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Frase

"Amar o mesmo de si no outro às vezes acorrenta"
Caio Fernando Abreu, no conto O rapaz mais triste do mundo...
Escrito por Marcelo às 11h46
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Azul

"Além da razão" Sombrinha - Sombra - Luiz Carlos da Vila "Por te amar
Eu pintei
Um azul do céu se admirar
Até o mar
Adocei
E das pedras leite eu fiz brotar
De um vulgar
Fiz um rei
E do nada um império pra te dar
E a cantar eu direi
O que eu acho então o que é amar
É uma ponte
Lá para o longe do horizonte
Jardim sem espinho
Pinho que vai bem
Em qualquer canção
Roupa de vestir
Em qualquer estação
É uma dança, paz de criança
Que só se alcança
Se houver carinho
É estar além
Da simples razão Basta não mentir pro seu coração"
Escrito por Marcelo às 11h35
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Pitacos

Não assisti a todos os filmes e sequer vi a cerimônia, mas onferindo os resultados agora pela manhã posso garantir que fiquei muito feliz por:
. O talentoso Jorge Drextler ter ganho o Oscar de Melhor Canção, com El otro lado del río (ele era um azarão);
. Brilho eterno de uma mente sem lembraças ter ganho como Melhor Roteiro Original;
. O mesmo com Sideways em Melhor Roteiro Adaptado;
. E com Jamie Foxx como melhor ator no fraquíssimo Ray.
Escrito por Marcelo às 11h21
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Soneto

Por falar em amizade, me emocionou - e muito - o belíssimo soneto que o não menos querido Henrique Rodrigues fez, ainda sob o efeito da dor lancinante que é perder o pai. O poema é dedicado aos imprescindíveis amigos que nos confortam nessas horas...
"A não-tormenta"
Henrique Rodrigues
para dois ou três amigos
"E novamente vejo o mar parado. As ondas se deitaram. O próprio vento, Que outrora me ofertava movimento, Parece que dormiu de tão cansado.
Ao norte nada, e em seu oposto lado Lembranças, que sussurram num alento, No oeste um sol se põe, já sonolento, Do leste surge um céu revigorado:
É noite grande. Cada estrela é um marco De quem pôs resistência em naufragar. E então, com cada braço faço um arco.
Sem ver para onde vou, passo a remar. Nao sei quanto de mim constrói o barco, Nem sei quanto de mim preenche o mar"
Escrito por Marcelo às 14h09
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Parabéns

"A amizade é a sabedoria dos homens livres"
A frase é de Albert Camus, um dos escritores preferidos desse amigo querido que é o Flávio Izhaki. Dedico a frase a ele, numa singela homenagem diante do tanto que representa para mim esse camarada que aniversaria amanhã. Parabéns, amigo!
Escrito por Marcelo às 12h17
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Elliot

"O tempo presente e o tempo passado Estão ambos talvez presentes no tempo futuro, E o tempo futuro contido no tempo passado. Se todo o tempo é eternamente presente Todo o tempo é irredimível. O que podia ter sido é uma abstração Permanecendo possibilidade perpétua Apenas num mundo de especulação. O que podia ter sido e o que foi Tendem para um só fim, que é sempre presente. Ecoam passos na memória Ao longo do corredor que não seguimos Em direção à porta que nunca abrimos Para o roseiral. As minhas palavras ecoam Assim, no teu espírito. Mas para quê Perturbar a poeira numa taça de folhas de rosa"
T. S. Elliot
P.S. A pintura é de Monet...
Escrito por Marcelo às 11h02
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"I'll be watching"

"Every breath you take"
Sting
"Every breath you take Every move you make Every bond you break Every step you take I'll be watching you.
Every single day Every word you say Every game you play Every night you stay I'll be watching you.
Oh can't you see You belong to me? How my poor heart aches with every step you take.
Every move you make Every vow you break Every smile you fake Every claim you stake I'll be watching you.
Since you've gone I've been lost without a trace. I dream at night, I can only see your face I look around but it's you I can't replace. I keep crying baby,baby please...
Every move you make Every vow you break Every smile you fake Every claim you stake I'll be watching you.
Every move you make Every vow you break Every smile you fake Every claim you stake I'll be watching you"
Escrito por Marcelo às 10h36
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Alejandra Pizarnik

Acabo de descobrir essa interessante poeta argentina que é Alejandra Pizarnik - e já virei fã dela. Não sei por que (e nem tenho conhecimento de sua obra para tal), mas seus versos me lembram os da querida Hilda Hilst. Conheci Pizarnik através de um trecho traduzido do poema En esta noche en este mundo, que assim dizia:
"e o que é que vais dizer vou dizer apenas algo e o que é que vais fazer vou ocultar-me na linguagem e porquê tenho medo
Não, as palavras não fazem amor fazem ausência Se digo água, beberei? Se digo pão, comerei?"
Partindo deste enxerto, encontrei o poema inteiro, na língua original. É de uma beleza singular (como a do rosto dela, aliás...):
"en esta noche en este mundo las palabras del sueño de la infancia de la muerte nunca es eso lo que uno quiere decir **la lengua natal castra la lengua es un órgano de conocimiento el fracaso de todo poema castrado por su propia lengua** que es el órgano de su re-creación del re-conocimiento pero no el de la resurrección de algo a modo de negación de mi horizonte de maldoror con su perro y nada es promesa entre lo decible que equivale a mentir (todo lo que se puede decir es mentira) el resto es silencio sólo que el silencio no existe
no las palabras no hacen el amor hacen la ausencia si digo agua ¿beberé? si digo pan ¿comeré? en esta noche en este mundo extraordinario silencio el de esta noche lo que pasa con el alma es que no se ve lo que pasa con la mente es que no se ve lo que pasa con el espíritu es que no se ve. ¿de dónde viene esta conspiración de invisibilidades? ninguna palabra es visible sombras recintos viscosos donde se oculta la piedra de la locura corredores negros los he recorrido todos ¡oh quédate un poco más entre nosotros!
los deterioros de las palabras deshabitando el palacio del lenguaje el conocimiento entre las piernas ¿qué hiciste del don del sexo? oh mis muertos me los comí me atraganté no puedo más de no poder más
palabras embozadas todo se desliza hacia la negra licuefacción y el perro de maldoror en esta noche en este mundo donde todo es posible salvo el poema
hablo sabiendo que no se trata de eso siempre no se trata de eso oh ayúdame a escribir el poema más prescindible el que no sirva ni para ser invisible ayúdame a escribir palabras en esta noche en este mundo"
Alejandra Pizarnik
Escrito por Marcelo às 16h07
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Toscana

A matéria de capa de hoje do caderno Boa Viagem (jornal O Globo) está de mexer com as estruturas de qualquer mortal: fala das delícias da região da Toscana, parte da Itália mais isolada do progresso e repleta de história, cultura e boa gastronomia. Dá vontade de comprar a passagem agora mesmo...
Escrito por Marcelo às 11h45
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Carrascoza

