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Canção para a sexta-feira

"Diga lá, coração"
Gonzaguinha
"São coisas dessa vida tão cigana Caminhos como as linhas dessa mão Vontade de chegar e olha eu chegando E vem essa cigarra no meu peito Já querendo ir cantar noutro lugar
Diga lá, meu coração Da alegria de rever essa menina E abraçá-la e beijá-la
Diga lá, meu coração Conte as histórias das pessoas Nas estradas dessa vida
Chore essa saudade estrangulada Fale, sem você não há mais nada Olhe bem nos olhos da morena E veja lá no fundo a luz Daquele sol de primavera
Durma qual criança no seu colo Sinta o cheiro forte do seu solo Passe a mão nos seus cabelos negros Diga um verso bem bonito E de novo vá embora
Diga lá, meu coração que ela está dentro em meu peito E bem guardada E que é preciso mais que nunca prosseguir."
Escrito por Marcelo às 11h24
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Caio F.

"Lembrei que tinha lido em algum lugar que a dor é a única emoção que não usa máscara."
Caio Fernando Abreu
Escrito por Marcelo às 10h52
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Phillipe Baden Powell

O amigo Philippe Baden Powell convida para o show que fará na próxima terça (dia 3), a partir das 19h, na Sala Baden Powell, em tributo a seu pai. Acompanhado de Igor Eça (contrabaixo) e Rafael Maia (bateria), Philippe mostrará ao piano algumas das composições mais conhecidas do violonista, e também um pouco de sua obra inédita. Ingressos a R$ 10.
Escrito por Marcelo às 10h29
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(...)

"Há flores por todo canto para quem quiser enxergá-las"
Henri Matisse
Escrito por Marcelo às 16h31
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Contos simulados a partir de um mote tosco

Está hilária a série Contos simulados a partir de um mote tosco, que o amigo Henrique escreve atualmente lá no seu Fullbag. A proposta é a seguinte: imaginar de que modo alguns de nossos principais escritores tratariam a (real!!!) notícia: "Prefeitura paga R$ 3,00 por quilo de caramujos, que estão infestando a cidade." Henrique já postou os "textos" de Clarice Lispector e Guimarães Rosa (que republico abaixo).
"À maneira de Guimarães Rosa
A PASSAGEM DAS CONCHAS
No que vem da praça é terra. De resto é sertão nos entretudos encaramujados. Eis que Mestre Anselmo, ressobiando-se nas ventas, dedicava-se impestioso ao assassínio das microvidinhas. "Vem fofilhote, que o que te espera é cabo". E a vida mumunhava-se sobre a sua pá, no desvão das cascas, rumo ao celeiro incógnito disputado entre Deus e o Cabrunco, o Tal-Qualóide, o Charadoso, o Sem-Nominado."
Escrito por Marcelo às 14h06
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"E cheios de ternura e graça..."

"Valsinha"
Chico Buarque / Vinícius de Morais
"Um dia ele chegou tão diferente do seu jeito de sempre chegar Olhou-a dum jeito muito mais quente do que sempre costumava olhar E não maldisse a vida tanto quanto era seu jeito de sempre falar E nem deixou-a só num canto, pra seu grande espanto convidou-a pra rodar
Então ela se fez bonita como há muito tempo não queria ousar Com seu vestido decotado cheirando a guardado de tanto esperar Depois os dois deram-se os braços como há muito tempo não se usava dar E cheios de ternura e graça foram para a praça e começaram a se abraçar
E ali dançaram tanta dança que a vizinhança toda despertou E foi tanta felicidade que toda a cidade enfim se iluminou E foram tantos beijos loucos Tantos gritos roucos como não se ouvia mais Que o mundo compreendeu E o dia amanheceu Em paz"
Escrito por Marcelo às 12h50
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João do Rio

Ótima notícia: lançado originalmente em 1908, o hoje clássico A alma encantadora das ruas, de João do Rio, volta ao mercado pela Companhia das Letras. O livro reúne crônicas e reportagens publicadas na imprensa do Rio entre 1904 e 1907. E desde que li alguns de ses trechos, eu andava atrás dele pelos sebos da cidade...
Escrito por Marcelo às 12h31
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Mais Carpinejar

"(...) Seu jeito de sentar sobre uma perna revela seu jeito de encarar os problemas. Quando está com raiva, procura a janela da cozinha. Quando está feliz, recorre à janela da sala. Minha mulher pode ser a mais pacata e tediosa para quem não convive com ela, mas comigo é sobrenatural e intensa. Não nos desperdiçamos em interrogatórios; observamos. Cada sombra dela me interessa porque não sei explicar e ainda assim me faz bem. Há o sol de gripe, que me faz espirrar; o sol de inverno, que me põe a sentar; o sol do verão, que encurta as marquises; o sol do entardecer, que troca a minha pele. Quantos sóis circulam na respiração dela? (...)"
Escrito por Marcelo às 10h29
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Ouvindo...

"Faca"
Fátima Guedes
"O seu nome é uma faca me dilacerando O segredo é uma faca de dois gumes Morro de paixão, morro de ciúmes
Você vive na estrela incomunicável Você fala comigo e nem me vê Preciso olhar o céu pra compreender você
O seu nome é uma faca lâmina afiada enterrada no peito até o fim É melhor morrer de uma vez Eu estou jogada a seus pés Tenha dó de mim"
Escrito por Marcelo às 10h27
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Carpinejar

"Há feridas que não se curam, apenas se esquecem de doer. Há alegrias que não se completam, mudam de vento."
Fabrício Carpinejar
P.S. O quadro é um dos geniais da série Ciclistas, de Iberê Camargo...
Escrito por Marcelo às 10h04
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Monica e Raphael

Quem hoje mui merecidamente brilha na matéria de capa do Segundo Caderno (O Globo), sobre os dez anos de morte do grande Raphael Rabello, é a querida Moniquitcha Ramalho. Ela fala ao amigo João Pimentel sobre o livro ao qual se dedica atualmente, e que terá como tema justamente a vida do violonista. À minha biógrafa preferida (desculpe, viu, Ruy Castro...), os devidos parabéns! Segue um trecho do texto do Janjão:
(...) A jornalista e pesquisadora Mônica Ramalho, apaixonada pela obra do violonista, está escrevendo “A contribuição de Raphael Rabello à música brasileira”, trabalho contemplado com uma bolsa do RioArte, e prepara, ainda para este ano, juntamente com a diretora Lara Velho, um documentário para o Canal Brasil: — Não entrarei nos aspectos de sua vida pessoal. O foco é a música, que era muito preciosa. Já colhi depoimentos interessantes como o do Ney Matogrosso, com quem ele fez o disco “À flor da pele”, em 1990, e da Marina Lima, que lembrou o dia em que Raphael telefonou curioso com uma música que ela gravara. Foi visitá-la e pediu para que ela tocasse violão. É inacreditável que não exista nada documentado sobre ele, que ainda existam discos fora de catálogo. (...)"
Escrito por Marcelo às 09h51
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Canção para hoje

"Beatriz"
Edu Lobo / Chico Buarque
"Olha Será que ela é moça Será que ela é triste Será que é o contrário Será que é pintura O rosto da atriz Se ela dança no sétimo céu Se ela acredita que é outro país E se ela só decora o seu papel E se eu pudesse entrar na sua vida
Olha Será que é de louça Será que é de éter Será que é loucura Será que é cenário A casa da atriz Se ela mora num arranha-céu E se as paredes são feitas de giz E se ela chora num quarto de hotel E se eu pudesse entrar na sua vida
Sim, me leva para sempre, Beatriz Me ensina a não andar com os pés no chão Para sempre é sempre por um triz Ai, diz quantos desastres tem na minha mão Diz se é perigoso a gente ser feliz
Olha Será que é uma estrela Será que é mentira Será que é comédia Será que é divina A vida da atriz Se ela um dia despencar do céu E se os pagantes exigirem bis E se um arcanjo passar o chapéu E se eu pudesse entrar na sua vida"
Escrito por Marcelo às 10h29
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Caio F. - Frases

