Pai

Esta é para o velho que, se vivo, hoje completaria 72 anos de idade. Ele gostava de ouvir esta canção em suas velhas fitas K7, na voz do João, enquanto seguíamos de carro, da Barra para Madureira. Súplica ficou tão ligada à lembrança dele que hoje é impossível ouvi-la sem sentir voltarem na retina aquelas imagens: o Corcel II, a camisa de mangas curtas, sempre com bolso pra guardar o maço de Hollywood, o dinheiro desorganizado e fora da carteira, a calça jeans abaixo da barriga, os sapatos que eu achava feios, o relógio de metal meio largo no pulso... O corpo a morte de fato levou. Mas de certa forma ele está aqui, no jeitão emocional deste canceriano (como ele), no amor pelo Império Serrano (como ele), na simpatia pelos botecos, e nas canções do João e do Roberto Ribeiro, seus cantores preferidos, dos quais foi com ele que aprendi a gostar. 

"Súplica"

João Nogueira / Paulo César Pinheiro

"O corpo a morte leva
A voz some na brisa
A dor sobre pras trevas
O nome a obra imortaliza

A morte benze o espírito
A brisa traz a música
Que na vida é sempre a luz mais forte
E ilumina a gente além da morte

Vem a mim, ó música!
Vem no ar
Ouve de onde estás a minha súplica
Que eu bem sei talvez não seja a única
Vem a mim, ó música!
Vem secar do povo as lágrimas
Que todos já
Sofrem demais
E ajuda o mundo a viver em paz"



 Escrito por Marcelo às 11h16
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Paulinho

Só a título de informação: ainda há ingressos para o show de Paulinho da Viola na abertura da Flip. Já comprei o meu.

Você pode garantir o seu aqui.



 Escrito por Marcelo às 11h04
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Quintana

Em boa hora, lembra-nos o querido Henrique Rodrigues:

"Há 99 anos nascia o gaúcho Mário Quintana. Foi também jornalista e tradutor, mas sua poesia doce, cheia de humor (nasceu na cidade de Alegrete) e profundamente lírica foi que o espalhou pelos leitores.

Quintana é dos maiores nomes da nossa história literária. Reacendeu o interesse pelas formas fixas, em especial o soneto, que havia sido rejeitado pelos modernistas, e estabeleceu um fluido diálogo com todos os contemporâneos das gerações pelas quais passou - e ainda hoje dialoga. Candidatou-se três vezes à ABL. Perdeu todas, numa das maiores ingratidões literárias brasileiras. Daí fez o famoso "Poeminho do contra". Mas não precisou de fardão para seguir, leve que só, a sua trajetória de passarinho.

Ano passado fui ao hotel onde o poeta viveu por muitos anos, em Porto Alegre, que se transformou num grande centro cultural com o seu nome e tem uma programação intensa.

A editora Globo, que publicou o seu primeiro livro ("A rua dos cataventos"), está reeditando toda a obra do Quintana. Livros dele são ótimos presentes para se dar e receber (Em tempo: a editora não está me pagando pelo merchandising)."

HR escolhe também o poema:

"O adolescente"

Mário Quintana

"A vida é tão bela que chega a dar medo.

Não o medo que paralisa e gela,
estátua súbita,
mas
esse medo fascinante e fremente de curiosidade que faz
o jovem felino seguir para frente farejando o vento
ao sair, a primeira vez, da gruta.

Medo que ofusca: luz!

Cumplicemente,
as folhas contam-te um segredo
velho como o mundo:

Adolescente, olha! A vida é nova...
A vida é nova e anda nua
- vestida apenas com o teu desejo!"



 Escrito por Marcelo às 11h21
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Dois meses

"O amor não existe. O que existem são provas de amor", ouvi dizer certo dia num filme. Não sei se concordo ou se no fundo as tais "provas de amor" seriam apenas as pontas mais visíveis de algo que pode ser cotidiano, que pode estar imerso em pequeninos gestos, manias, carinhos, idiossincrasias, discussões, olhares... Saber se seu jeito único de dormir pode ser o amor, abraçá-la durante um filme no cinema por ser o amor, reconhecer seu "bico" porque não gostou de algo pode ser o amor. Um riso largo? O amor. Um abraço inesperado? O amor. Uma vontade inexplicável de chorar? O amor. Um torpedo no meio da tarde? O amor. A saudade repentina? O amor. O café-da-manhã juntos? O amor. Uma rusga mal lançada? O amor. Um livro que a gente de repente quer ler? O amor. Amor que só se esconde de quem o teme. 

Dito tudo isso, o fato é que receber uma prova de amor justamente ao completar dois meses foi bom pacas. E, sei lá por quê, me trouxe esta canção do Lô, que desde já ofereço a ela:

"Pura paisagem"

Lô Borges

"Linda, como se fosse a terra vista do espaço aberto,
acho você tão linda que nem sei falar...
Frágil, como se fosse neve, claro canal sereno
ou um luar de prata, na velha Amsterdã ...
ou pura paisagem do porto quando a tarde cai
te dou essa rosa, tão rosa como você vai
gota de orvalho na grama lá de Peckham Rye ...
Minha, pode ser minha dona, rambla de Barcelona
é um sol radiante, las puertas de Madrid ...
ou linda é Roma e vejo que você é mais
ainda mais linda que a chuva dos canaviais
Tem a beleza das pedras e dos animais
Leve, folha que o vento leva, jogo a minha vida ,
na linda promessa de ter seu amor..."


P.S. A foto? É que "me encontro ultimamente em pleno carnaval", como canta o Toquinho...



 Escrito por Marcelo às 10h22
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Dantes

Hoje, a partir das 19h, será inaugurada a loja do Sebo Dantes (aquele que era na Dias Ferreira) dentro do Cine Odeon. A festa promete ser animada: nas carrapetas estarão os amigos JP Cuenca, Cecilia Giannetti e Paulo Roberto Pires. E ainda vai ter nhoque da fortuna...



 Escrito por Marcelo às 10h02
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Ficções

No próximo sábado, a partir das 10h, vai rolar lançamento conjunto das revistas Ficções e Inimigo Rumor, de três novos títulos da coleção 7 Letras no bolso e dos livros Distância, de Virna Teixeira, Ouro, de Janice Caiafa, e O legado de Beltrano, de Rodrigo Magalhães. O evento acontecerá na Livraria Berinjela e incluirá um saboroso café-da-manhã. Esta edição da Ficções trará o conto Jujuba verde, que escrevi em meados do ano passado e só agora sai da toca. Abaixo, um trecho do conto. Espero vocês lá!

Jujuba Verde (um conto suburbano)

Marcelo Moutinho

A menina, era como a chamavam. Assim, simplesmente (e com artigo definido): a menina. Na padaria, no açougue, quando passeava com a mãe, nas festinhas com prato de alumínio-peito-de-peru-maionese, na casa da vizinha Antonia, no trabalho de Dona Augusta. Até na chamada de classe seu nome mudara de posição. Do R para o A. Disso, até que ela gostava. Terceira a entregar ou receber o teste, terceira a pegar a caderneta, terceira a ser liberada do exame médico... sentia-se privilegiada em alguma coisa nessa vida.

Morava num subúrbio de pipas no ar e balões cortando o céu nos meses de junho, subúrbio onde o tempo, de alguma forma, em algum ponto, estancou. O bairro ficava distante do centro da cidade, tão distante que parecia que tudo ia desacontecendo à medida que as ruas do bairro se aproximavam. Na casa de sobrado, só ela e a mãe (antes, havia um cachorro). O pai morrera quando ainda mais novinha e tornara-se tão-só um marido com mil e uma qualidades (no dizer da mãe). A menina espiava-o de vez em quando na pose séria, bigode cerrado, olhar vincando a testa, do quadro que enfeitava a sala. Ou no jeitão menos sóbrio do porta-retratos ao lado da cama de Dona Augusta. Mas lembrança mesmo, só dela, não tinha não.(...)



 Escrito por Marcelo às 09h51
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Rápidas (atualizadas)

. Comprei ontem no Baratos da Ribeiro dois LPs sensacionais: O banquete dos mendigos e aquele da Fátima Guedes que imita um caderno. A comentar;

. Frase bem apropriada: "Porque os deuses sabem dos eventos futuros e os homens, dos eventos presentes. Mas o sábio sabe do que vai passar-se". Quem escreveu foi Filóstrato;

. Amanhã tem festa de inauguração da Dantes no Odeon;

. Definitivamente, há gente solar e gente soturna. Optei pelo sol;

. Estou ansioso para ler o livro com os apontamentos de Kafka sobre o cinema;

. Santo Agostinho dizia algo assim: a aposta na frivolidade é uma tentativa de não olhar para a própria "má consciência";

. Como tem canceriano ligado às letras! Só nos últimos dias aniversariamos eu, Anderson Baltar, Monica Ramalho, Mara Coradello, Paulo Roberto Pires, Leonardo Lichote, João Ximenes Braga, Alexandre dos Santos e Jaime Baggio...;

. Sábado pela manhã, lá na Beringela, vai rolar lançamento da revista Ficções. Nesta edição há um conto meu: Jujuba verde;

. "É água de chuva no mar" mesmo. Ô sorte! :)

. Às vezes o trabalho atrapalha, mas é vida que segue... :(



 Escrito por Marcelo às 11h21
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Momento mais especial...

... no Da Gema ontem à noite:

"Água de chuva no mar"

Gerson Gomes / Carlos Caetano/ Wanderley Monteiro

"O meu coração hoje tem paz
Decepção ficou pra trás
Eu encontrei um grande amor
Felicidade enfim chegou
Como o brilho do luar
Em sintonia com o mar
Nessa viagem de esplendor
Meu sonho se realizou
A gente se fala no olhar, no olhar
É água de chuva no mar, no mar
Caminha no mesmo lugar
Sem pressa, sem medo de errar
É tão bonito, é tão bonito o nosso amor
A gente tem tanto querer, querer
Faz até a terra tremer, tremer
A luz que reluz meu viver
O sol do meu amanhecer é você"



 Escrito por Marcelo às 11h21
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Camus e Barthes

 

Muito boa a coluna do Dapi, publicada na última sexta em O Globo. No texto, ele comenta sobre a relação entre Camus e Barthes, que chegou a ficar estremecida quando, entorpecido pelo dogma marxista, o teórico da literatura carregou na tinta numa crítica do romance A peste. Segue a íntegra da coluna:

"Charivari no panteão"