Do João Anzanello Carrascoza, já conhecia a coletânea de contos Duas tardes, que foi minha companhia inseparável durante a primeira edição da Flip e da qual postei alguns trechos no antigo Pentimento (Blogger). Ontem, com vistas a uma futura resenha para o caderno Idéias (JB), comecei a ler Dias raros, outra seleta de narrativas curtas. No novo trabalho, mais uma vez estão presentes o lirismo e a delicadeza que fazem do autor uma das exceções entre aqueles que despontaram com a chamada Geração 90. Falarei mais sobre a obra na resenha, mas queria dar uma palinha aqui antes. O trecho abaixo é do conto Cidade-mundo, que descreve a viagem de um menino, acompanhado da mãe, à "cidade grande":
"(...) Saíram ainda escuro, a manhã hesitava, uns cheiros de dia novo pairavam no ar, e o menino se ria, no feliz de fazer uma viagem, coisa mínima para a maioria, ir de um aqui a um ali, costurar as margens do cá às do lá, mas para ele a raridade que raiava. O pai os levara de carro até o ponto de ônibus na estrada. E agora iam eles, mãe e filho, e entre ambos, apertada, a felicidade do menino, temendo alargar-se, balão não de todo inflado pela ameaça de explodir. (..)"
Escrito por Marcelo às 10h52
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Bruma

"Anunciação"
Alceu Valença
"Na bruma leve das paixões que vêm de dentro Tu vens chegando pra brincar no meu quintal No teu cavalo peito nu cabelo ao vento E o sol quarando nossas roupas no varal Tu vens, tu vens Eu já escuto os teus sinais A voz do anjo sussurrou no meu ouvido E eu não duvido já escuto os teus sinais Que tu virias numa manhã de domingo Eu te anuncio nos sinos das catedrais"
Escrito por Marcelo às 10h41
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A escrita engana?

"Nada devolve o ato. A escrita engana, engole a frio e a seco o mau bocado e fez uma careta, consolada.
Porém o ensejo continua perdido e todas essas bocas imbeijadas, como uma espécie de estátua risível
que não há verso ou prosa que derrube por mais que tente, insista, se repita: nada revoga o fato. A escrita embroma
mas não abole o acaso consumado, não redesperta o desejo rendido nem morde bocas mal beijadas,
e o momento ridículo persiste, engalanado, feito um monumento, imune ao tempo, ao vento, a todo verso,
mesmo o que sabe que jamais abala nada, somente embola, mente, embala. E não consola"
Paulo Henriques Britto
(para lembrar de um papo via e-mail sobre a (in) utilidade das palavras...)
Escrito por Marcelo às 10h34
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Por Ella

"Misty"
Erroll Garner
"Look at me, I'm as helpless as a kitten up a tree; And I feel like I'm clingin' to a cloud, I can' t understand I get misty, just holding your hand. Walk my way, And a thousand violins begin to play, Or it might be the sound of your hello, That music I hear, I get misty, the moment you're near. Can't you see that you're leading me on? And it's just what I want you to do, Don't you notice how hopelessly I'm lost That's why I'm following you. On my own, When I wander through this wonderland alone, Never knowing my right foot from my left My hat from my glove I'm too misty, and too much in love. Too misty, And too much In love....."
Escrito por Marcelo às 11h22
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Ouvindo...

Ouça comigo aqui.
Escrito por Marcelo às 11h02
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Fotógrafo?

Com esta, publicada na coluna do Ancelmo Góis de hoje, já são três as fotos que emplaquei no jornal O Globo, apesar de ser um jornalista da escrita. A história aqui é curiosa: conhecia o Mário Ferrer (o grisalho da imagem) lá do Bip, onde costuma aparecer com uns instrumentos estranhíssimos, criados por ele próprio. Através do Alfredinho, acabei sabendo que mora na mesma rua que eu (a Avenida São Sebastião) e costuma aproveitar suas caminhadas matinais pela Urca para catar, com uma ferramenta também saída de sua imaginação, o lixo que alguns moradores e visitantes deixam pelo chão. A tal ferramenta fez tanto sucesso que alguns vizinhos pediram que construísse objetos semelhantes para eles, e reforçaram o trabalho de limpeza aliada ao exercício físico. A história é tão bacana que ehcgou hoje à coluna do Ancelmo, ao lado da foto que fiz ontem cedinho...
Escrito por Marcelo às 09h57
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"De anatomia de um clichê"
Michael Hartnett
"Ouça, se eu viesse até você, saído do vento, vestindo somente meu sonho esvaído, você me daria abrigo? Ando sem eira nem beira não tenho nada que o mundo queira. Amo você: minha fortuna é só essa. Mas, sei, não podemos navegar sem redes: sei que você não pode se expor, por mais suave que seja o vento ou por mais leve que seja a chuva."
Escrito por Marcelo às 09h49
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Pra não esquecer

"O correr da vida embrulha tudo, a vida é assim: esquenta e esfria, aperta e daí afrouxa, sossega e depois desinquieta. O que ela quer da gente é coragem"
Guimarães Rosa
Escrito por Marcelo às 09h45
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Verso

"Eu sei que embaixo dessa neve também mora um coração"
Tom Jobim
Escrito por Marcelo às 18h52
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...

"Para um amor no Recife"
Paulinho da Viola
"A razão porque mando um sorriso E não corro É que andei levando a vida Quase morto Quero fechar a ferida Quero estancar o sangue E sepultar bem longe O que restou da camisa Colorida que cobria Minha dor Meu amor eu não me esqueço Não se esqueça por favor Que voltarei depressa Tão logo a noite acabe Tão logo este tempo passe Para beijar você"
Escrito por Marcelo às 15h11
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Lua cheia

Tá chegando, tá chegando...
Escrito por Marcelo às 12h02
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Mais Carpinejar

"O cansaço agravou sua indigência
Exigiu que derrubássemos
os livros da estante.
Não poderíamos reagir,
a respiração atormenta a bússola.
- Nada é definitivo. Nem a memória.
A imaginação desloca as lembranças
e depois não as encontramos."
Fabrício Capinejar
Escrito por Marcelo às 11h56
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Travis e Jane