"A gente, quando tenta analisar qualquer problema, sempre vai aprofundando, aprofundando, até que chega nesse fundo que é amor sempre."
"Somente a memória fala: porque é certo que as pessoas estão sempre crescendo e se modificando, mas estando próximas uma vai adequando o seu crescimento e sua modificação ao crescimento e à modificação da outra; mas estando distantes, uma cresce e se modifica num sentido e outra noutro completamente diferente, distraídas que ficam da necessidade de continuarem as mesmas uma para a outra."
"É preciso encher o vazio de palavras, ainda que seja tudo incompreensão?"
P.S. O quadro é de Salvador Dalí...
Escrito por Marcelo às 10h00
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Raduan

"...cuidem-se os apaixonados, afastando dos olhos a poeira ruiva que lhes turva a vista, arrancando dos ouvidos os escaravelhos que provocam turbilhões confusos, expurgando do humor das glândulas o visgo peçonhento e maldito; erguer uma cerca ou guardar simplesmente o corpo, são esses os artifícios que devemos usar para impedir que as trevas de um lado invadam e contaminem a luz do outro, afinal, que força tem o redemoinho que varre o chão e rodopia doidamente e ronda a casa feito fantasma, se não expomos nossos olhos à sua poeira?..."
Raduan Nassar (lembrado pela Mara. Obrigado, moça...)
Escrito por Marcelo às 14h49
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Adriana Lisboa

A querida Adriana Lisboa enfim rendeu-se à internet. Ela acaba de pôr no ar a sua página oficial, que inclui uma pequena biografia, algumas de suas publicações e a reprodução de resenhas, publicadas originalmente em jornais e revistas, sobre seus livros. Nesta seção especificamente, a afirmo isso com orgulho, há um texto meu (sobre Um beijo de Colombina), e outro do amigo Henrique Rodrigues (sobre Caligrafias). O layout da página ficou bem leve, sofisticado e elegante (assim como a escritora é, aliás) e curiosamente me remeteu à capa de Memória dos barcos, meu segundo livro. Visitem aqui.
Escrito por Marcelo às 14h48
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Breve

Manhã de reuniões. À tarde haverá mais posts. Fiquemos, por enquanto, com um Chico premonitório (ou seria outra coisa?)...
"Você vai me seguir"
Ruy Guerra / Chico Buarque
"Você vai me seguir Aonde quer que eu vá Você vai me servir Você vai se curvar Você vai resistir Mas vai se acostumar Você vai me agredir Você vai me adorar Você vai me sorrir Você vai se enfeitar E vem me seduzir Me possuir, me infernizar Você vai me trair Você vem me beijar Você vai me cegar E eu vou consentir Você vai conseguir Enfim, me apunhalar Você vai me velar Chorar, vai me cobrir E me ninar"
Escrito por Marcelo às 10h36
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Pixinguinha

Antecipando os festejos de amanhã, posto aqui a bonita homenagem de Moacyr Luz (autor da melodia inspiradíssima, como usual) e Paulo César Pinheiro (autor da letra bacana, como usual) a mestre Pixinguinha, que nasceu num dia 23 de abril, data que viria a ser consagrada como o Dia Nacional do Choro...
"Som de prata"
Moacyr Luz / Paulo César Pinheiro
"Nasceu no Rio de Janeiro Dia do Santo Guerreiro Naquele tempo que passou Foi o maior mestre do choro Tinha um coração de ouro E que bom compositor
Foi Carinhoso e foi Ingênuo E na roda dos boêmios Sua flauta era rainha E em samba, choro e serenata Como era doce o som de prata, doutor Que a flauta tinha O embaixador desta cidade Meu Deus do Céu, ai! que saudade que dá Do velho Pixinguinha
Veio da terra de Zambi, sangue de malê De uma falange do Rei Nagô Filho de Ogum, de São Jorge, do batuquejê De Benguelê, de iaô, Rainha Ginga É que sua avó era africana A rezadeira de Aruanda, vovó, vovó cambinda Só quem morre dentro de uma igreja Vira orixá, louvado seja, Senhor! Meu Santo Pixinguinha
Ele é de Benguelê Ele é de iaô E do batuquejê Ele é do Rei Nagô Tem sangue de malê É banto sim sinhô..."
Escrito por Marcelo às 15h13
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Querido estranho

Passei os últimos dois dias às voltas com a garganta inflamada, dores no corpo todo e um sono absurdo... No ensejo dessa "preguiça compulsória", dediquei-me a ler, a ouvir Fátima Guedes (Pra bom entendedor...) e Frank Sinatra (Sinatra and the sands, com a orquestra de Countie Basie), além de ver dvds, evidentemente. Entre os filmes, enfim conferi o divertido Os incríveis, revisitei o delicado Romance da empregada, de Bruno Barreto, mas o que me supreendeu positivamente mesmo foi o subestimado Querido estranho, baseado na peça Intensa magia, de Maria Adelaide Amaral, e dirigido por Ricardo Pinto Silva. A trama centra-se no encontro de uma família durante o aniversário do patriarca, vivido com brilho por Daniel Filho, no ponto entre a acidez, as frustrações e o mau humor do protagonista. O elenco, aliás, é muito bem conduzido e consegue manter a leve tensão necessária à história. O maior mérito do filme, contudo, é conseguir transmitir o verdadeiro abismo que há entre as idiossincrasias, as implicâncias, as manias de cada integrante da família e o imenso amor que os une. Amor que não escapa do subtexto praticamente em momento algum, e no entanto está lá, escondido sob cada frase cortante, espremido sob cada humilhação verbal. Querido estranho é, em resumo, uma ilustração sobre a célebre assertiva de Tolstói em Anna Karenina: "As famílias felizes são todas as iguais. Já as infelizes, cada uma é infeliz à sua maneira."
Escrito por Marcelo às 09h16
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"Não sei se é nova ilusão..."

"O circo místico"
Edu Lobo / Chico Buarque
"Não Não sei se é um truque banal Se um invisível cordão Sustenta a vida real
Cordas de uma orquestra Sombras de um artista Palcos de um planeta E as dançarinas no grande final
Chove tanta flor Que, sem refletir Um ardoroso espectador Vira colibri
Qual Não sei se é nova ilusão Se após o salto mortal Existe outra encarnação
Membros de um elenco Malas de um destino Partes de uma orquestra Duas meninas no imenso vagão
Negro refletor Flores de organdi E o grito do homem voador Ao cair em si
Não sei se é vida real Um invisível cordão Após o salto mortal"
Escrito por Marcelo às 16h58
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Tricolores

Deu na coluna do Ancelmo Góis (O Globo) ontem:
"Chico é campeão"
"Chico Buarque, tricolor doente, estava aflito em Nova York, domingo, porque não tinha como assistir à decisão entre Fluminense e Volta Redonda. Acredite. Nosso herói ligou para a TV Globo, implorou por uma saída e, ufa!, foi autorizado a ver o jogo no escritório da emissora no centro vazio, vazio de Manhatan. Saiu de lá todo feliz."
Escrito por Marcelo às 11h42
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Outro Moutinho

"Quinze"
"preparo-me para o regresso, revejo notas, roupas, afino o olhar cansado, conto as moedas, apago o sol, bebo um copo de água morna, o comprimido do coração afoga-se-me na garganta, arrumo a cabeça, digo adeus
ao romance: as vozes do trabalho, são sempre vozes, fazem-me vibrar as têmporas, esfrego as mãos secas, começo a levantar-me, a apagar os silêncios, a boca atraiçoa-me, o travo amargo é uma lâmina de carne,
nos bolsos procuro, em vão, um lenço branco limpo, para dizer adeus só um lenço assim, ou uma lágrima, mas do corpo apenas se afasta a mão fechada, a mão que faz o cimento e afaga as chamas, a mão do finado, de cera,
fecho a janela, tanto tempo esteve aberta, corro a cortina, apaga-se a encosta, desaparecem o penedo branco, as aves, as árvores, os pratos sujos do almoço, o sol, as vacas, essa sórdida incomodidade da contemplação: é o outono, afinal."
José Viale Moutinho
Escrito por Marcelo às 10h45
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Canção para hoje

"Pra fugir da saudade"
Elton Medeiros / Paulinho da Viola
"Saudade Você fez da minha vida Uma rua sem saída Por onde andou minha solidão E hoje Quando tudo é esquecimento Uma flor sobrevive ao tempo E se desfolha em meu coração Para aliviar o meu sofrimento
Rompe em silêncio meu canto de felicidade Dentro de um samba eu desfaço o que ela me fez Quero abrigar, no entanto Mais uma flor que renasce Para fugir da saudade e sorrir outra vez"
Escrito por Marcelo às 10h14
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Caio F.

