seguira por décadas a máxima de Blanchot que serve de epígrafe ao livro: ''Quando o homem viveu o inesquecível, ele se fecha em si mesmo para lembrá-lo ou vagueia para encontrá-lo''. Assim se deu. Desde que vira Margot, a grande paixão da juventude, ser levada para um campo de concentração nazista, Pierre mergulhou numa treva branca que conjugava o completo esquecimento do passado às tardes solitárias no jardim principal do hospício. Ali, sempre sentado no mesmo banco, ele esperou dia após dia por um trem que evidentemente nunca chegou, enquanto observava outro interno pintando quadros imaginários no ar. A exemplo desse pintor, Pierre procurava formas na invisibilidade. ''Minha vida era aquela pintura aprisionada dentro de um espírito e aquela mão que se agitava em vão'', anota ele em certa passagem.

No breve e pungente relato existencialista de Aggoune, há evidentes ecos da obra de Camus, cuja presença ganha ainda mais realce com a citação explícita ao clássico O estrangeiro. A narrativa é cerzida em frases curtas e esgarça o lirismo até os limites do meramente piegas, valendo-se de constantes saltos temporais e de uma não-linearidade que ajuda a espelhar a confusão mental do protagonista, tornando o leitor solidário a ele. Os fiapos da memória de Pierre são distendidos pouco a pouco, permitindo que sua vida se reaproxime ''como os nacos que o amor e a dor arrancam dos corpos fossilizados pela erosão duradoura da melancolia''. As imagens que surgem a partir da cisão com a realidade, detonada pela partida de Margot, misturam-se a recordações mais pretéritas: a infância na Argélia, a figura forte da bisavó, a chegada a Paris... São aparições dolorosas, ''quase queimaduras'', que ele começa a timidamente registrar num diário.

Esse diário, no qual ''cada letra é um sol negro cavado na luz'', confunde-se com o próprio romance e representa para o protagonista a possibilidade de ''novamente nomear'', escrevendo ''o que não soube gritar'', unindo novamente imagem e palavra. É um livro cujos sussurros ele ouve, e que ''se escreve'' praticamente sozinho, por meio de partículas da existência que reaparecem em múltiplos pedaços de memória. ''Era preciso uma nova pele, que a antiga fosse no turbilhão; era preciso um renascimento para essa vida reencontrada, embora queimada e ferida de tanto vegetar, para aquele corpo sadio do limbo há algumas horas'', admite o protagonista, logo após sair de seu demorado exílio interior. Quando então pode se ''reconhecer'' e afirmar: ''Eu me chamo Pierre Argan''.

Trata-se do mesmo Pierre Argan que, à beira dos oitenta, garante ter também 17, 12 ou dois anos, num amálgama de tempos que se justifica se compreendemos, tal qual o personagem, que as raízes do passado estarão sempre e paradoxalmente entranhadas no amanhã.

Ou n' Os amanhãs, como enuncia o título do romance em referência a uma tela da pintora Margot, e que em essência amplia as possibilidades futuras, a esperança de se vislumbrarem espantos onde ''não há nada''. Pois se tudo no mundo resume-se a esse imenso vazio que as aspas sugerem, ao menos ''é preciso aprender a preenchê-lo com vida'', como percebe e anuncia ao leitor, em epifania, o próprio Pierre.



 Escrito por Marcelo às 10h06
[   ] [ envie esta mensagem ]




Festa no Império

Retomando uma antiga tradição, meu querido Império Serrano vai promover amanhã, a partir das 22h, o seu Grito de Carnaval. Durante a festa, serão lembrados os sambas clássicos que fizeram da agremiação uma referência no assunto, como adianta, a título de convite, a grande Rachel Valença. Pesquisadora do carnaval e imperiana de alma e coração, Rachel me informou que na ocasião receberei uma credencial permanente da verde-e-branco da Serrinha. Nem preciso contar da emoção que estou sentindo, né?