Arthur Dapieve

Encarapitado no morro de Sainte-Geneviève, margem esquerda do Sena, Paris, fica o Panthéon. Cento e dez metros de comprimento, 84 de largura e 83 de altura. Era para ser uma igreja. Recuperado de doença, Luís XV encomendou a construção em 1744. A obra, porém, calhou de ficar pronta em 1789, ano da Revolução Francesa. De templo dedicado à santa e a Deus, o prédio tornou-se um monumento aos grandes franceses e ao Homem.
Na cripta e no peristilo, foram sendo depositados os restos de 67 dos seres humanos que tornaram a França o que ela é: potência mais intelectual do que militar. Napoleão, por exemplo, jaz a cerca de quatro quilômetros dali, no Hôtel des Invalides. No Panthéon, estão sepultados, por exemplo, Voltaire, Rousseau, Hugo, Zola, Malraux, Pierre e Marie Curie, além de Jean Moulin, herói da Resistência torturado até a morte pelos nazistas.
Qualquer um que tenha estudado ciências sociais no Brasil após 1934 — data de fundação da USP, na qual lecionaram Lévi-Strauss, Braudel, Bastide — erigiu um panteão desses em sua própria cabeça. Não sem um paradoxo: o pensamento francês desperta paixões futebolísticas. Assim, neste Fla-Flu das idéias, sou o místico Pascal e não o racional Descartes. Voltaire e não Rousseau. Camus e não Sartre. Barthes e não Foucault.
Por isso, acompanho a edição ou reedição revisada das obras do semiólogo Roland Barthes (1915-1980), pela Martins Fontes, em coleção dirigida por sua aluna e amiga Leyla Perrone-Moisés, não como uma sucessão de ensaios, mas quase como uma novela. O entusiasmo já me levou a escrever, ano passado, sobre o provável último texto de Barthes, “Malogramos sempre ao falar do que amamos”, incluído no volume “O rumor da língua”.
De lá para cá, entre outros, saíram “Inéditos volume 3 — Imagem e moda”, reunindo artigos sobre publicidade, cinema e fotografia; “Incidentes”, dois diferentes esboços de diário, onde Barthes fala abertamente sobre sua homossexualidade, não raro com tamanha melancolia que não faria o menor sentido chamá-lo de gay; e, título mais recente a chegar às livrarias, “Inéditos volume 4 — Política”. Talvez vocês possam imaginar o meu frisson ao ver que ele traz uma polêmica de Barthes com outro de meus heróis intelectuais, Camus.
O motivo do debate, elegante comme il faut, é uma resenha do primeiro sobre o romance “A peste”, do segundo. Publicado em 1947, o livro do romancista e filósofo existencialista Albert Camus (1913-1960) é uma alegoria da ocupação da França pelos alemães: certo dia, a cidade de Oran, na Argélia ainda colônia, é isolada do resto do mundo porque nela irrompe um surto de peste bubônica; cada um de seus habitantes, então, lida com a nova situação e com a exposição diária à morte de uma maneira diversa.
O último parágrafo do livro é um belíssimo alerta de Camus contra novos surtos de peste e intolerância. Reproduzo aqui a boa e velha tradução de Valery Rumjanek para a Editora Record: “Na verdade, ao ouvir os gritos de alegria que vinham da cidade, Rieux lembrava-se de que esta alegria estava sempre ameaçada. Porque ele sabia o que esta multidão eufórica ignorava e se pode ler nos livros: o bacilo da peste não morre nem desaparece nunca, pode ficar dezenas de anos adormecido nos porões, nos baús, nos lenços e na papelada. E sabia, também, que viria talvez o dia em que, para desgraça e ensinamento dos homens, a peste acordaria seus ratos e os mandaria morrer numa cidade feliz.”
(Abate-se sobre mim a sensação do déjà-vu; 12 anos de colunas, História e farsa.)
Numa resenha no “Bulletin du Club du Meilleur Livre” de fevereiro de 1955, Barthes criticou a “solidão” do romance e, por extensão, do romancista, que, aliás, acabara de sair do Partido Comunista Francês. Inebriado pelas certezas do centralismo democrático, Barthes atacou a reticência de “A peste” quanto à tomada coletiva de posição. As últimas linhas eram cruéis: “(...) seu autor, primeira testemunha da nossa História presente, acabou preferindo recusar os compromissos — mas também a solidariedade — de seu combate.”
Camus encaminhou a Barthes uma resposta firme embora educada, rebatendo ponto a ponto as suas principais críticas. Perto do fim, o romancista escreveu, com ardor e ironia: “Certamente é isso que reprovam em mim, ou seja, o fato de ‘A peste’ poder servir a todas as resistências contra todas as tiranias. Mas só é possível reprovar isso em mim e, sobretudo, só é possível acusar-me de recusar a história desde que se declare que a única maneira de entrar na história é legitimando uma tirania. Não é o seu caso, sei disso (...).”
A tréplica de Barthes pecou pela soberba: “O senhor me pede que diga em nome do quê acho insuficiente a moral de ‘A peste’. Isso não é segredo nenhum, é em nome do materialismo histórico (...). Teria dito isso antes, se não temesse sempre ser muito pretensioso ao falar em nome de um método que exige muito de seus partidários.”
Bem, um ano depois, Kruschev denunciaria os crimes de Stalin no 20 congresso do PCUS. Dois anos depois, Camus ganharia o Nobel de Literatura. Na apresentação do volume traduzido por Ivone C. Benedetti, Leyla Perrone-Moisés conta que o episódio envergonhava o Barthes “maduro e avesso às arrogâncias linguageiras”. Talvez, creio eu, porque documente um período em que ele deixou os outros pensarem em seu lugar."



 Escrito por Marcelo às 14h10
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Obrigado

   

   

  

  

  

 

   

Queria agradecer de coração aos mais de 90 amigos que foram ao Bip na última sexta comemorar junto comigo os 33 anos de caminhos e descaminhos por essas bandas. Foi uma noite muito feliz ("saltitante", como disse a F.), entre samba, gente querida e uma lua cheia de fazer brilhar os olhos. Estas aí são algumas das fotos digitais, que mostram um pouco do que foi a festa e a esticada posterior, no Lamas (quem quiser, pode conferir todas aqui). Os registros feitos em negativo serão postados amanhã... 

Dito isso, queria fazer dois agradecimentos mais do que especiais: ao Alfredinho, por ter cedido o Bip, e à F., pelo carinho e o esmero na organização de tudo, pelo delicioso bolo de chocolate com morango, pela companhia sempre leve. Por estar ao meu lado, sobretudo.


P.S. As legendas: Com Lucas Porto, com Álvaro "Marechal", com Hilda e Cris Fuscaldo, com Pepê e Claudinha, com André, Crib e Flá, com o "Janja", com "Caloni", Rodrigão e Mariana Blanc, com a Mara, com o Dutra, com Anne, Wilson, Flávia e Marcos, com Flávio e Bá, a roda de samba, com o Hugo, com a Lu Sabóia, com Rosana e Loredano, a galera (Pepê, Felipe, Luise, Mariana, Vicki e Flavio), visão geral, o bolo da Flá, eu e ela, com o Marceu. 



 Escrito por Marcelo às 11h54
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Vadico

Aliás, se estivesse vivo, Vadico (Osvaldo Gogliano) completaria hoje 95 anos de idade. Aqui no Pentimento, a lembrança deste filho de italianos que foi um dos principais parceiros de Noel Rosa (juntos, compuseram, entre outras pérolas, Feitiço da Vila e Conversa de botequim e a lindíssima Pra que mentir) faz-se através de Feitio de oração, que foi registrada com rara beleza por João Nogueira no disco Wilson Geraldo Noel. Vadico era um rapaz de 22 anos e mal chegado ao Rio quando o maestro Eduardo Souto apresentou-o ao Poeta da Vila. Souto havia ouvido Vadico tocar ao piano uma melodia de sua autoria e pensou em Noel para escrever a letra. Exatamente a letra que todos conhecemos e viria a transformar tal melodia num metasamba clássico.

"Feitio de oração"

Noel Rosa / Vadico

"Quem acha
Vive se perdendo
Por isso agora eu vou
Me defendendo
Da dor tão cruel
desta saudade
Que por infelicidade
Meu pobre peito invade

Batuque é um privilégio
Ninguém aprende
Samba no colégio
Sambar é
Chorar de alegria
É sorrir de nostalgia
Dentro da melodia.

Por isso agora
Lá na Penha
Vou mandar
Minha morena pra
Cantar com satisfação
E com a harmonia
Esta triste melodia
Que é o meu samba
Em feitio de oração.

O samba na realidade
Não vem do morro
Nem lá da cidade
E quem suportar
Uma paixão
Sentirá que
O samba então
Nasce no coração"



 Escrito por Marcelo às 10h39
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Diga 33!

Como a maioria sabe, na quarta-feira completei 33 anos de idade. Como havia jogo do Flu, a comemoração ficou para hoje e será no bar que se transformou numa espécie de segunda casa para mim: o Bip Bip. Espero vocês lá a partir das 21h!

 Escrito por Marcelo às 10h30
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Presentes

Depois de uma charmosíssima cesta de café-da-manhã do Cafeína, recebi os presentes que F. (carinhosamente) preparou e (elegantemente) embalou em papéis avermelhados ton sur ton. O pacote é uma verdadeira síntese dos meus desejos de consumo recentes. Além do cartão, artesanalmente feito pela moça, estavam:

. Girassóis;

. Caixa de dvds do Woody Allen, com A rosa púrpura do Cairo, O dorminhoco, Crimes e pecados e Hannah e suas irmãs;

. Coleção completa fac-símile da revista Pif Paf;

. Cd do Wanderley Monteiro;

. Edição sobre Clarice Lispector dos Cadernos de Literatura Brasileira. 



 Escrito por Marcelo às 10h28
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Canção para nós

"Estava faltando você"

Wilson das Neves / Délcio Carvalho

"Estava faltando alguém junto a mim

Custei a sentir essa necessidade

Andava sem rumo a vagar por aí

Procurando fugir

Dessa eterna saudade

Meu sangue fervia e todo o meu ser

Girava em torno da melancolia

Nos bares da vida tentava esconder

Todo o desprazer

De uma falsa alegria

Nas horas sombrias das noites sem fim

Buscando uma gota de felicidade

Sentia que nunca teria pra mim

Um amor de verdade

Estava faltando razão pra cantar

O encanto, a magia de uma paixão

Capaz de fazer novamente pulsar

Esse meu coração"



 Escrito por Marcelo às 11h46
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Corrente blogueira

Recebi da Vicki. Aos meus "escolhidos", basta copiar, preencher com as suas respostas e publicar no seu respectivo blogue.

Volume total de músicas em meu computador:
Nenhuma. Gosto de ter os cds. Valorizo capa e o direito autoral dos músicos.
O último CD que comprei foi:
"Estava faltando você", da Nilze Carvalho, e um LP da Elizeth, lá no Al Farabi.
Música tocando no momento:
"Rain", de Durval Ferreira e Pedro Camargo
Cantores (as) que ultimamente tenho gostado muito de ouvir: Nilze Carvalho, Elizeth Cardoso, João Nogueira, Ella Fitzgerald, Don McLean, Moacyr Luz, Wilson das Neves e Damien Rice.
Músicas que, de alguma forma, significaram muito pra mim: "Clube da Esquina" (Lô Borges e Marcio Borges), "Sonho real" (Lô Borges e Ronaldo Bastos), "As vitrines" (Chico Buarque), "Dia branco (Geraldo Azevedo), "O samba é meu dom" (Wilson das Neves e Paulo Cesar Pinheiro), "Súplica" (João Nogueira e Paulo César Pinheiro), "Para ver as meninas" (Paulinho da Viola), "Olhos negros" (Johhny Alf e Ronaldo Bastos), "A canção tocou na hora errada" (Ana Carolina), "Quero ficar com você" (Caetano Veloso", "Pra que pedir perdão" (Moacyr Luz e Aldir Blanc), "Tudo o que vivi" (Moacyr Luz e Wilson das Neves). Mas tem tantas outras...
Cinco pessoas para quem eu passo a "Batuta Musical": Henrique (rs), Flá, Moniquinha, Crib e Mariana (SP)



 Escrito por Marcelo às 12h45
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Uma estrela no palco

Quando a cortina do Teatro Rival enfim se abriu, com cerca de 20 minutos de atraso, quem esperava ver surgir no palco aquela Nilze amorosa e algo tímida que conhecemos se assustou de pronto. De fato, lá estava a cantora e música cujo talento paradoxalmente berra por detrás do jeito elegante e recolhido. Mas havia também uma outra Nilze, que (pelo menos eu) até então desconhecia. Pois a mulher que, trajando uma camisa lilás cheia de brilhos, irrompeu no palco já na primeira canção deixou claro que não estávamos somente diante de uma grande artista, no auge de sua forma. Estávamos, sim, diante de uma estrela.

O show de Nilze, que lotou o Rival na última segunda-feira, já entrou no rol dos melhores espetáculos a que assisti neste ano. Cheguei a comentar com alguns amigos presentes ao teatro que o carisma demonstrado pela cantora ao longo de pouco mais uma hora me fez lembrar a musa maior do palco: Maria Bethânia. E falo de um repertório que merece todos os elogios, pela coragem de apostar em músicas novas, em vez de contentar-se com a facilidade de banais regravações. Repertório que incluiu canções de Roque Ferreira e Paulo Cesar Pinheiro, Padeirinho e Nei Lopes, Tuninho Galante e Marceu Vieira, Wanderley Monteiro, Mario Lago Filho e Paulinho do Cavaco, gente talentosa e que está aí, fazendo boa música, hoje.

Nilze cantou também trabalhos próprios, compostos em parcerias com o pai, Cristino Ricardo; e mesmo quando abriu exceção para sucessos já sedimentados, seus registros foram absolutamente autorais, como só as grande cantoras sabem fazer. Foi o que aconteceu, por exemplo, com Ilusão à toa, de Johnny Alf, e Linda flor, que ganharam arranjos inspiradíssimos de Rui Quaresma. Na segunda, especificamente, foi de arrepiar ouvir o naipe de cordas – com dois violinos, baixo acústico, violoncelo e violão de 7 cordas à cargo do genial Luis Filipe de Lima – sublinhando a delicadeza da melodia e apresentando novas e ricas nuances harmônicas. Enquanto a voz de Nilze passeava pelos versos de Henrique Vogeler, Cândido Costa, Luiz Peixoto e Marques Pôrto, pensava eu: ela está conseguindo aquilo que cantoras como Monica Salmaso e Evelyne Hecker vêm buscando ainda sem tanto êxito - conjugar à afinação e à técnica apurada um ingrediente misterioso sobre o qual só sabemos que se origina da emoção. E da vida vivida, que, como a gente sente ao vê-la cantar, Nilze Carvalho tem de sobra.

Sucesso a ela. Agora queremos mais shows.



 Escrito por Marcelo às 11h07
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Nelson

Já falei aqui: para nós, nada é fácil.

Que o espírito dele hoje esteja presente...



 Escrito por Marcelo às 17h50
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Mestres

Bacana demais o ensaio que José Castello escreveu no site No Mínimo sobre o papel do professor, utilizando como base o livro Lições dos mestres, do teórico da literatura Georg Steiner, que acaba de ser publicado no Brasil pela Record. Em certa parte do texto, Castello cita a piada que, segundo Steiner, circulava nos corredores de Harvard, a respeito "da impossibilidade de Jesus de Nazaré vir a ser contratado como professor da casa": “Um bom professor, mas não publicou”, dizem a seu respeito". "Em um tempo de doutorados e pós-doutorados, também Sócrates seria posto no olho da rua", acrescenta. Comentários sarcásticos e espirituosos como esse dividem espaço no artigo - e no livro - com a investigação sobre a relação professor-aluno e referências a grandes autores que pensaram a questão.

