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Mais música...

... com esse excepcional pianista cubano que é Ignacio Villa, o 'Bola de Nieve'.
"Vete de mi"
Homero Expósito / Virgilio Expósito
"Tu, que llenas todo de alegria y juventud que ves fantasmas en las noches de trasluz, y oyes el canto perfumado del azul Vete de mi.
No te detengas a mirar las ramas viejas del rosal que se marchitan sin dar flor mira el paisaje del azul que es la razon para vivir y amar
Yo, que ya he luchado contra toda la maldad tengo las manos tan desechas de apretar que no te puedo sujetar Vete de mi
Sera en tu vida lo mejor, de la neblina del ayer cuando me llegues a olvidar como es mejor el verso aquel que no podemos recordar".
Escrito por Marcelo às 14h15
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Caio F.

"Desculpa, digo, mas se eu não tocar você agora vou perder toda a naturalidade, não conseguirei dizer mais nada, não tenho culpa, estou apenas sentindo sem controle , não me entenda mal, não me entenda bem, é só esta vontade quase simples de estender o braço para tocar você, faz tempo demais que estamos aqui parados conversando nesta janela, já dissemos tudo que pode ser dito entre duas pessoas que estão tentando se conhecer, tenho a sensação impressão ilusão de que nos compreendemos, agora só preciso estender o braço e, com a ponta dos meus dedos, tocar você, natural que seja assim: o toque, depois da compreensão que conseguimos - e agora".
Caio Fernando Abreu, em Anotações sobre um amor urbano
Escrito por Marcelo às 14h02
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Riscos

"Sim, prefiro o risco do manicômio ao risco do cárcere. Prefiro acreditar demais - sem fanatismo ou intolerância - a ter pouca fé. Se tenho que errar, quero errar achando que esta é uma grande vida, misteriosa, complicada, maravilhosa e não cair no erro oposto de vê-la menor e mais simples do que a minha imaginação"
J. B. Priestley, em O homem e o tempo
Escrito por Marcelo às 14h01
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Beatles

"Something"
George Harrison
"Something in the way she moves Attracts me like no other lover Something in the way she woos me
I don't want to leave her now You know I believe her now
Somewhere in her smile she knows That I don't need no other lover Something in her style that shows me
Don't want to leave her now You know I believe her now
You're asking me will my love grow I don't know, I don't know You stick around now it may show I don't know, I don't know
Something in the way she knows And all I have to do is think of her Something in the things she shows me
Don't want to leave her now You know I believe her now"
Escrito por Marcelo às 17h04
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Canção para hoje

"Catavento e girassol"
Guinga / Aldir Blanc
"Meu catavento tem dentro O que há do lado de fora do teu girassol Entre o escancaro e o contido Eu te pedi sustenido E você riu bemol Você só pensa no espaço Eu exigi duração Eu sou um gato de subúrbio Você é litorânea Quando eu respeito os sinais Vejo você de patins Vindo na contra-mão Mas, quando ataco de macho Você se faz de capacho E não quer confusão Nenhum dos dois se entrega Nós não ouvimos conselho: Eu sou você que se vai No sumidouro do espelho Eu sou do Engenho de Dentro E você vive no vento do Arpoador Eu tenho um jeito arredio E você é expansiva (o inseto e a flor) Um torce pra Mia Farrow O outro é Woody Allen... Quando assovio uma seresta Você dança, havaiana Eu vou de tênis e jeans Encontro você demais: Scarpin, soirée Quando o pau quebra na esquina Você ataca de fina E me oferece em inglês: É fuck you, bate-bronha E ninguém mete o bedelho: Você sou eu que me vou No sumidouro do espelho A paz é feita no motel De alma lavada e passada Pra descobrir logo depois Que não serviu pra nada Nos dias de carnaval Aumentam os desenganos: Você vai pra Parati E eu pro Cacique de Ramos Meu catavento tem dentro O vento escancarado do Arpoador Teu girassol tem de fora O escondido do Engenho de Dentro da flor Eu sinto muita saudade Você é contemporânea Eu penso em tudo quanto faço Você é tão espontânea! Sei que um depende do outro Só pra ser diferente Pra se completar Sei que um se afasta do outro No sufoco somente pra se aproximar Cê tem um jeito verde de ser E eu sou mais vermelho Mas os dois juntos se vão No sumidouro do espelho"
P.S. O quadro é de Volpi...
Escrito por Marcelo às 13h55
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Carpinejar + Klee

"(...) Barulho bonito é da chuva catando moedas nas calhas. Não sei como a chuva não fica rica. Barulho bonito é a risada do café da manhã. O pão ainda sonhando o fogo. Há barulhos bonitos que vou escutar mesmo depois de morto. Como o barulho dos dentes de minha mulher quando gosta do que come. Ou no momento em que não fala e tudo diz e arregaça levemente as saias para pegar sol nas pernas enquanto dirijo e finjo que não espio e finjo que desconheço qual caminho tomar. Barulho bonito é da pele, que muda o sabor conforme a boca. Barulho bonito é do mar jogando cartas de noite. Barulho bonito é do pomar quando as abelhas recém foram e o pólen está todo revirado. Barulho bonito é de uma porta de vidro, que torna a visita transparente. Barulho bonito é das sandálias, que aguardam o pouso de cada dedo e não se arrastam como os chinelos. Barulho bonito é de um baú sendo aberto, com a lentidão das bordas, sem a correria cega das gavetas. Barulho bonito é do lençol estendido na cama e as noites voando assustadas pela janela. Barulho bonito é da respiração acelerada quando recebe um beijo. Barulho bonito é do sino de corda; as badaladas entram em casa devagar. Barulho bonito é do cachorro pisando em poças. Barulho bonito é da lenha crepitando, o fogo datilografando seu livro. Barulho bonito é de uma criança rolando o pneu e o devolvendo à estrada. Barulho bonito é do vinho no cálice, a escada em caracol do líquido. Barulho bonito é da neblina suplicando lombas. Barulho bonito é do chapéu na mesa. Barulho bonito é da argola da rede. Barulho bonito é a corrida entre a vela e o vento. Barulho bonito é do telefone tocando quando não há ninguém em casa. Barulho bonito é do sabiá, com as asas fechadas, caminhando para imitar o homem. Barulho bonito é do homem se agachando ao prato para beber a sopa. Barulho bonito é do pêssego amarelo entre formigas. Barulho bonito é do varal esticado pela troca de estação. Barulho bonito é da faca em círculos na casca. Barulho bonito é de uma carroça em uma rua vazia. Barulho bonito é do fecho da mala quando estou voltando. Meu corpo desaprendeu a andar sozinho. Há de se procurar onde não há vida e ficar sentado esperando desejos."
Fabrício Carpinejar
Escrito por Marcelo às 13h36
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Moacyr Luz

