Cena de carnaval

(...) Talvez por fingimento, talvez simples desinteresse, permanecia sentada naquele banco, estátua viva, a limpar vez por outra com a parte posterior da mão o suor que descia pela face. Tirara o chapéu, o calor era forte de fato. Mas ele não atinava para isso. Então levantou-se novamente e decidiu que, se não beijaria alguém até a manhãzinha, ficaria a dançar, com os mesmos dedos em riste, abraçando desconhecidos como se fossem antiqüíssimos amigos, e apostaria os últimos trocados na derradeira caipira.

No ar, além daquele bombardeio eventual de olhares, havia confetes, e vez por outra uma serpentina cortava o salão como um arco íris apressado, que surge com a chuva ainda a desabar. Uma das fitas coloridas atravessou o lugar, esbarrou no teto e foi descer justo em cima dela. A ponta da serpentina prendeu na aba do chapéu e se colou no rosto úmido. Foi neste instante, depois de se esquecer da existência da menina que o ignorara, que ele voltou a mirá-la e sentiu o cansaço. Decidiu caminhar por entre o emaranhado de corpos que se mexiam e se sentar também. Em segundos estava, então, ao lado dela.

O suor aumentara, em razão da dança e também estimulado pelo nervoso que o abateu ao encostar com o antebraço nos ombros da menina. Ela rapidamente chegou-se um pouco para o lado, deixando-o ainda mais desconfortável. Seria nojo de seu corpo suado ? Seria maneira de impedir um diálogo qualquer? Seria simplesmente o quê?

Aqueles minutos ali, lado a lado, pareceram-lhe eternos: ele olhava para o salão onde as pessoas dançavam, ou para a sacada do varandão, mas não era capaz de virar o pescoço em direção a ela, com medo de um cruzar de espreitas que imediatamente o abateria, o faria perder de modo instantâneo todas as forças do corpo, toda a vitalidade, multiplicando aquele suor e transformando-o numa pequena e rasa poça d’água, ameaçada tanto por sóis abrasadores, quanto pelo simples passar do tempo que faz evaporar as coisas. No entanto, ele não pôde evitar quando em meio à música, aos gritos do salão e a toda a algazarra local uma voz fina como um alfinete penetrou vagarosamente em seu ouvido esquerdo.

"Você pode me informar as horas?".

Era como se os lábios dela espetassem sutilmente a sua orelha e um arrepio frio subiu pela coluna, fazendo do calor que sentia um frio súbito. Ele não tinha como responder sem tocar com os olhos naqueles olhos assustadores e pensava nisso quando mais uma vez a voz, agora mais altiva, afagou seus ouvidos.

"Desculpe, mas você pode me dizer as horas?"

Ao ouvir de novo a pergunta, ele saiu daquele transe de sofreguidão e prazer, ergueu lentamente o braço, pôs os olhos no relógio e respondeu, num balbucio:

"Três e meia".

"Hã?", disse ela. "Não ouvi, desculpe. Você pode repetir?"

Ele procurara evitar aquele esbarrar de instintos de fim de baile, mas não havia jeito. Mirou novamente o relógio, virou-se para ela e, antes que pudesse falar enfim que números marcavam as horas naquele instante, quase tremeu com a brisa de olhar lançado em sua direção. Se antes o rosto empinava uma vaidade solitária, agora tinha a expressão de quem recebe girassóis pela manhã e os oferece generosamente ao primeiro que chega. Ela trazia uma lua amarelada no lugar dos olhos, uns olhos mendigos, de quem quer salvação sem ter pecado.

Que conversa poderiam então travar aqueles dois pobres diabos? Que palavras seriam capazes de estender aqueles desejos e essa história, sem recair em redundância das mais reles? A noite terminou sem o dizer das horas, mas com mãos entrelaçadas e toques, tão sedutores quanto o simples e imaginário encostar entre lábios e orelhas que houvera logo antes. (...)


Trecho do conto Dos ventos que sopram, que está no meu livro Memória dos barcos (7Letras/2001)



 Escrito por Marcelo às 17h10
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Mais Hilda

"Isso de mim que anseia despedida

(Para perpetuar o que está sendo)

Não tem nome de amor. Nem é celeste

Ou terreno. Isso de mim é marulhoso

E tenro. Dançarino também. Isso de mim

É novo: Como quem come o que nada contém.

A impossível oquidão de um ovo.

Como se um tigre

Reversivo,

Veemente de seu avesso

Cantasse mansamente.

Não tem nome de amor. Nem se parece a mim.

Como pode ser isso? Ser tenro, marulhoso

Dançarino e novo, ter nome de ninguém

E preferir ausência e desconforto

Para guardar no eterno o coração do outro"

Hilda Hilst


P.S. Fiz a foto acima numa tarde do outono passado, no Parque Lage...



 Escrito por Marcelo às 13h27
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Mais um bloco de coleguinhas

Por falar em botar o bloco na rua, hoje vai rolar o Devotos da Madá, que reúne os coleguinhas do jornal O Dia. A concentração está marcada para 21h, em frente ao bar Mangue Seco, na Rua do Lavradio. O convite foi feito pela Olívia e eu estarei lá!

 Escrito por Marcelo às 13h03
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Sérgio Sampaio

"Eu quero é botar meu bloco na rua"

Sérgio Sampaio

"Há quem diga que eu dormi de touca
Que eu perdi a boca, que eu fugi da briga
Que eu caí do galho e que não vi saída
Que eu morri de medo quando o pau quebrou

Há quem diga que eu não sei de nada
Que eu não sou de nada e não peço desculpas
Que eu não tenho culpa, mas que eu dei bobeira
E que Durango Kid quase me pegou

Eu, por mim, queria isso e aquilo
Um quilo mais daquilo, um grilo menos disso
É disso que eu preciso ou não é nada disso
Eu quero todo mundo nesse carnaval...

Eu quero é botar meu bloco na rua
Brincar, botar pra gemer
Eu quero é botar meu bloco na rua
Gingar, pra dar e vender"



 Escrito por Marcelo às 12h14
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Da série 300 toques - Número 22

Vermelho

Na mesinha junto à cama, entre flores e a luminária, o porta-retrato vermelho que lhe dei. Quando dormia lá, ele me observava, estático, quase íntimo, como que à espreita. Fitava-me entre os reflexos brancos do quarto no vidro sem foto, ainda sem imaginar seu fim: guardar (para sempre?) uma espera.



 Escrito por Marcelo às 12h01
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Frase

"É incrível a força que as coisas parecem ter quando elas precisam acontecer"

Caetano Veloso



 Escrito por Marcelo às 11h39
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Mônica

"E amanhã, se esse chão que eu beijei
For meu leito e perdão
Vou saber que valeu delirar
E morrer de paixão"

Foi numa noite despretensiosa no Bar do Mineiro que conheci a tal "jornalista que escrevia sobre música para a revista Bravo!". "Ávida" como sempre, assim que fomos apresentados ela me abraçou de um jeito forte, de certa forma antecipando, ainda sem saber, a firmeza de uma relação que desembocaria rapidamente naquela condição suprema do amor que é a amizade. Moniquinha é extremamente parecida comigo, em nossas dores (a ansiedade desmedida, a hiperatividade...) e em nossas delícias, quais sejam elas, já que não nos cabe falar. Não foram poucas as vezes em que - usando as palavras de outro amigo querido - "mostramos nossos corações um para o outro". E justamente quando esses corações estavam pequenininhos, recolhidos, acovardados...

Nesses momentos, até por reconhecermos no coração do outro um irmão-siamês, o simples olhar sobre o que sentíamos, em geral acompanhado daquele ombro que não raro prescinde dizeres, foi capaz de garantir a retomada do pulso natural das coisas. Até que venham novos tombos, e até que precisemos outra vez expor nossas dores mais fundas, sabendo que o simples silêncio do outro, ao nos ouvir, é um jeito de abraçar e compreender e estar junto. Porque somos mesmo corações inquietos. E que só conseguem conservar certa serenidade por saber que temos, pertinho de nós, ao alcance de um telefonema no meio da madrugada que seja, um afago absolutamente regenerador. Para nos lembrar que a vida é mesmo assim para quem mergulha nas coisas sem se preocupar com a rede lá embaixo. E pra nos certificar de que é isso mesmo o que vale - e que, como bem assinalou na canção o Abel Siva, não podemos ser devorados pelas palavras não-ditas. Então, é preciso dizê-las sempre, repeti-las se acharmos que aquela é a nossa verdade, mas sempre tendo a certeza de, caso não encontrem eco, temos um ao outro para contar.



 Escrito por Marcelo às 10h47
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Pérola

"(...) o que incomoda agora é a gente ter sempre dois destinos, ou uma válvula de escape. O que desespera agora é o ontem mal resolvido, é a lembrança não apagada - a boneca precisa ser dada se quiser crescer.
- E aí, já decidiu?
- Decidi. 
E isso tudo só porque tomar decisões é muito complicado: o certo dói um vez, mas o errado dói para sempre. 
E jogou a loirinha sem braço no saco de coisas para dar."

(o trecho acima é dos poderosos e apaixonados posts da Pérola Simões, fã do Caio F. que começa a caminhar com as próprias pernas e já é capaz de criar pequeninos e poéticos recortes de vida como este...)



 Escrito por Marcelo às 10h38
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Feminices

O Eduardo Simões (O Globo) colocou o bonequinho pra dormir. Já o Rodrigo Fonseca (JB) concedeu três estrelas. Diante de tanta indecisão, fiquei bastante interessado em ver Feminices, novo filme do boa-praça Domingos de Oliveira (o cara que eu quero ser quando crescer, com um pouco menos de uísque na carcaça, evidentemente...). Boa pedida para este dia chuvoso, não?



 Escrito por Marcelo às 14h57
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Roberto Ribeiro

Depois de muito tempo sem passar lá, resolvi aproveitar o pós-almoço e visitar a barraca do Carlinhos, na Pedro Lessa. Ir no Carlinhos em geral significa gastar algum, já que o camarada tem um acervo delicioso de raridades do samba e da MPB. Só que não esperava encontrar as três preciosidades que agora felizmente fazem parte da minha discoteca: três discos do Roberto Ribeiro, nenhum dos quais lançado em cd. Um deles, de 1973 e cujo título é o próprio nome do cantor, eu simplesmente desconhecia. Segundo o Carlinhos, trata-se do primeiro trabalho solo do sambista, apresentado na contracapa por Hermínio Bello de Carvalho: "Roberto é maneiro, cheio dengues, meio esquivo e arredio - impressão que se destrói logo que a gente se aproxima de seu coração..." O disco reúne canções de Lupiscínio Rodrigues, Wilson Batista, Xangô da Mangueira e Délcio Carvalho, entre outros bambas.

Molejo, cujo ano de lançamento não pude identificar, também tem texto de apresentação, este assinado por Roberto Moura, que destaca o álbum como um momento de "volta às raízes" do cantor: "Numa época em que os intérpretes desapareceram, o puxador de samba do Império Serrano não poderia ficar cantando as agridoces crises existenciais da classe média e abandonar a vivência que trazia, de uma música popular mais pura, ligada diretamente ao tipo de cultura que o fez emergir" (meio datado e talibamba, não?). No repertório de Molejo, estão canções de seu Wilson Moreira, Zé Ketti e Monarco, além dos sambas enredo Estrela de Madureira e Os cinco bailes da história do Rio, ambos da querida verde-e-branco de Madureira.

Fecha o pacote Coisas da vida, de 1979. Lembro-me bem que este disco era um dos preferidos de meu pai, que por acaso foi amigo particular de Roberto. O pai costumava ouvi-lo no som da sala ou no carro, através de uma fita cassete com o teor do vinil gravado. Coisas da vida é um clássico, bom da primeira - Vazio (Está faltando uma coisa em mim) - à última faixa, a que lhe dá nome. Entre as duas, há delícias como Triste desventura (Monarco/José Mauro), Amor aventureiro (Mano Décio da Viola/Silas de Oliveira) e Não sei, rara incursão do cantor pela composição, em parceria com David Corrêa.

Ao lado de João Nogueira, Roberto Ribeiro é meu cantor de samba preferido. Não vejo a hora de botar os cds para girar...



 Escrito por Marcelo às 13h00
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Bola de Nieve

Cubano, negro, místico, homossexual, pró-revolucionário, o pianista e cantor Bola de Nieve, ou Ignácio Villa, veio à lembrança hoje, durante um papo com a Hilda, que acaba de chegar da ilha de Fidel. Com seu piano dolente e sua voz a la Louis Armstrong, Bola de Nieve foi um sucesso em seu país nos anos 50, quando lotava casas como o tradicional bar La Bodeguita del Medio, o restaurante Monsegnor e o teatro Amadeo Roldán. Dois de seus (ótimos) discos saíram no Brasil. E Caetano Veloso gravou, no cd Fina estampa, uma das canções mais belas da lavra do cubano: Ay, amor!.

"Ay, amor!"

Ignácio Villa

"Amor, yo se que quiers llevarte mi ilusión.
Amor, yo se que puedes también llevarte mi alma.
Pero, ay amor, si te llevas mi alma,
llévate de mí también el dolor,
lleva en tí todo mi desconsuelo
y también mi canción de sufrir.
Ay amor, si me dejas la vida,
déjame también el alma sentir;
si sólo queda en mi dolor y vida,
ay amor, no me dejes vivir"



 Escrito por Marcelo às 11h54
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Sueli Costa

Navevando pela rede, acabei descobrindo o site da Sueli Costa, que é bem bacana. Além de informações sobre a vida e a obra da compositora - autora de pérolas como Coração ateu, Jura secreta, Cão sem dono e Medo de amar nº 2 e um tanto subvalorizada diante de suas líricas melodias - a página traz imagens e possibilita a audição de algumas canções, entre elas Dentro de mim mora um anjo, que, aliás, está na lista abaixo...

"Dentro de mim mora um anjo"

Sueli Costa / Cacaso

"Quem me vê assim cantando
não sabe nada de mim
dentro de mim mora um anjo
que tem a boca pintada
que tem as asas pintadas
que tem as unhas pintadas
que passa horas a fio
no espelho do toucador
dentro de mim mora um anjo
que me sufoca de amor

Dentro de mim mora um anjo
montado sobre um cavalo
que ele sangra de espora
ele é meu lado de dentro
eu sou seu lado de fora
Quem me vê assim cantando
não sabe nada de mim

Dentro de mim mora um anjo
que arrasta as suas medalhas
e que batuca pandeiro
que me prendeu nos seus laços
mas que é meu prisioneiro
acho que é colombina
acho que é bailarina
acho que é brasileiro"



 Escrito por Marcelo às 11h21
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Dez músicas

Por sugestão da minha irmã-gêmea Monica Ramalho, decidi voltar às listas, começando com as 10 canções brasileiras da minha vida (a ordem é aleatória). Êta trabalho difícil é selecionar!

. Clube da esquina nº 1 (Milton Nascimento/Lô Borges/Mácrio Borges)

. Janelas abertas (Tom/Vinícius)

. Todo sentimento (Cristóvão Bastos/Chico Buarque)

. Dentro de mim mora um anjo (Sueli Costa/Cacaso)

. Para ver as meninas (Paulinho da Viola)

. O samba é meu dom (Wilson das Neves/Paulo César Pinheiro)

. Redescobrir (Gonzaguinha)

. Futuros amantes (Chico Buarque)

. Resposta ao tempo (Cristóvão Bastos/Aldir Blanc)

. Flor de ir embora (Fátima Guedes)



 Escrito por Marcelo às 11h06
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"Eu não tenho filosofia, tenho sentidos"

"O meu olhar é nítido como um girassol.
Tenho o costume de andar pelas estradas
Olhando para a direita e para a esquerda,
E de vez em quando olhando para trás...
E o que vejo a cada momento
É aquilo que nunca antes eu tinha visto,
E eu sei dar por isso muito bem...
Sei ter o pasmo essencial
Que tem uma criança se, ao nascer,
Reparasse que nascera deveras...
Sinto-me nascido a cada momento
Para a eterna novidade do Mundo...
Creio no mundo como num malmequer,
Porque o vejo. Mas não penso nele
Porque pensar é não compreender...

O Mundo não se fez para pensarmos nele
(Pensar é estar doente dos olhos)
Mas para olharmos para ele e estarmos de acordo...

Eu não tenho filosofia; tenho sentidos...
Se falo na Natureza não é porque saiba o que ela é,
Mas porque a amo, e amo-a por isso
Porque quem ama nunca sabe o que ama
Nem sabe por que ama, nem o que é amar...

Amar é a eterna inocência,
E a única inocência não pensar..."

Fernando Pessoa



 Escrito por Marcelo às 10h42
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Vininha por Bethânia

A Biscoito Fino já está fazendo pré-vendas de um dos cds que mais prometem este ano. Refiro-me a Que falta você me faz - músicas de Vinícius de Moraes, que Maria Bethânia gravou. Estou desde já impressionado com a beleza da capa - as cores remetendo aos trabalhos de César Vilela na mítica Elenco, a foto com o Poetinha a observar uma Bethânia ainda bem menina tocando violão... As reservas do disco podem ser feitas aqui.