 Escrito por Marcelo às 13h40
[   ] [ envie esta mensagem ]




Do Absorto

“Nós não experimentamos sentimentos que nos transformam, mas sentimentos que nos sugerem a ideia de transformação. Assim também o amor não nos liberta do egoísmo, mas faz-nos senti-lo e dá-nos a ideia de uma pátria longínqua onde esse egoísmo já não teria lugar.”

Albert Camus



 Escrito por Marcelo às 10h52
[   ] [ envie esta mensagem ]




Livros na mesa

Amanhã, a partir das 11h, vai rolar no charmoso sebo Al Farabi mais uma edição do Livros na mesa. O evento promovido pela Estação das Letras consiste na troca de livros por parte dos participantes e inclui também um bate-papo com escritores. Nesta edição, estarão lá Claudia Lage e a querida Adriana Lisboa, que falarão sobre a nova literatura brasileira. O Al Farabi fica na Rua do Rosário, 30.



 Escrito por Marcelo às 10h52
[   ] [ envie esta mensagem ]




Programação do Getúlio

Wilson Flora, o popular Baiano, passou-me ontem a programação completa das comemorações de um ano do Bar Getúlio. A farra começou por estes dias, com shows de Didu e Diogo Nogueira em homenagem ao João, debate sobre A política e o botequim, além do espetáculo de ontem, que reuniu os grandes Moacyr Luz (na foto, a meu lado, na cerveja pós-show) e Luiz Carlos da Vila. Estive lá com a F. e pretendo voltar nas outras semanas, que prometem ser bem bacanas. Os eventos acontecem sempre às 20h, com entrada gratuita. Segue a agenda:

. 8 de agosto, segunda - Conversa sobre Os jornalistas e o botequim, com Hugo Sukman, Marceu Vieira, João Pimentel, Sergio Cabral, Luís Pimentel, Álvaro "Marechal", Marcelo Moutinho, Jefferson Lessa e Paulo Thiago;

. 9 de agosto, terça - Lançamento do cd Os tigres da Lapa, com Beto Cazes, Zé Paulo Becker, Marcos Ariel e convidados;

. 10 de agosto, quarta - A poesia e o bar, com Mário Lago Filho, Elisa Lucinda, Mano Melo e Chacal. Música com Humberto Araújo;

. 15 de agosto, segunda - O samba politicamente incorreto de J. Canalha, com Henrique Cazes, Luís Filipe de Lima e Beto Cazes;

. 16 de agosto, terça - Conversa sobre Os poetas e a boêmia, com Aldir Blanc, Paulo César Pinheiro, Sérgio Natureza, Abel Silva e Paulo Feital. Música com Galotti e os Anjos da lua;

. 17 de agosto, quarta - Uma seresta para Getúlio, com José Milton, Paulão Sete Cordas, Walter Alfaiate e Valter Sete Cordas;

. 22 de agosto, segunda - Roda de choro;

. 23 de agosto, terça - Conversa sobre A baixa gastronomia, com Moacyr Luz, Chico Paula Freitas e Baiano;

. 24 de agosto, quarta - Leitura da carta-testamento de Getúlio Vargas por Antonio Pedro. Show As músicas de Vargas, com Cristina Buarque, Alfredo Del Penho e Pedo Paulo Malta;

. 29 de agosto, segunda - Conversa sobre O teatro e o botequim, com Otávio Augusto, Stephan Nercessian e Nelson Rodrigues Filho. Música com Zé Luís do Império e Wilson das Neves;

. 30 de agosto, terça - Conversa sobre Os botequins do Rio e de São Paulo, com Alfredinho do Bip Bip, Rocardinho (Pirajá), Sérvula (Sobrenatural), Germano (Traço de União), Rosana (Bar Luiz) e Helton Altman (Filial);

. 31 de agosto, quarta - Roda de samba de encerramento, com vários convidados.



