Fragmentos de um espelho partido

Ontem mesmo estava comentando com o Cuenca sobre este conto, que faz parte do meu primeiro livro e, entre os tantos textos que o compõem, talvez seja o único que voltaria a publicar hoje...

Fragmentos de um espelho partido

Marcelo Moutinho

Aqueles óculos de metal fosco e aros finos repousavam sobre a mesa como a mais festejada certeza repousa sobre dúvidas. Olhei para eles assim que entrei na sala, antes de investigar as paredes, mexer nas roupas, abrir os armários, revirar as gavetas, enfim, penetrar sem maiores licenças na intimidade de quem já não podia me negar nada. Foi uma espécie de levante a imagem dos óculos em meio a tantos objetos. A tarefa desde o começo me parecera péssima: encontrar uma vela com a qual ela se manifestara certo dia querer ter junto a si quando morresse.
Ela morreu, mesmo. E lá fui eu, encarregado pelos demais de executar o trabalho, a me deparar com a arrumação de seu apartamento, a derradeira arrumação, os últimos movimentos. A primeira visão logo ao entrar foram aqueles óculos, deixados sobre a mesinha preta da sala, abertos, sem proteção, como quem sabe da volta. Pensei sobre a inutilidade destas sapiências atrozes. Descansava ali como que esperasse a dona, a oportunidade de se sentir útil, apoiando-se em seu nariz e lhe oferecendo uma certa nitidez das coisas. Olhei para a mesinha e de repente me peguei apalpando os meus óculos; senti-os na ponta dos dedos, talvez na busca frenética de uma prova material da existência, da minha existência. Esbarrou talvez um medo de estar longe também, um dia, dos meus.
A utilidade daqueles óculos esquecidos na sala, ávidos por sua função, por sua dona, e todos os pertences dela, era como se desaparecesse. Como se eles morressem e estivessem como o corpo dela, a espera de um enterro ritual. Só serviriam agora como referência tímida à pessoa, mais ou menos como fotografias, ou situações marejadas pelo tempo e pela memória subjetiva e paradoxal dos outros. Se durante aquela visita desagradável em busca da vela eles não estivessem mais espalhados pela casa eu nada diria; provavelmente nem o notasse, já que sequer espectro seriam, até por não terem mais confessada a sua materialidade. Em nossa imaginação poderiam recolher-se em papéis fundamentais, funcionar como amparo às nossas saudades dormidas, mas então não se assumiriam como tal, e sim como um englobamento deles mesmos somados à nossa relação com eles - e com o morto. Fragmentos de olhares passados, irremediavelmente alienados à nossas mudanças.
Ou fragmentos de espelhos, pois assim como o morto levou junto a ele a sua verdade sobre as suas coisas - e as enterrou consigo - elas quando pairam por nossa imaginação já não são as mesmas. E nós também morremos, diariamente, absorvendo objetos e despachando outros, que já não retornam senão sob a condição de uma tarde saudosa. Falar sobre as diversas mortes, os espelhos que se quebram, os olhares que se dissimulam sob lentes recém-compradas, mesmo este falar certamente se dá através dos óculos que me permitem, neste momento, digitar as letras no teclado do computador. São linhas frágeis estas, frases e palavras frágeis. Correspondem tão somente a um sentimento localizado, entre tantos outros que com ele convivem e que chegarão com as mudanças de grau, com a miopia progressiva da idade.
Objetos que saem e entram em nossas listas de prioridade, num revezamento múltiplo em que não há espaço para todos. Há lugar, é verdade, para as lembranças, mas estas não se definem na forma das coisas em si, mas na forma que a elas destinamos na fertilidade da memória, na ficção da história recontada. Nossas mortes enterram e elegem objetos e a dor da perda é por vezes grande, por outras nenhuma, porém sempre suportável; caso contrário seria preciso matar-se por completo e deixar aos demais o jugo sobre tudo o que é nosso. As linhas que escrevo, elas mesmas quebram espelhos, me desmontam, me assassinam como se a própria literatura fosse para seus operadores um suicídio constante e inevitável.
Por isso aqueles óculos sobre a mesa, que num primeiro momento me arrebataram como a inutilidade da certeza da volta, o clichê do desespero da finitude, ou mesmo o último fotograma bem centrado e significativo de uma vida trágica, se transformaram na imagem possível de um sentido. Não sei onde eles foram parar. Talvez no lixo que consome as coisas efêmeras, talvez em alguma gaveta nostálgica de um parente, reunindo resquícios de uma vida partida. Eles continuam esperando. Não tem como saber da morte, exceto com a sua própria morte; não puderam ser avisados de que os olhos a quem serviam já não vêem. E nem mesmo aqueles olhos que, também apoiados em óculos e à procura de uma vela nunca encontrada, os miraram numa manhã arredia, com expressão de susto e desânimo, de temor e reverência, já não lhes dispensam tanta atenção, porque estes, hoje, também já morreram.



 Escrito por Marcelo às 17h11
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Na madrugada

 

A voz límpida do Renato Braz atravessou minha madrugada, tão povoada de pensamentos, considerações, expectativas, subjetividades. Quilombo é mesmo um discaço, e mantém o alto nível dos três cds anteriores (apesar de todas as críticas quanto à frieza do cantor). O sono foi bom.

"Quero ficar com você"

Caetano Veloso

"Quero ficar com você
E é tão fundo
Que eu posso dizer
Que o fim do mundo
Não vai chegar mais

Quero ficar com você
E é glória do saber querer
Com longa história
Pra frente e pra trás

Não quero que o nosso amor
Seja um buraco no chão
Mas sinal da trajetória
Da vida e da canção
Marca de queda e vitória
Na palma da mão
Sombra, memória e porvir do coração

Não deixe que o nosso amor
Seja um corisco no caos
Mas passos da liberdade
Pisando seus degraus
Feitos de momentos bons
E de momentos maus
De descobertas, de ventos, velas, naus"



 Escrito por Marcelo às 14h11
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Cenas do Aldir

Bar Lagoa ainda razoavelmente cheio, por volta das 23h de ontem. Os insistentes tomavam as saideiras após o lançamento de Meus prezados canalhas, livro de contos de Aldir Blanc, Ruy Castro, Carlos Heitor Cony, Marcelo Madureira, entre outros autores. Na minha mesa, alguns amigos escritores e jornalistas. Na mesa em frente, Ruy, Aldir e mais um pessoal. Tudo corria tranqüilo até que, por causa de um papel preso, o ventilador começa a rugir. Um barulho chato à beça. Primeiro, o Aldir fez uma expressão contrariada. Não se passaram nem cinco minutos até que se levantou, pegou a bolsa da mulher e deu com ela no ventilador, que ficou totalmente destruído. Feito o trabalho, sob os olhares perplexos do garçons, recebeu os aplausos de todos os presentes - e voltou para a mesa.

Cena de uma noite cheia de risadas e de bom-papo.



