2005

2004 foi para mim sobretudo um ano de aprendizado, busca de compreensão e serenidade. Um ano importante, enfim, pois, como disse o Henfil, "vale é a intenção da semente". Para 2005, o que desejo para mim para todos vocês são dias de paz, amor e saúde. O resto a gente busca. Que venha 2005!



 Escrito por Marcelo às 17h10
[   ] [ envie esta mensagem ]




No retrovisor

Do Epiderme:

"Está rolando estes dias e ficará no ar até a primeira semana de janeiro uma espécie de melhores momentos retrospectiva vale a pena ver de novo em paralelos.org.

Os textos vão se alternando na home. Hoje tem o antológico bate papo com novos e novíssimos, entrevista com José Castello, Fabrício Marques e a resenha de "A viagem vertical", de Enrique Vila-Matas, por Ronaldo Bressane.

Nos próximos dias, FLIP, Rocinantes, Prosas Cariocas, LPB e muitos contos, crônicas, poesias e discussões literárias."



 Escrito por Marcelo às 14h40
[   ] [ envie esta mensagem ]




Flicts

Já postei aqui listas das músicas, dos livros e dos filmes da minha vida... Hoje, lembrei de Flicts, do Ziraldo, que, ao lado de O menino do dedo verde (Maurice Druon), Menino maluquinho (também do Ziraldo), O mágico desinventor (Marco Túlio Costa) e Marcelo Marmelo Martelo (Ruth Rocha), foi um dos livros de minha infância. Na história escrita originalmente em 1969, Flicts é uma cor que se sente solitária e procura seu lugar no mundo entre as cores mais conhecidas, como o vermelho, o amarelo, o azul, o verde... Uma história de não-pertencimento, enfim. E que por esta razão, sem que soubesse, de certo modo antecipava o tema que iria me atrair na literatura adulta, de um Kafka a um Dostoievski.

"Flicts não tinha a força do Vermelho, não tinha a imensidão do Amarelo, nem a paz que tem o Azul. Era apenas o frágil e feio e aflito Flicts."

Nunca mais vi Flicts nas livrarias. É meu sonho de consumo atual.



 Escrito por Marcelo às 14h23
[   ] [ envie esta mensagem ]




Entreatos

Algumas observações atrasadas sobre Entreatos, filme de João Moreira Salles:

. O documentário é uma aula de política, justamente por registrar (com a usual elegância do João M. Salles) os bastidores, as conversas reservadas, os papos descontraídos, ou seja, tudo aquilo que está fora das declarações e dos atos oficiais cotidianos;

. Lula demonstra uma visão política global que, sinceramente, me surpreendeu. Destaque para as acuradas análises que faz a respeito da trajetória dos partidos de esquerda desde o pós-Guerra e sobre os conflitos do próprio PT;

. Mais uma vez a câmera de Walter Carvalho é operada com genialidade, buscando em meio à confusão que é o interior de uma campanha política planos significativos e de grande poder simbólico;

. Aliás, a opção pela "câmera invisível" é acertada. À medida que o filme transcorre, acompanhando no decorrer do tempo o desenrolar da campanha, é evidente que Lula e os demais ficam mais à vontade, esquecendo-se por vezes que tudo está sendo registrado;

. O personagem Lula é o filme. Espirituoso, bem-humorado, extremamente carismático, o presidente protagoniza cenas hilárias e demonstra uma simplicidade que me orgulha muito, em momentos como aquele em que vai ao barbeiro de sempre, um local humilde, para aparar a barba, ou quando, penalizado, dá carona no jatinho de campanha a um desconhecido que perdeu o vôo;

. É hilário ver o hoje ministro Palocci receitando remédio para a sinusite de Lula (e José Alencar imediatamente querendo a receita também);

. É tocante ver o carinho que Lula dispensa à mulher, cabeça recostada na dela, enquanto assiste aos programas de TV que retratam sua vitória;

. É impressionante ver com são atuais certas conversas travadas ainda durante a campanha. A questão dos dados do IBGE, por exemplo;

. É engraçado ver Lula, após receber os cumprimentos de Serra pela vitória, dizendo, em espanhol: "Perdio..."

. É de matar de rir ver Lula brincando ao telefone, como se atendesse Bush e, sem seguida, Dualde, a quem diz: "O quê? Você quer que mande o Favre de volta?"

. É bacana também vê-lo afirmar com sinceridade que não gostaria de voltar à vida na fábrica, ou o gosto pelo terno-e-gravata;

. É melhor ainda o momento em que responde um desses bobos "intelectuais de esquerda", que lhe dissera "preferir o Lula de macacão ao de terno". Retruca Lula: "Então por que você não tira esse terno e veste um macacão?"

. É alentador ver que temos um presidente bacana, concorde-se ou não com suas idéias e posturas políticas;

. É, acima de tudo, sensacional constatarmos novamente que nossos documentários estão anos luz à frente do que se faz lá fora, principalmente nos EUA, com seus incensados michael-moores. A visão chapada de Moore e seus imitadores lamentavelmente empolgam o público e grande parte da crítica, ainda que se valham de expedientes exatamente igual àqueles aos quais criticam: montagens manipuladoras e dados falsos. Os trabalhos de João Moreira Salles e Eduardo Coutinho, mestre maior, são a prova mais absoluta de que o gênero documentário pode, sim, ser ético. E isso significa ser ético também na forma. E não se fechar em estrelismos ou maniqueísmos juvenis.



 Escrito por Marcelo às 14h11
[   ] [ envie esta mensagem ]




Tchau, Baixinho

O (tardio) anúncio de despedida de Romário, em que tenta "alfinetar" pateticamente os dirigentes do Flu ao dizer que não vestirá a camisa do clube em seu derradeiro jogo, apenas confirma o que penso deste que foi um dos maiores jogadores que já vi atuar: sua genialidade em campo sempre foi diretamente proporcional à má-educação e à deselegância fora dele.



 Escrito por Marcelo às 13h39
[   ] [ envie esta mensagem ]






"Dia branco"

Geraldo Azevedo / Renato Rocha

"Se você vier
Pro que der e vier comigo
Eu te prometo o sol
Se hoje o sol sair
Que a chuva
Se a chuva cair
Se você vier até onde a gente chegar
Numa praça na beira do mar
Pedaço de qualquer lugar
Nesse dia branco
Se branco ele for
Esse tanto
Esse canto de amor
Se você quiser e vier
Pro que der e vier comigo

Esse tanto
Esse tonto
Esse tão grande amor
Se você quiser e vier
Pro que der e vier
Pro que der e vier comigo"



 Escrito por Marcelo às 13h31
[   ] [ envie esta mensagem ]




Versos

"Pois então saibas que não desejamos mais nada

A noite, a lua prateada, silenciosas,

Ouvem as nossas canções"


Cartola, em Sala de recepção



 Escrito por Marcelo às 16h37
[   ] [ envie esta mensagem ]




JB de ontem - Segundo ato (ou "A poesia serve quando a morena vai embora")

Já a entrevista feita pelo amigo Paulo Celso Pereira com o poeta Ferreira Gullar, publicada na mesma edição do JB, está preciosa. O primeiro ponto a se destacar são as declarações do escritor sobre a "arte contemporânea", este escaninho conceitual onde em geral cabe de tudo. Com a coragem que falta a boa parte dos meios intelectuais, que adoram elogiar ainda que não compreendam ou sintam coisa alguma diante do que vêem, Gullar manda brasa:

"A verdade é que uma grande parte das coisas que andaram fazendo aí realmente não são nada. Você não pode a sério achar que seja uma obra de arte o cara pôr um cocô dentro de uma lata e escrever o nome dele. Por mais aberto que você seja, realmente você não pode aceitar. Eu desafio qualquer um a argumentar e justificar isso. Pode até ser expressão, uma expressão lamentável. Ele pode estar se exprimindo, mas no pior nível, no que nós não somos. Como a minha teoria é a de que o homem é cultura, ele não é cocô. Essa idéia de destruir a arte é uma grande bobagem. A arte é uma coisa que o ser humano criou ao longo de milênios e que torna a vida mais rica. Destruir isso, transformar isso em pedaço de pau velho é uma bobagem. É pobreza espiritual e humana. É falta de talento e sobretudo de visão. Porque às vezes o cara é talentoso, mas se envolve numa errada, numa bobagem . Dizer que todo mundo é artista é besteira, é mentira, não é verdade. Eu quero ver fazer a Monalisa, o Guernica! Amarrar três tijolos num arame e pendurar, isso qualquer um faz. Arte é expressão, mas nem toda expressão é arte. São coisas tão primárias e querer ocultar isso não dá."

Mas o forte da entrevista nem está nesta resposta, e sim naquela em que o poeta tenta explicar por que "a poesia não morreu", e para tal vale-se de uma experiência vivida com um amigo durante o exílio europeu.

