Ouvindo...

"Pedras rolando"

Beto Guedes / Ronaldo Bastos

"Sou um cão sem dono
A tecer os fios da canção
Bicho das esquinas
Pedra de amolar
De tirar o limo do som

Sou um trem sem sono
Atravessando a noite do sertão
Força do destino
Fonte do prazer
Ter você na palma da mão

Alguém como você faz acontecer
Alguém que faz bater
Alguém que faz voar de tanto bater
Que nem tambor das pedras rolando
Seja o que for

Reunir a tribo
Repartir viagens sob o sol
Lenha na fogueira
Bucha do balão
Faz a nossa chama arder

Sou um trem cigano
Carregando almas sob o sol
Coração de ouro
Algum calor irmão
Faz o nosso amor crescer

E para sempre é o que tem de ser
Na luz de sua clara presença
Seja o que for"



 Escrito por Marcelo às 11h00
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Show da Dani

Amanhã e na próxima quarta (dia 8), às 20h, a amiga Daniela Calazans (para quem freqüenta os saraus na casa do Zaidan, é a 'Dani') e o violonista André Poyart farão show na Livraria Da Conde, no Leblon. O repertório do espetáculo reúne pérolas da MPB e inclui a belíssima Lagoa, parceria do Zaidan com o amigo Luciano Garcez. A entrada é gratuita.



 Escrito por Marcelo às 10h45
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Cartier-Bresson

A amiga Suzana Velasco assinou ontem a matéria de capa do Segundo Caderno (O Globo), sobre o grande Cartier-Bresson. Com o habitual esmero, o texto de Suzana traz comentários a respeito do singular senso estético do fotógrafo, cujo trabalho estará exposto (em parte) a partir de hoje no Centro Cultural dos Correios. A mostra é desde já imperdível. Segue a reportagem da Suzana:

"Intuição precisa - Mostra reúne 155 trabalhos de Henri Cartier-Bresson, selecionados pelo fotógrafo"

Suzana Velasco

"A princípio invasiva, a fotografia parece, quando se vêem fotos de Henri Cartier-Bresson, ter sido essencial para que o momento registrado existisse. É como se a cena não pudesse ter ocorrido se a câmera não estivesse ali. Com sua pequena máquina Leica, e seus olhos cujo anonimato prezava para continuar fotografando anônimos, Cartier-Bresson foi uma espécie de homem invisível que captou instantes preciosos. E era isso que ele desejava: registrar o que chamou de "momento preciso", e que, por ser preciso, necessitava da exatidão fotográfica, mas também da intuição. Cento e cinqüenta e cinco desses momentos, que unem geometria e sensibilidade, poderão ser vistos pelo público a partir das 18h30m de hoje, no Centro Cultural Correios.

A exposição, que faz parte da programação do FotoRio 2005, é um olhar do fotógrafo sobre sua própria obra, de todas as épocas. Escolhidas por Cartier-Bresson, as fotos correram o mundo e deram origem, em 1979, ao livro "Henri Cartier-Bresson — Fotógrafo", que dá nome à exposição — e que tem um exemplar à venda, por R$600, na Livraria Travessa do Centro Cultural Banco do Brasil.
— Não é uma exposição inédita, mas clássica — sintetiza Milton Guran, coordenador do FotoRio. — Ela permite a compreensão não só da estética do fotógrafo, mas também de seu aspecto humanista. Cartier-Bresson não foi apenas o grande nome da fotografia do século XX, mas também um homem que respeitava o outro, o meio ambiente e o próprio ato de fotografar — completa ele, que trouxe a exposição com o apoio do Consulado Geral da França e da Associação Francesa de Ação Artística (AFAA). E nesse ato de fotografar, o tal momento preciso aspirado — e que levou o fotógrafo a rejeitar cenas posadas — foi tanto de anônimos nas ruas de Paris, como o menino lépido que carrega garrafas (foto ao lado), como também de períodos importantes da História mundial, como a China antes e depois da vitória comunista e a Guerra Civil Espanhola.
Guran se lembra de uma mostra em Paris, em comemoração aos 80 anos de Cartier-Bresson, onde os visitantes se aglomeravam para ver as 530 fotos expostas. Era mesmo algo grandioso para o fotógrafo intimista. Considerado um dos mestres do fotojornalismo, mesmo suas fotos mais factuais têm um quê de intimidade, a mesma que ele gostava de preservar.— Uma exposição desse porte não podia ser intinerante. E a mostra que trouxemos é capaz de emocionar qualquer um, é uma homenagem ao "Olho do século" — diz Guran, lembrando que na sexta-feira, durante a montagem da exposição no Correios, outros fotógrafos pararam admirados para observar o material que saía das caixas.Foi Agnes Sire, diretora-executiva da Fundação Henri Cartier-Bresson, quem coordenou de perto a montagem da exposição, que também recebeu o olhar atento da fotógrafa Martine Franck, presidente da fundação e viúva de Cartier-Bresson, morto ano passado, aos 95 anos. — Ele passou dois anos escolhendo as fotos e a montagem da mostra segue a seqüência registrada num livro por Agnes — conta a discreta Martine.
Fotógrafa da Magnum — agência fundada por Cartier-Bresson ao lado de Robert Capa, George Rodger e David Seymour, em 1947 — Martine veio ao Rio para dar uma oficina de três dias para fotógrafos brasileiros, quando mostrou seus trabalhos e conversou sobre temas que aborda: retrato, paisagem e fotos de cena.
— Conheci o Milton Guran em Paris e ele me convidou para fazer o workshop. Nunca tinha me dado conta de que o Brasil tem uma tradição em fotografia. Recebi um grupo com trabalhos de alto nível — comenta ela.
Martine acaba de trabalhar num projeto da Magnum em diferentes cidades européias. Seu trabalho, que será exposto em setembro no Centre Georges Pompidou, em Paris, une três gerações de mulheres na República Tcheca e terá material audiovisual, com entrevistas."



 Escrito por Marcelo às 10h35
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Um mês

Não sei se é porque ela fala francês (e sua pronúncia já foi elogiada por uma velhinha no metrô de Paris ;)), não sei se é porque ela tem uma delicadeza semelhante à melodia sinuosa de uma canção do Chico, não sei se é porque ela estampa no rosto uma felicidade leve leve leve que é também minha... o fato é que a música para hoje é esta:

"Joana Francesa"

Chico Buarque

"Tu ris, tu mens trop
Tu pleures, tu meurs trop
Tu as le tropique
Dans le sang et sur la peau
Geme de loucura e de torpor
Já é madrugada
Acorda, acorda, acorda, acorda, acorda

Mata-me de rir
Fala-me de amor
Songes et mensonges
Sei de longe e sei de cor
Geme de prazer e de pavor
Já é madrugada
Acorda, acorda, acorda, acorda, acorda

Vem molhar meu colo
Vou te consolar
Vem, mulato mole
Dançar dans mes bras
Vem, moleque me dizer
Onde é que está
Ton soleil, ta braise

Quem me enfeitiçou
O mar, marée, bateau
Tu as le parfum
De la cachaça e de suor
Geme de preguiça e de calor
Já é madrugada
Acorda, acorda, acorda, acorda, acorda..."



 Escrito por Marcelo às 11h24
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Melinda e Melinda

O fundo preto contrastando com os créditos em fonte garamond e o jazz pontuando o ritmo não deixaram dúvidas: era um legítimo Woody Allen que surgia na tela do Arteplex na última sexta-feira. E, em Melinda e Melinda, o cineasta volta à boa-forma, após filmes irregulares como Celebridades e Igual a tudo na vida (um parêntese necessário: mesmo nestes filmes irregulares, um 'Woody Allen', assim mesmo, como 'conceito', significa um filme muito acima da média). 

Embora não seja uma obra-prima - casos de Annie Hall e Manhattan, por exemplo -, o novo trabalho apresenta na verdade uma grande síntese da obra do diretor obra, ao explorar os confrontos entre o drama e o humor e, no fim, concluir que caminham sempre juntos dentro de cada trama - da mais banal à mais complexa. Para quem não sabe ainda, Melinda e Melinda narra duas histórias a partir de um mesmo mote: uma mulher que aparece meio que de surpresa num jantar de um casal amigo. Woody imagina dois desenhos possíveis: um deles recheado de humor, o outro carregado em tintas dramáticas. 

E é exatamente esta a tensão que sustenta seus filmes da maturidade, após o longo caminho percorrido entre as ingênuas comédias (Bananas, O dorminhoco) do início da carreira, ainda cheias de cacoetes do one man show, e a inflexão depois por dramas (Interiores, Setembro) em que claramente imitava seu ídolo Bergman. Foi do cruzamento entre esses dois Woodys - o do início e o subseqüente - que nasceu o grande diretor de cinema que conhecemos. Grande não só pelo completo domínio dos elementos fílmicos e pela extraordinária direção de atores, mas sobretudo pela singularidade - a marca dos criadores realmente geniais - e pela capacidade de imaginar seqüências que em si contém tudo o que será desenvolvido durante o filme. Em Melinda, isso acontece quando a protagonista, indagada se chora por alegria ou por tristeza, responde: "E não são sempre lágrimas?". Em uma só frase está a chave do filme todo. Lamento, mas isso não é coisa pra Tarantino e Scotts da vida, não...



 Escrito por Marcelo às 10h28
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Sobre os plocs

Importantíssima a matéria do Carlos Albuquerque no Rio Show (O Globo) de hoje, na qual ele confessa a perplexidade (que é também minha) com esse revival tragicômico em torno dos anos 80. Estive numa dessas chamadas festas Ploc é o que o mais me impressionou foi o climão "tenho em torno de 30 anos-não fiz aquilo que sonhava-então deixa eu reviver um pouco daquela juventude que irremediavelmente perdi ouvindo tosqueiras". Calbuque toca no ponto nevrálgico da questão no texto que posto abaixo:

"Grudado no passado"

