Mais música...

... com esse excepcional pianista cubano que é Ignacio Villa, o 'Bola de Nieve'.

"Vete de mi"

Homero Expósito / Virgilio Expósito

"Tu, que llenas todo de alegria y juventud
que ves fantasmas en las noches de trasluz,
y oyes el canto perfumado del azul
Vete de mi.

No te detengas a mirar las ramas viejas del rosal
que se marchitan sin dar flor
mira el paisaje del azul
que es la razon para vivir y amar

Yo, que ya he luchado contra toda la maldad
tengo las manos tan desechas de apretar
que no te puedo sujetar
Vete de mi

Sera en tu vida lo mejor, de la neblina del ayer
cuando me llegues a olvidar
como es mejor el verso aquel
que no podemos recordar".



 Escrito por Marcelo às 14h15
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Caio F.

"Desculpa, digo, mas se eu não tocar você agora vou perder toda a naturalidade, não conseguirei dizer mais nada, não tenho culpa, estou apenas sentindo sem controle , não me entenda mal, não me entenda bem, é só esta vontade quase simples de estender o braço para tocar você, faz tempo demais que estamos aqui parados conversando nesta janela, já dissemos tudo que pode ser dito entre duas pessoas que estão tentando se conhecer, tenho a sensação impressão ilusão de que nos compreendemos, agora só preciso estender o braço e, com a ponta dos meus dedos, tocar você, natural que seja assim: o toque, depois da compreensão que conseguimos - e agora".

Caio Fernando Abreu, em Anotações sobre um amor urbano



 Escrito por Marcelo às 14h02
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Riscos

"Sim, prefiro o risco do manicômio ao risco do cárcere. Prefiro acreditar demais - sem fanatismo ou intolerância - a ter pouca fé. Se tenho que errar, quero errar achando que esta é uma grande vida, misteriosa, complicada, maravilhosa e não cair no erro oposto de vê-la menor e mais simples do que a minha imaginação"

J. B. Priestley, em O homem e o tempo



 Escrito por Marcelo às 14h01
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Beatles

"Something"

George Harrison

"Something in the way she moves
Attracts me like no other lover
Something in the way she woos me

I don't want to leave her now
You know I believe her now

Somewhere in her smile she knows
That I don't need no other lover
Something in her style that shows me

Don't want to leave her now
You know I believe her now

You're asking me will my love grow
I don't know, I don't know
You stick around now it may show
I don't know, I don't know

Something in the way she knows
And all I have to do is think of her
Something in the things she shows me

Don't want to leave her now
You know I believe her now"



 Escrito por Marcelo às 17h04
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Canção para hoje

"Catavento e girassol"

Guinga / Aldir Blanc

"Meu catavento tem dentro
O que há do lado de fora do teu girassol
Entre o escancaro e o contido
Eu te pedi sustenido
E você riu bemol
Você só pensa no espaço
Eu exigi duração
Eu sou um gato de subúrbio
Você é litorânea
Quando eu respeito os sinais
Vejo você de patins
Vindo na contra-mão
Mas, quando ataco de macho
Você se faz de capacho
E não quer confusão
Nenhum dos dois se entrega
Nós não ouvimos conselho:
Eu sou você que se vai
No sumidouro do espelho
Eu sou do Engenho de Dentro
E você vive no vento do Arpoador
Eu tenho um jeito arredio
E você é expansiva
(o inseto e a flor)
Um torce pra Mia Farrow
O outro é Woody Allen...
Quando assovio uma seresta
Você dança, havaiana
Eu vou de tênis e jeans
Encontro você demais:
Scarpin, soirée
Quando o pau quebra na esquina
Você ataca de fina
E me oferece em inglês:
É fuck you, bate-bronha
E ninguém mete o bedelho:
Você sou eu que me vou
No sumidouro do espelho
A paz é feita no motel
De alma lavada e passada
Pra descobrir logo depois
Que não serviu pra nada
Nos dias de carnaval
Aumentam os desenganos:
Você vai pra Parati
E eu pro Cacique de Ramos
Meu catavento tem dentro
O vento escancarado do Arpoador
Teu girassol tem de fora
O escondido do Engenho de Dentro da flor
Eu sinto muita saudade
Você é contemporânea
Eu penso em tudo quanto faço
Você é tão espontânea!
Sei que um depende do outro
Só pra ser diferente
Pra se completar
Sei que um se afasta do outro
No sufoco somente pra se aproximar
Cê tem um jeito verde de ser
E eu sou mais vermelho
Mas os dois juntos se vão
No sumidouro do espelho"

P.S. O quadro é de Volpi...



 Escrito por Marcelo às 13h55
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Carpinejar + Klee

"(...) Barulho bonito é da chuva catando moedas nas calhas. Não sei como a chuva não fica rica. Barulho bonito é a risada do café da manhã. O pão ainda sonhando o fogo. Há barulhos bonitos que vou escutar mesmo depois de morto. Como o barulho dos dentes de minha mulher quando gosta do que come. Ou no momento em que não fala e tudo diz e arregaça levemente as saias para pegar sol nas pernas enquanto dirijo e finjo que não espio e finjo que desconheço qual caminho tomar. Barulho bonito é da pele, que muda o sabor conforme a boca. Barulho bonito é do mar jogando cartas de noite. Barulho bonito é do pomar quando as abelhas recém foram e o pólen está todo revirado. Barulho bonito é de uma porta de vidro, que torna a visita transparente. Barulho bonito é das sandálias, que aguardam o pouso de cada dedo e não se arrastam como os chinelos. Barulho bonito é de um baú sendo aberto, com a lentidão das bordas, sem a correria cega das gavetas. Barulho bonito é do lençol estendido na cama e as noites voando assustadas pela janela. Barulho bonito é da respiração acelerada quando recebe um beijo. Barulho bonito é do sino de corda; as badaladas entram em casa devagar. Barulho bonito é do cachorro pisando em poças. Barulho bonito é da lenha crepitando, o fogo datilografando seu livro. Barulho bonito é de uma criança rolando o pneu e o devolvendo à estrada. Barulho bonito é do vinho no cálice, a escada em caracol do líquido. Barulho bonito é da neblina suplicando lombas. Barulho bonito é do chapéu na mesa. Barulho bonito é da argola da rede. Barulho bonito é a corrida entre a vela e o vento. Barulho bonito é do telefone tocando quando não há ninguém em casa. Barulho bonito é do sabiá, com as asas fechadas, caminhando para imitar o homem. Barulho bonito é do homem se agachando ao prato para beber a sopa. Barulho bonito é do pêssego amarelo entre formigas. Barulho bonito é do varal esticado pela troca de estação. Barulho bonito é da faca em círculos na casca. Barulho bonito é de uma carroça em uma rua vazia. Barulho bonito é do fecho da mala quando estou voltando. Meu corpo desaprendeu a andar sozinho. Há de se procurar onde não há vida e ficar sentado esperando desejos."

Fabrício Carpinejar



 Escrito por Marcelo às 13h36
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Moacyr Luz

Uma delícia o show do Moacyr Luz com o ótimo Água de Moringa ontem à noite, no Teatro Carlos Gomes, para lançamento oficial do cd A sedução carioca do poeta brasileiro, em que o compositor "musicou" poemas que têm o Rio de Janeiro como tema. Estão no disco, entre outros, trabalhos de Murilo Mendes, Fereira Gullar, Manuel Bandeira, Armando Freitas Filho, Carlos Drummond de Andrade, Vinícius de Moraes e Mário de Andrade.

O espetáculo foi aberto com um pout-porri de Moacyr, com base em canções próprias que falam sobre a cidade - pérolas como Gênio da raça (tributo a Carlos Cachaça), a belíssima Só dói quando eu Rio ("Só fico à vontade / Na minha cidade / Volto sempre à ela / Feito criminosa / Doce e calorosa / A minha história / Escorre aqui") e o hino Saudades da Guanabara. Em seguida, o cantor fez desfilar o repertório do novo disco, cujo resultado me pareceu um tanto irregular.

E a irregularidade nasce da natural dificuldade natural de transformar poemas em letras de música. Malgrado o reconhecido talento de Moacyr como melodista, em alguns momentos o encaixe não se dá, o que acontece em Noite carioca (de Murilo Mendes) e VII – Rio de Janeiro (Drummond). Quando a conexão é perfeita, contudo, o disco cresce, até mesmo pela qualidade do "texto" que deu origem à música. É que ocorre, por exemplo, com Poema obsceno (Ferreira Gullar), Elegia inútil (Manuel Bandeira) e Cantiga das ilhas (mas esta não conta muito, porque o Aldir, antes de ser poeta, é exímio letrista). Ocorre também com o lírico poema Méier (postado abaixo e cujos versos me remeteram ao Paulinho da Viola), de Luiz Paiva de Castro, escritor a quem desconhecia até ontem.

O show foi um verdadeiro encontro de amigos, entre jornalistas, músicos, escritores, cartunistas e cariocas na melhor acepção do termo. Após a apresentação e o bem-servido coquetel, um pequeno grupo seguiu para o Bar Getúlio, tomando conta de todas as mesas. Num clima de total descontração, eu e mais alguns coleguinhas pudemos então travar sensacionais conversas sobre os caminhos e descaminhos do samba e do carnaval, a vida no subúrbio, a cultura popular... Pudemos também cantar em coro as canções do Moacyr (com a presença e a participação do próprio), cujos cds rolaram no som da casa sob o comando do dj Baiano. Além disso, pudemos, enfim, ouvir poemas, declamados pela Elisa Lucinda e pelo Mariozinho Lago, e interpretações à capela de bambas como Claudio Jorge, Didu Nogueira e Zé Luís do Império Serrano. Uma noite memorável, portanto.

"Méier"

Luiz Paiva de Castro

"Foi aqui que eu achei a chuva calma

de inverno, ao consumir-se na vidraça,

e descobri que a chuva traz na alma

o sol que surge quando a nuvem passa.

Após a chuva, a rosa, o lírio, a palma

Parecem feitos de uma nova raça.

Para a criança sempre o nosso tempo espalma

Mais do que o dia e o pássaro da praça.

 

(Também a chuva estende sua gaze

e entra de novo na tranqüila fase

do bicho, do navio, do algodão.)

 

Foi no Méier que descobri no fundo

Das coisas simples a noção do mundo

E pus a chuva e o sol no coração"


P.S. A imagem que ilustra a capa do cd, de autoria de mestre Lan, é um tópico de beleza à parte dentro do projeto...



 Escrito por Marcelo às 13h02
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Sartre e Beauvoir

"Sua morte nos separa. Minha morte não nos reunirá. É assim; e já foi tão belo que nossas vidas tenham podido se combinar por tanto tempo"

Simone de Beauvoir, em A Cerimônia do adeus, sobre a relação com Sartre...



 Escrito por Marcelo às 15h21
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Encontro com Antonio

No próximo sábado, a partir das 11h, vai rolar nova edição do evento Livros na mesa, realizado pela Estação das Letras no Sebo Al Farabi. A proposta do encontro é promover a troca de livros usados, mas além disso há sempre o bate-papo com um escritor convidado. Desta vez, será com o querido Antonio Torres, autor dos ótimos Um cão uivando pra lua e O cachorro e o lobo. O Al Farabi fica na Rua do Rosário, 30.



 Escrito por Marcelo às 13h37
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Quase dois imrãos

"Contundente" talvez seja o adjetivo que melhor se aplica a Quase dois irmãos, de Lúcia Murat. O filme levanta questões atualíssimas ao fazer sucessivas conexões com o passado, partindo da respeitada tese de que a convivência no Presídio da Ilha Grande entre presos políticos e comuns, todos submetidos à famigerada Lei de Segurança Nacional, corroborou para o nascimento do chamado "crime organizado". Na produção, Murat explora os conflitos entre os dois grupos de detentos, representados pelos protagonistas Miguel (Caco Ciocler), um jovem intelectual de classe média, e Jorge (Flavio Bauraqui), o filho negro e pobre de um sambista. O filme acompanha a trajetória dos dois amigos desde a infância, passando pela convivência nas celas da Ilha Grande e o reencontro nos dias de hoje, quando um virou deputado federal e o outro, líder do Comando Vermelho. Mais do que fazer um simples recorte sobre certos aspectos da barra pesada da ditadura militar, a diretora consegue expor os dilemas atuais do país, cindido entre uma classe média insegura, cheia de medo e atraída pelo consumo desenfreado e um imenso contingente de pobres, que cada vez afeitos a este mesmo consumismo exagerado, opta por trocar os anos de vida pela sedução e pelo glamour do tráfico. Sustentado, aliás, pela classe média, num moto-contínuo aparentemente sem freio ou solução imediata. Estão lá a conivência policial, o deslumbre das "altas classes" com a figura do "marginal", a convivência compulsória da comunidade com os criminosos, a violência gratuita de quem se crê onipotente...