"Então a suspeita bruta: não suportamos aquilo ou aqueles que poderiam nos tornar mais felizes e menos sós. Afirmou, depois acendeu um cigarro, reformulou, repetiu, acrescentou esta interrogação: não suportamos mesmo aquilo ou aqueles que poderiam nos tornar mais felizes e menos sós? Não, não suportamos essa doçura".
Caio Fernando Abreu, numa das crônicas de Pequenas epifanias
Escrito por Marcelo às 10h14
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Rosa

"Infelicidade é questão de prefixo"
Guimarães Rosa
Escrito por Marcelo às 10h17
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(...)

"A moça do sonho"
Edu Lobo / Chico Buarque
"Súbito me encantou A moça em contraluz Arrisquei perguntar: quem és? Mas fraquejou a voz Sem jeito eu lhe pegava as mãos Como quem desatasse um nó Soprei seu rosto sem pensar E o rosto se desfez em pó Por encanto voltou Cantando a meia voz Súbito perguntei: quem és? Mas oscilou a luz Fugia devagar de mim E quando a segurei, gemeu O seu vestido se partiu E o rosto já não era o seu Há de haver algum lugar Um confuso casarão Onde os sonhos serão reais E a vida não Por ali reinaria meu bem Com seus risos, seus ais, sua tez E uma cama onde à noite Sonhasse comigo Talvez Um lugar deve existir Uma espécie de bazar Onde os sonhos extraviados Vão parar Entre escadas que fogem dos pés E relógios que rodam pra trás Se eu pudesse encontrar meu amor Não voltava Jamais"
Escrito por Marcelo às 09h57
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Os maus perdedores e a lição do João Sem Medo

É de impressionar como maus perdedores têm procurado deslegimitimar o título conquistado pelo Flu. Além destes, há também aqueles que, pela absoluta falta de consistência intelectual (ou de vergonha na cara mesmo), adoram a polêmica vazia e apostam em "teorias da conspiração", como o patético Jorge Kajuru, uma espécie de Diogo Mainardi do futebol. A todos eles, deixo a lição do saudoso e grande alvinegro João Saldanha:
"Quem tenta explicar muito é porque já perdeu"
Saudações tricolores!
Escrito por Marcelo às 09h41
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Choro no cine

E quem, ao que parece, também abriu uma empresa foi a querida Joaninha. E a Joaninha Produções realiza hoje, às 19h30, no Armazém Digital, uma mostra de curtas sobre o choro ou chorões. Boa pedida, não? Mais informações, aqui.
Escrito por Marcelo às 18h59
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Livro do Moacyr

Alguns amigos mais chegados já sabiam, mas agora - como saiu nota na coluna Gente Boa, do Joaquim Ferreira dos Santos - a coisa se tornou pública: estou editando um livro de crônicas do grande Moacyr Luz. Manual de sobreviência nos butiquins mais vagabundos reunirá 25 bem-humorados textos dele sobre temas ligados à boêmia, como A saideira, A cerveja, A mulher e O futebol. Ao lado de cada crônica, haverá pequena entrevista com boêmios célebres, entre eles Aldir Blanc, Chico Caruso, Alfredinho do Bip, Paulão Sete Cordas, Jards Macalé e Sérgio Cabral. O livro é um dos projetos da Pentimento, empresa de produção editorial que acabo de abrir, e será lançado pela Senac Rio no segundo semestre.
Escrito por Marcelo às 18h45
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Doisneau

Acabo de saber que Le baiser de l'Hôtel de Ville, a foto de que mais gosto entre as tantas pérolas do francês Robert Doisneau (tenho em camisa, em pôster...), irá a leilão na França no dia 25 de agosto, com lance inicial de quase US$ 19 mil. A dona do original, que tem um selo de Doisneau, é Françoise Bornet, atriz que há 55 anos posou para a foto, beijando seu então namorado, Jacques Carteaud. Hoje com 75 anos, Françoise disse que Doisneau, morto em 1994, enviou a foto para ela poucos dias depois de tirá-la, por encomenda da revista americana Life, que pediu a ele imagens de jovens casais em Paris. O registro durante muito tempo foi tido como um flagrante, e não uma foto posada, até que em 1992 outro casal, Jean e Denise Lavergne, revelou à revista L'Express que eles também haviam sido clicados por Doisneau. O fotógrafo então de viu obrigado a revelar que tinha visto o casal se beijando num café, e que pedira a eles para fotografá-los depois. Posada ou não, é linda linda linda.
A título de curiosidade: não, Françoise e Jacques não estão mais juntos...
Escrito por Marcelo às 12h24
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Almada Negreiros

"(...) E eu tenho visto olhos! Mas nenhuns que me vissem nenhuns para quem eu fosse um achado existir para quem eu lhes acertasse lá na sua ideia olhos como agulhas de despertar como íman de atrair-me vivo olhos para mim! Quando havia mais luz a luz tornava-me quase real o seu corpo e apagavam-se-me os seus olhos o mistério suspenso por um cabelo pelo hábito deste real injusto tinha de pôr mais distância entre ela e mim para acender outra vez aqueles olhos que talvez não fossem como eu os vi e ainda que o não fossem, que importa? Vi o mistério! Obrigado a ti mulher que não conheço."
Almada Negreiros
Escrito por Marcelo às 12h08
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Sidney Miller