Uma delícia o show do Moacyr Luz com o ótimo Água de Moringa ontem à noite, no Teatro Carlos Gomes, para lançamento oficial do cd A sedução carioca do poeta brasileiro, em que o compositor "musicou" poemas que têm o Rio de Janeiro como tema. Estão no disco, entre outros, trabalhos de Murilo Mendes, Fereira Gullar, Manuel Bandeira, Armando Freitas Filho, Carlos Drummond de Andrade, Vinícius de Moraes e Mário de Andrade.
O espetáculo foi aberto com um pout-porri de Moacyr, com base em canções próprias que falam sobre a cidade - pérolas como Gênio da raça (tributo a Carlos Cachaça), a belíssima Só dói quando eu Rio ("Só fico à vontade / Na minha cidade / Volto sempre à ela / Feito criminosa / Doce e calorosa / A minha história / Escorre aqui") e o hino Saudades da Guanabara. Em seguida, o cantor fez desfilar o repertório do novo disco, cujo resultado me pareceu um tanto irregular.
E a irregularidade nasce da natural dificuldade natural de transformar poemas em letras de música. Malgrado o reconhecido talento de Moacyr como melodista, em alguns momentos o encaixe não se dá, o que acontece em Noite carioca (de Murilo Mendes) e VII – Rio de Janeiro (Drummond). Quando a conexão é perfeita, contudo, o disco cresce, até mesmo pela qualidade do "texto" que deu origem à música. É que ocorre, por exemplo, com Poema obsceno (Ferreira Gullar), Elegia inútil (Manuel Bandeira) e Cantiga das ilhas (mas esta não conta muito, porque o Aldir, antes de ser poeta, é exímio letrista). Ocorre também com o lírico poema Méier (postado abaixo e cujos versos me remeteram ao Paulinho da Viola), de Luiz Paiva de Castro, escritor a quem desconhecia até ontem.
O show foi um verdadeiro encontro de amigos, entre jornalistas, músicos, escritores, cartunistas e cariocas na melhor acepção do termo. Após a apresentação e o bem-servido coquetel, um pequeno grupo seguiu para o Bar Getúlio, tomando conta de todas as mesas. Num clima de total descontração, eu e mais alguns coleguinhas pudemos então travar sensacionais conversas sobre os caminhos e descaminhos do samba e do carnaval, a vida no subúrbio, a cultura popular... Pudemos também cantar em coro as canções do Moacyr (com a presença e a participação do próprio), cujos cds rolaram no som da casa sob o comando do dj Baiano. Além disso, pudemos, enfim, ouvir poemas, declamados pela Elisa Lucinda e pelo Mariozinho Lago, e interpretações à capela de bambas como Claudio Jorge, Didu Nogueira e Zé Luís do Império Serrano. Uma noite memorável, portanto.
"Méier"
Luiz Paiva de Castro
"Foi aqui que eu achei a chuva calma
de inverno, ao consumir-se na vidraça,
e descobri que a chuva traz na alma
o sol que surge quando a nuvem passa.
Após a chuva, a rosa, o lírio, a palma
Parecem feitos de uma nova raça.
Para a criança sempre o nosso tempo espalma
Mais do que o dia e o pássaro da praça.
(Também a chuva estende sua gaze
e entra de novo na tranqüila fase
do bicho, do navio, do algodão.)
Foi no Méier que descobri no fundo
Das coisas simples a noção do mundo
E pus a chuva e o sol no coração"
P.S. A imagem que ilustra a capa do cd, de autoria de mestre Lan, é um tópico de beleza à parte dentro do projeto...
Escrito por Marcelo às 13h02
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Sartre e Beauvoir

"Sua morte nos separa. Minha morte não nos reunirá. É assim; e já foi tão belo que nossas vidas tenham podido se combinar por tanto tempo"
Simone de Beauvoir, em A Cerimônia do adeus, sobre a relação com Sartre...
Escrito por Marcelo às 15h21
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Encontro com Antonio

No próximo sábado, a partir das 11h, vai rolar nova edição do evento Livros na mesa, realizado pela Estação das Letras no Sebo Al Farabi. A proposta do encontro é promover a troca de livros usados, mas além disso há sempre o bate-papo com um escritor convidado. Desta vez, será com o querido Antonio Torres, autor dos ótimos Um cão uivando pra lua e O cachorro e o lobo. O Al Farabi fica na Rua do Rosário, 30.
Escrito por Marcelo às 13h37
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Quase dois imrãos

"Contundente" talvez seja o adjetivo que melhor se aplica a Quase dois irmãos, de Lúcia Murat. O filme levanta questões atualíssimas ao fazer sucessivas conexões com o passado, partindo da respeitada tese de que a convivência no Presídio da Ilha Grande entre presos políticos e comuns, todos submetidos à famigerada Lei de Segurança Nacional, corroborou para o nascimento do chamado "crime organizado". Na produção, Murat explora os conflitos entre os dois grupos de detentos, representados pelos protagonistas Miguel (Caco Ciocler), um jovem intelectual de classe média, e Jorge (Flavio Bauraqui), o filho negro e pobre de um sambista. O filme acompanha a trajetória dos dois amigos desde a infância, passando pela convivência nas celas da Ilha Grande e o reencontro nos dias de hoje, quando um virou deputado federal e o outro, líder do Comando Vermelho. Mais do que fazer um simples recorte sobre certos aspectos da barra pesada da ditadura militar, a diretora consegue expor os dilemas atuais do país, cindido entre uma classe média insegura, cheia de medo e atraída pelo consumo desenfreado e um imenso contingente de pobres, que cada vez afeitos a este mesmo consumismo exagerado, opta por trocar os anos de vida pela sedução e pelo glamour do tráfico. Sustentado, aliás, pela classe média, num moto-contínuo aparentemente sem freio ou solução imediata. Estão lá a conivência policial, o deslumbre das "altas classes" com a figura do "marginal", a convivência compulsória da comunidade com os criminosos, a violência gratuita de quem se crê onipotente...
Destaco no filme também algumas boas metáforas, caso do muro proposto pelos próprios detentos e que a partir de certo momento divide em duas partes o pavilhão onde estão os presos políticos e os presos comuns, e da iluminação expressionista da cena em que Jorge, já alçado ao comando do tráfico, descansa em sua cela, coberto pela sombra das grades em contraluz, sugerindo que a prisão o acompanhará aonde esteja ou for. Evidentemente, Quase dois imãos tem suas deficiências. Entre as principais, o desenho esteriotipado de alguns personagens, como os militantes de esquerda dos anos 60 (se bem que questiono se alguns deles não eram mesmo "esteriótipos" em si) e a atuação dos atores-mirins, um problema recorrente no cinema brasileiro. Mas no todo é um filme que merece – e deve – ser visto, para que a gente possa refletir um pouco mais sobre o que está aí, em nossa volta, clamando por urgência. Às vezes preferimos mesmo não nos dar conta...
Escrito por Marcelo às 13h34
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"Cheek to cheek"
Irving Berling
"Heaven, I'm in Heaven, And my heart beats so That I can hardly speak; And I seem to find The happiness I seek When we're out together Dancing, cheek to cheek.
Heaven, I'm in Heaven, And the cares that hang Around me thro' the week Seem to vanish like A gambler's lucky streak When we're out together Dancing, cheek to cheek.
Oh! I love to climb a mountain, And to reach the highest peak, But it doesn't thrill me half as much As dancing cheek to cheek.
Oh! I love to go out fishing In a river or a creek, But I don't enjoy it half as much As dancing cheek to cheek.
Dance with me I want my arm about you; The charm about you Will carry me thro' to Heaven
I'm in Heaven, And my heart beats so That I can hardly speak; And I seem to find The happiness I seek When we're out together Dancing cheek to cheek"
Escrito por Marcelo às 11h18
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Poetas chilenos

Ontem conheci no Bip dois chilenos muito bacanas, com quem conversei sobre futebol, política, cinema, música e literatura. Rodolfo, um deles, hoje me "soprou" via e-mail, diretamente de Valparaíso, o nome de poetas de seu país que são completamente desconhecidos aqui - como Vicente Huidobro, autor desta beleza aí embaixo...
"Ella"
Vicente Huidobro
"Ella daba dos pasos hacia delante Daba dos pasos hacia atrás El primer paso decía buenos días señor El segundo paso decía buenos días señora Y los otros decían cómo está la familia Hoy es un día hermoso como una paloma en el cielo
Ella llevaba una camisa ardiente Ella tenía ojos de adormecedora de mares Ella había escondido un sueño en un armario oscuro Ella había encontrado un muerto en medio de su cabeza
Cuando ella llegava dejaba una parte más hermosa muy lejos Cuando ella se iba algo se formaba en el horizonte para esperarla
Sus miradas estaban heridas y sangraban sobre la colina Tenía los senos abiertos y cantaba las tinieblas de su edad Era hermosa como un cielo bajo una paloma
Tenía una boca de acero Y una bandera mortal dibujada entre los labios Reía como el mar que siente carbones en su vientre Como el mar cuando la luna se mira ahogarse Como el mar que ha mordido todas las playas El mar que desborda y cae en el vacío en los tiempos de abundancia Cuando las estrellas arrullan sobre nuestras cabezas Antes que el viento norte abra sus ojos Era hermosa en sus horizontes de huesos Con su camisa ardiente y sus miradas de árbol fatigado Como el cielo a caballo sobre las palomas"
Escrito por Marcelo às 16h32
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Aproximando...