Destaco no filme também algumas boas metáforas, caso do muro proposto pelos próprios detentos e que a partir de certo momento divide em duas partes o pavilhão onde estão os presos políticos e os presos comuns, e da iluminação expressionista da cena em que Jorge, já alçado ao comando do tráfico, descansa em sua cela, coberto pela sombra das grades em contraluz, sugerindo que a prisão o acompanhará aonde esteja ou for. Evidentemente, Quase dois imãos tem suas deficiências. Entre as principais, o desenho esteriotipado de alguns personagens, como os militantes de esquerda dos anos 60 (se bem que questiono se alguns deles não eram mesmo "esteriótipos" em si) e a atuação dos atores-mirins, um problema recorrente no cinema brasileiro. Mas no todo é um filme que merece – e deve – ser visto, para que a gente possa refletir um pouco mais sobre o que está aí, em nossa volta, clamando por urgência. Às vezes preferimos mesmo não nos dar conta...



 Escrito por Marcelo às 13h34
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...

"Cheek to cheek"

Irving Berling

"Heaven, I'm in Heaven,
And my heart beats so
That I can hardly speak;
And I seem to find
The happiness I seek
When we're out together
Dancing, cheek to cheek.

Heaven, I'm in Heaven,
And the cares that hang
Around me thro' the week
Seem to vanish like
A gambler's lucky streak
When we're out together
Dancing, cheek to cheek.

Oh! I love to climb a mountain,
And to reach the highest peak,
But it doesn't thrill me half as much
As dancing cheek to cheek.

Oh! I love to go out fishing
In a river or a creek,
But I don't enjoy it half as much
As dancing cheek to cheek.

Dance with me
I want my arm about you;
The charm about you
Will carry me thro' to Heaven

I'm in Heaven,
And my heart beats so
That I can hardly speak;
And I seem to find
The happiness I seek
When we're out together
Dancing cheek to cheek"



 Escrito por Marcelo às 11h18
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Poetas chilenos

Ontem conheci no Bip dois chilenos muito bacanas, com quem conversei sobre futebol, política, cinema, música e literatura. Rodolfo, um deles, hoje me "soprou" via e-mail, diretamente de Valparaíso, o nome de poetas de seu país que são completamente desconhecidos aqui - como Vicente Huidobro, autor desta beleza aí embaixo...

"Ella"

Vicente Huidobro

"Ella daba dos pasos hacia delante
Daba dos pasos hacia atrás
El primer paso decía buenos días señor
El segundo paso decía buenos días señora
Y los otros decían cómo está la familia
Hoy es un día hermoso como una paloma en el cielo

Ella llevaba una camisa ardiente
Ella tenía ojos de adormecedora de mares
Ella había escondido un sueño en un armario oscuro
Ella había encontrado un muerto en medio de su cabeza

Cuando ella llegava dejaba una parte más hermosa muy lejos
Cuando ella se iba algo se formaba en el horizonte para esperarla

Sus miradas estaban heridas y sangraban sobre la colina
Tenía los senos abiertos y cantaba las tinieblas de su edad
Era hermosa como un cielo bajo una paloma

Tenía una boca de acero
Y una bandera mortal dibujada entre los labios
Reía como el mar que siente carbones en su vientre
Como el mar cuando la luna se mira ahogarse
Como el mar que ha mordido todas las playas
El mar que desborda y cae en el vacío en los tiempos de abundancia
Cuando las estrellas arrullan sobre nuestras cabezas
Antes que el viento norte abra sus ojos
Era hermosa en sus horizontes de huesos
Con su camisa ardiente y sus miradas de árbol fatigado
Como el cielo a caballo sobre las palomas"



 Escrito por Marcelo às 16h32
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Aproximando...

"A mão
que entregava à tua
os primeiros sinais de verão
já não sabe o caminho - é como se
em vez de aprender fosse cada vez mais
e mais ignorante. Ou ignorar
fosse todo o saber."

Eugénio de Andrade



 Escrito por Marcelo às 12h23
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Escritores

 
"(...) os escritores recortam estes casos e pensam: vou escrever sobre isto. Palavras como peças de um puzzle - no fim entende-se o mundo de novo como na primeira infância, as meninas mortas arrumam-se na estante dos fantasmas e das histórias repetidas. Os escritores barricam-se em histórias para não sofrer. Primeiro sofre-se, escreve-se por vingança. Depois atinge-se o requinte de escrever em vez de sofrer - as personagens que sofram por eles e, se possível, para lucro deles."
 
Inês Pedrosa


 Escrito por Marcelo às 12h22
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Vininha

"O haver"

Vinícius de Moraes

"Resta, acima de tudo, essa capacidade de ternura
Essa intimidade perfeita com o silêncio
Resta essa voz íntima pedindo perdão por tudo
- Perdoai-os! porque eles não têm culpa de ter nascido...

Resta esse antigo respeito pela noite, esse falar baixo
Essa mão que tateia antes de ter, esse medo
De ferir tocando, essa forte mão de homem
Cheia de mansidão para com tudo quanto existe.

Resta essa imobilidade, essa economia de gestos
Essa inércia cada vez maior diante do Infinito
Essa gagueira infantil de quem quer exprimir o inexprimível
Essa irredutível recusa à poesia não vivida.

Resta essa comunhão com os sons, esse sentimento
Da matéria em repouso, essa angústia da simultaneidade
Do tempo, essa lenta decomposição poética
Em busca de uma só vida, uma só morte, um só Vinicius.

Resta esse coração queimando como um círio
Numa catedral em ruínas, essa tristeza
Diante do cotidiano; ou essa súbita alegria
Ao ouvir passos na noite que se perdem sem história...

Resta essa vontade de chorar diante da beleza
Essa cólera em face da injustiça e do mal-entendido
Essa imensa piedade de si mesmo, essa imensa
Piedade de si mesmo e de sua força inútil.

Resta esse sentimento de infância subitamente desentranhado
De pequenos absurdos, essa capacidade
De rir à toa, esse ridículo desejo de ser útil
E essa coragem para comprometer-se sem necessidade.

Resta essa distração, essa disponibilidade, essa vagueza
De quem sabe que tudo já foi como será no vir-a-ser
E ao mesmo tempo essa vontade de servir, essa
Contemporaneidade com o amanhã dos que não tiveram ontem nem hoje.

Resta essa faculdade incoercível de sonhar
De transfigurar a realidade, dentro dessa incapacidade
De aceitá-la tal como é, e essa visão
Ampla dos acontecimentos, e essa impressionante

E desnecessária presciência, e essa memória anterior
De mundos inexistentes, e esse heroísmo
Estático, e essa pequenina luz indecifrável
A que às vezes os poetas dão o nome de esperança.

Resta esse desejo de sentir-se igual a todos
De refletir-se em olhares sem curiosidade e sem memória
Resta essa pobreza intrínseca, essa vaidade
De não querer ser príncipe senão do seu reino.

Resta esse diálogo cotidiano com a morte, essa curiosidade
Pelo momento a vir, quando, apressada
Ela virá me entreabrir a porta como uma velha amante
Mas recuará em véus ao ver-me junto à bem-amada...

Resta esse constante esforço para caminhar dentro do labirinto
Esse eterno levantar-se depois de cada queda
Essa busca de equilíbrio no fio da navalha
Essa terrível coragem diante do grande medo, e esse medo
Infantil de ter pequenas coragens"



 Escrito por Marcelo às 12h13
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Foi bonita a festa, ó pá!

Salvo engano, foi mestre Nelson Rodrigues quem afirmou certa vez que a mais modesta pelada pode guardar a complexidade de uma tragédia grega. O que aconteceu sábado, no Maracanã, foi muito próximo disso - embora alguns minimizem o feito tricolor, argumentando que se tratava tão-só de uma semifinal de turno. Pobres seres sem paixão... Não sabem que o aquilo que está em jogo em determinadas partidas é muito mais do que os três pontos, a classificação ou eliminação de um time ou do outro.

Tudo começou bem antes da partida. Durante toda a semana precedente, tomados por um crescente "complexo de vira-latas" (para usar mais uma expressão de Nelson), muitos amigos tricolores lamentavam a eliminação do Botafogo, que nos obrigaria a enfrentar um adversário contra quem vínhamos tendo seguidos insucessos. Mas como virar o jogo diante de um panorama desses, se não ganhando?, eu rebatia.

E não poderíamos apenas ganhar. Era preciso ganhar de forma sofrida, após um empate que foi fruto da incompetência do Flu para definir a partida no primeiro tempo, quando dominou largamente, e uma longuíssima série de pênaltis, capaz de levar às raias de um infarto o mais zen dos torcedores.

Na arquibancada, a meu lado, além dos amigos Janot, Marcio, Luise e Gustavo, havia figuras daquelas que a gente só encontra em jogos épicos como esse. Um, ajoelhado, cantava a clássica À benção, João de Deus. Outro, com lágrimas nos olhos, esmurrava o degrau de cimento. Um terceiro não agüentou e absteve-se de ver as cobranças.

A derrota se sugeriu iminente quando o goleiro do Vasco passeou por toda a pequena área para defender a cobrança do Gabriel. A vitória se sugeriu imediata quando Jean perdeu pênalti, e então nos abraçamos todos, efusivos, certos de que o "encosto" que nos perseguia nas partidas contra a equipe de São Januário tinha enfim terminado. Mas não. Era preciso mais, parecia dizer lá do céu o nosso Nelson, e o árbitro sinalizou que o gol fora anulado.

Naquele instante, passou pela cabeça de cada tricolor presente ao estádio: "eis o nosso destino, sucumbir mais uma vez diante do Vasco". Foi quando Nelson convocou o Sobrenatural de Almeida, e pediu-lhe que soprasse no ouvido de Kleber: "pule para o lado esquerdo". Obediente, nosso arqueiro o fez. E então um alívio monstruoso, do mesmo tamanho do silêncio que se espalhou do outro lado, vestiu-se das três cores que traduzem tradição. Saímos todos cantando pelos corredores do Maraca, tomados por aquela alegria que só se sente quando ela premia, mais do que um simples gozo, uma provação. Nense!



 Escrito por Marcelo às 11h57
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Hoje, no Da Gema

Hoje à noite estarei no Carioca da Gema prestando a devida reverência ao mestre Wilson Moreira, autor de alguns dos mais líricos e deliciosos sambas que rolam em nossas rodas. Entre tanta coisa bonita que ele criou, a minha canção perferida é esta aí, tão 'canceriana' no tratamento da 'memória' como um espaço privilegiado pela nostalgia e pela idealização. Tomara que ele a cante mais tarde...

"Morrendo de saudade"

Wilson Moreira / Nei Lopes

"Estou morrendo de saudade
de um tempo feliz que passou e eu não vi
gosto de manhã, de sapoti
Carícias no ar de um colibri
Samambaias na varanda
Tudo isso passou, perdi
Samambaias na varanda
Tudo isso passou, perdi

Quando o manto da noite cai sobre a cidade, que saudade...
E quando a passarada anuncia a alvorada, que saudade...
Arde tanto o coração
que me causa a impressão
que eu tenho o peito em chamas
A saudade é um punhal
cravado até o final
No peito de quem ama
Estou morrendo de saudade..."



 Escrito por Marcelo às 10h38
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(Ainda mais) Eugénio

"O silêncio"

Eugénio de Andrade

"Quando a ternura
parece já do seu ofício fatigada,

e o sono, a mais incerta barca,
inda demora,

quando azuis irrompem
os teus olhos

e procuram
nos meus navegação segura,

é que eu te falo das palavras
desamparadas e desertas,

pelo silêncio fascinadas."



 Escrito por Marcelo às 10h32
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Mário de Sá Carneiro

"Quase"

Mário de Sá Carneiro

 "Um pouco mais de sol - eu era brasa,

Um pouco mais de azul - eu era além.

Para atingir, faltou-me um golpe de asa...

Se ao menos eu permanecesse aquém...

 Assombro ou paz? Em vão... Tudo esvaído

Num grande mar enganador de espuma

E o grande sonho despertado em bruma

O grande sonho - ó dor! - quase vivido...

Quase o amor, quase o triunfo e a chama,

Quase o princípio e o fim - quase a expansão...

Mas na minh'alma tudo se derrama...

Entanto nada foi só ilusão!

De tudo houve um começo ... e tudo errou...

Ai a dor de ser — quase, dor sem fim...

Eu falhei-me entre os mais, falhei em mim,

Asa que se lançou mas não voou..."



 Escrito por Marcelo às 10h25
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Juli no Bar do Tom

A amiga Juli Mariano apresenta mais uma vez seu repertório calcado no melhor na bossa nova em apresentações com a Turma da Bossa no Bar do Tom, no próximo fim-de-semana. Boa oportunidade para quem ainda não conferiu a voz doce da moça. Ou para quem, tendo ouvido pela primeira vez, quer sempre ouvir de novo...



 Escrito por Marcelo às 10h08
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Toni Platão

Na quarta que vem, o amigo e tricolor emérito Toni Platão encerra temporada no bar Maestro Carioca, que fica no Cittá America. Vou viajar até a Barra para prestigiá-lo e ouvir essa beleza que ele compôs há alguns anos...