 Escrito por Marcelo às 10h23
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Canção para hoje

"Um seqüestrador"

Francis Hime / Vinícius de Moraes / Adriana Calcanhoto

"Que verso poderia
Ganhar seu amor?
Que verso me traria você
De onde for?
Estilo caudaloso,
Barroco, conservador?
Ou tipo nunca visto
Inaugurador?

Popular
Amador
Radiofônico
Verso que com ou sem poesia
Te daria o que você
Mais desejasse ter
Rimas ricas,
Maluquices obscenas

Popular
Amador
Pragmático
Verso pra te trazer
Pros meus braços
Um verso seqüestrador"



 Escrito por Marcelo às 15h15
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No Portal e no PACC

Em tempo: o Portal Literal e o site do PACC também noticiaram o Sarau de Santa:

Portal: "Já está marcada para o dia 29 de janeiro a próxima edição do Sarau Literário de Santa Tereza, organizado pela jornalista Elis Galvão. Com temática livre, o Sarau de Santa contará com a presença dos escritores João Paulo Cuenca e Marcelo Moutinho. Haverá espaço para quem quiser levar o seu texto para ler. O evento é gratuito e começa a partir das 18h, no Bar De Carli, em Santa Tereza, no Rio. Mais informações pelo telefone 21-2221-9174."

PACC - "Acontece no dia 29 de janeiro o Sarau Literário de Santa Teresa, organizado pela jornalista Elis Galvão. A idéia é promover um encontro entre escritores e apaixonados por literatura de forma leve e alegre, com direito a bebidas e cardápio especialmente elaborado para o evento. Os convidados da próxima edição serão os escritores João Paulo Cuenca, Rosana Caiado e Marcelo Moutinho. O sarau acontecerá no terraço do bar De Carli, que tem vista para o casario do bairro. A temática dessa vez será livre, diferente do primeiro sarau, em que foram lidas correspondências de autores célebres. Os convidados e alguns membros do grupo lerão textos de sua autoria. Marcelo Moutinho já antecipou que apresentará um texto ainda inédito, que sairá na próxima edição da revista Ficções. O sarau é aberto e gratuito. Quem quiser aparecer e ler  seu texto será bem-vindo."



 Escrito por Marcelo às 12h14
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Hilda

"Enquanto faço o verso, tu decerto vives.
Trabalhas tua riqueza, e eu trabalho o sangue.
Dirás que sangue é o não teres teu ouro
E o poeta te diz: compra o teu tempo.

Contempla o teu viver que corre, escuta
O teu ouro de dentro. É outro o amarelo que te falo.
Enquanto faço o verso, tu que não me lês
Sorris, se do meu verso ardente alguém te fala.
O ser poeta te sabe a ornamento, desconversas:
"Meu precioso tempo não pode ser perdido com os poetas".
Irmão do meu momento: quando eu morrer
Uma coisa infinita também morre. É difícil dizê-lo:
MORRE O AMOR DE UM POETA.
E isso é tanto, que o teu ouro não compra,
E tão raro, que o mínimo pedaço, de tão vasto

Não cabe no meu canto."

Hilda Hilst



 Escrito por Marcelo às 11h10
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Jujuba verde

Abaixo, um trecho do conto Jujuba verde, que, derrotada a timidez, será lido por mim no sarau de sábado...

Jujuba verde (Um conto suburbano)

Marcelo Moutinho

A menina, era como a chamavam. Assim, simplesmente - e com artigo definido: a menina. Na padaria, no açougue, quando passeava com a mãe, nas festinhas com prato de alumínio-peito-de-peru-maionese, na casa da vizinha Antonia, no trabalho de Dona Augusta. Até na chamada de classe o nome mudara de posição. Do R para o A. Disso, até que ela gostava. Terceira a entregar ou receber o teste, terceira a pegar a caderneta, terceira a ser liberada do exame médico... sentia-se privilegiada em alguma coisa nessa vida.

Morava num subúrbio de pipas no ar e balões cortando o céu nos meses de junho, subúrbio onde o tempo, de alguma forma, em algum ponto, estancou. O bairro era distante do centro da cidade, tão distante que parecia que tudo ia desacontecendo à medida que suas ruas se aproximavam. Na casa de sobrado, só ela e a mãe. O pai morrera quando ainda mais novinha e tornara-se tão só um marido com mil e uma qualidades (no dizer da mãe). A menina espiava-o de vez em quando na pose séria bigode-cerrado-olhar-vincando-a-testa do quadro que enfeitava a sala, ou no jeitão menos sóbrio do porta-retrato ao lado da cama de Dona Augusta. Mas lembrança mesmo, só dela, não tinha não. (...)



 Escrito por Marcelo às 10h11
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Sarau de Santa no Globo

 

O Globo Zona Sul de hoje traz simpática matéria sobre o Sarau de Santa, organizado pela amiga Elis Galvão, e para o qual fui convidado, ao lado do Cuenca e da Rosana Caiado. O evento rolará no sábado, às 18h, no De Carli, um charmoso bistrô próximo ao Largo dos Guimarães (Rua Almirante Alexandrino, 256). Espero vocês lá! A íntegra da reportagem:

"Chance para tirar textos da gaveta"

Suzana Velasco

"Depois de duas oficinas literárias organizadas no Sesc pelo jornalista e escritor Marcelo Moutinho, os alunos decidiram continuar a troca de idéias e em dezembro surgiu o Sarau Literário de Santa Teresa, organizado pela jornalista Elis Galvão, cria dos cursos. No restaurante De Carli, próximo ao Largo dos Guimarães, a estréia foi movida pela leitura de cartas de autores célebres, como Goethe, Oscar Wilde, Clarice Lispector, Fernando Sabino e Graciliano Ramos.
A partir da edição deste sábado, a idéia é criar um espaço de interlocução entre novos autores e gente que, mesmo sem ter publicado um texto, tenha os seus escritos guardados na gaveta e queira compartilhá-los. É só chegar, acomodar-se e, se quiser entrar no clima, ainda provar o cardápio preparado especialmente para as edições do sarau.
— A estréia foi meio escondida, mas o pessoal das oficinas compareceu e as pessoas que estavam no bar pararam para ver. Agora queremos que o evento seja mensal, sempre com um convidado que já tenha algo publicado, com tema livre — conta Elis.
Sábado, a partir das 18h, o sarau terá a participação de Moutinho, do escritor João Paulo Cuenca — que foi professor das oficinas com a escritora Adriana Lisboa — e da roteirista e escritora Rosana Caiado. Todos lerão textos de sua autoria, como o inédito “Jujuba verde”, conto de Moutinho a ser publicado na próxima edição da revista Ficções."



 Escrito por Marcelo às 09h59
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"Num tempo da delicadeza..."

"Todo sentimento"

Cristóvão Bastos / Chico Buarque

"Preciso não dormir
Até se consumar
O tempo
Da gente
Preciso conduzir
Um tempo de te amar
Te amando devagar
E urgentemente
Pretendo descobrir
No último momento
Um tempo que refaz o que desfez
Que recolhe todo o sentimento
E bota no corpo uma outra vez

Prometo te querer
Até o amor cair
Doente
Doente
Prefiro então partir
A tempo de poder
A gente se desvencilhar da gente
Depois de te perder
Te encontro, com certeza
Talvez num tempo da delicadeza
Onde não diremos nada
Nada aconteceu
Apenas seguirei, como encantado
Ao lado teu"



 Escrito por Marcelo às 13h44
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Quintana

"Operação alma"

Mário Quintana

"Há os que fazem materializações...

Grande coisa! Eu faço desmaterializações.

Subjetivações de objetos.

Inclusive sorrisos,

Como aqueles que tu me deste um dia

Com o mais puro azul de teus olhos

E nunca mais nos vimos.

(na verdade a gente nunca mais se vê...).

No entanto, há muito que ele faz parte de certos estados

Do céu, de certos instantes de serena, inexplicável alegria.

Assim, como um vôo sozinho põe um gesto de adeus na paisagem,

Como uma curva de caminho, anônima,

Torna-se às vezes a maior recordação de toda uma volta ao mundo!"



 Escrito por Marcelo às 12h25
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Ao vivo, em Minas

Ontem enfim comprei o disco Antonio Carlos Jobim em Minas ao vivo - piano e voz, que a Biscoito Fino lançou em parceria com a Jobim Music e registra um show dado pelo maestro em 1981, no Palácio das Artes (Belo Horizonte). Comprei e ouvi todo ele de uma só vez. Confesso que estava meio desconfiado quanto ao cd, principalmente em razão do repertório, repleto de canções - não obstante sua qualidade - maciçamente gravadas, casos de  Desafinado, Samba de uma nota só, Eu sei que vou amar, entre outras. Só que, ao escutar o disco, saquei seu diferencial. O que temos ali é o Tom, acompanhado apenas de seu piano, cantando, tocando e contando coisas num clima tão intimista que a gente chega a pensar que ele está ao nosso lado. Meus destaques no cd ficam por conta de Eu não existo sem você, Falando de amor, Retrato em branco e preto, mas, principalmente, Eu preciso de você e Por causa de você. Na primeira, parceria com Aloysio de Oliveira, o maestro começa a canção ("Como o sol precisa de um poente / Eu preciso de você, só de você") arrancando otimismo da melodia, para na estrofe doída ("Só você não sabe a solidão / De tão imensa é uma doença") desacelerar o ritmo, esticando as notas e os versos num lamento bonito como em geral os lamentos costumam ser. Na segunda, letra inspiradíssima de Dolores Duran, a interpretação do Tom é de arrepiar. Trata-se da terceira faixa do disco, e foi o primeiro momento em que realmente me vi desconcertado, totalmente desconcertado. "Ah, você está vendo só / Do jeito que eu fiquei / E que tudo ficou", canta ele, quase sussurrando, como se estivesse ao pé do ouvido de quem precisa saber daquilo. A afagar as palavras, um piano minimalista, quase quieto, no ponto.

Um parêntese: ontem, conversando com a Juli sobre essa música, fiquei sabendo de uma coisa curiosa. A letra original era do Vinícius. Foi assim: Roberto Menescal levou Dolores Duran à casa do Tom, onde o maestro estava com o Poetinha dando retoques finais na canção. Os dois mostraram-na para os visitantes. Dolores ouviu atentamente, mas não pronunciou palavra, causando certo constragimento. Dias depois, ela telefonou para Menescal, pedindo que seguissem imediatamente rumo à casa do maestro, e que Vinícius fosse convocado. Chegando lá, mandou de pronto: "Sabe aquela música? É linda, mas tem um detalhe. A letra não é aquela que vocês apresentaram." Em seguida, tirou um papel da bolsa e entregou para a dupla. Era uma letra que ela mesmo havia escrito. Ainda atônitos, Tom e Vinícius aceitaram casar a letra de Doores com a melodia. Ao final da audição, Vininha então ratificou, humildemente declarou: "Você tem razão, a verdadeira letra dessa canção é esta." Sábio Poetinha...



 Escrito por Marcelo às 11h42
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Sobre o sofrimento

Iria postar e acabei esquecendo trechos da ótima entrevista que o antropólogo Roberto da Matta concedeu a O Globo no último domingo. Hoje, em sua estréia como colunista do jornal, ele se superou. O artigo Sobre o sofrimento é uma aula concisa e certeira a respeito do assunto, que explora a interrogação essencial do homem quando se vê vítima da dor e cujo ápice está no último parágrafo, no qual da Matta sublinha que "o amor que não precisa de recompensa e que é ponte entre esquecimento e lembrança, entre os vivos e os mortos", é a única sobrevivência e o unico significado". Segue a íntegra:

"Sobre o sofrimento"

Roberto da Matta

"Que o leitor me perdoe o tema sombrio, e quase tabu, numa modernidade voltada para privilegiar o superficial, o fácil e o prazeroso, ainda mais neste momento pré-carnavalesco que demanda passar por cima das agruras desta vida. Melhor do que falar da dor, seria usar os remédios que cotidianamente usamos para esquecê-la: discutir política, desancar o governo, reclamar disso ou daquilo. Por que, então, não ver somente o lado iluminado da vida do mundo?
E, no entanto, apesar das prescrições fáceis (evite as preocupações, alivie a neurose, não pense em coisas desagradáveis), esse fim de ano pariu um sofrimento indizível e inesperado dando, com a catástrofe da Ásia, uma prova concreta de que também vivemos num vale de lágrimas. Testemunho cruel de que temos de honrar uma “vida humana” marcada pela tragédia da finitude e da dor neste mundo, o que torna imperativo sugerir um “outro mundo” melhor e mais justo. E, pior que isso, que nossas vidas transcorrem com cotas e escaladas de sofrimento e alegrias que operam sem nenhuma lógica ou padrão.
Por que as tsunamis atingiram a Ásia no dia em que nossos entes mais queridos estavam na praia? Por que nasci em Sri Lanka e não na França? Por que João Bondade pegou aquela doença terrível enquanto aquele fdp daquele “político” ladrão, bandido e velhaco continua esbanjando tudo que é público, inclusive saúde?
Esse desacordo entre vidas corretas e sofrimentos humanamente injustos, e desproporcionais relativamente ao tamanho dos atingidos, é um assunto que interessa a todos nós neste Brasil das violências incontidas pelos administradores, das ruas onde os motoristas sustentam a guerra de todos contra todos e das balas perdidas...
Max Weber, que talvez tenha escrito o mais profundo comentário sobre esse assunto, diz mais ou menos o seguinte: como é que um Deus onipotente, fonte de infinita justiça, bondade e compaixão pela Humanidade, pôde ter criado um mundo marcado pela irracionalidade, pela injustiça e sofrimento gratuito? Se não podemos estabelecer uma contabilidade moral entre padecimento e beatitude, ou Deus não é onipotente e realmente bom ou, então, somos governados por uma lógica que não conseguimos entender por ser muito diferente de nossa sociabilidade, marcada por reciprocidades diretas (ou primitivas) como a do “dar e receber” a do “amor com amor se paga” e a do “olho por olho e dente por dente”.
Essa desconcertante interrogação faz nascer os grandes sistemas morais e religiosos com seus postulados de fé, cujo objetivo seria transcender o sofrimento deste mundo, sem esquecer os sistemas de bruxaria, panema e azar, típicos das sociedades tradicionais e tribais, mas igualmente presentes, residualmente ou não, em todo grupo humano. Sistemas que explicam os acidentes substituindo a vontade impessoal de Deus, da Natureza, das “forças históricas” ou do mercado“, para atribuí-los a alguma pessoa concreta que vive do nosso lado.
Jó, que resignadamente aceitou um sofrimento incessante, é talvez o melhor exemplo desse perseverar na crença num Deus impessoal, cujas razões são inacessíveis aos humanos. Cristo, os mártires e santos são o exemplo máximo nesta confiança num poder maior e numa ética de salvação no outro mundo. As doutrinas socialistas são o testemunho secular e “materialista” dessa mesma reação, quando postulam o alívio para o sofrimento humano com a radical junção deste mundo com o outro, o que muda tudo.
Só o pensamento metafísico político ou religioso, que postula um fim dos tempos ou da História, como queria Cristo ou Marx, pode responder satisfatoriamente aos infortúnios desta vida. O dito de Tertuliano, o grande codificador do cristianismo expresso há quase dois milênios, “Creio porque é absurdo”, aclara o caminho. Quando não posso explicar, acredito; e acredito exatamente porque explicar é impossível.
Mas onde, perguntaria o leitor tão ou mais cético que eu estaria esse “acreditar”? Qual o seu conteúdo? Como isso poderia ser traduzido numa linguagem menos religiosa ou eventualmente sectária, como ocorre nas doutrinas políticas fechadas?
Thornton Wilder, um dos mais sensíveis escritores americanos, no seu belíssimo livro, “A Ponte de São Luís Rey”, sugere uma resposta. Diante da impossibilidade de transformar a teologia numa ciência exata, na base da suposição que diz: “Se em algum lugar há leis, elas devem existir em toda parte”, um de seus personagens, frei Junípero, concorda que a discrepância entre a fé e os fatos é maior do que supomos. A resposta, entretanto, não estaria na precisa contabilidade moral projetada pelo frade, mas na boca de uma religiosa, cuja fé e solidariedade pelos desamparados, abria mão de resultados e recompensas. Para ela, a resposta ”explicação“ para o sofrimento estava na dedicação guiada pelo amor. Esse amor que não precisa de recompensa e que é a ponte entre esquecimento e lembrança, entre os vivos e os mortos. Única sobrevivência e único significado."

P.S. A pintura é O grito, de Munch, o quadro que mais me impressionou na vida entre todos os que vi (inclusive ao vivo, pois quando esteve no Brasil fui à Bienal de São Paulo conferir de perto...)