Carlos Albuquerque

"Faz um favorzinho? Vá lá na capa deste caderno e confira se a data está certa. É mesmo o dia 27 de maio de 2005? Não está escrito 1985? MESMO? Então por que milhares de pessoas vão lotar o Circo Voador hoje à noite para mais uma celebração dos anos 80, num pacote que inclui a onipresente festa “Ploc”, com participação especial de Gretchen, mais show da banda Perdidos na Selva?
É impressão nossa ou o revival daquela década deixou mesmo de ser uma onda divertida — como está retratada no livro “Almanaque dos anos 80”, que, aliás, não pára de vender — e se transformou numa assustadora tsunami cultural, varrendo do mapa todo o senso crítico das pessoas?
Afinal, como explicar o fato de um certo alguém sair de casa e se jogar numa pista ao som de coisas como Absyntho, Dr. Silvana ou Menudo? Que graça existe em cultuar um período da história a ponto de ficar preso nele e ter a visão do futuro atrapalhada por um topete new wave ? São os oitentistas os novos velhos hippies, gaguejando contra as novidades e pensando como eram bons aqueles tempos de ombreiras e cortes de cabelo ridículos?
— Não tenho nada contra festas retrô. Eu mesmo toco coisas dos anos 80 de vez em quando — diz o DJ Edinho, cria do célebre Crepúsculo de Cubatão. — Mas você não pode ficar parado no tempo. Quem viveu ou tem lembranças dos anos 80 não pode dar as costas para o futuro. É triste ver as pessoas consumindo coisas que já foram digeridas em vez de encarar o que é novo.
Produtor e DJ da “Ploc”, a mais bem-sucedida das festas revival dos anos 80, com edições quase diárias espalhadas pela cidade, o jornalista Luciano Vianna defende os seus peixes e discorda dos que dizem que essa onda atrapalha o bom funcionamento dos neurônios.
— Não acho que a onda dos anos 80 torne as pessoas burras, nem acho que ela seja um atraso — garante ele, que comanda uma edição da festa amanhã, em Natal, no festival “Mada”. — A “Ploc” não é uma festa de sons infantis. Isso representa apenas 40 minutos de um evento que tem quase seis horas. Tocamos também The Smiths, Gang of Four, The Cure e Bomb The Bass. Muitas bandas legais hoje são influenciadas por esses grupos. O conceito da “Ploc” é a diversão. Não queremos ensinar coisa alguma.
Mesmo assim, a lição que está sendo passada é de que se trata de uma onda rentável. Diversas casas noturnas abriram espaços em suas noites para o revival dos anos 80. Festas isoladas — como a recente “Caia nos oitenta” — pintam aqui e ali. Sempre preguiçosas, as rádios já sentiram a moleza e duplicaram a quantidade de hits daquele período na sua programação.
Por isso, tem gente com as balas Juquinha atravessadas na garganta. Gente bacana como o DJ e radialista Maurício Valladares.
— Esse revival dos anos 80 representa a vitória da pasteurização. As pessoas parecem teleguiadas, como se não tivessem cérebro e alma — brada ele, com a autoridade de quem lançou grupos como The Cure e Echo & The Bunnymen durante sua passagem pela Fluminense FM nos anos 80. — Quem faz esse tipo de evento não pode nunca mais reclamar de que não tocam novidades na rádio. Essas festas são a consagração do conformismo.
Edinho enxerga um outro problema, diretamente na pista de dança.
— Acho estranho misturar coisas péssimas daquela época com coisas que eram legais. Fica esquizofrênico — diz ele, que toca amanhã numa festa em homenagem ao Crepúsculo, na Fosfobox. — Não dá para botar Gang of Four, uma banda extremamente politizada, ao lado do Balão Mágico. Pista de dança não é lugar para piadas.
Participante ocasional da “Ploc”, o DJ Wilson Power pega uma carona na cauda do cometa ao tentar explicar o que está no ar.
— Há um vácuo musical e, por isso, as pessoas estão buscando refúgio na segurança dos anos 80 — analisa. — Mas daqui a pouco essa onda vai passar. É como a lambada e o axé."

Tomara, DJ, tomara...



 Escrito por Marcelo às 13h58
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Da mulher

"(...) A mulher não deseja ser mãe de seu homem. Não deseja ser professora de seu homem. Não deseja ser tia de seu homem. Muito menos avó, com chá de boldo na cama. Não fica excitada de colocá-lo de castigo. A mulher não deseja que ele concorde, longe disso. Deseja ser compreendida. Se o homem diz que a compreende, por que ela é obrigada a convencê-lo a todo momento? Não tem lógica. A mulher termina enfastiada com a idéia de repetir a mesma ladainha: "você não me entende?" E ele não entende, apressa entender, que é diferente. A mulher deseja silenciar, mas não silenciar um silêncio qualquer, um silêncio ríspido, um silêncio grosseiro, de talher e cabeça baixa, e sim um silêncio satisfeito, um silêncio de orla, um silêncio de calçadão. Quando a mulher se irrita, não lhe faltam argumentos, ela apenas desistiu de falar. E o homem pensa que ela enfim aceitou sua opinião. A mulher não deseja dar a resposta, está esperando a reação dele. Nunca que pergunte: "o que está pensando", que é a mortalidade infantil do pensamento. Nunca que reclame ou edite o discurso a seu favor. Não adianta fazer ciúme ou fingir remorso. Teatro amador é na escola. A mulher não deseja dar a resposta, o que não significa que não deseja a resposta. É que responder perde a graça, o entusiasmo, o charme. A mulher joga cabra-cega com a boca. Não é um jogo, um mero resultado, a vida do relacionamento depende dessas poucas palavras. É arriscar ou encenar uma falsa sapiência durante cinco dias, cinco meses, cinco anos até acontecer a separação. A paciência tem limite, ora bolas. Ela não vai ficar dando resposta infinitamente. Tampouco deseja que o homem memorize a resposta. Repetir o que ela falou atesta que ele não estava ouvindo. A tática de reiterar a última frase para fingir atenção não funciona mais. Cansa voltar ao ponto de partida, como se nada tivesse existido antes. É simples. A mulher não deseja dar a resposta. Quer ser antecipada, sonhada, imaginada. Tanto faz que ele erre. Deseja ser sondada, visitada, pressentida. A mulher deseja ser adivinhada. A mulher não deseja a resposta certa, não há resposta certa. Deseja ser a resposta que o homem procura fora dela."

Fabricio Carpinejar



 Escrito por Marcelo às 17h48
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Damien Rice

Ontem ouvi uma das faixas deste disco (chamado "O") e fiquei absolutamente fascinado. Vou procurá-lo ainda hoje. Alguém pode me dar mais informações sobre este tal de Damien Rice?



 Escrito por Marcelo às 10h33
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Contratodos

Assisti ontem ao elogiado Contratodos, de Roberto Moreira. Sim, o filme toca em boa parte das questões afeitas ao ambiente urbano da periferia brasileira - desestrutura familiar, tráfico de drogas, violência, profusão de igrejas evangélicas, ausência do Estado... Sim, o filme conta com um elenco afinado e entrosadíssimo (muito em virtude da preparação de atores meticulosa, como se pode conferir nos extras do DVD). Sim, o filme também apresenta uma câmera esperta, nervosa, que capta o clima tenso e sufocante que supostamente paira sobre aquele grupo social. Mas por que então Contratodos não é um grande filme? Justamente porque todos estes elementos estão a serviço do "choque" puro e simples, de um niilismo vazio e não fundamentado, que achata de tal forma a narrativa que não sobra um instante sequer de afeto, de singeleza, de inocência, de alegria, naquele microcosmo. E se o que se pretendeu foi escancarar o realismo, sabemos todos que a realidade, por mais terrível que seja, abre, ainda que de vez em quando, os seus flancos para tais sentimentos.



 Escrito por Marcelo às 10h06
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Antonio Torres

Há algumas semanas, em sua coluna no Caderno B (Jornal do Brasil), mestre Antonio Torres assustou-me ao criticar o monopólio da qualificação de "contemporâneo" por parte dos novos escritores. Sergio Sant'anna e Rubem Fonseca não o seriam?, indagava Torres. Sabemos todos que evidentemente sim. O que estranhei foi que, como bom leitor de boa parte daquilo que se publica no país sobre o assunto, nunca havia sequer vislumbrado alguns dos "novíssimos" incluir exclusivamente a si e a seus pares em tal escaninho conceitual. Pois bem: na coluna de hoje, ele explica melhor o que quis dizer. E mais: com sua habitual generosidade, faz questão de saudar os "novíssimos" , citando a mim e a outros cinco grandes amigos - Adriana Lisboa, JP Cuenca, Henrique Rodrigues, Mariel Reis e Bianca Ramoneda -, o que muito decerto nos enche de orgulho. Abaixo, um trecho do texto. Leia a íntegra aqui.

"Aos novos autores"

Antonio Torres 

"(...) Tais considerações vêm a propósito da coluna de 10/5, intitulada Esses debates, com a intenção de esquentar as discussões acadêmicas que vêm sendo promovidas pelos cadernos literários, tendo como pano de fundo os textos & posturas dos novos autores. Senti no ar o cheiro do descontentamento. Nada contra vocês, queridos. Há muita gente boa pintando no pedaço, aqui no Rio, sem dúvida. Nem falo da premiada Adriana Lisboa, nem do João Paulo Cuenca, que já ultrapassaram a fita de largada. Mas de um Marcelo Moutinho, um Mariel Reis, um Henrique Rodrigues - basta ler o simpático Prosas cariocas para arriscar uma aposta neles. Neste livro o leitor poderá se surpreender também com um conto da Bianca Ramoneda, que apresenta uma visão sensível das diferenças entre os interiores da Zona Norte e os exteriores da Zona Sul (...)."



 Escrito por Marcelo às 09h47
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Canção para hoje

"Dans mon île"

Henri Salvador

"Dans mon île
Ah comme on est bien
Dans mon île
On n'fait jamais rien
On se dore au soleil
Qui nous caresse
Et l'on paresse
Sans songer à demain
Dans mon île
Ah comme il fait doux
Bien tranquille
Près de ma doudou
Sous les grands cocotiers qui se balancent
En silence, nous rêvons de nous.

Dans mon île
Un parfum d'amour
Se faufile
Dès la fin du jour
Elle accourt me tendant ses bras dociles
Douce et fragile
Dans ses plus beaux atours
Ses yeux brillent
Et ses cheveux bruns
S'éparpillent
Sur le sable fin
Et nous jouons au jeu d'Adam et Eve
Jeu facile
Qu'ils nous ont appris
Car mon île c'est le Paradis"



 Escrito por Marcelo às 11h12
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O olhar da Newlands

 

A Mariana Newlands acaba de postar nova série de fotos lá no Interlúdio. Estão - como sempre - deslumbrantes as imagens que ela registrou em recente passeio a Niterói. Os dois exemplos acima são ângulos do Museu de Arte Contemporânea...



 Escrito por Marcelo às 10h43
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Albano Martins

"Gosto de ti como duma fotografia.
Amo as paisagens porque são
o foco onde o teu corpo se ilumina.
És a manhã deitada de perfil.
Perspectiva onde a minha vida
ganha forma e se fixa, de repente"

Albano Martins


P.S. Foto de Margarida Delgado...



 Escrito por Marcelo às 10h29
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300 toques - Número 22

Verniz

De novo engolira uma esperança verde-água, a última antes de dizer a si mesma que desistia. Desistia do homem, do amor, das esperanças verde-água que batiam em seu rosto nas tardes de brisa leve. Estava cansada, e o cansaço é branco. Não deixa ver que quem bota ou tira o verniz do mundo é a gente.



 Escrito por Marcelo às 14h14
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Drummond

"Campos de flores"

Carlos Drummond de Andrade

"Deus me deu um amor no tempo de madureza,
quando os frutos ou não são colhidos ou sabem a verme.
Deus - ou foi talvez o Diabo - deu-me este amor maduro,
e a um e outro agradeço, pois que tenho um amor.

Pois que tenho um amor, volto aos mitos pretéritos
e outros acrescento aos que amor já criou.
Eis que eu mesmo me torno o mito mais radioso
e talhado em penumbra sou e não sou, mas sou.

Mas sou cada vez mais, eu que não me sabia
e cansado de mim julgava que era o mundo
um vácuo atormentado, um sistema de erros.
Amanhecem de novo as antigas manhãs
que não vivi jamais, pois jamais me sorriram.