"Tudo que vai"
Toni Platão / Alvim L.
"Hoje é o dia
eu quase posso tocar o silêncio
A casa vazia
só as coisas que você não quis
Me fazem companhia
Eu fico a vontade com a sua ausência
Eu já me acostumei a esquecer...
Tudo que vai
Deixa o gosto, deixa as fotos
Quanto tempo faz
Deixa os dedos, deixa a memória
Eu nem me lembro...
Salas e quartos
somem sem deixar vestígios
Seu rosto em pedaços
misturado com o que não sobrou
do que eu sentia
eu lembro dos filmes que eu nunca vi
passando sem parar...em algum lugar...
Tudo que vai
Deixa o gosto, deixa as fotos
Quanto tempo faz
Deixa os dedos, deixa a memória
Eu nem me lembro mais
Fica o gosto, ficam as fotos
Quanto tempo faz
Ficam os dedos, fica a memória
Eu nem me lembro mais
Quanto tempo...
eu já nem sei mais o que é meu
nem quando...
nem onde...
Tudo que vai
Deixa o gosto, deixa as fotos
Quanto tempo faz
Deixa os dedos, deixa a memória
Eu nem me lembro mais"


 Escrito por Marcelo às 15h48
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Mais poesia

"Estão caindo sobre mim cacos sem peso
porque retorno em quedas sobre os braços
volto ao espaço circunscrito, mas me teme
meu corpo lento e bioquímico no escuro, e
lentamente sei que me dissolvo aos
quinze miligramas, seca
em queda de paralisia quantificável.

Silêncio
retornando sobre quedas
paralisia em caixa, crédito e cheque onde
risco assinatura de meu nome; hipnótico aconchego dos
números menores, em firmas menores que ainda registram
arabescamente seus lucros; eu queria:

Silêncio de resposta e sangue ainda
os vidros soltos sobre a cara
mesmo sem saber que retornamos
saibamos que o espelho que desaba
fere e contunde nossa cara"

Ana C.

P.S. A pintura é de Pablo Picasso 



 Escrito por Marcelo às 11h06
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Borges

"Não nos vimos mais, e um ano depois você tinha morrido. E eu, agora, busco essa recordação, e olho-a e penso que era falsa, e que por trás da despedida trivial estava a infinita separação. Na noite passada não saí depois de jantar e reli, para compreender estas coisas, o último pensamento que Platão põe na boca do seu mestre. Li que a alma pode fugir quando morre a carne.
E agora não sei se a verdade está na aziaga interpretação ulterior ou na despedida inocente. Porque se as almas não morrem, é perfeitamente justo que em suas despedidas não haja ênfase. Dizer-se adeus é negar a separação, é dizer: hoje brincamos de nos separar, mas amanhã nos veremos. Os homens inventaram o adeus porque se sabem de algum modo imortais, ainda que se julguem contingentes e efêmeros. Delia! Um dia continuaremos -junto de que rio?- este diálogo incerto e nos perguntaremos se alguma vez, numa cidade que se perdia numa planície, fomos Borges e Delia".

Jorge Luis Borges



 Escrito por Marcelo às 10h51
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Aos habitantes do planeta água...

"Alcoólicas"

Hilda Hilst

"É crua a vida. Alça de tripa e metal.
Nela despenco: pedra mórula ferida.
É crua e dura a vida. Como um naco de víbora.
Como-a no livor da língua
Tinta, lavo-te os antebraços, Vida, lavo-me
No estreito-pouco
Do meu corpo, lavo as vigas dos ossos, minha vida
Tua unha plúmbea, meu casaco rosso.
E perambulamos de coturno pela rua
Rubras, góticas, altas de corpo e copos.
A vida é crua. Faminta como o bico dos corvos.
E pode ser tão generosa e mítica: arroio, lágrima
Olho d'água, bebida. A Vida é líquida.

Também são cruas e duras as palavras e as caras
Antes de nos sentarmos à mesa, tu e eu, Vida
Diante do coruscante ouro da bebida. Aos poucos
Vão se fazendo remansos, lentilhas d'água, diamantes
Sobre os insultos do passado e do agora. Aos poucos
Somos duas senhoras, encharcadas de riso, rosadas
De um amora, um que entrevi no teu hálito, amigo
Quando me permitiste o paraíso. O sinistro das horas
Vai se fazendo tempo de conquista. Langor e sofrimento
Vão se fazendo olvido. Depois deitadas, a morte
É um rei que nos visita e nos cobre de mirra.
Sussurras: ah, a vida é líquida.

E bebendo, Vida, recusamos o sólido
O nodoso, a friez-armadilha
De algum rosto sóbrio, certa voz
Que se amplia, certo olhar que condena
O nosso olhar gasoso: então, bebendo?
E respondemos lassas lérias letícias
O lusco das lagartixas, o lustrino
Das quilhas, barcas, gaivotas, drenos
E afasta-se de nós o sólido de fechado cenho.
Rejubilam-se nossas coronárias. Rejubilo-me
Na noite navegada, e rio, rio, e remendo
Meu casaco rosso tecido de açucena.
Se dedutiva e líquida, a Vida é plena.

Te amo, Vida, líquida esteira onde me deito
Romã baba alcaçuz, teu trançado rosado
Salpicado de negro, de doçuras e iras.
Te amo, Líquida, descendo escorrida
Pela víscera, e assim esquecendo
Fomes
País
O riso solto
A dentadura etérea
Bola
Miséria.
Bebendo, Vida, invento casa, comida
E um Mais que se agiganta, um Mais
Conquistando um fulcro potente na garganta
Um látego, uma chama, um canto. Amo-me.
Embriagada. Interdita. Ama-me. Sou menos
Quando não sou líquida."

P.S. Imagem de Salvador Dali, gentilente cedida pela Crib...



 Escrito por Marcelo às 10h27
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Quatro Ws

 

A semana reserva duas ótimas pedidas para quem curte samba. Hoje, a partir das 21h, no Centro Cultural Carioca, rolará o show www.samba, reunindo os cantores e compositores Wilson das Neves, Walter Alfaiate e Wanderlei Monteiro. Os dois veteranos mestres e o autor da bela Água de chuva no mar mostrarão seus maiores sucessos. No Carioca da Gema, a atração é amanhã, quando o grupo Tempero Carioca, comandado por Moyses Marques (aquele que cantava na Comuna do Semente), receberá o grande Wilson Moreira, que brindará o público com pérolas como Senhora liberdade, Coisa da antiga Gotas de veneno. Bem que seu Wilson poderia ser o quarto "w" da brincadeira no CCC, não?



 Escrito por Marcelo às 10h06
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Blog da Crib

Quem agora também resolveu viajar pelo mundo virtual dos blogs foi a amiga Crib Tanaka. Em seu Desfio, ela publica textos e canções de que gosta líricas e muitas experimentações literárias, como esta abaixo, expressa em belo diálogo. Já está devidamente linkada...  

"Desfiado pela manhã"

Crib Tanaka

"- Acha que uma criança de 4 anos pode ver a exposição do Farnese? ... uma menina?

- Ah, não...

- Acha que vai ficar chocada?

- Acho.

- Por quê?

- Porque ela vai ver pedaços de corpos de boneca cortados e provavelmente ainda vê alma nas bonecas que tem".


P.S. Por que a imagem? Porque é o quadro Poésie, do Klimt. E a retribuição do elogio é merecida: o Desfio também é pura poesia...



 Escrito por Marcelo às 09h51
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Uma faca só lâmina

"Assim como uma bala
enterrada no corpo,
fazendo mais espesso
um dos lados do morto;
assim como uma bala
do chumbo pesado,
no músculo de um homem
pesando-o mais de um lado
qual bala que tivesse
um vivo mecanismo,
bala que possuísse
um coração ativo
igual ao de um relógio
submerso em algum corpo,
ao de um relógio vivo
e também revoltoso,
relógio que tivesse
o gume de uma faca
e toda a impiedade
de lâmina azulada;
assim como uma faca
que sem bolso ou bainha
se transformasse em parte
de vossa anatomia;
qual uma faca íntima
ou faca de uso interno,
habitando num corpo
como o próprio esqueleto
de um homem que o tivesse,
e sempre, doloroso,
de homem que se ferisse
contra seus próprios ossos.

Seja bala, relógio,
ou a lâmina colérica,
é contudo uma ausência
o que esse homem leva.
Mas o que não está
nele está como uma bala:
tem o ferro do chumbo,
mesma fibra compacta.
Isso que não está
nele como a coisa ciosa
presença de uma faca,
de qualquer faca nova.
Por isso é que o melhor
dos símbolos usados
é a lâmina cruel
(melhor se de Pasmado):
porque nenhum indica
essa ausência tão ávida
como a imagem da faca
que só tivesse lâmina.
nenhum melhor indica
aquela ausência sôfrega
que a imagem de uma faca
reduzida à sua boca.
que a imagem de uma faca
entregue inteiramente
à fome pelas coisas
que nas facas se sente.(...)"

João Cabral de Mello Netto



 Escrito por Marcelo às 12h20
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Edu

Fim-de-semana, finalmente, de música. Música do grande Edu Lobo, a quem assisti no Mistura Fina sábado à noite. No palco, o cantor desfilou um repertório irrepreensível, que começou com Berimbau (do ídolo e influência Baden Powell), passou por Candeias, Ponteio, Upa neguinho, Valsa brasileira, Pra dizer adeus, entre outras ótimas canções, para brilhar ainda com mais intensidade em Beatriz. Faltaram apenas Canto triste e Sobre todas as coisas. Acompanhando Edu, um time de bambas: Cristóvão Bastos (responsável por todos os arranjos) no piano, Jorge Helder no baixo acústico e o jovem Rafael Barata na bateria. Espetáculo daqueles para ficar na memória, que deixou gosto de 'quero mais'. E pelo que me disse o Bernardo, filho dele, haverá mais mesmo: novos shows deverão rolar na cidade ao longo deste ano. Uma lembrança de sábado:

"No cordão da saideira"

Edu Lobo

"Hoje não tem dança
Não tem mais menina de trança
Nem cheiro de lança no ar
Hoje não tem frevo
Tem gente que passa com medo
E na praça ninguém pra cantar

Me lembro tanto
E é tão grande a saudade
Que até parece verdade
Que o tempo inda pode voltar

Tempo da Praia de Ponta de Pedra
Das noites de lua, dos blocos de rua
Do susto-e-a-carreira na caramboleira
Do bumba-meu-boi - que tempo que foi
Agulha-frita, munguzá, cravo e canela
Serenata eu fiz pra ela
Cada noite de luar

Me lembro tanto
E é tão grande a saudade
Que até parece verdade
Que o tempo inda pode voltar
Tempo do corso na rua da Aurora
Moço do passo, menina e senhora
No bonde de Olinda, pra baixo e pra cima
Do caramanchão, não esqueço mais não

E frevo ainda, apesar da quarta-feira
No cordão da saideira
Vendo a vida se enfeitar"



 Escrito por Marcelo às 11h16
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Entre quatro paredes

Fim-de-semana também de leitura: devorei em pouco menos de uma hora o texto da peça Entre quatro paredes, de Jean-Paul Sartre, um trabalho que transcende - e muito - o caráter meramente existencialista que lhe deu fama,  já que fala sobre questões que serão sempre - e absolutamente - "atuais". A trama é simples: três pessoas são confinadas no inferno após a morte. Não se trata daquele inferno cristão do fogo e do demônio e coisa e tal, mas de uma sala, sem janelas e iluminada por todo o tempo, onde os três ficam enclausurados. Não dormem, tudo é um "eterno presente", e só o que resta a cada um deles é a companhia dos outros dois. O texto tem altíssima densidade e é cheio de ótimas frases, entre elas aquela que talvez seja a mais célebre sentença sartriana: "O inferno são os outros", síntese perfeita do que a peça insinua da primeira à última página. Sobre Entre quatro paredes, aliás, o José Castello escreveu saiu uma bela resenha, que saiu no Prosa & Verso do último sábado. Vale a leitura. 



 Escrito por Marcelo às 11h06
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Filmes

Foi um fim-de-semana também de filmes: Louca paixão, de Paul Verhoeven ainda na fase holandesa (a produção é de 1973), e Diários de uma paixão (foto), do talentoso Nick Cassavetes (que vem a ser filho do grande John Cassavetes). O primeiro é um trabalho inquieto, que resvala no escatológico, sobre a doida relação entre um homem iconoclasta e uma moça deslumbrada. Apenas regular. O segundo, indicado por una ninã porteña, é um prato cheio para os românticos de plantão. O espectador acompanha a história da paixão entre dois jovens, relatada por um senhor à idosa a quem visita diariamente. Ela tem uma doença degenerativa que destrói paulatinamente sua memória. Embora apresente alguns cacoetes do gênero melodrama, o filme flui num tom agridoce que é capaz de tocar corações mais sensíveis. Chamou a minha atenção uma poesia do Whitman, declamada lá pelo meio da projeção, que traz um belo verso que diz mais ou menos assim: "há um poema dentro de cada homem". Alguém conhece? Gostaria de ler o poema inteiro...