 Escrito por Marcelo às 10h40
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Tempo

"Tempo é a vida de morte: imperfeição"

Guimarães Rosa


P.S. O quadro é A persistência da memória, de Salvador Dalí



 Escrito por Marcelo às 17h55
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Nicolas Krassik

O Nicolas Krassik manda avisar que amanhã fará show gratuito na Modern Sound. O repertório estará centrado nas músicas de seu primeiro disco, que é bom pacas. A apresentação contará ainda com a participação especialíssima da voz mais bonita da Lapa: a querida Nilze Carvalho. Às 19h30.



 Escrito por Marcelo às 16h16
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Quatro versos

Como diriam os grandes Aldir Blanc e Moacyr Luz, na canção que mais gosto entre as compostas pela dupla, meus dias atualmente encerram-se em quatro versos:

"Eu sou rolimã numa ladeira

Não tenho o vício da ilusão

Hoje vejo as coisas como são

Estrela é só mais um incêndio na escuridão"


Aldir e Moacyr com Doisneau: tenho que admitir que ando meio doido...



 Escrito por Marcelo às 13h24
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Esquina do André

Mais um link: hoje entre os blogs indicados incluo o Esquina do André, mantido pelo André (é claro, não?), amigo freqüentador do Bip, das melhores rodas e, além de tudo, admirador de música, de literatura e arte de qualidade. Tudo isso está lá no blog dele, com muita sofisticação.

 Escrito por Marcelo às 13h01
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Canção de hoje

"Times like these"

Jack Jonhson

"In times like these
in times like those
what will be will be
and so it goes
and it always goes on and on
and on and on it goes

And theres always been laughing, crying, birth, and dying
boys and girls with hearts that take and give and break
and heal and grow and recreate and raise and nurture
but then hurt from time to times like these
and times like those
what will be will be
and so it goes

And there will always be stop and go and fast and slow
action, reaction, sticks and stones and broken bones
those for peace and those for war
and god bless these ones not those ones
but these ones made times like these
and times like those
what will be will be
and so it goes
and it always goes on and on
and on and on it goes

But somehow i know it wont be the same
somehow i know itll never be the same"


P.S. O quadro é A dança, de Matisse...



 Escrito por Marcelo às 12h43
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Whisky

Não deixem de ver Whisky, interessante produção uruguaia dirigida pela dupla Juan Pablo Rebella e Pablo Stoll. O filme é um verdadeiro inventário sobre a rotina e a solidão (ainda que partilhada) e, como bem observou o amigo Janot, lembra um pouco o lancinante Encontros e desencontros, de Sopfia Coppola. Lento, delicado e algo melancólico, Whisky só peca pelo final, digamos, demasiadamente em aberto.



 Escrito por Marcelo às 12h38
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Messenger

Para quem gosta de conversa: o Pentimento já está no Messenger. O email é blogpentimento@hotmail.com.



 Escrito por Marcelo às 12h14
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HR em O Globo

Já em O Globo de hoje quem brilha é o amigo Henrique Rodrigues. Ele é protagonista do texto do colunista Gavatá (caderno Informáticaetc), que trata de escritores-blogueiros. Um detalhe: a matéria é acompanhada de uma foto da Juli. Segue o texto, acompanhado de um soneto do próprio HR:

"Perfil de um blogueiro literato"

"Henrique Rodrigues é carioca, escritor saindo do forno e coordenador de projetos na área de literatura do Sesc Nacional. Quando não está acompanhando feiras de livros pelo interior do país ou capacitando contadores de histórias, utiliza o blog para recreação de linguagem. Desde 2003, lança mão do seu blog Fullbag (www.fullbag.blogger. com.br) para exercícios de escrita literária, mas diz não ter pretensão de levá-lo muito a sério. Representante de uma geração de escritores descobertos no mundo virtual, usa o blog pra escrever sobretudo humorismo, incluindo textos em prosa e verso: paródias, microcontos, crônicas e frases soltas.
— Não sei colocar links ou mudar planos de fundo, só faço o básico para escrever no blog, mas é suficiente para o que me proponho — revela o autor, que escreve na internet a partir de uma máxima humorístico-filosófica: “O homem é o bobo do homem”.
Fã (ou seguidor) de Millôr Fernandes, sobre cuja obra defendeu dissertação de mestrado na PUC-Rio, o blogueiro vê na internet um espaço potencial para disseminação de uma visão crítica do mundo por meio do humor:
— Se por um lado há os excessos, como spams de piadas que entopem as caixas de correio, por outro os meios virtuais permitem que os indivíduos manifestem a propensão humana para o riso de forma muito mais veloz.
Paralelamente à manutenção do blog, Henrique está preparando um romance e é um dos co-autores do livro “Prosas cariocas” (Editora Casa da Palavra), que será relançado no próximo dia 8 na livraria Nobel de Jacarepaguá, bairro representado pelo seu conto. Boa parte dos escritores presentes na coletânea é oriunda da blogsfera, onde escrevem literatura, dão dicas culturais e dialogam entre si e com seus leitores, como Flavio Izakhi ( www.bohemias.blogspot.com ), Miguel Conde ( www.olivetti22.blogger.com.br ), Ana Beatriz Guerra ( www.segundavista.blogger.com.br ), Mara Coradello ( www.cadernobranco.blogger.com.br ) e Marcelo Moutinho ( www.pentimento.zip.net ).
Em seu blog Henrique nos dá uma amostra de sua produção “de recreio”:

‘Soneto ao blogue’

Palavra é bem volátil se falada;

Um pouco menos quando for escrita.

O blogue é mais um espaço que explicita

Desejo de se ter obra editada

Por uns, como um rascunho pós-moderno.

A outros é um diário: compartilha

Segredos, que navegam de uma ilha

Ao mar, não se insulando num caderno.

É meio e fim e leve e denso. O blogue,

Por ter essa função ultramarina,

É o barco e ao mesmo tempo o próprio cais.

E então peço ao leitor que não se afogue,

Pois mesmo este soneto tem a sina

De se perder nos mares digitais."



 Escrito por Marcelo às 12h02
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Foto

Acompanhando a resenha da Beatriz Rezende sobre o Prosas cariocas, o Idéias publicou a ótima foto feita pela Vivian Ribeiro na Cinelândia, com 15 dos 17 autores do livro. Agradecendo publicamente a ela pela colaboração simpática e importante, republico a imagem aqui.



 Escrito por Marcelo às 11h56
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Safra 21

  

'Safra 21' mostra a cara

Coleção da Rocco confirma interesse do mercado editorial por jovens autores

Marcelo Moutinho

A argamassa que dá liga ao conceito de Geração 00 distingue-se mais pelo recorte meramente temporal do que por uma identificação precisa de traços estilísticos comuns entre os jovens autores que seriam seus agentes. Pelo contrário, o pluralismo e a multifaceta é que dão o tom de suas narrativas, que se agrupam tão-somente na evidente influência do cinema, da TV, da música e da explosão da tecnologia, cuja ponta mais visível é a internet. A rede, aliás, possibilita uma intensa troca de experiências entre os novos escritores, cujos trabalhos variam do lirismo mais derramado a uma crueza extremada que por vezes paradoxalmente desqualifica o ansiado sotaque realista. De qualquer modo, são eles que representam ''as flores do bem e do mal do florilégio de uma época'', atualizando a assertiva de Nelson de Oliveira sobre os autores que despontaram na década de 90.