"A mão que entregava à tua os primeiros sinais de verão já não sabe o caminho - é como se em vez de aprender fosse cada vez mais e mais ignorante. Ou ignorar fosse todo o saber."
Eugénio de Andrade
Escrito por Marcelo às 12h23
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Escritores
"(...) os escritores recortam estes casos e pensam: vou escrever sobre isto. Palavras como peças de um puzzle - no fim entende-se o mundo de novo como na primeira infância, as meninas mortas arrumam-se na estante dos fantasmas e das histórias repetidas. Os escritores barricam-se em histórias para não sofrer. Primeiro sofre-se, escreve-se por vingança. Depois atinge-se o requinte de escrever em vez de sofrer - as personagens que sofram por eles e, se possível, para lucro deles."
Inês Pedrosa
Escrito por Marcelo às 12h22
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Vininha

"O haver"
Vinícius de Moraes
"Resta, acima de tudo, essa capacidade de ternura Essa intimidade perfeita com o silêncio Resta essa voz íntima pedindo perdão por tudo - Perdoai-os! porque eles não têm culpa de ter nascido...
Resta esse antigo respeito pela noite, esse falar baixo Essa mão que tateia antes de ter, esse medo De ferir tocando, essa forte mão de homem Cheia de mansidão para com tudo quanto existe.
Resta essa imobilidade, essa economia de gestos Essa inércia cada vez maior diante do Infinito Essa gagueira infantil de quem quer exprimir o inexprimível Essa irredutível recusa à poesia não vivida.
Resta essa comunhão com os sons, esse sentimento Da matéria em repouso, essa angústia da simultaneidade Do tempo, essa lenta decomposição poética Em busca de uma só vida, uma só morte, um só Vinicius.
Resta esse coração queimando como um círio Numa catedral em ruínas, essa tristeza Diante do cotidiano; ou essa súbita alegria Ao ouvir passos na noite que se perdem sem história...
Resta essa vontade de chorar diante da beleza Essa cólera em face da injustiça e do mal-entendido Essa imensa piedade de si mesmo, essa imensa Piedade de si mesmo e de sua força inútil.
Resta esse sentimento de infância subitamente desentranhado De pequenos absurdos, essa capacidade De rir à toa, esse ridículo desejo de ser útil E essa coragem para comprometer-se sem necessidade.
Resta essa distração, essa disponibilidade, essa vagueza De quem sabe que tudo já foi como será no vir-a-ser E ao mesmo tempo essa vontade de servir, essa Contemporaneidade com o amanhã dos que não tiveram ontem nem hoje.
Resta essa faculdade incoercível de sonhar De transfigurar a realidade, dentro dessa incapacidade De aceitá-la tal como é, e essa visão Ampla dos acontecimentos, e essa impressionante
E desnecessária presciência, e essa memória anterior De mundos inexistentes, e esse heroísmo Estático, e essa pequenina luz indecifrável A que às vezes os poetas dão o nome de esperança.
Resta esse desejo de sentir-se igual a todos De refletir-se em olhares sem curiosidade e sem memória Resta essa pobreza intrínseca, essa vaidade De não querer ser príncipe senão do seu reino.
Resta esse diálogo cotidiano com a morte, essa curiosidade Pelo momento a vir, quando, apressada Ela virá me entreabrir a porta como uma velha amante Mas recuará em véus ao ver-me junto à bem-amada...
Resta esse constante esforço para caminhar dentro do labirinto Esse eterno levantar-se depois de cada queda Essa busca de equilíbrio no fio da navalha Essa terrível coragem diante do grande medo, e esse medo Infantil de ter pequenas coragens"
Escrito por Marcelo às 12h13
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Foi bonita a festa, ó pá!

Salvo engano, foi mestre Nelson Rodrigues quem afirmou certa vez que a mais modesta pelada pode guardar a complexidade de uma tragédia grega. O que aconteceu sábado, no Maracanã, foi muito próximo disso - embora alguns minimizem o feito tricolor, argumentando que se tratava tão-só de uma semifinal de turno. Pobres seres sem paixão... Não sabem que o aquilo que está em jogo em determinadas partidas é muito mais do que os três pontos, a classificação ou eliminação de um time ou do outro.
Tudo começou bem antes da partida. Durante toda a semana precedente, tomados por um crescente "complexo de vira-latas" (para usar mais uma expressão de Nelson), muitos amigos tricolores lamentavam a eliminação do Botafogo, que nos obrigaria a enfrentar um adversário contra quem vínhamos tendo seguidos insucessos. Mas como virar o jogo diante de um panorama desses, se não ganhando?, eu rebatia.
E não poderíamos apenas ganhar. Era preciso ganhar de forma sofrida, após um empate que foi fruto da incompetência do Flu para definir a partida no primeiro tempo, quando dominou largamente, e uma longuíssima série de pênaltis, capaz de levar às raias de um infarto o mais zen dos torcedores.
Na arquibancada, a meu lado, além dos amigos Janot, Marcio, Luise e Gustavo, havia figuras daquelas que a gente só encontra em jogos épicos como esse. Um, ajoelhado, cantava a clássica À benção, João de Deus. Outro, com lágrimas nos olhos, esmurrava o degrau de cimento. Um terceiro não agüentou e absteve-se de ver as cobranças.
A derrota se sugeriu iminente quando o goleiro do Vasco passeou por toda a pequena área para defender a cobrança do Gabriel. A vitória se sugeriu imediata quando Jean perdeu pênalti, e então nos abraçamos todos, efusivos, certos de que o "encosto" que nos perseguia nas partidas contra a equipe de São Januário tinha enfim terminado. Mas não. Era preciso mais, parecia dizer lá do céu o nosso Nelson, e o árbitro sinalizou que o gol fora anulado.
Naquele instante, passou pela cabeça de cada tricolor presente ao estádio: "eis o nosso destino, sucumbir mais uma vez diante do Vasco". Foi quando Nelson convocou o Sobrenatural de Almeida, e pediu-lhe que soprasse no ouvido de Kleber: "pule para o lado esquerdo". Obediente, nosso arqueiro o fez. E então um alívio monstruoso, do mesmo tamanho do silêncio que se espalhou do outro lado, vestiu-se das três cores que traduzem tradição. Saímos todos cantando pelos corredores do Maraca, tomados por aquela alegria que só se sente quando ela premia, mais do que um simples gozo, uma provação. Nense!
Escrito por Marcelo às 11h57
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Hoje, no Da Gema

Hoje à noite estarei no Carioca da Gema prestando a devida reverência ao mestre Wilson Moreira, autor de alguns dos mais líricos e deliciosos sambas que rolam em nossas rodas. Entre tanta coisa bonita que ele criou, a minha canção perferida é esta aí, tão 'canceriana' no tratamento da 'memória' como um espaço privilegiado pela nostalgia e pela idealização. Tomara que ele a cante mais tarde...
"Morrendo de saudade"
Wilson Moreira / Nei Lopes
"Estou morrendo de saudade de um tempo feliz que passou e eu não vi gosto de manhã, de sapoti Carícias no ar de um colibri Samambaias na varanda Tudo isso passou, perdi Samambaias na varanda Tudo isso passou, perdi
Quando o manto da noite cai sobre a cidade, que saudade... E quando a passarada anuncia a alvorada, que saudade... Arde tanto o coração que me causa a impressão que eu tenho o peito em chamas A saudade é um punhal cravado até o final No peito de quem ama Estou morrendo de saudade..."
Escrito por Marcelo às 10h38
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(Ainda mais) Eugénio

"O silêncio"
Eugénio de Andrade
"Quando a ternura parece já do seu ofício fatigada,
e o sono, a mais incerta barca, inda demora,
quando azuis irrompem os teus olhos
e procuram nos meus navegação segura,
é que eu te falo das palavras desamparadas e desertas,
pelo silêncio fascinadas."
Escrito por Marcelo às 10h32
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Mário de Sá Carneiro