"Por que a poesia não morreu?" - Porque o ser humano não mudou tanto quanto pensamos naquilo que ele tem de fundamental. Há milhões de valores, mas sem o outro não dá para viver. Sem a mulher amada, sem o grande amigo, vai viver como? Não existe isso. Vai viver de idéias e de ver vídeo na televisão? Somos essa necessidade de carinho, de amor. Eu estava no exílio e tinha um cara chatérrimo, que só falava de economia comigo naquelas reuniões chatérrimas de exilados. E ele era casado com uma brasileira, morena, linda. Um dia me disseram que a mulher tinha largado o cara. Na reunião seguinte, ele só falou de poesia o tempo inteiro. Porque quando a morena vai embora, não tem o que nos socorra a não ser poesia. O cara abandonou a economia e foi ler os poetas que conhecia e que ele havia esquecido. A poesia serve quando a morena vai embora."

Taí. Grande frase, síntese perfeita sob aparente simplicidade. É isso: "A poesia serve quando a morena vai embora."



 Escrito por Marcelo às 13h52
[   ] [ envie esta mensagem ]




JB de ontem - Primeiro ato

O Jornal do Brasil de ontem trouxe duas matérias dignas de notas - positivas e negativas. Comecemos pelo segundo caso, ou seja, a reportagem de capa da revista Domingo, sobre o (batidíssimo) tema da revitalização da Lapa. Ao saudar a afirmação do bairro como centro de lazer e cultura, o nobre repórter Rafael Sento Sé em certo momento comenta o relativo sucesso do Odisséia, inaugurado este ano. Escreve ele: "O forte do lugar, aberto em junho pelos mesmos donos da Casa da Matriz, é a música alternativa. O Odisséia levou para a Lapa as noites de rock das festas Brazooka, do DJ Janot, e Maldita, de Zé e Gordinho, e também deu o braço a torcer ao samba: Teresa Cristina e Nelson Cavaquinho subiram recentemente ao palco". O nobre jornalista, para espanto dos leitores, simplesmente ressuscitou Nelson Cavaquinho.



 Escrito por Marcelo às 13h39
[   ] [ envie esta mensagem ]




Sobre o Natal, o domingo e uma boa música num dia de chuva

O fim-de-semana inesquecível teve um Natal simples e feliz em família, pela primeira vez sediado na minha casa. Teve também um presente especialíssimo, com gorro de papai-noel e tudo. E culminou num domingo tranqüilo, embalado pela brisa e a chuva fina que caiu sobre as pracinhas e as casas floridas da Urca, como se uma delicada metáfora indicasse que tudo o que de importante passou foi lavado sem rancor, pressa ou sobressalto, e sugerisse que 2005 será um ano de paz, envolto por uma alegria mansa que às vezes não cabe em palavras.  

Ah, o fim-de-semana teve uma trilha sonora também:

"Meio dia meia lua (Na ilha de Lia, no barco de Rosa)"

Chico Buarque / Edu Lobo

"Quando adormecia na ilha de Lia
Meus Deus, eu só vivia a sonhar
Que passava ao largo no barco de Rosa
E queria aquela ilha abordar
Pra dormir com Lia que via que eu ia
Sonhar dentro do barco de Rosa
Rosa que se ria e dizia nem coisa com coisa

Era uma armadilha de Lia com Rosa com Lia
Eu não podia escapar
Girava num barco num lago no centro da ilha
Num moinho do mar
Era estar com Rosa nos braços de Lia
Era Lia com balanço de Rosa
Era tão real
Era devaneio
Era meio a meio
Meio Rosa meio Lia, meio
Meio-dia mandando eu voltar com Lia
Meia-lua mandando eu partir com Rosa

Era uma partilha de Rosa com Lia com Rosa
Eu não podia esperar
Na feira do porto, meu corpo, minh'alma
Meus sonhos vinham negociar
Era poesia nos pratos de Rosa
Era prosa na balança de Lia
Era tão real
Era devaneio
Era meio a meio
Meio Lia, meio Rosa, meio
Meio-dia mandando eu voltar com Lia
Meia-lua mandando eu partir com Rosa
Na ilha de Lia, de Lia, de Lia
No barco de Rosa, de Rosa, de Rosa"
 



 Escrito por Marcelo às 13h23
[   ] [ envie esta mensagem ]




Entrevista

Depois do JP Cuenca e da Adriana Lisboa, foi minha vez de ser entrevistado pela Marcia Novaes e pelo Francisco Malta no blog 0.9 milímetros. Na entrevista, falo sobre o cotidiano de jornalista e escritor e o processo criativo, entre outros assuntos. Abaixo, uma das perguntas. Confira a íntegra do texto aqui.

"F. Malta - Qual, na sua visão, seria o suporte para a criatividade? Experiência de vida ou leitura?

M.Moutinho - Ambos, certamente. O Elias Canetti escreveu um romance genial que trata disso. O professor-protagonista de “Auto-de-fé” passou os anos enfurnado em sua biblioteca. Quando teve de efetivamente sair às ruas, percebeu que nada conhecia da vida. Não quer dizer que a leitura não seja importante, sob pena de - para usar uma expressão do Harold Bloom - nos sentirmos sempre como “Adão de manhã cedo”. Tudo é uma questão de dose."



 Escrito por Marcelo às 19h58
[   ] [ envie esta mensagem ]




Mais Eugénio

"Litania"

Eugénio de Andrade

"O teu rosto inclinado pelo vento;

a feroz brancura dos teus dentes;

as mãos, de certo modo, irresponsáveis;

e contudo sombrias, e contudo transparentes;

 

o triunfo cruel das tuas pernas,

colunas em repouso se anoitece;

o peito raso, claro, feito de água;

a boca sossegada onde apetece

 

navegar ou cantar, ou simplesmente ser

a cor dum fruto, o peso duma flor;

as palavras mordendo a solidão,

atravessadas de alegria e terror;

 

são a grande razão, a única razão".



 Escrito por Marcelo às 14h15
[   ] [ envie esta mensagem ]




Brazooka de Natal

Amanhã, a boa pós-ceia é a Brazooka, comandada pelo amigo Marcelo Janot. A hora temática será a melhor de todas: Chico Buarque. Na Casa da Matriz, a partir das 23h.



 Escrito por Marcelo às 15h15
[   ] [ envie esta mensagem ]




O Natal dos amigos e Fernando Sabino

No domingo passado, passei pela terceira vez por uma experiência extraordinária. Falo do Natal dos Amigos, idéia da queridíssima Juliana, que consiste num encontro no qual cada um leva um objeto, ou um texto, ou uma canção, ou qualquer coisa que tenha sido importante para si naquele ano que se encerra. Li um conto meu, aos prantos. E depois fiquei meditando sobre o quanto aquele evento, que felizmente começa a se tornar tradicional, significa para cada um dos participantes. É uma catarse coletiva de amor. Amor de amigos. O Natal que a Ju criou é menos Papai Noel e mais Jesus Cristo. Menos compra e mais entrega. E me fez lembrar do Fernando Sabino e dos quatro mineiros do Apocalipse (ele, Paulo Mendes Campos, Otto Lara Resende e Hélio Pellegrino). Quando o Sabino morreu, escrevi para a Paralelos o texto abaixo, que trata justamente da forma de amor que os unia. De alguma forma, é a mesma que me une aos meus, a vocês que lêem este blog e a todos os que participaram daquela tarde feliz de domingo.

Um livro sobre o amor

Marcelo Moutinho

"Fernando Sabino, meu amigo, as rosas estão frias / E estremeceram na hastes como uma voz de eternidade" (Hélio Pellegrino, em carta-poema, 4 de maio de 1945)

Não era meu cronista preferido (pronto, falei!). A verdade é que, entre os "quatro mineiros do Apocalipse", afeiçoei-me mais ao lirismo comedido do Paulo Mendes Campos e ao pessimismo permanente do Otto. Mas não é sempre que um romance lido quando já passada a adolescência entra numa lista particular (e necessariamente ilógica) dos "livros de nossa vida". Os títulos que relacionamos costumam perdurar e em geral circundam textos sorvidos na quentura da descoberta, quando olhamos para o mundo e, ao nos flagarmos nus, então percebemos que a nudez não nos é exclusiva.

Falo de "O encontro marcado", evidentemente. Que segue firme, ao lado de Kafkas, Dostoievskis, Clarices e Camus na prateleira mais preciosa de minha estante íntima. Com a morte de Sabino, o último dos quatro mineiros, pus-me a pensar por que afinal esse livro fora capaz de abrir espaço nessa listagem, apesar de tão tardiamente. E revisitei o romance, relendo apenas as frases sublinhadas:

"Estamos imprensados entre esses dois acontecimentos: o nascimento e a morte. Temos apenas 60 anos para resolver o problema, talvez menos."