 Escrito por Marcelo às 10h48
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Carrascoza

No sábado passado, o caderno Idéias publicou resenha minha sobre o delicado Dias raros, de João Anzanello Carrascoza. Na mesma edição, aliás, havia resenha do amigo Henrique Rodrigues, esta a respeito de Mare Nostrum, de Salim Miguel. Para conferir o caderno inteiro, clique aqui. Abaixo, o meu texto:

O doce-amargo da vida

Marcelo Moutinho*

A vida em matéria bruta, flagrada pelo olhar virgem de quem experimenta o doce-amargo das primeiras sensações e sobressaltos, emerge com delicadeza e lirismo em Dias raros, o novo livro de João Anzanello Carrascoza, recém-lançado pela Editora Planeta. Narrados sob a ótica de quem se encontra na tênue fronteira entre os mundos infantil e adulto, seus dez contos não hesitam em buscar na metáfora o substrato capaz de dar conta do susto que é o amadurecimento. A obra impressiona pela organicidade e pela prosa sóbria e sofisticada do autor, já conhecida de trabalhos anteriores, caso do ótimo Duas tardes.

Cerzidas em fiapos de enredo, as tramas de Dias raros engendram pequenas iluminações que os personagens dividem com o leitor, como o "ampliar-se" que o menino de "Cidade-mundo" saboreia ao conhecer a metrópole: "Saíram ainda escuro, a manhã hesitava, uns cheiros de dia novo pairavam no ar, e o menino se ria, no feliz de fazer uma viagem, coisa mínima para a maioria, ir de um aqui a um ali, costurar as margens do cá às do lá, mas para ele a raridade que raiava. (...) Iam eles, mãe e filho, e entre ambos, apertada, a felicidade do menino, temendo alargar-se, balão não de todo inflado pela ameaça de explodir". Era um "tudo demais para os braços miúdos" do garoto que, "de um sobressalto ao outro", "menino suspenso até outro menino", crescia.

O deslumbre com a cidade retorna em "Além dos trilhos", história da jovem que vivia a banal rotina do lar até o dia em que o pai resolve levá-la num passeio a dois. Ela, "flor aberta para descobertas", "matéria pura de esperança", conhece então aquela felicidade que mestre Guimarães Rosa dizia achar nas "horinhas de descuido" - e que chega a "doer". Uma dor boa, contudo. "Por ter, sem possuir, aquilo a qualquer hora que quisesse – a paisagem, o céu sobre sua cabeça, a cidade a seus pés. Ter não possuindo", como observa o narrador.

A viagem, como se nota, é elemento recorrente nos contos, em geral indicando o "percurso" durante o qual algo se modifica no interior dos personagens. Em "Balança", é o menino que parte em companhia do pai caminhoneiro. Em "Dias raros", o protagonista que sai de sua cidade para passar férias com a avó. Assim como em "Ponteiros" duas famílias põem os carros na estrada para saltar por alguns dias "das tarefas para as delícias", e no lancinante "Dor futura", em que o protagonista dirige enquanto sofre em silêncio pela doença terminal.

Sim, porque o universo da infância não é pintado somente em cor-de-rosa. O livro contempla questões como a perspectiva da morte, erigida na crueza bela do conto "Chamada", que arrebata ao revelar o diálogo recheado de não-ditos entre a mãe enferma e a filha que sai para estudar. A mãe, com "os olhos inchados de insônia, nos quais ainda se podia apanhar a noite, como uma moeda no fundo do bolso"; a filha, sentindo o peso de deixá-la ao informar que rumará para a aula: "A mulher escutou como se a filha nada tivesse dito senão Vou para a escola, mamãe, e ignorasse que existiam outras palavras, agarradas aos pés dessas, esguichando silêncio".

As felizes construções de Carrascoza brilham também em "Janelas", relato da visita do protagonista à sua irmã, cuja casa conta, através dos quadros, das paredes, dos bibelôs da cristaleira, do extrato bancário sobre a mesa, uma história de solidão. O homem surpreende-se ao encontrá-la com dois dentes a menos na boca. E explorando tal espanto, o autor constrói com destreza mais uma viagem, desta vez temporal, que transporta o homem para o velho quintal da casa dos pais, onde, "à sombra das videiras" e alheios "às ciladas do futuro", ele e a irmã brincavam, e os dois dentes faltando eram apenas sinal da idade.

A infância surge, então, como espaço do que foi perdido, aceno algo semelhante ao do comovente "Rosa do deserto", que descortina o (des)encontro fortuito entre um homem e uma mulher. Seduzido pelo olhar da moça, ele se confessa "desacostumado com a escrita dos gestos" e surpreende-se que alguém, "com tão pouco esforço, tivesse laçado no vácuo o menino que se perdera dele", devolvendo-o em seguida "sem dizer uma só palavra", quando "já mal conseguia encontrar no espelho o homem que vivia à sua superfície". Num lapso de ilusão, em poucos instantes o protagonista constrói toda uma história para o casal – coalhada mais de perspectivas do que de memória - até que algo (a covardia, talvez?) freia o "mecanismo dos sonhos" – e o leva de volta à "imensidão de suas perdas".

Mas num livro com tantos pontos altos, o conto que mais se destaca é o muitíssimo bem-construído "Umbilical", erigido em longo parágrafo cujo ritmo é marcado apenas pelas vírgulas que entremeiam as vozes da mãe e do filho. Expondo uma ousadia formal ausente do restante da obra, Carrascoza estabelece uma conexão perfeitamente harmônica entre as frases dos dois personagens, envoltos no misto de amor e comunhão que distingue as relações atadas pelo cordão umbilical e, embora "invisível", sempre une mãe e filho. O fio que permanece, apesar dos sucessivos partos que nos levam do menino ao homem.

E apesar de nossas sucessivas perdas, como aquela que fere de forma indelével o menino de "Dias raros" quando retorna das férias na casa da avó, para onde resistira a ir. Sofrera quando para lá seguiu. Sofrera no momento de voltar para casa. E não compreendia a razão. Até que, "num clarão", vislumbra uma resposta: "Era aquilo. Sempre uma ida às coisas e sua seqüente despedida. Na mesma hora que ganhava a vivência, nele ela se perdia. Sorte que vinha outra, a cicatrizar a alegria ou a abrir nova ferida, também logo substituída. E as pessoas nesse renovar-se, envelhecendo. As pessoas no meio, com suas raízes sujas de terra, cavoucando seus mistérios, bem-querendo-se, e juntas, acima das malqueridas ausências. E todas, todas, o tempo inteiro, indo embora".

Humano, demasiadamente humano.

* Jornalista e escritor



 Escrito por Marcelo às 10h34
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Entrando no clima para amanhã...

"Choro bandido"

Edu Lobo/Chico Buarque

"Mesmo que os cantores sejam falsos como eu
Serão bonitas, não importa
São bonitas as canções
Mesmo miseráveis os poetas
Os seus versos serão bons
Mesmo porque as notas eram surdas
Quando um deus sonso e ladrão
Fez das tripas a primeira lira
Que animou todos os sons
E daí nasceram as baladas
E os arroubos de bandidos como eu
Cantando assim:
Você nasceu para mim
Você nasceu para mim

Mesmo que você feche os ouvidos
E as janelas do vestido
Minha musa vai cair em tentação
Mesmo porque estou falando grego
Com sua imaginação
Mesmo que você fuja de mim
Por labirintos e alçapões
Saiba que os poetas como os cegos
Podem ver na escuridão
E eis que, menos sábios do que antes
Os seus lábios ofegantes
Hão de se entregar assim:
Me leve até o fim
Me leve até o fim

Mesmo que os romances sejam falsos como o nosso
São bonitas, não importa
São bonitas as canções
Mesmo sendo errados os amantes
Seus amores serão bons"



 Escrito por Marcelo às 13h45
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Mais Eugénio

"É apenas o começo. Só depois dói,
e se lhe dá nome.
Às vezes chamam-lhe paixão. Que pode
acontecer da maneira mais simples:
umas gotas de chuva no cabelo.
Aproximas a mão, os dedos
desatam a arder inesperadamente,
recuas de medo. Aqueles cabelos,
as suas gotas de água são o começo,
apenas o começo. Antes do fim terás de pegar no fogo
e fazeres do inverno
a mais ardente das estações."

Eugénio de Andrade



 Escrito por Marcelo às 13h24
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Modernidade



 Escrito por Marcelo às 10h42
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Hermínio

Hoje, Hermínio Bello de Carvalho receberá homenagem do Carioca da Gema pela imensa fiha de serviços prestados à música brasileira. Estarei lá, ao lado de vários amigos, para prestigiá-lo - e também para ouvir a Áurea Martins cantar essa pérola que ele criou ao lado do grande Elton Medeiros. Acho que é um samba que fala a muita gente querida especialmente durante esse spleen que vivemos todos...

"Pressentimento"

Elton Medeiros / Hermínio Bello de Carvalho

"Ai, ardido peito,
Quem irá entender o teu segredo,
Quem irá pousar em teu destino,
E depois morrer de teu amor?

Ai, mas quem virá?
Me pergunto a toda hora,
E a resposta é o silêncio,
Que atravessa a madrugada.

Vem, meu novo amor,
Vou deixar a casa aberta,
Já escuto os teus passos,
Procurando meu abrigo.

Vem, que o sol raiou,
Os jardins estão florindo,
Tudo faz pressentimento,
Este é o tempo ansiado,
De se ter felicidade."



 Escrito por Marcelo às 09h55
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Eugénio

"Nas suas margens nuas, desoladas

Cada homem tem apenas para dar

Um horizonte de cidades bombardeadas"


Versos do poema 'As palavras que te envio são interditas', de Eugénio de Andrade



 Escrito por Marcelo às 09h44
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Aquisições

 

Nova visita ao Carlinhos da Pedro Lessa e mais duas preciosidades debaixo do braço: uma cópia pirata de Cristina, o primeiro disco da Cristina Buarque, do qual estava atrás fazia tempo. É nele que está um lindo registro de Tatuagem, aquela do Ruy Guerra com o irmão mais famoso. O outro cd, este original, é da série Dois Momentos e reúne trabalhos do Paulinho da Viola raros de se achar por aí: o razoável Paulinho da Viola, de 1981, estréia do cantor na Warner, e o espetacular A toda hora rola uma estória, de 1982, talvez o melhor entre seus trabalhos tardios. O cd traz, entre outras canções, a bela Rumo dos ventos, as doídas Não é assim e Pra fugir da saudade, a lírica Nós os foliões (de Sidney Miller, citado aqui há poucos dias, e que conta com uma pequena e tocante introdução do próprio autor) e a serena Só o tempo, que posto abaixo como uma invocação geral por esse "tempo que ensina a gente a viver"...

"Só o tempo"

Paulinho da Viola

"Largo a paixão
Nas horas em que me atrevo
E abro mão de desejos
Botando meus pés no chão
É só eu estar feliz
Acende uma ilusão
Quando percebe em meu rosto
As dores que não me fez

Ah, meu pobre coração
O amor é um segredo
E sempre chega em silêncio
Como a luz no amanhecer
Por isso eu deixo em aberto
Meu saldo de sentimentos
Sabendo que só o tempo
Ensina a gente a viver"



 Escrito por Marcelo às 17h14
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Cony, por Conde

O Globo On publica hoje textos do amigo Miguel Conde sobre o grande Carlos Heitor Cony. Além da divertida matéria que relata um passeio do escritor pela cidade, Miguel escreveu uma capichada resenha sobre o romance Tijolo de segurança, de 1960, que acaba de ser relançado (com uma capa feia de dar dó) pela Editora Objetiva. Abaixo, um trecho da resenha. Confira tudo aqui.

"(...) "Tijolo de Segurança", terceiro romance de Carlos Heitor Cony, traz um inventário de exemplos para esta famosa frase de Jean-Paul Sartre. O título do livro (relançado agora em edição revista pelo autor) vem de uma expressão utilizada na aeronáutica para designar o espaço imaginário que os aviões, quando em vôo, "carregam" em torno de si. Para que sejam evitadas colisões, uma aeronave não pode invadir o tijolo de segurança da outra. Entre os homens também é assim, diz Cony.(...)"

P.S. Na foto, atrás de Cony, está a imagem da cachorra cuja morte foi causadora da crise que redundou no ótimo Quase memória...



 Escrito por Marcelo às 13h12
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Qual socialismo?