"Quase"
Mário de Sá Carneiro
"Um pouco mais de sol - eu era brasa,
Um pouco mais de azul - eu era além.
Para atingir, faltou-me um golpe de asa...
Se ao menos eu permanecesse aquém...
Assombro ou paz? Em vão... Tudo esvaído
Num grande mar enganador de espuma
E o grande sonho despertado em bruma
O grande sonho - ó dor! - quase vivido...
Quase o amor, quase o triunfo e a chama,
Quase o princípio e o fim - quase a expansão...
Mas na minh'alma tudo se derrama...
Entanto nada foi só ilusão!
De tudo houve um começo ... e tudo errou...
Ai a dor de ser — quase, dor sem fim...
Eu falhei-me entre os mais, falhei em mim,
Asa que se lançou mas não voou..."
Escrito por Marcelo às 10h25
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Juli no Bar do Tom

A amiga Juli Mariano apresenta mais uma vez seu repertório calcado no melhor na bossa nova em apresentações com a Turma da Bossa no Bar do Tom, no próximo fim-de-semana. Boa oportunidade para quem ainda não conferiu a voz doce da moça. Ou para quem, tendo ouvido pela primeira vez, quer sempre ouvir de novo...
Escrito por Marcelo às 10h08
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Toni Platão

Na quarta que vem, o amigo e tricolor emérito Toni Platão encerra temporada no bar Maestro Carioca, que fica no Cittá America. Vou viajar até a Barra para prestigiá-lo e ouvir essa beleza que ele compôs há alguns anos... "Tudo que vai" Toni Platão / Alvim L. "Hoje é o dia
eu quase posso tocar o silêncio
A casa vazia
só as coisas que você não quis
Me fazem companhia
Eu fico a vontade com a sua ausência
Eu já me acostumei a esquecer... Tudo que vai
Deixa o gosto, deixa as fotos
Quanto tempo faz
Deixa os dedos, deixa a memória
Eu nem me lembro... Salas e quartos
somem sem deixar vestígios
Seu rosto em pedaços
misturado com o que não sobrou
do que eu sentia
eu lembro dos filmes que eu nunca vi
passando sem parar...em algum lugar... Tudo que vai
Deixa o gosto, deixa as fotos
Quanto tempo faz
Deixa os dedos, deixa a memória
Eu nem me lembro mais Fica o gosto, ficam as fotos
Quanto tempo faz
Ficam os dedos, fica a memória
Eu nem me lembro mais Quanto tempo...
eu já nem sei mais o que é meu
nem quando...
nem onde... Tudo que vai
Deixa o gosto, deixa as fotos
Quanto tempo faz
Deixa os dedos, deixa a memória
Eu nem me lembro mais"
Escrito por Marcelo às 15h48
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Mais poesia

"Estão caindo sobre mim cacos sem peso porque retorno em quedas sobre os braços volto ao espaço circunscrito, mas me teme meu corpo lento e bioquímico no escuro, e lentamente sei que me dissolvo aos quinze miligramas, seca em queda de paralisia quantificável.
Silêncio retornando sobre quedas paralisia em caixa, crédito e cheque onde risco assinatura de meu nome; hipnótico aconchego dos números menores, em firmas menores que ainda registram arabescamente seus lucros; eu queria:
Silêncio de resposta e sangue ainda os vidros soltos sobre a cara mesmo sem saber que retornamos saibamos que o espelho que desaba fere e contunde nossa cara"
Ana C.
P.S. A pintura é de Pablo Picasso
Escrito por Marcelo às 11h06
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Borges

"Não nos vimos mais, e um ano depois você tinha morrido. E eu, agora, busco essa recordação, e olho-a e penso que era falsa, e que por trás da despedida trivial estava a infinita separação. Na noite passada não saí depois de jantar e reli, para compreender estas coisas, o último pensamento que Platão põe na boca do seu mestre. Li que a alma pode fugir quando morre a carne. E agora não sei se a verdade está na aziaga interpretação ulterior ou na despedida inocente. Porque se as almas não morrem, é perfeitamente justo que em suas despedidas não haja ênfase. Dizer-se adeus é negar a separação, é dizer: hoje brincamos de nos separar, mas amanhã nos veremos. Os homens inventaram o adeus porque se sabem de algum modo imortais, ainda que se julguem contingentes e efêmeros. Delia! Um dia continuaremos -junto de que rio?- este diálogo incerto e nos perguntaremos se alguma vez, numa cidade que se perdia numa planície, fomos Borges e Delia".
Jorge Luis Borges
Escrito por Marcelo às 10h51
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Aos habitantes do planeta água...

"Alcoólicas"
Hilda Hilst
"É crua a vida. Alça de tripa e metal. Nela despenco: pedra mórula ferida. É crua e dura a vida. Como um naco de víbora. Como-a no livor da língua Tinta, lavo-te os antebraços, Vida, lavo-me No estreito-pouco Do meu corpo, lavo as vigas dos ossos, minha vida Tua unha plúmbea, meu casaco rosso. E perambulamos de coturno pela rua Rubras, góticas, altas de corpo e copos. A vida é crua. Faminta como o bico dos corvos. E pode ser tão generosa e mítica: arroio, lágrima Olho d'água, bebida. A Vida é líquida.
Também são cruas e duras as palavras e as caras Antes de nos sentarmos à mesa, tu e eu, Vida Diante do coruscante ouro da bebida. Aos poucos Vão se fazendo remansos, lentilhas d'água, diamantes Sobre os insultos do passado e do agora. Aos poucos Somos duas senhoras, encharcadas de riso, rosadas De um amora, um que entrevi no teu hálito, amigo Quando me permitiste o paraíso. O sinistro das horas Vai se fazendo tempo de conquista. Langor e sofrimento Vão se fazendo olvido. Depois deitadas, a morte É um rei que nos visita e nos cobre de mirra. Sussurras: ah, a vida é líquida.
E bebendo, Vida, recusamos o sólido O nodoso, a friez-armadilha De algum rosto sóbrio, certa voz Que se amplia, certo olhar que condena O nosso olhar gasoso: então, bebendo? E respondemos lassas lérias letícias O lusco das lagartixas, o lustrino Das quilhas, barcas, gaivotas, drenos E afasta-se de nós o sólido de fechado cenho. Rejubilam-se nossas coronárias. Rejubilo-me Na noite navegada, e rio, rio, e remendo Meu casaco rosso tecido de açucena. Se dedutiva e líquida, a Vida é plena.
Te amo, Vida, líquida esteira onde me deito Romã baba alcaçuz, teu trançado rosado Salpicado de negro, de doçuras e iras. Te amo, Líquida, descendo escorrida Pela víscera, e assim esquecendo Fomes País O riso solto A dentadura etérea Bola Miséria. Bebendo, Vida, invento casa, comida E um Mais que se agiganta, um Mais Conquistando um fulcro potente na garganta Um látego, uma chama, um canto. Amo-me. Embriagada. Interdita. Ama-me. Sou menos Quando não sou líquida."
P.S. Imagem de Salvador Dali, gentilente cedida pela Crib...
Escrito por Marcelo às 10h27
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Quatro Ws

A semana reserva duas ótimas pedidas para quem curte samba. Hoje, a partir das 21h, no Centro Cultural Carioca, rolará o show www.samba, reunindo os cantores e compositores Wilson das Neves, Walter Alfaiate e Wanderlei Monteiro. Os dois veteranos mestres e o autor da bela Água de chuva no mar mostrarão seus maiores sucessos. No Carioca da Gema, a atração é amanhã, quando o grupo Tempero Carioca, comandado por Moyses Marques (aquele que cantava na Comuna do Semente), receberá o grande Wilson Moreira, que brindará o público com pérolas como Senhora liberdade, Coisa da antiga e Gotas de veneno. Bem que seu Wilson poderia ser o quarto "w" da brincadeira no CCC, não?
Escrito por Marcelo às 10h06
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Blog da Crib