 Escrito por Marcelo às 11h24
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Ouvindo

"While my guitar gently weeps"

George Harrison

"I look at you all
See the love there that's sleeping
While my guitar gently weeps
I look at the floor
And I see it needs sweeping
Still my guitar gently weeps
I don't know why nobody told you
How to unfold your love
I don't know how someone controlled you
They bought and sold you
I look at the world
And I notice it's turning
While my guitar gently weeps
With every mistake
We must surely be learning
Still my guitar gently weeps
Look at you all
Look at you all
Look at you all
Look at you all
I don't know how you were diverted
You were perverted too
I don't know how you were inverted
No one alerted you
Look at you all
Still my guitar gently weeps
Look at you all
Look at you all
Look at you all
Look at you all
Still my guitar gently weeps"



 Escrito por Marcelo às 13h52
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Diários no Oscar

Acaba de sair a notícia: Diários de motocicleta, do Waltinho Salles, foi indicado ao Oscar nos quesitos Melhor Roteiro Adaptado e Melhor Canção -com Al Otro Lado Del Río, do ótimo Jorge Drexler. Em Melhor Roteiro Adpatado, o filme concorrerá com Antes do pôr-do-sol, Em busca da Terra do Nunca, Menina de ouro e Sideways, entre umas e outras. Já a canção do uruguaio disputará com Accidentally in love (Shrek 2), Believe (O expresso polar), Learn to be lonely (O fantasma da ópera) e Look to your path (As coristas).



 Escrito por Marcelo às 13h46
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Suvaco

Acabo de receber um email convocando para o desfile do Suvaco do Cristo, que acontecerá no próximo domigo, às 12h. A concentração começa às 10h30, em frente ao Bar Jóia. O texto convocatório:

"Amigos e amigas, domingo é dia de Suvaco. A divulgação vai ser assim, e-mail a e-mail, boca-a-boca... Como não haverá Monobloco, nossa babá de pit-boys, sairemos cedo mesmo. A idéia é fazer um desfile não tão longo, não tão cheio, com crianças e senhoras de todas as idades.. Vai ter caminhão-pipa para refrescar os foliões, bandinha do Bola Preta e outros baratos. Já que vai ter sol e muita água, sugerimos fantasias frescas (com ou sem trocadilho). Mas já sabemos que teremos profetas do apocalipse, Netuno, Yara, Yemanja e outras entidades para nos proteger das forças da natureza e de George W. Bush. Bem, é isso aí. Nos vemos e bom carnaval para todos. Avisem aos amigos, aos amigos dos amigos e quem mais for da folia"

"Será que a Terra tremeu? (ou a gente que bebeu demais...)"

Ala dos Compositores do Suvaco do Cristo

"Ninguém sabe, ninguém viu (ôô)

Quando a fumaça subiu

Me sacode que eu deixo

Hoje eu tô fora do eixo

Nosso bloco já saiu

Você passa por mim

Dá início ao meu fim

Jogo tudo pro ar

Abalou meu jardim

Num doce balanço

A caminho do mar

O Suvaco é epicentro
Dessa onda de alegria
Até o Cristo já sentiu a maresia


Se não me falha a memória
Em um passado remoto

Já dizia o profeta Lerfa-mu

Celacanto provoca maremoto
Será que a Terra tremeu

Ou a gente que bebeu demais?

Hecatombe, cataclisma, carnaval

Apocalipse now!"



 Escrito por Marcelo às 13h25
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Dia e noite

"Night and day"

Cole Porter

"Like the beat beat beat of the tom-tom
When the jungle shadows fall
Like the tick tick tock of the stately clock
As it stands against the wall

Like the drip drip drip of the raindrops
When the summer shower is through
So a voice within me keeps repeating
You, you, you

Night and day, you are the one
Only you beneath the moon or under the sun
Whether near to me, or far
It's no matter darling where you are
I think of you
Day and night, night and day, why is it so

That this longing for you follows wherever I go
In the roaring traffic's boom
In the silence of my lonely room
I think of you
Day and night, night and day

Under the hide of me
There's an oh such a hungry yearning burning inside of me
And this torment won't be through
Until you let me spend my life making love to you
Day and night, night and day"



 Escrito por Marcelo às 11h44
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Juventude

“Por outras palavras, quando se adia o amor, a acção política, o romance a escrever. Osório fica assim diante de um dilema incómodo: ou poupar a juventude ou vivê-la. No primeiro caso, de que lhe serve a juventude se não a vive completamente, isto é, se não a aproveita no que tem de mais peculiar, a plenitude e até o excesso? No segundo, adeus juventude transferida. E transferida para quê? Para a poupar de novo? Não, para a perder, como veremos adiante.”

'O Aprendiz de Feiticeiro', de Carlos de Oliveira / Pintura de Iberê Camargo



 Escrito por Marcelo às 11h19
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Tom

Hoje, se vivo, ele faria aniversário. Um dos maiores gênios brasileiros, personagem fundamental da chamada "modernidade" de nossa música popular, Tom Jobim foi também um arguto observador de nosso jeito de ser. O apelido como seria conhecido no mundo todo ele ganhou de Helena, que não conseguia dizer Antônio Carlos, então chamava-o de Tom-Tom. De Tom-Tom em Tom-Tom, virou apenas Tom. Mais tarde, foram falar que Tom era um nome americano, assim como Johnny Alf ou Dick Farney. "Tive que carregar essa cruz. Lutei muito para ser Antônio Carlos, mas não consegui. Ninguém vai chamar um cara de Antônio Carlos se pode chamá-lo de Tom", comentou certa vez. 

O maestro é autor de algumas das mais brilhantes pérolas da MPB. E sua criação bebia sempre numa angústia, como ele mesmo admitia: "Eu acho que quando você faz uma música você dissolve uma depressão. O piano funciona como espelho na correção de meus defeitos. Procuro uma harmonia, uma coisa boa". Das tantas pequenas maravilhas que fez nascer, boa parte em parceria com o Poetinha, esta canção abaixo, composta em 1958, é das minhas preferidas, principalmente no registro de Elizeth Cardoso e Raphael Rabello no disco que a dupla gravou junta...

"Janelas abertas"

Tom Jobim / Vinícius de Moraes

"Sim
Eu poderia fugir, meu amor
Eu poderia partir
Sem dizer pra onde vou
Nem se devo voltar

Sim
Eu poderia morrer de dor
Eu poderia morrer
E me serenizar

Ah
Eu poderia ficar sempre assim
Como uma casa sombria
Uma casa vazia
Sem luz nem calor

Mas
Quero as janelas abrir
Para que o sol possa vir iluminar nosso amor"



 Escrito por Marcelo às 10h47
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Poesia pela manhã

"Soneto do Corifeu"

Vinícius de Moraes

"São demais os perigos desta vida
Para quem tem paixão, principalmente
Quando uma lua surge de repente
E se deixa no céu, como esquecida.

E se ao luar que atua desvairado
Vem se unir uma música qualquer
Aí então é preciso ter cuidado
Porque deve andar perto uma mulher.

Deve andar perto uma mulher que é feita
De música, luar e sentimento
E que a vida não quer, de tão perfeita.

Uma mulher que é como a própria Lua:
Tão linda que só espalha sofrimento
Tão cheia de pudor que vive nua."



 Escrito por Marcelo às 10h31
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Pré-carnaval

Hoje à noite vai rolar na Gafieira Estudantina o baile pré-carnavalesco do Rancho Flor do Sereno, organizado pelos amigos do Bip. A animação começa às 21h e não tem hora pra acabar. Pedro Aragão, Paulo Aragão, João Callado, Rui Alvim e Oscar Bolão são alguns dos integrantes da orquestra do Rancho, que terá o reforço dos amigos Pedro Paulo Malta e Alfredo Del-Penho nos vocais. Serão lembradas algumas das mais famosas marchinhas do carnaval carioca. Ótima pedida, não?

P.S. Aliás, o Imprensa que eu gamo foi uma delícia. Parabéns aos amigos Marceu e Janjão pelo samba, maior responsável pela animação dos presentes... 



 Escrito por Marcelo às 13h36
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Esboço

“Ao passado não se volta, mas o passado, quando incompletamente vivido, transfere-se (não na memória, mas fisicamente) para o futuro e fica à nossa espera, puro esboço, pronto a desenvolver-se… Nesse sentido, é a própria juventude que vai resistindo ao tempo, que vai esperando por nós lá ao longe.”

'O aprendiz de feiticeiro', de Carlos de Oliveira (a quem descobri no Absorto...)



 Escrito por Marcelo às 12h04
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Nei Lisboa

Esta canção faz parte da trilha do filme Meu tio matou um cara, do Jorge Furtado. Foi gravada pelo Caetano, mas é composição do Nei Lisboa, um cara talentoso lá do Sul, daqueles exemplos de sucessos gaúchos que não conseguem extrapolar os limites regionais. Tenho um ótimo disco dele, o Hi-Fi, que reúne músicas gringas de acento folk, entre elas a rara e belíssima Sometimes snows in April (do Prince), sobre a qual comentei ontem mesmo num papo com amigos. Foi nessa mesma conversa que surgiu Pra te lembrar. Corri atrás da letra para postar aqui:

"Pra te lembrar"

Nei Lisboa

"O que á que eu vou fazer pra te esquecer
Sempre que já nem me lembro
Lembras pra mim
Cada sonho teu me abraça ao acordar, como um anjo lindo
Mais leve que o ar
Tão doce de olhar que nem um adeus pode apagar.
O que é que eu vou fazer pra te deixar
Sempre que eu apresso o passo passas por mim
E um silêncio teu me pede pra voltar, ao te ver seguindo mais leve que o ar
Tão doce de olhar que nem um adeus pode apagar.
O que é que eu vou fazer pra te lembrar
Como tantos que eu conheço e esqueço de amar
Em que espelho teu
Sou eu que vou estar, a te ver sorrindo, mais leve que o ar
Tão doce de olhar que nem um adeus pode apagar"



 Escrito por Marcelo às 11h22
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Os melhores de 2004 no CCBB

Começa amanhã no CCBB a mostra dos melhores filmes de 2004, segundo a Associação de Críticos de Cinema do Rio de Janeiro. Após as sessões, haverá debate com críticos e convidados. O evento será encerrado no domingo, quando estarei, ao lado do Rodrigo Fonseca (crítico do JB) e do ator Carlos Gregório, na mesa que analisará Os sonhadores e Má eduação. Espero vocês lá! Segue a programação completa:

Terça, 25/1
17h - DOGVILLE
Após a sessão, debate com os críticos Ivana Bentes, Luciano Trigo e Marcelo Janot. Convidado: Amir Haddad (diretor teatral)

Quarta, 26
16h30 - O PÂNTANO
18h30 - CONTRA TODOS
Após a última sessão, debate com os críticos Carlos Alberto Mattos e Daniel Schenker Wajnberg. Convidado: Roberto Moreira (diretor de "Contra Todos")

Quinta, 27
16h30 - FAHRENHEIT 9/11
18h30 - ENTREATOS
Após a última sessão, debate com os críticos Denise Lopes e Ricardo Cota. Convidado: Fabiano Santos (cientista político)

Sexta, 28
16h30 - ENCONTROS E DESENCONTROS
18h30 - ELEFANTE
Após a última sessão, debate com os críticos Pedro Butcher e Tony Tramell. Convidado: Luiz Fernando Gallego (psicanalista)

Sábado, 29
18h40 - KILL BILL VOL.2
Após a sessão, debate com os críticos Gilberto Silva Junior e João Marcelo Mattos. Convidado: Ivan Sugahara (diretor teatral)

Domingo, 30
16h30 - OS SONHADORES
18h30 - MÁ EDUCAÇÃO
Após a última sessão, debate com os críticos Marcelo Moutinho e Rodrigo Fonseca. Convidado: Carlos Gregório (ator, roteirista e diretor de cinema, teatro e TV)



 Escrito por Marcelo às 11h09
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Máxima

"O perfeccionismo está mais próximo do vício do que da virtude"

Ouvi isso em algum lugar. É de uma verdade que vou lhes contar! Os quadrados perfeitamente alinhadinhos podem logo virar uma prisão.



 Escrito por Marcelo às 10h53
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Noite de Tom

Início da noite de um domingo esplendoroso de sol no coração de Ipanema. Jovens, senhoras e senhores sentados em seus banquinhos ou simplesmente de pé, celebrando o grande Tom Jobim, num clima de informalidade e emoção. Tudo isso aconteceu ontem em frente à Toca do Vinícius, com o show da Turma da Bossa, que é capitaneada pela amiga Juli. Dentro do irretocável repertório de pérolas do maestro, o destaque ficou com duas delas. A clássica Dindi, não só pela interpretação emocionada da Juli, mas também pela curiosidade revelada antes que ela começasse a cantar: a canção foi inspirada num rio, não numa mulher. O outro ponto alto foi Eu não existo sem você, momento "à flor da pele" da Juli. E que ficou ainda mais bonito pela cena a que assisti. Num cantinho ao lado da entrada da loja, enquanto a música rolava, o dono da Toca do Vinícius observava o show abraçado à mulher. Quando soavam os versos "Não há você sem mim / E eu não existo sem você", ele então voltava-se para ela e sorria. Era possível ler o tanto que era dito naquela rápida troca de olhares, o tanto de manhãs, tardes e noites, o tanto de brigas e reconciliações, o tanto de carinhos e incompreensões, que perduraram justamente porque, como sabiamente anotou o Vininha, "a canção só tem razão se se cantar". 



 Escrito por Marcelo às 10h28
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A dor do amor

Estamos apenas em janeiro, mas um dos grandes filmes de 2005 já está em cartaz. Falo de Perto demais, dirigido pelo irregular Mike Nichols. Adaptação da peça homônima de Patrick Marbe, o filme ofecere ao espectador um ensaio dolorido sobre as relações amorosas, cuja excelência calca-se basicamente nas ótimas interpretações do quarteto de atores - Julia Roberts, Jude Law (ambos no tom), Natalie Portman e Clive Owen (com atuações excepcionais) - e na força do texto original, repleto de diálogos cortantes e de um realismo de maltratar o estômago. A mão precisa de Nichols transparece não apenas na direção dos atores, mas também em seqüências significativas, como aquela em que o personagem de Law entra na vernissage da fotógrafa vivida por Julia Roberts e a câmera, como se tomasse o lugar dos olhos dele, sinuosamente a procura em meio a um bando de gente. Discordo radicalmente da idéia que o filme passa, um tanto pessimista ao debruçar os olhos sobre o amor como uma espécie de miragem cuja ponta é a volta ao cotidiano enfadonho ou o fim simplesmente. Apesar disso, Perto demais merece a visita. Nem que seja para reafirmar dentro de nós mesmos que tudo pode ser diferente.

P.S. Sobre o filme, aliás, a Isabela Boscpv (crítica da Veja, de quem quase sempre discordo) escreveu uma ótima análise, que foi publicada na penúltima edição da revista...



 Escrito por Marcelo às 17h26
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Patrice Leconte

Resenhei o filme Confidências muito íntimas, de Patrice Leconte, para o site Críticos.Com. Segue a íntegra do texto:

Drama correto, mas sem alma

Marcelo Moutinho


A versatilidade talvez seja a principal marca do cineasta francês Patrice Leconte. De comédia agridoces, como O Marido da Cabelereira e Um Homem Muito Esquisito, a dramas densos (A Víuva de Saint-Pierre), o diretor já trafegou por diferentes gêneros, com maior ou menor êxito, mas sempre demonstrando domínio técnico da arte de filmar. Em Confidências Muito Íntimas, a intimidade com a “gramática” básica do cinema está mais uma vez patente. O problema é que parece faltar algo.
Leconte narra a história de Anna (Sandrine Bonnaire), que no auge da crise matrimonial procura um psicanalista. Por distração, logo na primeira consulta ela erra de consultório e vai parar na sala do tributarista William Faber (Fabrice Luchini). Estranhamente fascinado por Anna, Faber não desfaz o engano e passa a ministrar sessões. Aos poucos, a relação avança para um sentimento mútuo de dependência, cuja essência localiza-se no problema que mitiga a vida de ambos: a solidão. As circunstâncias propostas na trama obedecem a mote recorrente do cinema: o inusitado encontro que bagunça o cotidiano do casal, funcionando como ponto-de-partida para novos ventos.
O trabalho de Fabrice Luchini sobressai na composição do metódico homem de meia idade que há mais de 30 anos cumpre as mesmas tarefas, legadas pelo pai. O perfil do indivíduo metódico, quase apático, evidencia-se entre outros fatores através de manias prosaicas, como a sistemática arrumação dos sapatos, e as poucas palavras que pronuncia – ao menos antes de conhecer Anna – revelam sua introversão. Faber limita-se a fitar o mundo; parece dele não tomar parte. E Leconte sublinha tal condição em cena que cita explicitamente o clássico Janela Indiscreta: o tributarista observa pela janela os vizinhos do prédio defronte a sua sala – o velho que lê, o casal que discute, dois namorados –, mas seu voyeurismo e sua imobilidade, evidentemente, não se devem a nenhuma perna quebrada. O caso dele é mais sério, e menos explícito.
Se a composição de Luchini beira a perfeição, Sandrine Bonnaire está um tom acima, tanto ao retratar a moça retraída do período inicial, quanto no papel da mulher contundente e impositiva da segunda metade do filme. A movimentação dos dois atores obedece a marcações claramente teatrais, mas falta punch à direção. Leconte acerta, contudo, ao caracterizar o estado interior dos personagens por intermédio de locações fechadas – em poucos momentos a câmera sai do escritório -, iluminação com toques noir e cenografia centrada em cores sóbrias. À medida que se conhecem, a progressiva transformação vai sendo sublinhada, com algumas tomadas externas e mais luz. O figurino também muda. A encasacada Anna deixa a echarpe, depois as luvas, e enfim as mangas compridas, até surgir em vestidos estampados, transparências e blusas com decote.
Em resumo, Leconte dá seu recado ao alocar adequadamente os elementos fílmicos e aplicar mais uma vez com competência a gramática visual que começou a ser desenhada bem lá atrás por Griffith. Tudo isso faz de Confiências Muito Íntimas um filme “correto”. Adjetivos mais generosos soariam exagerados, porque ao fim o espectador sente que falta algo. Alma, talvez.