Mas me sorriam sempre atrás de tua sombra
imensa e contraída como letra no muro
e só hoje presente.
Deus me deu um amor porque o mereci.
De tantos que já tive ou tiveram em mim,
o sumo se espremeu para fazer um vinho
ou foi sangue, talvez, que se armou em coágulo.

E o tempo que levou uma rosa indecisa
a tirar sua cor dessas chamas extintas
era o tempo rriais justo. Era tempo de terra.
Onde não há jardim, as flores nascem de um
secreto investimento em formas improváveis.

Hoje tenho um amor e me faço espaçoso
para arrecadar as alfaias de muitos
amantes desgovernados, no mundo, ou triunfantes
e ao vê-los amorosos e transidos em torno,
o sagrado terror converto em jubilação.

Seu grão de angústia amor já me oferece
na mão esquerda. Enquanto a outra acaricia
os cabelos e a voz e o passo e a arquitetura
e o mistério que além faz os seres preciosos
à visáo extasiada.

Mas, porque me tocou um amor crepuscular,
há que amar diferente. De uma grave paciência
ladrilhar minhas mãos. E talvez a ironia
tenha dilacerado a melhor doação.
Há que amar e calar.
Para fora do tempo arrasto meus despojos
e estou vivo na luz que baixa e me confunde."



 Escrito por Marcelo às 13h16
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Girassóis

Ontem, assistindo ao leve e divertido Garotas do calendário, enfim descobri por que sou tão fascinado por girassóis. É que há o movimento giratório feito pela flor no afã de acompanhar o Astro Rei encerra uma poderosa metáfora. E essa busca permanente da luz aonde quer que ela esteja, sob qualquer pena ou pretexto, é o que importa - sobretudo em dias escuros.



 Escrito por Marcelo às 10h54
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Millôr

"O mal da cultura é que ela amplia gigantescamente a nossa ignorância"

Do grande Millôr, ontem, na Veja...



 Escrito por Marcelo às 10h27
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Hoje é dia de apagar a velinha

Cá estou eu - entre juristas, sociólogos, ministros de Estado, e temas como a reforma da Justiça e o Código de Defesa do Consumidor -, comandando a cobertura jornalística da IX Conferência da OAB, o que me imposibilita de atualizar a contento este bloguito tão querido. De qualquer modo, não poderia deixar de saudar no Pentimento este dia tão especial que é o de hoje. Afinal, trata-se do aniversário da futura pós-graduada em Tradução Flávia Moutinho, moça que deixa todo pimpão e orgulhoso o mano que aqui escreve. Parabéns, saúde, amor e sucesso é o que desejo a ela, que vem fazendo por onde... Como primeiro presente do dia, lembro da canção abaixo, sucesso da Calcanhotto, que tanto lhe é cara e sempre me faz lembrá-la, metido toda vida, imaginando que de fato ela sempre prestou atenção no que eu ouvia...

"Esquadros"

Adriana Calcanhotto

"Eu ando pelo mundo prestando atenção
Em cores que eu não sei o nome
Cores de Almodovar
Cores de Frida Kahlo, cores
Passeio pelo escuro eu presto muita atenção
no que meu irmão ouve
E como uma segunda pele, um calo,
uma casca uma cápsula protetora
eu quero chegar antes pra sinalizar o estar
de cada coisa filtrar seus graus
Eu ando pelo mundo divertindo gente
chorando ao telefone
E vendo doer a fome dos meninos que têm fome
Pela janela do quarto
Pela janela do carro
Pela tela, pela janela (quem é ela, quem é ela?)
Eu vejo tudo enquadrado
Remoto controle
Eu ando pelo mundo e os automóveis correm para quê?
As crianças correm para onde?
Transito entre dois lados de um lado
Eu gosto de opostos
Exponho o meu modo, me mostro
Eu canto para quem?
Pela janela do quarto
Eu ando pelo mundo e meus amigos, cadê?
minha alegria, meu cansaço?
Meu amor, cadê você?
Eu acordei não tem ninguém ao lado
Pela janela do quarto"


P.S. O "porquinho" é piada interna...



 Escrito por Marcelo às 10h49
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Ismael Silva

 

Mais um projeto do incansável e multimídia Luís Filipe Lima, a série Ismael Silva – Deixa falar estréia hoje no Teatro Rival, onde fica em cartaz até domingo, sempre às 19h30. A proposta é homenagear o autor de Antonico, Nem é bom falar e A razão dá-se a que tem, que, se vivo, completaria 100 anos no próximo mês de setembro. No primeiro espetáculo desta noite dividirão o palco Fátima Guedes e Flávio Bauraqui, que centrarão o repertório em músicas sobre  amor de malandro. O programa segue com Elton Medeiros e Cláudio Nucci, na sexta, Mônica Salmaso e Cláudio Jorge, no sábado, e Teresa Cristina, Monarco e Pedro Miranda, no domingo.



 Escrito por Marcelo às 16h12
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Uma noite para não esquecer mais

 

Foi realmente de emocionar o show que a amiga querida Luisa Saboia fez ontem no Far Up. Orgânico e conceitual, o espetáculo começava antes mesmo de a cantora subir ao palco. Nas mesas, um pequeno e delicado folder trazia um resumo da concepção geral do trabalho, com texto introdutório da diretora, Mariana Blanc, além das letras das canções que estariam no repertório. A acompanhar o folder, um frasco com água de cheiro e chocolates.

Luisa entrou um pouco nervosa, mas a partir da lindíssima Âmbar, de Adriana Calcanhotto, segunda música da lista, equilibou-se. Foi bastante ajudada pela banda que a acompanhava. Formando com guitarra, bateria, trompete, piano elétrico e baixo acústico, os garotos sobraram em disposição – um disposição juvenil, como bem comentou o Hugo Sukman, que deu a mim e à Flá o prazer de sua companhia.

Luisa passeou por composições de Aldir Blanc e Fátima Guedes – que estavam presentes -, Sueli Costa, Moacyr Luz e Tom Jobim, entre outras feras do nosso cancioneiro. Cantou também alguns temas clássicos do jazz, como a preciosa I’ve got you under my skin. Mas o momento mais tocante da noite – para mim, decerto – foi quando verdadeiramente “tomou para si” a música Fotos, parceria minha com o amigo Rodrigo Zaidan, interpretando-a como se fosse ela a revirar, doloridamente, a caixa de fotografias a que a letra alude. O arranjo que o Rodrigo escreveu ficou intenso, lírico, bonito demais. Nunca tinha ouvido minha canção dessa forma, num palco, com músicos dando tudo por ela, e uma cantora especialmente iluminada – não sei se foi impressão, mas me pareceu o instante do show em que Luisa mais se entregou, mais viveu o que cantava.

Com os olhos levemente marejados, abracei a Flá, num daqueles abraços que dizem coisas, que dizem livros inteiros, e aplaudi. Ainda deu tempo de ver mestre Aldir Blanc acenando de longe, com um sorriso e um leve inclinar de cabeça que denotavam aprovação. O que mais posso querer de uma noite?

Parabéns à Mariana e à Rô, que tanto fizeram pelo sucesso do espetáculo.

E obrigado à Lu, por ter me proporcionado tudo isso...



 Escrito por Marcelo às 11h07
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Ouvindo...

"Sete mil vezes"

"Sete mil vezes eu tornaria a viver assim
Sempre contigo transando sob as estrelas
Sempre cantando a música doce
Que o amor pedir pra eu cantar
Noite feliz, todas as coisas são belas
Sete mil vezes, e em cada uma outra vez querer
Sete mil outras em progressão infinita
Quando uma hora é grande e bonita
Assim quer se multiplicar
Quer habitar todos os cantos do ser
Quarto crescente pra sempre um constante quando
Eternamente o presente você me dando
Sete mil vidas, sete milhões e ainda um pouco mais
É o que eu desejo e o que deseja esta noite
Noite de calma e vento, momento
De preces e de carnavais"



 Escrito por Marcelo às 10h26
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Da paternidade

"(...) Gosto de espreitar o teu sono de criança, à noite, quando dormes alheia a tudo, e eu fico a ouvir a tua respiração e a alisar os teus cabelos. Às vezes, chego a pensar que é um desperdício ir dormir, em lugar de ficar a ver-te dormir, porque o tempo voa e em breve já não serás criança. Nestas noites, como diz a lei, tenho-te à minha "guarda", o que é um prazer insubstituível e a que alguns chamam direitos e outros chamam deveres.
Gosto de acordar de manhã, quando, ainda antes do despertador tocar, oiço o som do Canal Panda na sala, e fico a saber que tu já acordaste e que segues à risca o ritual estabelecido, e que a seguir irás fazer o teu pequeno-almoço e vestires-te para a escola. Mas, apesar disso, gosto de te recomendar que faças tudo isso e não te esqueças de lavar os dentes, sabendo que não te esqueces mas também gostas de ouvir-me dizer-to, porque essa é uma forma de saberes que te "guardo".
E embora eu saiba que não há carros à vista quando tu atravessas a rua para a porta da escola, vou contigo de mão dada, para que sintas ou para que eu finja para comigo mesmo que continuo a guardar-te até que a porta nos separe e outros fiquem contigo.
Porque há sempre uma porta que se fecha e que nos separa, ao contrário da casa, onde a porta do teu quarto e a do meu estão sempre abertas. Há sempre esta porta que se fecha sobre ti, outros que te falam e te escutam, enquanto eu caminho na tua ausência e na lembrança da tua voz, outros que sabem de ti o que eu ignoro, outros que por vezes se cansam de ti enquanto eu só te espero, outros que te vêem e te tocam enquanto eu olho as tuas fotografias espalhadas pela minha vida. Tão perto e tão longe de ti. Tão fundo e tão ausente. Tantas esperanças. Tantos anos, tantos danos.
Fecho os olhos e sonho. Tu caminhas comigo, de mão dada, num campo onde não há mais ninguém, e procuramos musgo e pinhas. Há uma gruta num pequeno bosque de que eu finjo não conseguir nunca encontrar a entrada sem ti. É o nosso segredo e lá estaremos protegidos do mundo e dos seus males e perigos. Entro por aí contigo. Adormeço e para sempre viverei contigo nesta gruta. E és tu então que me proteges. (...)"

Miguel Sousa Tavares



 Escrito por Marcelo às 09h51
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Mafalda

A cada tirinha que leio (ou releio) mais fico fascinado pela Mafalda...



 Escrito por Marcelo às 09h43
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Entrevista com Flávio Carneiro

Muito boa a entrevista que o Flávio Carneiro concedeu ao site da Agência Literária BMSR, falando sobre seu novo livro, o já aqui mencionado No país do presente - Ficção brasileira do início do século XXI. Em suas respostas, Flávio aborda o atual panorama literário do país e salienta que não escreveu uma antologia, mas uma seleta de resenhas sobre livros que lhe deram prazer em ler. Abaixo, posto uma das questões comentadas pelo entrevistado, e que toca justamente no aparente "temor" que a crítica tem em focar a atual produção. Confira a íntegra do texto aqui.