Tal florilégio começa felizmente a despontar para além dos guetos virtuais. No próximo mês, chegará às livrarias pela editora Agir a primeira edição da revista Paralelos, materializando parte da produção publicada no site (www.paralelos.org), ao contemplar jovens promissores como João Paulo Cuenca, Flávio Izhaki, Mara Coradello e Antonia Pellegrino. Em trincheira semelhante, a Editora Rocco acaba de lançar a coleção Safra 21, cuja proposta é ''estabelecer uma conexão entre talentosos autores, quase todos inéditos'' e não se limitará a nomes nacionais.

O selo é inaugurado com três livros: Pessoas do século passado, de Dodô Azevedo; Cassino Hotel, de André Takeda; e Cerco, de Daniel Frazão. A uni-los, uma feição coalhada de referências pop, que não chega a uniformizar demasiadamente a coleção, mas arrisca-se a oferecer ao leitor uma perspectiva um tanto fechada do que venha a configurar a tal ''Safra 21''. Até porque, embora variem as denominações, mais uma vez sob o aspecto geracional, trata-se de um grupo afim: escritores iniciantes no ofício que vêm, com suor e inspiração, levando adiante o bastão da literatura brasileira.

Feito o reparo, vamos aos livros propriamente ditos e a seus autores. Pessoas do século passado é um trabalho irremediavelmente ligado à festa (onde Dodô atua como DJ) e ao site homônimos (www.pessoasdoseculopassado.com.br). Fragmentário e diagramado com base em colagens, o livro compõe-se de mensagens trocadas via internet por personagens ficcionais, que procuram dar conta do que representou, em suas visões particulares, o século 20, e dos desafios que ora se apresentam - da macronarrativa da política ao microcosmo do amor.

Personagens como a dentista Cristiana Gernalt, que relata: ''Aí é sábado de chuva, vocês dois têm a tarde livre e resolvem passá-la namorando debaixo do edredom. Ele diz, Olha, preciso deixar o telefone ligado porque estou esperando uma ligação de uns importantes suecos. Ela conclui, com razão, que ele está ali (no edredom) e lá (no escritório) ao mesmo tempo - uma transcendência borra-botas, uma necessidade otária de transcendência''. A leve amargura convive harmoniosamente com o otimismo cândido que no geral o livro suscita, sugerindo que o fim do século mira para um futuro melhor.

Inspirado pelo Jogo da amarelinha, de Cortázar, Dodô aposta na não-linearidade, e relega ao leitor a montagem de seu próprio livro, de acordo com a seqüência desejada. Ao centrar-se no hipertextual, Pessoas do século passado revela um esforço formal para refletir o tema que o autor explora sob ótica acadêmica no curso de Mestrado em Lingüística na PUC-Rio. ''Investigo a hipertextualidade antes do advento da internet, em obras como o Dom Quixote, de Cervantes, e a Bíblia Glosada, de São Tomás de Aquino'', explica ele.

Por isso, o livro estende seus tentáculos para além do volume impresso. No site, foi aberto um espaço onde os leitores podem contribuir com suas observações sobre o século que se foi. E ainda este ano chegará às lojas um CD com canções compostas especialmente para complementar a obra, num diálogo lítero-musical. ''Transformamos o livro em música, gravada por uma banda também chamada Pessoas do século passado. E através do site aumentaremos o número de personagens e de 'autores', pois cada leitor, ao registrar seu depoimento, estará escrevendo uma nova página'', afirma o autor.

Assim como Dodô, Daniel Frazão estréia com o título publicado pela Rocco. Cerco centra seu enredo num grupo de adolescentes de uma cidade interiorana que, sem maiores razões, decidem matar os que os circulam. A história, em si cinematográfica, remete a fatos como o massacre de Columbine, procurando expor a falta de horizontes da juventude pós-utópica. Frazão pondera que ''não se inspirou em nenhuma notícia particularmente'', mas admite que sua investida literária alimenta-se de um sentimento de vazio, de secura, compartilhado por boa parte de sua geração. ''Nossa cultura está banalizada, nossa sociedade está banalizada. Com a violência, não poderia ser diferente. Creio que a violência no livro não está nas cenas de assassinato, mas na total falta de esperança e de qualquer plano para o futuro. Por parte tanto dos jovens, quanto dos adultos'', salienta ele.

André Takeda é o único não-estreante da trinca. Já havia obtido alguma repercussão com o romance Clube dos corações solitários (Conrad, 2002), escrito despretensiosamente via internet. Em Cassino Hotel, Takeda apura sua narrativa, não raro comparada à do inglês Nick Hornby. O livro conta a história de um guitarrista de rock às voltas com a fama e uma imensa crise existencial. ''A areia úmida da praia, envolvendo os meus pés com pequenos e gelados grãos, transporta meu corpo para os meus vinte e poucos anos, quando o sentimento de ficar mais velho não trazia consigo a tristeza do que deixara de fazer'', anota em certo momento o narrador imaginado por Takeda, em um dos tantos parágrafos nos quais fica patente que, se manteve o foco na linguagem jovial e pouco empolada, o autor dourou com tonalidades ainda mais líricas, confessionais e subjetivas o seu texto.

Takeda editou, até pouco mais de um ano, a revista virtual TXT Magazine, onde foram publicados contos de mais de cem escritores da nova geração, entre eles Daniel Pelizzari, Clarah Averbuck e Ronaldo Bressane. A experiência com o site concedeu-lhe um olhar privilegiado sobre a produção contemporânea, que resiste em chamar de ''geração''. ''Não entro em discussões sobre 'geração'. Sempre existiram novas gerações. Ocorre que hoje a publicação tornou-se mais fácil'', argumenta, apontando aquele que será o xis da questão a partir de agora, com o interesse das editoras e a conseqüente chegada ao mercado de dezenas e dezenas de novos autores: ''Precisamos saber se há leitores''.

A resposta, então, está com vocês.

*Marcelo Moutinho é autor de Memória dos barcos e co-organizador de Prosas cariocas



 Escrito por Marcelo às 11h45
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No Idéias

Está muito boa a edição do suplemento Idéas (Jornal do Brasil) de sábado passado. A amiga Paula Barcellos acertou em cheio ao juntar num mesmo caderno resenhas de Prosas cariocas e de 25 mulheres que estão fazendo a nova literatura brasileira, matéria sobre da nova coleção da Rocco (texto que eu assino) e entrevista com os professores Italo Moriconi e Flávio Carneiro, refletindo sobre a produção contemporânea. Destoa no suplemento apenas o artigo cheio de defensivas do Marcelino Freire, a respeito do Itaú Cultural. Sinceramente, não entendi. Para os que não leram o Idéias, vou publicarminha matéria no próximo post.



 Escrito por Marcelo às 11h41
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Canção de sexta

Esta é a canção de sexta-feira desta semana tão musical e de lua cheia. A partir de segunda, o Pentimento deve voltar ao seu estilo normal: mais informação/opinião, e menos subjetividade...