Autor de Nós, os foliões, minha mais recente "música de cabeceira", Sidney Miller, se vivo, hoje completaria 60 anos. O amigo Fernando Toledo não esqueceu da data e publicou no Jornal do Brasil, em parceria com Áurea Alves, um artigo bem bacana sobre o compositor. Seguie o texto:
"Sidney Miller, tristeza e beleza"
Fernando Toledo e Áurea Alves
"Nós, os foliões, somos dados ao esquecimento: imersos no dia-a-dia, tendemos a não reparar nas pedrinhas que caem no lago e formam círculos concêntricos. E por isso, provavelmente, não entendemos por que tais círculos se formaram. Assim, não entendemos até hoje por que o compositor Sidney Miller se matou, em 16 de julho de 1980, aos 35 anos.
Sidney Álvaro Miller Filho era membro de uma geração privilegiada, em termos de criação musical: nascido em 18 de abril de 1945, há exatos 60 anos, foi contemporâneo de Chico Buarque, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Edu Lobo, uma turma que apontaria para uma nova estética e uma nova maneira de encarar o fazer música no Brasil. Em tempos obscuros politicamente, ousaram acender fósforos que tentavam, pelo menos, quebrar a onipresença das trevas.
Sidney não era um iconoclasta como Caetano: em termos de música, estaria mais próximo de Chico, fazendo uma ponte entre um novo olhar e a herança musical e poética em seu sangue. Sua estréia fonográfica, em 1962, com o samba Queixa, uma parceria com Zé Keti e Paulo Tiago, foi defendida por nada mais nada menos que o decano Cyro Monteiro. Foi o início de uma série de grandes composições, que pontilharam a Era dos Festivais de uma beleza melancólica, filosófica mesmo, contrastando com a pirotecnia de certos artistas da época.
Suas letras quilométricas (como a belíssima A estrada e o violeiro, que levou o prêmio de melhor letra no 3° Festival da Record) eram épicos existenciais, um retorno a uma era em que o prazer de contar uma boa história se mesclava à reflexão sobre a natureza da mesma. Um de seus clássicos, O circo (''Vai, vai, vai, começar a brincadeira/ Tem charanga tocando a noite inteira''), opera com o mecanismo dos contos de fada, buscando, no aparentemente ingênuo, toda uma série de arquétipos do ser humano, como o palhaço ''que na vida já foi tudo'', e que ''sem juízo fez feliz a todo mundo, mas no fundo não sabia que em seu rosto coloria todo o encanto do sorriso que seu povo não sorria.'' Uma metáfora perfeita para a condição do artista.
Outras maravilhas podem ser citadas, como o samba Pede passagem, louvor ao ato de resistir às intempéries e que se encerra com os versos: ''Vai balança a bandeira colorida/ Pede passagem pra viver a vida''. Aparentemente, uma contradição em relação à sua morte.
Gravou, ele mesmo, apenas três discos: Sidney Miller (1967), Brasil, do guarani ao guaraná (1968) e Línguas de fogo (1974). Mas intérpretes do estofo de Nara Leão (sua musa), Clara Nunes, Quarteto em Cy e Caetano, entre muitos, se renderam à beleza triste de suas composições. Um dia a tristeza sobrepujou a beleza e Sidney optou por acabar com sua vida. Restou a pergunta, presente nos versos finais de A praça: ''Eu já cantei meu samba/ Quem vai cantar agora?''
Escrito por Marcelo às 11h52
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30 vezes campeão

Amigos, eu já tinha alertado aqui que para nós nada é fácil. Assim como os alvinegros são conhecidos por seu atávico pessimismo, os rubro-negros, pela soberba, e os vascaínos, pela fé na virada, nós, tricolores, temos o sentido do trágico.
O que se viu ontem, no Maracanã, foi mais um capítulo nessa verdadeira epopéia de grandes jogos protagonizados pelo clube das três cores que traduzem tradição. Uma partida daquelas capazes de nos fazer concluir que só quem freqüenta constantemente um estádio pode conceber tamanha alegria.
Com uma vibração absolutamente contagiante, a torcida pintou o estádio em verde, branco e grená, ocupando inclusive todo o espaço destinado às cadeiras e à Geral. Do outro lado, uns cinco mil incautos, com passagem e entrada pagos pela Prefeitura da Cidade do Aço, dividiam lugar com urubus travestidos, aqueles mesmos que à noite sumiram da cidade, entocando-se em suas casas - com a TV desligada, evidentemente.
Mas o jogo de ontem começou na verdade no domingo passado, quando fomos derrotados. Falastrões aposentados empolgaram-se com os reflexos de um holofote tardio e puseram-se a falar bobagens... Torcedores de outras cores, talvez apavorados pelo triste presente e pelo futuro que se anuncia ainda mais sombrio, fizeram piadinhas. Até camisas do Volta Redonda apareceram pela cidade. Diante de tudo, confiante, eu repetidamente retrucava: "o jogo está no intervalo, acredito no meu time, mas ainda assim manterei a humildade..."
Ontem, o Flu precisava vencer por dois tentos de diferença. E o mais complicado: tomamos um gol logo no início do jogo. Não exatamente cabisbaixos, mas ressabiados, seguíamos na partida. Mas as coisas tornavam-se ainda mais difíceis. Porém, quando Tuta subiu e decretou o empate parcial no finzinho do primeiro tempo, as esperanças se renovaram dentro de cada um dos 65 mil tricolores presentes ao Maracanã.
(Um parêntese: Fala-se por aí que nosso avante faz falta no goleiro. Como não vi o videotape, não posso comentar (não era o Nelson Rodrigues que disse que "o videotape é burro?"). E se este foi o fato, pior para ele.)
A verdade é que, incendiado pela torcida que vaiava impiedosamente os jogadores do Voltaço quando tinham a posse de bola e empurrava a equipe tricolor para a frente, o Flu voltou arrasador na segunda etapa. O gráfico de monitor cardíaco que rege cada uma de nossas conquistas ascendia novamente. Nossos gols pareciam questão de tempo. Épicos, porém, pedem mais complexidade. E foi por isso que Tuta perdeu a cabeça, sendo expulso de forma boba. O gráfico do monitor voltava a apontar para baixo.
No entanto, havia a confiança. Havia a certeza de que nosso time era melhor. E mais: havia uma imensa tradição, porque aquela camisa que estava em campo vestiu craques, ganhou títulos, motivou crônicas e canções, fez história. E pusemos tudo isso debaixo do braço para conquistar o nosso 30º Estadual. Ainda no intervalo do jogo, o amigo Sidney me alertara: "Venceremos. Sairemos daqui com a faixa no peito. Está escrito há dez mil anos". Eu sorri para ele. Porque no fundo eu sabia. E por isso fui abraçá-lo logo depois que, convocado pelo Nelson, o Sobrenatural de Almeida resolveu nos dar o campeonato antes mesmo da agonia dos pênaltis, assumindo o corpo desajeitado do zagueiro Antonio Carlos para marcar o gol decisivo.
Naquele instante, lembrei novamente do Nelson, porque foi ali que a humildade acabou. Nelson, Cartola, Mário Lago, entre tantos tricolores ilustres e já falecidos, eu, Sidney, Janot, Luise, Ana Luiza, entre tantos tricolores altivos e sempre presentes, cada um dos que sofreram para comprar seu ingresso nesses sistema patético da Suderj, também aqueles que ficaram em casa e não puderam viver a magia do estádio, todos nós podemos bater no peito com orgulho e afirmar que somos os legítimos campeões do Rio de Janeiro. Nense!
P.S. Esta foi realmente uma cena especialíssima entre as tantas que aconteceram ontem. Entre abraços, suor e algum choro emocionado, caminhávamos pelos corredores do Maracanã em direção à saída cantando que somos os campeões, quando num determinado momento todos, repentinamente, pararam. Era para fazer um preito. De braços erguidos, a massa tricolor cantou À benção, João de Deus em uma só voz. Terminada a canção, então seguimos...
Escrito por Marcelo às 11h26
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Lembrando Camus

"Há sempre uma filosofia para a falta de coragem"
Albert Camus
(Frase bem recordada pelo amigo Eduardo Graça, do Absorto...)
Escrito por Marcelo às 11h05
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(...)