"Forbes põe Fidel entre os mais ricos do mundo"



 Escrito por Marcelo às 10h27
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Mais Herberto Helder

"Não sei como dizer-te que a minha voz te procura
e a atenção começa a florir, quando sucede a noite
esplêndida e vasta.
Não sei o que dizer, quando longamente teus pulsos
se enchem de um brilho precioso
e estremeces como um pensamento chegado. Quando,
iniciado o campo, o centeio imaturo ondula tocado
pelo pressentir de um tempo distante,
e na terra crescida os homens entoam a vindima
- eu não sei como dizer-te que cem ideias,
dentro de mim, te procuram. Quando as folhas da melancolia
arrefecem com astros ao lado do espaço
e o coração é uma semente inventada
em seu escuro fundo e em seu turbilhão de um dia,
tu arrebatas os caminhos da minha solidão
como se toda a casa ardesse pousada na noite.
- E então não sei o que dizer
junto à taça de pedra do teu tão jovem silêncio.
Quando as crianças acordam nas luas espantadas
que às vezes se despenham no meio do tempo
- não sei como dizer-te que a pureza,
dentro de mim, te procura.
Durante a primavera inteira aprendo
os trevos, a água sobrenatural, o leve e abstracto
correr do espaço -
e penso que vou dizer algo cheio de razão,
mas quando a sombra cai da curva sôfrega
dos meus lábios, sinto que me faltam
um girassol, uma pedra, uma ave - qualquer coisa extraordinária."

Herberto Helder



 Escrito por Marcelo às 09h58
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Ela faria 60 anos hoje...

"Vinte anos blues"

Sueli Costa / Vitor Martins

"Hoje de manhã quando acordei
Olhei pra vida e me espantei
Eu tenho mais de vinte anos
Eu tenho mais de mil perguntas
Sem respostas

Estou ligada num futuro blue
Os meus pais nas minhas costas
As raízes na marquise
Eu tenho mais de vinte muros

O sangue jorra pelos furos
Pelas veias de um jornal
Eu não te quero, eu te quero mal

Essa calma que inventei, bem sei
Custou as contas que contei
Eu tenho mais de vinte anos
Eu quero as cores e os colírios

Meus delírios
Estou ligada num futuro blue"

P.S. Como ela está bonita na foto, não?



 Escrito por Marcelo às 11h42
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Trecho

"Estive doente

doente dos olhos, doente da boca, dos nervos até.

Dos olhos que viram mulheres formosas

da boca que disse poemas em brasa

dos nervos manchados de gumo e café.

Estive doente

estou em repouso, não posso escrever.

Eu quero um punhado de estrelas maduras

eu quero a doçura do verbo viver"

(De um louco anônimo, citado por Caio Fernando Abreu, em O ovo apunhalado)



 Escrito por Marcelo às 10h38
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Cristina Buarque e Mauro Duarte

Passei os últimos dias ouvindo o discaço Cristina e Mauro Duarte, infelizmente até hoje não lançado em cd, e no qual os dois artistas desfilam um repertório irrepreensível, em geral calcado em parcerias do próprio Mauro com bambas como Noca da Portela, Carlinhos Vergueiro, Maurício Tapajós e Paulo César Pinheiro. Minha música preferida no álbum é Reserva de domínio, uma pérola do desamor que lamentavelmente não é tão cantada nas rodas o quanto mereceria. Há uma curiosidade quanto a esta canção: ao contrário do costumeiro, Paulinho Pinheiro compôs a melodia, e coube a Mauro escrever a letra. E que letra!

"Reserva de domínio"

Paulo César Pinheiro / Mauro Duarte

"Um coração tão machucado como meu

Não tem mais forças pra agüentar uma outra dor

Já está cansado de aventuras

Foram tantas amarguras

Tá difícil de encarar um novo amor

Mas sei que muitas insistências vão surgir

Com a carência que hoje existe por aí

Hoje a alma aflita pelo tédio

Mediante tanto assédio

Se também se descuidar vai sucumbir

Mas tem que suportar

Sem se preocupar

Com as palavras atiradas pelo chão

Com as promessas perturbando o coração

São juras e mais juras desvairadas

Que eu presumo aparecer

Mas pra não sofrer

Tenho que me armar

Pro domínio não perder

Sei que água mole em pedra dura

Sempre bate até que fira

E é o que não pode acontecer"



 Escrito por Marcelo às 10h01
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Crib

Foi o que de mais bonito ouvi sobre o meu blog até hoje: ontem, conversando com a amiga Crib Tanaka, comentava que apesar de não ser poeta havia recebido mensagem via e-mail me dando os parabéns pelo Dia da Poesia. Resposta da Crib: "Marcelo, o Pentimento é um poema".

Desculpe, Crib, mas foi tão bacana que não pude deixar de tornar público...



 Escrito por Marcelo às 09h56
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Hoje é o Dia da Poesia

"Sobre o poema"

Herberto Helder

"Um poema cresce inseguramente

na confusão da carne,

sobe ainda sem palavras, só ferocidade e gosto,

talvez como sangue

ou sombra de sangue pelos canais do ser.

Fora existe o mundo.  Fora, a esplêndida violência

ou os bagos de uva de onde nascem

as raízes minúsculas do sol.

Fora, os corpos genuínos e inalteráveis

do nosso amor,

os rios, a grande paz exterior das coisas,

as folhas dormindo o silêncio,

as sementes à beira do vento,

— a hora teatral da posse.

E o poema cresce tomando tudo em seu regaço.

E já nenhum poder destrói o poema.

Insustentável, único,

invade as órbitas, a face amorfa das paredes,

a miséria dos minutos,

a força sustida das coisas,

a redonda e livre harmonia do mundo.

— Embaixo o instrumento perplexo ignora

a espinha do mistério.

— E o poema faz-se contra o tempo e a carne"



 Escrito por Marcelo às 17h01
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E por falar na Bethânia...

"Ela e eu"

Caetano Veloso

"Há flores de cores concentradas
Ondas queimam rochas com seu sal
Vibrações do sol no por da estrada
Muita coisa, quase nada
Cataclismas, carnaval

Há muitos planetas habitados
E o vazio da imensidão do céu
Bem e mal e boca e mel
E essa voz que Deus me deu
Mas nada é igual a ela e eu"



 Escrito por Marcelo às 14h09
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Tom Wolfe

Recomendo a leitura da ótima resenha que o Marcus Barros Pinto escreveu sobre o livro Radical chique e o novo jornalismo (Companhia das Letras), que reúne reportagens de Tom Wolfe publicadas nos anos 60 e 70. O artigo de Barros Pinto saiu no caderno Idéias (JB) de sábado passado, e dele destaquei o trecho abaixo, em que são elencados os "quatro recursos específicos" de Wolf para seus textos em prosa. Valem também para nós...

"(...) Wolfe ensina haver “quatro recursos específicos, todos realistas, subjacentes à qualidade de envolvimento emocional dos mais potentes textos em prosa, sejam eles de ficção ou não-ficção”. E detalha: “construir cena a cena recorrendo o mínimo possível à mera narrativa histórica; testemunhar de fato as cenas da vida das outras pessoas no momento em que ocorrem, registrando o diálogo completo, pois tal diálogo envolve o leitor mais completamente do que qualquer outro recurso; usar o ponto de vista da terceira pessoa ou apresentar cada cena por intermédio dos olhos de um personagem particular, dando ao leitor a sensação de estar dentro da cabeça do personagem e, finalmente, o menos entendido dos recursos: o registro de gestos, hábitos, maneiras, costumes, estilos de mobília, roupa, decoração, maneira de viajar, comer, manter a casa, modo de se comportar com os filhos, os criados, os superiores, inferiores, os pares, os ares, olhares, poses, estilos de andar e outros detalhes simbólicos do dia-a-dia que possam existir dentro de uma cena. Simbólicos de quê? Do status de vida da pessoa. O registro desses detalhes não é mero bordado em prosa. Ele se coloca junto ao centro de poder do realismo, assim como qualquer outro recurso da literatura.” Como Balzac, “vai empilhando esses detalhes tão impiedosa e meticulosamente... (...)”  



 Escrito por Marcelo às 12h37
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Show da Bethânia

Como de costume, foi uma noite especialíssima a de sexta passada, quando enfim assisti ao show Tempo tempo tempo tempo, da Bethânia. Alguns pitacos sobre o espetáculo:

. Não entendi a saraivada de críticas ao cenário (de Daniela Thomas e Marcia Moon), completamente integrado à proposta do show, com menções geométricas à passagem do tempo e à memória. Também discordo que a movimentação tire a atenção da platéia com relação à cantora. Sinceramente, tantos ataques me pareceram um pré-conceito negativo sobre aquele tipo de arte (e falo de cadeira, pois nem é meu estilo preferido...);

. O set inicial é um deslumbre. Quando Bethânia canta Modinha, canção em que Vinícius fala justamente da estranha capacidade de o poeta transformar sua dor em beleza (ainda que para desfrute de outrem), não há como não sentir as lágrimas se aproximando. A grandeza da abertura não se mantém o tempo todo, mas a platéia é ganha já ali;

. No sábado à tarde, resolvi ver novamente Brasileirinho, agora em dvd. Certamente é um show mais orgânico, com melhor repertório até. Talvez, ao lado de Nossos momentos (de 1982, no Teatro da Praia), o melhor que Bethânia já fez. Mas é injusta a comparação com o atual tendo tal espetáculo como referência, porque se aquele foi um momento de iluminação suprema, este tem qualidade suficiente para ser chamado de "um grande show";

. A maturidade interpretativa de Bethânia impressiona. Ao contrário de cantoras como Gal Costa, que perderam o viço e se transformaram em caricaturas de diva, Bethânia apurou a voz e a afinação sem largar a alma;

. Meus destaques ficam com as interepretações da já citada Modinha, O astronauta, Minha namorada, A felicidade (palmas para a expressiva iluminação, principalmente neste momento) e da existencialista Tempo tempo tempo tempo, em que a cantora consegue conjugar fúria e delicadeza;

. É um show à flor da pele. Quem anda à flor da pele que nem eu, passa as pouco mais de duas horas com os olhos marejados. E algumas vezes as lágrimas descem mesmo...;

. O trecho do Monólogo de Orfeu, que ela lê em certo momento, é de uma beleza que vou lhes contar. Desconhecia o texto, mas hoje li inteiro e posto aqui parte do que ela declamou, grifando meus versos preferidos:

"(...) Ah, minha Eurídice,
Meu verso, meu silêncio, minha música!
Nunca fujas de mim! Sem ti sou nada
Sou coisa sem razão, jogada, sou
Pedra rolada. Orfeu menos Eurídice...
Coisa incompreensível! A existência
Sem ti é como olhar para um relógio
Só com o ponteiro dos minutos. Tu
És a hora, és o que dá sentido
E direcção ao tempo (...)"



 Escrito por Marcelo às 11h45
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Filosofia Medieval

A dica é do amigo Sidney: O Instituto de Filosofia e Teologia do Mosteiro de São Bento do Rio de Janeiro está oferecendo um curso de pós-graduação lato sensu em Filosofia Geral, com carga horária de 363 horas/aula. Com importantes nomes no corpo docente, como Emanuel Carneiro Leão (UERJ) e Paulo Faitanin (UFF), o curso, credenciado pelo MEC, terá ênfase na história da filosofia antiga, filosofia medieval (destaque para Santo Tomás de Aquino) e nos fundamentos da filosofia contemporânea. As aulas se iniciam no próximo dia 23 de março é são abertas a pessoas com curso superior em qualquer área. Para mais informações, basta acessar o site do Mosteiro www.osb.org.br/instituto, ou pelo e-mail instituto@osb.org.br.



 Escrito por Marcelo às 11h38
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Clássico Vovô

Antes de qualquer outra coisa: saudações tricolores! 



 Escrito por Marcelo às 11h26
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Dias estranhos

É isso, enfim: o que o Renato Russo já cantava há alguns anos e eu poderia perfeitamente cantar agora. Seria adequado. Mas o post, para além disso, é um afago carinhoso no amigo HR, que também curte Legião e também tem achado os dias "estranhos"...

"Teatro dos vampiros"

Legião Urbana

"Sempre precisei de um pouco de atenção
Acho que não sei quem sou
Só sei do que não gosto
E destes dias tão estranhos
Fica poeira se escondendo pelos cantos
Este é o nosso mundo: o que é demais nunca é o bastante
E a primeira vez é sempre a última chance.
Ninguém vê onde chegamos:
Os assassinos estão livres, nós não estamos
Vamos sair - mas não temos mais dinheiro
Os meus amigos todos estão procurando emprego
Voltamos a viver como há dez anos atrás
E a cada hora que passa
Envelhecemos dez semanas
Vamos lá, tudo bem - eu só quero me divertir
Esquecer, dessa noite ter um lugar legal pra ir
Já entregamos o alvo e a artilharia
Comparamos nossas vidas
E esperamos que um dia
Nossas vidas possam se encontrar
Quando me vi tendo de viver comigo apenas
E com o mundo
Você me veio como um sonho bom
E me assustei
Não sou perfeito
Eu não esqueço
A riqueza que nós temos
Ninguém consegue perceber
E de pensar nisso tudo, eu, homem feito
Tive medo e não consegui dormir.
Comparamos nossas vidas
E mesmo assim, não tenho pena de ninguém"



 Escrito por Marcelo às 11h44
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Mais Pizarnick

"Por un minuto de vida breve

unica de ojos abiertos

por un minuto de ver

en el cerebro flores pequeñas

danzando como palabras en la boca de un mudo"

Alejandra Pizarnick



 Escrito por Marcelo às 11h23
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Só uma questão

Como é que se faz para nominar uma espécie de "nada" que vai inflando dentro da gente e ameaça tomar conta de tudo: fígado, estômago, intestinos, coração? Como posso conhecer um sentimento se não sei o seu nome?