Este post é um presentinho para a minha F. Abaixo, um trecho do texto. Leia a íntegra aqui.

"A sedução dos mestres"

José Castello

"Professores reclamam, cada vez com mais espanto, de uma inversão de valores que vigora, hoje em dia, nas escolas, colégios e universidades. Em vez de fascínio e respeito pelo mestre, os alunos tendem a vê-lo só como um subalterno, pago pelos pais e a serviço do mercado de trabalho, que ali está para cumprir tarefas, atender os desejos de seus discípulos e, sobretudo, expedir diplomas.
É uma inversão que joga por terra o magnetismo que, há séculos, envolve o ofício de ensinar, e que destina aos professores o papel deplorável de meros atravessadores do saber. Ela se alinha a uma visão, cada vez mais comum, da escola e da universidade como centros de treinamento técnico, voltados unicamente para as demandas de mercado e sem nenhuma relação com o conhecimento. E destrói, lentamente, a imagem do professor como mestre, que vem desde a mais remota antiguidade.
Em um momento tão delicado, provoca grande interesse a leitura de “Lições dos mestres”, do crítico literário francês George Steiner (editora Record, 240 páginas). Um bravo ensaio sobre a arte de transmissão do saber, ancorado na idéia incômoda de que, para o sucesso da aprendizagem, não basta haver grandes mestres, é preciso também que se formem discípulos à sua altura.
Não é fácil ser um mestre. “O que dá a um homem ou uma mulher o poder de ensinar a um outro ser humano, de onde provém essa autoridade?”, Steiner se pergunta. De um lado, estão os professores que arrasam psicologicamente seus discípulos, “o pedagogo destruidor de almas”, como Steiner prefere chamá-los. No outro, para que a coisa não seja reduzida a uma questão formal de autoridade, aparecem os alunos que traem, que derrubam e que arruínam seus mestres. Entre eles, sugere o ensaísta, ficam a confiança e a troca, bases da aprendizagem.
Existem, porém, algumas pré-condições para que a transmissão do saber possa, de fato, se dar. Antes de tudo, diz Steiner, é necessário que a imagem do mestre esteja, como ocorre desde a antiguidade, cercada não de respostas, mas de perguntas. Isto é, que exerça, primeiro, um forte fascínio, que desafie e leve o aluno a pensar. “Na antiguidade clássica, mestres fundamentais, como Anaximandro, Xenófanes e Íon de Chios, eram por vezes considerados um tanto misteriosos”, ele rememora. O mistério nada mais é que uma pergunta que não se pode responder.
Foram tempos em que a transmissão oral, e não a escrita, serviu de base para o ensino, o que fazia da relação entre mestre e discípulo um laço, antes de tudo, de caráter pessoal. Nada de professores com microfone em punho, a saltitar sob holofotes e a distribuir apostilas milagrosas, como encontramos, hoje, nos colégios de massa. Contudo, se o mestre deve preservar certa aura, e exercer uma atração irresistível sobre seus alunos, ele não pode perder, um só minuto, a consciência do perigo contido no ofício que pratica.
“Ensinar seriamente é pôr as mãos no que há de mais vital no ser humano”, resume Steiner. “Um mestre invade, força a abertura, é capaz de devastar a fim de purificar e reconstruir.” O ensino ruim, burocrático, sem entusiasmo, ele nos diz, destrói as esperanças do discípulo. Pode matar sua vontade de saber e, até, sua vontade de viver. “O mau ensino é, quase literalmente, assassino e, metaforicamente, um pecado”, acrescenta. Ao reduzir a quase nada o assunto apresentado, o mau professor diminui o aluno, impregnando sua sensibilidade com o mais corrosivo dos ácidos: o tédio.
Ensinar, portanto, é seduzir. Mas é preciso, também aqui, ser delicado. Quando se propõe a ensinar, o mestre tem nas mãos algo muito íntimo de seus alunos, diz Steiner: a matéria frágil e inflamável de suas possibilidades. “Ele toca no que concebemos como alma ou as raízes do ser”, comenta. Professores que se põem a ensinar burocraticamente, sem uma grave apreensão diante dos riscos envolvidos no que faz, se tornam frívolos e desinteressantes. É preciso um certo fogo, ou a transmissão não se dá. (...)"



 Escrito por Marcelo às 16h11
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O show

Sim, sim, farei comentários sobre o espetacular show da Nilze Carvalho. Mas só amanhã.

 Escrito por Marcelo às 13h16
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Segunda parte do texto

Como beber de estômago forrado
 
Álvaro Costa e Silva
 
"A reportagem do Jornal do Brasil aceitou o desafio de acompanhar o autor e o editor do Manual de sobrevivência nos butiquins mais vagabundos, Moacyr Luz e Marcelo Moutinho, num périplo etílico-gastronômico pelos bares citados no livro. Deu-se a largada no Café Varnhagem, na praça de mesmo nome, também conhecida como Praça dos Passarinhos, na Tijuca de hoje ou na Aldeia Campista dos tempos de Nelson Rodrigues.

Pois bem: enquanto dava goles alternados num copo de cerveja Original e noutro de batida de limão galego da casa, Moacyr teorizou sobre a moda dos botequins com grife - ou, como ele também os chama, botequins em série ou globalizados - que nos últimos tempos invadiram a cidade (leia-se Belmonte, Informal, Devassa e congêneres):

- Eu acompanhei essa transformação no ambiente dos bares do Rio que, por incrível que pareça, tem a ver com São Paulo. Lá, começaram a abrir o que se convencionou chamar de botequim carioca estilo anos 50. O que eles fizeram, na realidade, foi preservar a tradição do nosso botequim: chope bem gelado e bem tirado, servindo um bom jiló, um pé-de-porco, uma sardinha feita na hora, sanduíches especiais. O ruim desses bares é que não tem como pedir meia porção na comanda que vem em códigos. O Belmonte, por exemplo, surgiu a reboque dessa onda paulista. Ou seja, o pé-sujo foi para lá, pintou as unhas e voltou.

Enquanto beliscava uma patanisca (que ele, num ato falho, chamou de putanesca), bolinho frito com ovos, farinha, cebola e salsa a que se junta bacalhau, servido pela proprietária do bar, a simpática dona Natalina, Moacyr foi além em suas didáticas explicações:

- A principal mudança, se houve, está nos banheiros: atualmente, existe a necessidade de um lugar reservado para a mulher, que aprendeu a beber e a gostar desse ambiente. Antes, a mulher não chegava nem no balcão, ficava do lado de fora e pedia o maço de cigarro. Houve uma conquista feminina. O pé-sujo hoje, para atender a mulher, teve que pôr uma sandália havaiana.

Segunda parada: A Paulistinha, na Avenida Gomes Freire, onde, segundo o compositor, bebe-se o melhor chope em pé do Rio. Em pé, pois o estabelecimento é mínimo, mas tem lugar para banheiro feminino e para a antiga chopeira de bronze em forma de torre da Brahma, uma das três que sobraram na cidade (as outras estão no Bar Brasil, na Mem de Sá, e no Adonis, em Benfica). Para comer, a pescadinha frita ou a sacanagem (espeto com queijo prato, tomate, cebola em conserva, salaminho e pimentão, com ou sem pimenta). Mastigando essa última, Moacyr identifica os dois tipos principais de freqüentadores de botequim:

- Tem o cara que bebe por pura necessidade. É o emprego chato, a falta de grana, a mulher que perturba. Todos no botequim sabem o seu nome, mas não o cumprimentam, mantém silêncio em respeito a sua dor. Ele chega, toma sua besteira em pé no balcão, pega o cigarro e o chiclete, e vai embora cumprir sua sina, sem dizer uma palavra. O outro é aquele que faz do bar uma extensão da sua casa. Até a sogra sabe onde ele está. Mora na esquina, conhece todo mundo geralmente aparece sem camisa, com o cós da bermuda dobrado na barriga, o chinelo mais feio do mundo. Chega um momento, a mulher dele grita: Fulano, está na hora do almoço!

Dali, foi-se ao Paladino, na esquina da Marechal Floriano (que os botiquineiros insistem em tratar por Rua Larga) com Uruguaiana, para mais comer que beber - embora o chope estivesse supimpa. As opção ficou entre o sanduíche triplo (provolone, ovo e presunto) e a fritada de sardinha. A conversa foi sobre os proprietários de bares:

- O português está perdendo a hegemonia nesse departamento. O cearense chegou forte, primeiro na cozinha, e agora atrás da caixa. Mas eu, como bom rubro-negro, ainda prefiro pendurar a conta com o português vascaíno - brincou Moacyr.

A saideira tinha lugar e hora marcadas: o amplo bar da Rua do Jogo da Bola, no alto do Morro da Conceição, às seis da tarde em ponto, quando, no órgão da capela de Nossa Senhora da Imaculada Conceição, construída no fim do século 19, toca-se a Ave Maria, e todos bebem de maneira compungida. E dão o gole pra santa. Melhor que isso só ficar contando o número de loucos mansos e perigosos, cachorros vira-latas e belas mulatas que passavam em frente. Dever cumprido."



 Escrito por Marcelo às 13h40
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O livro do Moa

 
Ontem tive a honra de figurar, ao lado de Moacyr Luz, na capa do Jornal do Brasil, em fotografia feita pelo mestre Evandro Teixeira. O objeto da matéria é o livro que o Moacyr lançará no próximo mês de agosto e está sendo editado por mim. Manual de sobrevivência em butiquins mais vagabundos reunirá 25 crônicas do compositor, além de 25 entrevistas curtas com boêmios célebres, como Alfredinho do Bip, Aldir Blanc, Lan, Chico Caruso, Zé Luis do Império, Tia Surica e Ruy Castro. O prefácio é de Martinho da Vila e as entrevistas virão acompanhadas de caricaturas feitas pelo Jaguar. Nosso amigo Marechal, que escreveu bela reportagem sobre o livro, acompanhou a mim e ao Moacyr num giro pelos botecos da cidade. Segue o texto que restou de nosso périplo:
 
"O pé-sujo contra ataca"

"Moacyr Luz estréia como cronista fazendo um manual de sobrevivência nos botequins do Rio"
 
Alvaro Costa e Silva
 
"O poeta Paulo Mendes Campos sempre lamentou que ninguém tivesse escrito uma História dos bares do Rio. Mais: de maneira sutil criticava que nenhum editor encomendasse um livro dessa natureza a alguém como – quem mais? – Paulo Mendes Campos, que com orgulho se considerava um fazedor de textos profissional. Ele havia de falar no Jacó, na Rua da Assembléia, onde pela primeira vez entre nós criou-se a tradição de conversar fiado em torno de uma mesa de bar. Dali, o hábito se estendeu para estabelecimentos que marcaram época: as confeitarias Colombo e Pascoal; o café Vermelhinho na Araújo Porto Alegre e o Lamas no Largo do Machado; as uisquerias Pardellas, Vilarino e Juca's no Centro; os restaurantes Alcazar e Lucas em Copacabana; os bares Jangadeiro e Zeppelin em Ipanema; Antonio's e Diagonal no Leblon de antigamente. Infelizmente, tão vasto compêndio etílico, gastronômico e boêmio jamais foi escrito.

Felizmente, o compositor Moacyr Luz – ao contrário de Paulo Mendes Campos – não é de se lamentar, encontrou um editor esperto e resolveu, ao menos, contar a história dos botequins contemporâneos – lugares da cidade onde vale a pena beber, comer, conversar e onde acontecem coisas que mesmo o carioca mais escolado duvida. O resultado é o Manual de sobrevivências nos butiquins mais vagabundos( assim mesmo, butiquim, maneira de escrever que Moacyr pegou emprestado ao parceiro Aldir Blanc). Com edição do escritor e jornalista Marcelo Moutinho para a Senac-Rio, o livro sairá em agosto – mas já tem nego bebemorando desde já.

– Em determinado momento da minha vida desisti de esperar a invenção da máquina do tempo de H. G. Wells, que me permitiria passar dez minutos ao lado de Noel Rosa na Vila, bebendo cerveja Cascatinha e fumando cigarros Liberty Ovais. Deixei de invejar uma época que não vivi para procurar entender o que eu estou vivendo. Tenho que viver o meu Noel hoje. O livro é isso – explica Moacyr, que, com seis discos gravados, estréia como cronista de costumes.

É mais uma declaração de amor ao Rio, aliás, de quem parece que não fez outra coisa na vida – em seu mais recente CD, Sedução carioca, Moacyr musicou versos de poetas como Drummond, Bandeira e Vinicius falando da cidade, é óbvio. Nas crônicas, ele assume a postura de um observador, manjando de uma mesa no canto, copo de cerveja à mão, o movimento da fauna em seu habitat.