"A tarde estava errada, não era dali, era de outro domingo, quando ainda não tinhas acontecido, e apenas eras uma memória parada sonhando (no meu sonho) comigo.
E eu, como um estranho, passava no jardim fora de mim como alguém de quem alguém se lembrava vagamente(talvez tu), num tempo alheio e impresente.
Tudo estava no seu lugar (o teu lugar), excepto a tua existência, que te aguardava ainda, no limiar de uma súbita ausência, principalmente de sentido."
Manuel António Pina
Escrito por Marcelo às 10h54
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Evento no Bip

O querido Alfredinho do Bip Bip convida para o evento que rolará no pequenino bar no próximo dia 25, segunda-feira, a partir das 19h, e que congregará exposição com quadros dos artistas plásticos Mário Ferrer (aquele que inventou um instrumento para catar lixo na rua, lembram?), Paulo Vilella e Roberto Bastos Cruz e (re)lançamento dos livros do amigo Luís "Pimenta" Pimentel.
Escrito por Marcelo às 10h48
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Gershwin, por Ella

"Someone to watch over me"
Gershwin
"There's a saying old says that love is blind Still we're often told "seek and ye shall find" So I'm going to seek a certain man I've had in mind Looking everywhere, haven't found him yet He's the big affair I cannot forget Only man I ever think of will regret
I'd like to add his initial to my monogram Tell me where's the shepherd for this lost lamb
There's a somebody I'm longing to see I hope that he turns out to be Someone who'll watch over me
I'm a little lamb who's lost in a wood I know I could always be good To one who'll watch over me
Although he may not be the man some girls think of as handsome to my heart he carries the key
Won't you tell him please to put on some speed Follow my lead, oh how I need Someone to watch over me Someone to watch over me"
Escrito por Marcelo às 10h37
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Agualusa

Acabo de receber um email gentil da muito querida Adriana Lisboa, comentando a resenha que fiz para o Prosa & Verso, contando algumas novidades boas e, principalmente, indicando o livro Manual prático de levitação, do angolano José Eduardo Agualusa (de quem só li o ótimo O vendedor de passados). Adriana destacou um dos contos do livro, uma pérola que divido com vocês:
"Borges no inferno"
José Eduardo Agualusa (in Manual prático de levitação)
"Jorge Luis Borges soube que tinha morrido quando, tendo fechado os olhos para melhor escutar o longínquo rumor da noite crescendo sobre Genebra, começou a ver. Distinguiu primeiro uma luz vermelha, muito intensa, e compreendeu que era o fulgor do sol filtrado pelas suas pálpebras. Abriu os olhos, inclinou o rosto, e viu uma fileira de densas sombras verdes. Estava estendido de costas numa plantação de bananeiras. Aquilo deixou-o de mau humor. Bananeiras?! Ele sempre imaginara o paraíso como uma enorme biblioteca: uma sucessão interminável de corredores, escadas e outros corredores, ainda mais escadas e novos corredores, e todos eles com livros empilhados até o tecto.
Levantou-se. Endireitou-se com dificuldade, sentindo-se desconfortável dentro do próprio corpo subitamente rejuvenescido (quando morremos reencarnamos jovens e Borges não se recordava de como isso era.) Caminhou devagar entre as bananeiras. Parecia-lhe pouco provável encontrar ali alguém conhecido, ou seja, alguém de quem tivesse lido algo. Ou alguém sobre quem tivesse lido algo. Nesse caso seria alguém um pouco menos conhecido, ou um pouco menos alguém, ou ambas as coisas.
A plantação prolongava-se por toda a eternidade. Uma dúvida começou a atormentá-lo: talvez estivesse, afinal, não no paraíso, mas no inferno. Para onde quer que olhasse só avistava as largas folhas verdes, os pesados cachos amarelos, e sobre essa idêntica paisagem um céu imensamente azul. Borges lamentava a ausência de livros. Se ali ao menos existissem tigres – tigres metafóricos, claro, com um alfabeto secreto gravado nas manchas do dorso –, se houvesse algures um labirinto, ou uma esquina cor-de-rosa (bastava-lhe a esquina), mas não: só avistava bananeiras, bananeiras, ainda bananeiras. Bananeiras a perder de vista.
Percorreu sem cansaço, mas com crescente fastio, a infinita plantação. Era como se andasse em círculos. Era como se não andasse. Fazia-lhe falta a cegueira. Cego, o que não via tinha mais cores do que aquilo – além do mistério, claro. Como é que um homem morre na Suíça e ressuscita para a vida eterna entre bananeiras?
Borges não gostava da América Latina. A Argentina, como se sabe, é um país europeu (ou quase), que por desgraça faz fronteira com o Brasil, Chile, Uruguai e Paraguai. Para Borges, aquele quase sempre foi um espinho cravado no fundo da alma. Isso e a vizinhança. Os índios ele ainda tolerava. Tinham fornecido bons motivos para a literatura e além disso estavam mortos. O pior eram os negros e os mestiços, gente capaz de transformar o grande drama da vida – da vida, meu Deus! – numa festa ruidosa. Borges sentia-se europeu. Gostava de ler os clássicos gregos (gostaria de os ter lido em grego). Gostava do silêncio poderoso das velhas catedrais.
Foi então que a viu. À sua frente uma mulher flutuava, pálida e nua, sobre as bananeiras. A mulher dormia, com o rosto voltado para o sol e as mãos pousadas sobre os seios, e era belíssima, mas isso para Borges não tinha grande importância (a especialidade dele sempre foram os tigres). Horrorizado compreendeu o equívoco. Deus confundira-o com outro escritor latino-americano. Aquele paraíso fora construído, só podia ter sido construído, a pensar em Gabriel García Marquez.
Jorge Luis Borges sentou-se sobre a terra úmida. Levantou o braço, colheu uma banana, descascou-a e comeu-a. Pensou em Gabriel García Marquez e voltou a experimentar o intolerável tormento da inveja. Um dia o escritor colombiano fechará os olhos, para melhor escutar o rumor longínquo da noite, e quando os reabrir estará deitado de costas sobre o lajedo frio de uma biblioteca. Caminhará pelos corredores, subirá escadas, atravessará outros corredores, ainda mais escadas e novos corredores, e em todos eles encontrará livros, milhares, milhões de livros. Um labirinto infinito, forrado de estantes até o tecto, e nessas estantes todos os livros escritos e por escrever, todas as combinações possíveis de palavras em todas as línguas dos homens.
Jorge Luis Borges descascou outra banana e nesse momento um sorriso – ou algo como um sorriso – iluminou-lhe o rosto. Começava a adivinhar naquele equívoco cruel um inesperado sentido: sendo certo que o paraíso do outro era agora o inferno dele, então o paraíso dele haveria de ser, certamente, o inferno do outro.
Borges terminou de descascar a banana e comeu-a. Era boa. Era um bom inferno, aquele."
Escrito por Marcelo às 11h19
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Mais Hélder

"Não sei como dizer-te que a minha voz te procura E a atenção começa a florir, quando sucede a noite Esplêndida e vasta. Não sei o que dizer, quando longamente teus pulsos Se enchem de um brilho precioso E estremeces como um pensamento chegado. Quando, Iniciado o campo, o centeio imaturo ondula tocado Pelo pressentir de um tempo distante, E na terra crescida os homens entoam a vindima - eu não sei como dizer-te que cem ideias, dentro de mim, te procuram.
Quando as folhas da melancolia arrefecem com astros Ao lado do espaço E o coração é uma semente inventada Em seu escuro fundo e em seu turbilhão de um dia, Tu arrebatas os caminhos da minha solidão Como se toda a casa ardesse pousada na noite. - E então não sei o que dizer junto à taça de pedra do teu tão jovem silêncio. Quando as crianças acordam nas luas espantadas que às vezes se despenham no meio do tempo - não sei como dizer-te que a pureza, dentro de mim, te procura.
Durante a primavera inteira aprendo Os trevos, a água sobrenatural, o leve e abstracto Correr do espaço - E penso que vou dizer algo cheio de razão, Mas quando a sombra cai da curva sôfrega Dos meus lábios, sinto que me faltam Um girassol, uma pedra, uma ave - qualquer coisa extraordinária.
Porque não sei como dizer-te sem milagres Que dentro de mim é o sol, o fruto, a criança, a água, o deus, o leite, a mãe, o amor,
que te procuram."
Herberto Hélder
Escrito por Marcelo às 10h38
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Cores

Aliás, definitivamente concordo com a Crib: as pessoas têm uma cor própria mesmo...
(imagem de Paul Klee)
Escrito por Marcelo às 10h26
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Canção para a quinta-feira