Quem agora também resolveu viajar pelo mundo virtual dos blogs foi a amiga Crib Tanaka. Em seu Desfio, ela publica textos e canções de que gosta líricas e muitas experimentações literárias, como esta abaixo, expressa em belo diálogo. Já está devidamente linkada...
"Desfiado pela manhã"
Crib Tanaka
"- Acha que uma criança de 4 anos pode ver a exposição do Farnese? ... uma menina?
- Ah, não...
- Acha que vai ficar chocada?
- Acho.
- Por quê?
- Porque ela vai ver pedaços de corpos de boneca cortados e provavelmente ainda vê alma nas bonecas que tem".
P.S. Por que a imagem? Porque é o quadro Poésie, do Klimt. E a retribuição do elogio é merecida: o Desfio também é pura poesia...
Escrito por Marcelo às 09h51
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Uma faca só lâmina

"Assim como uma bala enterrada no corpo, fazendo mais espesso um dos lados do morto; assim como uma bala do chumbo pesado, no músculo de um homem pesando-o mais de um lado qual bala que tivesse um vivo mecanismo, bala que possuísse um coração ativo igual ao de um relógio submerso em algum corpo, ao de um relógio vivo e também revoltoso, relógio que tivesse o gume de uma faca e toda a impiedade de lâmina azulada; assim como uma faca que sem bolso ou bainha se transformasse em parte de vossa anatomia; qual uma faca íntima ou faca de uso interno, habitando num corpo como o próprio esqueleto de um homem que o tivesse, e sempre, doloroso, de homem que se ferisse contra seus próprios ossos.
Seja bala, relógio, ou a lâmina colérica, é contudo uma ausência o que esse homem leva. Mas o que não está nele está como uma bala: tem o ferro do chumbo, mesma fibra compacta. Isso que não está nele como a coisa ciosa presença de uma faca, de qualquer faca nova. Por isso é que o melhor dos símbolos usados é a lâmina cruel (melhor se de Pasmado): porque nenhum indica essa ausência tão ávida como a imagem da faca que só tivesse lâmina. nenhum melhor indica aquela ausência sôfrega que a imagem de uma faca reduzida à sua boca. que a imagem de uma faca entregue inteiramente à fome pelas coisas que nas facas se sente.(...)"
João Cabral de Mello Netto
Escrito por Marcelo às 12h20
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Edu

Fim-de-semana, finalmente, de música. Música do grande Edu Lobo, a quem assisti no Mistura Fina sábado à noite. No palco, o cantor desfilou um repertório irrepreensível, que começou com Berimbau (do ídolo e influência Baden Powell), passou por Candeias, Ponteio, Upa neguinho, Valsa brasileira, Pra dizer adeus, entre outras ótimas canções, para brilhar ainda com mais intensidade em Beatriz. Faltaram apenas Canto triste e Sobre todas as coisas. Acompanhando Edu, um time de bambas: Cristóvão Bastos (responsável por todos os arranjos) no piano, Jorge Helder no baixo acústico e o jovem Rafael Barata na bateria. Espetáculo daqueles para ficar na memória, que deixou gosto de 'quero mais'. E pelo que me disse o Bernardo, filho dele, haverá mais mesmo: novos shows deverão rolar na cidade ao longo deste ano. Uma lembrança de sábado:
"No cordão da saideira"
Edu Lobo
"Hoje não tem dança Não tem mais menina de trança Nem cheiro de lança no ar Hoje não tem frevo Tem gente que passa com medo E na praça ninguém pra cantar
Me lembro tanto E é tão grande a saudade Que até parece verdade Que o tempo inda pode voltar
Tempo da Praia de Ponta de Pedra Das noites de lua, dos blocos de rua Do susto-e-a-carreira na caramboleira Do bumba-meu-boi - que tempo que foi Agulha-frita, munguzá, cravo e canela Serenata eu fiz pra ela Cada noite de luar
Me lembro tanto E é tão grande a saudade Que até parece verdade Que o tempo inda pode voltar Tempo do corso na rua da Aurora Moço do passo, menina e senhora No bonde de Olinda, pra baixo e pra cima Do caramanchão, não esqueço mais não
E frevo ainda, apesar da quarta-feira No cordão da saideira Vendo a vida se enfeitar"
Escrito por Marcelo às 11h16
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Entre quatro paredes

Fim-de-semana também de leitura: devorei em pouco menos de uma hora o texto da peça Entre quatro paredes, de Jean-Paul Sartre, um trabalho que transcende - e muito - o caráter meramente existencialista que lhe deu fama, já que fala sobre questões que serão sempre - e absolutamente - "atuais". A trama é simples: três pessoas são confinadas no inferno após a morte. Não se trata daquele inferno cristão do fogo e do demônio e coisa e tal, mas de uma sala, sem janelas e iluminada por todo o tempo, onde os três ficam enclausurados. Não dormem, tudo é um "eterno presente", e só o que resta a cada um deles é a companhia dos outros dois. O texto tem altíssima densidade e é cheio de ótimas frases, entre elas aquela que talvez seja a mais célebre sentença sartriana: "O inferno são os outros", síntese perfeita do que a peça insinua da primeira à última página. Sobre Entre quatro paredes, aliás, o José Castello escreveu saiu uma bela resenha, que saiu no Prosa & Verso do último sábado. Vale a leitura.
Escrito por Marcelo às 11h06
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Filmes

Foi um fim-de-semana também de filmes: Louca paixão, de Paul Verhoeven ainda na fase holandesa (a produção é de 1973), e Diários de uma paixão (foto), do talentoso Nick Cassavetes (que vem a ser filho do grande John Cassavetes). O primeiro é um trabalho inquieto, que resvala no escatológico, sobre a doida relação entre um homem iconoclasta e uma moça deslumbrada. Apenas regular. O segundo, indicado por una ninã porteña, é um prato cheio para os românticos de plantão. O espectador acompanha a história da paixão entre dois jovens, relatada por um senhor à idosa a quem visita diariamente. Ela tem uma doença degenerativa que destrói paulatinamente sua memória. Embora apresente alguns cacoetes do gênero melodrama, o filme flui num tom agridoce que é capaz de tocar corações mais sensíveis. Chamou a minha atenção uma poesia do Whitman, declamada lá pelo meio da projeção, que traz um belo verso que diz mais ou menos assim: "há um poema dentro de cada homem". Alguém conhece? Gostaria de ler o poema inteiro...
Escrito por Marcelo às 10h48
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Carrascoza