Os assuntos vão da verificação científica da temperatura ideal da cerveja – o sujeito passa o dedo médio embaixo da garrafa e depois na tampinha, antes de liberar a degustação – às artimanhas necessárias para se conseguir trocar um cheque com o português (leia a crônica ao lado).

Ou das agruras de se ir ao banheiro: “Perto da minha rua havia um sujeito muito acima do peso, acho que sofria de problemas com tireóide, sei lá, conhecido na área como Ernesto Rolha de Poço. Três coxinhas depois, dessas que a modernidade inventou num creme parecido com catupiry, veio a vontade de urinar. Diurético em dia, não agüentou: tomou o caminho da WC ainda com meio frango na boca. Na derradeira mastigada, as mãos já fechando o zíper de bermuda Varga, a porta abre, mas o corpo não passa. Começam as soluções: solta os botões, tira a camisa! Nada. Esbaforido, com os remédios da pressão nem de longe fazendo efeito, um gaiato lembrou de chamar a Defesa Civil que, verdade seja dita, chegou em cinco minutos”.

No último texto, denominado simplesmente “A cidade”, Moacyr lista seus botequins prediletos, e o que de melhor se pode encontrar neles: A Paulistinha, Adonis, Amendoeira, Bar Brasil, Bar do Costa, Bip-Bip, Belmonte, Bracarense, Cosmopolita, Nova Capela, Paladino e o bar da dona Maria, que fica a dois passos da casa dele, na Muda.

As crônicas fazem-se acompanhar de entrevistas, dez perguntas temáticas para gente do calibre de Aldir Blanc, Lan, Paulão Sete Cordas, Tia Surica, Arthur Dapieve, Alfredinho do Bip-Bip, Ruy Castro, Heloisa Seixas, Luiz Carlos da Vila, Zé Luiz do Império, Sérgio Cabral, Otávio Augusto, Antonio Pedro, Noca da Portela, Haroldo Costa, Jards Macalé, Wilson Flora, o popular Baiano, Roberto Moura, Chico Caruso e Jaguar (também responsável pelas ilustrações do livro). Perguntado sobre o que era mais infernizante num botequim, mosca ou chato, o cartunista Chico Caruso não titubeou: “Chato, que é uma mosca de 1,80 metros”. Tia Surica, famosa cozinheira das feijoadas da Portela, não gostou de ser questionada sobre seu horário predileto para beber cerveja: “Tá me chamando de pinguça, menino? Agora, se estou a fim, não tem frio, primavera, segunda-feira, manhã, tarde ou noite, depende da disposição”.

Aldir Blanc, parceiro de Moacyr Luz em mais de 300 sambas (muitos deles ainda inéditos), representou a discussão sobre futebol, que não deixa de faltar em bares: “Se meu time começa a perder, eu não paro de biritar. Não por esperança que ele vire o jogo, mas para me acalmar”. O jornalista Sérgio Cabral dividiu suas décadas vividas por marcas de uísque: “Teve a época do Vat 69, do Cutty Sark, um dos meu íntimos desejos, e até do Old Eight, que pertencia ao Ibrahim Sued. Fino era o Dimple, que marcou muito. Uma vez fui a um show da Elizeth Cardoso, representando o Carlos Machado, e colocaram na mesa uma garrafa de Dimple. Nem toquei, achando que tinha que pagar, e era um oferecimento”.

Uma das poucas integrantes do Clube do Bolinha, a escritora Heloisa Seixas teve de pedir permissão à família, para discorrer sobre os banheiros femininos. Do alto de seus quase dois metros, Paulão Sete Cordas tratou de recomendar os melhores pratos feitos; e o miudinho Zé Luiz do Império, as mais saborosas batidas da casa. Luiz Carlos da Vila provou que é craque na porrinha. A única pergunta comum nos questionários diz respeito a como curar uma ressaca daquelas. A resposta mais surpreendente, além de corajosa e lúcida, veio do escritor Ruy Castro: “Só há uma dica, mas infalível: ser alcoólatra. O alcoólatra, organicamente, não tem ressaca. Sei disso, porque sou um deles. Não bebo há 17 anos, mas aposto que sou o único alcoólatra deste livro. Todos os outros são bebuns e só bebem porque gostam e o dia em que quiseram parar, param”. Palavra de profissional. "



 Escrito por Marcelo às 13h38
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Hoje tem Nilze

Às 19h30, no Teatro Rival, lançando seu primeiro disco solo. Eu e Moniquitcha, que aí na foto ladeamos a estrela desta noite, estaremos lá!



 Escrito por Marcelo às 13h26
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O outono de Neruda

Concordo com o Henrique quando ele afirma que o outono é nossa estação mais bonita. No meu primeiro livro, cheguei a escrever um conto sobre esta época, quando o sol, em vez de "chapar" a paisagem, ressalta seus contornos sinuosos de forma suave, quase lírica. HR me enviou alguns poemas que falam do outono. E este, do Neruda, eu não podia deixar de postar aqui, em tributo à estação que semana que vem vai embora...

"A terra"

Pablo Neruda

A terra verde se entregou
a tudo o que é amarelo, ouro, colheitas,
torrões, folhas e grão,
quando, porém, o outono se levanta
com seu longo estandarte
és tu a quem eu vejo,
é para mim a tua cabeleira
a que reparte as espigas.

Eu vejo os monumentos
de antiga pedra rota,
porém se toco
a cicatriz de pedra
teu corpo me responde,
meus dedos reconhecem
de pronto, estremecidos,
tua quente doçura.

Passo por entre heróis
recém-condecorados
pela pólvora e a terra
e detrás deles, muda,
com teus pequenas passos,
és ou não és?

Ontem, quando arrancaram
com raiz, para vê-lo,
a velha árvore anã,
te vi sair me olhando
de dentro das sedentas,
torturadas raízes.
E quando o sono vem
e me estende e me leva
a meu próprio silêncio,
há um grande vento branco
que derruba meu sono
e dele caem as folhas,
caem como punhais,
punhais que me dessangram.

Cada ferida tem
a forma de tua boca."


P.S. Ok, já publiquei esta foto (tirada por mim) aqui. Mas ele é tão "outonal" que não resisti em repetir...



 Escrito por Marcelo às 10h45
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Coleguinhas

Ainda sobre imprensa: está patética a matéria sobre que enfoca o Fluminense na seção de Esportes de O Globo de hoje. Tentando surfar na "ressaca" da derrota para o Paulista, o repórter encheu o texto de "parece". Só nas primeiras linhas há duas vezes tal expressão. Assim, fica difícil de cumprir o objetivo inconfesso: fomentar algo onde nada existe. Exemplo claro e bem acabado de mau jornalismo.

 Escrito por Marcelo às 10h18
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Mais Eugénio

 

Perplexo com o completo silêncio da imprensa brasileira sobre a morte do poeta Eugénio de Andrade, escrevi um artigo que foi publicado hoje no Jornal do Brasil (Caderno B). Segue o texto:

Luminosidade no breu

O poeta Eugénio de Andrade buscava o sublime nas pequenas coisas

Marcelo Moutinho

É emblemático, mas não surpreendente, que a morte de Eugénio de Andrade tenha sido ignorada quase unanimemente pelos suplementos culturais dos jornais brasileiros. Afinal, apesar de certamente estar entre os grandes de nosso tempo, o poeta português é pouquíssimo conhecido neste país, que, se mal olha para a poesia feita em seu território, atenta menos ainda para os versadores de outras plagas. Chega a ser espantoso que ignoremos escritores como a portenha Alejandra Pizarnick, cuja obra nunca foi lançada por aqui. O caso de Eugénio, contudo, é ainda mais estarrecedor, pelo evidente aspecto da proximidade lingüística.

Eugénio morreu na segunda-feira, aos 82 anos, na cidade do Porto, onde viveu seus últimos anos lutando arduamente contra doença não divulgada - a discrição, aliás, sempre foi um traço do autor. Nascido numa pequena aldeia da Beira Baixa sob o nome de José Fontinhas, teve uma infância campestre muito ligada à figura da mãe, marcas que estariam patentes em seus escritos até a maturidade. Começou a publicar poemas bem cedo e o reconhecimento de público e de crítica chegaria com As mãos e os frutos, de 1948.

A partir daí teria início uma trajetória rica não só na área da poesia, mas também na prosa, no ensaio e na tradução. Sua produção poética destacou-se pela extraordinária capacidade de criar conexões entre a aparente banalidade do circunstancial e o sublime, como exprimem os versos de Memória doutro rio, de 1978: ''Com a manhã chega o anônimo respirar do mundo./ Um cheiro de pão fresco invade o pátio todo./ Vem dos lados do rio: para levar à boca, ou ao poema''. Sem recair no melodramático ou no meramente pomposo, seu lirismo alimentava-se do rigor, da depuração das palavras, buscando, seja na natureza, seja no homem, a fagulha capaz de fazer fulgurar um instante qualquer de beleza em meio à brutalidade do mundo.

Como apontou o poeta Carlito Azevedo na apresentação da antologia editada pela Nova Fronteira, a poesia de Eugénio é eminentemente solar. Mesmo quando esbarra na melancolia tão afeita à cultura portuguesa, sua obra insiste em cavoucar a luminosidade que se esconde sob os breus mais absolutos. ''Nas suas margens nuas, desoladas,/ cada homem tem apenas para dar/ um horizonte de cidades bombardeadas'', escreveu ele num de seus mais célebres poemas.

A consciência de que tais ''bombardeios'' deixam máculas convive, no entanto, com a certeza perene de que a alegria esquecida pode nos surpreender na imagem mais prosaica. Como a cena que o poeta flagra de sua varanda no poema Há uns dias. Trata-se de um daqueles momentos ''em que julgamos que todo o lixo do mundo nos cai em cima'', mas ele, ao avistar as crianças ''correndo no molhe'' e cantando, recorda-se do próprio menino que foi. ''Um sorriso abre-se então/ num verão antigo/ que dura''. ''E dura ainda'', insiste, para encerrar o poema - e delinear um epitáfio possível da forma como vislumbrou (e sentiu) a vida.



 Escrito por Marcelo às 09h59
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"God save the queen"

Publicado hoje, em O Globo:

"Contra odores no metrô"

Fernando Duarte

"Nos meses mais quentes, é comum ver avisos no metrô de Londres com recomendações para amenizar os efeitos do calor, como ingestão de muita água. Mas ontem veio um conselho para lá de inesperado: numa entrevista, o diretor do metrô, o americano Tim O’Toole, pediu que os três milhões de usuários diários do serviço tomem banho antes de viajar para evitar desconforto para as narinas alheias.
— Eu espero que, nesses meses de tempo quente, todo mundo mantenha a higiene pessoal em dia, especialmente nos horários em que os passageiros são forçados a estar mais perto um dos outros — disse O’Toole durante um programa em que as principais críticas ao metrô são debatidas.
O metrô londrino é o mais antigo serviço de transporte subterrâneo do mundo e seus trens e estações não têm sistemas de refrigeração, o que transforma as composições em suadouros no verão. Nos últimos anos, a prefeitura tem debatido o problema, mas a entrevista de O’Toole foi a primeira vez em que isso foi abordado publicamente. Em termos de avisos, o mais perto que se chegara foram os pedidos para que os usuários evitassem comer alimentos cujo cheiro pudesse incomodar os outros."



 Escrito por Marcelo às 13h13
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Confederação Bandida de Futebol

Os dois times que serviram obrigados atuar mutilados justamente em seus jogos decisivos, em razão da ausência de alguns de seus principais atletas, seqüestrados pela Confederação Bandida de Futebol, foram inequivocademente derrotados. Será coinciência?

É por essas e outras que hoje sou Grécia desde pequenininho... 



 Escrito por Marcelo às 13h11
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Bloomsday

Para quem não se lembrava: hoje é o Bloomsday, quando os joyceanos de todo o planeta festejam o grande autor, relembrando o dia em que transcorrem as mais de 800 páginas de seu mais célebre romance, Ulisses. O amigo Pedro Bucther pede, então, para convidá-los para o principal Bloomsday carioca, que acontecerá a partir das 19h na Travessona de Ipanema, com leitura de trechos em dez línguas diferentes. Na ocasião, será lançada a nova tradução do livro, verdadeiro projeto de vida da professora Bernardina Pinheiro - que, por acaso, é avó do Pedro.



 Escrito por Marcelo às 11h46
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Sophia

"Quem és tu?"

Sophia de Mello Breyner Andresen

"Quem és tu que assim vens pela noite adiante,
Pisando o luar branco dos caminhos,
Sob o rumor das folhas inspiradas?

A perfeição nasce do eco dos teus passos,
E a tua presença acorda a plenitude
A que as coisas tinham sido destinadas.

A história da noite é o gesto dos teus braços,
O ardor do vento a tua juventude,
E o teu andar é a beleza das estradas."