Há alguns dias conversava com a Eugênia sobre Paris, Texas, o filme que me fez gostar de cinema. Ela me perguntava qual a seqüência de que mais gostava na obra, e sem pestanejar respondi que era aquela que registra o reencontro de Travis (Harry Dean Stanton), o protagonista, com a ex-mulher (vivida pela deslumbrante Nastassja Kinski), no peepshow onde ela trabalha. Trata-se, sem dúvida, de um dos mais contundentes diálogos já levados à tela - e genialmente fotografado (notem a sutileza do fotograma acima, tão repleto de valor simbólico...). No sábado, voltei a lembrar do filme ao falar sobre Wim Wenders, o diretor, que foi objeto de um trabalho de fôlego que escrevi como conclusão de minha pós-graduação em Comunicação e Imagem pela PUC. Ontem resolvi rever a seqüência e reli o trecho da monografia que faz alusão às tais cenas. É o que se segue:
(...) Travis é também um expatriado. Se renuncia à linguagem e parte para o deserto, é motivado exatamente pela constatação do inferno em que se transformou sua vida. Inferno causado pela manipulação de falsas imagens. Tomava a mulher como uma prostituta, que, acreditava, traía-o nas tardes enquanto trabalhava. Herdara do pai a formulação dessa imagem. Como ele mesmo conta ao irmão durante o filme, o pai costumava dizer a todos que conhecera sua mãe em "Paris"; e dava uma pausa antes de completar: "Texas". Com o tempo, foi acreditando de verdade na idéia.
Há um diálogo, na parte final da produção, que esclarece a questão. Travis conversa como filho no quarto de hotel, local de baixa categoria em que resolvem passar a noite. "Este não é lugar para se trazer uma mulher de classe", comenta Travis. "O que é uma mulher de classe?", pergunta Hunter. "Minha mãe, não a sua. Minha mãe era simples e boa, mas meu pai tinha uma idéia na cabeça que era como uma doença (...) Olhava para ela, mas não a via, via aquela idéia. Dizia que ela era de Paris. Era uma mentira. Mas repetiu tantas vezes que deixou de ser. Passou a acreditar. E acreditar mesmo. Ela ficava muito sem graça. Era tão tímida..."
Assim como o pai, Travis olhava para Jane e via apenas o modelo que escolhera para classificá-la. Ele só reconheceria isto no diálogo que travará com a ex-mulher, numa das seqüências finais do filme. Será a grande conclusão do personagem após seu retorno ao mundo dos vivos. Essa volta funciona como uma espécie de ressocialização a partir de um pressuposto de morte social. E o reencontro com Jane decorre num local emblemático da pós-modernidade: um peep-show, onde os clientes podem simular situações de erotismo. A boate é dividida em pequenas cabines, onde há apenas um espelho de duas faces e um telefone. Por ali, os clientes podem se comunicar com as mulheres, sem serem vistos (ou tocá-las). A relação ocorre no contexto visual e imaginário, alçado a um grau maior do que qualquer contato táctil.
É bastante revelador que seja justamente neste local que Travis vá expiar sua culpa. No centro desta alegoria-mor do simulacro, ele repassa em capítulos as suas falhas e discorre sobre o erro motivado pelas falsas imagens construídas. Uma cena rara de beleza ocorre: por um instante fugidio, as imagens dos rostos de Travis e Jane se fixam no espelho. Wenders aponta com sutileza para aquele instante reflexo de um sonho desfeito.
O fotograma revela sintética e sintomaticamente os propósitos do filme. O rosto de Travis parece fundido ao da ex-mulher. Dá-se enfim a união que tantas esperanças alimentou quando ambos ainda eram jovens e renasceram tímidas após a volta de Travis.
A união possibilitada através do reflexo dos rostos no espelho do peep-show. Os braços de Jane, colados ao espelho, indicam uma assustadora vontade de tocar em Travis, mas esse reencontro na chamada vida real, sugere o cineasta no fotograma, é impossível.
Mesmo naquele momento, quando a maior parte da história já transcorreu e um diálogo esclarecedor define melhor a imagem que tinham um do outro, permanecemos nos jogos de simulação. Travis fala, mas é ao telefone; Jane está próxima do espelho para tentar vê-lo. Consegue, mas não pode tocá-lo. Apesar de tudo, os olhares de ambos voltam-se para buscar no olhos do outro rosto uma espécie de resgate do exílio consentido.
Tudo no fotograma parece imerso numa transparência opaca. Em dimensões diferentes, no mesmo local, enxergamos os reflexos da luminária e das mãos de Jane; também a cortina quadriculada. No mesmo exato lugar, estão ainda os rostos dos dois, onde sobressai a face serena de Traves e os cabelos loiros não gratuitamente pintados de Jane.(...)
Escrito por Marcelo às 11h46
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"Solidão, que nada"
Cazuza / George Israel / Nilo Roméro
"Cada aeroporto É um nome num papel Um novo rosto Atrás do mesmo véu
Alguém me espera E adivinha no céu Que meu novo nome é Um estranho que me quer
E eu quero tudo No próximo hotel Por mar, por terra Ou via Embratel
Ela é um satélite E só quer me amar Mas não há promessas, não É só um novo lugar
Viver é bom Nas curvas da estrada Solidão, que nada Viver é bom Partida e chegada Solidão, que nada"
Escrito por Marcelo às 10h39
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Uma imagem possível...

...para Tenderly. Ouça aqui.
Escrito por Marcelo às 19h10
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Conto para a Paralelos
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Sexta-feira de cinzas
Marcelo Moutinho
“Seria essa alegria uma farpa?” Mara Coradello
Entre os velhos gordos travestidos com os vestidos das próprias mulheres, o palhaço errante com a lata de cerveja na mão, a moça que beijava o rapaz de modo tão sôfrego quanto falso, entre as bocas que ali davam o primeiro dos tantos beijos que dariam nos dias que seguiram, entre vendedores de bebibas e salsichões, entre marchinhas desgastadas mas sempre novas e sambas e batuques e tamborins desafinados de tamanha animação, entre a alegria exasperada daquela pequena multidão de pobres-diabos na sacrossanta missão de ser feliz a fórceps, estava eu.
E minha missão, após desistir do sono cedo, após vestir o jeans e a camisa Hering com a frase do Sartre, era apenas mendigar um pouco do que sossobrava sobre o chão cinzento da Cinelândia, a praça tomada por sorrisos, os brancos dos dentes contrastando com as fagulhas esparsas dos paetês, a luz fugidia batendo nas roupas baratas compradas no Saara, sobre chapéus, máscaras, narizes, brincos, panos, anéis, pessoas em suas dores domadas. Queria as moedas que eles guardavam nos bolsos. Queria o seu ouro.
Pois ali, em frente ao coreto repleto de senhores de terno e gravata segurando como podem seus cachês de uma vez ao ano, eu era apenas um confete atemporão, o confete molhado do depois, largado num canto qualquer do piso que não chegou a secar de todo apesar do sol incipiente de uma manhã da quarta-feira de cinzas qualquer; abandonado após o vôo sublime e ligeiro do saco plástico ao ar, do ar ao rosto do folião suado e de sua pele molhada enfim ao chão. O confete da quarta quando ainda era sexta e o carnaval sequer começara, embora as pessoas transpirassem expectativas.
A pequena multidão e eu, que não fazia parte dela. Éramos dois entes, radicalmente opostos, yin yang, homem mulher, dia noite, glória fracasso. Ela, ritmo; eu, melodia. Bebia do ouro que me sobrava caindo dos bolsos alheios para ganhar forças e procurar, esticando os olhos através de toda a gente, as formas curvas de uma borboleta branca. Encontrá-la: para isso levantei-me da cama, vesti a calça jeans, a camisa Hering com a frase do Sartre e peguei o Metrô. Na praça, meu olhar atravessava a multidão em linhas sinuosas, tentando precisar o desenho da tal borboleta, como se eu pudesse, munido de uma daquelas tesourinhas sem ponta que fingem não machucar a infância, recortá-la com precisão em meio ao caos consentido.
Procurei entre o casal que se lambia, encostado na pilastra. Procurei debaixo do coreto e no oco da corneta do músico de cabelos grisalhos. Cutuquei entre as latas de cerveja recolhidas para reciclagem. Dentro da cartola do garoto vestido de mágico. Investiguei as saias vermelhas das meninas que se queriam ciganas, sob a peruca de palhaço de cabelos verdes. Tentei achá-la na entrada da igreja evangélica voltada para a praça, no banheiro do bar onde os bêbados brindavam a qualquer coisa. Conferi ainda os colares de conchas de uma baiana, o cocar colorido de um índio americano, a vassoura de uma bruxa.
Ela, contudo, não estava. Talvez num próximo bloco, numa próxima festa, num próximo baile, num outro dia de marchinhas, de sambas, serpentinas, confetes, de velhos gordos travestidos com os vestidos das próprias mulheres, de coretos e sorrisos desalinhados, de beijos e trepadas rápidas, bate-bolas e odaliscas, de bebidas e salsichões, de brilhos fugazes roubados do cotidiano, de algazarra e alegrias compulsórias como a casa própria.
Continuaria procurando. A borboleta branca que um dia pousou em meu ombro e se foi, antes que pudesse amá-la. A borboleta que, jurei a mim mesmo, viveria mais do que um dia, contrariando as leis naturais da espécie. A borboleta que batia suas asas delicadamente dentro de mim enquanto permaneci ali na Cinelândia, vestindo apenas minha calça jeans e a camisa Hering com a frase do Sartre, ainda assim fantasiado. |
Escrito por Marcelo às 14h09
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"Além das palavras, aquém do sono"