"A idéia da morte os fazia mais velhos."

"Quem fala em sangue, e não esta sangrando, é um impostor."

"Há uma fresta em minha alma por onde a substância do que sou está sempre escapando mas não vejo onde nem porquê."

As quatro acima são apenas exemplos soltos das tantas passagens que mereceram rabiscos daquele rapaz de vinte e poucos anos, por falarem de coisas intangíveis e ressonantes. Que continuam ressonantes hoje, mesmo na leitura apressada de anteontem à noite. Mas, para além das frases, da prosa fluente e nada afetada do narrador, compreendi que minha profunda ligação estava irremediavelmente atrelada ao fato de "O encontro marcado" ser antes de tudo um romance sobre o amor, urgido no sentimento trágico que uniu Sabino, Hélio, Otto e Paulo. Aquele mesmo amor que os levava a "puxar angústia", essa expressão que se tornou clássica. Pobre de quem nunca "puxou angústia" ao ouvir um samba triste, ou ao engolir o quinto chope numa mesa de bar, ou ainda ao encontrar um cartão antigo esquecido dentro de um livro...

"Vivíamos em estado permanente de discussão", comentou certa vez Sabino, referindo-se ao grupo. E as delongas superavam tempo ou geografias. Na correspondência trocada entre eles, anos e anos depois das travessuras na Praça da Liberdade, numa Belo Horizonte quase provinciana, o misterioso fio que os ligava permanecia firme. Em carta remetida a Hélio, datada de 1945, Sabino confessava ter o coração cheio de "alegria triste". E observava: "Há qualquer coisa de comovente nesse encontro de nós quatro assim de longe – tão longe que estamos um do outro, você do Paulo, o Paulo do Otto, o Otto de mim, e no entanto tão juntos, que nossa respiração de confunde, nossas mãos se tocam no ar e há um resto de doçura no olhar de cada um, que é a lembrança dos outros três."

Essa doçura tão valente, que nasce da capacidade de "mostrarmos nossos corações uns para os outros" (como bem definiu um desses amigos que sabem ser doces) e confere intensidade às relações humanas é o que me faz situar "O encontro marcado" entre os grandes livros que li. E mais: como bem souberam o próprio Sabino e seus parceiros Hélio, Otto e Paulo, é o que faz da amizade uma (sublime) forma de amor." 



 Escrito por Marcelo às 14h11
[   ] [ envie esta mensagem ]




Saudade

"Saudade é um pouco como fome. Só passa, quando se come a presença."

Clarice Lispector



 Escrito por Marcelo às 13h53
[   ] [ envie esta mensagem ]




Sylvia Telles

Estou desde ontem à voltas com o disco It might as well be spring, da Sylvinha Telles. Gravado em 1966 e produzido por Aloyisio de Oliveira com arranjos do grande maestro Lindolfo Gaya, o trabalho traz oito versões de canções da bossa-nova para o inglês, todas de Ray Gilbert, além de standards, como But not for me, Baubles, bangles and beds e a canção-título. It might as well be spring foi relançado em cd este ano pela Dubas, com capa ilustrada pelo mago da identidade visual Cesar Villela, aquele mesmo que criou os traços minimalistas em preto e branco característicos da Elenco, gravadora por onde saiu o disco original. Meu encanto com o cd, além disso tudo, deve-se à bela canção Rain, de Durval Ferreira e Pedro Camargo, tão apropriada para esse estranhíssimo verão. A música foi registrada pela cantora com tamanha suavidade, que evidencia o quanto ela influenciou sucessoras, como Nara Leão.

"Rain"

Durval Ferreira / Pedro Camargo – Versão de Ray Gilbert

"Rain, you, gentle rain

Now that you’re on my window pane

Before you go will explain

Something of me?

Rain, I wonder why

Todas there’s such a different sky

It isn’t raining rain

It’s teardrops that I see

And how can you forget

The happy hours when we met

Those happy hours when my love and I were there?

Rain, now he is gone

But all the memories remain so

Maybe that’s why

The sky is so grey

Your heard his goodbye

When he went away

Now both of us cry

Recalling the day it rained"



 Escrito por Marcelo às 11h50
[   ] [ envie esta mensagem ]




Ainda o Bertolucci

 
Minha resenha sobre Os sonhadores, de Bernardo Bertolucci, está hoje em ótima companhia na seção Filme em questão, do Caderno B (Jornal do Brasil), ao lado dos artigos Um mestre da narrativa intimista, do roteirista Di Moretti, e Crenças de um veterano sonhador, da crítica Myrna Silveira Brandão. Nos diferentes olhares sobre o filme, uma constante: o reconhecimento de sua qualidade.


 Escrito por Marcelo às 10h39
[   ] [ envie esta mensagem ]




Da série 300 toques - Número 22

Choro

Para Ana

Ao explodir a algaravia da meia-noite, o ano escorreu por seu rosto em seis ou sete lágrimas quentes. Os amigos, tão generosos quanto ingênuos, suplicavam-lhe repetidamente: "não chore, não chore, não vale a pena..." Mal sabiam que chorar é um fato, nunca uma opção.



 Escrito por Marcelo às 10h11
[   ] [ envie esta mensagem ]




No clima do Clube

"Um girassol da cor do seu cabelo"

Lô Borges

"Vento solar e estrelas do mar
A terra azul da cor do seu vestido
Vento solar e estrelas do mar

Você ainda quer morar comigo?
Se eu cantar, não chore não, é só poesia
Eu só preciso ter você por mais um dia
Ainda gosto de dançar bom dia, como vai você?

Sol girassol, verde vento solar
Você ainda quer morar comigo?
Vento solar e estrelas do mar

Um girassol da cor de seu cabelo
Se eu morrer, não chore não

É só a lua, é seu vestido cor de mar
É filha nua ainda moro nesta mesma rua
Como vai você?

Você vem, ou será que é tarde demais?
O meu pensamento tem a cor
De seu vestido ou um girassol que tem a cor
De seu cabelo? O meu pensamento tem a cor
De seu vestido ou um girassol que tem a cor
De seu cabelo? O meu pensamento tem a cor
De seu vestido ou um girassol que tem a cor
De seu cabelo"



 Escrito por Marcelo às 10h01
[   ] [ envie esta mensagem ]




Clube da Esquina

Para aqueles que, como eu, são fãs do pessoal de Milton Nascimento, Lô Borges, Beto Guedes, Toninho Horta e companhia, vale uma visita ao Museu do Clube da Esquina. A página traz muitas histórias interessantes sobre o pessoal e os discos que fizeram parte do movimento na década de 70, links afins e ainda uma rádio. Vale a conferida.



 Escrito por Marcelo às 09h52
[   ] [ envie esta mensagem ]




Sarau

Foi muito bacana o sarau que rolou ontem no Teatro Café Pequeno. Leituras de alto nível, num clima agradabilíssimo e sem formalidades. Li um conto inédito, que possivelmente estará na próxima edição da Ficções. E fiquei bem impressionado com o ótimo texto do Francisco Slade (de quem conhecia pouca coisa) no primeiro número da revista Paralelos. Confiram.

 Escrito por Marcelo às 11h24
[   ] [ envie esta mensagem ]




Caio F.

"Vem, que eu quero te mostrar o papel cheio de rosas nas paredes do meu novo quarto, no último andar, de onde se pode ver pela pequena janela a torre de uma igreja. Quero te conduzir pela mão pelas escadas dos quarto andares com uma vela roxa iluminando o caminho para te mostrar as plumas roubadas no vaso de cerâmica, até abrir a janela para que entre o vento frio e sempre um pouco sujo desta cidade. Vem, para subirmos no telhado e, lá do alto, nosso olhar consiga ultrapassar a torre da igreja para encontrar os horizontes que nunca se vêem, nesta cidade onde estamos presos e livres, soltos e amarrados. Quero controlar nervoso o relógio, mil vezes por minuto, antes de ouvir o ranger dos teus sapatos amarelos sobre a madeira dos degraus e então levantar brusco para abrir a porta, construindo no rosto um ar natural e vagamente ocupado, como se tivesse sido interrompido em meio a qualquer coisa não muito importante, mas que você me sentisse um pouco distante e tivesse pressa em me chamar outra vez para perto, para baixo ou para cima, não sei, e então você ensaiasse um gesto feito um toque para chegar mais perto, apenas para chegar mais perto, um pouco mais perto de mim.