 Escrito por Marcelo às 14h21
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Canção de hoje

Mas apesar de o carnaval estar próximo, hoje aqui no Pentimento é dia de rock. Rock com subtexto.

"Por você"

Barão Vermelho

"Por você eu dançaria tango no teto
Eu limparia os trilhos do metrô
Eu iria a pé do Rio a Salvador
Eu aceitaria a vida como ela é
Viajaria à prazo pro inferno
Eu tomaria banho gelado no inverno
Por você eu deixaria de beber
Por você eu ficaria rico num mês
Eu dormiria de meia pra virar burguês
Eu mudaria até o meu nome
Eu viveria em greve de fome
Desejaria todo o dia a mesma mulher

Por você, por você
Por você, por você

Por você eu conseguiria até ficar alegre
Pintaria todo o céu de vermelho
Eu teria mais herdeiros que um coelho
Eu aceitaria a vida como ela é
Viajaria à prazo pro inferno
Eu tomaria banho gelado no inverno
Eu mudaria até o meu nome
Eu viveria em greve de fome
Desejaria todo o dia a mesma mulher"



 Escrito por Marcelo às 12h22
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Bloco dos coleguinhas

 
Parabéns aos amigos Marceu e Janjão, autores (ao lado de Fábio Nascimento) do samba vencedor de 2005 do bloco Imprensa que eu gamo. O bloco desfila amanhã, com concentração às 17h, no Mercadinho de Laranjeiras.
 
"O Larry Rohter, será que ele é?"
 
Marceu, Janjão e Fábio Nascimento
 
"Deu no New York Times
que a Garota de Ipanema é fofa
E viram nas morenas bundas flácidas
Com celulites e culotes retumbantes
Que a nossa musa agora é uma baleia
Sereia de antigos carnavais
"O Brazil não conhece o Brasil"
O Lula é presidente ou um barril?
 
Não gosta de cachaça
Não entende de mulher                       BIS
O Larry Rohter, será que ele é?
 
VEJA, ISTO É a nossa ÉPOCA
Só tem PLAYBOY, não há MANCHETE nem VISÃO
Já não tenho mais emprego
Mas pelo menos me livrei do pescoção
No carnaval, eu faço frila
No Mercadinho, em liquidação
(Imprensa, meu bem)
 
Imprensa Que Eu Gamo, meu bem                   BIS
Cheguei a dez, mas já estou a mais de cem
(e o Larry deu!)"


 Escrito por Marcelo às 11h33
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...

"Catavento e Girassol"

Guinga / Aldir Blanc

"Meu catavento tem dentro
O que há do lado de fora do
Teu girassol
Entre o escancaro e o contido
Eu te pedi sustenido
E você riu bemol
Você só pensa no espaço
Eu exigi duração
Eu sou um gato de suburbia
Você é litorânea
Quando eu respeito os sinais
Vejo você de patins

Vindo na contramão
Mas quando ataco de macho
Você se faz de capacho
E não quer confusão
Nenhum dos dois se entrega
Nós não ouvimos conselho
Eu sou você que se vai
No sumidouro do espelho

Eu sou do Engenho de Dentro
E você vive no vento do Arpoador
Eu tenho um jeito arredio
E você é expansiva
O inseto e a flor
Um torce pra Mia Farrow
O outro é Woody Allen
Quando assovio uma seresta
Você dança, havaiana

Eu vou de tênis e jeans
Encontro você demais
Scarpin, soirée
Quando o pau quebra na esquina
Você ataca de fina
E me ofende em inglês
É fuck you, bate-bronha
E ninguém mete o bedelho
Você sou eu que me vou
No sumidouro do espelho

A paz é feita no motel
De alma lavada e passada
Pra descobrir logo depois
Que não serviu pra nada
Nos dias de carnaval
Aumentam os desenganos
Você vai pra Parati
E eu pro Cacique de Ramos

Meu catavento tem dentro
O vento escancarado do Arpoador
Teu girassol tem de fora
O escondido do Engenho de Dentro da flor
Eu sinto muita saudade
Você é contemporânea
Eu penso em tudo quanto faço
Você é tão espontânea

Sei que um depende do outro
Só pra ser diferente
Pra se completar
Sei que um se afasta do outro
No sufoco somente pra se aproximar
Cê tem um jeito verde de ser
E eu sou meio vermelho
Mas os dois juntos se vão
No sumidouro no espelho"



 Escrito por Marcelo às 16h50
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Machuca

Subscrevendo a Moniquinha, também recomendo essa graça de filme que é Machuca, de Andrés Wood. Mais uma produção a confirmar a boa fase do cinema sul-americano.



 Escrito por Marcelo às 11h35
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Aniversário

"Coda"

Eugénio de Andrade

"Nenhum pensar agora: calma
e profunda corrente de silêncio
entre mim e o que de mim ainda
se aproxima: simples fulgor
antes de arder no cume
talvez a cal: ou só o seu rumor".

P.S. O poeta portugês completa 82 anos hoje...



 Escrito por Marcelo às 11h20
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Turma da Bossa

A boa pedida no início da noite de domingo é o show da Turma da Bossa, capitaneada pela amiga Juli, nas calçadas da Rua Vinícius de Morais. O espetáculo começa às 20h e será promovido pela Toca do Vinícius. É chegar de viagem e seguir direto pra lá!



 Escrito por Marcelo às 11h18
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"Perdoando Deus"

"(...) Porque eu me imaginava mais forte. Porque eu fazia do amor um cálculo matemático errado: pensava que, somando as compreensões, eu amava. Não sabia que, somando as incompreensões, é que se ama verdadeiramente. Porque eu, só por ter tido carinho, pensei que amar é fácil. É porque eu não quis o amor solene, sem compreender que a solenidade ritualiza a incompreensão e a transforma em oferenda. E é também porque sempre fui de brigar muito, meu modo é brigando. É porque sempre tento chegar pelo meu modo. É porque ainda não sei ceder. É porque no fundo eu quero amar o que eu amaria - e não o que é. É porque ainda não sou eu mesma, e então o castigo é amar um mundo que não é ele. (...)"

Clarice Lispector



 Escrito por Marcelo às 10h15
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O ofício do escritor

Do já citado A sabedoria do coração, aliás, indicaria três ensaios: A morte criativa e Reflexões sobre a arte de escrever, além do texto que dá nome ao livro. Em todos eles, Henry Miller medita sobre as motivações e o processo da escrita. O belo trecho abaixo é de Reflexões... Notem que a confissão do próprio fracasso "no chamado mundo da realidade", presente no primeiro parágrafo de Sexus através de seu narrador, aqui se repete. Os grifos são meus.

"(...) Acho que devia também confessar que fui levado a escrever porque isto provou ser a única saída para mim, a única tarefa digna da minha capacidade. Tinha honestamente experimentado todos os outros caminhos para a liberdade. Eu era um fracasso deliberado no chamado mundo da realidade, não um fracasso por falta de habilidade. Escrever não era uma ‘fuga’, uma maneira de me evadir da realidade cotidiana: pelo contrário, significava um mergulho ainda mais profundo na água salobra – um mergulho na fonte onde as águas estavam sendo constantemente renovadas, onde havia um perpétuo movimento e agitação. Olhando retrspectivamente a minha carreira, vejo-me como uma pessoa capaz de empreender quase qualquer tarefa, qualquer mister. Foi a monotonia e a esterelidade das outras saídas que me levaram ao desespero. Eu exigia um campo em que fosse simultaneamente senhor e escravo: o mundo da arte é o único campo assim. Penetrei nele sem qualquer talento aparente, um completo noviço, incapaz, desajeitado, atado, quase paralisado pelo medo e apreensão. Tive de assentar um tijolo sobre o outro, registrar milhões de palavras no papel, antes de escrever uma palavra real, autêntica, arrancada de minhas entranhas. A facilidade de falar que possuía era um estorvo; asimilara todos os vícios do homem instruído. Tinha que aprender a pensar, sentir e ver de uma maneira totalmente nova, de uma maneira não-instruída, de uma maneira própria, o que é a coisa mais difícil do mundo. Tive que me atirar a correnteza, sabendo que provavelmente iria afundar. A grande maioria dos artistas está se atirando com salva-vidas ao pescoço, e quase sempre é o salva-vidas que os faz afundar. Ninguém que se entregue voluntariamente à experiência pode se afogar no oceano da realidade. O pouco progresso que exista na vida não é fruto da adaptação mas da ousadia, da obediência ao impulso cego. ‘Nenhuma ousadia é fatal’, disse René Crevel, uma frase que nunca hei de esquecer. Toda a lógica do universo está contida na ousadia, isto é, na criação a partir do ponto de apoio mais inconsistente e reduzido. No início, essa ousadia é confundida com a vontade, mas com o tempo a vontade esmorece e o processo automático assume o seu lugar, e este, por sua vez, tem que ser interrompido ou abandonado para que se instaure uma nova certeza alheia ao conhecimento, à habilidade, à técnica ou à fé. Pela ousadia chega-se a essa misteriosa posição X do artista, e é esse porto seguro, que ninguém consegue exprimir com palavras, que no entanto perdura e destila de cada linha que se escreve."



 Escrito por Marcelo às 16h19
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"Com as roupas e as armas de Jorge"

"Jorge de Capadócia"

Jorge Ben ("jor" droga nenhuma!)

"Jorge sentou praça
na cavalaria
E eu estou feliz porque eu também
sou da sua companhia

Eu estou vestido com as roupas
e as armas de Jorge.
Para que meus inimigos tenham pés
e não me alcancem.
Para que meus inimigos tenham mãos
e não me toquem.
Para que meus inimigos tenham olhos
e não me vejam.
E nem mesmo um pensamento
eles possam ter para me fazerem mal

Armas de fogo
meu corpo não alcançarão
Facas e espadas se quebrem
sem o meu corpo tocar.
Cordas e correntes arrebentem
sem o meu corpo amarrar.

Pois eu estou vestido
com as roupas e as armas de Jorge

Jorge é de Capadócia
Salve jorge!
Salve jorge!

Jorge é de Capadócia
Salve jorge!
Salve jorge!"



 Escrito por Marcelo às 15h38
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Façam suas apostas

O Campeonato Carioca começa no próximo domingo e os quatro clubes grandes, entre reforços e aquilo que podemos chamar apenas de "contratações", apostam em novos times para a temporada de 2004. As escalações abaixo deverão ser as escolhidas pelos técnicos Abel Braga (Fluminense), Bonamigo (Botafogo), Joel Santana (Vasco) e Julio César Leal (Urubu). E aí? Qual o seu palpite sobre o melhor time?

Fluminense - Fernando Henrique, Gabriel, Antonio Carlos, Fabiano Eller e Lino; Marcão, Juninho (Diego), Pretto e Felipe; Leandro e Tuta.

Botafogo - Jefferson, César Prates, Juninho, Scheidt e Marquinhos; Thiago Xavier, Túlio, Juca e Caio; Almir e Hugo.

Vasco - Cássio, Thiago Maciel, Adriano, Marcos e Diego; Ygor, Coutinho, Robson Luiz e Allann Delon; Alex Dias e Romário.

Flamengo - Diego, China, Tiago, Fabiano e Júlio Moraes; Da Silva, Júnior, Íbson e Zinho; Marcos Denner e Dimba.



 Escrito por Marcelo às 14h51
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Senhora Dona Vida

Ainda hoje cedo enchi os olhos de lágrimas (re) lendo as Cartas, do Caio Fernando Abreu. Este trecho é parte de missiva enviada a um amigo, na qual relata como vinha enfrentando a barra pesada da Aids. Como bem observou o José Castello em brilhante ensaio, esse otimismo que o Caio (antes um escritor algo soturno) destila aqui e em boa parte de sua produção tardia só pintou após a descoberta da doença. É desse otimismo que estou precisando agora...

"(...) Mas para você, revelo humilde: o que importa é a Senhora Dona Vida, coberta de ouro e prata e sangue e musgo do tempo e creme Chantilly às vezes e confetes de algum carnaval, descobrindo pouco a pouco seu rosto horrendo e deslumbrante. Precisamos suportar. E beijá-la na boca. De alguma forma absurda, nunca estive tão bem. Armado com as armas de Jorge. Os muros continuam brancos, mas agora são de um sobrado colonial espanhol que me faz pensar em García Lorca; o portão pode ser aberto a qualquer hora para entrar ou sair; há uma palmeira, rosas cor-de-rosa no jardim. Chama-se Menino deus este lugar cantado por Caetano, e eu sempre soube que era aqui o porto. Nunca se sabe até que ponto seguro, mas – para lembrar Ana C., que me deteve à beira da janela – como como não se pode ancorar um navio no espaço, ancora-se neste porto. Alegre ou não: ave Lya Luft, ave Iberê, Quintana e Luciano Alabarse, chê.
Vejo Dercy Gonçalvez, na Hebe, assisto A Falecida de Gabriel Villela no Teatro São Pedro; Maria Padilha conta histórias inéditas de Vicente Pereira; divido sushis com a bivariana Yolanda Cardoso; rezo por Cuba; ouço Bola de Nieve; gargalho com Déa Martins; desenho a quatro mãos com Laurinha; leio Zuenir Ventura para entender o Rio; uso a estrela do PT no peito (Who Knows?) ; abro o I Ching ao acaso : Shêng, a Ascensão ; não perco Éramos Seis e agradeço, agradeço, agradeço.
A vida grita. E a luta, continua."



 Escrito por Marcelo às 11h42
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Henry Miller

Minha lembrança de Henry Miller remete aos tempos de Facha, quando, lá pelos idos de 1992, descobri o fascinante A sabedoria do coração. Curiosamente, desde então pouco li do autor. Talvez por não ser exatamente um entusiasta da iconoclastia do movimento beat, do qual Miller foi um dos represententes. Por esses dias, contudo, deparei-me com a bela reedição da Companhia das Letras para o romance Sexus, que faz parte de sua famosa trilogia erótica. E folheando primariamente as páginas, estou bastante impressionado, acima de tudo com as reflexões sobre o ofício da escritura. O livro já começa bem, num primeiro parágrafo que em algo me lembrou o de Notas do subsolo (Dostoievski), não pelo aspecto formal, nem pelo temático, mas pela completa falta de condescendência do narrador consigo mesmo:

"Deve ter sido numa noite de quinta-feira que eu a conheci - no salão de baile. Fui trabalhar na manhã seguinte, depois de uma ou duas horas de sono, parecendo um sonâmbulo. O dia passou como um sonho. Depois do jantar, adormeci no sofá e acordei vestido por volta das seis da manhã seguinte. Sentia-me totalmente renovado, puro de coração e obcecado por uma idéia - conquistá-la a qualquer preço. Atravessando o parque a pé, deliberava que tipo de flores enviar junto com o livro que lhe prometera (Winesburg Ohio). Eu me aproximava do trigésimo terceiro aniversário, a idade de Cristo Crucificado. Toda uma nova vida se abria à minha frente, caso eu tivesse a coragem de arriscar tudo. Na verdade, não havia nada a arriscar: eu estava no degrau inferior da escada, um fracassado em todos os sentidos da palavra".

Este trecho já está devidamente sublinhado, assim como muitos outros. Entre eles, decidi postar aqui também aquele em que o narrador comenta a identificação entre o leitor e o grande escritor, proporcionada pelos bons textos:

"Todo dia massacramos nossos melhores impulsos. E é por isso que sentimos uma dor no coração sempre que lemos as linhas escritas pela mão de um mestre e as reconhecemos como nossas, como os tenros brotos que sufocamos porque nos faltava a fé em nossos próprios poderes, em nossos critérios de verdade e beleza. Todo homem, quando se aquieta, quando é desesperadamente honesto consigo mesmo, pode proferir verdades profundas. Todos derivamos da mesma fonte. Não há mistério quanto à origem das coisas. Todos somos parte da criação, todos reis, todos poetas, todos músicos; precisamos apenas nos abrir, para descobiri o que já estava lá."