"Luz e mistério"

Beto Guedes e Caetano Veloso

"Oh! Meu grande bem
Pudesse eu ver a estrada
Pudesse eu Ter
A rota certa que levasse até
Dentro de ti
Oh! meu grande bem
Só vejo pistas falsas
É sempre assim
Cada picada aberta me tem mais
Fechado em mim

És um luar
Ao mesmo tempo luz e mistério
Como encontrar
A chave desse teu riso sério

Doçura de luz
Amargo a sombra escura
Procuro em vão
Banhar-me em ti
E poder decifrar teu coração

És um luar
Ao mesmo tempo luz e mistério
Como encontrar
A chave desse teu riso sério
O grande mistério, meu bem, doce luz
Abrir as portas desse império teu
E ser feliz"



 Escrito por Marcelo às 16h05
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I Chope Não-Oficial

Repetindo a convocação feita pelo amigo Lucas Porto: após as duas versões "oficiais", amanhã será realizado o I Chope Não-Oficial dos Blogueiros, encontro totalmente dedicado a assuntos aleatórios. Os palestrantes interessados deverão comparecer ao Bar Getúlio, às 18h.

P.S. O evento é aberto para quem não tem blog, mas é visitante freqüente...



 Escrito por Marcelo às 13h49
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Doisneau e Drummond

"Se procurar bem, você acaba encontrando

Não a explicação (duvidosa) da vida,

Mas a poesia (inexplicável) da vida"


Texto de Carlos Drummond de Andrade. Foto: a clássica O beijo, do grande Robert Doisneau...



 Escrito por Marcelo às 13h18
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Tiradentes

 

E Tiradentes? Bem, a viagem que eu e Flávio Izhaki fizemos foi uma delícia. Fomos extremamente bem-recebidos pelo pessoal do Centro Cultural Yves Alves e falamos sobre literatura para uma platéia composta basicamente de estudantes secudaristas e futuras professoras de primeiro grau (sim, 90% dos participantes eram mulheres). Foi uma ótima experiência conversar com público tão diferente do costumeiro, e em meio ao bate-papo surgiram perguntas sobre o processo de criação, as relações entre jornalismo e literatura, o papel da crítica literária, a importância da leitura... A gente aqui no Rio talvez não tenha idéia de o quanto é importante para essas pessoas - que lutam com extremas dificuldades para ensinar no grotões do país, nas zonas rurais, onde a "falta" é "falta" mesmo - travar esse tipo de contato. De emocionar a moça contando que, da loja em que trabalha, observa diariamente um homem que todo santo dia faz a mesma coisa - chega no bar, pede um guaraná, bebe dois copos e se vai - e perguntando se isso daria um conto. Ou a outra que marejou os olhos ao contar sobre a felicidade da aluna que conseguiu ler pela primeira vez. Foram pequenos momentos daqueles de se guardar pra semtre. Além do debate propriamente dito, evidentemente a viagem teve outros atrativos, como a visita à já citada Biblioteca do Ó, o frango com Ora Pro Nobis (verdura típica da região), o feijão tropeiro, as partidas de ping-pong no (excelente) Pouso das Gerais e o encontro tresloucado com uma figura chamada Mozart, artista plástico que mora na cidade e esbarrou conosco no único bar que ficava aberto até tarde (bem, até mais ou menos tarde)... Mais detalhes, lá no Bohemias.



 Escrito por Marcelo às 12h48
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"Por que que a gente é assim?"

"Mais uma dose

É claro que eu tô a fim

A noite nunca tem fim

Por que que a gente é assim?"

O Cazuza pergunta. Eu desde ontem também, mas não tenho resposta. De qualquer modo, é bom ver o dia amanhecer lentamente enquanto a Urca se aproxima, as luzes com tonalidades amareladas surgindo por detrás do Pão de Açúcar, a cidade acordando preguiçosa para a sexta-feira... É bom ver que a folha em branco está novamente na máquina.



 Escrito por Marcelo às 12h31
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Garrafas

Detalhe da cozinha da acolhedora Biblioteca do Ó, em Tiradentes, onde eu e Flávio Izhaki comemos biscoitinhos de goiabada acompanhados do sempre saboroso café mineiro.



 Escrito por Marcelo às 20h42
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Mistérios

Cheguei há pouco de Tiradentes. Há fotos e muita coisa pra contar. Tudo isso amanhã. Hoje, o blog ainda está em temporada musical. Porque tem uma canção que ficou girando na minha cabeça por lá, e por sorte estava no disco da Nana que levei comigo. É o mesmo disco que traz Mudança dos ventos, Meu bem querer e De volta ao começo, entre outras pequenas maravilhas...

"Mistérios"

Joyce / Maurício Maestro)

"Um fogo queimou dentro de mim
Que não tem mais jeito de se apagar
Nem mesmo com toda água do mar
Preciso aprender os mistérios do fogo pra te incendiar

Um rio passou dentro de mim
Que eu não tive jeito de atravessar
Preciso um navio pra me levar
Preciso aprender os mistérios do rio pra te navegar

Vida breve, natureza
Quem mandou, coração?

Um vento bateu dentro de mim
Que eu não tive jeito de segurar
A vida passou pra me carregar
Preciso aprender os mistérios do mundo pra te ensinar"



 Escrito por Marcelo às 17h19
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... (falar o quê diante disso?)

"Futuros amantes"

Chico Buarque

"Não se afobe, não
Que nada é pra já
O amor não tem pressa
Ele pode esperar em silêncio
Num fundo de armário
Na posta-restante
Milênios, milênios
No ar

E quem sabe, então
O Rio será
Alguma cidade submersa
Os escafandristas virão
Explorar sua casa
Seu quarto, suas coisas
Sua alma, desvãos

Sábios em vão
Tentarão decifrar
O eco de antigas palavras
Fragmentos de cartas, poemas
Mentiras, retratos
Vestígios de estranha civilização

Não se afobe, não
Que nada é pra já
Amores serão sempre amáveis
Futuros amantes, quiçá
Se amarão sem saber
Com o amor que eu um dia
Deixei pra você"



 Escrito por Marcelo às 05h49
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Mãos

A Flavinha, do Memorabilia, me deixou à flor da pele hoje ao lembrar esta canção, que a Nana gravou daquele jeito dela: intensamente, muito intensamente... Pra chegar em casa e ouvir!

"De volta ao começo"

Gonzaguinha

"E o menino
com o brilho do sol na menina dos olhos
sorri e estende a mão
entregando seu coração
e eu entrego o meu coração

E eu entro na roda
e canto as antigas cantigas
de amigo e irmão
as canções de amanhecer
lumiar a escuridão

E é como se eu despertasse de um sonho
que não me deixou viver

E a vida explodisse em meu peito
com as cores que eu não sonhei

E é como se eu descobrisse
que a força esteve o tempo todo em mim

E é como se então de repente
eu chegasse ao fundo do fim

De volta ao começo
De volta ao começo"



 Escrito por Marcelo às 11h35
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Um certo medo da noite, Itaipava, Sting...

Um certo medo da noite, meu primeiro (e renegado) livro, de 1998, inclui um conto chamado Itaipava, que relata o renascer de um indivíduo em crise a partir de uma viagem para a Serra. Numa espécie de homenagem ao Caio Fernando Abreu, a quem sempre admirei, naquela época eu costumava sugerir canções antes de alguns contos, como se fossem epígrafes e já antecipassem o tom do que viria. Ouvi ontem novamente a música que indiquei naquele conto...