Então quero que você venha para deitar comigo no meu quarto novo, para ver minha paisagem além da janela, que agora é outra, quero inaugurar meu novo estar-dentro-de-mim ao teu lado, aqui, sob este teto curvo e quebrado, entre estas paredes cobertas de guirlandas de rosas desbotadas. Vem para que eu possa acender incenso do Nepal, velas da Suécia na beirada da janela, fechar charos de haxixe marroquino, abrir armários, mostrar fotografias, contar dos meus muitos ou poucos passados, futuros, possíveis ou presentes impossíveis. Dos meus muitos ou nenhuns eus. Vem para que eu possa recuperar sorrisos, pintar teu olho escuro com kol, salpicar tua cara com purpurina dourada, rezar, gritar, cantar, fazer qualquer coisa, desde que você venha, para que meu coração não permaneça esse poço frio sem lua refletida. Porque nada mais sou além de chamar você agora, porque não tenho medo e não estou sozinho, porque não, porque sim, vem e me leva outra vez para aquele país distante onde as coisas eram tão reais e um pouco assustadoras dentro da sua ameaça constante, mas onde existe um verde imaginado, encantado, perdido. Vem, então, e me leva de volta para o lado de lá do oceano de onde viemos os dois".

Caio Fernando Abreu, em Lixo e purpurina



 Escrito por Marcelo às 11h04
[   ] [ envie esta mensagem ]




Infinito

"Costuro o infinito sobre o peito
Como aqueles que amam"

Hilda Hilst



 Escrito por Marcelo às 11h01
[   ] [ envie esta mensagem ]




Gonzaguinha

Fui um adolescente politizado, no bom e no mau sentido. Participei do movimento estudantil, li sobre história e teses de esquerda, bati ponto em todos os comícios do PT, com minha bandeira vermelha e a esperança a tiracolo. Foi assim que comecei a gostar do Gonzaguinha. Havia em suas canções (e em sua vida) uma paixão pela vida e pelo outro que me atraiu de forma irremediável. A postura socialmente engajada de sua obra nunca fechou as portas para o lirismo, o que é raro. Suas canções nunca foram panfletos. O "menino que desce o São Carlos e bota a perna no mundo" enxergou e se pôs no mundo com os olhos permanentemente tomados por um misterioso véu capaz de cobrir de poesia as coisas mais banais. Nunca esquecerei do show dele a que assisti, no Teatro da Barra. Nem da arrebatadora peça que o Dácio Malta escreveu em sua homenagem, na qual a platéia terminava literalmente às lágrimas, porque era impossível deixar de admirar (e de compartilhar, ainda que sob a perspectiva de espectador) uma trajetória tão atrelada ao que há de mais humano, demasiadamente humano, na felicidade e na dor. Sim, porque apesar de otimista, a música de Gonzaguinha também cutucou feridas, em geral de si próprio, como o demonstram Ponto de interrogação, ou Explode coração, para ficarmos apenas com dois sucessos. Mas por que falar hoje em Gonzaguinha com tanta digressão? Sei lá. Por nenhum grande motivo, talvez para tentar - inutilmente - dar conta do imenso sorriso que abri logo cedo, ao vir trabalhar e ouvir no rádio do carro esta canção tão bontita quanto simples que é Caminhos do coração...

"Caminhos do coração"

Gonzaguinha

"Há muito tempo que eu saí de casa
Há muito tempo que eu caí na estrada
Há muito tempo que eu estou na vida
Foi assim que eu quis, e assim eu sou feliz

Principalmente por poder voltar
A todos os lugares onde já cheguei
Pois lá deixei um prato de comida
Um abraço amigo, um canto prá dormir e sonhar

E aprendi que se depende sempre
De tanta, muita, diferente gente
Toda pessoa sempre é as marcas
Das lições diárias de outras tantas pessoas

E é tão bonito quando a gente entende
Que a gente é tanta gente onde quer que a gente vá
E é tão bonito quando a gente sente
Que nunca está sozinho por mais que pense estar

(é tão bonito quando a gente pisa firme
Nessas linhas que estão nas palmas de nossas mãos
É tão bonito quando a gente vai à vida
Nos caminhos onde bate, bem mais forte o coração"



 Escrito por Marcelo às 10h35
[   ] [ envie esta mensagem ]




Momento anti-lírico

"A pergunta"

Fábio Danesi

"Depois de atravessar oceanos e montanhas, de enfrentar tigres e tempestades, de passar, durante meses, sede, fome, frio e calor, o jornalista chegou finalmente à cabana do homem mais sábio do mundo.

- Mestre! Suplico que me ajude!
- Pergunte qualquer coisa, e obterá a resposta.

O jornalista ajoelhou-se, perguntando com voz trêmula:

- Blog é literatura?
- Ora, vá pra puta que pariu, respondeu o sábio, antes de afundar o cajado na cabeça do sujeito."

(enviado via email pela Crib Tanaka)



 Escrito por Marcelo às 15h37
[   ] [ envie esta mensagem ]




Quintana

"Sentir primeiro, pensar depois
perdoar primeiro, julgar depois
amar primeiro, educar depois
esquecer primeiro, aprender depois
libertar primeiro, ensinar depois
alimentar primeiro, cantar depois
possuir primeiro, contemplar depois
agir primeiro, julgar depois
navegar primeiro, aportar depois
viver primeiro, morrer depois"

Mário Quintana



 Escrito por Marcelo às 14h49
[   ] [ envie esta mensagem ]




Joaquim Ferreira

O "Rei", aliás, é tema da divertida coluna de hoje do Joaquim Ferreira dos Santos (O Globo). Para além da autocrítica ao jovem repórter sabichão, o colunista consegue tocar naquela que, creio, é a essência do sucesso do cantor, ao afirmar: "Ninguém flagrou melhor a dor patética de nossas enrascadas sentimentais, destrinchou ao dente as emoções encobertas pelos lençóis macios, quando os amantes se dão. Namorou no portão, cavalgou no motel. Não há um solavanco dessa deliciosa, pavorosa transamazônica esburacada que ele não tenha percorrido junto com a gente. Coitado de quem não ouviu pelo menos uma dessas canções românticas e não tenha percebido, murmurando baixinho, caraca, essa história é a minha." Abaixo, a íntegra do texto: 

"Brasa"