 Escrito por Marcelo às 10h01
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"A seda azul do papel que envolve a maçã"

Vontade de ir pro mato....

"Trem das cores"

Caetano Veloso

"A franja da encosta cor de laranja
Capim rosa-chá
O mel desses olhos luz, mel de cor ímpar
O ouro ainda não bem verde da serra
A prata do trem
A lua e a estrela
Anel de turquesa
Os átomos todos dançam, madruga
Reluz neblina
Crianças cor de romã entram no vagão
O oliva da nuvem chumbo ficando pra trás da manhã
E a seda azul do papel que envolve a maçã
As casas tão verde e rosa que vão passando ao nos ver passar
Os dois lados da janela
E aquela num tom de azul quase inexistente, azul que não há
Azul que é pura memória de algum lugar
Teu cabelo preto, explícito objeto
Castanhos lábios
Ou, pra ser exato, lábios cor de açaí
E aqui, trem das cores, sábios projetos:
Tocar na Central
E o céu de um azul celeste celestial"



 Escrito por Marcelo às 17h53
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Paulinho e o Rei

Ontem tive o imenso prazer de rever, agora em DVD, o ótimo documentário Meu tempo é hoje, dirigido por Izabel Jaguaribe. O DVD traz, além do filme em si, extras bem interessantes, com seqüências de conversas e registros musicais que acabaram ficando de fora no corte final. Na maioria dos casos com toda razão. Mas há duas exceções. Uma delas é a entrevista com Sérgio Cabral, em que o jornalista explica a origem do nome artístico do cantor, que foi dado pelo próprio Cabral e pelo grande Zé Ketti. A outra é a revelação de que, ao compor a tocante Não quero você assim, Paulinho pensou em mostrá-la a Roberto Carlos, o que acabou não fazendo por simples timidez. Posto abaixo a letra da canção. Agora é imaginar como ficaria na voz do Rei...

"Não quero você assim"

Paulinho da Viola

"Olhar vazio
Nenhum sinal de emoção
Não quero você assim
Eu sei que não existe mais
Aquilo que você guardava
A mesma palavra
Querendo explicar em mim
A eternidade em mim
Não quero você assim

Não importa mais
O que foi perdido
Importa apenas o teu sorriso
E nada mais
Não há lembranças pra se guardar
Existe a vida
E os poetas como sempre
No vício das esquinas

Não importa mais
O que foi perdido
Importa apenas o teu sorriso
E nada mais
Bom é sentir esse amor
Em muitos corações
Bom é saber que a solidão
É o início de tudo"
 



 Escrito por Marcelo às 11h47
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Escolas em livro

Já que o Joaquim Ferreira dos Santos tornou público o que ainda era assunto restrito aos amigos, vamos lá: idealizei e estou coordenando para a Editora Senac Rio uma coleção composta por livros sobre as principais escolas de samba do Rio de Janeiro. Ainda este ano, sairão os volumes sobre o Império Serrano, a Portela, a Mangueira e o Salgueiro, que serão escritos, respectivamente, pelos jornalistas Hugo Sukman, Pedro Paulo Malta, Marceu Vieira e Mariana Blanc. Os amigos foram convidados por mim para participarem do projeto não só pelo evidente talento, mas também por terem uma ligação íntima com o mundo do samba. A idéia é que os livros funcionem como uma espécie de perfil histórico de cada agremiação, que será retratada nem neutralidade, ou seja, sob as tintas da paixão que os autores mantêm pela escola. Em 2006, se tudo der certo, virão os volumes sobre a Vila Isabel e a Estácio.



 Escrito por Marcelo às 11h30
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Realeza

Lapidar o título criado pelo redator de O Globo para a matéria do correspondente Fernando Duarte sobre a gafe do príncipe Harry, que recentemente vestiu-se de soldado nazista para ir a uma festa à fantasia: "O bobo da corte".



 Escrito por Marcelo às 11h38
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Edu

"(...) Ainda me lembro quando o teu pai Fernando me disse: "Tem um garoto lá em casa tocando um violão..." Depois te conheci, magrelo, cerrando o buço, a face inocente, a boca jovem, tímido, violão na mão, espichando, crescendo rápido para se tornar o grande compositor, violonista, pianista, cantor, poeta, letrista, arranjador, orquestrador e maestro Eduardo de Goes Lobo. Predestinado e estudioso. Noturno, entra pela noite compondo e mais tarde, creio, será um madrugador jovial, an early bird. Sua música, muito bem feita, tem cheiro de mato, às vezes de mar, como no Arrastão, cheiro de mar bem brasileiro. Pra dizer adeus, Upa neguinho, Ponteio, Marta Saré, Viola fora de moda, Reza, Canção do amanhecer, Canto triste, Vento bravo, são tantas e tão bonitas as canções, sambas, frevos, xaxados, baiões, achados, choros, valsas, modinhas. Edu escreve música muito bem, a mão, a tinta." - Tom Jobim, em depoimento ao songbook de Edu Lobo

Pois é. A partir de hoje, tem também show do grande Edu Lobo (coisa raríssima), no Mistura Fina, com ingressos bem carinhos (R$ 90, e R$ 100). Serão as primeiras apresentações do cantor e compositor após o susto com o aneurisma que sofreu no ano passado. Autor de algumas das mais belas canções de nossa música popular, boa parte delas em parceria com Chico Buarque, Edu é especialmente um criador de sinuosas melodias, como o provam músicas como Beatriz, Canto triste, Choro bandidoO grande círco místico, entre tantas outras. Esta que posto abaixo é uma dessas pequenas maravilhas, letrada pelo Aldir.

"Ave rara"

Edu Lobo / Aldir Blanc

"Minha vida peregrina
Vai em busca de você
Como se eu fosse um malê
E você fosse a Revelação

Do poente vem teu canto
Ave rara do Islã
Quem é pedra como eu sou
Bebe a água do amanhã

Ah,
Tanta sede é meu destino
Esse amor é beduíno
E o oásis teu lençol

Mas sempre no fim da viagem
Você volta a ser miragem
Areia e sol"



 Escrito por Marcelo às 10h11
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Wenders

Diretor de pérolas como Asas do desejo e Paris, Texas, Wim Wenders foi uma de meus cineastas preferidos até o fim da década de 80, a ponto de virar tema de minha monografia de pós-graduação. E é justamente a produção antiga que a partir de hoje é tema de uma pequena mostra no Sesc Copacabana. Estão programados, além dos dois filmes citados, O amigo americano (foto), baseado em livro de Patricia Highsmith, Tão longe, tão perto, seqüência de Asas do desejo, e Até o fim do mundo, já da fase decadente. Uma pena que mais uma vez fique de fora o ótimo Alice nas cidades, que raramente passa por aqui. As sessões acontecem às 16 e às 19h e seguem até domingo.



 Escrito por Marcelo às 09h59
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Mais blogs

Dois novos links estréiam hoje aqui no Pentimento: Sexo, cachaça e samba & choro, do amigo Zé (que faz os mais famosos mojitos da cidade). Nem precisa explicar do que trata o blog, né? O outro é o Primeira pessoa, do gente-boa Delano, voltado para cultura e, por que não?, as veleidades nossas de cada dia.



 Escrito por Marcelo às 17h28
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Velha Guarda do Império

Quem traz a ótima notícia é o amigo Pepê, do Mascavinhas: sob o comando sempre competente de Paulão 7 Cordas, a Velha Guarda do meu querido Império Serrano lançará em breve seu primeiro cd. Os tradicionais sambas de enredo e de terreiro da verde-e-branco de Madureira serão defendidos no disco por bambas como Aluísio Machado, Wilson das Neves e Fabrício, entre outros. No repertório, certamente estará a canção abaixo, um raro caso de samba-de-enredo derrotado na competição interna da escola e que contudo se tornou pule-de-dez nas rodas cariocas. A tal "estrela de Madureira" foi Zaquia Borges, vedete que montou o primeiro teatro de Madureira e suicidou-se ainda jovem, virando enredo do Império. Entre as gravações do samba de bela melodia, a melhor que conheço é a do Roberto Ribeiro.

"Estrela de Madureira"

"Brilhando num imenso cenário
Num turbilhão de luz
Surge a imagem daquela
Que o meu samba traduz
A estrela vai brilhando
Mil paetês salpicando
O chão de poesia
A vedete triunfal
Dos subúrbios da Central
Foi a pioneira
E num trem de luxo parte
Para exaltar a sua Arte
Que encantou Madureira
Mesmo o palco apagado
Apoteose é o infinito
Continua a estrela
Brilhando no céu"

P.S. Alguém sabe quem são os autores da música?



 Escrito por Marcelo às 11h07
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Digressão noturna

Da varanda, duas imensas torres singram a paisagem de uma noite arrancada à força do tempo. Entre janelas apagadas e janelas acesas, um homem assiste à TV, desfazendo o dia árduo nas imagens banais de um programa qualquer. Outro homem troca de roupa, após o banho, e se mira no espelho. Deitada no sofá, a mulher faz carinho na cabeça da criança, ao lado de um abajur à meia-luz. A garota lendo uma revista imagina como vai ser boa a transa de amanhã. Nos quartos escuros, alguns possivemente dormem. Para além das torres, os carros deixam rastros de neón nas largas auto-pistas que nos levam pra lá e pra cá nessa transitoriedade louca de manhã tarde noite e manhã de novo. É o lusco-fusco da cidade que dorme, da cidade que passa apressada de carro, da cidade que assiste à TV, da cidade que toma banho, da cidade que chora, que ri e que sangra, da cidade que trepa, da cidade que erra, da cidade que pede perdão. O lusco-fusco da cidade que lateja, vagaroso mas contínuo, também dentro de mim. 



 Escrito por Marcelo às 10h28
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Lima Barreto

Muito boa a matéria do amigo Miguel Conde sobre Lima Barreto, publicada recentemente no Globo On. O texto vale a leitura:

"A Literatura como salvação"

Miguel Conde

"Diários são um inconveniente para quem pretende fixar limites precisos entre espontaneidade e artifício, vida e literatura. Em teoria, são o lugar da escrita mais desarmada possível: um registro íntimo de si para si mesmo, ou, no máximo, dirigido a um confidente imaginário a quem se pode revelar tudo, sem a premeditação e as preocupações com estilo e forma que caracterizam o texto literário (ou mesmo qualquer texto dirigido a outra pessoa). Vista com mais cuidado, porém, a solidão do escritor diante da folha em branco, um clichê que nesse caso encontra sua expressão mais bem acabada, se revela, muitas vezes, mais povoada do que se poderia imaginar.
Uma anotação de Antônio Maria, que em 1957 manteve um diário por pouco mais de um mês, resume bem a ambigüidade desse tipo de escrita: "Escrevendo estas notas, tenho que tomar constante cuidado para não posar para elas. Seria péssimo fazer ou deixar de fazer alguma coisa, pensando no que escreveria mais tarde. O ideal seria registrar o que me aconteceu na véspera e, logo depois, esquecer que estou escrevendo um diário. Outro erro em que não quero cair: o da preocupação literária. Não quero escrever bonito. Não estou visando o público nem qualquer leitor isolado. Estou escrevendo, simplesmente".
Esta ambigüidade, e as implicações inevitáveis entre o que o artista vive e aquilo que ele cria, são o tema principal, ainda que menos evidente, de "O cemitério dos vivos" (Editora Planeta, 2004), de Lima Barreto. O volume, resultado de uma parceria entra a editora e a Biblioteca Nacional, faz parte da coleção Biblioteca Invisível, que pretende publicar obras de autores brasileiros cujos originais estão guardados na instituição. Reúne um diário mantido por Lima Barreto durante uma internação no antigo hospício da Praia Vermelha e um romance inacabado (o escritor morreu antes de terminá-lo) escrito a partir desta experiência (este segundo texto dá título ao livro).
No Natal de 1919, após passar a noite do dia 24 delirando embriagado pelas ruas do subúrbio, Lima Barreto foi detido e levado pela polícia ao Hospício Nacional de Alienados, na Praia Vermelha, onde ficaria internado até 2 de fevereiro do ano seguinte (o alcoolismo era a principal causa de internação em hospícios na época). Já com 38 anos e um escritor consagrado, com a maior parte da obra publicada, Lima Barreto deu entrada ali como indigente. Dormiu em colchão de capim, teve que se despir para um banho coletivo, limpou banheiros e passou os primeiros dias na seção Pinel, que o jornal 'O Paiz', num artigo de 28 de janeiro de 1920, descreveu assim: "a destinada aos imundos, aos indigentes, àqueles que a fatalidade privou da razão como a infelicidade já os havia privado de carinho, conforto, lar e raciocínio".

Nesta situação limite, a literatura é convertida pelo escritor em tábua de salvação ("Ah! A Literatura ou me mata ou me dá o que peço dela", escreve numa das primeiras anotações). Embora evite a autocomiseração, Lima Barreto não esconde o sentimento de derrocada e humilhação que a internação lhe desperta. A narração dos acontecimentos lhe permite distanciar-se, ainda que provisoriamente, desta situação imediata, passando de participante a observador.
No hospício, ele encontrará, nas relações entre os internos, e entre estes e os funcionários, situações exemplares do tema mais recorrente de sua obra: a observação de como a compaixão está ausente nas forças da incipiente modernização brasileira na República Velha, marcada na política pelo autoritarismo, na economia pela especulação e pela ganância arrivista e na sociedade por uma rígida divisão fundada no fetiche pelos títulos universitários (que entre nós, diz ele, assumem o valor de título nobiliárquico, em que o "doutor" equivale ao "Dom" espanhol).
A loucura, que à primeira vista é o tema principal de ambos os textos, é explorada principalmente nos seus aspectos mais ligados a esta crítica social. Médicos e enfermeiros são observados e descritos, em primeiro lugar, em termos da generosidade ou rudeza com que tratam os pacientes, de sua inclinação ou resistência a acreditar que o internado (esta figura em que se misturam as condições de paciente e prisioneiro) vale menos do que eles.
Em tudo isso, nesta sensibilidade aguçada para a humilhação e a compaixão, há um sentimento de mundo próximo ao dos livros de Dostoievski, e não por acaso o escritor russo é citado no diário e no romance que se segue a ele. O sentimento de ter fracassado diante das próprias ambições ("Sonhei Spinoza, mas não tive força para realizar a vida dele; sonhei Dostoievski, mas me faltou a sua névoa") leva o escritor, em seu diário, a examinar retrospectivamente as razões deste fracasso, que ele atribui ora a si mesmo, ora à sociedade, e por fim a ambos. No romance, o tema central será justamente este, o fracasso do personagem principal em realizar a grande obra com que sonhara na juventude, e a angústia em se ver tratado, por pessoas em nada melhores do que ele, como inferior, apenas porque lhe faltam títulos e posições.

Lima Barreto busca, portanto, escrever uma grande obra sobre um escritor que nunca escreveu a sua grande obra (uma idéia presente também em "O encontro marcado", de Fernando Sabino), transformar seu fracasso, que é também o do seu personagem, num triunfo. A redenção se daria justamente pela transformação do fracasso vivido no ficcionalizado, da vida em literatura.
O diário logo começa a ser usado pelo escritor como ensaio para o romance, o que fica evidente nos elementos ficcionais que aos poucos são introduzidos nas anotações (Lima Barreto fala de si mesmo com o nome que imaginava para seu protagonista e "relembra" episódios fictícios, que não constam de sua biografia). Os momentos mais reveladores da proximidade que essa relação assume, porém, são os lapsos que ele comete no manuscrito de "O cemitério dos vivos", em que por duas vezes escreve o próprio nome no lugar onde deveria vir o do personagem (um erro que ele corrige em seguida, rasurando seu nome, mas que o editor teve o cuidado de registrar nas notas ao texto).
É a própria literatura que se converte, assim, no tema de Lima Barreto - a escrita como busca por uma salvação que a vida mesmo não oferece, ou a tentativa de justificar no escrito aquilo que foi vivido, eternizando o transitório. Examinando os fracassos da própria vida (no diário) ou da vida de seu protagonista (no romance), ele procura superá-los, ao transformá-los em arte. Este projeto, que sempre terá algo de comovente, neste caso é ainda mais, pelo que se percebe da profundidade de sua importância para o autor.
Um comentário feito de maneira casual a respeito de uma biografia do filósofo Abelardo, livro que Lima Barreto leu na biblioteca do hospício, é extremamente sugestivo de como ele considerava o livro que estava escrevendo. O narrador, o protagonista Vicente Mascarenhas, diz que o autor da biografia de Abelardo o censura por colocar sua obra à frente das pessoas que lhe amavam, e retruca que era mesmo mais importante Abelardo realizar sua obra do que ser "exemplar chefe de família", porque "a sua glória, que unicamente ele a podia realizar, precisava da sua dedicação e do sacrifício de outros muitos, para ser útil a todos".
Ao morrer, em 1922, Lima Barreto não havia terminado sua grande obra, nem se livrado das frustrações que o levavam ao alcoolismo. Mas os resultados deste último esforço, ainda que interrompido, são um triunfo póstumo, que talvez fosse o único possível para Lima Barreto: conquistado agora que ele está livre dos tumultos que acompanharam sua vida e fixado na arte em que procurou se salvar."