 Escrito por Marcelo às 11h08
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Bethânia

Ao lado da Nana, Maria Bethânia é a artista que melhor canta minhas dores e as minhas alegrias. Portanto, é sempre um dia especial aquele em que a reencontro no palco, onde ela efetivamente é Bethânia, onde ela efetivamente transcende a mulher pequenina e magra e se transforma num estranha força que só quem já presenciou conhece. Hoje é um dia especial desses, porque estarei à noite no Canecão conferindo o novo show. Uma pena que ela não vai cantar isso:

"Tá combinado"

Caetano Veloso

Então tá combinado, é quase nada
É tudo somente sexo e amizade.
Não tem nenhum engano nem mistério.
É tudo só brincadeira e verdade.
Podermos ver o mundo juntos,
Sermos dois e sermos muitos,
Nos sabermos sós sem estarmos sós.
Abrirmos a cabeça
Para que afinal floresça
O mais que humano em nós.
Então tá tudo dito
E é tão bonito
E eu acredito
Num claro futuro
de música, ternura e aventura
Pro equilibrista em cima do muro.

Mas e se o amor pra nós chegar,
De nós, de algum lugar
Com todo o seu tenebroso esplendor?
Mas e se o amor já está,
se há muito tempo que chegou
E só nos enganou?
Então não fale nada,
Apague a estrada
Que seu caminhar já desenhou
Porque toda razão, toda palavra
Vale nada quando chega o amor..."

P.S. Sei que a definição da foto não está boa, mas a expressão dela na imagem faz valer...



 Escrito por Marcelo às 10h18
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João Cabral

"Pois que reinaugurando essa criança
pensam os homens
reinaugurar a sua vida
e começar novo caderno,
fresco como o pão do dia;
pois que nestes dias a aventura
parece em ponto de vôo, e parece
que vão enfim poder
explodir suas sementes:

que desta vez não perca esse caderno
sua atração núbil para o dente;
que o entusiasmo conserve vivas
suas molas,
e possa enfim o ferro
comer a ferrugem
o sim comer o não"

João Cabral de Mello Neto



 Escrito por Marcelo às 17h03
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Haicai

"Rede ao vento

Se torce de saudade

Sem você dentro".

Alice Ruiz

P.S. Obrigado, Mariana... ;)



 Escrito por Marcelo às 12h53
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O que há para o momento

"Caçador de mim"

Sérgio Magrão/Luiz Carlos Sá/Milton Nascimento

"Por tanto amor, por tanta emoção
A vida me fez assim
Doce ou atroz, manso ou feroz
Eu, caçador de mim
Preso a canções
Entregue a paixões que nunca tiveram fim
Vou me encontrar longe do meu lugar
Eu, caçador de mim

Nada a temer
Senão o correr da luta
Nada a fazer
Senão esquecer o medo
Abrir o peito à força
Numa procura
Fugir às armadilhas da mata escura

Longe se vai sonhando demais
Mas onde se chega assim
Vou descobrir o que me faz sentir
Eu, caçador de mim"



 Escrito por Marcelo às 12h34
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Candeia

"Pintura sem arte"

Candeia

"Me sinto igual a uma folha caída
Sou o adeus de quem parte
Pra quem a vida é pintura sem arte
A flor esperança se acabou
O amor o vento levou
Outra flor nasceu é a saudade
Que invade tirando a liberdade
Meu peito arde igual verão
Mais se é pra chorar, choro cantando
Pra ninguem me ver sofrendo e dizer que estou pagando
Não não basta ter inspiração
Não basta fazer uma linda canção
Pra cantar samba se precisa muito mais
Samba é lamento, é sofrimento, é fuga dos meus ais
Por isso agradeço a saudade em meu peito
Que vem acalentando o meu sonho desfeito
Jardim do passado fohas mortas pelo chão
Herda nas sementes de paixão"

P.S. Hoje tem Tia Surica cantando isso no Sacrilégio...



 Escrito por Marcelo às 13h59
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Klimt + J.G.

"E o resto é silêncio..."

J. G. de Araújo Jorge

"E então ficamos os dois em silêncio, tão quietos
como dois pássaros na sombra, recolhidos
ao mesmo ninho,
como dois caminhos na noite, dois caminhos
que se juntam
num mesmo caminho... 

Já não ouso... já não coras...
E o silêncio é tão nosso, e a quietude tamanha
que qualquer palavra bateria estranha
como um viajante, altas horas...

Nada há mais a dizer, depois que as próprias mãos
silenciaram seus carinhos...

Estamos um no outro
como se estivéssemos sozinhos"



 Escrito por Marcelo às 10h19
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Quintana

"Sonhar é acordar-se para dentro"

Mário Quintana

(a propósito: está muito bom o artigo do José Castello, na Bravo! deste mês, sobre o Quintana. No texto, Castello refuta as reservas de parte da crítica literária à aparente simplicidade de poetas como o próprio Quintana e Vinícius de Morais. Simplicidade sofisticada que - felizmente para nós, leitores sem afetação - está presente também na obra de contemporâneos, como Fabrício Carpinejar...)



 Escrito por Marcelo às 09h53
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Clarice, Sabino e a vida na literatura

Eu e o amigo Henrique Rodrigues tivemos na madrugada do último sábado uma deliciosa e produtiva conversa sobre a influência e os limites da vida real na criação literária. Dois dias depois, recebi e-mail do HR, lembrando um trecho do livro Cartas perto do coração, que traz parte da correspondência trocada entre Clarice Lispector e Fernando Sabino. No texto, Clarice respondia a comentários de Sabino a respeito do romance A maçã no escuro, dando conta de que a autora escancarava demais no uso da primeira pessoa. Segue a réplica de Clarice e a tréplica de Sabino:

Clarice - "Eu queria me pôr completamente fora do livro, e ficar de algum modo isenta dos personagens. não queria misturar "minha vida" com a deles. Isso era difícil. Por mais paradoxal que seja, o meio que achei de me pôr fora foi colocar-me dentro claramente. Como indivíduo à parte, foi "separar-me" com "eu" dos outros". (Está confuso?) Hesitei muito em usar a primeira pessoa (apesar desse tipo de isenção me atrair), mas de repente me deu uma rebeldia e uma espécie de atitude de "todo mundo sabe que o rei está nu, por que então não dizer?" - que, na situação particular, se traduziu como: "Todo mundo sabe que 'alguém' está escrevendo o livro, por que então não admiti-lo?"

Sabino - "Todo mundo sabe que um construtor constrói uma casa para outra pessoa morar e para isso ele põe na construção uma placa com seu nome - mas depois da casa pronta não é preciso placa nenhuma para todo mundo saber que alguém (que não mora ali) a construiu. "Todo mundo sabe que 'alguém' está escrevendo o livro, por que então não admiti-lo?"  Ora, seu livro, da primeira à última linha, não é outra coisa senão alguém escrevendo um livro - e isso devido à sua concepção peculiaríssima, à técnica que você adotou, etc. - nunca porque você o diga a toda hora. O importante não é dizer, é saber. Certas coisas não se dizem, porque dizendo, deixam de ser ditas pelo não-dizer, que diz muito mais. O importante é que todo mundo saiba que o rei está nu, e não diga nada, para que uma criança possa dizer, "olha, o rei está nu!" - lembra da história? Imagine o desfile do rei nu com uma faixa na frente anunciando: O REI ESTÁ NU".



 Escrito por Marcelo às 09h40
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Ovelhas botam ovos?

Programa da Ana Maria Braga, hoje pela manhã: a apresentadora comandava reportagem sobre ovelhas e carneiros, quando seu entrevistado utiliza o termo "ovinos". O Louro, então, para esclerecer os espectadores, pergunta: "Ovinos?". Ana Maria: "É, Louro, aqueles que botam ovos, como você." Pano rápido.



 Escrito por Marcelo às 09h31
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Mulher

E já que hoje é o Dia Internacional da Mulher, para homenageá-las recorro justamente a um desses autores meio deixados de lado pela "inteligência": Erasmo Carlos. Esta canção está no disco homônimo, de 1981, todo ele dedicado à Narinha, a mulher que ele amou e foi parceira na composição. À época, o lp deu muito o que falar, pois trazia na capa uma foto do Erasmo sendo "amamentado" por ela...

"Mulher"

Erasmo Carlos / Narinha

"Dizem que a mulher é o sexo frágil
Mas que mentira absurda
Eu que faço parte da rotina de uma delas
Sei que a força está com elas
Veja como é forte a que eu conheço
Sua sapiência não tem preço
Satisfaz meu ego se fingindo submissa
Mas no fundo me enfeitiça

Quando eu chego em casa à noitinha
Quero uma mulher só minha
Mas pra quem deu luz não tem mais jeito
Porque um filho quer seu peito
O outro já reclama sua mão
E o outro quer o amor que ela tiver
Quatro homens dependentes e carentes
Da força da mulher

Mulher, mulher
Do barro de que você foi gerada
Me veio inspiração
Pra decantar você nesta canção
Mulher, mulher
Na escola em que você foi ensinada
Jamais tirei um dez
Sou forte, mas não chego aos seus pés"



 Escrito por Marcelo às 10h52
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Canções

O livro 31 canções, em que o Nick Honrby elenca as músicas que marcaram a sua vida, inspirou dois ótimos textos. Em comum entre os artigos, está a valorização da "canção" para além dos ditames da alta cultura e como elemento catalisador daqueles momentos fundamentais que dão relevância à existência por essas bandas. O primeiro, publicado na Folha e do qual destaco alguns trechos abaixo, é assinado pelo Lobão. O outro, do Joaquim Ferreira dos Santos, saiu em O Globo de ontem e está postado aqui quase na íntegra. A leitura de ambos vale principalmente para que vejamos o quanto são bobas certas veleidades intelectuais...

"(...) O livro mostra para mim e para o mundo que a canção transcende as expectativas de algo essencialmente inteligente (ou... digno!) -como o jazz (a MPB), Von Karajan e outras ambições de um ser correlato ao que seria nos anos 60, como aqueles intelectualóides de porta de cinema ou todo esse culto masturbatório de dignidade intelectual. Como naquela parte do livro em que Hornby deliciosamente confessa que tentava ouvir Mozart ou Haydn na hora do almoço e reparava que aquele gesto era desrespeitoso, pois tratava obras de arte como se fosse acender um incenso. Ou seja... Não havia uma real conexão emocional-cultural com sua personalidade e cultura, como realmente havia quando o negócio era a canção. E coloca a canção como a sua forma de entender a si próprio, pois ela, antes de mais nada, é uma forma indissociável de si próprio.(...)"

"(...) A canção vai além. Não se trata de "madeleines"! Ele também desafia o mito da ânsia pelo novo. É claro que nós precisamos de um fluxo constante de novas canções na nossa vitrolinha, mas nem sempre aquilo que vai mudar o mundo (como canção!) se deixa imprimir em nossos corações como aquela música que nos representa, pois ela já faz parte de um contexto histórico (como Hey Jude, Yesterday ou Emoções), com aquela necessidade recôndita de ter um artista falando só para você, de você e com você... (...)"