Joaquim Ferreira dos Santos

"Era Roberto Carlos em pessoa, mas eu nem aí. Jovens intelectuais não tremem diante dos ídolos. Era Roberto Carlos, e eu não tinha ouvido outra coisa durante bom tempo da adolescência. Podia aproveitar a oportunidade para ser-lhe grato, mas eu ainda não tinha idade para tanto. Era o rei na intimidade do seu apartamento na Urca, no final dos anos 70, e eu não estaria ali, repórter-da-“Veja”-sabichão, se não tivesse misturado nas internas da minha caixa-preta toda a teoria da comunicação do McLuhan com a genialidade simples daquelas canções que ele fez nos anos 60. Foi dos grandes.
Eu já tinha ouvido os versos sacudidos de Geraldo Pereira, as palavras curtinhas do Ronaldo Bôscoli e o nonsense de Lamartine “Inconstitucionalissimamente” Babo. Ao contrário dos colegas iluminados do colégio, achava que o texto da Jovem Guarda, crônicas bem-humoradas sobre o comportamento jovem, era tão bom quanto o melhor da MPB. Hoje, quando ouço o frescor que ainda pulsa daquele splish-splash dentro da orelha, comparo com os ponteios e disparadas mofados da música de protesto do mesmo período, e calo-me falsamente humilde. Eu sou terrível, vou te falar.
Era Roberto Carlos ali na outra poltrona da Urca se submetendo com ar de moço bom à minha sabatina reportarial , e eu, aos vinte e poucos anos, exemplo maior da frase de Nelson Rodrigues sobre a tragédia de se gastar a juventude com os jovens, eu não aproveitei para lhe ser genuflexo e agradecido. Pelo contrário. Apenas garoto, fui na arrogância dos hormônios. Petulante, casca-grossa. Mandei brasa, mora.
“Bicho”, perguntei, “por que você não muda esse repertório?”
Eu era jovem o suficiente para achar que sabia tudo. Mais. Sócio benemérito da Beneficência Portuguesa, na Glória, estava ali querendo dividir perspicácia juvenil e gentileza lusitana para servir na mesma pergunta esperta. A cantora Amália Rodrigues me ensinou, num raro fado alegre, que fica bem esta franqueza fica bem — e, coitado do cara, escalei Roberto para demonstrar. Eu era apenas um bobo querendo exibir pseudo-sabedoria musical. Roberto tinha atravessado os anos 70 com clara opção pela canção romântica, quase sempre derramando melancolia demais nos portões e botões da blusa.
Eu queria o Bob pop, mora?
Que ele continuasse as crônicas do broto do jacaré, as histórias em quadrinhos com o Brucutu e o Gênio. Atualizasse a cena setentista, impregnada pelo baixo-astral, para os sete cabeludos que topavam qualquer parada e, meu herói, Roberto fosse de novo um deles. Que se levantasse, enfim, de onde eu julgava estar, sentado fazia uma década à beira do caminho, e como nos bons tempos, lobo mau, negro gato, garoto papo-firme, a 120 por hora, tipo que não gosta de casamento, continuasse na contramão.
O Roberto Carlos dos anos 60, e eu só estou me lembrando disso porque acabou de sair uma caixa de CDs com os LPs que ele lançou no período, é um compositor equivalente ao Noel dos anos 30, ao Caymmi dos 40, ao Gonzagão dos 50, ao Milton dos 70 — e, recomendando antes que os e-mails de espanto sejam enviados para o editor do caderno, eu aproveito aqui para agradecer às simplificações do jornalismo, sem as quais essas comparações definitivas entre moedas tão dessemelhantes não seriam possíveis. Ciência exata é a vacina da Aids. Isso aqui é só rock and roll e jornalismo, mas eu gosto.
Chovia lá fora, a temperatura na Urca era propícia para a prática milloriana do livre pensar é só pensar, e ali estava eu, uns 15 anos depois de ter sido criado ao som do dono da casa, exercitando o esporte para cima do meu criador. Simples. Eu queria que o incêndio continuasse. Tinha tatuado na omoplata interna a palavra de ordem de um dos seus hits, “a brasa que agora eu vou mandar nem bombeiro pode apagar” — e queria saber o resto da história. Onde o incendiário estava guardando os fósforos?
Tempos depois eu aprenderia com meu analista que deveria ser gentil com todos e sincero só com quem merecesse, os muito íntimos. Achei, a minha estupidez não me deixava ver, que Roberto me era próximo. Fui monstruosamente sincero.
“Você mudou a MPB”, perguntei, “por que parou?”
Roberto Carlos, suburbano ginasial feito seus colegas da Jovem Guarda, traduziu a onda beatle fazendo o cargueiro de Liverpool passar por Maria da Graça e pegar por ali uns babilaques da cultura local. Eu morava algumas estações depois e, de calça Calhambeque, vi. Quando o iê-iê-iê desceu na estação, em 1965, ele era um cantor com voz breganasalada de Anisio Silva, chiquebaixinha feito a do Tito Madi e assanhada como a de um roqueiro que a História não registrou o nome, morto num pega da juventude transviada em Copacabana, numa noite de Pervitin. Foi como se uma bomba, o paiol de Deodoro, explodisse no ar —- e, no entanto, agora, final dos anos 70, RC parecia querer evitar confusão. Tinha sido o homem que matou o homem que matou o homem mau. Agora jogava na defesa. Pelas baleias, por Cristo, pelas gordinhas.
“Por quê?”, queria saber o jovem repórter de “Veja e leia”, o nome da revista na época.
Foi há muito tempo como se vê, e esta crônica só não é um quadro solto do “Senta que lá vem história”, do “Ra-tim-bum”, porque, além da caixa de CDs com seu pop genial, Roberto apresentou semana passada o especial de TV cheio daquelas canções românticas dos 70 — e eu aproveitei todos esses ganchos jornalísticos para dizer o seguinte. Chovia lá fora, como naquela canção que ele faria mais adiante, e Roberto Carlos, gentil para com todos que passassem pela Urca, ouvia as perguntas pitando um cachimbo. Sorria. Já tinha composto “Eles estão surdos”, na fase soul dos anos 60, e com razão percebia, pelo exemplo que se colocava à sua frente, que mais uma vez estava certo.
Ninguém flagrou melhor a dor patética de nossas enrascadas sentimentais, destrinchou ao dente as emoções encobertas pelos lençóis macios, quando os amantes se dão. Namorou no portão, cavalgou no motel. Não há um solavanco dessa deliciosa, pavorosa transamazônica esburacada que ele não tenha percorrido junto com a gente. Coitado de quem não ouviu pelo menos uma dessas canções românticas e não tenha percebido, murmurando baixinho, caraca, essa história é a minha.
Acho que já disse. Chovia lá fora. Roberto Carlos sorria e percebendo que o garoto em frente não estava em condições ainda de entender que amor era “o” assunto, foi de novo gentil com quem pedia ao artista para explicar a mágica. Por que você apagou a brasa e suavizou o rumo?
“Sei lá, bicho, sei lá.”



 Escrito por Marcelo às 13h49
[   ] [ envie esta mensagem ]




O "Rei"

Estava eu ontem à noite na casa da Rosana, amiga querida que comemorava seu aniversário, quando me vi atropelado por uma pergunta. Até aquele momento revezavam-se no som bons sambas com Beth Carvalho, João Nogueira e Clara Nunes, algum Luiz Melodia, um Geraldo Azevedo ali, uma Bethânia aqui... até que a aniversariante tomou conta do aparelho e colocou Roberto Carlos. A questão: será que a gente começa mesmo a gostar mais dele (do repertório antigo, é bom ressaltar) à medida que os anos passam? 



 Escrito por Marcelo às 13h38
[   ] [ envie esta mensagem ]




Sarau literário

A dramaturga Daniela Pereira de Carvalho e a escritora Ana Luiza Baesso promovem hoje, às 20h, no Teatro Café Pequeno, no Leblon, um sarau literário que encerra o ciclo de encontros de jovens autores realizados no local ao longo de 2004. Além das duas - e de mim -, Crib Tanaka, Antonia Pellegrino, Francisco Slade, Rodrigo Ielpo e Adilson Barcellos já têm presença confirmada, mas a noite pretende acolher quem mais tiver vontade de ousar leituras de textos próprios ou de referências. O Teatro Café Pequeno fica na Av. Ataulfo de Paiva, 269 e o evento é gratuito. Apareçam!



 Escrito por Marcelo às 13h08
[   ] [ envie esta mensagem ]




Os filmes do ano

Hoje enviei para a Associação de Críticos de Cinema do Rio de Janeiro minha lista particular com os melhores filmes de 2004. As produções abaixo arroladas entrarão na votação que elegerá oficialmente os "dez mais" da ACCRJ. Os eleitos farão parte de um programa retrospectivo no CCBB, com exibição e debates.

"Dogville"

"Os sonhadores"

"Encontros e desencontros"

"Brilho eterno de uma mente sem lembrança"

"O anti-herói americano"

"Valentin"

"Igual a tudo na vida"

"Whisky"

"As bicicletas de Belleville

"Lugares comuns"

"O abraço partido"

"Swimming Pool"

"O retorno"

"Prisioneiro da Grade de Ferro"

"Moça com brinco de pérola"

"Fala tu"

"Entreatos"



 Escrito por Marcelo às 11h01
[   ] [ envie esta mensagem ]




Canção para o domingo

"As vitrines"

Chico Buarque

"Eu te vejo sair por aí
Te avisei que a cidade era um vão
Dá tua mão
Olha pra mim
Não faz assim
Não vai lá não

Os letreiros a te colorir
Embaraçam a minha visão
Eu te vi suspirar de aflição
E sair da sessão, frouxa de rir

Já te vejo brincando, gostando de ser
Tua sombra a se multiplicar
Nos teus olhos também posso ver
As vitrines te vendo passar

Na galeria
Cada clarão
É como um dia depois de outro dia
Abrindo um salão
Passas em exposição
Passas sem ver teu vigia
Catando a poesia
Que entornas no chão"



 Escrito por Marcelo às 14h03
[   ] [ envie esta mensagem ]




Atenção

"Se te pareço noturna e imperfeita

Olha-me de novo. Porque esta noite

Olhei-me a mim, como se tu me olhasses.

E era como a água

Desejasse

Escapar de sua casa que é o rio

E deslizando apenas, nem tocar a margem.

Te olhei. E há tanto tempo

Entendo que sou terra. Há tanto tempo

Espero

Que o teu corpo de água mais fraterno

Se estenda sobre o meu. Pastor e nauta

Olha-me de novo. Com menos altivez.

E mais atento."

Hilda Hilst



 Escrito por Marcelo às 13h52
[   ] [ envie esta mensagem ]




Filipeta



 Escrito por Marcelo às 16h32
[   ] [ envie esta mensagem ]




Apenas um arabesco

"Fragilidade"

"Este verso, apenas um arabesco
em torno do elemento essencial - inatingível.
Fogem nuvens de verão, passam ares, navios, ondas,
e teu rosto é quase um espelho onde brinca o incerto movimento,
ai! já brincou, e tudo se fez imóvel, quantidades e quantidades
de sono se depositam sobre a terra esfacelada.
Não mais o desejo de explicar, e múltiplas palavras em feixe
subindo, e o espírito que escolhe, o olho que visita, a música
feita de depurações e depurações, a delicada modelagem
de um cristal de mil suspiros límpidos e frígidos: não mais
que um arabesco, apenas um arabesco
abraça as coisas, sem reduzi-las".