"Também na apresentação do livro, você escreve: “E o que dizer da ficção brasileira produzida nos primeiros anos do século XXI? Em primeiro lugar, é bom lembrar que falar do presente é tarefa delicada. Se a história tradicional nos ensinou que é preciso ter certo distanciamento do fato para analisá-lo com imparcialidade, os novos historiadores têm defendido idéia contrária: é preciso ler o contemporâneo de dentro mesmo do contemporâneo. O que é mais delicado nessa história de falar do presente?
Falar do presente significa aceitar a incerteza. Aliás, se pensarmos bem, sempre convivemos com a incerteza, mesmo quando falamos do passado. De todo modo, quando falamos de algo ocorrido há vinte ou trinta anos, temos pelo menos a ilusão de que falamos sobre alguma coisa já estabelecida. Essa ilusão nos fornece, a princípio, um solo mais firme. Falar de algo que ainda está se processando, que muda a cada dia, requer outra postura, que a história tradicional (a geral e a literária) evitava e que, a meu ver, é fascinante. Você é obrigado a conviver com a dúvida. Grande parte dos críticos foge disso, porque acredita que não se pode saber ao certo se determinada obra tem ou não valor, se vai ficar ou não para a posteridade. Acho isso uma bobagem. O crítico não tem que olhar sempre para trás, tem que assumir riscos, falar do presente no meio mesmo do presente. Nesse movimento acredito que o crítico se aproxima do ficcionista. Porque, então, um e outro estão lidando com o imponderável, amparados cada qual por sua formação, sua técnica, seu olhar sobre o mundo, e sujeitos, ambos, a cair no abismo a cada passo."



 Escrito por Marcelo às 11h07
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Compras

   

Duas visitas à Bienal e o saldo de compras foi o seguinte:

. Toda Mafalda, de Quino;

. Perfis do Rio / Paulo Francis, de Daniel Piza;

. Perfis do Rio / Fernando Sabino, de Arnaldo Bloch;

. Fama e anonimato, de Gay Talese.



 Escrito por Marcelo às 10h48
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Luisa Saboia

A pedido da amiga Luisa Saboia, queria convocá-los para ir ao Far Up da Cobal do Humaitá amanhã, a partir das 21h, conferir o primeiro show solo da moça. O espetáculo terá direção e produção de duas outras grandes amigas: Mariana Blanc e Rosana Lobo. O repertório, além sucessos como My funny valentine, Resposta ao tempo, You belong to me e Âmbar, incluirá canções "lado b" de feras como Moacyr Luz, Aldir Blanc e Sueli Costa, além de uma composição minha, em parceria com Rodrigo Zaidan. Estão previstas também as participações especiais de Fátima Guedes e Carol Saboia. Ingressos a R$ 15.



 Escrito por Marcelo às 10h34
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Momentos "Sala Vip da Bienal"

 

 

1. Miguel Conde bebe (os demais já haviam bebido), enquanto sua namorada proseia com Cecília Giannetti;

2. Clarah Averbuck pensa na vida, enquanto Joca Terron conversa comigo sobre os males do envelhecimento, entre eles o inusitado fato de que a orelha nunca pára de crescer;

3. João Paulo Cuenca e Rosana Caiado dançam algo entre o samba e o tango, enquanto são aplaudidos por uma fã mais animada;

4. Eu e Flá, depois de rirmos horrores com o papo da animada mesa de "novíssimos escritores" (que recebeu a visita de gente da velha geração, como Antonio Torres, e praticamente arrasou com os estoques de bebidas do bar), estampamos nos rostos o nosso cansaço (felizes à beça!).



 Escrito por Marcelo às 19h20
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Canção para sempre

"Tudo que vivi"

Moacyr Luz / Wilson das Neves

"Quando dei por mim
Mudei de caminho
Encostei no fundo do coração
E cantei sozinho
Fiz um tamborim
Com as minhas mãos
E a canção surgiu
Como nasce a luz numa escuridão
Minha inspiração

Me lembrei de mim
Lendo a minha mão
E a melodia bordando contas
Do meu cordão
Tudo era destino
Tudo aconteceu
Pra dizer em verso
O que minha vida
Já escreveu

Com amor amei
Árvores plantei
De me emocionar
Sempre que aprendi
Nas vezes que errei
No anel de ouro
O meu santo forte
E por isso eu digo pra Deus
Ô, sorte que te encontrei!"



 Escrito por Marcelo às 18h55
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Jamelão 9.2

"Puxador", não! Cantor da melhor qualidade, grande intérprete da dor-de-cotovelo lupisciniana e dos sambas-de-enredo da querida verde-e-rosa, o grande Jamelão completa hoje 92 anos de idade mantendo o elástico no pulso e a forma plena. Lembrando a data, o site No Mínimo publicou artigo de Moacyr Andrade sobre "a voz suprema da Avenida". Abaixo, um trecho do texto. Leia a íntegra aqui.

"Uma data da cultura nacional"

Moacyr Andrade

"(...) É o solista principal das escolas (ele repele a designação de puxador, a seu ver injuriosa, resíduo dos preconceitos que açoitaram o samba nos primórdios) desde os tempos em que a única distância, escrupulosamente respeitada, entre platéia e sambistas era a corda móvel, transportada pelos próprios componentes, que isolava passistas, ritmistas e baianas. Viveu todas as mutações do samba-enredo como seu intérprete máximo, ideal, condição reconhecida e proclamada pelos rivais e seguidores mais qualificados.
José Bispo Clementino dos Santos nos documentos pessoais, só José Bispo ou Ferreira dos Santos nas partituras e nas planilhas do direito autoral de sua relativamente pequena mas valiosa obra de compositor, Jamelão é especialíssimo também como cantor do sentimento, porta-voz veraz e convincente das emboscadas do amor e da vida. Nas casas de baile, no rádio e no disco, impôs-se com estilo e timbre únicos, para os quais jamais foi apontada a mais remota sugestão de modelo ou influência e que excluem, pela absoluta particularidade, a possibilidade de imitadores. (...)"



 Escrito por Marcelo às 10h28
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Bienal

A quem interessar possa: minhas dicas sobre a programação da Bienal do Livro foram postadas ontem no blog Paralelos do Globo On Line. Já estão publicados lá também textos dos amigos Augusto Sales, Ronize Aline, Simone Paterman, Fred Leal, Gustavo de Almeida e Jaime Gonçalves Filho. 



 Escrito por Marcelo às 10h09
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Hoje a vítima sou eu

As paródias que o Henrique está postando lá no Fullbag - e que já vitimaram Guimarães Rosa, Clarice Lispector, Paulo Coelho e Raduan Nassar -começam a mirar a novíssima geração: depois de 'zoar' Martha Medeiros e João Paulo Cuenca, hoje o rapaz decidiu apontar para este que vos escreve. Confiram tudo aqui. Só um aviso: ele não perde por esperar...

 Escrito por Marcelo às 10h05
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Roberta Sá

Grata surpresa o disco Braseiro, de Roberta Sá. A cantora que, segundo me informaram, participou do programa Fama (sendo eliminada nas primeiras rodadas, tem uma voz suave), afinadinha e agradabilíssima, em alguns momentos chegando a lembrar Marisa Monte. Além disso, seu cd de estréia prima pelo repertório, bastante orgânico e irrepreensível sob o ponto de vista da qualidade. Gravada anteriormente por João Gilberto, a suingada Eu sambo mesmo (Janet de Almeida), que abre o álbum, ganha 'pegada' na gravação da moça. Em Pelas tabelas, do Chico, o registro está no mínimo à altura do feito pelo próprio autor. Merecem destaque também a contundente No braseiro ("Tão vendendo ingresso / pra ver nego / morrer no osso / vou fechar a janela / pra ver se não ouço / a mazela dos outros"), de Pedro Luís; a obra-prima Lavoura ("A tristeza é o grão / A saudade é o chão onde eu planto / Do ventre da solidão / É que nasce o meu pranto"), parceria da Teresa Cristina com o Pedro Amorim que no cd Roberta divide com Ney Matogrosso; a clássica A vizinha do lado ("A vizinha quando passsa / Com seu vestido grená / todo mundo diz que é boa / Mas como a vizinha não há"), de mestre Dorival; e a dolorida Cicatrizes ("Amor que nunca cicatriza / Ao menos ameniza a dor / Que a vida não amenizou"), de Paulinho César Pinheiro e Miltinho. Trata-se, enfim, de um daqueles raros cds para serem ouvidos do início ao fim - não há nem sequer uma faixa ruim. Para postar, escolhi a lírica Casa pré-fabricada, canção inspirada de Marcelo Camelo que a cantora gravou com a delicadeza que letra e melodia sugerem...

"Casa pré-fabricada"

Marcelo Camelo

"Abre os teus armários eu estou a te esperar,
Para ver deitar o sol sobre os teus braços, castos
Cobre a culpa vã, até amanhã eu vou ficar,
E fazer do teu sorriso um abrigo
Canta que é no canto que eu vou chegar
Canta o teu encanto que é pra me encantar
Canta para mim, qualquer coisa assim sobre você
Que explique a minha paz, tristeza nunca
Mais vale o meu pranto que este canto em solidão,
Nesta espera o mundo gira em linhas tortas
Abre essa janela a Primavera quer entrar
Pra fazer da nossa voz uma só nota
Canto que é de canto que eu vou chegar,
Canto e toco um tanto que é pra te encantar
Canto para mim, qualquer coisa assim sobre você
Que explique a minha paz, tristeza nunca mais."



 Escrito por Marcelo às 09h19
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Para F.

P.S. A arte é da sempre delicada e competente Mariana Newlands...



 Escrito por Marcelo às 13h10
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"No país do presente"

Hoje, conferindo os lançamentos do mercado editorial numa livraria próxima ao trabalho, deparei-me com No país do presente - Ficção brasileira do início do século XXI, de Flávio Carneiro (Editora Rocco). No estudo, que nasceu de sua tese de pós-doutoramento, o autor faz um interessante passeio pelos bosques de nossa literatura contemporânea, analisando, livro a livro, alguns dos principais lançamentos entre os anos de 2000 e 2004. Estão lá desde feras consagradas como Luiz Fernando Veríssimo, Milton Hatoum, Lygia Fagundes Telles, Rubens Figueiredo, Dalton Trevisan, Rubem Fonseca, Antônio Tores, Sérgio Sant'Anna e Silviano Santiago, à autores da nova safra, entre eles Michel Laub, João Paulo Cuenca, Joca Terron, Paloma Vidal e este que vos escreve. Sim, para orgulho meu, Memória dos barcos também mereceu espaço na análise de Flávio Carneiro.