No sábado passado, o caderno Idéias publicou resenha minha sobre o delicado Dias raros, de João Anzanello Carrascoza. Na mesma edição, aliás, havia resenha do amigo Henrique Rodrigues, esta a respeito de Mare Nostrum, de Salim Miguel. Para conferir o caderno inteiro, clique aqui. Abaixo, o meu texto:
O doce-amargo da vida
Marcelo Moutinho*
A vida em matéria bruta, flagrada pelo olhar virgem de quem experimenta o doce-amargo das primeiras sensações e sobressaltos, emerge com delicadeza e lirismo em Dias raros, o novo livro de João Anzanello Carrascoza, recém-lançado pela Editora Planeta. Narrados sob a ótica de quem se encontra na tênue fronteira entre os mundos infantil e adulto, seus dez contos não hesitam em buscar na metáfora o substrato capaz de dar conta do susto que é o amadurecimento. A obra impressiona pela organicidade e pela prosa sóbria e sofisticada do autor, já conhecida de trabalhos anteriores, caso do ótimo Duas tardes.
Cerzidas em fiapos de enredo, as tramas de Dias raros engendram pequenas iluminações que os personagens dividem com o leitor, como o "ampliar-se" que o menino de "Cidade-mundo" saboreia ao conhecer a metrópole: "Saíram ainda escuro, a manhã hesitava, uns cheiros de dia novo pairavam no ar, e o menino se ria, no feliz de fazer uma viagem, coisa mínima para a maioria, ir de um aqui a um ali, costurar as margens do cá às do lá, mas para ele a raridade que raiava. (...) Iam eles, mãe e filho, e entre ambos, apertada, a felicidade do menino, temendo alargar-se, balão não de todo inflado pela ameaça de explodir". Era um "tudo demais para os braços miúdos" do garoto que, "de um sobressalto ao outro", "menino suspenso até outro menino", crescia.
O deslumbre com a cidade retorna em "Além dos trilhos", história da jovem que vivia a banal rotina do lar até o dia em que o pai resolve levá-la num passeio a dois. Ela, "flor aberta para descobertas", "matéria pura de esperança", conhece então aquela felicidade que mestre Guimarães Rosa dizia achar nas "horinhas de descuido" - e que chega a "doer". Uma dor boa, contudo. "Por ter, sem possuir, aquilo a qualquer hora que quisesse – a paisagem, o céu sobre sua cabeça, a cidade a seus pés. Ter não possuindo", como observa o narrador.
A viagem, como se nota, é elemento recorrente nos contos, em geral indicando o "percurso" durante o qual algo se modifica no interior dos personagens. Em "Balança", é o menino que parte em companhia do pai caminhoneiro. Em "Dias raros", o protagonista que sai de sua cidade para passar férias com a avó. Assim como em "Ponteiros" duas famílias põem os carros na estrada para saltar por alguns dias "das tarefas para as delícias", e no lancinante "Dor futura", em que o protagonista dirige enquanto sofre em silêncio pela doença terminal.
Sim, porque o universo da infância não é pintado somente em cor-de-rosa. O livro contempla questões como a perspectiva da morte, erigida na crueza bela do conto "Chamada", que arrebata ao revelar o diálogo recheado de não-ditos entre a mãe enferma e a filha que sai para estudar. A mãe, com "os olhos inchados de insônia, nos quais ainda se podia apanhar a noite, como uma moeda no fundo do bolso"; a filha, sentindo o peso de deixá-la ao informar que rumará para a aula: "A mulher escutou como se a filha nada tivesse dito senão Vou para a escola, mamãe, e ignorasse que existiam outras palavras, agarradas aos pés dessas, esguichando silêncio".
As felizes construções de Carrascoza brilham também em "Janelas", relato da visita do protagonista à sua irmã, cuja casa conta, através dos quadros, das paredes, dos bibelôs da cristaleira, do extrato bancário sobre a mesa, uma história de solidão. O homem surpreende-se ao encontrá-la com dois dentes a menos na boca. E explorando tal espanto, o autor constrói com destreza mais uma viagem, desta vez temporal, que transporta o homem para o velho quintal da casa dos pais, onde, "à sombra das videiras" e alheios "às ciladas do futuro", ele e a irmã brincavam, e os dois dentes faltando eram apenas sinal da idade.
A infância surge, então, como espaço do que foi perdido, aceno algo semelhante ao do comovente "Rosa do deserto", que descortina o (des)encontro fortuito entre um homem e uma mulher. Seduzido pelo olhar da moça, ele se confessa "desacostumado com a escrita dos gestos" e surpreende-se que alguém, "com tão pouco esforço, tivesse laçado no vácuo o menino que se perdera dele", devolvendo-o em seguida "sem dizer uma só palavra", quando "já mal conseguia encontrar no espelho o homem que vivia à sua superfície". Num lapso de ilusão, em poucos instantes o protagonista constrói toda uma história para o casal – coalhada mais de perspectivas do que de memória - até que algo (a covardia, talvez?) freia o "mecanismo dos sonhos" – e o leva de volta à "imensidão de suas perdas".
Mas num livro com tantos pontos altos, o conto que mais se destaca é o muitíssimo bem-construído "Umbilical", erigido em longo parágrafo cujo ritmo é marcado apenas pelas vírgulas que entremeiam as vozes da mãe e do filho. Expondo uma ousadia formal ausente do restante da obra, Carrascoza estabelece uma conexão perfeitamente harmônica entre as frases dos dois personagens, envoltos no misto de amor e comunhão que distingue as relações atadas pelo cordão umbilical e, embora "invisível", sempre une mãe e filho. O fio que permanece, apesar dos sucessivos partos que nos levam do menino ao homem.
E apesar de nossas sucessivas perdas, como aquela que fere de forma indelével o menino de "Dias raros" quando retorna das férias na casa da avó, para onde resistira a ir. Sofrera quando para lá seguiu. Sofrera no momento de voltar para casa. E não compreendia a razão. Até que, "num clarão", vislumbra uma resposta: "Era aquilo. Sempre uma ida às coisas e sua seqüente despedida. Na mesma hora que ganhava a vivência, nele ela se perdia. Sorte que vinha outra, a cicatrizar a alegria ou a abrir nova ferida, também logo substituída. E as pessoas nesse renovar-se, envelhecendo. As pessoas no meio, com suas raízes sujas de terra, cavoucando seus mistérios, bem-querendo-se, e juntas, acima das malqueridas ausências. E todas, todas, o tempo inteiro, indo embora".
Humano, demasiadamente humano.
* Jornalista e escritor
Escrito por Marcelo às 10h34
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Entrando no clima para amanhã...

"Choro bandido"
Edu Lobo/Chico Buarque
"Mesmo que os cantores sejam falsos como eu Serão bonitas, não importa São bonitas as canções Mesmo miseráveis os poetas Os seus versos serão bons Mesmo porque as notas eram surdas Quando um deus sonso e ladrão Fez das tripas a primeira lira Que animou todos os sons E daí nasceram as baladas E os arroubos de bandidos como eu Cantando assim: Você nasceu para mim Você nasceu para mim
Mesmo que você feche os ouvidos E as janelas do vestido Minha musa vai cair em tentação Mesmo porque estou falando grego Com sua imaginação Mesmo que você fuja de mim Por labirintos e alçapões Saiba que os poetas como os cegos Podem ver na escuridão E eis que, menos sábios do que antes Os seus lábios ofegantes Hão de se entregar assim: Me leve até o fim Me leve até o fim
Mesmo que os romances sejam falsos como o nosso São bonitas, não importa São bonitas as canções Mesmo sendo errados os amantes Seus amores serão bons"
Escrito por Marcelo às 13h45
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Mais Eugénio

"É apenas o começo. Só depois dói, e se lhe dá nome. Às vezes chamam-lhe paixão. Que pode acontecer da maneira mais simples: umas gotas de chuva no cabelo. Aproximas a mão, os dedos desatam a arder inesperadamente, recuas de medo. Aqueles cabelos, as suas gotas de água são o começo, apenas o começo. Antes do fim terás de pegar no fogo e fazeres do inverno a mais ardente das estações."
Eugénio de Andrade
Escrito por Marcelo às 13h24
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Modernidade

Escrito por Marcelo às 10h42
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Hermínio

Hoje, Hermínio Bello de Carvalho receberá homenagem do Carioca da Gema pela imensa fiha de serviços prestados à música brasileira. Estarei lá, ao lado de vários amigos, para prestigiá-lo - e também para ouvir a Áurea Martins cantar essa pérola que ele criou ao lado do grande Elton Medeiros. Acho que é um samba que fala a muita gente querida especialmente durante esse spleen que vivemos todos...
"Pressentimento"
Elton Medeiros / Hermínio Bello de Carvalho
"Ai, ardido peito, Quem irá entender o teu segredo, Quem irá pousar em teu destino, E depois morrer de teu amor?
Ai, mas quem virá? Me pergunto a toda hora, E a resposta é o silêncio, Que atravessa a madrugada.
Vem, meu novo amor, Vou deixar a casa aberta, Já escuto os teus passos, Procurando meu abrigo.
Vem, que o sol raiou, Os jardins estão florindo, Tudo faz pressentimento, Este é o tempo ansiado, De se ter felicidade."
Escrito por Marcelo às 09h55
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Eugénio

"Nas suas margens nuas, desoladas
Cada homem tem apenas para dar
Um horizonte de cidades bombardeadas"
Versos do poema 'As palavras que te envio são interditas', de Eugénio de Andrade
Escrito por Marcelo às 09h44
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Aquisições