 Escrito por Marcelo às 11h26
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Assonâncias, trocadilhos e significação

Dia desses, lendo um contemporâneo, constatei novamente como essa necessidade tão "pós-moderna" de se mostrar "diferente" prejudica narrativas que poderiam alçar vôo. O uso absolutamente gratuito de palavras em caixa alta, de assonâncias vazias e sem significado, e de trocadilhos que o autor decerto julga "geniais", só pode me levar a crer que o rapaz leu pouco na vida - caso contrário, não daria a impressão de que descobriu a pólvora ao se valer de tais expedientes. A assonância bem aplicada pode obte resultados notáveis, e foi inevitável lembrar da canção Flor da idade, do Chico, na qual as seqüências "festa/fresta", "copo/corpo", "dama/drama" indicam, em seus subtextos, mudanças de etapa, ritos de passagem. Segue a letra completa da música: 

"Flor da idade"

Chico Buarque

"A gente faz hora, faz fila na vila do meio-dia  
Pra ver Maria  
A gente almoça e só se coça e se roça e só se vicia  
A porta dela não tem tramela  
A janela é sem gelosia  
Nem desconfia  
Ai, a primeira festa, a primeira fresta, o primeiro amor  

Na hora certa, a casa aberta, o pijama aberta, a família  
A armadilha  
A mesa posta de peixe, deixe um cheirinho da sua filha  
Ela vive parada no sucesso do rádio de pilha  
Que maravilha  
Ai, o primeiro copo, o primeiro corpo, o primeiro amor  

Vê passar ela, como dança, balança, avança e recua  
A gente sua  
A roupa suja de cuja se lava no meio da rua  
Despudorada, dada, à danada agrada andar seminua  
E continua  
Ai, a primeira dama, o primeiro drama, o primeiro amor  

Carlos amava Dora que amava Lia que amava Léa que amava Paulo  
Que amava Juca que amava Dora que amava Carlos que amava Dora  
Que amava Rita que amava Dito que amava Rita que amava Dito que amava Rita que amava  
Carlos amava Dora que amava Pedro que amava tanto que amava  
a filha que amava Carlos que amava Dora que amava toda a quadrilha  
  



 Escrito por Marcelo às 11h11
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Cinco anos do "Da Gema"

Assim como eu, o Da Gema faz aniversário na próxima semana - e a comemoração pelos cinco anos de existência da casa será com uma programação especial, que começa em alto estilo já na segunda, dia 20, com show de mestre Roberto Silva. Na terça, rolará um festa junina. Os dias seguintes foram reservados para dois grandes encontros. Na quarta, Luiz Carlos da Vila canta com Nilze Carvalho; na quinta, Áurea Martins recebe Dona Ivone Lara (foto) e Elton Medeiros. A sexta será pintada de verde e rosa com a roda de samba mangueirense comandada por Paulão 7 Cordas e que terá participação de Richah, Tantinho e Jurandir da Mangueira. E, enfim, no sábado, encerrando a agenda de aniversário, Diogo Nogueira e Mauro Diniz homenageiam João Nogueira, num espetáculo que incluirá os maiores sucessos do saudoso cantor.



 Escrito por Marcelo às 10h44
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Eugénio de Andrade

Preparava-me eu para comentar aqui sobre o livro Alejandra Pizarnick - Poesía completa, encomenda que minha mana trouxe de Buenos Aires para mim. Então soube que ontem morreu Eugénio de Andrade, um de meus poetas preferidos, cujas pérolas costumam há muito freqüentar este blog. Eugénio escreveu certa vez que "cada homem tem apenas para dar um horizonte de cidades bombardeadas". Era justamente na beleza inocente que insiste em subsistir - ainda que maculada por tais "bombardeios" - dentro de nós e do mundo que ele buscava a seiva vital de seus poemas. Minha homenagem ao grande Eugénio se faz através de "Há dias":

"Há dias"

"Há dias em que julgamos
que todo o lixo do mundo
nos cai em cima
depois ao chegarmos à varanda avistamos
as crianças correndo no molhe
enquanto cantam
não lhes sei o nome
uma ou outra parece-me comigo
quero eu dizer :
com o que fui
quando cheguei a ser luminosa
presença da graça
ou da alegria
um sorriso abre-se então
num verão antigo
e dura
dura ainda." 



 Escrito por Marcelo às 09h48
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Johhny Alf em dose dupla

Duas boas notícia para aqueles que, como eu, são fãs das canções singulares do Johnny Alf. Presença rara no Rio de Janeiro, o cantor se apresenta hoje, às 21h, no Instituto Moreira Salles, com ingressos a R$ 15 (obrigado pela dica, João Carlos....). Já no dia 24, às 21h30, a 'porção compositor' de Alf será explorada pela encantadora Fernanda Cunha em espetáculo no Songbook Café. Fernanda gravou recentemente um ótimo disco-tributo a Alf e Sueli Costa e promete apresentar em seu show, além das músicas do cd, criações de mestre Tom Jobim.



 Escrito por Marcelo às 09h37
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F.

... assistir, de mãos dadas, a uma peça tão bobinha quanto divertida, levá-la para beber cerveja e dançar samba junto do amigo querido, tomar café da manhã com chocolate quente na padaria, flagrá-la observando com ar concentrado o cotidiano de Botafogo, passear pelas ruas do Centro no sábado pela manhã, visitar a feirinha de antigüidades lembrando da infância - a minha e a dela, conferir as exposições do Foto Rio e pensar que nós dois adoramos fotografias, comprar uma vitrola e combinar de ouvir Elizete Cardoso, ver sua expressão de desgosto ao provar a Cerpinha, ver sua expressão de felicidade quando eu (ou ela) falo de Paris, rir quando ela se irrita com minhas implicâncias, vibrar com o esmero com que ela fez os cartões de Dia dos Namorados, passar uma noite comendo pães italianos e uma boa massa regada a cabernet savignon, despertar e ter o cuidado de não acordá-la quando vou pegar o jornal, perceber que a imagem dela dormindo é qualquer coisa de única de tão comovente, receber um torpedo carinhoso no meio da tarde, vê-la alegre preparando um almoço só pra mim, ouvir junto dela os discos de choro que lhe dei, encostar no pescoço dela e saber que o perfume que há ali eu já conheço: é dela, e de alguma forma agora também meu, imaginar que tantos dias bacanas ainda virão e que esse texto não haveria de terminar, se não fosse com reticências...



 Escrito por Marcelo às 11h47
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Documentário

Deu ontem na coluna Gente Boa, de O Globo:

"Bip Bip"

"O Bip Bip fechou, pela primeira vez em seus 37 anos, para uma ampla reforma. Alfredinho Melo, o Neném, decidiu trocar o piso, pintou as paredes de verde-claro e trocou a porta do banheiro, que era a mesma desde a inauguração. Alfredinho está de bola cheia. Ele e seu bar serão tema de um documentário dirigido por Marcelo Moutinho e João Paulo Cuenca."



 Escrito por Marcelo às 11h42
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Queremos o Mascavinhas de volta!

Deixo aqui registrado o meu apoio à campanha liderada pelo Luis Filipe de Lima (e lançada sábado passado no seu Seremos felizes), em prol da volta à ativa do queridíssimo blog Mascavinhas, que não é atualizado há um mês. Estamos com saudades, Pepê!



 Escrito por Marcelo às 11h36
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Mais Gabeira

Abaixo, seguem mais um trecho da entrevista, em que Gabeira lamenta as futricas entre PT e PSDB (já afirmei aqui algumas vezes que, para mim, a aliança entre os dois seria o ponto de partida para o fim do fisiologismo) e fala de sua visão política hoje:

Veja – Em que medida essa saída fisiológica não seria também responsabilidade do sistema político brasileiro, em que o Executivo não tem maioria garantida no Congresso e precisa ficar o tempo todo tentando seduzi-lo para conseguir governar?
Gabeira – Acho que a culpa dessa estrutura é parcial. Porque, se você considerar a centro-esquerda brasileira, como o PT e o PSDB, existe uma base numérica para você dirigir o país. O problema é que, como os dois não vão jamais se entender, estão ambos condenados ao fisiologismo – ou, como diz o Fernando Henrique, condenados a ser a vanguarda do atraso. O que nos leva a uma situação em que, em 2006, restará só perguntar de quem será a vez de pedir a CPI – e de quem será a vez de abafá-la. Nós poderíamos superar essa etapa da história brasileira criando uma frente política que fosse não tão rigidamente ideológica, como eles querem, mas uma frente política dos homens e mulheres de bem. Havendo essa demarcação ética, o governo conseguiria isolar progressivamente os fisiológicos. O processo do PT foi justamente o contrário: ele fortaleceu o fisiologismo e colocou na presidência da Câmara, por meio dos seus erros, um homem que está em contradição com o Brasil moderno, que é o Severino Cavalcanti.

Veja – O ministro José Dirceu esteve presente em vários momentos importantes da sua vida. Foi um dos presos libertados por seu grupo em troca do embaixador americano seqüestrado, esteve exilado em Cuba na mesma época em que o senhor e teve peso fundamental na sua saída do PT. Qual a relação que vocês têm hoje?
Gabeira – Não há relação. Ele jamais gostou de mim. Em 1989, fui escolhido pela convenção do PT candidato a vice de Lula na eleição contra Collor e ele ficou muito zangado com isso. Aliás, foi um bombardeio geral. Chegaram a dizer – não ele, pessoalmente, mas aliados e pessoas do próprio PT – que eu não era viril o suficiente para representar a classe operária. Excelente isso, não?

Veja – A que se deveria isso, na sua opinião?
Gabeira – Acho que o temor dele é que as pessoas ocupem o seu espaço, que ameacem aquele trono que ele construiu tão duramente, através de tantas reuniões e tanto café frio. Imagine uma pessoa que coleciona sessenta grupos de trabalho! Eu digo que ele é o Tio Patinhas dos grupos de trabalho, que a piscina dele está cheia de relatórios e ele não deixa ninguém chegar perto. Como se dissesse: "Quem vai cuidar do imobilismo aqui sou eu". Mas, de maneira geral, acho que o PT não convive bem com uma personalidade. No sentido de que toda a estrutura do pensamento da esquerda clássico está voltada para fazer com que o conjunto se imponha sobre o indivíduo. Eles são anteriores à fase em que os indivíduos já deram um passo adiante, buscando a autenticidade como referência. Convivem mal com essa idéia.

Veja – Houve um momento em que o senhor acreditou na luta de classes como saída para a transformação da sociedade. Em outro momento, defendeu a política do corpo e, mais recentemente, viveu a experiência de ser, por dez meses, governo. Foram três decepções?
Gabeira – Eu acho que, realmente, na escolha do socialismo houve um erro meu no sentido de não compreender o momento histórico. Contribuiu para isso o fato de estarmos na ditadura militar e essa ditadura militar ser, em si, um símbolo do atraso. Então, você é facilmente levado à ilusão de que, sendo contra ela, você está na frente, quando a verdade é que você está na frente de um projeto em declínio. Quando entendi isso, com a visão do marxismo sendo superada na minha cabeça, não havia mais uma explicação da história, que era uma espécie de substituição da religião. Aí, eu tive de me voltar para dentro de mim para buscar onde estava a referência. Nisso, me vi com a política do corpo, que eu reconheço que foi absorvida pelo sistema. Passou a ser uma grande indústria, como, aliás, ocorre com todos os grandes movimentos. O elemento mais recente nessa sucessão de fracassos foi esse envolvimento com um governo que ia transformar o país e que resultou nessa farsa que vemos agora.

Veja – Diante desses três fracassos, o que restou das suas convicções?
Gabeira – A decisão de me apoiar em alguns princípios de atuação: a democracia – como uma visão estratégica, e não mais como os comunistas a viam, uma tática para chegar ao poder –, a defesa dos direitos humanos, da consciência ecológica e, finalmente, da justiça social. E caminhando por aí eu acho que posso fazer alguma coisa. Não é mais uma grande revolução, com o esplendor daqueles tempos, mas é um pouco parecido com aquela história do Salinger, de O Apanhador no Campo de Centeio: quando eu era jovem, eu queria morrer pela revolução. Agora, quero viver para transformar um pouco as coisas. Sem grandiosidade, sem melodrama. Com pequenas ações, apenas.