 Escrito por Marcelo às 13h05
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"Para atravessar contigo o deserto do mundo"

"Para atravessar contigo o deserto do mundo
Para enfrentarmos juntos o terror da morte
Para ver a verdade para perder o medo
Ao lado dos teus passos caminhei

Por ti deixei meu reino meu segredo
Minha rápida noite meu silêncio
Minha pérola redonda e seu oriente
Meu espelho minha vida minha imagem
E abandonei os jardins do paraíso

Cá fora à luz sem véu do dia duro
Sem os espelhos vi que estava nua
E ao descampado se chamava tempo

Por isso com teus gestos me vestiste
E aprendi a viver em pleno vento"

Sophia de Mello Breyner Andresen



 Escrito por Marcelo às 09h41
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Herberto Helder + Rodin

"Esta mão que escreve a ardente melancolia
da idade
é a mesma que se move entre as nascenças da cabeça,
que à imagem do mundo aberta de têmpora
a têmpora
ateia a sumptuosidade do coração. A demência lavra
a sua queimadura desde os seus recessos negros
onde se formam
as estações até ao cimo,
nas sedas que se escoam com a largura
fluvial
da luz e a espuma, ou da noite e as nebulosas
e o silêncio todo branco.
Os dedos.
A montanha desloca-se sobre o coração que se alumia: a língua
alumia-se: O mel escurece dentro da veia
jugular talhando
a garganta. Nesta mão que escreve afunda-se
a lua, e de alto a baixo, em tuas grutas
obscuras, essa lua
tece as ramas de um sangue mais salgado
e profundo. E o marfim amadurece na terra
como uma constelação. O dia leva-o, a noite
traz para junto da cabeça: essa raiz de osso
vivo. A idade que escrevo
escreve-se
num braço fincado em ti, uma veia
dentro
da tua árvore. Ou um filão ardido de ponto a ponta
da figura cavada
no espelho. Ou ainda a fenda
na fronte por onde começa a estrela animal.
Queima-te a espaçosa
desarrumação das imagens. E trabalha em ti
o suspiro do sangue curvo, um alimento
violento cheio
da luz entrançada na terra. As mãos carregam a força
desde a raiz
dos braços a força
manobra os dedos ao escrever da idade, uma labareda
fechada, a límpida
ferida que me atravessa desde essa tua leveza
sombria como uma dança até
ao poder com que te toco. A mudança. Nenhuma
estação é lenta quando te acrescentas na desordem, nenhum
astro
é tao feroz agarrando toda a cama. Os poros
do teu vestido.
As palavras que escrevo correndo
entre a limalha. A tua boca como um buraco luminoso,
arterial.
E o grande lugar anatómico em que pulsas como um lençol lavrado.
A paixão é voraz, o silêncio
alimenta-se
fixamente de mel envenenado. E eu escrevo-te
toda
no cometa que te envolve as ancas como um beijo.
Os dias côncavos, os quartos alagados, as noites que crescem
nos quartos.
É de ouro a paisagem que nasce: eu torço-a
entre os braços. E há roupas vivas, o imóvel
relâmpago das frutas. O incêndio atrás das noites corta
pelo meio
o abraço da nossa morte. Os fulcros das caras
um pouco loucas
engolfadas, entre as mãos sumptuosas.
A doçura mata.
A luz salta às golfadas.
A terra é alta.
Tu és o nó de sangue que me sufoca.
Dormes na minha insónia como o aroma entre os tendões
da madeira fria. És uma faca cravada na minha
vida secreta. E como estrelas
duplas
consanguíneas, luzimos de um para o outro
nas trevas."

Herberto Helder 



 Escrito por Marcelo às 09h31
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Novo livro do Carpi

 

Recebi em casa ontem, gentilmente remetido pelo próprio, o volume Como no Céu/Livro de visitas, novo trabalho do gente-fina Fabrício Carpinejar. Com dupla face - a primeira solar (Como no Céu), a segunda sombria (Livro de visitas) - a obra reúne poemas cujo enfoque principal se dá sobre o cotidiano da relação a dois - por isso talvez tenha sido tão adequada a duplicidade, desde sempre latente no amor. São pequenos detalhes, delicadezas, singularidades, reconhecimentos, que convivem com discussões, ironias, diferenças, incompreensões - tudo isso expresso através das poesias do Carpi. Entre elas, aliás, gostei sobretudo de duas. Uma delas é a que se segue:

"Nunca tenho lugar suficiente aos livros

atalhados entre a cama e a mesa.

Anotados, dobrados, velhos,

anestesiados numa bolsa ou nas gavetas.

Nenhum volume magro ultrapassa a roleta,

não vejo espaço de pé ou sentado.

Minha mulher ri

do meu desequilíbrio na escada.

 

Seu riso também é uma estante cheia"



 Escrito por Marcelo às 10h12
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Paralelos no Globo On Line

A revista Paralelos participará da cobertura especial da Bienal do Livro do site Globo On Line através de um blog (já no ar), onde eu e amigos como Augusto Sales, Jaime Gonçalves Filho, Cecilia Giannetti, Antonia Pellegrino e Simone Paterman, entre outros, registraremos nossas impressões sobre o evento. Serão textos absolutamente livres, que tentarão captar o "climão" da Bienal, seja no movimento dos corredores do Riocentro, seja no café cultural ou nos debates. Confiram aqui



 Escrito por Marcelo às 11h30
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Mais sobre

Tenho lido muita coisa bacana a respeito do filme A queda! Os últimos dias de Hitler (assim mesmo, com esse dispensável ponto de exclamação), ao qual já assisti e recomendo enfaticamente. Entre os tantos artigos conferidos nos últimos dias, um dos melhores foi o do gente-boa Arthur Dapieve, publicado no Segundo Caderno da última sexta-feira. Dapi chega ao cerne da polêmica que o filme provocou - a suposta "humanização" do Führer - ao considerá-la, mais do que "fiel aos fatos", necessária. "Se Hitler fosse um monstro, nada teríamos a aprender com ele. Seu mal seria neutralizado, banido do gênero humano, e não teríamos mais que nos preocuparmos com o seu ressurgimento, sob a mesma ou sob outras faces", anota o articulista. Segue a íntegra do texto dele, que merece ser lido:

"Últimos momentos"

Arthur Dapieve

"Comemora-se domingo o 60 aniversário do Dia V-E, o da vitória aliada na Europa, com a rendição incondicional da Alemanha nazista. A data motiva a estréia, hoje, em circuito nacional, de um polêmico filme alemão, “A queda! Os últimos dias de Hitler” (“Der Untergang”, 2004), dirigido por Oliver Hirschbiegel e estrelado por Bruno Ganz.
A polêmica é sadia mas, creio, se dá em torno de uma falsa questão: segundo uma facção da crítica, a assombrosa incorporação de Ganz por Hitler, ao humanizar o ditador, atrai a compaixão do espectador. Equívoco imediato desta acusação: só alguém na mais perfeita ignorância do mal que Hitler e seus acólitos fizeram poderia sentir dó.
O filme não omite nada. Embora passado nos últimos 19 dias do Terceiro Reich, embora ambientado em Berlim, em torno do bunker de Hitler, “A queda” (vou-nos poupar do ponto de exclamação) fala do ódio misantropo, do desprezo pelos eslavos, do extermínio dos judeus. Os 50 milhões de mortos da Segunda Guerra estão ali, vagando entre as ruínas.
Os nazistas de “A queda” repetem, arrogantes, que não se deve sentir compaixão pelos fracos, pelos inferiores. No caso em tela, porém, são eles próprios os fracos e os inferiores, é deles que não podemos sentir pena. Pois a queda do título brasileiro — o original Untergang significa “ocaso” — tem um sentido moral, além do histórico.
Quanto à humanização do Führer, vegetariano, abstêmio, não-fumante, amante de pastores alemães e crianças arianas, ela é fiel aos fatos e necessária. Se Hitler fosse um monstro, nada teríamos a aprender com ele. Seu mal seria neutralizado, banido do gênero humano, e não teríamos mais que nos preocuparmos com o seu ressurgimento, sob a mesma ou sob outras faces. Portanto, crer no Hitler monstro é o melhor que podemos fazer por suas viúvas, que estão aí, como atestam as manifestações anti-semitas sempre que se lembra Auschwitz. Como se o Holocausto dissesse respeito somente aos judeus.
Para os cristãos, sem a face humana, as boas novas de Jesus estariam perdidas. Para todos nós, sem a face humana, a mensagem apocalíptica de Hitler tornaria-se indecifrável. Também nesse sentido, Hitler é um anticristo. Entretanto, sendo ele humano, não é o único. Outros existiram, outros virão. “A queda” deixa isso claro. Diferentemente do que diz o subtítulo nacional, o filme não cobre “os últimos dias de Hitler” apenas, mas também os oito subseqüentes, que vão do seu suicídio, a 30 de abril de 1945, à rendição da Alemanha.
Tal período de sobrevivência do Terceiro Reich a Hitler é uma prova eloqüente de que ele não estava só. “Não forçamos o povo alemão a nada”, diz seu sucessor, o ministro da Propaganda, Goebbels (Ulrich Matthes). O diretor Hirschbiegel povoa o filme de personagens, como a filicida Sra. Goebbels (Dorinna Harfouch), a secretária-narradora Traudl Junge (Alexandra Maria Lara) e o jovem hitlerista Peter Kranz (Donevan Gunia), que ilustram a complexa trama de lealdade e fanatismo do Volk , cúmplice de sua desgraça.
Passados 60 anos do suicídio de Hitler, às vezes se tem a impressão de que todos os alemães vivos entre 1933 e 1945 eram antinazistas. Isso torna assistir a “A queda” ainda mais importante. Como seria importante a tradução, no Brasil, do livro “La vie à en mourir — Lettres de fusillés 1941-1944” (Tallandier Éditions, 2003, 368 páginas, 21 euros).
Como a França de hoje também pode nos sugerir que todos os cidadãos foram membros da Resistência na época da Ocupação alemã, o livro é um perturbador lembrete de que alguns cidadãos de fato foram membros da Resistência — e pagaram com a vida por isso. Ele é composto de 120 cartas selecionadas e comentadas pelo historiador Guy Krivopissko. Quando as escreveram, sem tremer, frisam alguns, os autores estavam a instantes de serem fuzilados ou pelos alemães ou pelo governo colaboracionista de Vichy.
Vê-se logo que “La vie à en mourir” e “A queda” têm isso em comum: tratam de últimos momentos. Os dos resistentes franceses são verdadeiramente comoventes, a tal ponto que a leitura sistemática do livro se revela insuportável. É coisa para ser lida aos poucos, meio ao acaso, a partir do prefácio emocionado de François Marcot. “Essas cartas figuram entre os mais fortes testemunhos que a escrita humana nos legou. (...) Essas últimas cartas se dirigem a nós porque elas narram a vida desses homens e dessas mulheres, que se encontravam então face à morte, palavras de homens sobre a vida do homem.”
Tão tocantes nas cartas quanto os patrióticos “Vive la France!” são as preocupações com os sobreviventes: não chore por mim, arranje um outro bom homem como marido, entregue meus pertences a fulano, não brigue com sua irmã, diga a nossos filhos quem fui. Soam como as palavras do sindicalista comunista Henri Barthélemy, fuzilado pelos alemães a 22 de outubro de 1941, no campo de Choisel, endereçadas à sua companheira:
“Minha querida Yvonne, esta carta é a minha última. Eu vou morrer com 29 camaradas. Tenho apenas alguns instantes por viver. Guardo até o fim uma boa lembrança de ti. Tem coragem. Eu tenho. Nós combatemos pela boa causa. Ela triunfará. Eu te beijo. Meus melhores pensamentos para todos os amigos. Adeus, Yvonne. Adeus, Barthélemy.”
Hitler nos fala, ainda hoje, de desespero. Os resistentes franceses, de esperança."