Carlos Drummond de Andrade



 Escrito por Marcelo às 14h52
[   ] [ envie esta mensagem ]




"Meus discos e livros"

Um primor a coluna do Dapi em O Globo de hoje, refletindo sobre a 'inutilidade' de vivermos rodeados (às vezes, como no meu caso, quase soterrados) por livros e discos que nem saberemos se teremos tempo um dia para ler e/ou ouvir. Por que não há coragem para nos desfazermos deles?

"Limites"

Arthur Dapieve

"Na tarde do dia 20 de outubro de 2003, uma segunda-feira, eu liguei para o Aldir Blanc a fim de dar a notícia da morte de Manuel Vázquez Montalbán, aos 64 anos. Tinha sido na véspera, de enfarto, no Aeroporto de Bangcoc, onde ele esperava um vôo de volta para a Espanha. Dois anos antes, o poeta da Muda conhecera o romancista policial de Barcelona, de quem era ávido leitor, durante um encontro no Copacabana Palace.
Liguei e atendeu-me a famosa secretária eletrônica da Rua Garibaldi. Deixei o recado, pesaroso. Na manhã seguinte, bem cedo, retornou-me o Aldir. Mari, sua mulher, tinha ouvido a mensagem e transmitido a má notícia. Ele queria se inteirar dos detalhes. Dei os que tinha, não muitos, desligamos. Continuei a tomar café, de olho na hora das aulas na PUC. Menos de cinco minutos depois, o telefone tocou de novo. Era o Aldir, claro.
— Já chorei pra cacete trancado no banheiro — disse. — Você leu “O quinteto de Buenos Aires”? “O profeta impuro”? “O estrangulador”? “O labirinto grego”?
Depois de minha envergonhada sucessão de negativas, não, eu nunca lera Manuel Vázquez Montalbán, Aldir disse uma das coisas mais sábias que já ouvi na vida.
— Pô, irmão... Se a gente não lê os livros do cara, a vida dele foi inútil.
Quase um ano depois dessa conversa, li uma coluna do Paulo Coelho aqui na revista do jornal. Ele contava que decidira manter por perto apenas uma biblioteca básica de 400 volumes, alguns por razões sentimentais, outros por constante releitura. Escrevia de um café, no lado francês dos Pirineus, a poucos quilômetros de sua casa, e louvava a internet por permitir o acesso a todos os volumes dos quais tinha se desfeito ou que nunca possuíra.
“Claro que continuo comprando livros — não existe meio eletrônico que consiga substituí-los”, prosseguia o escritor. “Mas assim que termino, deixo que ele viaje, dou para alguém, ou entrego em uma biblioteca pública. Minha intenção não é salvar florestas ou ser generoso: apenas creio que um livro tem um percurso próprio, e não pode ser condenado a ficar imóvel em uma estante.”
Coelho escrevia isso e lembrava-se vagamente de um poema de Borges, sempre o bom e velho Jorge Luiz quando pensamos em bibliotecas e caminhos que se bifurcam. Decidido a provar seu ponto, procurou os versos pelo computador, ao invés de ir buscá-los na estante de casa. Deu certo. Surgiu na sua tela o poema (chamado “Limites”, averigüei depois) do qual reproduziu alguns versos: “Há uma linha de Verlaine que nunca mais me lembrarei./ Há um espelho que já me viu pela última vez./ Há uma porta fechada até o final dos tempos./ Entre os livros de minha biblioteca/ Há algum que já não tornarei a abrir.”
Lembrei-me de outro Jorge, o Guinle. Certo dia, o bon vivant fez algumas contas e descobriu: já não tinha idade para voltar a escutar ao menos uma vez todos os LPs de jazz da sua lendária coleção. Vendeu-os todos, então, a um sebo no Centro da cidade e foi curtir o resto da vida (e a morte, como morreu bem) no Copacabana Palace, o local do encontro entre Vázquez Montalbán e o Aldir, olhe só como o círculo se fecha.
Juntei as lições de Aldir, Coelho e dos dois Jorges e decidi: minha biblioteca e minha discoteca terão o tamanho de minhas estantes. Não mais. Nem menos. Elas não são exatamente pequenas, mas decerto já têm, em suas prateleiras, um livro que não tornarei a abrir, um CD que não tornarei a ouvir. E, se isso não acontecer, como alertou o autor de “Gol anulado” e “Choro réquiem”, seus autores terão vivido em vão e sua arte terá sido inútil ao próximo. Como bibliófilo, melômano e escrevinhador, esta idéia me é apavorante.
É como naquela novela de Herman Melville, “Bartleby, o escrivão” (uma das edições na estante tem um prefácio de Borges; o círculo, o círculo), no qual o personagem-título desenvolve uma forma terminal de apatia depois de ter trabalhado na seção de cartas sem resposta. Livros não mais lidos, discos não mais ouvidos são cartas sem resposta.
Portanto, decidi que, nas prateleiras que já estiverem cheias, um item novo que realmente vale a pena substitui um item antigo que ou não agradou ou nunca foi sequer apreciado. Dou os livros, discos e DVDs a parentes, a amigos, a centros comunitários. Assim, escritores, músicos e cineastas estarão a salvo de um limbo pior que a morte física. E eu, a salvo de ficar emparedado por Edgar Allan Poe e Jorge Luiz Borges.
Foi o escritor argentino — na minha opinião, o mais completo do século que passou — quem estabeleceu bibliotecas e similares como metáforas privilegiadas da existência humana. São coleções que a gente constrói, nas quais acumula objetos, fatos e lembranças. Na vida, como nelas, as coisas ruins vão para a fileira de trás, longe dos olhos e do coração. Aceitar que as estantes são finitas é aceitar, serenamente, que a vida também é."



 Escrito por Marcelo às 14h39
[   ] [ envie esta mensagem ]




No set

Esta aqui, se eu fizer mesmo o set na festa, certamente estará dentro, numa sensacional gravação setentista do Stevie Wonder...

"For once in my life"

Stevie Wonder

"For once in my life I have someone who needs me
Someone I've needed so long
For once, unafraid, I can go where life leads me
And somehow I know I'll be strong

For once I can touch what my heart used to dream of
Long before I knew
Someone warm like you
Would make my dreams come true

For once in my life I won't let sorrow hurt me
Not like it hurt me before
For one, I have something I know won't desert me
I'm not alone anymore

For once, I can say, this is mine, you can't take it
As long as I know I have love, I can make it
For once in my life, I have someone who needs me"



 Escrito por Marcelo às 13h42
[   ] [ envie esta mensagem ]




Festa de hoje

Aquele que promete ser o ápice da semana de lançamento da revista Pararelos – a festa que rola hoje à noite– mudou de lugar. Ficou confirmado que vai haver a comemoração de fim-de-ano de uma academia na Rua Dias Ferreira e, para garantir a paz na festa dos escritores, os amigos paralelos resolveram levar mala e bagagem para o Teatro Dulcina (Rua Alcindo Guanabara 17, Centro - próximo ao Teatro Rival). O barulho começa às 23h30. Se tudo der certo (ou seja, eu conseguir me entender com a aparelhagem ou se não bater a natural timidez), estarei brincando como dj num dos sets. No repertório, de Clara Nunes a Hoodoo Gurus, de Farofa Carioca a Stevie Wonder, de Morrissey a Gal Costa, do Rappa ao Police...



 Escrito por Marcelo às 11h39
[   ] [ envie esta mensagem ]




Avenida São Sebastião

Escrevi esta letra, inspirado pela rua onde moro, para uma melodia sinuosa do amigo Rodrigo Zaidan. Virou canção. Lembrei dela hoje, quando descia a ladeira para vir trabalhar...

"Lua nas marés"

Rodrigo Zaidan / Marcelo Moutinho

"Enquanto subo a ladeira São Sebastião

Ouvindo as estrelas

Até quase vê-las

Meu olhos de giz

Espalham verniz

Pelas velhas margens da paisagem

Porque um doce mistério

Arranha febril

A pele da vida

Beleza extraída

Do sal, afeição,

Será ilusão?

Manhã que arde esperando a tarde

Afinal,

Você é como a lua nas marés

É a dobra imprecisa sobre os pés

E alegria que esquece tudo o mais

Natural,

Esse amor nasce assim já de viés

Como um barco que alarga o convés

Sem saber se ancora em novo cais

Madrigal,

Que fecunda poesia na aridez

Caandeeiro na proa das galés

É a paixão que me manda os seus sinais

Ou miragem de mar aberto nesse meu deserto..."