 Escrito por Marcelo às 11h09
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Gabeira

É leitura obrigatória a entrevista que o Fernando Gabeira concedeu à Veja e que está nas tradicionais páginas amarelas da revist nesta semana. Gabeira é hoje o único - literalmente o único - político em quem voto com absoluta convicção. Não só pelas idéias arejadas e não-dogmáticas, mas principalmente pela independência, porque ele se coloca tão distante do conservadorismo de direita, quanto dos arcaicos militantes de esquerda que ainda acreditam em Fidel Castro. A análise que Gabeira faz do quadro atual é madura e esclarecedora. Como muita gente aqui não assina a Veja, destaquei os pontos que julguei mais importantes. Nas perguntas abaixo, o deputado comenta especificamente sobre a crise que abate o governo:

Veja – O senhor escreveu, em artigo recente, que a chegada de Lula à Presidência foi uma crueldade histórica. O que isso significa?
Fernando Gabeira – Quando Lula foi candidato pela primeira vez, o Muro de Berlim havia caído e a etapa mundial que nós vivíamos já era a etapa do fracasso completo do socialismo. O que eu quis dizer foi que a eleição de Lula representou, simbolicamente e pela via eleitoral, a chegada de um operário ao poder, mas em um momento em que isso já não significava muito mais. Era um sonho retardatário. Nós chegamos a ele atrasados em relação à situação mundial. Na verdade, se tivéssemos tido um pouco mais de percepção, veríamos que, em vez do roteiro de Marx – da chegada do operário ao poder –, nós estávamos assistindo à chegada da classe operária ao paraíso. Porque o que aconteceu foi isso: Lula, ao chegar ao poder, ficou deslumbrado com ele.

Veja – Em que momentos o senhor percebe esse deslumbramento?
Gabeira – Em muitos momentos. A chegada ao governo significa uma ascensão social, pelo menos nessa circunstância. Você passa a desfrutar de bens materiais superiores aos que desfrutava antes. E quando você chega ao governo no bojo de um grande movimento social, muito admirado e cortejado, isso contribui para que você, de certa maneira, perca o rumo. E aí você vai ver as pirâmides, tirar foto ao lado das pirâmides, comprar um avião... Isso tudo aconteceu com Lula e, no seu caso, houve ainda a agravante de ele não ser uma pessoa inquieta, do ponto de vista intelectual.

Veja – Essa inquietação poderia ter contribuído para amenizar o deslumbramento a que o senhor se refere?
Gabeira – Sim, porque a chegada ao poder, com todos os atrativos que ele oferece, é sempre um questionamento da sua sabedoria. E também um desafio à capacidade de saber olhar os seus projetos e se manter fiel a eles. E nem o PT nem Lula souberam responder a isso. Diante da necessidade de abandonar um programa que talvez não estivesse totalmente ajustado à realidade, eles optaram simplesmente por jogar esse programa para o ar – sem substituí-lo. Não foi à toa que, durante a campanha eleitoral, poucos de nós, intelectuais que apoiamos Lula, se submeteram àquele mico no programa de televisão, de andar de um lado para o outro com uma pasta debaixo do braço, dando a impressão de que todos os problemas do Brasil estavam equacionados e que, quando chegássemos ao governo, resolveríamos tudo.

Veja – O senhor se recusou a participar da gravação desse programa?
Gabeira – Eu não fui convidado. Mas quando eles fizeram o programa final, com o Lula já eleito no primeiro turno, nós fomos chamados a São Paulo para gravar. Era um programa de auditório, e nós tínhamos de levantar as mãos, todos juntos, e balançá-las para o alto. Eu fiquei perplexo com aquilo, não fiz. O Lula até reclamou: "Poxa, Gabeira, você tá dormindo?". Claro que eu não estava dormindo, eu estava achando aquilo ridículo. Éramos participantes de um projeto político que, no último momento, havia sido sintetizado em um programa de auditório. Parecíamos chacretes.

Veja – Foi nesse momento que o senhor achou que o trem começava a sair dos trilhos?
Gabeira – O momento em que eu acho que o trem começa a sair dos trilhos é quando o Lula decide, nessa última campanha, que vai ganhar – e que, para ganhar, é preciso ter dinheiro e um excelente programa de televisão. São premissas aparentemente sensatas. Mas, ao descobrir o imenso potencial do veículo e da linguagem publicitária, ele passou a superestimar o trabalho de marketing em detrimento do movimento social que o apoiava. E isso marcou o princípio do governo: a agenda dele passou a ser uma agenda de foto-oportunidade, para usar uma expressão dos ingleses. O presidente recebia misses, por exemplo, enquanto o Cristovam Buarque, durante o tempo em que foi ministro, esteve com ele apenas uma vez. O ministro da Educação! Lula saiu da história para entrar no marketing.

Veja – O senhor participou da montagem do governo. Houve um momento, portanto, em que acreditou nele.
Gabeira – Eu acreditei pelo seguinte: nunca houve tanto entusiasmo popular em torno de uma candidatura. Nunca tantas pessoas competentes e interessantes se juntaram para ajudar uma candidatura. Então, eu achava que nós tínhamos um capital humano suficiente para realizar um processo de transformação importante para o Brasil. Só que o que houve foi uma traição.

Veja – A quem?
Gabeira – Às pessoas que acreditaram nele. Eu andei mais de 1 000 quilômetros com o Lula. Vi a esperança nos olhos das quebradeiras de coco do Maranhão, das plantadoras de cebola de Santa Catarina... Era visível a esperança delas, era visível que acreditavam na gente: "Essas pessoas são ligadas a nós, vão mudar a nossa vida". Vi mães chorando quando a caravana passava, mulheres levantando os seus bebês para que vissem o palanque... Era um capital de esperança muito grande. E parece que eles não se importaram muito com isso. Eles não tinham um projeto de Brasil, não tinham um projeto de nação – tinham um projeto de poder. E perderam o contato com a realidade. Prova disso é que, no auge dessa crise, José Dirceu disse àquele grupo de escritores espanhóis com que se encontrou em Madri que o projeto do PT era ficar doze anos no poder.

Veja – Qual o futuro da sigla, na sua opinião, diante dessa crise?
Gabeira – O PT tem um grave erro de origem. Ele opta pelo centralismo democrático, que foi um instrumento criado por Lenin, no princípio do século XX, para organizar trabalhadores fabris na luta contra o Exército do czar. Ora, nós já estamos no princípio do século XXI e o PT continua fazendo coisas em nome desse centralismo, como a expulsão da senadora Heloísa Helena. Isso é uma coisa ridícula, já não existe mais. Na Inglaterra, 240 deputados do Partido Trabalhista votaram contra a guerra no Iraque e continuam lá, ninguém vai expulsá-los. O PT foi construído de uma forma autoritária, e essa construção autoritária é que permitiu o deslocamento da camarilha que está hoje no Palácio do Planalto e que designa os caminhos do partido.



 Escrito por Marcelo às 11h02
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Mais Nilze

O Segundo Caderno de hoje estampa na capa uma belíssima foto da querida Nilze Carvalho, em matéria que anuncia o lançamento de seu primeiro cd solo. Sob o adequado título Mais flor do que raiz, o texto do nosso Janjão traz comentários sobre o processo de feitura do disco e vem acompanhado da crítica esperta do amigo Hugo Sukman, que vê no trabalho de Nilze "uma opção estética pela atualidade". Segue a resenha do Hugo. Confira a matéria do "Janja" aqui.

"Opção clara pela atualidade do samba"

Hugo Sukman

"É significativo que Nilze Carvalho tenha regravado o jongueado “Candeeiro da vovó” (Dona Ivone Lara e Délcio Carvalho). É que o samba mais festejado da nova geração da Lapa é “Candeeiro”, no qual Teresa Cristina trata a velha luminária com comovente intimidade. Trata-se, no caso da nova Lapa, de uma cristalina opção estética pelo passado.
Nilze, como Dona Ivone, vê o candeeiro como uma coisa do tempo da vovó. A opção estética de Nilze é clara, pois, pela atualidade.
“Estava faltando você” (Fina Flor) é moderno. A começar pelo samba-título, um instant classic , a melodia das mais bonitas de Wilson das Neves e a letra de Délcio Carvalho com aquele lirismo característico (“Meu sangue fervia e todo o meu ser/Girava em torno da melancolia”), parceria tão representativa do samba que é feito hoje, mais flor que raiz.
É com faro para o novo que Nilze grava a maior revelação de compositor dos últimos anos, Wanderley Monteiro (em parceria com Mario Lago Filho e Paulinho do Cavaco), o manifesto “Somos nós”. A letra — “Somos mensageiros de vocês/Mistura de loucura e lucidez/Somos todo mundo e cada um/Todos os lugares, lugar nenhum” — ganha especial sentido cantada por artista tão cosmopolita.
É no faro que Nilze dá à dupla Tuninho Galante e Marceu Vieira o privilégio da estréia no samba extaltação “Samba ao samba” que, por entre imagens que definem o gênero, cita conjuntos da nova velha Lapa: “É um grande sururu na roda” (grupo de Nilze), “É pau da braúna, é minha fé”.
Há modernidade em regravar “Ilusão à toa”, moderno samba-canção de Johnny Alf, com linda introdução no sax tenor do arranjador Humberto Araújo, no qual Nilze mostra sua capacidade de intérprete. Bem como na amplitude estética de um repertório que vai de tocante toada “Andarilho” (uma das três composições de Nilze com seu pai, o ótimo Cristino Ricardo) à “Valsa do sonho” (Paulinho Lemos e Agenor de Oliveira), do samba de roda baiano (“O cavalo de São Jorge”, um Roque Ferreira e Paulo César Pinheiro que Clara Nunes gravaria) ao samba de terreiro do Salgueiro “Pra lá pra cá” (Dauro e Nei Lopes).
Há modernidade na opção pela orquestra (e não o regional lapiano) e na elegância de arranjos e produção de Ruy Quaresma, recém-premiado por “Partido ao cubo”, de Nei Lopes.
É de Nei, aliás, o mais fino acepipe do CD, “C’est fini”, inédita parceria com o saudoso Padeirinho, da Mangueira, bem humorada defesa da atualidade do samba: “Eu sou o samba/E ninguém vai me derrubar/Já subi na torre Eiffel/Já cantei no Olympia/Por isso eu digo mes amours e mes amis/Naquele papo cretino de urubilino eu já dei c’est fini”.



 Escrito por Marcelo às 13h15
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Frase

"Só o raso é cool. A dor é Kitsch."

Paulo Henriques Britto



 Escrito por Marcelo às 13h08
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Nana

Ontem me bateu aquela vontade de "puxar angústia" da qual falava Fernando Sabino, e a solução foi dosar, em porções equilibradas, Cole Porter e Nana Caymmi no som do carro. Da Nana, saquei o disco Alma serena, de 1996, ao qual não tinha dispensado a devida atenção. Uma beleza, o cd. Uma beleza mesmo. De Chico Buarque (Novo amor, aquela dos versos "Eu seu, ai eu sei / Que brilha um novo amor nos olhos seus") a Abel Silva e Cristóvão Bastos (Serena), de Sueli Costa e Paulo César Pinheiro (Vale a pena) a Celso Fonseca e Ronaldo Bastos (A noite é meu ópio e Flor lunar), de Toninho Horta e Flora Purim (Anjo do amor) a Caetano Veloso (Não posso me esquecer do adeus), o repertório é de primeiríssima. O grande momento, porém, é o registro de uma das canções da minha vida - Clube da esquina (a de número 1). Enquanto cruzava a Avenida Atlântica, ouvi talvez umas cinco ou seis vezes a voz da Nana, lírica e dorida, desvendando os versos de Márcio Borges, amainados na melodia cheia de sutilezas criada por Milton Nascimentro e Lô Borges. Na orquestração de Cristóvão, sobressaem os violões do Lô a guitarra de harmonia sempre singular do Toninho, que são acompanhados de um naipe de cordas (violinos, violas e cellos) que empresta ao arranjo ainda mais delicadeza. É, certamente, a melhor gravação que a música já ganhou. E, para lembrá-la, posto aqui:

"Clube da esquina"

Milton Nascimento / Lô Borges / Márcio Borges

"Noite chegou outra vez, de novo na esquina
Os homens estão todos, se acham mortais
Dividem a noite, e lua e até solidão
Neste clube, a gente sozinha se vê pela última vez
À espera do dia, naquela calçada
Fugindo de outro lugar perto da noite estou
O rumo encontro nas pedras
Encontro de vez um grande país
Eu espero, espero do fundo da noite chegar
Mas agora eu quero tomar suas mãos
Vou buscá-la aonde for
Venha até a esquina
Você não conhece o futuro
Que eu tenho nas mãos

Agora as portas vão todas se fechar
No claro do dia, o novo encontrarei
E no curral D'El Rey
Janelas se abrem ao negro do mundo lunar
Mas eu não me acho perdido
No fundo da noite partiu minha voz
Já é hora do corpo vencer a manhã
Outro dia já vem, e a vida se cansa na esquina
Fugindo, fugindo pra outro lugar"



 Escrito por Marcelo às 11h27
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Custódio Coimbra

Mestre do fotojornalismo, Custódio Coimbra tem parte de sua obra exposta em duas mostras simultâneas, em Paris e no Rio de Janeiro, como revela matéria publicada no Segundo Caderno de anteontem. A reportagem é mais uma bola dentro da amiga Suzana Velasco e a exposição, obrigatória para os amantes da fotografia...