"Acalanto"
Paulo Henriques Britto
"Noite após noite, exaustos, lado a lado, digerindo o dia, além das palavras e aquém do sono, nos simplificamos,
despidos de projetos e passados, fartos de voz e verticalidade, contentes de ser só corpos na cama;
e o mais das vezes, antes do mergulho na morte corriqueira e provisória de uma dormida, nos satisfazemos
em constatar, com uma ponta de orgulho, a cotidiana e mínima vitória: mais uma noite a dois, um dia a menos.
E cada mundo apaga seus contornos ao aconchego de um outro corpo morno".
Escrito por Marcelo às 13h12
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Ella & Louis

Tenho por esses duas ouvido seguidamente aquele que posivelmente considero o melhor álbum de jazz de todos os tempos. Falo do primeiro disco que Ella Fitzgerald e Louis Armstong gravaram juntos, lançado originalmente pela Verve, e que traz standards como They can´t take that away from me (em registro que rivaliza com o de Frank Sinatra), A foggy day, April in Paris e a linda, linda, linda Cheek to cheek, que é cantada aos sussurros pela diva. Ella & Louis foi gravado em uma única sessão realizada em 16 de agosto de 1956 nos estúdios da Capitol, em Los Angeles, quando o lendário produtor Norman Granz teve a felicidade de reunir, além da dupla, feras como Oscar Peterson (piano), Herb Elias (guitarra), Brown (baixo) e Buddy Rich (bateria). O êxito do disco resultaria em mais dois grandes álbuns: Ella & Louis again e Porgy and bess (do musical de Gershwin), ambos reeditados no Brasil. A cada temporada que retomo as canções do primeiro cd, elejo uma canção diferente. Desta vez é Tenderly. A música se inicia com um tocante e poderoso solo de trumpete de Armstrong, que logo dá vez à melodiosa voz de Fitzgerald. O próprio Louis canta alguns versos e o que se segue, então, é uma deliciosa combinação: o sopro choroso de Satchmo interagindo delicadamente com as intervenções de Ella e o piano de Peterson. De arrepiar. De ouvir de novo. Sempre. Sempre. Sempre.
"Tenderly"
Jack Lawrence/Walter Gross
"The evening breeze caressed the trees tenderly The trembling trees embraced the breeze tenderly Then you and I came wandering by And lost in a sigh were we The shore was kissed by sea and mist tenderly I can´t forget how two hearts met breathlessly Your arms opened wide and closed me inside You took my lips, you took my love so tenderly"
Escrito por Marcelo às 11h58
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Garrincha

Estréia hoje nos cinemas de todo o país o filme Garrincha - Estrela solitária, dirigido por Milton Alencar Jr com base no livro homônimo de Ruy Castro. Escrevi uma resenha sobre a produção para o site Críticos.Com. Abaixo, um trecho do meu texto. Confira a íntegra aqui.
(...) O sério lapso inicial, embora não se confirme totalmente, é um bom indicador dos vários problemas do filme, que tenta dar conta de explicitar a tragédia que foi a vida do Mané, mas acaba servindo, acima de tudo, como desagravo à cantora Elza Soares, sua companheira durante boa parte da existência. Irregular, o trabalho do diretor Milton Alencar Jr. trafega entre pouquíssimos bons achados e muita inverossimilhança. É flagrante a falta de criatividade no roteiro – leite acumulando na porta para indicar passagem de tempo? – e na direção. E causam constrangimento os diálogos sobre política entre Elza e Garrincha, além de cenas como a pedrada que o jogador recebe na cabeça e a caricata invasão da residência do casal por supostos agentes do Dops – liderados por um "aterrorizante" homem de dentes podres.
Nas pouco menos de duas horas em que o espectador acompanha a trajetória do protagonista, da adolescência pobre em Pau Grande até o sucesso no Botafogo e na Seleção Brasileira, tenta-se apresentar os múltiplos perfis de Garrincha: mulherengo, fenômeno do drible, apaixonado pela bebida... Todas estas faces convivem com as lendas que se criaram sobre ele. Falta, no entanto, sutileza ao diretor no desenho de tais retratos. As (muitas) cenas de sexo, por exemplo, buscam inutilmente o erotismo e parecem se fixar na nudez de André Gonçalves.(...)
Escrito por Marcelo às 13h27
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"Trem de doido"
Lô Borges / Marcio Borges
"Noite azul, pedra e chão Amigos num hotel Muito além do céu Nada a temer, nada a conquistar Depois que esse trem começa andar, andar Deixando pelo chão Os ratos mortos na praça Do mercado
Quero estar onde estão Os sonhos desse hotel Muito além do céu Nada a temer, nada a combinar Na hora de achar meu lugar no trem E não sentir pavor Dos ratos soltos na casa Minha casa
Não precisa ir muito além dessa estrada Os ratos não sabem morrer na calçada É hora de você achar o trem E não sentir pavor Dos ratos soltos na casa Sua casa".
Escrito por Marcelo às 12h34
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Cartola

Já no embalo do evento imperdível de amanhã - o lançamento do livro da Moniquinha Ramalho sobre mestre Cartola -, vem a lembrança de uma de suas grandes canções, mais uma daquelas que unem simplicidade e sofisticação, essa mistura tão rara e deliciosa que só os grande conseguem alcançar. Lembrando: o lançamento será a partir das 18h, da Livraria Largo das Letras, em Santa Teresa.
"Sala de recepção"
Cartola
"Habitada por gente simples e tão pobre Que só tem o sol que a todos cobre
Como podes, Mangueira, cantar? Pois então saiba que não desejamos mais nada A noite, a lua prateada, silenciosa
Ouve as nossas canções Tem lá no alto um cruzeiro Onde fazemos nossas orações Temos orgulho de ser os primeiros campeões
Eu digo e afirmo que a felicidade aqui mora E as outras escolas até choram Invejando a tua posição Minha Mangueira és a sala de recepção Aqui se abraça o inimigo Como se fosse irmão"
P.S. A caricatura do post, assinada pelo Loredano, faz parte do livro da Monica...
Escrito por Marcelo às 12h23
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Ficção

"Quase todos os meus personagens são como quebra-cabeças armados com peças de muitas pessoas diferentes e, é claro, com peças de mim mesmo."
Gabriel Gacía Márquez
(obrigado, Sabine...)
Escrito por Marcelo às 11h53
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Sobre "Closer" (ainda)