 Escrito por Marcelo às 11h11
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Mário de Carvalho

No sábado passado, o caderno Idéias (Jornal do Brasil) publicou resenha minha sobre um dos melhores livros que li este ano: o romance Era bom que trocassemos algumas ideias sobre o assunto (assim mesmo, com grafia lusitana), do português Mário de Carvalho. Segue a íntegra do meu texto:

Entre ironias e longas digressões, Mário de Carvalho narra as desventuras de um cinqüentão lisboeta
 
Marcelo Moutinho  - Jornalista e escritor

Era bom que trocassemos umas ideias sobre o assunto
Mário de Carvalho
Companhia das Letras
248 páginas
R$ 37

Antes mesmo de começar a conduzir o leitor pelas 248 páginas de Era bom que trocassemos umas ideias sobre o assunto, Mário de Carvalho faz a devida advertência: ''Este livro contém particularidades irritantes para os mais acostumados. Ainda mais para os menos. Tem caricaturas. Humores. Derivações. E alguns anacolutos''. Outra observação prévia, na epígrafe, lembra Camilo Castelo Branco: ''Sinceramente, não sei corrigir-me do vício das divagações''. É, de fato, entre uma ironia bastante afeita a Machado de Assis e longas digressões que o escritor português narra as desventuras de Joel Strosse Neves. Protagonista do romance, o cinqüentão lisboeta testemunhou a Revolução dos Cravos (1974) e hoje vê-se à margem, fundamentalmente pela incapacidade de acompanhar - e compreender - as aceleradíssimas mudanças por que passa seu país e, em perspectiva análoga, o resto do mundo.

Relegado a departamento sem importância dentro da empresa, Joel divide sua rotina entre o trabalho, a lamentosa mulher e as raras visitas ao filho, preso por tráfico de drogas. No auge da desilusão, repentinamente decide ingressar no Partido Comunista, e para tal procura Jorge Matos, velho conhecido de faculdade e desde sempre militante de esquerda. As histórias de Joel e de Matos, e também as de Eduarda Galvão, jovem jornalista que anseia pela fama, Vera Quitério, responsável pelo bordão que dá nome ao romance, e dos demais personagens, todos eles anti-heróis, representam uma imagem possível do hiato que se abriu entre as expectativas trazidas pela redemocratização do 25 de abril e seus resultados concretos.

O narrador não tem condescendência. Erigidos sobre prosa elaborada e fiel à ortografia portuguesa, seus ferinos comentários espairam-se por vários flancos. Miram, por exemplo, nos aspectos mais patéticos da modernização, debochando da disseminação de termos que trafegam entre o cool e o politicamente correto, como a preferência pelo uso de ''colaboradores'' em vez de ''empregados''. Desconstróem também polêmicas vazias, caso da reação extremada à construção ''do edifício da Fundação Helmut Tchang Gomes'', onde trabalha Joel, que ''suscitou indignações veementes na migalha de público dita os intelectuais, cismas avinagrados na Associação dos Arquitectos, balanceios incómodos na cadeira dum ministro e choros convulsivos numa misteriosa viúva''. Após aludir ao traço marcadamente lusitano do forte apego ao passado - ''Sempre que em Lisboa se constrói um prédio (...) com prosápia inovadora, cai Tróia, caem o Carmo e a Trindade, caem dirigentes políticos, caem reputações (...), só o que não cai é o edifício em causa''-, o narrador especula, com sarcasmo: ''Não é improvável que daqui a sessenta anos - se a qualidade da construção o garantir - retinam campainhas (...): Alto, que querem pintar de cinzento o célebre prédio (...) que foi em tempos a Fundação Helmut.''

Mas o que sobretudo viceja no livro é o olhar mordaz sobre a inversão no eixo dos paradigmas sociais nas últimas décadas, que pode ser traduzida na emblemática reflexão de Joel ao tentar imprimir ao filho (ainda em liberdade) predicados seus: ''Era inútil discursar sobre as virtudes do saber (que aprendiam na escola, final?), das vantagens dum grau académico (que vantagens, pensando bem, se tantos iletrados tinham um grau académico?), da segurança dum emprego qualificado (qual segurança, de resto, quando a ânsia de despedir se transforma quase em ritual religioso?), do prestígio social da licenciatura (qual prestígio, logo batido por uma razoável facturação numa empresa de ponta?).''

Hoje mais vale o saber de almanaque de um Bernardo Veloso, que só leu três livros e (certo de que bastam) vive a citá-los em seus artigos - ou de uma Eduarda, que, já estabelecida como repórter de prestigiosa revista, chega a recomendar a uma leitora que desista dos sonetos e ''rimas fora de uso'' e atente aos ''poetas modernos'', como Alberto Helder. Eduarda erra o nome (referia-se ao grande Herberto Helder), pois baseara sua citação numa entrevista da TV. A moça, aliás, é um dos alvos preferenciais do narrador, cuja sardonice reflui em cenas hilárias, como o relato do primeiro encontro entre a jovem e o futuro chefe. De início, o rapaz ''parecera-lhe um tudo-nada repugnante, mas logo se transformou num príncipe encantado, emergente de sapo, quando o fotógrafo, à puridade, lhe contou que o outro era o indigitado editor duma nova publicação (...). A metamorfose foi tão rápida que suspeito de que andou por ali uma fada, que fez trabalhar a varinha (...), operando a metamorfose de Eduarda após ter operado a do batráquio''.

O sarcasmo, contudo, não se fixa apenas sobre os personagens. Onisciente, o narrador ridiculariza também a si mesmo e à própria literatura, em autocrítica quanto à necessidade de dar andamento ao enredo, ou de elaborar belas sentenças. É o caso da expressão ''Por uma noite escura e tempestuosa'', que desejava incluir no romance e acaba dispensando sem recorrer a equivalentes ou tentativas de plágio, já que ''não era de noite, o Verão estava quente e sossegado'' e não antevia ''grandes invernias'' na história.

O humor paira sobre o livro, portanto, como uma chuva ácida que atinge a tudo e a todos, mas não nubla totalmente a ternura. Pois a ironia destilada em direção aos personagens encerra, em conflito permanente, a amargura dos sonhos desfeitos e alguma esperança. Amargura e esperança também dele, narrador, cujos próprios limites são reconhecidos quando, consternado, afirma: ''Joel existe, eu não''. Afinal, embora confinados ao espaço do romance, seus personagens vivem. A ele restam somente perscrutações, conjecturas, espantos.



 Escrito por Marcelo às 10h59
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Alguns pitacos futebolísticos

. Há muito tempo não vejo um Fluminense tão competitivo quanto o atual. As equipes que chegaram a namorar o título do Brasileirão nos últimos anos (e eram comandadas por Roger, Roni e Magno Alves - qui talvez estaja a explicãção do fracasso...), apesar de tecnicamente razoáveis, pecavam pela falta daquele ingrediente extra que é o "jeito de vencedor". Uma pena que numa fase tão boa falte o Maracanã...;

. O Botafogo, ao que parece, fará um papel bastante digno no campeonato. É visível a melhora do time após a estréia de Paulo César Gusmão no comando. A pergunta que fica é a seguinte: como um jogador dito profissional pode ficar uma temporada inteira seis quilos acima do peso ideal?;

. O Vasco, se não abrir o olho -e rápido - é seriíssimo candidato ao rebaixamento;

. Enquanto isso, o Flamengo anuncia a volta de Jean para solucionar seu problema de ataque. Agora vai!



 Escrito por Marcelo às 11h46
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Seremos felizes

Boa notícia para o mundo virtual: o feríssima e gente-boa toda vida Luís Filipe de Lima (na foto, com seu charuto) acaba de lançar um blog. Trata-se do Seremos felizes, em que o moço fala de música, mas não só. O espaço é aberto também para pequenas crônicas sobre o dia-a-dia, comentários bem-humorados a repeito das atrações de nossa televisão e receitas culinárias (!!!), entre outros assuntos. O blog do Filipe está desde hoje linkado aqui.



 Escrito por Marcelo às 11h09
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Canção exata

Eu sei, eu sei, eu sei que já postei esta canção inúmeras vezes aqui. Mas o que posso fazer se ela invadiu meu quarto na última madrugada através da janela, levada pela voz de um vizinho bêbado mas inspirado com seu violão?  Foi daquelas coisas que delicada e inexplicavelmente acontecem no momento exato, preciso, perfeito - e por isso ficarão retidas, de forma inexorável, nos misteriosos desvãos das memória.

"Um girassol da cor do seu cabelo"

Lô Borges / Márcio Borges

"Vento solar e estrelas do mar
A terra azul da cor do seu vestido
Vento solar e estrelas do mar
Você ainda quer morar comigo?
Se eu cantar, não chore não, é só poesia
Eu só preciso ter você por mais um dia
Ainda gosto de dançar bom dia, como vai você?
Sol girassol, verde vento solar
Você ainda quer morar comigo?
Vento solar e estrelas do mar
Um girassol da cor de seu cabelo
Se eu morrer, não chore não
É só a lua, é seu vestido cor de mar
É filha nua ainda moro nesta mesma rua
Como vai você?
Você vem, ou será que é tarde demais?
O meu pensamento tem a cor
De seu vestido ou um girassol que tem a cor
De seu cabelo? O meu pensamento tem a cor
De seu vestido ou um girassol que tem a cor
De seu cabelo? O meu pensamento tem a cor
De seu vestido ou um girassol que tem a cor
De seu cabelo"



 Escrito por Marcelo às 10h58
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Lamartiníadas

Os amigos Pepê, Alfredão e Pedrinho Miranda convidam para o show Lamartiníadas, que, depois do sucesso no CCBB (conferi e recomendo!!!), será reapresentado na Sala Baden Powell. O espetáculo é centrado no repertório do grande Lamartine Babo, autor de marchinhas de carnaval (O teu cabelo não nega, Linda morena), sambas-canção (No rancho fundo, Serra da Boa Esperança), valsas (Eu sonhei que tu estavas tão linda), músicas juninas (Chegou a hora da fogueira) e hinos de clubes de futebol. Os três amigos levarão para o público a porção mais bem-humorada das composições de Lalá (com a galhofa do Pepê e do Pedrinho), mescladas a algumas canções românticas (com destaque para as belas interpretações do Alfredão) e um pouco de sua produção junina. Os shows acontecem neste e no próximo fins-de-semana, às 21h (sextas e sábados) e 20h (domingos).



 Escrito por Marcelo às 10h00
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Matéria da Crib

A amiga Crib Tanaka escreveu matéria para o site Cronópios sobre o uso da internet por novos autores de nossa literatura. No texto, Crib cita alguns dos blogs literários da rede, dá voz a editores independentes e escritores, como Adriana Lisboa, Joca Terron, Marcelino Freire e este que vos escreve, entre outros. Confira a íntegra da reportagem aqui. Abaixo, um trecho: 

"Publique-se - Novos autores lançam mão de Internet para mostrar sua produção"

Crib Tanaka

"(...) Editoras com mais estrada também passaram a apostar no novo mercado, como a Casa da Palavra, que lançou ano passado o Prosas Cariocas, organizado pelos cariocas Marcelo Moutinho (www.blogpentimento.zip.net) e Flavio Izhaki (www.bohemias.blogspot.com). Prosas traz 17 novos autores: “alguns eu conhecia de andanças literárias, outros achamos em sites e blogs que costumamos freqüentar ”, fala Moutinho. No livro, além dos novíssimos Vinicius Jatobá e Mariel Reis, estão os escritores JP Cuenca - que lançou o aclamado romance Corpo Presente (Editora Planeta;2004) – e Adriana Lisboa, vencedora do Prêmio Saramago, em 2003 e autora  de quatro livros lançados pela Rocco. Sobre o prêmio, Adriana afirma: “Não há dúvidas de que vencer prêmios literários dá visibilidade ao escritor”. Os concursos também oferecem subsídios que possibilitam e impulsionam a publicação. É o caso de Antonio Dutra (RJ) e Christiane Tassis (BH), contemplados com a bolsa oferecida pela oficina “Veredas da Literatura - Teoria e técnica do Romance”, ministrada por Milton Hatoum, na última Flip (Festa Literária Internacional de Parati). Ambos ganharam 12 mil reais, divididos em 1.500 mensais, para trabalhar em romance que deve estar finalizado até o final de junho.(...)"