"When we dance"

Sting

"If he loved you
Like I love you
I would walk away in shame
I'd move town, I'd change my name
When he watches you
When he comes to buy your soul
On your hand his golden rings
Like he owns a bird that sings
When we dance
Angels will run and hide their wings
The priests have said my soul's salvation
Lies in the balance of the angels
And underneath the wheels of passion
I keep the faith in my fashion
When we dance
Angels will run and hide their wings
I'm still in love with you
When we dance
Angels will run and hide their wings
I'm gonna love you more than life
If you'll only be my wife
I'm gonna love you night and day
I'm gonna try in every way
When we dance
Angels will run and hide their wings
I'm gonna find a place to live
Give you all I've got to give
I would love you more than life
If you'll only be my wife
If I could break down these walls
And shout my name at heaven's gate
I'd take these hands
And I'd destroy the dark machineries of fate,
The vehicles are broken
Heaven's the one above
Hellfire's a promise away
I'd still be saying
I'm still in love
He won't love you
Like I love you
He won't care for you this way
He'll mistreat you if you stay
Come and live with me
We'll have children of our own
I would love you more than life
If you'd come and be my wife
When we dance
Angels will run and hide their wings
I'm gonna love you more than life
If you'll only be my wife
I'm gonna love you night and day
I'm gonna try in every way
When we dance
Angels will run and hide their wings
I'm gonna find a place to live
Give you all I've got to give
I would love you more than life
If you'd only be my wife"



 Escrito por Marcelo às 11h12
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"no intervalo entre a vontade e o desejo"

"Precisamente ali

no intervalo entre a vontade e o desejo

ali na parede, o interruptor

da lâmpada que lança sobre tudo

a cal abrupta da realidade,

capaz de avassalar a escuridão

arrendondando os ângulos agudos

como uma chave líquida que abrisse

todas as portas. Porém você

não precisa de portas" 

Paulo Henriques Britto



 Escrito por Marcelo às 11h00
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I

"Nenhum sinal da solidão de vê

lá onde o amor corrói a carne a fundo.

Dentro da pele, no entanto, você

é só você contrao mundo.

Esta felicidade que abastece

seu organismo, feito um combustível,

é volátil. Tudo que sobe desce.

Tudo que dói é possível".

Paulo Henriques Britto 



 Escrito por Marcelo às 10h56
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Trovar claro

Conhecia o Paulo Henriques Britto apenas através de um poema chamado Geração Paissandu, que foi incluído pelo Italo Moriconi na coletânea Os 100 melhores poemas do século e me chamou de tal forma a atenção que está até hoje grudado à cortiça do meu quarto. Por indicação do amigo Guiu, comprei o Macau, mais recente trabalho de Britto, e então comecei a me apaixonar de vez pelo mundo lírico que o escritor delicadamente constrói, seja por intermédio de formas fixas ou de formas não-fixas (que prefiro). Ontem, após alguma dificuldade, enfim consegui achar Trovar claro, obra anterior, em que o poeta às vezes me remete à Elizabeth Bishop. Trata-se de um livraço, no qual pesquei dos pequenos poemas, que estarão nos posts acima.



 Escrito por Marcelo às 10h46
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"Aula" na Eco

Na próxima terça, às 11h, eu e o amigo Augusto Sales conversaremos com os alunos da disciplina Jornalismo Literário, da Escola de Comunicação da UFRJ, sobre os projetos Prosas cariocas, Paralelos e a nova literatura. Fomos convidados pelo professor da matéria, Paulo Roberto Pires.



 Escrito por Marcelo às 10h42
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Escrever

"Tenho medo de escrever, é tão perigoso. Quem tentou, sabe. Perigo de mexer no que está oculto - e o mundo não está à tona, está oculto em suas raízes submersas em profundidades do mar. Para escrever tenho que me colocar no vazio. Neste vazio é que existo intuitivamente. Mas é um vazio terrivelmente perigoso: dele arranco sangue. Sou um escritor que tem medo da cilada das palavras: as palavras que digo escondem outras - Quais? Talvez as diga: escrever é uma pedra lançada no poço fundo."

Clarice Lispector



 Escrito por Marcelo às 17h11
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Ensaio

Muito boa a matéria do Hugo Sukman, publicada no Segundo Caderno de sábado passado, sobre o lançamento de uma série de dvds com edições do ótimo programa Ensaio, idealizado por Fernando Faro. Vale entrar no site Globo.com e ler a entrevista, porque o jornalista encontrou no texto a perfeita harmonia entre conteúdo (muito interessantes as declarações de Faro) e forma (Sukman, a exemplo do que acontece no programa, suprimiu as perguntas). Vou correndo comprar o primeiro dvd, estrelado pela Elis Regina. Na Americanas.com, está a R$ 39,90. 



 Escrito por Marcelo às 13h29
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Mais Henriques Britto

"Nem o tempo e seu assédio

nem o cálculo frio dos sentimentos

nem a lâmina rombuda do tédio

nem o corpo e seus humores vários

e suas suntuosas exigências

- nada pode aplacar a paixão

que não recua ante o supremo horror

de serem as coisas tudo e só o que são.

A pele é fina, a carne é permeável.

É duro o amor."


Paulo Henriques Britto, in Trovar claro



 Escrito por Marcelo às 12h18
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" é sobre humano..."

O dia é de sol e de canções. Esta a Eveline Hecker gravou divinamente (acho seu registro superior ao da Zizi Possi) no disco Ponte aérea, dedicado às composições de José Miguel Wisnik. Simplicidade que esconde tentáculos tão profundos...

"Mais simples"

José Miguel Wisnik

"É sobre-humano amar
'cê sabe muito bem
é sobre-humano amar sentir doer
gozar
ser feliz
vê que sou eu quem te diz
não fique triste assim
é soberano e está em ti querer até
muito mais

a vida leva e traz
a vida faz e refaz
será que quer achar
sua expressão mais simples

mas deixa tudo e me chama
eu gosto de te ter
como se já não fosse a coisa mais
humana
esquecer
é sobre-humano viver
e como não seria?
sinto que fiz esta canção em parceria
com você

a vida leva e traz
a vida faz e refaz
será que quer achar
sua expressão mais simples"



 Escrito por Marcelo às 11h34
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Drummond

"Ausência"

Carlos Drummond de Andrade

"Por muito tempo achei que ausência é falta

E lastimava, ignorante, a falta..

Hoje não a lastimo.

Não há falta na ausência.

Ausência é um estar em mim.

E sinto-a tão pegada, aconchegada nos meus braços

Que rio e danço e invento exclamações alegres.

Porque a ausência, esta ausência assimilada,

Ninguém a rouba mais de mim."


P.S. O quadro, evidentemente, é um Hopper...