"Face a face"
Sueli Costa / Cacaso
"São as trapaças da sorte, são as graças da paixão Pra se combinar comigo tem que ter opinião São as desgraças da sorte, são as traças da paixão Quem quiser casar comigo tem que ter bom coração Morena quando repenso o nosso sonho fagueiro O céu estava tão denso, o inverno tão passageiro Uma certeza me nasce, e abole todo o meu zelo Quando me vi face a face fitava o meu pesadelo Estava cego o apelo, estava solto o impasse Sofrendo nosso desvelo, perdendo no desenlace No rolo feito um novelo, até o fim do degelo Até que a morte me abrace São as desgraças da sorte, são as traças da paixão Quem quiser casar comigo tem que ter bom coração São as trapaças da sorte, são as graças da paixão Pra se combinar comigo tem que ter opinião Morena quando relembro aquele céu escarlate Mal começava dezembro, já ia longe o combate Uma lambada me bole, uma certeza me abate A dor querendo que eu morra, o amor querendo que eu mate Estava solta a cachorra que mete o dente e não late No meio daquela zorra, perdendo no desempate Girando feito piorra, até que a mágoa escorra Até que a raiva desate São as trapaças da sorte, são as graças da paixão Pra se combinar comigo tem que ter opinião São as desgraças da sorte, são as traças da paixão Quem quiser casar comigo tem que ter bom coração"
P.S. O quadro, presente da Crib, é do Klimt...
Escrito por Marcelo às 09h58
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Justiça

No ano passado, o ótimo documentário Justiça, de Maria Augusta Ramos, fez relativo sucesso nos cinemas brasileiros. Pois bem: a diretora me convidou ontem para formular as perguntas e conduzir as entrevistas que constarão dos extras da versão em dvd do filme. Entre os entrevistados, estarão o juiz Geraldo Prado, a (hoje) desembargadora Fátima Clemente, a defensora pública Maria Ignez Kato (os três são personagens do filme), além do sociólogo Luiz Eduardo Soares. Quem viu o documentário e quiser sugerir perguntar pode fazê-lo por intermédio do meu email: m.moutinho@uol.com.br.
P.S. Quando o filme estava em cartaz, escrevi um artigo para o site Críticos.Com, em que comentava o filme sob a perspectiva de um jornalista que, de alguma forma, lida com o Judiciário. Abaixo, um trecho do texto. Leia a íntegra aqui.
"(...) Os contrastes estendem-se aos quase absurdos diálogos entre juízes e réus. O palavrório tecnicista da legislação, por vezes contornado pela paciência e o esmero de magistrados como Geraldo Prado, soa ininteligível para os acusados, cujas manifestações - titubeantes, hesitantes, descoordenadas - são o retrato bem delineado da falência da Educação brasileira. Este fosso entre o que os agentes do Judiciário pugnam e aplicam e aquilo no que tais teorias se transformam quando chegam na vida real poderá espantar espectadores que só conhecem “sistemas judiciários” a partir do exemplo americano, popularizado por intermédio do tradicional subgênero dos filmes de tribunal. O susto, no entanto, não é só deles. Também os que têm uma relação mais próxima com o tema podem se surpreender. Assino embaixo.(...)"
Escrito por Marcelo às 09h36
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Frase

"Vomitar o quê, se nada comemos?"
A frase é de Fernando Sabino e consta de uma das correspondências reunidas no livro Cartas na mesa. Ontem, o amigo Henrique Rodrigues me perguntava se não concordo que a assertiva pode se aplicar à nossa geração de escritores, músicos, pintores, dramaturgos... Se nós, que andamos aqui pelos 25, 30, 35 anos, talvez não precisemos comer mais antes de qualquer coisa. Desde então ando pensando sobre isso. Sem conclusões ainda.
Escrito por Marcelo às 12h11
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Jorge de Sena

"Uma pequenina luz bruxuleante não na distância brilhando no extremo da estrada aqui no meio de nós e a multidão em volta une toute petite lumière just a little light una picolla... em todas as línguas do mundo uma pequena luz bruxuleante brilhando incerta mas brilhando aqui no meio de nós entre o bafo quente da multidão a ventania dos cerros e a brisa dos mares e o sopro azedo dos que a não vêem só a adivinham e raivosamente assopram. Uma pequena luz que vacila exacta que bruxuleia firme que não ilumina apenas brilha. Chamaram-lhe voz ouviram-na e é muda. Muda como a exactidão como a firmeza como a justiça. Brilhando indeflectível. Silenciosa não crepita não consome não custa dinheiro. Não é ela que custa dinheiro. Não aquece também os que de frio se juntam. Não ilumina também os rostos que se curvam. Apenas brilha bruxuleia ondeia indefectível próxima dourada. Tudo é incerto ou falso ou violento: brilha. Tudo é terror vaidade orgulho teimosia: brilha. Tudo é pensamento realidade sensação saber: brilha. Tudo é treva ou claridade contra a mesma treva: brilha. Desde sempre ou desde nunca para sempre ou não: brilha. Uma pequenina luz bruxuleante e muda como a exactidão como a firmeza como a justiça. Apenas como elas. Mas brilha. Não na distância. Aqui no meio de nós. Brilha"
Jorge de Sena
Escrito por Marcelo às 12h00
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Megazine

Aliás, em O Globo de ontem vale menção também à bela matéria de capa do Megazine, intitulada Fragmentos da vida. A repórter Ediane Merola entrevistou a família de alguns dos jovens mortos da recente chacina de Queimados, apurando quais eram os objetos e gostos preferidos - um relógio, uma lata de leite condensado, um cd de forró, um videogame... - e também objetivos da vida de cada um. Ao aproximá-los de nós através desses sentimentos e afeições tão humanas, a jornalista conseguiu diminuir um pouco o fosso que parece existir entre a nossa e a realidade deles. E a destituir a "coisificação" (conceito do grande Jurandir Freire Costa) que muitas vezes lhe legamos.
Escrito por Marcelo às 11h59
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Jovem Guarda