"Lá no meu apê"

Joaquim Ferreira dos Santos

"São as músicas que não ousam dizer seu nome, aquelas que você não tem coragem de citar numa roda de amigos, muito menos cantarolar nas páginas de um jornal da magnitude deste, mas elas estavam tocando no momento exato em que séculos atrás você levantou sua filha de 6 anos nos ombros, único jeito de fazer com que os olhinhos dela atravessassem a multidão e alcançassem lá na frente o pelotão dos Menudos cantando “Não se reprima” no campo do Vasco. Uma música dessas, vivida com uma cena daquelas, passa a ser imediatamente entronizada na sua galeria de inesquecíveis, tão linda em acordes quanto Maria Bethânia cantando “Anda Luzia”, tão sugestiva quanto Nora Ney atacando “Menino grande”, tão acachapante quanto Aracy Cortes trovejando esculachos em “Flor do lodo”, cânones óbvios da música popular.
Eu pensei no maravilhoso hino adolescente dos Menudos porque acabei de ler “31 canções”, mais uma lista de Nick Hornby com as pérolas do pop, cheia dos Beatles e dos Bob Dylan de sempre, e fiquei deblaterando solitário com os botões de madrepérola da minha camisa Brooks Brothers. Caraca! Como deve ser triste, e Deus que me poupe desse salário um dia, a vida dos críticos obrigados a reconhecer apenas as músicas boas e relevantes, todas prontinhas para fazer parte de um CD em que a Humanidade registra a dignidade de sua História.
Será que essa gente nunca bateu coxa enquanto Waldick Soriano cantava “Perfume de gardênia”? Eu me solidarizo aqui com os autores dos LPs quebrados pelo Flávio Cavalcanti, com os CDs que ganham quadrado preto na coluna Discolândia do GLOBO e com mais aquela centena de calouros que cantaram “Coração de luto” no programa de Paulo Gracindo, todos impiedosamente gongados pelo Pato. Maldade. Preconceito. Saúdo com ênfase carinhosa as músicas que nunca farão parte dessas listas que saem nas revistas moderninhas com as “31 mais” a se levar para uma ilha deserta e fazerem clima especial ao abate cru de alguma Uma Thurman.
Brindo acima de tudo esses intérpretes que de vez em quando vão lá nos túneis mais fétidos dos sambas, metem a mão no lodo das baladas e voltam para esfregar no ouvido dos surdos que era ouro o que eles ainda há pouco julgavam apenas bosta — como Maria Bethânia está fazendo agora no show “Tempo tempo tempo tempo”, no Canecão, com a espetacular “Você vai ficar na saudade”, de Benito de Paula.
Um viva! para aquelas músicas que ninguém pediu para tocar mas estavam lá na hora agá. Se boas, se más, não me venham ao saco com esses pruridos intelectuais. Todas sublinhando as emoções escondidas quando você entrou no táxi, colocou pela primeira vez a mão sobre os ombros da moça e, no justo momento em que suas impressões digitais começavam a ser impressas no corpo dela, o rádio do carro abriu a voz do Latino cantando que hoje haveria festa lá no meu apê — e os dois, você e a moça, evidentemente pararam o que estavam fazendo para cair na gargalhada, certos de que “rolar bundalelê”, por mais divertida que fosse a coisa, era verso improvável demais para compatibilizar a música-chiclete e a cena de carinho ainda tímido que ela sonorizava. O casal perguntou ao motorista se no CD-player ele não tinha Linda Batista cantando “Meu amor levou fermento”, de Monsueto. Infelizmente, não.
Uma das desgraças culturais do Brasil recente é a do rádio sem democracia musical, o desaparecimento daquelas estações que tocavam todo tipo de música, da pseudobrega do Paulo Sérgio ao pseudopunk do Clash, e não só as do segmento de seu público específico, como é o padrão agora. O conceito de bom e mau gosto não existia em música popular (...) Formavam-se gerações menos preconceituosas, certas de que música era o que dava prazer quando encostava nos tímpanos secretos e não uma peça que se juntava ao terno Armani para formar imagem social de gosto elevado. Tolice. Farofa-fá. Bigorrilho. Tijolinho. Patapata. Coitados dos críticos que nunca tiveram uma história na vida que coubesse certinha numa letra-brega, num botão da blusa qualquer do Roberto Carlos. A propósito, uma música dele para a lista: “Com ar de moço bom”.
Sugiro que se faça com os discos o mesmo que se faz pela existência, a necessidade de que ela toque o lado B também. Que se vá mais fundo nos sulcos dos LPs e nos desvãos da alma, no que não tem governo nem nunca terá. Depois, enxuga-se as mãos no pano de prato sujo das canções. Aos mais velhos, informa-se que neste momento está tocando “A white shade of pale”, com Procol Harum, a música ciclâmen do “Música na passarela”, da Rádio Tamoio. A música número 13 do “Peça bis pelo telefone”, da Mayrink Veiga, é “Terezinha”, com Wilson Simonal.
Aos jovens editores de livros eu sugiro — em pagamento basta colocarem na juke-box uma ficha para “Nada além”, com Orlando Silva, e outra para “As tears go by”, com Marianne Faithfull — que publiquem a biografia de algum herói moderno narrada a partir das canções que estavam rolando no momento xis e fundamental de suas vidas. Tenho certeza, pelo menos é assim no dia-a-dia das pessoas aqui ao lado, que nunca está tocando uma sonata de Bach quando o grande Diretor bate sua Divina claquete e grita “Valendo”. Ninguém tem o controle do destino, muito menos é DJ de sua própria vida. Há sempre uma empregada pilotando o som na cozinha, um programador maluco de shopping tocando a música errada — e depois para sempre deliciosamente divertida ela será — na hora do bundalelê certo.
Dá para ouvir Nat ‘King’ Cole e em seguida o coração bater menudo, eis o som que rola lá no meu apê. Ligue o rádio no que a vida toca — e não se reprima."



 Escrito por Marcelo às 10h00
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Versos

"Se eu não vejo a mulher que eu mais desejo
nada que eu veja vale o que eu não vejo."

Versos de Augusto de Campos, adaptados de Bernart de Ventadorn



 Escrito por Marcelo às 18h14
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Thaís Gulin

Tô em dívida com a moça e vou pagar esta semana. E quem quiser pode conferir comigo o talento da simpática Thaís Gulin, que faz show quarta-feira no Espaço Cultural Sérgio Porto...



 Escrito por Marcelo às 14h24
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Singularidades

Do cronista setentista para o cronista contemporâneo:

"(...) mas o que faz de um lugar um lugar, é o mesmo que faz de uma mulher a sua mulher. Ela simplesmente é melhor do que todas as outras".

Inspirada frase escrita pelo Cuenca em sua coluna de sábado passado no Jornal do Brasil...



 Escrito por Marcelo às 13h35
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Carlinhos de Oliveira

O fim-de-semana foi também de José Carlos Oliveira, ou simplesmente Carlinhos de Oliveira, que teve suas crônicas escritas nos anos 60 e 70 lançadas em livro organizado pelo jornalista gente-muito-boa Jason Tércio. Andei lendo os textos do volume O homem na varanda do Antonio's, que representam um olhar "de dentro" sobre a fauna que circulava pelos bares do Rio de Janeiro da época. O livro traz casos hilários, como o relatado em Briga de moreninha com o ex-namorado acaba com a moreninha nua na calçada, ao lado de crônicas embebidas de um lirismo à beira da melancolia. Algumas bastam-se pelo título. É o caso da triste A noite do rapaz solteiro promete grandes aventuras mas o fim é sempre solidão, em que o protagonista, após peregrinar pelos templos da boemia, termina a madrugada vendo os pescadores do Posto Seis "chegarem junto da manhã radiosa". "Eles puxaram a rede e trouxeram uma grande arraia, como se eu fosse, não um rapaz sozinho no Rio de Janeiro, mas um personagem do filme A doce vida. Fui dormir", diz o texto. Mas entre as narrativas que li, destacaria Um barzinho da solidão, que fala das pessoas "invisíveis" que encontramos pelos bares da vida. Carlinhos relata a patética volta para casa do personagem principal: "No fim da noite, vamos todos juntos comer um filé com fritas no Acrópolis, enquanto o bebedor solitário paga sua despesa e caminha sozinho na calçada deserta. Não há nada mais melancólico o que um homem ligeiramente tonto que chega ao amanhecer desacompanhado. Chegando em casa, ele abre a porta, tira os sapatos, estira-se sem mudar de roupa na sua cama. Na noite seguinte, voltará a procurar qualquer coisa que ninguém sabe (certamente é carinho). Com seu olhar esgazeado e seu sorriso de quem pede desculpas por estar vivo." Quem de nós não já enfrentou um filé no meio da noite e viu homens como este? E quem de nós já não foi ele um dia?

P.S. Sobre o Carlinhos de Oliveira, aliás, o Jaguar conta uma história ótima. É que uma vez, já com algumas doses a mais, ele preencheu um cheque contra a parede. Assinou 'Carlos de Oliveira', mas o cheque foi devolvido. Porque, ao conferir, viu que na verdade constava apenas 'Carlos Oli'. O 'veira' ficou na parede do bar...



 Escrito por Marcelo às 13h11
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Sidney Miller

Ótima supresa aconteceu quinta passada, do Carioca da Gema, quando fui apresentado a esta canção, do Sidney Miller, de quem apenas ouvira falar (sempre bem). Coube ao amigo Pepê fazer a apresentação, já que a música estava no set comandado por ele. Miller é autor da letra e da melodia, sinuosa, lírica, chegando a lembrar os grandes sambas de Zé Ketti. Paulinho da Viola gravou-a no álbum A toda hora rola uma estória, justamente o único da carreira dele que não tenho...

"Nós, os foliões"

Sidney Miller

"Nosso amor passou eu sei
No principio eu não quis acreditar
Chorei
Mas, depois eu tive que me conformar
Me conformei
A realidade foi maior
Aprendi nessa dor
A mágoa não compensa
E o orgulho é mais cruel
Que toda a indiferença
Pode acreditar, mulher
Nosso amor foi lindo
Como um carnaval qualquer
Que se acaba
E faz um novo dia a dia acontecer
Tão dificil assim como viver
Até um dia em que vem
reacender alegrias e salões
Nós, os foliões
Nossas alegorias
Tão esperado e se foi
Tão colorido e lá vai
Perdendo a cor o carnaval do nosso amor"



 Escrito por Marcelo às 12h57
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Jards

Volto da Pedro Lessa com mais uma preciosidade. Falo da cópia pirata de Jards Macalé, o primeiro trabalho do cantor, considerado pelo próprio o melhor da carreira. Com produção bem simples – apenas Lanny Gordin no violão e no contrabaixo e Tutti Moreno na bateria -, o disco é dolorido, captando bem o clima da época, com o imenso oco interior que tomou conta da juventude intelectualizada após o AI-5. O álbum traz parcerias de Macalé com poetas como Capinam (Farinha do Desprezo, 78 rotações e a belíssima Movimento dos Barcos, que posto abaixo), Waly Salomão (Mal Secreto) e Torquato Neto (Let’s Play That). Disse Waly sobre o disco: "1969 começava como um período de esmagamento total, vindo de cima, do poder. A gente conversava muito e eu ficava incitando o Macalé a quebrar os vínculos com os remanescentes da bossa nova ou então com a música de concerto, com aquele perfeccionismo. Insistia na necessidade dele criar um espaço próprio. Isso era fundamental naquele momento - uma voz que continuasse cantando e mantivesse acesa a chama". Jards Macalé saiu rapidamente de catálogo. Por isso foi tão bom reencontrá-lo hoje.

"Movimento dos barcos"

Jards Macalé / Capinan

"Estou cansado e você também
Vou sair sem abrir a porta
e não voltar nunca mais
Desculpe a paz que eu lhe roubei
e o futuro esperado que eu não dei
É impossível levar um barco sem temporais
e suportar a vida como um momento além do cais
que passa ao largo do nosso corpo
Não quero ficar dando adeus
às coisas passando, eu quero
é passar com elas, eu quero
E não deixar nada mais
do que as cinzas de um cigarro
E a marca de um abraço no seu corpo
Não, não sou eu quem vai ficar no porto
chorando, não
Lamentando o eterno movimento
movimento dos barcos, movimento
movimento dos barcos, movimento
movimento dos barcos, movimento"



 Escrito por Marcelo às 15h44
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Jazzmo

"A dor é um prazer intenso demais para ser suportado. Nada é mais prazeroso do que uma pequena dor. As grandes transbordam, viram briga, viram morte, viram arte.
A angústia, por sua vez, não costuma render grandes frutos. A angústia é uma espera, um feriado do espírito humano, a paralisia infantil, a poliomielite do ânimo.
Sou um homem em standby."

Carlos Jazzmo



 Escrito por Marcelo às 15h08
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...

"Amor é quando é concedido participar um pouco mais. Poucos querem o amor, porque o amor é a desilusão de tudo o mais."

Clarice Lispector, in Legião estrangeira (com pintura de Paul Klee)



 Escrito por Marcelo às 14h02
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Com Elis e o Zimbo Trio

"Canção do amanhecer"

Edu Lobo/Vinícius de Morais

"Ouve
Fecha os olhos, meu amor
É noite ainda
Que silêncio
E nós dois
Na tristeza de depois
A contemplar
O grande céu do adeus

Ah, não existe paz
Quando o adeus existe
E é tão triste
O nosso amor
Oh, vem comigo
Em silêncio

Vem olhar
Esta noite amanhecer
Iluminar
Aos nossos passos tão sozinhos
Todos os caminhos
Todos os carinhos
Vem raiando a madrugada
Música no céu"



 Escrito por Marcelo às 13h56
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Pequena notável

Sob este achado de título, o Rio Show (O Globo) publica hoje matéria de capa desvendando os cantos e segredos da minha Urca querida. Estão lá a paisagem deslumbrante do restaurante Praia Vermelha, que fica dentro do Círculo Militar (só quem esteve ali numa noite de lua cheia pode saber do que falo...), e a delícia que é o Bar Urca, com seu atendimento simpático e a comida sempre apetitosa. A reportagem destaca também o pé-sujo Flor da Urca, objeto de post aqui no Pentimento ano passado e onde de vez em quando como um prato bem caseiro (a carne assada com nhoque é algo!) com cerveja geladíssima de garrafa, tudo muito baratinho. O melhor de tudo é que o texto do Jefferson Lessa traz uma novidade: o bairro ganhou uma livraria, a Beco das Letras, que visitarei já amanhã. Estava faltando mesmo... Não deixem de ler. Nem de, em seguida, conhecer os lugares citados na matéria. 