 Escrito por Marcelo às 11h01
[   ] [ envie esta mensagem ]




Borges

"Na parte inferior do degrau, à direita, vi uma pequena esfera tornassolada, de quase intolerável fulgor. Ao princípio pensei que fosse giratória; logo compreendi que esse movimento era uma ilusão produzida pelos vertiginosos espetáculos que encerrava. O diâmetro do Aleph seria de dois ou três centímetros, mas o espaço cósmico estava aí, sem diminuição de tamanho. Cada coisa (a lua do espelho, digamos) era infinitas coisas, porque eu claramente a via de todos os pontos do universo. Vi o populoso mar, vi a aurora e a tarde, vi as multidões da América, vi uma prateada teia de aranha no centro de uma negra pirâmide, vi um labirinto roto (era Londres), vi intermináveis olhos imediatos escrutando-se em mim como em um espelho, vi todos os espelhos do planeta e nenhum me refletiu, vi em um pátio da rua Soler os mesmos ladrilhos que há trinta anos vi no saguão de uma casa em Frey Bentos, vi ramos, neve, tabaco, gretas de metal, vapor d'água, vi convexos desertos equatoriais e cada um de seus grãos de areia, vi em Inverness uma mulher que não esquecerei, vi a violenta cabeleira, o altivo corpo, vi um câncer de mama, vi um círculo de terra seca em uma calçada, onde antes houve uma árvore, vi uma chácara de Adrogué, um exemplar da primeira versão inglesa de Plínio, a de Philemont Holland, vi a um só tempo cada letra de cada página (quando criança eu costumava maravilhar-me de que as letras de um volume fechado não se misturassem e perdessem no decurso da noite), vi a noite e o dia contemporâneo, vi um pôr-do-sol em Querétaro que parecia refletir a cor de uma rosa em Bengala, vi meu dormitório sem ninguém, vi em um gabinete de Alkmaar um globo terrestre entre dois espelhos que o multiplicavam sem fim, vi cavalos de crina como um remoinho, em uma praia do Mar Cáspio na aurora, vi a delicada ossatura de uma mano, vi os sobreviventes de uma batalha enviando cartões postais, vi em uma vitrine de Mirzapur um baralho espanhol, vi as sombras oblíquas de umas samambaias no solo de uma estufa, vi tigres, êmbolos, bisontes, marejadas e exércitos, vi todas as formigas que há na terra, vi um astrolábio persa, vi em uma gaveta da escrivaninha (e a letra me fez tremer) cartas obscenas, incríveis, precisas, que Beatriz havia dirigido a Carlos Argentino, vi um adorado monumento na Chacarita, vi a relíquia atroz do que deliciosamente havia sido Beatriz Viterbo, vi a circulação do meu próprio sangue, vi a engrenagem do amor e a modificação da morte, vi o Aleph, de todos os pontos, vi no Aleph a terra, vi minha cara e minhas vísceras, vi a sua cara, e senti vertigem e chorei, porque meus olhos haviam visto esse objeto secreto e conjetural, cujo nome os homens usurpam, mas que nenhum homem jamais olhou: o inconcebível universo."

Fragmento de O Aleph, de Jorge Luis Borges, um dos meus contos preferidos...



 Escrito por Marcelo às 10h40
[   ] [ envie esta mensagem ]




Canção feliz para um dia de sol esplendoroso

"Mais feliz"

Dé / Bebel Gilberto / Cazuza

"O nosso amor não vai parar de rolar
De fugir e seguir como um rio
Como uma pedra que divide o rio
Me diga coisas bonitas

O nosso amor não vai olhar para trás
Desencantar nem ser tema de livro
A vida inteira eu quis um verso simples
Prá tranformar o que eu digo

Rimas fáceis, calafrios
Fura o dedo, faz um pacto comigo
Um segundo seu no meu
Por um segundo mais feliz"



 Escrito por Marcelo às 11h32
[   ] [ envie esta mensagem ]




Mais Guimarães

"O correr da vida embrulha tudo, a vida é assim: esquenta e esfria, aperta e daí afrouxa, sossega e depois desinqueta.

O que ela quer da gente é coragem"

Guimarães Rosa



 Escrito por Marcelo às 11h25
[   ] [ envie esta mensagem ]




Blog do Lichote

O amigo Leonardo Lichote que escreve com competência sobre música no Globo On Line, para alegria dos seus leitores decidiu virar blogueiro. Cadê Teresa trata basicamente de música, mas promete estender seus posts a outros temas da cultura brasileira. Já coloquei entre os links indicados.



 Escrito por Marcelo às 11h22
[   ] [ envie esta mensagem ]




É hoje!

Estarei lá na Dantes prestigiar os amigos Flávio Izhaki, JP Cuenca, Crib Tanaka, Augusto Sales, Jaime Gonçalves, Antonia Pellegrino, Cecilia Giannetti, Pedro Sussekind, Mariel Reis, Mara Coradello e os outros novos talentos reunidos nesse importante projeto que é o Paralelos.  



 Escrito por Marcelo às 10h23
[   ] [ envie esta mensagem ]




Reafirmando

"Felicidade se acha é em horinhas de descuido".

Guimarães Rosa



 Escrito por Marcelo às 09h46
[   ] [ envie esta mensagem ]




Escrever sobre música

O No Mínimo traz interessante artigo do amigo Paulo Roberto Pires que, sob o pretexto de analisar o livro Três canções de Tom Jobim, tece interessantes considerações sobre os desafios de se escrever a respeito de música. "A música quase sempre derrota as palavras", anota Paulo, abrindo com chave-de-ouro o belo texto. Deu vontade de comprar o livro.

"Promessa de felicidade"

Paulo Roberto Pires

"A música quase sempre derrota as palavras. Escrever sobre o que se ouve e, justamente por isso, enfraquece ou destrói desafia os princípios mais elementares da representação e do raciocínio, é desde a origem uma tarefa destinada ao fracasso. Ainda mais se a música em questão é a de Antonio Carlos Jobim e seus diferentes níveis de complexidade e simplicidade, sinfonia disfarçada de canção popular e vice-versa, eterno esconde-esconde da forma traduzido na perfeição.
"Três canções de Tom Jobim" (Cosac e Naify) parte, portanto, desta desvantagem fundadora e fundamental, e justamente nela está sua beleza. Pois o que menos querem Lorenzo Mammi, Arthur Nestrovski e Luiz Tatit é explicar "Sabiá", "Águas de março" e "Gabriela", canções a que dedicam ensaios na edição pensada para marcar os dez anos da morte do maestro – que inclui ainda um CD com registro das músicas em voz e piano, de Ná Ozetti e André Mehmari.
É, portanto, um livro para se ouvir – e nisso não vai um mero jogo de palavras. A função mais ou menos didática de cada ensaio é precisamente abrir o ouvido do cidadão, fazer ecoar de formas diferentes três jóias da obra mais intricada e fascinante da música brasileira do século passado. Os três ensaístas (todos eles também músicos) partem de uma admiração emocionada por seu objeto e, por isso, não o violentam com a interpretação a qualquer preço; ao contrário, o afagam com sugestões diversas de leituras, feitas como variações jazzísticas de um tema. Que, aliás, complementam-se admiravelmente.
Na breve introdução ao "Cancioneiro Jobim" (Casa da Palavra, 2000), Lorenzo Mammi já tinha demonstrado o quanto um crítico pode contribuir à obra de um músico. Sua rara e surpreendente sensibilidade a Jobim, demonstrada ali, repete-se na leitura proposta a "Sabiá", canção de 1968 que, dentre outras divisões na carreira de Tom, marca a primeira parceria com Chico Buarque de Hollanda. Ali, observa Mammi, o compositor rompe definitiva e irreversivelmente com a afetividade típica da bossa nova, a suavidade da dor. O exílio referido na canção referenciada em Gonçalves Dias é radical, não acena com a possibilidade da volta, mostra que só é possível deitar sob a "palmeira que já não há".
Neste sentido, "Sabiá" é, argumenta Mammi, prima-irmã das duríssimas "Pois é" ("Fica o dito e o redito por não dito/ E é difícil dizer que foi bonito/ É inútil cantar o que perdi") e "Retrato em branco e preto" ("Já conheço os passos dessa estrada/ Sei que não vai dar em nada"), ácidas constatações do fim – de um amor, do sentido, do desejo. "Sem a crise de que ‘Sabiá’ é a expressão mais dramática", escreve o ensaísta, "a bossa nova corria o risco de se tornar, como se tornou por meio de mãos menos sensíveis, música de elevador."
E aqui vale repetir o saque fundamental de Lorenzo Mammi: a bossa nova, em sua expressão mais essencial, está longe de ser um enfadonho desfilar de barquinhos ou revezamento de tardinhas; é, ao contrário, a sábia entrega da música ao tempo, que escorre, à beira-mar ou não, com beleza e melancolia. Este tempo, fundamentalmente inútil, opõe-se de alguma forma ao jazz, expressão de uma espécie de trabalho contra o tempo, que desafia o tempo. Quando a bossa transforma-se em muzak, em fundo musical, é porque quebra-se inevitavelmente este princípio fundador – "Nada ilustra tão bem a transformação do tempo indeterminado e afetivo da bossa nova no tempo industrial da música norte-americana como a versão em inglês de ‘Garota de Ipanema’" , escreve.
Depois dos geniais discos americanos da virada das décadas de 1960 para 1970 – "Wave", "Tide" e "Stone flower" – Tom vai reencontrar este tempo essencial em "Águas de março", no dizer de Chico Buarque "o samba mais bonito do mundo", juízo que Arthur Nestrovski transformou em título de seu ensaio. Obra-prima jobiniana na integração de letra e música, é a canção que sintetiza melhor o espírito de seu compositor: homem e natureza enfrentam-se, afagam-se, agridem-se e complementam-se. Nas palavras precisas de Nestrovski: "Tom Jobim aqui virou o senhor da vida: tomou a morte nas mãos e transformou em água (...) O bem-estar do todo é infinitamente maior do que a alegria ou a miséria das partes. Chega a ser difícil assimilar a força dos contrastes, quando o sim é tão forte por dentro".
O que vale para "Águas de março" vale, a meu ver, para a raiz da obra de Tom Jobim, o tempero perfeito da beleza pela melancolia, vacina para a pieguice e a estupidez, um pessimismo bem dosado que afirma, ao mesmo tempo, impossibilidade e "promessa de vida no seu coração". É uma sabedoria meditada nas paisagens cariocas, na própria síntese da cada vez mais difícil tarefa de viver no Rio de Janeiro, imprensado entre o horror e a beleza estonteantes. Não é do contraste que se sofre, mas da unidade profunda dos contrários, que maravilha e dói como a vida vivida com entrega.
"Gabrielizar a vida", de Luiz Tatit, é, de certa forma, uma conclusão lógica para os textos que abrem a edição pontuada por desenhos de Tom. Ao analisar a suíte "Gabriela" – só disponível na íntegra no disco que acompanha o livro e também em "Passarim" – Tatit mostra que, nos alterados movimentos de aproximação e repulsa que ligam a morena criada por Jorge Amado e o turco Nacib, está a receita da vitalidade, do amor e da paixão que podem e devem embrenhar-se nos novelos das convenções sociais e morais. É um tempo musical ralentado e acelerado, que desta forma se insurge contra as diferenças para envolvê-las amorosamente.
Se é que há uma receita do viver bem e da satisfação, esta é a "gabrielização", a vivência amorosa – e barra-pesada – de todas as dicotomias. Seu acúmulo faz retesar o músculo da experiência. Ou, no caso de um gênio como Antonio Carlos Jobim, produz a beleza em seu estado mais cintilante e, o que é melhor, possível."