Closer me deixou inquieto por dias. Trata-se, sem dúvida, de um filme cínico (parêntese: bem observou o Arlindo - como anda cínico o cinema desde Tarantino...), no sentido de que parte da premissa de que a relação amorosa está invariavelmente fadada ao fracasso, do que discordo. Já comentei aqui no Pentimento sobre algumas questões levantadas na produção dirigida pelo bom Mike Nichols, mas ontem li o ótimo artigo abaixo, escrito pelo psicanalista Contardo Caligaris, que suscita ainda outros pontos e olhares possíveis. O texto vale a leitura:
"Closer - Perto Demais": por que somos infelizes em amor?"
Contardo Calligaris
"Concordo com Caetano Veloso, "de perto ninguém é normal". Mas "Closer - Perto Demais", de Mike Nichols, me deixou pensando diferente: de perto, somos normais demais. O filme é uma demonstração tocante de nossas impotências e incompetências sentimentais. Se você quer saber por que, em regra, somos infelizes em amor, não perca. Para não estragar o prazer de quem não viu o filme, nada de resumo, apenas as reflexões fragmentárias com as quais passei a noite, depois de ter assistido a "Closer - Perto Demais". 1) Por que, no meio de uma história amorosa que funciona, um encontro (que sempre parece mágico) pode levar alguém a trocar a intimidade de um casal companheiro por uma visão? Os evolucionistas dizem que os homens são infiéis por necessidade biológica. Para que a espécie continue, os machos seriam programados com o desejo de fecundar todas as fêmeas possíveis. A teoria tem uma falha: as mulheres são tão infiéis quanto os homens (embora os homens se recusem a acreditar nessa banalidade). O senso comum tem outra explicação: a paixão iria se apagando com a repetição, os humanos gostariam de novidade. Pequeno problema: a idéia de que a novidade seja um valor é especificamente moderna; no entanto a inconstância em amor é um hábito antigo. Outro problema ainda maior: na condução de nossas vidas, somos obstinadamente repetitivos. Insistimos nas mesmas fantasias e nos mesmos sintomas. Contrariamente ao que diz o provérbio, errar é divino, perseverar é humano. Por que seria diferente em matéria amorosa? Como pode ser que um encontro, em que mal se sabe quem é o outro ou a outra, contenha uma promessa que basta para levar alguém a dar um chute num amor que dura? Tento responder: apaixonar-se é idealizar o outro, durar no amor é lidar com a realidade do amado ou da amada. Antes de ponderar os charmes da idealização, duas observações. Um impasse: para manter a paixão, devo continuar idealizando o parceiro. Mas, para idealizar o outro, devo mantê-lo a distância. Se mantenho o outro a distância, renuncio aos prazeres de amor, companheirismo, cumplicidade, convivência. Um paradoxo: se me separo porque me apaixono por outra ou outro, o parceiro que deixei se distancia de mim, portanto volto a idealizá-lo e a me apaixonar por ele. 2) Por que gostaríamos tanto de idealizar o outro que vislumbramos num novo encontro? Uma nova paixão amorosa é provavelmente o sentimento que mais pode nos transformar, para o bem ou para o mal. Por exemplo, se o outro me idealiza, carrego seu ideal como um casaco novo: modifico minha postura para que o pano caia bem no meu corpo. De uma certa forma, tento me parecer com o ideal que o outro ama em mim. Cada amor, quando começa, é uma aventura. Não porque encontro um novo parceiro, mas porque, ao me apaixonar, descubro ou invento um novo ideal e, ao ser amado, mudo para me aproximar do que o outro imagina que eu seja. A inconstância amorosa talvez seja a expressão imediata do desejo de mudar -não de trocar de parceiro, mas de se reinventar. Não é estranho que, na hora em que um amor começa, alguém decida se dar um novo nome. Nenhuma mentira nisso, apenas a convicção e a esperança de que a paixão nos transforme. Infelizmente, mudar é difícil: a sedução exercida pelos novos amores é uma veleidade, um pouco como as resoluções de que as coisas serão diferentes no ano que começa. 3) Dizem que um casal que se ama briga muito. O uso erótico das brigas é conhecido: a paz se faz na cama. Menos conhecido é o uso amoroso das brigas: chegar ao limite da ruptura pode ser um jeito de recomeçar, de voltar ao momento inicial da paixão, quando ambos esperavam que o amor os transformasse. Problema: ninguém sabe qual é o ponto de equilíbrio além do qual as brigas não garantem renovação nenhuma, apenas desgastam um amor que se perde. 4) Alguém se apaixona por outra pessoa porque, ele se queixa, sua parceira precisa dele. É aquela coisa: seu amor me exige demais, você me sufoca, me prende. Isso, é claro, é um jeito de dizer: com você sou sempre o mesmo. Também é uma projeção: separo-me porque não agüento minha própria dependência de você. Visto que me detesto por estar a fim de lhe pedir amor a cada minuto, acho intolerável que você me peça. Quem pensa e age assim, em geral, fica sozinho no fim. 5) Um homem volta para o lar depois de ter estado nos braços de outra. Sua mulher pergunta: você me ama ainda? Ela tem razão, é a única pergunta que importa. Uma mulher volta para o lar depois de ter estado nos braços de outro. Seu homem pergunta: você esteve com ele? Insiste: quero a verdade. Pede os detalhes: gostou? Gozou? Onde aconteceu, em que posição, quantas vezes? O ciúme feminino é uma exigência amorosa. O ciúme do homem é uma competição com o outro, um duelo de espadas, uma esgrima homossexual que tem pouco a ver com o amor pela amada e muito a ver com as excitantes lutinhas masculinas da infância. Enfim, quem sabe o filme nos ajude a inventar jeitos de amar menos desafortunados e mais interessantes."
Escrito por Marcelo às 11h42
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Ouvindo...

"Our love is here to stay"
Gerswhin
"The more I read the papers The less I comprehend The world with all it’s capers And how it all will end. Nothing seems to be lasting. But that isn’t our affair; We’ve got something permanent, I mean in the way we care.
It’s very clear Our love is here to stay; Not for a year But ever and a day. The radio and the telephone and the movies that we know May just be passing fancies, And in time may go. But, oh my dear, Our love is here to stay; Together we’re going a long, long way. In time the rockies may crumble, gibraltar may tumble, They’re only made of clay, But our love is here to stay"
Ouça comigo aqui.
Escrito por Marcelo às 16h24
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Mais Paralelos

O Especial de Carnaval do site Paralelos tem mais novidades hoje: além dos contos inéditos, da minha resenha sobre o livro do Roberto M. Moura, já estão no ar matéria da Moniquitcha Ramalho sobre a Agenda do Samba e do Choro, um texto de Benjamin Costallat e promoção em que serão sorteados dos exemplares do belo Lapa do desterro e do desvario, antologia organizada por Isabel Lustosa, com textos do próprio Costallat, João do Rio, Lima Barreto, Noel Rosa, Carlos Drummond de Andrade, Antonio Maria, Mário Lago e Madame Satã, entre outros. Para concorrer, basta responder qual o nome do movimento estético-literário que mais caracteriza a obra de Benjamin Costallat. Confira tudo isso aqui.
Escrito por Marcelo às 12h34
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Canção para hoje

"Mais um na multidão"
Marisa Monte / Erasmo Carlos
"Guarde segredo que te quero E conte só os seus pra mim Faça de mim o seu brinquedo Você é meu enredo vem pra cá Te quero, te espero Não, não vai passar O amor não falta estar Você pensa em mim eu penso em você Eu tento dormir, você tenta esquecer Longe do seu ninho meu andar caminho Deixo onde passo os meus pés no chão Sou mais um na multidão O mar de sol no leito do lar Que nem um rio pode apagar O amor é fogo ferve queimando Estou ferido agora e sigo te amando Você pode acreditar A mesma carta o mesmo verbo Em sonho só viver pra ti Quem tem a chave do mistério Não teme tanto o medo de amar Enxergo, te enxergo Não, não vai passar O amor não tarda a estar Te quero, te espero Não vai passar O amor não falta a estar Você pensa em mim eu penso em você Eu tento dormir, você tenta esquecer Longe do seu ninho meu andar caminho Deixo o obvio, passo os meus pés no chão Sou mais um na multidão Sou mais um na multidão Sou mais um na multidão"
Escrito por Marcelo às 12h00
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O Drummond preferido