 Escrito por Marcelo às 11h18
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Sinatra

O amigo Cuenca revelou no sábado mais uma de suas facetas, mostrando insuspeito talento como dj. Entre sambas, sambas-canção e rock, o destaque ficou por conta do disco Sinatra and the Sands, que registra uma apresentação do cantor com a orquestra de Count Basie (arranjos de Quincy Jones), em 1966. Se em alguns momentos o cd peca pela falta de uma edição mais precisa das "piadinhas" de Sinatra, o repertório dá um banho, com músicas de Cole Porter, George Gerswhin e Jonny Mandel, entre outras feras. Inspirado pela noite anterior, no domingo procurei o disco lá em casa (também tenho), e a tarde foi de absoluto mergulho em suas 22 faixas. Só pra dar um gostinho, posto aqui a letra de Fly me the moon (Bart Howard), inesquecivelmente grudada à trilha da festa de sábado, e que no show ganha força descomunal com o naipe de metais da orquestração.

"Fly me to the moon"

Bart Howard

"Fly me to the moon,
and let me play among the stars.
Let me see what spring is like on Jupiter and Mars.
In other words, hold my hand!
In other words, darling, kiss me!

Fill my heart with song,
and let me sing forever more.
You are all I long for, all I worship and adore.
In other words, please be true!
In other words, I love you"



 Escrito por Marcelo às 10h41
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Baratos da Ribeiro repaginado

A amiga Mara Coradello manda avisar que o charmoso sebo Baratos da Ribeiro reabrirá amanhã, depois de suas semanas deobras. Além de outras velhas receitas para receber bem clientes e amigos: novos móveis, nova iluminação, mais livros, mais discos. São três grandes novidades: o Bar-de-Bolso, o Calendário da Balbúrdia e o P.A.B.L.O. (Programa de Alívio da Barra pro Leitor-Ouvinte):

1) Bar-de-Bolso:
Não é um bistrô conforme denuncia a falta de cardápio. Não é um bar por falta de tamanho. É um evento, porque terá hora certa para acontecer. Parece um palco, porque terá estrelas: a barwoman. Nos fundos no sebo, na sala dedicada às histórias em quadrinhos, aos filmes (em VHS e DVD), aos discos grooveados (black music, discoteque e e-music) e aos livros infantis, foi montada a copa. E ali acontecerá, duas vezes por semana, o Bar-de-Bolso.

2) O Calendário da Balbúrdia:
20/11 > Supersoda (17:30), SexNoise (18:30h) e Pic-Nic (19:30h), mais DJ Ácaro;
27/11 > Marcelo Frota (18:30h) e Carne de Segunda (19:30h), mais DJ Ácaro;
04/12 > S.O.M. (Seres Operando Matéria), a partir das 17h, com Cabaret Calado, Tonguemishe Trio, Farta Cecília e Löis Lancaster & seu baixo Fretless, mais DJ KKSS e intervenção de arte do Coletivo Amarelo;
11/12 > Filme (18:30h) e Supercordas (19:30h), mais DJ Ácaro;
18/12 > festa de fim de ano com lançamento do CD do trio vocal Os Três Terrores e esquetes dos Urbanóias.

3) O tal P.A.B.L.O.:
A Baratos da Ribeiro descobriu novas maneiras de estocar e organizar seus 15 mil livros e 5 mil LPs – além de centenas de gibis e fitas de vídeo, CDs, DVD, alguns cartazes e outros badulaques. Inventaram novas seções, sinalizaram as estantes e as prateleiras, fabricaram novos expositores. Tudo para o cliente encontrar o livro ou disco que procura com mais facilidade.Esse é o Programa de Alívio da Barra pro Leitor-Ouvinte, vulgo P.A.B.L.O.. E o melhor: a loja criou um sistema para atender a pedidos dos livros não-existentes na casa.

Estarei lá, escudado pelo grande Henrique Rodrigues.



 Escrito por Marcelo às 17h05
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Sob o signo de Câncer

Machado de Assis, Ernesto Sabato, Orígenes Lessa, Franz Kafka, Ernest Hemingway, La Fontaine, Herman Hesse, Joaquim Manuel de Macedo, Jean-Paul Sartre, Ingmar Bergman, Maiakovski, Guimarães Rosa e Marcel Proust, sensibilidades cancerianas em permanente busca pelo tempo perdido...



 Escrito por Marcelo às 16h36
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"Vale mais a força do pensamento"

Pra você, Juli. Dia 4, estaremos lá!

"A força do vento"

Rogério Andrade (na voz do Lô)

"Pela fresta desta janela
Ouvi o vento
E te rouba do meu leito
Sem ao menos me dizer
Para onde vai te levar

Quem se apossa assim tão fácil
É, não vai muito além
Pois na força da manhã
Posso ser muito valente
Prá vencer o espaço e te achar

Adormece o tempo
Que a fada te jurou
Fere o dedo no teu sonho
Se assusta com o meu beijo
E acorda a tempo
De saber que ainda eu sou teu rei
Vale mais a força do pensamento
Quem se apossa assim tão fácil... "



 Escrito por Marcelo às 14h29
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Poema

"E o resto é silêncio..."

J.G.de Araújo Jorge

"E então ficamos os dois em silêncio, tão quietos
como dois pássaros na sombra, recolhidos
ao mesmo ninho,
como dois caminhos na noite, dois caminhos
que se juntam
num mesmo caminho...

Já não ouso... já não coras...
E o silêncio é tão nosso, e a quietude tamanha
que qualquer palavra bateria estranha
como um viajante, altas horas...

Nada há mais a dizer, depois que as próprias mãos
silenciaram seus carinhos...

Estamos um no outro
como se estivéssemos sozinhos..."



 Escrito por Marcelo às 13h54
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A canção do (s) Chiquinho (s)

Não adianta: toda vez que o amigo Chiquinho Genu dedica sua voz rascante a cantar esta música, meus olhos enchem de lágrimas. Então eu fujo pro fundo do Bip, lá perto do banheiro e dos queridos Alfredinho e Regina.

"Cordão"

Chico Buarque

"Ninguém
Ninguém vai me segurar
Ninguém há de me fechar
As portas do coração
Ninguém
Ninguém vai me sujeitar
A trancar no peito a minha paixão

Eu não
Eu não vou desesperar
Eu não vou renunciar
Fugir
Ninguém
Ninguém vai me acorrentar
Enquanto eu puder cantar
Enquanto eu puder sorrir

Ninguém
Ninguém vai me ver sofrer
Ninguém vai me surpreender
Na noite da solidão
Pois quem
Tiver nada pra perder
Vai formar comigo o imenso cordão

E então
Quero ver o vendaval
Quero ver o carnaval
Sair
Ninguém
Ninguém vai me acorrentar
Enquanto eu puder cantar
Enquanto eu puder sorrir
Enquanto eu puder cantar
Alguém vai ter que me ouvir
Enquanto eu puder cantar
Enquanto eu puder seguir
Enquanto eu puder cantar
Enquanto eu puder sorrir"



 Escrito por Marcelo às 15h23
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Layout

Imagino que muitos não estejam conseguindo ver o atual "arremedo de logotipo" do Pentimento. Não entendo muito dessas coisas, mas em breve prometo ajeitar, ok?