Nova visita ao Carlinhos da Pedro Lessa e mais duas preciosidades debaixo do braço: uma cópia pirata de Cristina, o primeiro disco da Cristina Buarque, do qual estava atrás fazia tempo. É nele que está um lindo registro de Tatuagem, aquela do Ruy Guerra com o irmão mais famoso. O outro cd, este original, é da série Dois Momentos e reúne trabalhos do Paulinho da Viola raros de se achar por aí: o razoável Paulinho da Viola, de 1981, estréia do cantor na Warner, e o espetacular A toda hora rola uma estória, de 1982, talvez o melhor entre seus trabalhos tardios. O cd traz, entre outras canções, a bela Rumo dos ventos, as doídas Não é assim e Pra fugir da saudade, a lírica Nós os foliões (de Sidney Miller, citado aqui há poucos dias, e que conta com uma pequena e tocante introdução do próprio autor) e a serena Só o tempo, que posto abaixo como uma invocação geral por esse "tempo que ensina a gente a viver"...
"Só o tempo"
Paulinho da Viola
"Largo a paixão Nas horas em que me atrevo E abro mão de desejos Botando meus pés no chão É só eu estar feliz Acende uma ilusão Quando percebe em meu rosto As dores que não me fez
Ah, meu pobre coração O amor é um segredo E sempre chega em silêncio Como a luz no amanhecer Por isso eu deixo em aberto Meu saldo de sentimentos Sabendo que só o tempo Ensina a gente a viver"
Escrito por Marcelo às 17h14
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Cony, por Conde

O Globo On publica hoje textos do amigo Miguel Conde sobre o grande Carlos Heitor Cony. Além da divertida matéria que relata um passeio do escritor pela cidade, Miguel escreveu uma capichada resenha sobre o romance Tijolo de segurança, de 1960, que acaba de ser relançado (com uma capa feia de dar dó) pela Editora Objetiva. Abaixo, um trecho da resenha. Confira tudo aqui.
"(...) "Tijolo de Segurança", terceiro romance de Carlos Heitor Cony, traz um inventário de exemplos para esta famosa frase de Jean-Paul Sartre. O título do livro (relançado agora em edição revista pelo autor) vem de uma expressão utilizada na aeronáutica para designar o espaço imaginário que os aviões, quando em vôo, "carregam" em torno de si. Para que sejam evitadas colisões, uma aeronave não pode invadir o tijolo de segurança da outra. Entre os homens também é assim, diz Cony.(...)"
P.S. Na foto, atrás de Cony, está a imagem da cachorra cuja morte foi causadora da crise que redundou no ótimo Quase memória...
Escrito por Marcelo às 13h12
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Qual socialismo?

"Forbes põe Fidel entre os mais ricos do mundo"
Escrito por Marcelo às 10h27
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Mais Herberto Helder

"Não sei como dizer-te que a minha voz te procura e a atenção começa a florir, quando sucede a noite esplêndida e vasta. Não sei o que dizer, quando longamente teus pulsos se enchem de um brilho precioso e estremeces como um pensamento chegado. Quando, iniciado o campo, o centeio imaturo ondula tocado pelo pressentir de um tempo distante, e na terra crescida os homens entoam a vindima - eu não sei como dizer-te que cem ideias, dentro de mim, te procuram. Quando as folhas da melancolia arrefecem com astros ao lado do espaço e o coração é uma semente inventada em seu escuro fundo e em seu turbilhão de um dia, tu arrebatas os caminhos da minha solidão como se toda a casa ardesse pousada na noite. - E então não sei o que dizer junto à taça de pedra do teu tão jovem silêncio. Quando as crianças acordam nas luas espantadas que às vezes se despenham no meio do tempo - não sei como dizer-te que a pureza, dentro de mim, te procura. Durante a primavera inteira aprendo os trevos, a água sobrenatural, o leve e abstracto correr do espaço - e penso que vou dizer algo cheio de razão, mas quando a sombra cai da curva sôfrega dos meus lábios, sinto que me faltam um girassol, uma pedra, uma ave - qualquer coisa extraordinária."
Herberto Helder
Escrito por Marcelo às 09h58
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Ela faria 60 anos hoje...

"Vinte anos blues"
Sueli Costa / Vitor Martins
"Hoje de manhã quando acordei Olhei pra vida e me espantei Eu tenho mais de vinte anos Eu tenho mais de mil perguntas Sem respostas
Estou ligada num futuro blue Os meus pais nas minhas costas As raízes na marquise Eu tenho mais de vinte muros
O sangue jorra pelos furos Pelas veias de um jornal Eu não te quero, eu te quero mal
Essa calma que inventei, bem sei Custou as contas que contei Eu tenho mais de vinte anos Eu quero as cores e os colírios
Meus delírios Estou ligada num futuro blue"
P.S. Como ela está bonita na foto, não?
Escrito por Marcelo às 11h42
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Trecho

"Estive doente
doente dos olhos, doente da boca, dos nervos até.
Dos olhos que viram mulheres formosas
da boca que disse poemas em brasa
dos nervos manchados de gumo e café.
Estive doente
estou em repouso, não posso escrever.
Eu quero um punhado de estrelas maduras
eu quero a doçura do verbo viver"
(De um louco anônimo, citado por Caio Fernando Abreu, em O ovo apunhalado)
Escrito por Marcelo às 10h38
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Cristina Buarque e Mauro Duarte

Passei os últimos dias ouvindo o discaço Cristina e Mauro Duarte, infelizmente até hoje não lançado em cd, e no qual os dois artistas desfilam um repertório irrepreensível, em geral calcado em parcerias do próprio Mauro com bambas como Noca da Portela, Carlinhos Vergueiro, Maurício Tapajós e Paulo César Pinheiro. Minha música preferida no álbum é Reserva de domínio, uma pérola do desamor que lamentavelmente não é tão cantada nas rodas o quanto mereceria. Há uma curiosidade quanto a esta canção: ao contrário do costumeiro, Paulinho Pinheiro compôs a melodia, e coube a Mauro escrever a letra. E que letra!
"Reserva de domínio"
Paulo César Pinheiro / Mauro Duarte
"Um coração tão machucado como meu
Não tem mais forças pra agüentar uma outra dor
Já está cansado de aventuras
Foram tantas amarguras
Tá difícil de encarar um novo amor
Mas sei que muitas insistências vão surgir
Com a carência que hoje existe por aí
Hoje a alma aflita pelo tédio
Mediante tanto assédio
Se também se descuidar vai sucumbir
Mas tem que suportar
Sem se preocupar
Com as palavras atiradas pelo chão
Com as promessas perturbando o coração
São juras e mais juras desvairadas
Que eu presumo aparecer
Mas pra não sofrer
Tenho que me armar
Pro domínio não perder
Sei que água mole em pedra dura
Sempre bate até que fira
E é o que não pode acontecer"
Escrito por Marcelo às 10h01
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Crib
Foi o que de mais bonito ouvi sobre o meu blog até hoje: ontem, conversando com a amiga Crib Tanaka, comentava que apesar de não ser poeta havia recebido mensagem via e-mail me dando os parabéns pelo Dia da Poesia. Resposta da Crib: "Marcelo, o Pentimento é um poema".
Desculpe, Crib, mas foi tão bacana que não pude deixar de tornar público...
Escrito por Marcelo às 09h56
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Hoje é o Dia da Poesia

"Sobre o poema"
Herberto Helder
"Um poema cresce inseguramente
na confusão da carne,
sobe ainda sem palavras, só ferocidade e gosto,
talvez como sangue
ou sombra de sangue pelos canais do ser.
Fora existe o mundo. Fora, a esplêndida violência
ou os bagos de uva de onde nascem
as raízes minúsculas do sol.
Fora, os corpos genuínos e inalteráveis
do nosso amor,
os rios, a grande paz exterior das coisas,
as folhas dormindo o silêncio,
as sementes à beira do vento,
— a hora teatral da posse.
E o poema cresce tomando tudo em seu regaço.
E já nenhum poder destrói o poema.
Insustentável, único,
invade as órbitas, a face amorfa das paredes,
a miséria dos minutos,
a força sustida das coisas,
a redonda e livre harmonia do mundo.
— Embaixo o instrumento perplexo ignora
a espinha do mistério.
— E o poema faz-se contra o tempo e a carne"
Escrito por Marcelo às 17h01
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E por falar na Bethânia...