 Escrito por Marcelo às 13h31
[   ] [ envie esta mensagem ]




Sétimo Selo

É com imensa alegria que repasso a todos vocês o convite do grande amigo Sidney Silveira para o lançamento do primeiro livro de sua recém-criada editora, a Sétimo Selo. A estréia será em grande estilo, com o opúsculo A natureza do Bem, de Santo Agostinho, em edição bilíngüe (português/latim). O livro está caprichadíssimo e é o merecido resultado não só da imensa e admirável coragem do amigo em abrir um selo dentro desse mercado tão dífícil, mas também de suas leituras aprofundadas sobre a filosofia medieval (a alentada apresentação da obra, assinada pelo próprio Sidney, só o comprova). O lançamento acontece amanhã, a partir das 20h, na Livraria da Travessa.



 Escrito por Marcelo às 10h44
[   ] [ envie esta mensagem ]




Pinakotheke

 

A amiga Camila, da Editora Pinakotheke, convida para dois eventos que acontecem nesta semana. Hoje, a partir das 20h, vai rolar a abertura da exposição Bruno Giorgi - 1905/1993, com o lançamento de livro homônimo comemorativo do centenário do artista. A mostra acontece na Galeria Pinakotheke (Rua São Clemente, 300 - Botafogo). Na quinta, será a vez do livro Trilogias - Conversas entre Nelson Feliz e Glória Ferreira, com exibição do documentário Por dentro da matéria, de Cacá Vivaldi, na Livraria Argumento (no Leblon), também a partir das 20h.



 Escrito por Marcelo às 11h37
[   ] [ envie esta mensagem ]




Hermanos

Bom ouvir, a caminho de uma manhã/tarde azul azul azul no Parque Laje, o novo disco dos Los Hermanos. Mais ainda concluir que é tão bom quanto os dois imediatamente anteriores. O "climão" é o mesmo. Adorei, em particular, esta canção do Amarante: 

"O vento"

Rodrigo Amarante

"Posso ouvir o vento passar
assistir à onda bater
mas o estrago que faz
a vida é curta pra ver...
Eu pensei
que quando eu morrer
vou acordar para o tempo
e para o tempo parar.
Um século, um mês,
três vidas e mais
um passo pra trás?
Por que será?
Vou pensar...

Como pode alguém sonhar
o que é impossível saber?
Não te dizer o que eu penso
já é pensar em dizer
e isso, eu vi,
o vento leva...
Não sei mas
sinto que é como sonhar
que o esforço pra lembrar
é a vontade de esquecer... 
E isso por quê?
Diz mais

Se a gente já não sabe mais
rir um do outro, meu bem, então
o que resta é chorar e talvez,
se tem que durar,
vem renascido o amor
bento de lágrimas.
Um século, três,
se as vidas atrás
são parte de nós.
E como será?
O vento vai dizer
lento o que virá
e se chover demais
a gente vai saber,
claro de um trovão,
se alguém depois
sorrir em paz.
Só de encontrar..."



 Escrito por Marcelo às 13h21
[   ] [ envie esta mensagem ]




Poema da volta

"O rio"

Manuel Bandeira

"Ser como o rio que deflui
Silencioso dentro da noite.
Não temer as trevas da noite.
Se há estrelas no céu, refleti-las.

E se os céus se pejam de nuvens,
Como o rio as nuvens são água,
Refleti-las também sem mágoa
Nas profundidades tranqüilas."



 Escrito por Marcelo às 11h14
[   ] [ envie esta mensagem ]




[Dentro de] um livro

No último sábado, o Prosa & Verso (O Globo) publicou resenha minha sobre a coletânea [Dentro de] um livro. Segue a íntegra do texto:

Quando ler é aventura de vida


[Dentro de] um livro, de vários autores. Casa da Palavra, 152 páginas. R$ 32

Marcelo Moutinho

Aliteratura, no fundo, é narcisa. Livros se comprazem em falar de seus pares, e escritores amam escrever sobre aqueles a quem sobretudo amam: os livros. Cada qual a seu modo. Clarice Lispector travestiu-se de menina para revelar, em “Felicidade clandestina”, que um romance pode transformar-se em objeto de desejo e inaugurar uma relação estranhamente erótica entre o leitor e a escritura. Borges comparou o universo a uma imensa biblioteca, onde haveria um espelho que representa e promete ao homem “o eterno”. Chegando ao paroxismo, Elias Canetti imaginou a figura de Peter Kien, protagonista do extraordinário “Auto-de-fé”, que de tão mergulhado em suas leituras desaprendeu a vida.
Explorar essa relação simbiótica — e já clássica da literatura — é o que pretende a coletânea “[Dentro de] um livro”, recém-lançada pela Casa da Palavra. A seleta reúne 16 autores brasileiros contemporâneos, de nomes consagrados — como Lygia Fagundes Telles e Luis Fernando Verissimo — a escritores cuja obra ainda se sedimenta, casos de João Paulo Cuenca e Marcelino Freire. Faz companhia a eles Gonçalo M. Tavares, expoente da nova literatura portuguesa.
O tema em comum confere organicidade à obra que, como toda compilação de vários autores, caracteriza-se pelos altos e baixos. A irregularidade não impede, porém, que ofereça ao leitor um instigante panorama sobre as múltiplas facetas da bibliofilia. Com destaque para um viés: a perspectiva da literatura como escudo de um mundo que aparentemente refuta. Tal traço aparece já no conto que abre o livro — o ótimo “Verde lagarto amarelo”, de Lygia Fagundes Telles —, através do personagem que busca na escrita o remanso para suas frustrações. Em “Tantas pernas”, de Raimundo Carrero, é o garoto escondido sob a mesa, onde “protege-se da própria solidão”, que descobrirá um livro. Enamorado pelas palavras que sequer pode compreender, ele as acaricia, e os suaves toques de suas mãos sobre as páginas encetam um vínculo que perdurará.
O sentimento é análogo em “Nomes”. A tentativa de Heloísa Seixas de erigir um tributo à narrativa fabular, no entanto e infelizmente, esvai-se em literalidades demasiadas. Falta ao conto aquela que foi seiva da obra dos homenageados Hans Christian Andersen, James Barrie e Lewis Carrol: imaginação. Aliás, esse hiato entre idéia e realização, presente no texto de Heloísa, se repetirá em outras das narrativas. Como “Abjeto abjeato”, no qual a boa premissa desenhada por Cardoso — o livro que ganha asas — é prejudicada pelo uso gratuito de expressões em caixa alta, assonâncias vazias e trocadilhos sem significado. A aparente tentativa de chancelar uma “singularidade” que o distinga atrapalha a fluência de um relato que dispensa tais expedientes.
Os contos dos incensados Marcelino Freire e Fernando Bonassi também estão longe de ratificar o nome que conquistaram. Se em “Chá” Marcelino não consegue ultrapassar a musicalidade cada vez mais patente em seus trabalhos, “Texto para leitura”, de Bonassi, parece um escrito apressado. Os demais autores preferiram concentrar-se em aspectos mais particulares da bibliofilia. Com “Estética”, Antonia Pellegrino acena para o vínculo absolutamente peculiar que leitores desenvolvem com os livros que elegem. O protagonista do conto conjectura: “Se um dia esse meu velho e bom exemplar for parar num sebo, ele será o registro vivo de uma relação, a história de um texto ao lado de uma leitura sobre ele, e de um terceiro texto nascido desse encontro, como duas teses produzem uma síntese”. Prisma semelhante é o de Paulo Roberto Pires em “Outra arte”, cujo narrador alimenta-se de “restos de almas e musas extraviadas”. Cecilia Giannetti, em “Inseto”, insinua haver situações nas quais as margens rabiscadas são mais interessantes do que o próprio livro. E João Paulo Cuenca vai ainda além: “No hay banda” investe sobre a possibilidade de que a literatura não só ajude a dar conta da vida, mas venha mesmo a concebê-la — e previamente.
O verso que perdura na lembrança independentemente da vontade (Gonçalo M. Tavares), a especulação sobre a trajetória dos livros — da livraria à biblioteca, ao sebo, a uma nova biblioteca (Pedro Sussekind), um olhar sobre o comportamento privado dos escritores (Ivana Arruda Leite) e o encontro imaginário entre Beckett e Proust (Daniela Pereira de Carvalho) são outras vertentes esmiuçadas pelos autores, que também abrem espaço para o humor (Luis Fernando Verissimo e Xico Sá). O grande momento da seleta, contudo, é o engenhoso “Pequenos danos”, de Joca Reiners Terron. Assumindo-se como protagonista e abusando de auto-ironias, o autor narra suas desventuras após receber carta do presidiário que lhe pede a remessa de um livro para a biblioteca da penitenciária. O nome do detento — Jorge Luís Menard, que mistura Borges a um de seus mais conhecidos personagens, Pierre Menard — já funciona como uma chave para se decifrar os meandros do texto, que, a exemplo de uma daquelas tradicionais bonecas russas com similares menores em seu interior, comporta outras camadas narrativas. Para além da trama, o conto de Joca reencena o ciclo moto-contínuo em que gira a própria literatura; pois se cada novo livro — incluindo aí a coletânea ora editada — suscita a nostalgia dos que já lemos, paralelamente irá se tornar memória para os que chegarem depois.