 Escrito por Marcelo às 12h08
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Camus e o teólogo

Fã incondicional de Nietzsche, Foucault e Deleuze desde meados da adolescência, fui deixando de ler tanta filosofia à medida que colocava em questão o relativismo que marca a obra dos três e de outros pensadores contemporâneos. Neste sentido, as conversas com o amigo Sidney Silveira nos últimos anos vêm sendo bastante produtivas, pois como estudioso de São Tomás de Aquino e Santo Agostinho, ele se confronta radicalmente com tal postura filosófica. Mas por que conto isto tudo?

Porque ontem à noite devorei, de uma vez só, um livraço. Trata-se de Albert Camus e o teólogo, que registra as conversas que o escritor (um dos meus preferidos) teve com o religioso Howard Mumma. O embate de idéias entre a perspectiva existencialista de Camus e a teologia de Mumma surpreende menos do que perceber as inquietações religiosas que tomaram conta do francês já perto do final da vida (no decorrer do livro, saberemos que o interesse de Camus não é novo: ele escrevera ainda bem jovem uma tese intitulada Metafísica cristã e neoplatonismo, Plotino e Santo Agostinho).

Em Albert Camus e o teólogo, o diálogo entre os dois protagonistas é franco, ou seja, Camus não fica querendo encontrar "furos" no sistema de crenças do teólogo. Ele denota um real interesse em conhecer a essência do que conhece apenas superficialmente. E os papos envolvem grandes temas da humanidade, como o Bem x o Mal, a moral, a Bíblia histórica e a Bíblia simbólica, a onipotência de Deus, além de outros pensadores, casos de Jean-Paul Sartre (com quem o teólogo também dialoga) e Simone Weil. Esta, amiga dileta de Camus, cunhou uma assertiva que desde já está na minha antologia pessoal, ao identificar quatro categorias básicas do "amor de Deus": "O amor ao próximo, a beleza do mundo, as práticas religiosas e a amizade". Detalhe: ela não era uma religiosa propriamente dita.

Outra frase que me chamou a atenção foi de Camus, quando ele em meio a elocubrações deixa escapar uma síntese sobre o próprio trabalho, que me fez refletir – e muito - sobre o que eu escrevo: "Certamente, o público e os leitores de minhas obras, embora vejam o vazio, não estão encontrando respostas no que estão lendo". É isso: a exemplo dele (e sem querer me comparar em qualidade, evidentemente), enxergo e sinto esse "vazio", mas ainda não tenho "respostas". Nem Camus chegou a tê-las, pois não obstante a busca, seu fim (como se sabe) seria trágico. "Falhei com Camus", lamenta-se Mumma já na apresentação, dando a entender que, para ele, o acidente que vitimou o francês não se deu por acaso. Malgrado a "falha", a discussão de alto nível intelectual que os dois travaram merece por si só a atenção do leitor. Fica aqui a dica.



 Escrito por Marcelo às 10h57
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Carpinejar

Ando cada vez mais encantado com o Carpinejar...

"Humildade"

Fabrício Carpinejar

"Tudo é tão vago e intenso que às vezes sento no meio-fio do meu corpo. Olho para mim como se não tivesse feito nada. E não ardo em compaixão, muito menos orgulho, mas me lembro do esforço que fiz para chegar aqui e falar e de repente me calo. Assim como me calei outras vezes e em seguida falei o que deveria ter dito para ninguém ouvir, nem eu. Não, não conseguirei ser compreendido porque não compreendo tão rápido. Compreendo devagar, na insolação do silêncio. Meus momentos de maior apreensão era cruzar os braços na classe antes do final da aula. O cheiro de janela da minha mesa verde. Os cadernos engavetados na mochila, ao lado da térmica e da maçã. Os desenhos que não completei. As notas que não consegui. Os braços de giz da professora aguardando o sinal. A cadeira de madeira dura e quadrada. A teimosia da cabeça que se levantava para verificar se os colegas me acompanhavam no abandono. O estômago subindo à garganta. A vida tem essas tréguas, onde deixou de existir por alguns minutos. E Deus me libera a pensar sem conselhos ou ordens. As camisas abotoadas. Os ouvidos limpos. As unhas roídas. A fila indiana. Carregar a criança no colo, depois segurar sua mão nos passeios, receber seu abraço de girar a cintura, perder o contato, retomar o traço, voltar a dar as mãos, até ser carregado pelo filho à cama e pedir para que ele conte a história de sua vida. Encontrar a humildade para dormir, dormir no meio de sua voz, na única voz que me liberta da minha."

P.S. A foto é do Cartier-Bresson...



 Escrito por Marcelo às 11h45
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Festa brega no Ernesto

Não poderei ir, porque é dia do show do Lô Borges, mas promete ser bacana a 1ª Festa Brega do Bar do Ernesto, que acontecerá dia 4 de dezembro. A música será garantida por artistas como o amigo Lúcio Sanfilippo, a cantora Ana Costa e o instrumentista Pedro Holanda. No repertório, estarão pérolas do repertório brega: Wando, Jane e Erondi, Wanderléa, Fábio Jr., Gretchem, Odair José, Vanusa, Rosana, Sidney Magal, José Augusto, Peninha, Perla, Sullivan & Massadas. O evento contará ainda com um concurso, que elegerá o participante mais "brega" da noite. O Bar do Ernesto fica ao lado da Sala Cecília Meirelles.



 Escrito por Marcelo às 11h11
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Corais em BH

Como se fossem necessários motivos para se visitar a deliciosa cidade mineira, nos próximos dias 26, 27 e 28 de novembro há mais uma razão para partir rumo a Belo Horizonte. Nestas datas acontecerá o 2º Festival de Corais, cuja edição de 2004 homenageará o Clube da Esquina. Os corais se apresentarão em diversos pontos de BH, mas a festa não se resumirá a eles. Haverá também um reencontro dos amigos Fernando Brant, Márcio Borges, Murilo Antunes, Ronaldo Bastos e Toninho Horta, que farão um bate-papo sobre a história e os rumos do Clube, e shows gratuitos do Toninho e do Telo Borges, entre outros artistas e grupos. A programação completa está no site do Festival.



 Escrito por Marcelo às 10h38
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Brasileirinho

Sobre o show Brasilerinho, da Bethânia, que conferi no sábado passado, há tanto a dizer que paradoxalmente o "tanto" cabe numa palavra: perfeito. Perfeitos os cenários da Bia Lessa, que remetem às festas do interior com suas pequenas luzes - lembrando os que Gabriel Vilela fez para a própria Bethânia há alguns anos - e faz bom uso da tela "transparente" à frente do palco, marca do diretor Felipe Hirsch. Perfeito o figurino da cantora, caracterizado pela multiplicidade de cores que faz do Brasil, Brasil. Perfeito o repertório, que passeia pelos vários estilos musicais das vários cantos do país, marcando suas afluências, de Luiz Gonzaga ao Titãs. Perfeita ainda a conexão entre as canções e os textos, entre os quais se destaca a máxima do grande Guimarães Rosa: "Felicidade se acha em horinhas de descuido" (quando ela falou isso, foi um festival de entreolhares no Canecão...). Perfeita é, por fim, a perfomance de Bethânia, iluminada como sempre, carismática até não mais poder, uma mulher que parece virar força da natureza quando se apresenta. É preciso ver um show de Bethânia para saber do que falo. Entre os aplausos gerais, que incluem a direção de Fauzi Arap, só destoa a desnecessária e deslocada interpretação de Tarde em Itapuã. Definitivamente, o vozeirão da artista não "casa" com a bossa-nova... No mais, é lamentar que o espetáculo tenha saído de cartaz e recorrer ao dvd...