 Escrito por Marcelo às 15h41
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Tudo aceso

"Âmbar"

Adriana Calcanhoto

"Tá tudo aceso em mim
Tá tudo assim tão claro
Tá tudo brilhando em mim
Tudo ligado
Como se eu fosse um morro iluminado
Por um âmbar elétrico
Que vazasse dos prédios
E banhasse a Lagoa até São Conrado
E ganhasse as Canoas
Aqui do outro lado
Tudo plugado
Tudo me ardendo
Tá tudo assim queimando em mim
Como salva de fogos
Desde que sim eu vim
Morar nos seus olhos"



 Escrito por Marcelo às 11h03
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Mais Carlito

"Na Gávea"

Carlito Azevedo

"Enquanto o vento

sopra com a flor caduca

da pedra, um som mais belo que o som das

fontes nos seduz a invocar o cubo da treva

nosso de cada noite que nos dê - não outro dia,

chuva nos cabelos, lampejos do sublime entre pilotis

de azul e abril, mas apenas a vertigem do ato,

o vermelho do rapto, a chegada do fundo

mais ardente, onde tornar a reunir

cada fragmento nosso, perdido,

de dor e delicadeza."



 Escrito por Marcelo às 10h09
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Carlito Azevedo...

... a quem fui reler, depois de muito tempo, após uma boa conversa com o Cuenca.

 

"Sob o duplo incêndio"

 

Carlito Azevedo

 

"Sob o duplo incêndio

da lua e do neón,

 

sobre um parapeito de

mármore, entre duas cortinas

 

jogadas pela brisa marinha

que ao mesmo tempo às suas

 

coxas e costas dispensava

um hálito incontínuo,

 

inundando de rubro o restriro

perímetro de seu jarro em cerâmica

 

e contrastando imemorial com a

transitoriedade de tudo ali

 

hotel, amor, noite, carros

uma flor alheia a símbolos

 

atingia seu ponto máximo

de beleza" 

 



 Escrito por Marcelo às 10h00
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Antonio Candido e a crítica

Muito boa a coluna de hoje do amigo Paulo Pires no site No Mínimo. Partindo de análise sobre o livro O albatroz e o chinês, de Antonio Candido, o colunista subscreve a posição do crítico, que lamenta o fato de os analistas literários costumarem descartar "a espontaneidade de suas emoções", o "dado impressionista" que, se não é suficiente para formar um ponto de vista – como a própria geração de Antonio Candido ensinou – é o sopro vital da educação intelectual e da cultura literária de qualquer um". Vale a leitura: 

"A história íntima das estantes"

"
Na monumental obra de Antonio Candido de Mello e Souza, “Crítica e memória” ocupa discretas nove páginas. Escrito em 1997 em homenagem a Décio de Almeida Prado, é incluído agora em “O albatroz e o chinês”, primeiro livro inédito em dois anos daquele que é considerado “o maior crítico literário brasileiro vivo”. É quase nada perto dos seis outros livros que, com este, dão início à publicação da versão que se quer definitiva de sua obra – que começa a sair pela editora Ouro sobre Azul. E menos ainda diante do acachapante “Formação da literatura brasileira” e do restante de sua obra. Talvez por isso mesmo, pela casualidade de uma nota de rodapé, chame uma atenção danada.
O assunto de Candido é, pelo menos teoricamente, François Villon e a paixão que o poeta francês, romântico e aventureiro, lhe desperta. Mas só ficamos sabendo disso depois de um preâmbulo em que o autor propõe uma atenção especial aos “arrabaldes do trabalho crítico”, área pouco nobre onde se costuma segregar o “odioso pronome”, o “eu” que carrega consigo tudo o investimento emocional que o crítico inevitavelmente faz em seu objeto e que, de alguma forma, determina sua escolha.
“Não satisfeitos em descartar o autor, a fim de podermos enfrentar o texto com realidade autônoma”, escreve Candido, “costumamos descartar ainda mais a espontaneidade de nossas emoções, como se além da falácia biográfica quiséssemos condenar também o que se poderia chamar, com o mesmo espírito, de falácia autobiográfica.” Nesta “periferia da crítica” (a ótima expressão é dele) está o dado impressionista que, se não é suficiente para formar um ponto de vista – como a própria geração de Antonio Candido ensinou – é o sopro vital da educação intelectual e da cultura literária de qualquer um. É, portanto, parte fundamental de cada opinião e juízo, que não se basta mas não pode ser descartada.
Com a liberdade típica dos grandes ensaístas, Antonio Candido sugere que deveríamos tentar traçar uma “história da nossa experiência afetiva com as obras, inclusive procurando determinar de que maneira fomos levados a encontrar, conhecer e amar as que se tornaram prediletas, sobretudo quando nos fazem companhia pela vida toda, na sucessão das releituras”. Entre deveres e haveres, inevitavelmente livros tido como “menores” incorporam-se mais decisivamente à experiência do que outros tido como clássicos “inevitáveis. Nesta conta é possível que se conclua, diz ele, que “Os três mosqueteiros” seja mais importante do que “Os Lusíadas”.
Este argumento pode parecer óbvio, mas ganha outra força quando sai da boca de um Antonio Candido. Faz lembrar que a crítica em particular e a atividade intelectual como um todo são coisa séria demais para ser enquadrada na sisudez e no que se identifica como “seriedade”. Sem este elementar princípio de prazer, não há conhecimento que valha a pena ter este nome – e aqui é impossível não lembrar de Roland Barthes, que em “O prazer do texto” admitia pular, sem culpa, as longas descrições que o entediavam no texto de Balzac.
Nesta “história íntima das estantes” não há lugar para hierarquias muito rígidas entre “alta” e “baixa” culturas: na formação intelectual, todos os caminhos podem ser válidos e quem se defende na elitização fica potencialmente limitado. No caso de Candido, dramalhões perdidos no passado e o famoso livro de entrevistas de Auguste Rodin a Paul Gsell foram os indicadores do caminho para Villon – e isso muito antes de a cultura de massa ter se consolidado e a informação espalhar-se com a velocidade da web.
A nota sutil de Antonio Candido é, além de manifestação de generosidade, um convite real à democratização do conhecimento. Vive-se uma época em que tudo tem receita, pressupostos, etiquetas, correções a serem observadas. O que se abre no “arrabalde da crítca” é um universo de possibilidades. Há, é claro, o risco de se chafurdar em lixo cultural mas, também, e na mesma medida, a probabilidade de nutrir-se de uma literatura menos livresca e formatada, mais atravessada pela vida e pela incerteza."



 Escrito por Marcelo às 13h24
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Torquato Neto

Tive uma namorada (hoje amiga) que quase enlouquecia quando, naqueles papos metafísicos e apaixonados sobre o amanhã, dizia-lhe querer que meu futuro filho se chamasse Torquato. Era mais uma provocação, não pelo nome (que realmente acho lindo), mas porque nunca impingiria ao meu herdeiro o "peso" per si de saber que o nome que carrega foi inspirado numa pessoa que se suicidou. Poeta, letrista, jornalista, eterno inconformado e agitador cultural, Torquato Neto foi um dos mentores intelectuais do movimento tropicalista. É autor de pérolas como Geléia geral, Louvação (com Gilberto Gil), Mamãe coragem (com Caetano Veloso), Pra dizer adeus (com Edu Lobo), Let's play that (com Jards Macalé) e Go back (com Sérgio Britto), recente sucesso dos Titãs. Escreveu em periódicos como o Correio da Manhã (no suplemento Plug), O Sol (suplemento do Jornal dos Sports) e Última Hora, onde entre 1971 e 1972 comandou a badalada coluna Geléia Geral, em que defendia as manifestações artísticas de vanguarda na música, artes plásticas, cinema e na literatura. Fundou também jornais alternativos, entre eles Presença e Navilouca, que só teve um número mas fez história e virou nome de canção do Pedro Luís.

Ainda em 72, um dia após completar 28 anos de idade, Torquato ligou o gás do banheiro e se matou, deixando um bilhete: "Tenho saudade, como os cariocas, do dia em que sentia e achava que era dia de cego. De modo que fico sossegado por aqui mesmo, enquanto durar. Pra mim, chega! Não sacudam demais o Thiago, que ele pode acordar".

Bem, tudo isso é pra dizer que a obra de Torquato felizmente está sendo reeditada em dois livros, organizados pelo amigo Paulo Roberto Pires para a Rocco. Os volumes, que acrescentam material inédito ao célebre Os últimos dias de paupéria - organizado por Waly Salomão e a viúva Ana Maria em 1973 e há muito esgotado - terão lançamento hoje, com festa repleta de leituras para convidados no Parque Lage. Estarei lá!

A canção abaixo, não tão conhecida, é uma das pérolas do poeta...

"A coisa mais linda que existe"

Gilberto Gil e Torquato Neto

"Coisa mais linda nesse mundo 
É sair por um segundo 
E te encontrar por aí 
E ficar sem compromisso 
Pra fazer festa ou comício 
Com você perto de mim

Na cidade em que me perco 
Na praça em que me resolvo 
Na noite da noite escura 
É lindo ter junto ao corpo 
Ternura de um corpo manso 
Na noite da noite escura

A coisa mais linda que existe 
É ter você perto de mim

O apartamento, o jornal 
O pensamento, a navalha 
A sorte que o vento espalha 
Essa alegria, o perigo 
Eu quero tudo contigo" 



 Escrito por Marcelo às 10h56
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Paralelos em Santa

No próximo sábado, vai rolar lançamento da revista Paralelos na charmosa Livraria Largo das Letras, em Santa Teresa. O evento contará com leituras de trechos dos contos e um bate-papo entre os autores do livro, mediado por mim. A partir das 16h. Vocês estão desde já convidados!



 Escrito por Marcelo às 10h41
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Flávio Izhaki no Pelé.Net

Amante das letras mas também do futebol, o amigo Flávio Izhaki acaba de estrear como colunista de um dos mais importantes sites esportivos do país, o Pelé.Net. Em seu primeiro texto, Flávio aposta no sucesso do próximo Campeonato Carioca. Confira aqui.



 Escrito por Marcelo às 12h00
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Soppa de letra

Assisti no fim-de-semana ao ótimo espetáculo Soppa de letra, em que o talentoso e tricolor emérito Pedro Paulo Rangel dramatiza sob a forma de monólogo letras de célebres canções de nossa música popular. É impressionante como em alguns casos, malgrado tratar-se de uma música famosa, só conseguimos reconnhecê-la no quinto ou sexto verso. A peça tem grandes cenas baseadas em canções simples, como Me dá um dinheiro aí, mas seu pontos altos estão efetivamente nas letras de grande força poética e metafórica. Bom exemplo disso é Trocando em miúdos, clássico do Chico, em que o ator explicita a fronteira entre o desesperador e o banal que há em toda separação, provocando no espectador um sentimento que trafega do riso ao desconforto. As ligações entre os sets também é muito bem realizada, agrupando, às vezes quase como pout-porri, músicas sobre solidão, conflito e abandono, entre outros temas. Investigando aqui na internet, descobri que Soppa de letra conta com um blog, que traz informações sobre o espetáculo e seus realizadores. Acesse aqui.



 Escrito por Marcelo às 11h52
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Canção para hoje

Talvez porque eu ande tão musical ultimamente,,,

"Inclinações musicais"

Geraldo Azevedo / Renato Rocha

"Quem inventou o amor 
Teve certamente inclinações musicais

Quantas canções parecidas 
E tão desiguais 
Como as coisas da vida 
Coisas que são parecidas 
Feito impressões digitais 
No violão essa mesma subida 
Na voz a rima de sempre 
Coração essa mesma batida 
Que bate tão diferente 
Quando acontece na gente 
O mesmo amor 
É um amor diferente demais 
Quem inventou o amor 
Teve certamente inclinações musicais"



 Escrito por Marcelo às 11h32
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Beatriz Bracher

No sábado passado, o Prosa & Verso publicou minha resenha sobre o livro Não falei, de Beatriz Bracher. A novela lança um interessante olhar sobre a ressaca pós-regime militar. Segue a íntegra do texto:  

O amanhecer pós-64


Não falei, de Beatriz Bracher. Editora 34, 152 páginas. R$ 25

Marcelo Moutinho

A quase-crise em torno das fotos que supostamente flagrariam a tortura oficial nos porões da ditadura militar reacendeu, no ano passado, ressentimentos aparentemente adormecidos. Tudo porque, apesar da radical mudança de eixo — da utopia para o pragmatismo, das macronarrativas para a multiplicidade pós-moderna —, o tempo das décadas de 60 e 70 ainda é, ao menos sob perspectiva histórica, o nosso tempo.
Iniciado logo após o retorno dos exilados, o balanço sobre o que significou aquela turbulenta época segue firme. Rendeu obras exemplares, como a trilogia escrita por Fernando Gabeira, o já clássico “1968, o ano que não terminou”, de Zuenir Ventura, e hoje viceja sob a lente perspicaz de Elio Gaspari. Nos últimos anos, porém, a esses importantes relatos jornalísticos vêm somar-se experiências de caráter ficcional, que permitem um outro — e interessante — olhar sobre o que se passou.
É um olhar de ressaca e soçobro que distingue, por exemplo, obras como “A suavidade do vento”, de Cristovão Tezza (1991), e “As cinco estações do amor”, de João Almino (2001), nas quais os personagens refletem, a partir de seus microcosmos, o estado geral exterior. Tal abordagem está presente também em “Não falei”, segundo livro de Beatriz Bracher, lançado pela Editora 34. O romance é narrado por Gustavo, professor apaixonado por seu ofício, que se prepara para a aposentadoria e a mudança de cidade. A morte da mulher, as relações com a filha, irmãos e pais, e, principalmente, a acusação velada de ter dedurado o cunhado, colaborando assim para seu assassinato, tudo isso é inventariado na égide de um ciclo que se encerra: “Encontro-me nessa fase de aquisição de uma nova linguagem uma vez que a antiga, a que sabia e usei, suas palavras parecem ter se tornado estéreis, foram discutidas, aceitas e transformadas em algo que não reconheço mais”. E que linguagem “antiga”, “estéril”, seria essa a que o professor faz alusão?
Ele se refere ao sistema de pensamento que vicejou em sua juventude, atravessada pelo Golpe de 64. Um sistema fundado primordialmente na mobilização, seja através da educação ou da cultura, que germinava em filmes, peças, livros, cujo objetivo era um só: “mudar o mundo”. Gustavo vê-se alijado dos novos tempos, quando há um “vazio agressivo” e tais imperativos parecem não mais fazer sentido: “Demorei a perceber quais fluxos haviam sido interrompidos. Não se tratou de uma perda de memória, embora isso também tenha acontecido mas em menor escala. Foi antes uma perda de percepção da realidade, ou de interesse por, resulta no mesmo”. A essência do livro de Beatriz está nesse imenso vácuo criado quando esfareladas algumas das bases da vida do protagonista e, mais, destruído o “grande antagonista” que animava sua luta.
Outras vozes irrompem na narrativa do professor: recortes do romance que o irmão José está escrevendo, anotações de Jussara, velhos rabiscos dele próprio, trechos de aulas e palestras, enxertos de livros de Pedro Nava, Primo Levy, Edgard Morin, canções de Candeia e Nelson Cavaquinho. “A nossa imagem no mundo é a soma de rumores, dos passos que damos e dos que não andamos, passaram por nós. Não há álibi nem conserto para a história que fica sendo nossa, José, com seu livro, expande minha infância para lados que não conhecia. Porque minha casa e minha família são eu, de alguma forma”, observa ele, numa síntese dos cacos disformes com que Beatriz forma o mosaico da memória, esse coquetel de reminiscências, saltos, supressões e ambigüidades. Tantas digressões por vezes fazem o leitor ressentir-se de alguma “gordura” nas 152 páginas de “Não falei”, embora isto não chegue a prejudicar demais a fluência.
É evidente o carinho que a autora dispensa ao protagonista, expondo a crise que o atravessa com alguma dor e muito lirismo. A autora impressiona quando utiliza descrições físicas para metaforizar sentimentos e lembranças, como na belíssima passagem em que José recorda-se das manhãs em família: “A casa não era de muitas palavras, falava-se de outras formas. A escada dizia quem chegava ou saía, o cheiro de cada cliente dizia o tipo de trabalho da mãe, o jeito de a porta abrir à noite para o meu pai determinava a hora em que iríamos para o quarto. No escuro a casa cresce e é tomada por seus verdadeiros donos, o chão, as paredes, as panelas e pratos, a poltrona, a porta, o teto, as rachaduras”. G., no caso, é o professor Gustavo.
O físico e matemático Hernam Minkowky afirmou certa vez que “não há quem tenha visto um lugar a não ser em um certo tempo, nem um tempo a não ser num certo lugar”. Gustavo é personagem de um lugar e de um tempo, que estende seus fios até hoje. Ele se sabe no “entreato da vida”, quando o verbo insiste no pretérito. E o leitor acompanha esse sofrimento de rua sem saída até receber, com a desconstrução do delicado “Tecendo a manhã”, de João Cabral de Melo Neto, um aceno esperançoso. Tomado pela melancolia, o professor relê o poema sob prisma particularíssimo — e consegue então vislumbrar a passagem de bastão geracional: “Ele (o galo) ter feito importa, mesmo que não mais ecoe o canto, (...) o canto da geração que Marta agora ouve e tece outras manhãs”.
Manhãs de outro tempo que começa.