MARCELO MOUTINHO é jornalista e escritor



 Escrito por Marcelo às 11h08
[   ] [ envie esta mensagem ]




Filmes

Durante a semana de prostração, restou pouca coisa a não ser assistir a filmes ou ler livros e os jornais do dia. Entre os tantos DVDs aos quais conferi, dois me chamaram especialmente a atenção, e por isso faço questão de elencá-los aqui, ao lado de breves comentários.

Saravah, do francês Pierre Barouh, é o registro documental de parte da gema da música popular brasileira no final dos anos 60. O diretor lança um olhar indisfarçadamente fascinado tanto para a obra de bambas como os então octagenários João da Baiana e Pixinguinha, quanto para jovens cuja carreira ainda se solidificava, como Paulinho da Viola e Baden Powell. Ainda que em termos de roteiro e linearidade o documentário de Barouh seja bastante caótico, Saravah vale pelas imagens raríssimas que traz e permaneceram inéditas no Brasil por 36 anos. É impossível não se emocionar diante de João da Baiana sapateando e tocando prato e faca, enquanto canta Okerê (de sua autoria) e Yaô (de mestre Pixinguinha), acompanhado do violão-gênio de Baden. Impossível não sorrir diante de uma Bethânia deslumbrada e cocotíssima, na flor de seus 21 anos, que entre cigarros e cervejas dueta com Paulinho da Viola em sambas de Seu Jair do Cavaquinho (Pecadora), Nelson Cavaquinho e Guilherme de Brito (Pranto de poeta), além de criações à época recém-compostas do próprio Paulinho, como Coração vulgar e Coisas do mundo, minha Nega. O filme traz ainda Bethânia numa jam session ao lado de feras como o trombonista Raul de Souza e o pianista Luis Carlos Vinhas. Ela interpreta canções do mano Caetano, então exilado em Londres, recria o Frevo número 1 do Recife, de Antonio Maria, e enfrenta, com violão em punho, a bela e complexa harmonia de Edu Lobo em Pra dizer adeus. Essas são apenas algumas das cenas bacanas do filme, que reserva para os corações imperianos como o meu trechos do célebre desfile da verde-e-branco da Serrinha com o seminal Heróis da liberdade.