"Ela e eu"
Caetano Veloso
"Há flores de cores concentradas Ondas queimam rochas com seu sal Vibrações do sol no por da estrada Muita coisa, quase nada Cataclismas, carnaval
Há muitos planetas habitados E o vazio da imensidão do céu Bem e mal e boca e mel E essa voz que Deus me deu Mas nada é igual a ela e eu"
Escrito por Marcelo às 14h09
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Tom Wolfe

Recomendo a leitura da ótima resenha que o Marcus Barros Pinto escreveu sobre o livro Radical chique e o novo jornalismo (Companhia das Letras), que reúne reportagens de Tom Wolfe publicadas nos anos 60 e 70. O artigo de Barros Pinto saiu no caderno Idéias (JB) de sábado passado, e dele destaquei o trecho abaixo, em que são elencados os "quatro recursos específicos" de Wolf para seus textos em prosa. Valem também para nós...
"(...) Wolfe ensina haver “quatro recursos específicos, todos realistas, subjacentes à qualidade de envolvimento emocional dos mais potentes textos em prosa, sejam eles de ficção ou não-ficção”. E detalha: “construir cena a cena recorrendo o mínimo possível à mera narrativa histórica; testemunhar de fato as cenas da vida das outras pessoas no momento em que ocorrem, registrando o diálogo completo, pois tal diálogo envolve o leitor mais completamente do que qualquer outro recurso; usar o ponto de vista da terceira pessoa ou apresentar cada cena por intermédio dos olhos de um personagem particular, dando ao leitor a sensação de estar dentro da cabeça do personagem e, finalmente, o menos entendido dos recursos: o registro de gestos, hábitos, maneiras, costumes, estilos de mobília, roupa, decoração, maneira de viajar, comer, manter a casa, modo de se comportar com os filhos, os criados, os superiores, inferiores, os pares, os ares, olhares, poses, estilos de andar e outros detalhes simbólicos do dia-a-dia que possam existir dentro de uma cena. Simbólicos de quê? Do status de vida da pessoa. O registro desses detalhes não é mero bordado em prosa. Ele se coloca junto ao centro de poder do realismo, assim como qualquer outro recurso da literatura.” Como Balzac, “vai empilhando esses detalhes tão impiedosa e meticulosamente... (...)”
Escrito por Marcelo às 12h37
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Show da Bethânia

Como de costume, foi uma noite especialíssima a de sexta passada, quando enfim assisti ao show Tempo tempo tempo tempo, da Bethânia. Alguns pitacos sobre o espetáculo:
. Não entendi a saraivada de críticas ao cenário (de Daniela Thomas e Marcia Moon), completamente integrado à proposta do show, com menções geométricas à passagem do tempo e à memória. Também discordo que a movimentação tire a atenção da platéia com relação à cantora. Sinceramente, tantos ataques me pareceram um pré-conceito negativo sobre aquele tipo de arte (e falo de cadeira, pois nem é meu estilo preferido...);
. O set inicial é um deslumbre. Quando Bethânia canta Modinha, canção em que Vinícius fala justamente da estranha capacidade de o poeta transformar sua dor em beleza (ainda que para desfrute de outrem), não há como não sentir as lágrimas se aproximando. A grandeza da abertura não se mantém o tempo todo, mas a platéia é ganha já ali;
. No sábado à tarde, resolvi ver novamente Brasileirinho, agora em dvd. Certamente é um show mais orgânico, com melhor repertório até. Talvez, ao lado de Nossos momentos (de 1982, no Teatro da Praia), o melhor que Bethânia já fez. Mas é injusta a comparação com o atual tendo tal espetáculo como referência, porque se aquele foi um momento de iluminação suprema, este tem qualidade suficiente para ser chamado de "um grande show";
. A maturidade interpretativa de Bethânia impressiona. Ao contrário de cantoras como Gal Costa, que perderam o viço e se transformaram em caricaturas de diva, Bethânia apurou a voz e a afinação sem largar a alma;
. Meus destaques ficam com as interepretações da já citada Modinha, O astronauta, Minha namorada, A felicidade (palmas para a expressiva iluminação, principalmente neste momento) e da existencialista Tempo tempo tempo tempo, em que a cantora consegue conjugar fúria e delicadeza;
. É um show à flor da pele. Quem anda à flor da pele que nem eu, passa as pouco mais de duas horas com os olhos marejados. E algumas vezes as lágrimas descem mesmo...;
. O trecho do Monólogo de Orfeu, que ela lê em certo momento, é de uma beleza que vou lhes contar. Desconhecia o texto, mas hoje li inteiro e posto aqui parte do que ela declamou, grifando meus versos preferidos:
"(...) Ah, minha Eurídice, Meu verso, meu silêncio, minha música! Nunca fujas de mim! Sem ti sou nada Sou coisa sem razão, jogada, sou Pedra rolada. Orfeu menos Eurídice... Coisa incompreensível! A existência Sem ti é como olhar para um relógio Só com o ponteiro dos minutos. Tu És a hora, és o que dá sentido E direcção ao tempo (...)"
Escrito por Marcelo às 11h45
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Filosofia Medieval

A dica é do amigo Sidney: O Instituto de Filosofia e Teologia do Mosteiro de São Bento do Rio de Janeiro está oferecendo um curso de pós-graduação lato sensu em Filosofia Geral, com carga horária de 363 horas/aula. Com importantes nomes no corpo docente, como Emanuel Carneiro Leão (UERJ) e Paulo Faitanin (UFF), o curso, credenciado pelo MEC, terá ênfase na história da filosofia antiga, filosofia medieval (destaque para Santo Tomás de Aquino) e nos fundamentos da filosofia contemporânea. As aulas se iniciam no próximo dia 23 de março é são abertas a pessoas com curso superior em qualquer área. Para mais informações, basta acessar o site do Mosteiro www.osb.org.br/instituto, ou pelo e-mail instituto@osb.org.br.
Escrito por Marcelo às 11h38
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Clássico Vovô

Antes de qualquer outra coisa: saudações tricolores!
Escrito por Marcelo às 11h26
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Dias estranhos

É isso, enfim: o que o Renato Russo já cantava há alguns anos e eu poderia perfeitamente cantar agora. Seria adequado. Mas o post, para além disso, é um afago carinhoso no amigo HR, que também curte Legião e também tem achado os dias "estranhos"...
"Teatro dos vampiros"
Legião Urbana
"Sempre precisei de um pouco de atenção Acho que não sei quem sou Só sei do que não gosto E destes dias tão estranhos Fica poeira se escondendo pelos cantos Este é o nosso mundo: o que é demais nunca é o bastante E a primeira vez é sempre a última chance. Ninguém vê onde chegamos: Os assassinos estão livres, nós não estamos Vamos sair - mas não temos mais dinheiro Os meus amigos todos estão procurando emprego Voltamos a viver como há dez anos atrás E a cada hora que passa Envelhecemos dez semanas Vamos lá, tudo bem - eu só quero me divertir Esquecer, dessa noite ter um lugar legal pra ir Já entregamos o alvo e a artilharia Comparamos nossas vidas E esperamos que um dia Nossas vidas possam se encontrar Quando me vi tendo de viver comigo apenas E com o mundo Você me veio como um sonho bom E me assustei Não sou perfeito Eu não esqueço A riqueza que nós temos Ninguém consegue perceber E de pensar nisso tudo, eu, homem feito Tive medo e não consegui dormir. Comparamos nossas vidas E mesmo assim, não tenho pena de ninguém"
Escrito por Marcelo às 11h44
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Mais Pizarnick

"Por un minuto de vida breve
unica de ojos abiertos
por un minuto de ver
en el cerebro flores pequeñas
danzando como palabras en la boca de un mudo"
Alejandra Pizarnick
Escrito por Marcelo às 11h23
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Só uma questão

Como é que se faz para nominar uma espécie de "nada" que vai inflando dentro da gente e ameaça tomar conta de tudo: fígado, estômago, intestinos, coração? Como posso conhecer um sentimento se não sei o seu nome?
Escrito por Marcelo às 11h08
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Bethânia | |