* MARCELO MOUTINHO é jornalista e escritor



 Escrito por Marcelo às 11h28
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Trocando livros

Amanhã, a partir das 11h, a Estação das Letras - Filial Centro promoverá o evento Livros na Mesa, cujo objetivo é estimular a troca de livros usados. Além da troca, quem for ao Sebo Al-Farabi, sede do encontro, poderá assistir às escritoras Heloisa Seixas e Lívia Garcia-Roza debaterem o tema Ficções Contemporâneas. O AL-Farabi, simpático espaço mantido pelo amigo Carlos, fica na Rua do Rosário, 30.



 Escrito por Marcelo às 11h32
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Melodia

Hoje é aniversário dele e no próximo domingo o moço faz show gratuito na Lagoa. Então, a pedida musical do dia não poderia ser outra se não  Luiz Melodia. Nascido em 1951, aqui mesmo Rio, e filho do sambista Oswaldo Melodia, Luiz foi descoberto no bairro do Estácio pelos poetas Torquato Neto e Waly Salomão. Foi Waly quem sugeriu a Gal Costa que incluísse no repertório de histórico show Fa-tal (1971) a canção Pérola Negra, abrindo as portas do sucesso para o compositor, que viria a gravar discos clássicos, como Maravilhas contemporênas (onde está a música abaixo).

"Magrelinha"


"O pôr-do-sol
Vai renovar,
Brilhar de novo o seu sorriso
E libertar
Da areia preta e do arco-íris
Cor de sangue, cor de sangue
O beijo meu
Vem com melado,
Decorado cor-de-rosa
O sonho seu
Vem dos lugares mais distantes
Terra dos gigantes
Super-Homem, Super-Mosca,
Super-Carioca, Super-Eu, Super-Eu
Deixa tudo em forma, é melhor nem sei
Não tem mais perigo
Digo, já nem sei
Ela está comigo, o som, o sol, não sei
O sol não adivinha,
Baby é magrelinha
No coração do Brasil"



 Escrito por Marcelo às 11h04
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Coisificação

Não encontrei a foto para postar aqui, mas não houve nada mais repugnante publicado a respeito da tragédia tsunami do que a imagem de turistas bonachões tomando cerveja na praia enquanto, a seu lado, homens com máscaras de proteção recolhiam os corpos das vítimas. Aplica-se à perfeição neste caso a notável expressão cunhada pelo psicanalista Jurandir Freire Costa: trata-se da "coisificação do outro".



 Escrito por Marcelo às 10h50
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Bota fora

A chegada e a montagem de uma armário novo trouxeram, além das dores no corpo, a obrigação de remexer em coisas velhas: roupas, papéis, livros, revistas, jornais, fotografias... Há alguma dor na hora de dar fim a objetos talvez banais e que no entanto representaram tanto em algum momento. A camisa com que fui aos comícios do Lula em 1989. Uma matéria de quando ainda estagiário. O trabalho de faculdade denunciando a "barata exploração popular" de um jornal como O Povo. Um bilhete da mãe pedindo para não esquecer de pegar o vestido na loja. Dois imensos sacos de roupas para o orfanato, outros dois com guardados inúteis e uma pilha de objetos ocupando a sala foram o resultado mais concreto das mudanças. O resultado abstrato? Uma leveza insustentável na alma. Um sentido de brancura a ser preenchida com giz de novas e fulgurantes cores. Se a gente não abre espaço, como construir a memória de amanhã? Hora de ajuntar novamente.



 Escrito por Marcelo às 10h14
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Na voz d' Ella

"You do something to me"

Cole Porter

"You do something to me
Something that simply mystifies me

Tell me, why should it be
You have the power to hypnotize me

Let me live
'Neath your spell

You do
That voodoo
That you do so well

For you do
Something to me
That nobody else could do.

Let me live
'Neath your spell

You do
That voodoo
That you do so well

For you do
Something to me
That nobody
Else could do"



 Escrito por Marcelo às 10h51
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Desejo

"Até no capim mais vagabundo há desejo de sol"

Clarice Lispector

(obrigado, Pérola, por lembrar a frase...)



 Escrito por Marcelo às 10h43
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O ofício da crítica

Tudo bem, podem dizer que hoje estou na linha Ctrl C + Ctrl V, mas o que fazer se os artigos desta semana andam especialmente bons? Na Folha, além do Calligaris, me chamou a atenção a coluna do Bernardo Carvalho, em que ele discute o ofício da crítica literária. Desta vez, vou postar apenas um trecho. Confira a íntegra aqui.

"(...) O escritor encontra seu caminho no dia em que decide radicalizá-lo em vez de negá-lo. E isso, para o bem ou para o mal, não significa buscar a cura, mas mergulhar na "doença" que lhe permite ver o mundo com seus próprios olhos, de um ponto de vista que só pode ser seu. Significa tirar a força da sua fragilidade, reforçar o que lhe é específico, fazer do seu "defeito" um estilo.
É lógico que essa radicalização supõe riscos, já que é um processo de redefinição de sentidos. Pela arte, o mundo se alarga e se liberta. Pela afirmação das individualidades, das diferenças e dos desvios, os sinais se invertem e o que era considerado negativo ganha positividade. Foi assim, por exemplo, que Godard pôde reinventar uma arte industrial como o cinema, valorizando a descontinuidade narrativa onde ela era considerada erro. E Thomas Bernhard, em sentido inverso, pôde revisitar a narrativa romanesca linear (e continuar absolutamente moderno), onde em princípio ela seria vista como anacrônica.
A pior crítica é a que procura, muitas vezes por motivos morais, pessoais e psicológicos insondáveis, que dizem mais respeito ao crítico do que a qualquer outra pessoa, interromper esse processo de alargamento dos sentidos próprio das artes, agarrando-se a definições já estabelecidas, a uma série de parti pris e de regras fixas, para restituir como defeito o que se transfigurou em qualidade. Seu pressuposto é a negação da irrupção das individualidades, das diferenças das experiências de cada autor, em nome de um modelo geral que a priori pudesse se aplicar a todos. E, embora dissimulada, nos seus preconceitos essa crítica acaba revelando, inadvertidamente, mais sobre si mesma do que sobre as obras comentadas. Pois é guiada por um ressentimento que ainda não encontrou a arte, não conseguiu se transfigurar em estilo, e talvez por isso precise reduzir tudo o que vê aos limites da sua própria imagem (...)"



 Escrito por Marcelo às 10h30
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Procurando sentidos

Bem interessante o texto de Contardo Caligaris em sua coluna de hoje, na Folha de S. Paulo. Posto aqui não só porque merece a conferida, mas também pelo fato (imperdoável) de a morte da grande Susan Sontag ter passado em brancas nuvens no Pentimento...

"O tsunami, o câncer, a Aids e outras coisas que não têm sentido"

Contardo Calligaris 

"Um grande psicanalista francês, Jacques Lacan, disse um dia que a psicanálise é uma espécie de paranóia dirigida.
A paranóia é aquela forma da personalidade que leva o sujeito a encontrar no mundo muito mais sentido do que lá está. Num delírio paranóico bem formado, há poucos fios soltos, tudo é costurado. Os acontecimentos são mensagens -eventualmente divinas ou extraterrestres e de árdua interpretação, mas mensagens. Há pouquíssimo espaço para uma realidade que não seja justificada por um sentido.
De fato, no começo de uma psicanálise, acontece algo parecido com a paranóia: o sujeito examina seu passado e seu presente, procurando as explicações, as razões ocultas, os impulsos inconfessáveis, os desejos conscientes e inconscientes de seus pais, de seus ancestrais e de outros parentes próximos ou longínquos. É aquela coisa: se você hoje é bancário, é porque seu avô perdeu uma fortuna, porque sua mãe nunca sabia onde seu pai colocava o dinheiro e sempre se queixava de que a família não poupava nada. E mais cem "razões"; algumas, aliás, menos benignas.
Esse anseio paranóico de encontrar um sentido para tudo ou quase, no caso de uma psicanálise, é "dirigido" (pelo psicanalista, é claro) segundo dois eixos.
Por um lado, trata-se de permitir ao paciente que encontre e elabore, para sua história e seu mundo, um sentido que não lhe seja demasiado custoso. Por exemplo, se sua vida se justifica só se você for filho de Deus, é melhor que essa ascendência seja comprovada por batismos, circuncisões ou atos de fé, e não pela necessidade de mostrar sua obediência a Deus mudando de gênero e sexo (não invento; apenas evoco o caso do presidente Schreber, famoso na literatura psicanalítica desde Freud).
Por outro lado, a psicanálise não só orienta (e tenta suavizar) nossa procura louca de um sentido mas também deve, um belo dia, permitir que a gente encare a brutalidade do mundo. No fim de uma análise, espera-se que alguém possa sair do consultório de seu analista e levar, por exemplo, um vaso de flores na cabeça sem que lhe ocorra, nem por um instante, que se trate de um complô, de uma punição merecida por ousar se aventurar no mundo sozinho ou mesmo de uma vingança do próprio terapeuta abandonado. Às vezes, os vasos caem sem mais nem menos.
Atrás desse propósito da psicanálise, há a constatação de que, paradoxalmente, os humanos se queixam da falta de sentido, mas sofrem, na verdade, do contrário, ou seja, do excesso de sentido.
A vida e a morte não têm todo o sentido que gostaríamos que tivessem -longe disso, não é? Oxalá pudéssemos acreditar firmemente na ordem do mundo, como os camponeses na hora do ângelus num quadro de Millet! Oxalá a revolução iminente justificasse cada um de nossos respiros!
No entanto esse sentido, que (segundo a queixa) faz falta, não pára de nos atrapalhar: por ele estamos dispostos a estropiar o próximo ou a sacrificar (quase sempre inutilmente) nossas vidas, a ele devemos, às vezes, a inibição e a extraordinária ineficácia de nossas ações. Explico: em geral, quem achar que o vaso de flores caiu para punir sua culpa ou por conspiração de desejos adversos se imporá exames de consciência ou sairá à procura de seus inimigos. Ele nem terá tempo de regulamentar e fiscalizar as sacadas da cidade de forma que os vasos não caiam mais na cabeça dos passantes.
Ora, é bom constatar que estamos melhor do que previsto. Diante do tsunami da semana passada, é certo, houve quem reagisse atribuindo a culpa aos sismólogos do Pacífico, que não telefonaram a tempo para prevenir (telefonar para quem? Para cada pousada da Indonésia?). O presidente Lula não resistiu à tentação do sentido e comentou que a natureza se vinga porque não a tratamos com carinho (alguém vai ter de descer no mar do platô de Sunda e fazer um cafuné na fratura das placas continentais). Mas, no conjunto, o mundo parece conseguir encarar o desastre como desastre e, talvez por isso mesmo, agir.
No meio das notícias do tsunami, Susan Sontag morreu de leucemia, aos 71 anos. Há duas grandes categorias de intelectuais: os que querem acrescentar sentidos ao mundo e os que preferem desfazer o excesso de sentidos, com os quais, em regra, alimentamos nossas tragédias e consolamos nossa preguiça. Sontag pertencia ao segundo grupo.
Seus livros sobre o câncer ("A Doença como Metáfora") e sobre a Aids ("Aids e Suas Metáforas") contaram bastante para que essas enfermidades parassem de ser pretexto metafórico e, por isso mesmo, se tornassem objeto de uma melhor ação preventiva e terapêutica. Ou seja, para que fosse possível, em nossa cultura, ter câncer sem que essa revelação valesse como a confissão envergonhada de uma inquietude reprimida. E para que fosse possível ter Aids sem que isso fosse a marca da cólera divina contra uma vida vergonhosa e dissoluta.
Com isso, Sontag conquistou seu direito de morrer dignamente, não da "praga do século", não "daquela doença", mas de câncer".



 Escrito por Marcelo às 10h21
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B3attrix

 

Amanhã rolará no Bar Bukowski a primeira edição da festa B3attrix, voltada para o pop e o rock e comandada pelo amigo LeoN, ao lado dos também djs Buba e Great Guy. No repertório, Beck, Bee Gees, Cake, Rita Lee, Titãs, Pet Shop Boys, Rolling Stones, Beatles, Placebo, The Smiths, REM, Pretenders, Depeche Mode e Rolling Stones, entre outras feras. Em resumo: ecletismo sem perda de qualidade. A festa acontecerá todas as quintas-feiras de janeiro, sempre a partir das 23h30. Ingresso a R$ 15 (com flyer, R$ 7 para mulheres e R$ 10 para homens). O Bukowski fica na Rua Paulino Fernandes, 7. Consiga o flyer aqui.



 Escrito por Marcelo às 15h57
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Garcia Marquez na Cult

Muito boa a edição de dezembro da revista Cult. Principalmente o dossiê sobre Gabriel Garcia Marquez, cujos artigos não se limitam a jogar confetes sobre o premiado escritor. Destacaria os textos do Joca Terron – que corajosamente desnuda certos aspectos nebulosos da vida e da obra do colombiano – e da Adriana Lisboa – um ensaio equilibrado que parte de Garcia Marquez para refletir sobre a própria literatura. Adriana assinala com sapiência que "toda ficção é política desde que fale à imaginação (...), e tal ficção há de tocar mais fundo quanto mais possa extrapolar questões específicas a uma nacionalidade ou a um momento histórico para tocar naquilo que é essencialmente humano, e assim pertinente a todos". Nessa assertiva e no restante do artigo, há um evidente contraponto entre o "engajamento ideológico", que acaba por soar datado, e a força política per si que a ficção enseja. Concordo plenamente e, há algumas semanas, numa resenha que escrevi para o Prosa & Verso, também comentei sobre isso. Leia abaixo trechos dos dois ensaios. Mas, se puder, compre a revista para conferi-los na íntegra.

Joca Terron - "(...) Mas o García Márquez de Cem anos de solidão parece ter ficado preso em algum porão de Macondo, lá no passado (Macondo inclusive não deve ter conseguido prescindir aos McDonalds), e outros Garcías Márquez surgiram e desapareceram, em longas temporadas entre Nova York, Estocolmo e Cidade do México. Porém, nunca os seus epígonos. Cópias mal xerocadas de García Márquez saltitam por todo o mundo em número impressionante e, me parece, interminável, ou pior, inexterminável, o que soa muito mais trágico. Aqui mesmo, lá e acolá, e até em lugares absolutamente improváveis como Bulgária, China ou Cazaquistão, devem existir numerosos garcias márquez locais, se reproduzindo feito rãs mágicas, saltitantes nas charnecas e chafurdando nas mazelas locais de seus respectivos países ou pântanos. Contudo, há uma cópia matriz e mais lamentável de García Márquez – ele próprio. E é essa cópia que passeia pelo mundo, bajulando poderosos, ajoelhando-se diante do Papa no Vaticano, cumprimentando sorridente na primeira página dos diários ora Fidel Castro, ora o presidente americano da vez, e cometendo atrocidades literárias equivocadas como Notícias de um seqüestro. Mas nada é comparável ao maior pecado de García Márquez, que leva o nome de Isabel Allende. A açucarada romancista chilena consegue ser mais triste que a cópia xerox com toner no fim que o escritor colombiano produziu de si mesmo (e vem automaticamente se copiando nos últimos trinta anos). Allende é a mecanização enfadonha do que o pior realismo mágico (do gênero "heróico") pode produzir e a mistificação do fantástico criado à imagem e semelhança de seu leitor ideal, no caso as leitoras da revista Elle. Nada errado com Elle ou suas leitoras, a não ser Isabel Allende. (...)"