Em resenha publicada ontem no Segundo Caderno (O Globo), o amigo Hugo Sukman foi muito além de simplesmente analisar o disco em questão - no caso, a coletânea Um barzinho, um violão. Ele conseguiu fazer uma análise sintética e precisa do que significou a Jovem Guarda para a música popular brasileira. Concordo da primeira à última linha. Segue o texto na íntegra:
"Programa de TV, mito, fenômeno sociológico é celebrado pelo que não é: movimento musical"
Hugo Sukman
"Jovem Guarda, a rigor, foi um programa de TV apresentado por Roberto Carlos. Neste 2005 comemora-se 40 anos de sua estréia na TV Record. Foi um “Domingão do Faustão” da época, mas dedicado só à música. De programa de TV virou mito por três motivos: o extraordinário e perene sucesso pessoal de Roberto Carlos (e seu Sancho Pança, o grande Erasmo); ter sido adotado pelo tropicalismo como um dos ícones de uma canção popular desprezada como lixo cultural pelas elites bem pensantes (simbolizada na MPB de extração universitária); ter introduzido de fato no Brasil, talvez único país do Ocidente a estar até então incólume ao rock e congêneres, a cultura pop jovem e globalizada. Esses três fatos transformaram a Jovem Guarda de programa de TV em fenômeno sociológico. Mas, como diria Tim Maia, que ensinou violão a Roberto, uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa. E a Jovem Guarda, de fenômeno sociológico virou, empurrado pela nostalgia da juventude perdida, movimento musical. Não é fenômeno exclusivamente brasileiro. A intelectualizada França também celebra roquinhos tipo “Banho de lua” como símbolo da canção francesa dos anos 60, fingindo esquecer que se trata de “Tintarella di luna”, uma canção italiana que, como os rocks-baladas americanos da época, era lançada simultaneamente no mundo inteiro por intérpretes locais, vertida para a língua nacional. O CD/DVD ao vivo “Um barzinho, um violão — Jovem Guarda” (Universal) celebra justamente tudo que a Jovem Guarda não é, um movimento musical. Por isso, seus melhores momentos nada tem a ver com a tal Jovem Guarda. Como quando Zeca Pagodinho canta o samba-jóia “Coqueiro verde”, um Erasmo Carlos das melhores safras, 1970, acompanhado dos violões de Mauro Diniz e Carlinhos 7 Cordas. Musicalmente, à exceção de pouco mais que a produção de Roberto e Erasmo — e que só ficaria boa mesmo quando a JG já era precoce saudade — a Jovem Guarda era só roquinhos e baladas de branco, apelidados de iê-iê-iês, americanos, italianos, ou, se brasileiros, copiando o seu chacundum, seu clima caipira e suas letras melosas. O charme do disco é trazer as canções dos tempos da Jovem Guarda em interpretações de artistas de fora do “movimento” e em versões (como se convencionou chamar) acústicas. Mas, como se viu no caso de Zeca, a amplitude estética é tão restrita que se recorreu a canções de fora. Como, da mesma boa safra de Erasmo, a tão triste balada “Sentado à beira do caminho”, por Fernanda Porto. Ou “Se você pensa”, por Pedro Mariano, um Roberto Carlos de 1968 começando a sua melhor fase, já influenciado mais pela música negra do que pelo sem-gracíssimo ie-ie-iê. De fato, da época da JG pouca coisa sobreviveu. Basta ouvir intérpretes do nível profisssional de uma Daniela Mercury ou de um Roupa Nova em canções fragilíssimas como “Esqueça” (versão de “Forget it”) ou “Pensando nela” (de “Bus stop”), esta com bela performance vocal do conjunto, que jamais entrariam no repertório deles. Ou Fernanda Takai (do Pato Fu) e Rodrigo Amarante (Los Hermanos) cantando, até bonitinhos se fosse cena de um filme nostálgico, a balada “Ritmo da chuva” mostrando que o futuro rock brasileiro nada tem a ver com a Jovem Guarda — o rock brasileiro é originário do tropicalismo (Mutantes) e de influências várias do rock anglo-americano; a Jovem Guarda é, isto sim, origem da moderna música brega brasileira e sobretudo do neo-sertanejo. Ideologicamente, Caetano abre o disco reinventando, numa daquelas suas certeiras versões voz e violão para babas antigas, “Só vou gostar de quem gosta de mim”, sucesso de Roberto, raro exemplo autoral de Rossini Pinto, o maior dos versionistas. Mas a mais representativa faixa é a de Luiza Possi, na balada caipira “Coração de papel”, de Sérgio Reis. Este autor sim mantém-se, até hoje, no espírito original da Jovem Guarda."
Escrito por Marcelo às 11h47
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Dalva de Oliveira

O que é o arranjo de Tom Jobim para Saia do caminho (Custódio Mesquita/Ewaldo Ruy) no disco Grossas nuvens de amor, da Dalva de Oliveira? Aliás, que álbum bem orquestrado! Além do Tom, mestre Lindolfo Gaya, Severino Araújo e Leo Peracchi valorizam ainda mais as canções de Noel, Herivelto, Elton Medeiros, Hermínio Bello de Carvalho e Lupiscínio Rodrigues. Um disco bonito à beça - e triste que só.
Escrito por Marcelo às 13h20
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Pérola negra

Só vi ontem, em reprise, a apresentação dela - aquela em que a música repentinamente parou. Ainda assim deu pra emocionar...
Escrito por Marcelo às 10h21
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No som, com a Nana

"Beijo partido"
Toninho Horta
"Sabe, eu não faço fé nessa minha loucura E digo: eu não gosto de quem me arruína em pedaços E Deus é quem sabe de ti E eu não mereço um beijo partido. Hoje não passa de um dia perdido no tempo E fico longe de tudo o que sei Não se fala mais nisso Eu sei, eu serei pra você o que não me importa saber Hoje não passo de um vaso quebrado no peito E grito: olha o beijo partido Onde estará a rainha Que a lucidez escondeu?"
Escrito por Marcelo às 10h03
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Beckett

"Cascando"
Samuel Beckett
1.
fosse apenas o desespero da ocasião da descarga de palavreado
perguntando se não será melhor abortar que ser estéril
as horas tão pesadas depois de te ires embora começarão sempre a arrastar-se cedo demais as garras agarradas às cegas à cama da fome
trazendo à tona os ossos os velhos amores órbitas vazias cheias em tempos de olhos como os teus sempre todas perguntando se será melhor cedo de mais do que nunca com a fome negra a manchar-lhes as caras a dizer outra vez nove dias sem nunca flutuar o amado nem nove meses nem nove vidas
2.
a dizer outra vez se não me ensinares eu não aprendo a dizer outra vez que há uma última vez mesmo para as últimas vezes últimas vezes em que se implora últimas vezes em que se ama em que se sabe e não se sabe em que se finge uma última vez mesmo para as últimas vezes em que se diz se não me amares eu não serei amado se eu não te amar eu não amarei
palavras rançosas a revolver outra vez no coração amor amor amor pancada da velha batedeira pilando o soro inalterável das palavras
aterrorizado outra vez de não amar de amar e não seres tu de ser amado e não ser por ti de saber e não saber e fingir e fingir
eu e todos os outros que te hão-de amar se te amarem
3.
a não ser que te amem"
Escrito por Marcelo às 09h53
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Hilda

"Se for possível, manda-me dizer: - É lua cheia. A casa está vazia - Manda-me dizer, e o paraíso Há de ficar mais perto, e mais recente Me há de parecer teu rosto incerto. Manda-me buscar se tens o dia Tão longo como a noite. Se é verdade Que sem mim só vês monotonia. E se te lembras do brilho das marés De alguns peixes rosados Numas águas E dos meus pés molhados, manda-me dizer: - É lua nova - E revestida de luz te volto a ver".
Hilda Hilst
Escrito por Marcelo às 09h34
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Camila Costa

Amiga querida, cantora de voz delicada e sofisticadíssimo gosto musical, Camila Costa acaba de lançar Reflexo, o seu primeiro disco solo. O show de lançamento do cd da moça, que ao lado da também amiga e não menos talentosa Nilze Carvalho integra o grupo Sururu na Roda, será no próximo dia 27, no Teatro Rival. Eu estarei lá. Hoje, o Caderno B publicou resenha do chapa Luís "Pimenta" Pimentel sobre o trabalho da Camila. Segue o texto:
"Uma nova e deliciosa voz na MPB"
Luís Pimentel
"Quem freqüenta as casas de shows do circuito Lapa-Tiradentes, sobretudo o público do Centro Cultural Carioca, já conhece o trabalho delicado e a postura discreta da violonista e cantora Camila Costa, que se apresenta com o excelente grupo de samba e choro Sururu na Roda. Cantar e tocar com esse pessoal significa exatamente dividir o palco com gente do gabarito da bandolinista, cavaquinista e cantora Nilze Carvalho, uma jóia raríssima da MPB. Camila divide, soma e dá conta do recado.
Escolada no repertório dos grandes nomes da nossa música, Camila resolveu partir para o seu primeiro disco solo, Reflexo (Fina Flor), em que interpreta canções de sua autoria - algumas em parceria com o arranjador e produtor Ruy Quaresma - e outras assinadas por craques como Chico Buarque (Meu guri, numa interpretação vigorosa e equilibrada) e Fátima Guedes (uma das nossas maiores compositoras, que comparece com uma pepita chamada Escritório).
Melodista de acordes suaves e letrista de extremo cuidado com as palavras (''À deriva meu corpo/ procurando a morada do seu porto/ e num tempo onde o próprio tempo esmaga'', O grande lobo do mar), Camila Costa fez um disco limpo e delicioso, onde os arranjos (que contaram também com o reforço do mestre Gilson Peranzeta) e a direção artística de Ruy Quaresma equilibram todos os sons ao ritmo de suas palavras e ao tempo de sua voz de acalanto.
Camila tem apenas 23 anos, mas tem também uma ótima formação musical. Além de estar há cinco anos no time do Sururu, é formada em licenciatura plena em música pela Uni-Rio e já venceu alguns festivais pelo Brasil. Em Reflexo ela contou com uma equipe de músicos do primeiríssimo time, como o baixista Zé Luiz Maia, o pianista Itamar Assiere e o violonista Carlinhos 7 Cordas, o cracaço do Toque de Prima.
Bela estréia, belo disco."
Escrito por Marcelo às 17h27
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Pizarnick, sempre