 Escrito por Marcelo às 12h32
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(...)

É que às vezes a primavera nos surpreende em pleno outono...



 Escrito por Marcelo às 12h04
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Dicionário Lúdico Brasileiro

Felicidade: 1. invólucro onde se guardam sorrisos; 2. momento em que os ponteiros do relógio decidem dançar valsa; 3. líquido viscoso que escorrega por entre os dedos; 4. pedaço de gente com cheiro de talco; 5. movimento espontâneo dos cantos da boca em direção às orelhas; 6. sobrenome do azul; 7. olodum dentro do peito; 8. conjunto de círculos concêntricos em rubro e branco para onde se atiram dardos em forma de coração; 9. roçar de pés por sob o cobertor em noites com temperatura inferior a 18 graus; 10. tia-avó da alegria; 11. erva da qual se faz um chá afrodisíaco; 12. movimento elíptico do Sol em torno do ser amado; 13. nome dado à gota salgada que despenca dos olhos em dia de festa; 14. sensação de se ter feito o que se deveria ter feito; 15. oitava cor do arco-íris; 16. retângulo onde se inserem flagrantes registrados em nitrato de prata; 17. desejo súbito de voar; 18. distúrbio psicológico que causa avalanche de gargalhadas; 19. silêncio que se segue à trovoada; 20. exibição permanente da arcada dentária sem motivos justificados aos olhos dos desprovidos de inocência.


P.S. Este e outros verbetes bacanas e inspirados sobre sexo, mar, boca, sorriso, lágrima, entre outras palavras, estão no blog Cambalhota de irrealidades, onde André Gonçalves postou o seu Dicionário Lúdico Brasileiro. A dica foi da Moniquitcha.



 Escrito por Marcelo às 12h01
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Ex-Libris da tugosfera

Esta é uma corrente literária que vem sendo repassada blog a blog (percebe-se que agora vem de Portugal, mas começou antes, é só vasculhar no Google). Ela chegou a mim em dose dupla: através dos amigos Monica Ramalho, do Fotograficamente, e Eduardo Graça, do Absorto. Vamos ao pingue-pongue sobre livros:

Que livro quererias ser?  Quando bem novo, lembro que me impressionou bastante a historinha de Flicts, uma fábula sobre ‘não-pertencimento’ que o Ziraldo imaginou a partir da protagonista, uma cor próxima do ocre que se achava "menor" por não constar do arco-íris. É uma história que começa triste, mas cuja moral aponta no sentido de que o importante é sermos o que somos, sem concessões que venham a nos violentar.

Já alguma vez ficaste apanhadinho por um personagem de ficção?  Em termos de livros, creio que não. Já no cinema sim. A lembrar, pelas personagens de Winona Rider em "Colcha de retalhos", de "Nastasja Kinski em "Asas do desejo", de Meg Ryan em "Sintonia de amor" e de Natalie Portman em "Closer".

Qual foi o último livro que compraste? "A alma encantadora das ruas", de João do Rio.

Qual o último livro que leste? "Caio 3D – O melhor da década de 1970", de Caio Fernando Abreu.

Que livro estás a ler? "Era bom que trocassemos umas ideias sobre o assunto", do português Mário de Carvalho.

Que livros (5) levaria para uma ilha deserta? 

. "O livro do desassossego", de Fernando Pessoa, acima de todos

. "Notas do subsolo", de Dostoievski

. "Poesia completa", de Fernando Pessoa

. "Felicidade clandestina", de Clarice Lispector

. "Em busca do tempo perdido", de Proust

A quem vais passar este testemunho (3 pessoas) e por quê? A três grande amigos:

. João Paulo Cuenca, porque é bom leitor, ótimo escritor, parceiro de boêmia e de vida;

. Crib Tanaka, porque é minha "madrinha" (rs) – e isso basta;

. Henrique Rodrigues, porque sabe tudo de literatura – teórica e praticamente - e é meu irmão.

Agora é com vocês!



 Escrito por Marcelo às 17h54
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Aliás e a propósito...

... recebi email do Carpinejar (foto), que leu o meu Memória dos barcos. Permitam-me o abuso de dividir com vocês essa alegria: 

"Li Memória dos barcos e gostei muito. Tens uma visada temática familiar a Caio Fernando Abreu, de se importar com as dorezinhas. A literatura nasceu para o mínimo: não a grande dor com ferida aberta e visível, mas a dor discreta, que mal sabemos onde residia depois de um tempo".



 Escrito por Marcelo às 11h19
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Mais Carpinejar

"Traga-me o mar e as rendas das canoas. Traga-me o chá de ervas que colore as mãos depois do abraço. Traga-me os ombros na véspera do sol. Traga-me a cabeleira de astros e a lareira de grilos. Traga-me a glória do limo e os degraus dentro da estante. Traga-me um rosto surpreso e o gancho da porta para pôr o casaco. Traga-me um pensamento que não foi sentimento. Traga-me o visco mais duro, o céu inconformado, o verde aposentado. Traga-me teu sotaque de praia, teu dialeto de inverno. Traga-me tuas notícias sem jornal, a ambulância da brisa. Traga-me os insetos em frascos e a boca aberta de espanto. Traga-me o ritmo das cartas sendo embaralhadas. Traga-me teu álbum de fotos e as figurinhas repetidas para trocar. Traga-me a conversa de corredor, a porta observada. Traga-me o filho no colo, a carícia dos ouvidos. Traga-me as frutas do pé e a horta do fim da casa. Traga-me as jóias falsas para as pedras disputarem corrida no piso. Traga-me a caridade ainda não descontada, a insatisfação aumentando. Traga-me tuas pernas altivas, teus seios de lado. Traga-me os milagres que não aconteceram, a garrafa de água. Traga-me a renúncia, as gramíneas em caixotes, a colher do violão. Traga-me o medo da escada em caracol, as tampas de vidro dos perfumes. Traga-me teu nome do meio, a escritura do pessegueiro. Traga-me o cheiro da cidade natal, o estojo de linha e agulha. Traga-me o sótão de teus livros, a letra mais arisca. Traga-me teus problemas incomunicáveis. Traga-me a indulgência infantil ao açúcar. Traga-me o animal de estimação de seus cinco anos e sua desaparição repentina. Traga-me o perdão ao teu pai e à mãe, o pomar das gavetas. Traga-me a manhã depois de ter amado à noite. Traga-me a noite depois de ter odiado à tarde. Traga-me areia fora da ampulheta, o resto de música que fica no copo. Traga-me tua risada, a loucura, o palavrão. Traga-me alguma senha esquecida, algum pente esquecido na bolsa. Traga-me a covardia do salto, a timidez do sutiã. Traga-me a aparência de quem não chegou a tempo. Traga-me a Bíblia marcada com fita de cabelo. Traga-me os mistérios gozosos. Traga-me a salvo o ainda que não abrimos juntos."

Fabrício Carpinejar


P.S. A imagem é de Gustav Klimt...



 Escrito por Marcelo às 11h14
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Cole Porter, por Ella

"You do something to me"

Cole Porter

"You do something to me
Something that simply mystifies me
Tell me, why should it be
You have the pow'r to hypnotize me
Let me live 'neath your spell
Do do that vodoo that you do so well

For you do something to me
That nobody else can do
Let me live 'neath your spell
Do do that vodoo that you do so well
For you do something to me
That nobody else can do
That nobody else can do"



 Escrito por Marcelo às 10h22
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Carlão Reichenbach

Começa hoje, no CCBB, a mostra Cineasta de alma corsária – 40 anos de Carlos Reinchenbach, que fará um panorama - talvez o maior já realizado - sobre a obra bacana do diretor. Os destaques do evento são a exibição da versão sem os cortes (da censura) e em cópia nova de Amor, palavra prostituta, a pré-estréia de Bens confiscados e o debate que reunirá o próprio cineasta, o curador da mostra, Marcelo Lyra, e o crítico João Luiz Vieira, mas a programação inclui também outros trabalhos de Reichenbach, como o delicado Dois córregos, o irregular Garotas do ABC e o contundente Filme demência. A mostra segue até o dia 15.



 Escrito por Marcelo às 09h55
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Caderno B

Uma imensa decepção o "novo Caderno B", que o Jornal do Brasil anunciava com tanto alarde. Sob o comando do Ziraldo e do amigo Luís "Pimenta" Pimentel (que me perdoe pela crítica), o suplemento ficou ainda mais "careta" e ainda perdeu o atrativo dos serviços. Sim, porque não há mais tijolinhos com a programação cultural da cidade. Em vez disso, o caderno foi todo ocupado por colunas, pessimamente diagramadas (os textos ficam blocados uns sobre os outros), num climão Pasquim mais do que datado. Nem os artigos se salvaram, e ainda mantiveram aquelas excrecências da Márcia Peltier e da Heloísa Tolipan. Um pena realmente...

 Escrito por Marcelo às 13h15
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Filmes

  

Durante o fim-de-semana assisti a três bons filmes. Na sexta, vi o forte e seco Bom dia, noite, de Marco Belochio, que recomendo a todos, mas principalmente aos xiitas de qualquer credo político. A história se desenrola a partir da convivência de alguns dias entre líder da Democracia Cristã italiana, Aldo Moro, com seus seqüestradores, membros do grupo Brigadas Vermelhas. A perspectiva é a da personagem Chiara (a bela Maya Sansa), única mulher do grupo, que começa, a partir do convívio com Moro, a questionar o próprio ato terrorista. É particularmente expressiva a seqüência que marca a virada em seu comportamento, pontuada pelos acordes de The dark side of the moon

Muito simpático também o drama Uma amizade sem fronteiras, de François Dupeyron, no qual brilha intensamente o veterano Omar Sharif. Ele interpreta um turco, dono de um mercado num bairro parisiense, que aos poucos desenvolverá a tal amizade aludida no título com um garoto judeu (Pierre Boulanger) que faz bicos para sobreviver e levar comida para casa. Simples sem sem banal, tocante sem ser piegas, o filme é uma ótima pedida para um sábado à tarde.