Adriana Lisboa – "(...) García Márquez, como é sabido, tem no engajamento político o norte de toda sua ficção, que se oferece a leituras dessa ordem sem que assome no horizonte o fantasma daquilo que Umberto Eco denominou "superinterpretação" (basicamente, encontrar no texto algo que ele não oferece). O discurso do autor colombiano ao receber o Prêmio Nobel, em 1982, é prova cabal disso. Mas podemos supor, aliás sem nenhuma originalidade, que toda ficção é política desde que fale à imaginação, desde que problematize e complexifique o mundo, comprometa a sensação de estarmos circundados por "verdades," questione a visão reificada que temos de nós mesmos e das coisas. E tal ficção há de tocar mais fundo quanto mais possa extrapolar questões específicas a uma nacionalidade ou a um momento histórico para tocar naquilo que é essencialmente humano, e assim pertinente a todos. Se esse pressuposto está correto, toda boa ficção, mesmo que não se queira explicitamente "engajada," desempenha uma função política e social – tão mais valiosa, quem sabe, quanto mais livre de compromissos esteja para simplesmente... imaginar. Nesse sentido, podemos nos perguntar se o que há de mais interessante na obra do Nobel colombiano não é justamente o seu hábil manejo da imaginação, que ofusca as alegorias de cunho político. Lembro-me do quanto a obra de nosso vizinho argentino Julio Cortázar foi valorizada por seu engajamento, por sua postura de esquerda, enquanto a de seu conterrâneo Borges recebia a crítica de ser direitista. Ora, parece óbvio dizer que uma leitura política da obra de Cortázar e sobretudo da obra de Borges é empobrecedora – é fechar o foco num ângulo pequenino quando temos os cento e oitenta graus do horizonte ao nosso dispor. Quando a ficção problematiza o mundo e desestabiliza nossa primeira e mais óbvia leitura da realidade, está propondo perguntas, que serão mais fecundas quanto mais pudermos mantê-las e conviver com elas, sem ceder à tentação de oferecer-lhes respostas (o que equivaleria, talvez, a simplesmente substituir um juízo por outro) (...)".



 Escrito por Marcelo às 11h13
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Pra anotar na agenda



 Escrito por Marcelo às 10h15
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Cordas de aço

Por falar em blogues, registro aqui com certa tristeza a despedida do Cordas de aço, do Lucas Porto. Já havia me acostumado a visitar diariamente o cantinho mantido pelo amigo, com suas dicas espertas sobre música brasileira. Menos mal que continuaremos a encontrá-lo nos Bips, nas rodas-de-samba e nos bares da vida. Ou ainda nos shows em que o ele brilha com seu violão de 7 cordas. Deixo aqui uma pequena homenagem ao amigo, na forma da famosa canção do Cartola...

"Cordas de aço"

Cartola

"Ah, essas cordas de aço
Esse minúsculo braço do violão
Que os dedos meus acariciam
Ah, esse bojo perfeito
Que trago junto ao meu peito
Só você violão compreende porque
Perdi toda a alegria
E no entanto, meu pinho
Pode crer, eu adivinho
Aquela mulher até hoje
Está nos esperando
Solte seu som da madeira
Eu, você e a companheira
À madrugada
Iremos pra casa cantando"



 Escrito por Marcelo às 10h00
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Blogues

Poemas, quadrinhos, experimentações literárias e cultura em geral formam o conteúdo do blog Álbum de dramas urbanos do sr. Trash, comandado pelo amigo, jornalista e cinéfilo Alexandre dos Santos. Outra ótima pedida é o blog Argonauta digital, espaço dedicado principalmente a discussões sobre literatura, mantido pelo amigo e escritor Marcelo Alves, que escreveu sobre o Lins de Vasconcelos no livro Prosas cariocas. A terceira indicação é o Palavras pelo mundo, da amiga Michele, que há muito tempo freqüento, mas ainda não tinha linkado. O assunto perefido da Mi? Samba, é claro.


 Escrito por Marcelo às 09h55
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Respondendo a Drummond

"São as palavras que sustentam o mundo, não os ombros"

Paulo Henriques Britto 



 Escrito por Marcelo às 15h14
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Bush e a religião

João Moreira Salles recorreu a Simone Weil (citada aqui no Pentimento por conta do post sobre o livro Camus e o teólogo), Santo Agostinho, Czeslaw Milosz, entre outros pensadores para escrever um belíssimo artigo em que analisa a relação de George Bush com a religião. Para além dos simplismos dos michael moores e seus mentores intelectuais, sempre atrelados a chavões e dogmas tão vazios quanto sua capacidade de raciocínios efetivamente originais, Moreira Salles constrói um texto profundo e não maniqueísta, que merece ser lido. Confira a íntegra do artigo Em defesa da culpa aqui. Abaixo, um trecho:

"(...) Na autobiografia que escreveu, Bush credita seu destino ao fato de ter dedicado o coração a Cristo. A história é bem conhecida. Ele era tido como o mais incapaz dos irmãos. Até os quarenta anos, havia acumulado fracassos e era alcoólatra. Em meados da década de 80, dependendo da versão, caminhou com Billy Graham numa praia ou deu as mãos para um pastor excêntrico numa lanchonete de beira de estrada, e se converteu. Bush não sabe ou não se interessa por muitas coisas, mas as que conhece parecem todas derivar, se não do conteúdo de sua fé religiosa, ao menos da forma como esse conteúdo se manifesta – sem ambigüidades, descomplicado. Se aquilo que lhe é mais essencial aflora com tal evidência, compreende-se que questões seculares também sejam enfrentadas assim. Bush insistiu, durante a campanha, em que seu governo possuía "clareza moral". Onde outros, os adversários, viam complexidades, ele percebia o simples. Sua fé é daquelas que apontam caminhos – a revista "The Economist" nota que o presidente mencionou ter tomado decisões "de joelhos dobrados" – e ajudam a apaziguar as dúvidas. É uma religião serena.
É importante ponderar a dificuldade de classificar a si próprio como cristão", escreveu Czeslaw Milosz (1911-2004); "os obstáculos que encontro derivam da vergonha". Durante os noventa anos de vida do poeta, a linguagem dos catequistas foi substituída pela fala rigorosa e impessoal da civilização científica, o céu e o inferno desapareceram e o universo se desinteressou. "A era do desamparo", segundo Milosz. "O que dizer da morte? Sua aparição foi especialmente espetacular neste meu século." Ele faz a pergunta essencial: como justificar a fé diante do sofrimento dos inocentes? Pode Deus existir se Ele é responsável, se consente naquilo que nossos valores condenam como monstruoso? Camus dizia que não. Estamos sozinhos no universo". No entanto, o mesmo Camus perguntaria a Milosz se não era meio indecente o fato de ele, Camus, um ateu, mandar os filhos para a primeira comunhão. Milosz julgava Camus um cátaro inconsciente, um bom herege em estado puro que, como seus companheiros espirituais da Idade Média, rejeitava deus por amor a deus, visto não poder justificá-lo. Assim como a poesia foi possível depois de Auschwitz, também a fé foi possível, mas não mais a mesma fé. Diante dos horrores do século, um vasto grupo de intelectuais não abriu mão de acreditar – Michel de Certeau, Czeslaw Milosz, Graham Greene, Simone Weil, para ficar apenas nos católicos –, mas também não pôde, nem quis, escapar dos problemas extraordinariamente complexos suscitados por um deus assim tão indiferente. Acreditando contra todas as evidências, eles propuseram uma reflexão que nos ajuda a compreender os limites, e talvez os perigos, de uma religião fácil. A figura central nesse debate é Simone Weil (...)"



 Escrito por Marcelo às 15h02
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Declarações

O Dapieve me fez (alegremente) relembrar aquela que, para mim, é a mais bonita declaração de amor já feita no cinema. Ela está em Manhattan, um dos filmes da minha vida. E ocorre quando Isaac, o protagonista vivido pelo (também) diretor Woody Allen, vira-se em certo momento para a jovem interpretada por Mariel Hemingway e lhe assevera:

"Você é a resposta de Deus para Jó. Você teria encerrado a discussão dos dois. Ele teria apontado para você e dito: “Eu faço coisas terríveis, mas eu também posso fazer uma coisa bonita como ela”.

E para você, qual a declaração mais bacana? Aproveite os comentários para citá-la...



 Escrito por Marcelo às 13h48
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"The whole world smiles with you"

"When you’re smiling"

Mark Fisher / Joe Goodwin / Larry Shay

"When you’re smiling
When you’re smiling
The whole world smiles with you
When you’re laughing
When you’re laughing
The sun comes shining thru
But when you’re crying
You bring on the rain
So stop your sighing be happy again
Keep on smiling
’Cause when you’re smiling
The whole world smiles with you"



 Escrito por Marcelo às 11h30
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Herivelto

Outra ótima pedida é o show que o amigo Pedro Paulo Malta e a simpática Áurea Martins fazem no Carioca da Gema na próxima quinta-feira, a partir das 21h30. O repertório será dedicado a pérolas do repertório de Herivelto Martins, autor de Caminhemos ("Não, eu não posso lembrar que te amei / Não, eu preciso esquecer que sofri"), Atiraste uma pedra (Atiraste uma pedra / No peito de quem / Só te fez tanto bem), A Lapa (A Lapa / Está voltando a ser a Lapa), Cabelos brancos (Não falem desta mulher peno de mim / Não falem pra não lembrar minha dor), Segredo (Teu mal é comentar o passado / Ninguém precisa saber o que houve entre nós dois) e um dos compositores preferidos de Nelson Gonçalves.



 Escrito por Marcelo às 10h24
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Samba e humor

Para lembrar que, desde os clássicos de Noel Rosa até as atuais crônicas de Aldir Blanc ou as sátiras de Zeca Pagodinho, o samba sempre esteve de alguma forma ligado ao humor, o Centro Cultural Banco do Brasil Rio de Janeiro realizar´s durante os finais de semana do mês de janeiro, sempre às 18h30, um evento que contará um pouco da história dessa parceria tão bem sucedida. A partir do próximo sábado, Nei Lopes e Dunga, Pedro Miranda e Galotti, Doris Monteiro e Billy Blanco, e o Trio Calafrio estarão no palco do Teatro II mostrando algumas canções que nasceram desse profícuo casamento. O grupo que acompanhará os artistas só tem fera: Leandro Braga (piano), Ivan Machado (baixo), Claudio Jorge (violão), Carlinhos 7 Cordas (violão de 7 cordas), Wanderson Martins (cavaco), Jorge Gomes (bateria), Ovídio Brito, Marcelinho Moreira e Gordinho (percussão). Segue programação completa:

1. Humor no pagode (8 e 9 de janeiro) - Nei Lopes e Dunga, dois eminentes representantes desse gênero, mostram algumas pérolas cantadas em pagodes. O repertório privilegia as composições do próprio Nei Lopes - um dos mais respeitados compositores do país.

2. Desde os tempos de Noel (15 e 16 de janeiro) - Esse espetáculo – comandado por Gallotti e Pedro Miranda – desfia um repertório humorístico do chamado "samba urbano", inaugurado por Noel Rosa, passando pelos sambas do Estácio de Ismael e chegando a Aldir Blanc.

3. Humor e telecoteco (22 e 23 de janeiro) - Dentro do chamado samba urbano, essa importante vertente teve em Haroldo Barbosa um de seus maiores representantes juntamente com Miguel Gustavo. O impagável Billy Blanco dividirá o palco com Doris Monteiro, uma das maiores intérpretes desse gênero, apresentando pérolas do telecoteco.

4. Humor e malandragem (29 e 30 de janeiro) - Figuras obrigatórias em qualquer disco de Zeca Pagodinho, Marcos Diniz, Barbeirinho do Jacarezinho e Luiz Grande formam o Trio Calafrio (apelido dado pelo próprio Zeca). O Trio incorpora a malandragem carioca, com um incrível arsenal de gírias próprias dos verdadeiros "malandros" do Rio de Janeiro. São eles os autores do antológico "Caviar", sucesso na voz do citado Zeca Pagodinho.

P.S. A imagem é do grande J. Carlos



 Escrito por Marcelo às 10h14
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Os dez mais do Críticos.Com

Depois da Associação de Críticos de Cinema do Rio de Janeiro e dos principais jornais, foi a vez da equipe do site Críticos.Com apontar os dez melhores filmes de 2004. O destaque da relação foi o charmoso Encontros e desencontros, de Sofia Coppola, que apareceu em sete das 11 listas individuais elaboradas pelos integrantes do site: além de mim, Marcelo Janot, Carlos Alberto de Mattos, Luciano Trigo, Pedro Butcher, Nelson Hoineff, Fernando Albagli, João Marcelo F. de Mattos, Maria Silvia Camargo, Daniel Schenkler e Ricardo Cota. Confira as relações de cada crítico aqui. O resultado final:

7 votos
Encontros e Desencontros (Lost in Translation), de Sofia Coppola

6 votos
Dogville, de Lars Von Trier
Elefante (Elephant), de Gus Van Sant
Entreatos, de João Moreira Salles

5 votos
Kill Bill Vol. 2, de Quentin Tarantino
O Pântano (La Ciénaga), de Lucrecia Martel
Os Sonhadores (TheDreamers), de Bernardo Bertolucci

4 votos
Diários de Motocicleta (Diarios de Motocicleta), de Walter Salles
Má Educação (La Mala Educación), de Pedro Almodóvar

3 votos
Anti-herói Americano (American Splendor), de Shari Springer Berman e Robert Pulcini
Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças (Eternal Sunshine of the Spotless Mind), de Michel Gondry
Lugares Comuns (Lugares Comunes), de Adolfo Aristarain
Moça com Brinco de Pérola (Girl with a Pearl Earring), de Peter Webber



 Escrito por Marcelo às 16h46
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Sobre ontem à noite

"Presente"

Adriana Lisboa

"O menino no sinal me pede uma esmola. Vê o meu rosto cansado, os meus músculos bradando urgências, a minha vida resfolegando, os meus sustos. Eu digo, no sinal, que fujo de alguma coisa rumo a outra que está muito longe.

O menino me dá uma esmola: seu sorriso. No tempo em que pára, percebo que sou eu a sorrir no menino enquanto sou eu do lado de cá, dentro do carro, e eu e o menino nos fitamos com um só olhar. Sem desespero e sem esperança.

Quando o sinal abre, minhas mãos custam um pouco a retomar o mundo que buzina lá fora, implorando esmolas. Sinto o motor do carro afagando o asfalto e venho de alguma coisa rumo a outra que talvez não esteja tão longe assim."

 



 Escrito por Marcelo às 14h40
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Canção

Das tantas músicas que ouvi neste fim-de-semana - Paulinho da Viola, Dona Ivone, Ella Fitzgerald, Elis Regina, Elton Medeiros, Louis Armstrong... - a que ficou na cabeça foi Beatriz, que ganhou um belíssimo arranjo no disco Imitação da vida, registro do show homônimo da Bethânia. A cantora nem chega a colocar sua voz a serviço da lírica letra do Chico, porque a música entra incidentalmente num intervalo e serve como tão-só como uma espécie de introdução do que vem a seguir. Mas é tão bonita a orquestração... Composta originalmente para uma peça teatral, Beatriz é também uma evidente homenagem do Chico à mulher ao lado de quem construiu sua vida. Isto, embora Marieta não rime com atriz - pelo menos na língua!

"Beatriz"

Edu Lobo / Chico Buarque

"Olha
Será que ela é moça
Será que ela é triste
Será que é o contrário
Será que é pintura
O rosto da atriz
Se ela dança no sétimo céu
Se ela acredita que é outro país
E se ela só decora o seu papel
E se eu pudesse entrar na sua vida

Olha
Será que é de louça
Será que é de éter
Será que é loucura
Será que é cenário
A casa da atriz
Se ela mora num arranha-céu
E se as paredes são feitas de giz
E se ela chora num quarto de hotel
E se eu pudesse entrar na sua vida

Sim, me leva para sempre, Beatriz
Me ensina a não andar com os pés no chão
Para sempre é sempre por um triz
Ai, diz quantos desastres tem na minha mão
Diz se é perigoso a gente ser feliz

Olha
Será que é uma estrela
Será que é mentira
Será que é comédia
Será que é divina
A vida da atriz
Se ela um dia despencar do céu
E se os pagantes exigirem bis
E se um arcanjo passar o chapéu
E se eu pudesse entrar na sua vida"



 Escrito por Marcelo às 11h44
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Toque

"Desculpa, digo, mas se eu não tocar você agora vou perder toda a naturalidade, não conseguirei dizer mais nada, não tenho culpa, estou apenas sentindo sem controle, não me entenda mal, não me entenda bem, é só esta vontade quase simples de estender o braço para tocar você, faz tempo demais que estamos aqui parados conversando nesta janela, já dissemos tudo que pode ser dito entre duas pessoas que estão tentando se conhecer, tenho a sensação impressão ilusão de que nos compreendemos, agora só preciso estender o braço e, com a ponta dos meus dedos, tocar você, natural que seja assim: o toque, depois da compreensão que conseguimos, e agora".

Trecho de Anotações de um amor urbano, belo conto do Caio Fernando Abreu que eu já conhecia, mas pela primeira vez ouvi narrado por outra pessoa, num daqueles momentos em que, a exemplo da situação descrita no texto, a vida fica suspensa...



 Escrito por Marcelo às 11h01
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