"Informação com pitadas de arte - Paris expõe o fotojornalismo de Custódio Coimbra"

Suzana Velasco

"Custódio Coimbra é a prova de que a expressão repórter fotográfico não se refere simplesmente ao fotógrafo que trabalha num jornal. Ele é repórter mesmo, sai às ruas com olhar aguçado e se orgulha de boas reportagens, em seus 30 anos de carreira, terem surgido a partir de suas fotos. Isso sem deixar de lado o rigor fotográfico e o olhar pessoal sobre o cotidiano. É esse fotojornalismo de Custódio o homenageado a partir de hoje na Maison des Amériques Latines, em Paris. Na mostra “Le Brésil à la une” — uma referência às primeiras páginas em que muitas das fotos expostas foram estampadas — cerca de 60 trabalhos mostram registros de seus 15 anos no GLOBO, em que é repórter fotográfico, além de fotos publicadas nos jornais “Última Hora”, “O Repórter” e “Jornal do Brasil”.
Ao mesmo tempo em que Paris vê o Brasil, o Rio vê o olhar de Custódio na exposição “Diário do Rio”, desde a semana passada no Centro Cultural Correios. Na verdade, as duas mostras tiveram a mesma origem, mas o fotógrafo e o curador, Jayme Zettel, procuraram não levar para a França realidades muito distantes dos parisienses. Uma foto do ex-presidente Fernando Collor, por exemplo, exposta no Rio, foi substituída em Paris por uma do ex-primeiro ministro francês Lionel Jospin. Lá também não se vê a cena de um corpo estendido no chão, como aqui. Mas a maior parte das imagens é comum às duas mostras — e reflete a paixão de Custódio pelo Rio de Janeiro.
— O fio condutor de ambas é a informação — afirma o fotógrafo. — Tirei de Paris a violência explícita do cotidiano, não quis chocar. Posso mostrar nossos problemas sem o cadáver. Cada vez gosto mais da cidade, apesar de a violência e a degradação da cidade aumentarem cada vez mais. Eu retrato isso, mas sempre com muita arte — diz ele, que em 2001 ganhou o Prêmio Esso de Contribuição à Imprensa, pela série“ Retratos do Rio”, publicada no GLOBO.
O trabalho de registro da cidade foi uma opção do fotógrafo, nunca um acaso. E, nesse registro, a água surgiu como uma atração particular. Em Paris, serão exibidos oito painéis com fotos panorâmicas da série “Rio, cidade água”, já mostradas aos brasileiros em 2002, na Galeria Funarte. Ali, a água continua associada à informação, ao dia-a-dia do Rio, como numa enchente em Bonsucesso e na poluição na Praia da Rosa, na Ilha do Governador.
— Acho que sou ariano, signo de fogo, e a água é meu complemento — brinca ele. — Meus focos são a questão ambiental, ligada à água, e o ser humano. Quis mostrar que tudo é uma coisa só. A essência do fotojornalismo é o homem e o ambiente em que ele vive — filosofa.
Mas nem só de problemas vive a fotografia de Custódio. Seja retratando o carnaval ou meramente uma paisagem da cidade, ele faz questão de colocar sua marca pessoal.
— O problema do Custódio é sempre o número de fotos que ele tem. Por ele, tudo seria exposto. O corte é o processo mais complicado. Quis fazer um balanço da multiplicidade, com imagens do cotidiano e do meio ambiente, o que na verdade é uma característica do fotojornalismo — diz o curador, Jayme Zettel.
Nesta segunda exposição internacional do fotógrafo — em 2001 ele representou o Brasil em Quito, no Equador, na Bienal Internacional de Fotografia — a idéia inicial era reproduzir as primeiras páginas dos jornais e capas de cadernos especiais, mostrando a diagramação das fotos. Como o projeto não foi adiante, um livro com reproduções dos jornais estará exposto, com a tradução em francês de manchetes e legendas das fotos."



 Escrito por Marcelo às 11h17
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Laranja

Toda manhã, logo ao levantar, ela puxa a coberta e com uma graça feita de curvas, esferas, sinuosidades, ajeita os lençóis e o travesseiro. Então um breve cheiro cor-de-laranja invade o quarto. É como se, confundindo as horas, o sol se pusesse ali dentro mesmo.



 Escrito por Marcelo às 11h08
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DVD de "justiça"

Ontem praticamente terminei um frila que me deu tanto trabalho quanto prazer de realizar: as entrevistas para o disco extra que virá com o dvd do ótimo documentário justiça, de Maria Augusta Ramos, que passou nos cinemas no ano passado. Conversei sobre o filme e a situação geral do Judiciário brasileiro com três dos personagens - a defensora pública Maria Ignez Kato, o juiz Geraldo Prado e a desembargadora Fátima Clemente - e com três estudiosos da questão - a deputada federal Denise Frossard, o antropólogo Luiz Eduardo Soares e a socióloga Julita Lemgruber -, além da diretora, evidentemente. No disco extra, virão também a íntegra de algumas das audiências filmadas mas não utilizadas no corte final. É um material que acrescenta - e muito - ao documentário, que recomendo com entusiasmo não só aos interessados no tema, mas também aos que gostam de bom cinema. O lançamento do dvd será no dia 11 de agosto.



 Escrito por Marcelo às 10h36
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Show da Nilze

Já estão à venda os ingressos para o show de lançamento do primeiro cd solo da talentosa amiga Nilze Carvalho. O espetáculo acontecerá no próximo dia 20, às 19h, no Teatro Rival, e terá participação especial do Nei Lopes (ai, meu Deus! ai, meu Deus! tomara que ele cante mais do que fale...). Quem quiser comprar antecipadamente, com o preço especial de R$ 10 (no dia, será R$ 20), pode fazê-lo no Bip Bip - a Nilze deixou alguns ingressos com o Alfredinho. Segundo ela me disse, no show estarão alguns dos clássicos da MPB e do samba, além de uma composição do amigão Marceuzito Vieira. Meus ingressos já estão garantidos...



 Escrito por Marcelo às 10h24
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Memória

"(...) Só é triste quem não se recorda, quem não mistura os fatos com as impressões. Toque-me no pescoço, o braço ficará arrepiado e será um acontecimento. Toque-me na memória e vou me encontrar mais do que me pertenci. Nenhuma separação é maior do que a possibilidade de restauração da memória. Não existe escombro que não possa servir de pedra novamente. A memória devolve o que não tínhamos. A memória é a saudade do que virá. Não há quem não feche os olhos ao comer, não há quem não feche os olhos ao cantar a música favorita, não há quem não feche os olhos ao beijar, não há quem não feche os olhos ao abraçar. Fechamos os olhos para garantir a memória da memória. É ali que a vida entra e perdura, naquela escuridão mínima, no avesso das pálpebras. Concentramo-nos para segurar a dispersão, para segurar a barca ao calor do remo. O rosto é uma estrutura perfeita do silêncio. Os cílios se mexem como pedais da memória. Experimenta-se uma vez mais aquilo que não era possível. Viver é boiar, recordar é nadar. Escrevo na água, no vento da água. O passado sem os olhos fechados é como uma roupa enrugada. Sem corpo. Sem as folhas dos plátanos."

Carpinejar


P.S. Foto de Margarida Delgado...



 Escrito por Marcelo às 14h29
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Questão

Com a mesma perplexidade, repito a pergunta do amigo Flávio Izhaki: a Flip é para o público-leitor ou para os convidados das editoras?

(para quem não sabe, os ingressos começaram a ser vendidos via internet hoje e se esgotaram em 15 minutos)



 Escrito por Marcelo às 13h56
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João Nogueira

Foi num dia 5 de junho, há exatos cinco anos, que João Nogueira morreu. Integrante remido de minha trinca particular dos maiores cantores de samba (ao lado de Roberto Ribeiro e Paulinho da Viola), João recebeu ontem uma simples, mas bonita homenagem no Bip Bip, onde seu sobrinho Didu fez uma dobradinha da belíssima Espelho com a canção-seqüência, Além do espelho. Foi dos momentos mais tocantes que já tive oportunidade de flagrar no querido boteco: amigos apertadamente abraçados, casais de rostos unidos e um sentimento geral de emoção que nem os gritos deslocados de um catador de latas pôde atrapalhar. Faço meu tributo particular ao João justamente com a segunda canção, que nunca postei aqui antes...

"Além do espelho"

João Nogueira / Paulo César Pinheiro

"Quando eu olho o meu olho além do espelho
Tem alguém que me olha e não sou eu
Vive dentro do meu olho vermelho
É o olhar de meu pai que já morreu
O meu olho parece um aparelho
De quem sempre me olhou e protegeu
Como agora meu olho dá conselho
Quando eu olho no olhar de um filho meu

A vida é sempre uma missão
A morte uma ilusão
Só sabe quem viveu
Pois quando o espelho é bom
Ninguém jamais morreu

Sempre que um filho meu me dá um beijo
Sei que o amor de meu pai não se perdeu
Só de ver seu olhar sei seu desejo
Assim como meu pai sabia o meu
Mas meu pai foi-se embora no cortejo
E eu no espelho chorei porque doeu
Só que olhando meu filho agora eu vejo
Ele é o espelho do espelho que sou eu

A vida é sempre uma missão
A morte uma ilusão
Só sabe quem viveu
Pois quando o espelho é bom
Ninguém jamais morreu

Toda imagem no espelho refletida
Tem mil faces que o tempo ali prendeu
Todos têm qualquer coisa repetida
Um pedaço de quem nos concebeu
A missão de meu pai já foi cumprida
Vou cumprir a missão que Deus me deu
Se meu pai foi o espelho em minha vida
Quero ser pro meu filho espelho seu"



 Escrito por Marcelo às 11h16
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Mais Woody

Em geral implico com o que ele escreve em sua coluna no Segundo Caderno (O Globo), mas no sábado passado o Arnaldo Bloch acertou em cheio ao abordar, em seu espaço semanal, a admiração que nutre pelo diretor Woody Allen. Arnaldo cita no texto um comentário do gente-boa Arthur Dapieve, no qual o Dapi afirma haver alguns indivíduos que  "temos medo de perder"; sem os quais a sociedade ficaria inevitavelmente menos inteligente, menos brilhante, menos interessante - e inclui Woody entre eles. Segue o texto na íntegra:

"Superwoody"

Arnaldo Bloch

"Sabe aquele cara que é cheio de histórias para contar, tem um vozeirão maneiro , se veste na moda, mas, no meio da primeira história, os ouvintes já estão bocejando de tédio?
E sabe aquele outro que fala pouco, está completamente fora da moda, escolhe assuntos não muito específicos, não tem nenhuma história para contar mas, cada vez que fala, todo mundo presta atenção, como se bebesse suas palavras?
Pois é. A cada novo filme de Woody Allen, qualquer um, tenho a sensação de estar diante desse segundo cara.
Desde que, uns anos atrás, ele caiu em desgraça e começou a fazer os chamados “filmes médios” (“O escorpião de Jade”, “Dirigindo no escuro” etc), é comum ouvir seus fãs dizerem coisas como “não é dos seus melhores” ou “é uma caricatura de si mesmo”. Os woodimaníacos mais radicais recorrem a insultos: “uma porcaria, um diretor como ele devia se envergonhar de rodar essa infâmia”.
Discordo diametralmente. Um Woody Allen pouco inspirado, preguiçoso, constrangido, “feito para o mercado”, enfim, o pior Woody Allen do mundo é dezenas de vezes superior a 99% dos filmes ditos médios, e, normalmente, melhor que pelo menos 70% dos filmes independentes, de arte, de autor — da produção atual, bem entendido.
Em cartaz no Brasil, o recente “Melinda e Melinda” é um exemplo eloqüente do que digo. Ao contar de maneira descompromissada, quase improvisada, as histórias de duas mulheres (ou de uma só, tanto faz) com o mesmo nome, Woody prova, mais uma vez, que não basta uma boa história para fazer bom cinema, boa literatura, boa obra. É preciso saber contá-la. Mas não é só isso.
Woody prova, na verdade, que ter uma boa história é, em boa parte dos casos, irrelevante. O grande narrador (como aquele cara lá do primeiro parágrafo, em que todos prestam atenção) é capaz de arrebatar platéias atentas e pensantes apenas com idéias, com conteúdo, com texto, com diálogos, sem que necessariamente eles formem uma grande história, ou mesmo uma pequena história.
Já o mau narrador — aquele que nada tem a dizer com a sua direção ou roteiro, com a câmara, e ao qual faltam idéias e sensibilidade dramática — depende desesperadamente de uma boa história (em geral adaptada), como um moribundo depende de oxigênio. É como um sujeito que avia receita numa farmácia de manipulação, só que com mais cartaz e propósitos menos nobres.
“Melinda e Melinda” é daqueles filmes que os fãs de Allen chamam de médios. Não impede que ele esparrame ali sua maestria cinematográfica. E o faz com uma certa altivez, o tédio do gênio, que usa palavras, elenco, imagens, como massa de moldar, só para mostrar ao público as diversas maneiras de fazer cinema, e como é fácil — para ele — fazê-lo.
É fácil para Woody Allen saltar da tragédia para a comédia sem transição, ou, sem que percebamos, transformar o trágico no cômico, o cômico no trágico, o malfeito no sublime, o sublime em quinta categoria, a história esdrúxula em discurso shakespeariano, a arte das palavras em padrões exatos de lixo hollywoodiano... sem trocadilhos, por favor.
Por isso, cada vez que vou ver um novo filme de Woody Allen dirijo-me à sala de cinema como que movido por um dever. Um tributo que presto à inteligência, à fidelidade artística, à seriedade de princípios, e, mesmo, à própria grandeza humana, pois ser humano também é resistir a modelos absolutos.
Sinto-me como se fosse presenciar, na tela, algo raro, espécie de pensar e de dizer em franca extinção, da qual é preciso guardar os últimos registros, para a posteridade.
Lembro-me de uma crônica de Arthur Dapieve que descreve com precisão esse sentimento. O cronista citava Woody Allen como aqueles indivíduos que temos medo de perder. Dizia ter medo que Allen morresse, pois a partir deste dia o mundo e a civilização deixariam de ser os mesmos, teriam perdido uma porção considerável de sua essência.
Como o Dapieve, tenho medo que Woody Allen morra. Não é idolatria. Não enxergo nele um mito, não tremeria se diante dele estivesse. A dor da perda estaria mais relacionada com aquilo que ele pensa e expressa e, sobretudo, a maneira peculiar com que o faz.
Pois hoje o pensamento do artista e a sua peculiaridade diluem-se com freqüência em formatos que fazem com que uma obra se pareça com todas as outras, feitas para um público pouco ansioso por novidade, por confronto de idéias, por reflexão, pelo rir que significa também saber, pelo choro que não alivia a angústia. Do outro lado, temos a experimentação e as vanguardas, umas autoproclamadas, outras ainda não sabidas, restritas a um público extremamente reduzido.
Allen é dos últimos cineastas que ainda sabem comunicar-se com o público concentrando em centímetro de película alto grau de reflexão e estilo. Ouvi-lo, mesmo quando não atua (caso de “Melinda e Melinda”), é privilégio que não se deve desperdiçar."