 Escrito por Marcelo às 15h51
[   ] [ envie esta mensagem ]




Eugénio

 

"Espera"

 

Eugénio de Andrade

 

"Horas, horas sem fim,

graves profundas,

esperarei por ti

até que todas as coisas sejam mudas.

Até que uma pedra irrompa

E floresça.

Até que um pássaro me saia da garganta

E no silêncio desapareça"



 Escrito por Marcelo às 10h27
[   ] [ envie esta mensagem ]




Adriana Lisboa

Ontem tive o prazer de rever a amiga Adriana Lisboa, no lançamento de Caligrafias. Tanto na forma, quanto no conteúdo, o novo livro é de uma delicadeza que se confunde com o estilo da própria autora. São pequenos fragmentos, ilustrados a bico de pena por Gianguido Bonfanti. Fragmentos como este, abaixo:

"Tristeza"

Adriana Lisboa

"Ela desce os degraus estranhos e chega à sala estranha onde todas as portas estão trancadas e todas as janelas estão fechadas. Gira um ferrolho, sai, senta-se no chão com o corpo apoiado numa das colunas da varanda. É tarde, mas as nuvens clareiam o céu noturno e deixam tudo pálido e opaco. O céu é imenso e as mangueiras são negras. Chove tão fino que os pingos sobre seus pés nus parecem suaves picadas de agulhas. Um risco alaranjado corre o céu e explode em mil centelhas, sem fazer ruído.

Em noites assim, até os fogos de artifício são silenciosos".



 Escrito por Marcelo às 09h26
[   ] [ envie esta mensagem ]




Ouvindo

Você tá no trabalho, meio desanimado, e então o rádio te sopra isso...

"Drão"

Giberto Gil

"Drão
O amor da gente é como um grão
Uma semente de ilusão
Tem que morrer pra germinar
Plantar nalgum lugar
Ressuscitar no chão
Nossa semeadura
Quem poderá fazer
Aquele amor morrer!
Nossa caminhadura
Dura caminhada
Pela estrada escura

Drão
Não pense na separação
Não despedace o coração
O verdadeiro amor é vão
Estende-se, infinito
Imenso monolito
Nossa arquitetura
Quem poderá fazer
Aquele amor morrer!
Nossa caminha dura
Cama de tatame
Pela vida afora

Drão
Os meninos são todos sãos
Os pecados são todos meus
Deus sabe a minha confissão
Não há o que perdoar
Por isso mesmo é que há
De haver mais compaixão
Quem poderá fazer
Aquele amor morrer
Se o amor é como um grão!
Morrenasce, trigo
Vivemorre, pão"



 Escrito por Marcelo às 18h16
[   ] [ envie esta mensagem ]




Tom e Newton

Lembrando, ainda que atrasadamente, o Tom - gênio da raça cuja morte completou dez anos na semana passada -, esta parceria dele com o Newton Mendonça...

"Caminhos Cruzados"

Tom Jobim/ Newton Mendonça

"Quando um coração que está cansado de sofrer
Encontra um coração também cansado de sofrer
É tempo de se pensar
Que o amor pode de repente chegar
Quando existe alguém que tem saudade de alguém
E esse outro alguém não entender
Deixe esse novo amor chegar
Mesmo que depois
Seja imprescindível chorar
Que tola fui eu
Que em vão tentei raciocinar
Nas coisas do amor
Que ninguém pode explicar
Bem, nós dois vamos tentar
Só um novo amor pode a saudade apagar"



 Escrito por Marcelo às 11h36
[   ] [ envie esta mensagem ]




Espera

"Se cada dia cai"

"Se cada dia cai, dentro de cada noite,
há um poço
onde a claridade está presa.

há que sentar-se na beira
do poço da sombra
e pescar luz caída
com paciência."

Pablo Neruda



 Escrito por Marcelo às 11h14
[   ] [ envie esta mensagem ]




Paralelos

Três dias de festa marcarão o aguardado lançamento da revista Paralelos, que reúne contos de muitos amigos e é a frutificação do importante trabalho realizado pelo pessoal do site. As atividades começam na próxima quarta e só terminam na sexta, num baile em plena Dias Ferreira no qual, andam dizendo por aí, este que vos escreve atuará com dj durante alguns minutos. Segue o programa completo:

Dia 15 - A partir das 20h, 18 autores autografam em mesas de escritório personalizadas ao longo da calçada entre a rua Fernando Azevedo e a Dantes Livraria. Rola uma espécie de cortesia no chope Devassa.

Dia 16 - Programação Paralela - Conversa de botequim e leitura com os escritores paralelos: Antonia Pellegrino, Augusto Sales, Crib Tanaka, Francisco Slade, Mariel Reis, Pedro Sussekind, Paloma Vidal e Simone Paterman e outros. O ateliê culinário estará vendendo um PF de botequim por R$ 10,00. O som fica por conta de David Cole e Lucas Santtana (Sensorial Sistema de Som): som dub ambiente para o recital aberto.

Dia 17 - Festa na rua - Programação Paralela - (a Rua Dias Ferreira estará fechada): som com DJs Paralelos + Projeto « Na Tábua » com o escritor e agitador cultural gaúcho Paulo Scott (Ainda Orangotangos, Livros do Mal). Elenco Djs: Cecília Giannetti, JP Cuenca, Gustones, Salgueirinho, Jaime, Flávio e Sales. Convidados especiais: Paulo Scott, Paulo Roberto Pires, Marcelo Moutinho e outros.



 Escrito por Marcelo às 10h17
[   ] [ envie esta mensagem ]




Festival de Curtas

Foram dez dias de sessões, com mais de 60 filmes, e a constatação de que a seleção deveria ser mais rigorosa, tal a profusão de sociologismos e egotrips caseiras de nossos jovens diretores. Até que ontem, numa feijoada agradabilíssima no Parque das Ruínas, foram entregues os prêmios do Festival Internacional do Curta do Rio de Janeiro. O júri da Associação de Críticos de Cinema do Rio de Janeiro, composto por mim e pelos amigos Ricardo Cota, Daniel Schenker e João Marcelo F. de Mattos, concedeu duas láureas. O prêmio principal ficou com Deriv