"Memória"
Carlos Drummond de Andrade
"Amar o perdido deixa confundido este coração.
Nada pode o olvido contra o sem sentido apelo do Não.
As coisas tangíveis tornam-se insensíveis à palma da mão.
Mas as coisas findas, muito mais que lindas, essas ficarão."
Escrito por Marcelo às 11h29
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Anyway

"É cedo ou tarde demais pra dizer adeus, pra dizer jamais"
Tony Belloto / Nando Reis
Escrito por Marcelo às 11h12
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Cartola, por Moniquinha

Jornalista talentosa, gente-muito-boa e, acima de tudo, minha amiga do coração, a Moniquinha Ramalho lançará no próxima sábado o livro em que narra a vida de mestre Cartola para o público infanto-juvenil. O evento rolará a partir das 18h, na Livraria Largo das Letras, em Santa Teresa, e o título integra a coleção Mestres da Música no Brasil - destinada a crianças e adolescentes, dos 9 aos 14 anos -, da Editora Moderna. Mas o texto da Moniquinha vai além, porque na verdade ela escreveu um livro para pessoas de qualquer idade que desejam conhecer melhor a história pessoal do criador de sambas da beleza e sofisticada simplicidade de As rosas não falam, O mundo é um moinho e Corra e olhe o céu, esta última em parceria com Dalmo Castello. A publicação é ilustrada por desenhos de Lan, um deles inédito, uma caricatura também inédita de Cássio Loredano e cerca de 40 fotografias – feitas por Evandro Teixeira, Walter Firmo e Antônio Carlos Miguel, entre outros. Quem assina o texto de apresentação é o multimídia Hermínio Bello de Carvalho, que foi parceiro e amigo do bamba Cartola. Não dá pra deixar de ir!
Escrito por Marcelo às 13h39
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No princípio, era a roda

Também integra e Especial de Carnaval do Paralelos a resenha que escrevi do ótimo No princípio, era a roda - Um estudo sobre samba, partido-alto e outros pagodes, de Roberto M. Moura. Abaixo, dois pequenos trechos do meu texto. Confira a íntegra aqui.
(...) O rígido ordenamento interno e os mistérios singulares, ambos conhecidos da grande maioria dos freqüentadores do Bip, são sintomáticos também do que ocorre em tantas outras rodas ao redor da cidade, esmiuçadas com erudição pelo jornalista, crítico e produtor Roberto M. Moura em No princípio, era a roda – Um estudo sobre samba, partido-alto e outros pagodes, que acaba de ser lançado pela Editora Rocco. Baseado em tese de doutorado em Música defendida na Unirio, o livro parte da premissa de que as rodas precedem as escolas e mesmo o próprio "samba". Acredita o autor que elas vieram favorecer e proporcionar uma "ambiência sonora" que desembocaria no surgimento do gênero, já que representam sua "matriz física", sua célula original. Da casa de Tia Ciata, Praça XI, no início do século passado, as rodas teriam tomado forma no bairro do Estácio e se espalhado pelos subúrbios cariocas através dos encontros de terreiro, realizados dentro das próprias escolas e decerto fomentadores dos chamados "sambas-de-quadra" que tanto sucesso fizeram em agremiações como Portela e Império Serrano.(...)
(...) Moura sustenta que, apesar do longo percurso histórico - da casa de Tia Ciata à Lapa de hoje -, pelo menos sob o ponto-de-vista da significação e das relações de hierarquia interna as rodas não mudaram tanto. No livro, ele enumera algumas das "regras" que perduraram: não se pode manejar um instrumento sem competência, nem falar mais alto do que o som. Imperdoável puxar um samba e esquecer a letra pela metade. Mais uma distinção: não importa o artista ser um sucesso de vendas ou execução, "nada lhe assegura qualquer respeitabilidade ou diferenciação dentro da roda. Seu lugar será sempre determinado pelo que for capaz de fazer ali." Quando aos participantes, explica ainda o autor: "O modo mais natural de participar é cantando ou tocando, mas aqueles que integram o coro também são considerados ‘parte’ da roda". (...)
Escrito por Marcelo às 10h42
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Paralelos de Carnaval

O carnaval já foi embora mas o bloco do Paralelos acaba de voltar pra rua: o site preparou um especial, que já está no ar, com contos inéditos ambientados na época da folia e escritos por gente como Adriana Lisboa, Mariel Reis, Fransueldes Abreu, Antonio Dutra, Sérgio Rodrigues, Miguel Conde, Henrique Rodrigues e Marcelo Alves, além deste que vos fala e de muitos outros. Abaixo, um trecho de Sexta-feira de cinzas, o meu conto. Acesse todos os textos aqui.
(...) Pois ali, em frente ao coreto repleto de senhores de terno e gravata segurando como podem seus cachês de uma vez ao ano, eu era apenas um confete atemporão, o confete molhado do depois, largado num canto qualquer do piso que não chegou a secar de todo apesar do sol incipiente de uma manhã da quarta-feira de cinzas qualquer; abandonado após o vôo sublime e ligeiro do saco plástico ao ar, do ar ao rosto do folião suado e de sua pele molhada enfim ao chão. O confete da quarta quando ainda era sexta e o carnaval sequer começara, embora as pessoas transpirassem expectativas.(...)
Escrito por Marcelo às 10h20
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"A engrenagem do amor pode ser traiçoeira - e vingar"

"Deixe estar"
Marina Lima / Antônio Cícero
"Deixe estar, vai passar Com sorte, tudo, tudo vai ser breve Essa angústia no seu peito E no meio Essa falta ardendo em minha pele
Porque nós dois nos cruzamos com pressa demais E foi tudo intenso e veloz Nos amamos, meu bem, só que em pistas opostas E sós
Deixe estar, vai sarar Com sorte, quase sem deixar saudades O repente do mergulho Bem no meio Da represa da felicidade
Mas se você resistir, e teimar e fugir Não se assuste se tudo enguiçar A engrenagem do amor pode ser traiçoeira E vingar"
Escrito por Marcelo às 10h07
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Império em Madureira

A melhor notícia do dia: meu querido Império Serrano desfilará no próximo domingo pelas ruas de Madureira, retomando uma antiga tradição da escola: apresentar-se graciosamente para a sua comunidade. A concentração está marcada para 19h, em frente à quadra da verde-e-branco. Já que estamos fora da briga - como sempre estaremos - no concurso da Liesa, vamos brincar nosso carnaval... A idéia do Hugo Sukman, ao que parece, está dando frutos...
Escrito por Marcelo às 17h26
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Seqüência

O garoto sobe as escadas do Radio City Music Hall de Nova York e, à medida que ele se aproxima da sala de projeção, a música cresce, para atingir o clímax no exato momento em que as cortinas se abrem. Uma das belas seqüências da história do cinema sob o ponto de vista da utilização da trilha sonora, que sublinha (como deve ser) a imagem, tornando-a mais significativa, mais incisiva, mais emocionante, e transmitindo com perfeição a paixão do diretor pela Sétima Arte. As cenas estão em A era do rádio, de Woody Allen, e a música é a linda If you are but a dream, cantada com o brilho costumeiro por Frank Sinatra (escute a canção aqui).
"If you are but a dream"
Moe jaffe / Jack fulton / Nat bonx
"If you are but a dream I hope I never waken, It’s more than I could bear To find that I’m forsaken.
If you’re a fantasy Then I’m content to be In love with lovely you, And pray my dream comes true.
I long to kiss you But I would not dare, I’m so a-fraid that You may vanish in the air,
So darling, If our romance would break up, I hope I never wake up, If you are but a dream."
Escrito por Marcelo às 16h17
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Hilda Hilst