 Escrito por Marcelo às 11h01
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Canção para a sexta

"Este amor"

Caetano Veloso

"Se alguém pudesse ser um siboney
Boiando à flor do sol
Se alguém, seu arquipélago, seu rei
Seu golfo e seu farol
Captasse a cor das cores da razão do sal da vida
Talvez chegasse a ler o que este amor tem como lei

Se alguém, judeu, iorubá, nissei, bundo
Rei na diáspora
Abrisse as suas asas sobre o mundo
Sem ter nem precisar
E o mundo abrisse já, por sua vez, asas e pétalas
Não é bem, talvez, em flor
Que se desvela o que este amor

(Tua boca brilhando, boca de mulher
Nem mel, nem mentira
O que ela me fez sofrer, o que ela me deu de prazer
O que de mim ninguém tira
Carne da palavra, carne do silêncio
Minha paz e minha ira
Boca, tua boca, boca, tua boca, cala minha boca)

Se alguém, cantasse mais do que ninguém
Do que o silêncio e o grito
Mais íntimo e remoto, perto além
Mais feio e mais bonito
Se alguém pudesse erguer o seu Gilgal em Bethânia
Que anjo exterminador tem como guia o deste amor?

Se alguém, nalgum bolero, nalgum som
Perdesse a máscara
E achasse verdadeiro e muito bom
O que não passará
Dindinha lua brilharia mais no céu da ilha
E a luz da maravilha
E a luz do amor
Sobre este amor"



 Escrito por Marcelo às 13h24
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Flip 2005

Conferi o rol de autores convidados para a Flip 2005 e, na (inevitável) comparação com a edição passada, o evento deste ano sai perdendo - com exceção, talvez, do show de abertura, que caberá ao mestre maior Paulinho da Viola. Abaixo, estão os "meus destaques" da Flip 2005:

Quarta, dia 6 - O tributo a Clarice Lispector, dirigido por Naum Alves de Souza, promete ser bem interessante. A homenagem incluirá depoimentos de amigos e estudiosos, leituras de passagens de seus livros por artistas e autores, canções e poemas inspirados na obra da escritora. Neste dia, acontece também o show do Paulinho.

Quinta, dia 7 – Ótima programação. Bacana a mesa que debaterá As crises do romance e será composta por Beatriz Bracher, Cristóvão Tezza e Luis Peixoto. Bacana também o painel Coro de contrários?, com Claudia Roquette-Pinto, Alberto Martins e Paulo Henriques Britto falando sobre a singularidade de suas criações poéticas. E bacana, enfim, a reunião de Marina Colasanti, Vilma Arêas e Benedito Nunes para dissecar a obra de Clarice;

Sexta, dia 8 – Dia fraquinho toda vida. Pelo menos para quem, a meu exemplo, não faz questão de ouvir o exageradamente incensado João Filho ou a toada crítica da globalização de Beatriz Sarno;

Sábado, dia 9 – Duas belas pedidas: a palestra de Juan Goytisolo sobre o clássico Don Quixote e o encontro com o anglo-indiano Salman Rushdie, que lerá trechos de Shalimar, o equilibrista, seu mais recente romance;

Domingo, dia 10 – Ariana Suassuna expondo sua visão das raízes ibéricas da cultura brasileira e falando de arte popular, literatura erudita e identidade nacional em mais uma de suas divertidíssimas aulas-show. Haveria opção melhor?

Além de tudo isso, tem Nilze Carvalho, Danilo Caymmi e Nicolas Krassic no Café Paraty. E, claro, costela no bafo e muito papo agradável regado a cerveja pelos bares da histórica e simpática cidade...



 Escrito por Marcelo às 09h56
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Dentro de um livro

Na próxima terça, dia 7, a partir das 20h, vai rolar o lançamento da coletânea Dentro de um livro, que reúne contos de amigos - como o Cuenca, a Antonia Pellegrino, a Cecilia Giannetti, a Daniela Pereira de Carvalho, o Joca Terron, o Pedro Sussekind e o Paulo Roberto Pires - que traram sobre as relações entre o escritor e aquele que é seu objeto de afeição (perdição?) e desejo. O lançamento será na Livraria Argumento.



 Escrito por Marcelo às 09h53
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Indizível

"(...) Entrar em ti e ir reconhecendo pouco a pouco no meu entrar a mulher que amo até à estupidez. Reconhecer encontrar dentro o que amei fora. Nunca te amei toda, vou-te amar o que sempre faltou. Nunca te amei tudo, aproveitei sempre uma fatia de te amar. O teu olhar, o teu riso, a exemplaridade do teu corpo, o seu espectáculo, o encantamento às vezes, o teu andar, o prazer rápido, o prazer trabalhado para te submeter a tê-lo. Coisas assim avulsas. Vou-te amar agora, vou-te amar no absoluto. Amar-te no prazer e rebentar.

E então lentamente os dois corpos em movimento, convergentes a um centro em fusão. A ânsia, a vertigem. Como é extraordinário que o sentir mais intenso não se saiba dizer (...)"

Vergílio Ferreira



 Escrito por Marcelo às 10h56
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Adriana e Flávio no Largo das Letras

No próximo sábado (dia 4), às 17h, a escritora Adriana Lisboa e o crítico Flávio Carneiro estarão na charmosa Livraria Largo das Letras, em Santa Teresa, debatendo o tema Criação e crítica literária no Brasil hoje. A Livraria fica na Rua ALmirante Alexandrino, 501, no coração do Largo dos Guimarães. Estarei lá!



 Escrito por Marcelo às 09h58
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Questão futebolística

Por que uma equipe é obrigada a liberar metade de seu meio-campo para disputar um Campeonato Mundial Sub-20 (um desses torneios que mais servem para "apresentar" nossos bons jogadores aos empresários gringos) justamente quando chega às finais de uma Copa do Brasil (ou de um Brasileiro, ou de uma Libertadores, o que seja...)? Um dos resultados desse sistema imbecil: Diego e Arouca - ambos "crias" do Flu, que neles investiu durante anos e paga os seus salários, ao contrário da malfadada CBF - desfalcarão o tricolor na decisão contra o Paulista.

Mas não tem nada não. Estamos aí, "rodriguianamente" prontos para mais sofrimento... Só não precisava a partida final cair exatamente no dia do meu aniversário.



 Escrito por Marcelo às 09h50
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Damien

"Delicate"

Damien Rice

"We might kiss when we are alone
When nobody's watching
We might take it home
We might make out when nobody's there
It's not that we're scared
It's just that it's delicate

So why do you fill my sorrow
With the words you've borrowed
From the only place you've know
And why do you sing Hallelujah
If it means nothing to you
Why do you sing with me at all?

We might live like never before
When there's nothing to give
Well how can we ask for more
We might make love in some sacred place
The look on your face is delicate

So why do you fill my sorrow
With the words you've borrowed
From the only place you've know
And why do you sing Hallelujah
If it means nothing to you
Why do you sing with me at all?

So why do you fill my sorrow
With the words you've borrowed
From the only place you've know
And why do you sing Hallelujah
If it means nothing to you
Why do you sing with me at all?" language=JavaScript>



 Escrito por Marcelo às 10h56
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As palavras furtadas

"Sei que qualquer rosto é um deus que cria o mundo conforme o seu olhar. Sei que quando declina a tarde e se torna breve o piar dos pássaros, o teu rosto se descobre no movimento das sombras em que te tornas, mulher desejo. Porque o teu rosto é nómada e vive no deserto de sombra em que se desenha o objecto em que me liquefaço. Porque percebo o sentido de toda a florescência, porque a observo no poisar dos insectos ou no bico dos pássaros. Porque sei que, tal como as palavras, assim permanecem os sonhos à espera das asas, beijando o crepúsculo, retidos à espera de um poeta alado que os leve consigo, transportando o sexo, o orvalho de Maio, a filosofia de todas as pedras e a explosão de infinitos verbos na explosão de inúmeros sonhos. Mas hoje, sei apenas que vejo os teus dedos em declinação, aparando os traços da chuva miudinha. E sei que nos gestos apressados com que recolhes as palavras oblíquas, deslizam dos teus lábios húmidos sombras e palavras numa festa de chuva."

Alexandre Monteiro



 Escrito por Marcelo às 10h28
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Ruy Belo

"Estás aqui comigo à sombra do sol
escrevo e oiço certos ruídos domésticos
e a luz chega-me humildemente pela janela
e dói-me um braço e sei que sou o pior aspecto do que sou
Estás aqui comigo e sou sumamente quotidiano
e tudo o que faço ou sinto como que me veste de um pijama
que uso para ser também isto este bicho
de hábitos manias segredos defeitos quase todos desfeitos
quando depois lá fora na vida profissional ou social só sou um nome e sabem
o que sei o
que faço ou então sou eu que julgo que o sabem
e sou amável selecciono cuidadosamente os gestos e escolho as palavras
e sei que afinal posso ser isso talvez porque aqui sentado dentro de casa sou
outra coisa
esta coisa que escreve e tem uma nódoa na camisa e só tem de exterior
a manifestação desta dor neste braço que afecta tudo o que faço
bem entendido o que faço com este braço
Estás aqui comigo e à volta são as paredes
e posso passar de sala para sala a pensar noutra coisa
e dizer aqui é a sala de estar aqui é o quarto aqui é a casa de banho
e no fundo escolher cada uma das divisões segundo o que tenho a fazer
Estás aqui comigo e sei que só sou este corpo castigado
passado nas pernas de sala em sala. Sou só estas salas estas paredes
esta profunda vergonha de o ser e não ser apenas a outra coisa
essa coisa que sou na estrada onde não estou à sombra do sol
Estás aqui e sinto-me absolutamente indefeso
diante dos dias. Que ninguém conheça este meu nome
este meu verdadeiro nome depois talvez encoberto noutro
nome embora no mesmo nome este nome
de terra de dor de paredes este nome doméstico
Afinal fui isto nada mais do que isto
as outras coisas que fiz fi-Ias para não ser isto ou dissimular isto
a que somente não chamo merda porque ao nascer me deram outro nome
que não merda
e em princípio o nome de cada coisa serve para distinguir uma coisa das
outras coisas
Estás aqui comigo e tenho pena acredita de ser só isto
pena até mesmo de dizer que sou só isto como se fosse também outra coisa
uma coisa para além disto que não isto
Estás aqui comigo deixa-te estar aqui comigo
é das tuas mãos que saem alguns destes ruídos domésticos
mas até nos teus gestos domésticos tu és mais que os teus gestos domésticos
tu és em cada gesto todos os teus gestos
e neste momento eu sei eu sinto ao certo o que significam certas palavras como
a palavra paz
Deixa-te estar aqui perdoa que o tempo te fique na face na forma de rugas
perdoa pagares tão alto preço por estar aqui
perdoa eu revelar que há muito pagas tão alto preço por estar aqui
prossegue nos gestos não pares procura permanecer sempre presente
deixa docemente desvanecerem-se um por um os dias
e eu saber que aqui estás de maneira a poder dizer
sou isto é certo mas sei que tu estás aqui"

Ruy Belo



 Escrito por Marcelo às 10h01
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