"um olhar desde o esgoto pode ser uma visão do mundo
a revolta consiste em olhar uma rosa até pulverizar os olhos"
Alejandra Pizarnik
Escrito por Marcelo às 13h58
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Tempo

"Quando agora te debruças sobre a água do tanque, vês projectado, lá no fundo, um relógio sem ponteiros. Percebes, então, que a ferrugem é também uma qualidade e um atributo da água, e não apenas de alguns metais a que chamamos vis. E percebes ainda que já não são necessários os relógios. Tu já não tens idade, nem o tempo, que partilha do halo e da fluidez da água e é, às vezes, como ela, tão inodoro e insípido, se deixa prender, mesmo num vaso de cristal. E não podes, assim, medir-lhe a respiração. A sua duração, se preferes. Se alguma ainda subsiste, é a que é regulada pelos ponteiros do seu próprio corpo."
Albano Martins
Escrito por Marcelo às 13h52
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Canção para hoje

"Todo amor que houver nessa vida"
Cazuza "Eu quero a sorte de um amor tranquilo Com sabor de fruta mordida Nós na batida, no embalo da rede Matando a sede na saliva Ser teu pão, ser tua comida Todo amor que houver nessa vida E algum trocado pra dar garantia E ser artista no nosso convívio Pelo inferno e céu de todo dia Pra poesia que a gente não vive Transformar o tédio em melodia Ser teu pão, ser tua comida Todo amor que houver nessa vida E algum veneno anti-monotonia E se eu achar a sua fonte escondida Te alcanço em cheio o mel e a ferida E o corpo inteiro feito um furacão Boca, nuca, mão, e a tua mente, não Ser teu pão, ser tua comida Todo amor que houver nessa vida E algum remédio que me dê alegria"
Escrito por Marcelo às 13h45
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Kawabata
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No sábado passado, o Prosa & Verso (O Globo) publicou resenha minha sobre dois romances do japonês Yasunari Kawabata, escritor ainda não muito conhecido por nossas bandas. Segue a íntegra do texto:
Literatura das sensações
Marcelo Moutinho
Morte e erotismo são os dois temas que se amalgamam e cimentam em essência a literatura do japonês Yasunari Kawabata, Nobel de 1968, cuja obra está sendo relançada no Brasil com dois de seus mais importantes livros: “O País das neves” (1937) e “A casa das belas adormecidas” (1960). A dolorida noção da transitoriedade da vida, presente nestes e em outros romances dele, é cifrada por um olhar sensível, que dispensa à narrativa tons e semitons nuançados, como se o texto fosse uma pintura impressionista cunhada em sensações, em sutilezas, em subentendidos. Formado em literatura pela Universidade Imperial de Tóquio, o escritor foi um dos fundadores da revista “Bungei Jidai”, publicação de vanguarda influenciada pelo surrealismo, e destacado integrante da chamada Shinkankuha, corrente neo-sensorialista que revolucionou as letras japonesas, opondo-se ao realismo clássico. Kawabata e seus colegas professavam a captura mais direta dos sentimentos, apostando na rarefação narrativa e no lirismo. Em ambos os livros, traduzidos diretamente do japonês, esses traços são evidentes. No primeiro, o leitor é posto diante de um triângulo amoroso apenas sugerido entre um intelectual de meia-idade que mora em Tóquio, uma gueixa e uma jovem, cujo rosto ficará para sempre fixado na mente do protagonista, desde que o vislumbrou refletido na janela embaçada do trem em que viajava para a estação termal do País das Neves. As mornas relações entre os três suscitam uma inércia que parece contradizer os desejos reprimidos que os envolvem, explorados no livro sem dramaticidade. Ao contrário: o desenrolar da história se dá sob a égide da improbabilidade de que seja acesa a fagulha necessária para efetivar algum ponto de ruptura entre eles e, à medida que a narrativa se alonga, a obsessiva descrição dos efeitos do tempo sobre a natureza somente reforça tal perspectiva. Há uma espécie de apatia branca que transborda do inverno rigoroso para o interior dos personagens. Kawabata investe na tensão entre a natureza — em si “pura” e cuja percepção seria capaz de suspender o instante, fixando-o no perene — e o verdadeiro turbilhão de conflitos que circunda (e por vezes paralisa) o homem. Por intermédio dos personagens, sublinha o poder depurador da natureza. Por exemplo, quando revela como “era agradável”, para o intelectual, “pensar no sol da manhã batendo no linho branco estendido sobre a neve espessa, na neve ou no tecido, ambos tingidos de vermelho por sua luz, pois lhe parecia que a sujeira do verão seria totalmente eliminada e que o seu próprio ser ficaria purificado”. Outro aspecto importante são as referências à cultura japonesa, vertida em vestuário e rituais definidores de uma rígida hierarquia. É uma pena que, apesar das notas de rodapé, essa riqueza possivelmente vá fugir ao leitor brasileiro. No sensual “A casa das belas adormecidas”, a tão ansiada “pureza” desloca-se da natureza para a figura feminina. O protagonista da trama é Eguchi, que, ao completar 67 anos, resolve conhecer a tal casa que dá nome ao livro. Trata-se de local onde anciãos passam a noite ao lado de moças que, entorpecidas por forte sedativo, dormem profundamente. A metáfora da beleza e da vitalidade roubadas das meninas pelos freqüentadores da casa — e pelo protagonista — é a força-motriz do romance. “Ali eles não sentiriam apenas o pesar da velhice, sua fealdade e miséria, mas estariam se sentindo repletos da dádiva da vida jovem. Para um homem no extremo limite da sua velhice, não haveria um momento em que pudesse se esquecer por completo de si mesmo, a não ser quando envolvido por inteiro pelo corpo da jovem mulher”, observa o narrador, para quem “a pele e o cheiro das jovens garotas seriam, então, o perdão e o consolo desses pobres velhotes”. Assim como o intelectual, quando amargurado, dedica-se a passeios pelo campos do País das Neves, os idosos recorrem à casa das belas adormecidas. “Quando se deitavam em contato com a nudez da jovem mulher, os sentimentos que ressurgiam do fundo do seus âmagos talvez não fossem apenas o medo da morte que se aproximava ou o lamento pela juventude perdida. Talvez houvesse neles também certo arrependimento pelos pecados cometidos, ou pela infelicidade no lar, coisa muito comum nas famílias dos vencedores”, diz o narrador. Cada garota com quem Eguchi divide a cama trará a recordação de uma mulher que passou por sua vida. Cada uma suscita imagens que a memória cunhou de forma minuciosa e definitiva, e retornam nesse período outonal, quando a serenidade permite o balanço do passado. As moças representam, então, mais um espelho (no caso, retrovisor), entre os tantos que distinguem a obra de Kawabata. Que, igualmente a seus personagens, namorou por toda a existência a solidão. E levou sua obsessão pela morte até o desenlace trágico: o suicídio, com a ajuda de uma mangueira de gás, em 1972.
MARCELO MOUTINHO é jornalista e escritor |
Escrito por Marcelo às 13h06
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Segundo tempo

Jogo no intervalo. Nada para nós é fácil...
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