"Lego-te os dentes
Em ouro, esmalte e marfim.
Entre sarrafos e palha
O baço dos meus ossos.
Procura na tua balança
Minha couraça. Meu bandolim.
Escrita e torso.
Pesa-me a mim. Minhas funduras
E o gume do meu desgosto.
Procura, na minha hora,
Entre sarrafos e palha
O que restou de mim
À tua procura"
Escrito por Marcelo às 10h38
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Lúcio no Rio Scenarium

Amigo querido, o cantor Lucio Sanfillipo lança seu primeiro cd com shows hoje, amanhã e quinta-feira, sempre às 22h, no Rio Scenarium. Canções de amor ao Léo traz canções de Délcio Carvalho, Pedro Hollanda e do também amigo Marceu Vieira, além de composições da lavra do próprio Lúcio. Além´das músicas do disco, rolarão os tradicionais cocos, sambas e cirandas do repertório tradicional do cantor, cuja voz aguda será acompanhada por Clarice Magalhães, Marcello Mattos e Anderson Vilmar (percussão), Lenildo Gomes (cavaquinho) e Marcelo Menezes (violão).
Escrito por Marcelo às 10h29
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Joaquim

Um primor a coluna do Joaquim Ferreira dos Santos publicada na edição de O Globo de ontem, na qual ele faz o elogio da tradição em contraponto ao tecnicismo, da Velha Guarda em contraface às rainhas de bateria (a observação sobre os "analistas de rainha de bateria" é, mais do que algo risível, um estupefato)... A comparação entre a teoria da "pirâmide invertida" adotada por nós, jornalistas, e que o que foi feito com Tia Surica, Seu Jair e companhia também é reveladora. (um parêntese: não comentei aqui, mas foi tocante ver nosso Alfredinho chorando ao meu lado, numa mesa do Lamas, enquanto assistíamos de telão à catástrofe em azul e branco na Sapucaí). Segue a íntegra do texto:
"Pandeiros"
Joaquim Ferreira dos Santos
"Esse é o país — já que de vez em quando aparece alguém nos jornais perguntando que país é esse — esse é o país em que se bate o portão na cara da Velha Guarda da Portela porque, se ela desfilar, vai prejudicar a festa. Esse é o país que acabou de passar na sua televisão e nas primeiras páginas dos jornais. O país da bunda jovem, da redondilha maior em que queremos todos meter a nossa poesia e dar dez, nota dez sem tirar de dentro. O país do chulo. Do rabo como item cultural. O resto é velharia. Descartável. Um bando de tradições miseráveis que só atrapalha a evolução da escola, desconta ponto no quesito harmonia, atravanca o progresso geral da nação e provoca cacófatos danados como esse. Dois anos atrás um ministro de assuntos ordinários chamou toda essa gente velha pra fila, pôs embaixo do sol e ligou o gás. Os pretos velhos sobreviveram. Vaso ruim, a Fernanda Young tinha razão, não quebra. Agora bate-se-lhes com o portão na cara. Falta bunda redondinha na Velha Guarda da Portela, falta silicone nos seus peitos muxibinhas, falta botox em sua beiçolinhas africanas. E, onde já se viu?, ainda querem passar sob as luzes da mesma avenida em que a câmera voadora da Globo dá uma geral de frente e verso, por cima e baixo, da Juliana Paes. Aqueles crioulos velhos da Portela fugiram da polícia no século passado, cresceram no sapatinho, improvisaram à luz das gambiarras, batucaram na cozinha, botaram toneladas de paio no feijão, mas infelizmente não sabem mais se comportar diante do camarote da Nestlé. Inventaram a festa, os pobres coitados. O que adianta se não têm mais pique para desfilar no tempo previsto?! Fecha o portão no reco-reco neles! Aos rigores do novo regulamento e da falta de respeito com qualquer cheiro de tradição! Isso aqui, ô, ô, é o terreiro que está reescrevendo a frase clássica de que um país se faz com homens e livros. O acúmulo de conhecimento já era. Bullshit . O Brasil é feito de homens e bundas novinhas. Bundas de preferência calipígias, esse best-seller de carne crua suculenta, steak tartar para se cair de boca e devorar, procurando em sua pimenta escondida um sentido que explique nossa falta de cabeça e imaginação. O carnaval de 2005 vai entrar para a história como aquele em que os velhos da Velha Guarda choraram, marginalizados pelo estigma de estarem na festa desde o seu início. Foi o carnaval em que as bundas invejosas sorriram por estarem agora usufruindo da delícia de comandarem o cordão moderno. Esse é o país — já que a toda hora aparece um beletrista perguntando para onde vamos — esse é o país que vai sempre atrás de um rabo qualquer balançando. Não à toa, as grandes exemplares da nova raça são chamadas “cachorras”. Nada contra a bunda, Deus que me livre de tamanha heresia, e seu poder de animação pândega. Há até quem sugira, na roda de chope do Bracarense, que ela roube do cinema o slogan de “a melhor diversão”. Pode ser. Mas o pandeiro em que se bate aqui é outro. Fernando Pamplona inventou os enredos sobre a história dos negros, Joãosinho Trinta dimensionou os carros para os novos tempos, Fernando Pinto popicalizou a festa — e, à cultura da Mangueira, dos malandros do Estácio, das tias baianas da Praça Onze, esses artistas revolucionários iam acrescentando sua imaginação respeitosa para com o passado. Em 2005, a grande novidade do desfile foi um laquê que mantém as bundas mais durinhas, bundas agora tão vitreamente plastificadas que já deixaram para trás sua vocação original. Viraram autênticos carros alegóricos. Breve, estarão entre os quesitos a serem pontuados por especialistas formados nos cursos da Liga das Escolas. (Este ano, a propósito, já surgiu nos jornais um analista de rainhas de bateria, essas senhoras que nada mais são do que as melhores bundas de cada agremiação. O crítico pontuou cada uma delas, digo, as rainhas, com análise muito séria de performances, de suas relações com os ritmistas e empatia com o público.) Uma bunda é uma bunda é uma bunda — acho que Gertrude Stein andou dizendo alguma coisa parecida — e todas juntas podem até fazer uma festa animada sábado à noite num apê de Copa. Carnaval, se eu entendi o que estava escrito nos sambas de Silas de Oliveira, é a história de outra orgia. Nela, Tia Surica, em quem bateram com o portão na cara, vale mais que a Carol Castro, em quem só bateram com as carícias dos flashes. A história dos povos ainda não registra nenhuma cultura formada a partir do par de glúteos, talvez porque eles sejam comuns a todos os povos. Falta-lhes originalidade artística. Não é verdade sequer, como julgam os especialistas, que as bundas nacionais são melhores que as de todos os países do Mercosul e da União Européia juntas. Mentira, orgulho bobo. As bundas brasileiras apenas são mais exibidas. Esse é um país que gosta de esquecer sua História, seja por falta de fosfosol no cérebro, seja porque preferiria que ela fosse diferente. Bater com o portão na cara do passado e liberar o acesso das neobundas galácticas de laboratórios é uma dessas tentativas equivocadas de reescrever o Brasil como um puro-sangue que não cabe em si, muito menos na calça da Gang, de tão arrogante. São 500 anos de poucas glórias. Inventamos uma mistura de limão com cachaça, o chute com três dedos — e o que mais mesmo? A Portela fez com o carro da Velha Guarda o que os jornalistas fazem com seus textos. Deixam a parte menos interessante para o final porque, se não couber no espaço, corta-se por aqui mesmo. Ninguém sentirá falta das idéias desbundadas. Chama-se a técnica de “pirâmide invertida”. Os pretos velhos dos subúrbios são aqueles que abriram a roda e aprenderam a bater tambor de um jeito diferente, o tal do samba, uma das outras colunatas dessa civilização pobre, pero divertida, que eles ajudaram a erguer. No desfile da Portela, a Velha Guarda estava no final, um penduricalho sem importância, pronto para o abate — e não deu outra. Esgotou o tempo? Corta fora a velharada que só atravanca o progressio . Eu acho o contrário, mas sei que nesse bundalelê geral minha opinião também pouco interessa. Pode cortar. Fecha o portão na cara dessa velha-guarda jornalística."
Escrito por Marcelo às 10h11
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Vida