 Escrito por Marcelo às 13h40
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Asas

"(...) e tudo é natural, basta não teres medos excessivos - trata-se apenas de preservar o azul das tuas asas."

Caio Fernando Abreu, no conto Uma história de borboletas (in Pedras de Calcutá)...



 Escrito por Marcelo às 17h44
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Um poema "roubado"

"O amor é uma companhia.
Já não sei andar só pelos caminhos,
Porque já não posso andar só.
Um pensamento visível faz-me andar mais depressa
E ver menos, e ao mesmo tempo gostar bem de ir vendo tudo.

Mesmo a ausência dela é uma coisa que está comigo.
E eu gosto tanto dela que não sei como a desejar.
Se a não vejo, imagino-a e sou forte como as árvores altas.
Mas se a vejo tremo, não sei o que é feito do que sinto na ausência dela.

Todo eu sou qualquer força que me abandona.
Toda a realidade olha para mim como um girassol com a cara dela no meio."

Fernando Pessoa



 Escrito por Marcelo às 11h27
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Chuva

Bem apropriado para hoje revisitar essa obra-prima do lirismo que é Chuva, de Pedro Camargo e Durval Ferreira. Música de arrepiar o mais frio dos homens... Ouça aqui com o Zimbo Trio (é a terceira da lista).  



 Escrito por Marcelo às 11h00
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Bishop

Estou curioso para assistir à peça Um porto para Elizabeth Bishop, estrelada pela atriz Regina Braga e que estréia no Teatro do Planetário amanhã. Escrito por Marta Góes e dirigido por José Possi Neto, o monólogo passeia pela vida e pelos poemas da escritora, que viveu no Brasil durante 15 anos, nas décadas de 50 e 60. Não vou postar aqui novamente A arte de perder, poesia que mais gosto entre as que nasceram pelas delicadas mãos de Bishop, mas que já virou figurinha fácil no Pentimento. Fiquemos, então, com algo diferente:

"O banho de xampu"

Elizabeth Bishop

"Os liquens - silenciosas explosões
nas pedras - crescem e engordam,
concêntricas, cinzentas concussões.
Têm um encontro marcado
com os halos ao redor da lua, embora
até o momento nada tenha mudado.

E como o céu há de nos dar guardia
enquanto isso não se der,
você há de convir, amiga,
que se precipitou;
e eis no que dá. Porque o Tempo é,
mais que tudo, contemporizador.

No teu cabelo negro brilham estrelas
cadentes, arredias.
Para onde irão elas
tão cedo, resolutas?
- Vem, deixa eu lavá-lo, aqui nesta bacia
amassada e brilhante como a lua."



 Escrito por Marcelo às 10h51
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Destino

"O homem nem sonha que, não tendo ainda sequer começado a recrutar os tripulantes, já leva atrás de si a futura encerregada das baldeações e outros asseios, também é deste modo que o destino costuma comportar-se connosco, já está mesmo atrás de nós, já estendeu a mão para tocar-nos o ombro, e nós ainda vamos a murmuar, Acabou-se, não há mais que ver, é tudo igual".

Trecho de O conto da ilha desconhecida, de José Saramago, e pintura de Arthur Luiz Piza...



 Escrito por Marcelo às 10h34
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Deserto

"Num deserto de almas também desertas, uma alma especial reconhece de imediato a outra"

Caio Fernando Abreu, in Aqueles dois (conto do livro Morangos mofados)



 Escrito por Marcelo às 14h59
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Clarice

"Olhe para todos a seu redor e veja o que temos feito de nós. Não temos amado, acima de todas as coisas. Não temos aceito o que não entendemos porque não queremos passar por tolos. Temos amontoado coisas, coisas e coisas, mas não temos um ao outro. Não temos nenhuma alegria que já não esteja catalogada. Temos construído catedrais, e ficado do lado de fora, pois as catedrais que nós mesmos construímos, tememos que sejam armadilhas. Não nos temos entregue a nós mesmos, pois isso seria o começo de uma vida larga e nós a tememos. Temos evitado cair de joelhos diante do primeiro de nós que por amor diga: tens medo. Temos organizado associações e clubes sorridentes onde se serve com ou sem soda. Temos procurado nos salvar, mas sem usar a palavra salvação para não nos envergonharmos de ser inocentes. Não temos usado a palavra amor para não termos de reconhecer sua contextura de ódio, de ciúme e de tantos outros contraditórios. Temos mantido em segredo a nossa morte para tornar nossa vida possível. Muitos de nós fazem arte por não saber como é a outra coisa. Temos disfarçado com falso amor a nossa indiferença, sabendo que nossa indiferença é angústia disfarçada. Temos disfarçado com o pequeno medo o grande medo maior e por isso nunca falamos o que realmente importa. Falar no que realmente importa é considerado uma gafe. Não temos adorado por termos a sensata mesquinhez de nos lembrarmos a tempo dos falsos deuses. Não temos sido puros e ingênuos para não rirmos de nós mesmos e para que no fim do dia possamos dizer "pelo menos não fui tolo" e assim não ficarmos perplexos antes de apagar a luz. Temos sorrido em público do que não sorriríamos quando ficássemos sozinhos. Temos chamado de fraqueza a nossa candura. Temo-nos temido um ao outro, acima de tudo. E a tudo isso consideramos a vitória nossa de cada dia... "

Clarice Lispector

(Para a Mara, que anda com saudade do blog dela. Nós também, viu?) 



 Escrito por Marcelo às 11h47
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Tempo tempo tempo tempo

"Oração ao tempo"

Caetano Veloso

"És um senhor tão bonito
Quanto a cara do meu filho
Tempo Tempo Tempo Tempo
Vou te fazer um pedido
Tempo Tempo Tempo Tempo

Compositor de destinos
Tambor de todos os ritmos
Tempo Tempo Tempo Tempo
Entro num acordo contigo
Tempo Tempo Tempo Tempo

Por seres tão inventivo
E pareceres contínuo
Tempo Tempo Tempo Tempo
És um dos deuses mais lindos
Tempo Tempo Tempo Tempo

Que sejas ainda mais vivo
No som do meu estribilho
Tempo Tempo Tempo Tempo
Ouve bem o que te digo
Tempo Tempo Tempo Tempo

Peço-te o prazer legítimo
E o movimento preciso
Tempo Tempo Tempo Tempo
Quando o tempo for propício
Tempo Tempo Tempo Tempo

De modo que o meu espírito
Ganhe um brilho definido
Tempo Tempo Tempo Tempo
E eu espalhe benefícios
Tempo Tempo Tempo Tempo

O que usaremos pra isso
Fica guardado em sigilo
Tempo Tempo Tempo Tempo
Apenas contigo e migo
Tempo Tempo Tempo Tempo

E quando eu tiver saído
Para fora do teu círculo
Tempo Tempo Tempo Tempo
Não serei nem terás sido
Tempo, Tempo, Tempo, Tempo

Ainda assim acredito
Ser possível reunirmo-nos
Tempo, Tempo, Tempo, Tempo
Num outro nível de vínculo
Tempo, Tempo, Tempo, Tempo

Portanto peço-te aquilo
E te ofereço elogios
Tempo Tempo Tempo Tempo
Nas rimas do meu estilo
Tempo Tempo Tempo Tempo"



 Escrito por Marcelo às 11h07
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Paralelos em Sampa

Aos amigos de São Paulo: amanhã vai rolar o lançamento do livro dos Paralelos aí na Terra da Garoa. A festa acontecerá a partir das 20h, na Mercearia São Pedro (Rua Rodésia, 34 - Vila Madalena) e alguns dos autores estarão presentes.



 Escrito por Marcelo às 10h49
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Mais Caio F.

"(...) uma feridantiga mede-se mais exatamente pela dor que provocou, e para sempre perdeu-se no momento me que cessou de doer, embora lateje louca nos dias de chuva. O que provavelmente deve ser muito sadio. (...)"

"(...) Lembrei que tinha lido em algum lugar que a dor é a única emoção que não usa máscara. (...)"

"(...) Dentro de mim, não consigo deixar de pensar que há alguma espécie de sentido. E um depois. Quando penso, é então como se alguém dançasse sobre esses intermináveis telhados de dentro de mim. Sobre os telhados cinzentos, alguém vestido inteiro de amarelo. Não sei por que exatamente amarelo, mas brilha. O vento faria esvoaçar seus panos e cabelos. Num grande salto aberto, esse alguém que dança alcançaria a janela abrindo-a com um leve toque das pontas dos dedos. Quase sempre tenho certeza que deve ser você. (...)"

"(...) Mas já não sou capaz de me calar, talvez dirás então, porque meu silêncio já não é uma omissão, mas uma mentira. (...)"

"(...) Vista de fora, de onde eu estava, era uma árvore assim, com um lindo deva que eu quase via, roxo e amarelo como as flores, meio que dançando, quam sabe tocando flauta em volta dela. Então lembrei do escuro e achei que entendia e sem querer formulei com dificuldade uma coisa mais ou menos assim: é daquele emaranhado cheio de dor e angústia fria e solidão escura que ela arranca essa beleza que joga para fora (...)"

"(...) e percebendo a transformação só depois de falar como se nada tivesse se transformado, ela sabia apenas se comportar de acordo com o momento antigo, não com este novo, desconhecido. (...)"

Trechos dos contos de Morangos Mofados...



 Escrito por Marcelo às 10h26
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Possessão

Ultimamente, ando me sentindo o próprio Nick Hornby em High fidelity...



 Escrito por Marcelo às 10h16
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Frejat

"Enquanto ela não chegar"

Frejat

"Quantas coisas eu ainda vou provar
E quantas vezes para porta eu vou olhar
Quantos carros nessa rua vão passar
Enquanto ela não chegar

Quantos dias eu ainda vou esperar
E quantas estrelas eu vou tentar contar
E quantas luzes na cidade vão se apagar
Enquanto ela não chegar

Eu tenho andado tão sozinho
Que eu nem sei no que acreditar
E a paz que eu busco agora
Nem a dor vai me negar

Não deixe o sol morrer
Errar é aprender
Viver é deixar viver

Não deixe o sol morrer
Errar é aprender
Viver é deixar viver

Quantas besteiras eu ainda vou pensar
E quantos sonhos no tempo vão se esfarelar
Quantas vezes vou me criticar
Enquanto ela não chegar

Eu tenho andado tão sozinho
Que eu nem sei no que acreditar
E a paz que eu busco agora
Nem a dor vai me negar

Não deixe o sol morrer
Errar é aprender
Viver é deixar viver"



 Escrito por Marcelo às 13h56
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Adélia

"Amor violeta"

Adélia Prado
 
"O amor me fere é debaixo do braço,
de um vão entre as costelas.
Atinge o meu coração é por esta via inclinada.
Eu ponho amor no pilão com cinza
e grão de roxo e soco. Macero ele,
faço dele cataplasma
e ponho sobre a ferida"


 Escrito por Marcelo às 11h47
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Ouvindo,

inspirado pela Mariana, Chambre avec Vue, este discaço do Henri Salvador...



 Escrito por Marcelo às 11h30
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Canção para hoje

"Só nos resta viver"

Angela Rô Rô

"Dói em mim saber
Que a solidão existe
E insiste no teu coração
Dói em mim sentir
Que a luz que guia
O meu dia
Não te guia não
Quem dera pudesse
A dor que entristece
Fazer compreender
Os fracos de alma
Sem paz e sem calma
Ajudasse a ver
Que a vida é bela

Só nos resta viver"

P.S. Tirei a foto acima ano passado, durante a Festa de Santo Antônio...



 Escrito por Marcelo às 10h57
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(Re)lendo Caio F.

"(...) Com essa doçura nascida de dois homens bêbados e sem nenhum outro recurso a não ser se amarem assim, mais apaixonadamente do que se amariam de estivessem à caça de outro corpo, igual ou diverso do deles - pouco importa, tudo é sede. (...)"

"(...) ah, a vida - pode ser medo e mel quando você se entrega e vê, mesmo de longe. (...)"

"(..) Você não existe. Eu não existo. Mas estou tão poderoso na minha sede que inventei a você para matar a minha sede imensa. Você está tão forte na sua fragilidade que inventou a mim para matar a sua sede exata. Nós nos inventamos um ao outro porque éramos tudo o que precisávamos para continuar vivendo. (...)"

"(...) Mandei para a lavanderia os lençóis verde-clarinhos que ainda guardavam o cheiro de Ana - e seria cruel demais para mim lembrar agora que cheiro era esse, aquele, bem na curva onde o pescoço se transforma em ombro, um lugar onde o cheiro de nenhuma pessoa é igual ao cheiro de outra pessoa (...)"

in Os dragões não conhecem o paraíso...



 Escrito por Marcelo às 10h45
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