O lenhador, de Nicole Kassel, é um vislumbre delicado sobre a polêmica e tormentosa questão da pedofilia. Kevin Bacon é quem (muito bem) interpreta o protagonista do filme – um homem que tenta a reinserção na sociedade após passar 12 anos detido por ter molestado uma menina. Sem pré-condenações e cheio de nuances, o trabalho de Kassel foca-se essencialmente sobre o verdadeiro inferno interior em que vive esse homem, em sua luta cotidiana para não ceder novamente à tentação que o testa diariamente e, ao mesmo tempo, sua brutal dificuldade em construir novos caminhos tendo o passado que tem. Um filme dolorido e sem excessivas dramatizações...



 Escrito por Marcelo às 11h02
[   ] [ envie esta mensagem ]


[ ver mensagens anteriores ]




UOL
 
Histórico
  01/04/2007 a 30/04/2007
  01/03/2007 a 31/03/2007
  01/02/2007 a 28/02/2007
  01/01/2007 a 31/01/2007
  01/12/2006 a 31/12/2006
  01/11/2006 a 30/11/2006
  01/10/2006 a 31/10/2006
  01/09/2006 a 30/09/2006
  01/08/2006 a 31/08/2006
  01/07/2006 a 31/07/2006
  01/06/2006 a 30/06/2006
  01/05/2006 a 31/05/2006
  01/04/2006 a 30/04/2006
  01/03/2006 a 31/03/2006
  01/02/2006 a 28/02/2006
  01/01/2006 a 31/01/2006
  01/12/2005 a 31/12/2005
  01/11/2005 a 30/11/2005
  01/10/2005 a 31/10/2005
  01/09/2005 a 30/09/2005
  01/08/2005 a 31/08/2005
  01/07/2005 a 31/07/2005
  01/06/2005 a 30/06/2005
  01/05/2005 a 31/05/2005
  01/04/2005 a 30/04/2005
  01/03/2005 a 31/03/2005
  01/02/2005 a 28/02/2005
  01/01/2005 a 31/01/2005
  01/12/2004 a 31/12/2004
  01/11/2004 a 30/11/2004
  01/10/2004 a 31/10/2004
  01/09/2004 a 30/09/2004
  01/08/2004 a 31/08/2004
  01/07/2004 a 31/07/2004
  01/06/2004 a 30/06/2004
  01/05/2004 a 31/05/2004
  01/04/2004 a 30/04/2004
  01/03/2004 a 31/03/2004


Outros blogs
  Absorto
  Andréa Del Fuego
  Arenas cariocas
  Argonauta digital
  Benguelê
  Baiaty
  Bife sujo
  Biquinidibolinha
  Blog de anotações
  Bohemias
  Buteco do Edu
  Candeia de vento
  Canis sapiens
  Coisas perdidas atrás da estante
  Cadê Teresa
  Cartas de hades
  Desfio
  Doidivana
  Elo primitivo
  É o Brasil!
  Era o Dito
  Escreve escreve
  Eu sou fubanga
  Expurgação
  Fullbag
  Histórias do Brasil
  Hotel Hell
  Inveja de gato
  Interlúdio
  JX Blog
  Killing Travis
  Lameblogadas
  Lixo e Purpurina
  Marcelo Coelho
  Melodia infinita
  Memorabilia
  Meu outro eu
  Meu fotolog
  Navegar impreciso
  Neguinha suburbana
  Nilze Carvalho
  Novo Mascavinhas
  Olivetti 22
  Opiário
  Perto do coração selvagem
  Palavras pelo mundo
  Paralelos blog
  Pindorama
  Pátria FC
  Poison tree
  Preto, pobre e suburbano
  Primeira pessoa
  Pseudônimos
  Rabo de gato
  Ronize Aline
  Santiago Nazarian
  Santa Bárbara e Rebouças
  Seta para cima
  Sujeito a chuvas
  Socador
  Tiroteio
  Toca tudo
  Todo prosa
Sites
  Agenda samba-choro
  Bagatelas!
  Críticos
  Cronópios
  NoMínimo
  Paralelos
  Portal Literal
  Rascunho
  Tribuneiros.com
Votação
  Dê uma nota para meu blog







O que é isto?