Conclusão pós-folia - o Chacal tem razão:
"A vida é curta demais para ser pequena"
Escrito por Marcelo às 16h14
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Sideways

Não dá, simplesmente não dá para assistir a Sideways sem tomar um bom vinho depois. O filme do diretor Alexander Payne relata a viagem de dois amigos – o arremedo de escritor e looser Miles (Paul Giamatti) e o bon vivant Jack (Thomas Haden Church) pelos vinhedos da Califórnia durante uma semana, antes do casamento do segundo. Em meio ao trajeto, eles encontram e se relacionam com duas mulheres, Maya e Stephanie, vividas respectivamente por Virginia Madsen e Sandra Oh. Dramático, mas sem apelar para as armas do melodrama, Sideways joga luz principalmente sobre essas estranhas criaturas que são os homens como Miles, tão arraigados em suas paixões (a dele, no caso, o vinho) quanto incapazes de lidar com o teatro de aparências que nos cerca e toma de assalto, muitas vezes sem que sequer o notemos.
Há, pelo menos, três grandes seqüências no filme:
. Quando Maya explica a Miles por que ama o vinho, salientando que se trata de algo "vivo", único, misterioso, e transparecendo na expressão do rosto uma sedução que se coaduna absolutamente à bebida;
. A que flagra a conversa dos quatro personagens em um restaurante: a montagem espelha fielmente os estilhaços de intenções, idéias, expectativas que são lançadas ao ar naquele momento;
. A delicada passagem de quarta para quinta-feira, quando Miles enfim consegue envolver Maya. Eles chegam juntos à casa dela. De uma tomada que registra a madrugada passa-se à imagem da porta que se fecha. A câmera então volta à paisagem, já pela manhã, e novamente à porta. Tudo lentamente, bem lentamente. Com simplicidade, fica evidente que aquele não foi um dia qualquer. Foi um dia especial, como só alguns dias sabem ser...
Escrito por Marcelo às 15h30
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Johnny Alf na Lagoa

Enquanto o Monobloco "bombava" em Ipanema (com todo o respeito aos amigos que curtem: a quantidade de abadás e tatuagens de pitbull que vi ontem passando enquanto saía da praia inviabiliza qualquer possibilidade de visita ao bloco), pouco mais de 30 pessoas curtiam uma tarde serena na Lagoa, ouvindo a deliciosa voz da Fernanda Cunha passear por canções de Sueli Costa e Johnny Alf. O momento alto do show foi a bela O que é amar, cantada com indisfarçável emoção pela promissora e simpática artista. É nesses momentos que a gente pensa no quão pouco é preciso - uma paisagem deslubrante, uma tarde branca, uma boa música, algumas "horinhas de descuido" (como disse Guimarães Rosa) - para sentir a felicidade tocar de leve...
"O que é amar"
Johhny Alf
"É só olhar, depois sorrir, depois gostar Você olhou, você sorriu, me fez gostar Quis controlar meu coração Mas foi tão grande a emoção De sua boca ouvi dizer "quero você" Quis responder, quis lhe abraçar Tudo falhou Porém você me segurou e me beijou Agora eu posso argumentar Se perguntarem o que é amar É só olhar, depois sorrir, depois gostar"
Escrito por Marcelo às 12h03
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Da série 300 toques - Número 24

Maritmo
Agora sei dos humores do mar. Posso vê-lo, no tom cinzento, a constância do horizonte a esbarrar nas ilhas. Não há vento forte, nem mudança nas marés. E ainda assim ele se mexe, inquieto. Treme, na verdade, no horrorizado e inconfesso temor de engolir a terra.
Escrito por Marcelo às 10h59
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Carpinejar II

"Procurei entender os sinais
suspensos entre as colunas
e as fechaduras. Empenhei-me
em esclarecer os recados
apressados de socorro,
o tambor lacerado das paredes.
Decifrei o grafite dos banheiros
públicos, as inscrições puídas
no lenho, os volantes
recebidos no trânsito.
A vida com erros de ortografia
tem mais sentido.
Ninguém ama com bons modos"
Escrito por Marcelo às 10h50
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Carpinejar I

"Eu preferia ter perdido tudo
para não ficar reparando
as pequenas perdas"
Escrito por Marcelo às 10h44
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Jacarezinho

Infelizmente não deu. Apesar da humilde mas sincera homenagem ao grande Monarco, a Unidos do Jacarezinho foi rebaixada para o Grupo 2. Apesar disso, foi muito bacana para nós, da Ala Amigos do Monarco, defender o rosa e branco da agremiação na Sapucaí, num desfile muito mais descontraído do que o do Grupo Especial. Ano que vem tem mais!
Escrito por Marcelo às 10h34
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Eucanaã, Hilda, Carpinejar

Três novos livros na biblioteca, todos, é claro, de poesia, já que a época é de pouca prosa e muito lirismo: Rua do mundo, de Eucanaã Feraz, Da morte: Odes mínimas, da Hilda Hilst, e Cinco Marias, de Fabrício Carpinejar. Esperem, pois, muitos e novos poemas por aqui. O primeiro deles:
"Graça"
Eucanaã Ferraz
"Não saberia dizer a hora
em que me desfizera de tudo o que não era teu,
quando cada coisa se deixou cobrir
por tua presença sem margens
e deixou de haver um lado
que fosse fora de ti."
Escrito por Marcelo às 17h31
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...

"O que será (À flor da pele)"
Chico Buarque
"O que será que me dá Que me bole por dentro, será que me dá Que brota à flor da pele, será que me dá E que me sobe às faces e me faz corar E que me salta aos olhos a me atraiçoar E que me aperta o peito e me faz confessar O que não tem mais jeito de dissimular E que nem é direito ninguém recusar E que me faz mendigo, me faz suplicar O que não tem medida, nem nunca terá O que não tem remédio, nem nunca terá O que não tem receita
O que será que será Que dá dentro da gente e que não devia Que desacata a gente, que é revelia Que é feito uma aguardente que não sacia Que é feito estar doente de uma folia Que nem dez mandamentos vão conciliar Nem todos os ungüentos vão aliviar Nem todos os quebrantos, toda alquimia Que nem todos os santos, será que será O que não tem descanso, nem nunca terá O que não tem cansaço, nem nunca terá O que não tem limite
O que será que me dá Que me queima por dentro, será que me dá Que me perturba o sono, será que me dá Que todos os tremores me vêm agitar Que todos os ardores me vêm atiçar Que todos os suores me vêm encharcar Que todos os meus nervos estão a rogar Que todos os meus órgãos estão a clamar E uma aflição medonha me faz implorar O que não tem vergonha, nem nunca terá O que não tem governo, nem nunca terá O que não tem juízo"
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