No sábado, aliás, a intenção era conferir o italiano Um coração para sonhar, mas por uma dessas confusões da vida acabei indo parar na pré-estréia de A queda - As últimas horas de Hitler, de Oliver Hirschbiegel. Embora tenha pelo menos 20 minutos de "gordura", o filme é um interessante - e polêmico - painel sobre os derradeiros momentos da derrocada nazista. A polêmica deve-se essencialmente ao fato de que na (ótima) interpretação de Bruno Ganz o ditador alguma dimensão humana - isto apesar das diatribes histéricas que eclodem diante da mínima irritação. O enredo baseia-se nos relatos de Traudl Junge, datilógrafa de Hitler até seus últimos instantes. Não é um filme fácil.



 Escrito por Marcelo às 11h36
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Canção para os dias que correm

"O que é amar"

Johnny Alf

"É só olhar, depois sorrir, depois gostar
Você olhou, você sorriu, me fez gostar
Quis controlar meu coração
Mas foi tão grande a emoção
De sua boca ouvi dizer "quero você"
Quis responder, quis lhe abraçar, tudo falhou
Porém, você me sequrou e me beijou
Agora eu posso argumentar
Se perguntarem o que é amar
É só olhar, depois sorrir, depois gostar"



 Escrito por Marcelo às 11h21
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Estações

"O verão passa e o estio se anuncia
que outono se há-de ser e logo inverno
de que virá nascida a primavera.
Mais breve ou longo se renova o dia
sempre da noite em repetir-se, eterno.
Só o homem morre de não ser quem era."

Jorge de Sena


 

P.S. Do Absorto...



 Escrito por Marcelo às 10h36
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Caio, por Italo Moriconi

Na mesma edição do Prosa & Verso, foi publicada a pequena entrevista que fiz com Italo Moriconi, sobre o Caio. O texto precisou ser editado em razão do tamanho. Posto aqui, então, a íntegra das perguntas e das respostasm inclusive com a parte que O Globo não publicou:

Organizador das "Cartas" (foto), publicadas pela Aeroplano, e responsável pela seleção dos textos que irão compor o volume sobre Caio da coleção "Nossos clássicos", editada pela Agir, Italo Moriconi ressalta que o autor "viveu a experiência marginal de maneira intensa e particular". "A literatura dele é sobre isso", resume.

Caio pode ser tomado como um representante da "literatura da abertura", assim como os poetas "marginais"? Há relação entre sua obra e a poesia da época, ainda que apenas sob o aspecto temático? Caio se situa entre os representantes da geração 70, que se formou na ditadura, se afirmou na abertura e se firmou na democratização dos 80. Acho, sim, que se podem estabelecer paralelos entre a poética marginal e a poética da vida-obra do Caio, que viveu a experiência marginal de maneira intensa e particular. A literatura dele, aliás, é sobre isso.

Você acredita que a presença da astrologia, do i-ching e outros esoterismos na obra dele se deve, ao menos em parte, ao choque de sua geração com o esgarçamento das utopias? Sim. Parte da geração que viveu a experiência contracultural aderiu a religiosidades alternativas. O mais interessante é que Caio deu rendimento estético a seus saberes esotéricos. Este contato positivo tem a ver com o fato de que em sua obra dialogam estruturalmente a alta literatura e a baixa cultura.

Quais os pontos de contato entre as cartas, às quais ele se dedicou com afinco durante toda a vida, e seus contos e romances? Ele tinha uma espécie de grafomania, a necessidade de estar sempre escrevendo. Mas acho que o processo de produção literária era algo mais construído, separado desta necessidade de comunicação imediata. Apesar disso, as cartas fornecem imenso manancial de informações sobre o contexto de produção de sua ficção. Nelas, "espontâneas" com todas as aspas, Caio se deixa freqüentemente levar pela pose literária e produz momentos ótimos em termos de texto. A carta é uma espécie de palco em que exibe e exercita seu talento literário.

Qual a análise que você faz da influência da Aids na obra dele? Há uma presença temática, como nos contos Dama da noite e Linda, uma história horrível, e no romance Onde andará Dulce Veiga?. A Aids representa para a literatura do fim do século 20 o mesmo que cem anos antes representaram a sífilis e a tuberculose. Na obra de Caio, porém, antes da Aids temos a questão da homossexualidade, da condição bissexual da sexualidade. Sua obra enfrenta esses fantasmas mas os ultrapassa, pois para ele o que interessa mesmo são os afetos, é a economia dos afetos.



 Escrito por Marcelo às 10h31
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Caio F. no Prosa & Verso

Foram dois meses de (re)leituras, na tentativa de formular uma visão sintética e geral sobre sua obra e encontrar o tom adequado para falar deste que é um dos escritores mais marcantes de minha vida - e que foi autor fundamental em minha opção definitiva pela palavra: Caio Fernando Abreu. O resultado de tanto e tão prazeroso trabalho traduziu-se na matéria de capa do Prosa & Verso (O Globo) de sábado passado, que teve como gancho o (bem-vindo) relançamento de toda a obra dele pela Editora Agir. Segue a íntegra de meu artigo:

Literatura de paixão, sombras e luz

Marcelo Moutinho

Ao receber a folha com o resultado do exame a que se submetera, e onde em letras geladas constava a palavra “positivo”, Caio Fernando Abreu talvez não imaginasse que ali estava, mais do que o prenúncio de morte, o início de uma completa reviravolta em seu modo de ver o mundo — e de escrevê-lo. Diante da perspectiva do confronto iminente com o fim, o sol negro que até então semeara melancolia em sua obra se tornaria claridade pura, intensa, regeneradora. Tal mudança, flagrante nas crônicas a que se dedicou nos últimos anos e nas cartas remetidas a amigos e parentes, transpareceria de forma ainda mais concreta no olhar que passou a legar aos escritos passados, nos quais chegou a promover alterações. A mais visível delas, decerto, a tênue (mas significativa) adição de um hífen no título de “Inventário do irremediável”, seu primeiro livro de contos. Na revisão feita 25 anos depois do lançamento original, de 1970, Caio transformou a fatalidade daquele “irremediável” num “ir-remediável” — que pode ser reparado.
Esta segunda grafia foi mantida pela Editora Agir na coletânea “Caio 3D — O essencial da década de 1970”, que republica o trabalho de estréia do autor ao lado de contos dispersos e inéditos, poemas, correspondências e depoimentos, numa seleta que se centra sobre sua produção intelectual entre 1970 e 1980. O livro é o ponto de partida de uma série que contará ainda com volumes sobre os anos 80 e 90. Além disso, marca o início do relançamento, pela própria Agir, da obra completa de Caio, numa bem-vinda iniciativa que possibilitará ao leitor acompanhar, livro a livro, o desenrolar da carreira daquele a quem Lygia Fagundes Telles chamava de “escritor da paixão”. De títulos célebres, como “Onde andará Dulce Veiga?” e “Morangos mofados”, a trabalhos menos conhecidos, casos de “Limite branco” e do compêndio de crônicas “Pequenas epifanias”.
O primeiro volume da coleção “Caio 3D” evidencia a influência ainda excessiva de Clarice Lispector, mas já contempla questões que se firmariam como grandes obsessões do autor. Estão presentes o flerte com o fantástico, que alcançaria graus máximos em contos como “Mergulho I”, de “Pedras de Calcutá”, e as recorrentes referências à astrologia, que seriam levadas ao paroxismo em “Triângulo das águas”, cujas três novelas relacionam-se com os arquétipos dos signos de peixes, escorpião e câncer.
O livro investiga também a solidão, que na literatura de Caio aparece menos como uma condição permanente, e mais como uma espécie de hiato entre dois amores — o que se foi e o que virá. Tal traço é explicitado, por exemplo, no conto “Itinerário”: “Por entre essa infinidade de formas (...); por entre esse amontoado de lembranças feitas de imagens incompletas como retratos rasgados; por entre essa idéia à qual faltam braços, pernas, cabeças (...); eu busco. Sem encontrar”.
Há ainda uma ânsia quase desesperada por paixão, “com a consciência dolorosa de que ela importa mais do que seu objeto”, como anota Maria Adelaide Amaral no prefácio, em observação que pode ser sintetizada numa frase do belo “Anotações de um amor urbano”. O narrador, abalado pelo rompimento, assevera: “Amanhã não desisto: e te procuro em outro corpo, juro que um dia te encontro.”

Um clima soturno paira sobre “Caio 3D”, em especial sobre seus personagens, sempre às voltas com o entrave do não-pertencimento, da inadequação. “Eu tinha qualquer coisa como andar de costas, quando todos andam de frente. Qualquer coisa como gritar, quando todos calam. Qualquer coisa que ofendia os outros, que não era a mesma deles e fazia com que me olhassem vermelhos, os dentes rasgando as coisas, eu doía neles como se fosse ácido, espinho, caco de vidro”, confessa, lamentoso, o protagonista de “O mar mais longe que eu vejo”.
Porém, acima de tudo, o livro antecipa uma apatia que Caio retrataria de maneira mais elaborada em trabalhos posteriores, como “Pedras de Calcutá”, “Os dragões não conhecem o paraíso” e “Morangos mofados”. Apatia de uma geração que perde a dimensão da utopia, mergulha no desbunde, mas consegue pouco além do que tatear sentidos num mundo fragmentário, cada vez menos compreensível. O desabafo do protagonista de “Domingo” — “Tudo já foi pensado: vida, amor, cultura, civilização, liberdade, anticoncepcionais, comunismo, esterilização da Amazônia, exploração das potências estrangeiras, mais do que nunca é preciso cantar, guerra fria e vem quente que eu estou fervendo. Tudo a mesma merda” — não está distante da voz do narrador de “Diálogo”, conto publicado em “Morangos”: “Já li tudo, cara, já tentei macrobiótica psicanálise drogas acupuntura suicídio ioga dança natação cooper astrologia patins marxismo candomblé boate gay ecologia, sobrou esse nó no peito, agora faço o quê?”. Dois tempos, uma só perplexidade.
O mesmo sentimento sobressai em algumas das cartas reunidas no volume. Em março de 1970, Caio lastimava-se com a amiga Hilda Hilst: “Cada dia, quando abro o jornal, tenho um novo choque e uma revolta que se acumula e, logo após, uma terrível sensação de inutilidade (...) Nos contatos que eu tenho com gente da minha geração, ou de outras, mas unidos pela mesma lucidez, percebo de maneira intensa a mesma sensação de abandono e de inutilidade. Sobretudo de impotência”. Era este o gosto do mofo dos morangos que os “sobreviventes” de sua época sentiram “ampliar-se na boca”, embora por vezes pudessem timidamente vislumbrar a possibilidade de cultivar morangos outros, “vivos, vermelhos”; de, como confidenciou ao amigo José Márcio Penido em outra carta, esta de 1979, “vomitar” aquilo que fartamente os alimentou e daí ver sair uma flor.
Foi o que Caio efetivamente fez. Frente a frente com a morte, que o levaria em 1996, aos 48 anos, decidiu plantar rosas e viver cada dia “arrancando das coisas, com as unhas, uma modesta alegria”. Talvez já tivesse então desvendado, através da literatura mas sobretudo da vida, o segredo da árvore mágica que, apesar de fincada num terreno taciturno e sombrio, encanta o protagonista do conto “Caixinha de música”: extrair do emaranhado de dor, angústia fria e solidão escura a beleza a ser lançada para fora.

MARCELO MOUTINHO é jornalista e escritor



 Escrito por Marcelo às 09h42
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