 Escrito por Marcelo às 10h23
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Surfistas na Urca

 

Trabalhando já há alguns anos como jornalista, sempre imaginei que um dia pudesse emplacar uma primeira página num grande jornal, como O Globo, por exemplo (na minha opinião, o melhor do país...). Mas pensava que isso aconteceria com uma matéria escrita por mim, não com uma foto. Pois bem: a edição de hoje do diário traz um registro que fiz no início da tarde de ontem e mostra surfistas pegando onda em plena Praia da Urca. A história: voltava eu do trabalho (é, trabalhei no feriado...) quando vi a cena. Tomado pelo espírito de jornalista, que não me larga em nenhum minuto do dia (para o bem e para o mal...) imediatamente fui em casa e peguei a câmera. Então lembrei do amigo Marceu, e telefonei perguntando se, pelo inusitado da situação, interessaria à coluna do Ancelmio Góis. Ele logo respondeu que sim, e no final da tarde me ligou de volta, dizendo que o editor da primeira página tinha adorado a foto e perguntava se eu concordaria que fosse publicada lá.

Enfim, estou desconfiado que deveria mudar de profissão e virar fotógrafo logo de vez..



 Escrito por Marcelo às 10h05
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Macau

Varar a madrugada, depois de umas cervejas, lendo poesia... Se estou aqui meio cansado, a culpa é do Paulo Henriques Britto, e de seu Macau, que comprei ontem mesmo. Seqüências de delizadeza e lirismo num livrinho pequenino como são as coisas belas. Um dos poemas:

VII"

Paulo Henriques Britto

"A escuridão começa pelas bordas

e vai seguindo até chegar ao centro,

lá onde uma semente aguarda a hora,

tranqüilamente, sem medo do escuro:

pois é da natureza das sementes

se afastar da luz, mergulhar no úmido,

sepultar-se por toda uma estação.

No entanto, neste caso a escuridão

É de outra espécie, mais seca e mais rasa,

Uma que avança devagar e sempre,

Alheia a qualquer propósito ou causa,

Até só restar pedra sobre pedra.

Mas a semente espera. Ela é insistente,

E acerta mesmo sem saber que erra."



 Escrito por Marcelo às 11h09
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Paulinho

Então é isso, né? Depois de um breve susto, Paulinho da Viola faz mais um aniversário hoje, firme e forte na elegância e no papel de mestre vivo da música brasileira. Minha admiração pelo Paulinho cresceu à medida que a idade veio. Em homenagem a ele, posto aqui um das "cinco mais" de minha lista subjetiva sobre seu repertório. A canção foi originalmente gravada no discaço de 1971 que leva apenas o nome dele (naquele ano, excepcionalmente, Paulinho gravou dois lps, talvez os melhores da carreira). Trata-se de um trabalho excepcional, valorizado pelas orquestrações geniais do maestro Lindolfo Gaya.

"Para um amor no Recife"

Paulinho da Viola

"A razão porque mando um sorriso
E não corro
É que andei levando a vida
Quase morto
Quero fechar a ferida
Quero estancar o sangue
E sepultar bem longe
O que restou da camisa
Colorida que cobria
Minha dor
Meu amor eu não me esqueço
Não se esqueça por favor
Que voltarei depressa
Tão logo a noite acabe
Tão logo este tempo passe
Para beijar você"



 Escrito por Marcelo às 10h38
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não tenho medo

Com bastante atraso, estréia hoje nos cinemas do Rio o filme não tenho medo, de Gabriele Salvatores, ao qual assisti no Festival do Rio de 2003. O filme me marcou de diversas formas, para muito além da questão meramente estética, e cheguei a escrever sobre ele para o site Críticos.Com. Segue a resenha que saiu na época:

RETRATO LÍRICO E DOLORIDO DO FIM DA INOCÊNCIA

Marcelo Moutinho

A perda da inocência através do dorido contraste com os porões mais escuros do universo adulto já serviu de mote a filmes os mais diversos. Poucas vezes, contudo, com a delicadeza de Gabriele Salvatores em não tenho medo, indicado pela Itália ao Oscar de melhor produção estrangeira no ano que vem. O diretor, já oscarizado por Mediterrâneo, foi extremamente feliz na adaptação do romance homônimo do escritor Niccolà Amanti, co-autor do roteiro.

O enredo é bem simples. Michele (Giuseppe Cristiano) mora no sul da Itália com a mãe, o pai e a irmã. Nos belíssimos campos amarelados da região, onde brinca com os amigos, certo dia ele descobre um buraco escondido, no qual está preso um menino, aparentemente da mesma idade. A relação de Michele com o garoto e as revelações que daí decorrem desenharão um verdadeiro mosaico de aprendizados, que incluem temores, decepções e heroísmo. Pois malgrado o medo que por vezes o domina, ele é sempre capaz de emprestar solidariedade, de desafiar ainda que silenciosamente quem o ameaça. Salvatores indica com sutileza que a luta contra esse "medo" se desenvolve internamente ao manter o nome do filme em letras minúsculas, como se denotasse o "sussurro" de Michele para si mesmo, que impulsiona suas ações.

Com a intenção de colocar o espectador na pele do pequeno protagonista, o diretor abusa dos planos subjetivos, filmados em geral com a câmara posicionada na altura dos olhos do menino. As conversas entre os pais, as brigas... Há um imenso e desconhecido mundo que enfim se desvela entrecortado pela porta do quarto e pelas janelas parcialmente abertas. O quase intransponível fosso entre as lógicas que regem a infância e a fase madura é seguidamente evidenciado nos diálogos, como, por exemplo, no momento em que Michele revela seu maior segredo em troca de um carrinho de ferro, e seu amigo, que aceitara tal permuta, se confessa decepcionado: acha que o brinquedo valia mais.

A beleza do filme deve muito também à excepcional fotografia de Italo Petriccione, que pinta de tons amarelados a tela, evocando a memória, e à música de Ezio Barroso, que sublinha eficazmente o lirismo que envolve as grandes revelações. Os atores, principalmente o elenco infantil, têm atuação irreparável. Incrível como são expressivos os olhares que descortinam alegrias fugazes, como a de comer um doce, ou a de acenar para os helicópteros que sobrevoam os campos, sem saber que na verdade são da Polícia e sinalizam o encaminhamento trágico da história. Trata-se de uma das mais interessantes seqüências do filme, menos significativa somente do que aquela que retrata a chegada das ceifadeiras que irão decepar a plantação onde se divertem as crianças. O susto entranhado nas faces ingênuas que assistem às máquinas cerrando o campo representa uma poderosa e eloqüente metáfora da lâmina que começa a talhar sua saída do tempo dos sonhos e o violento ingresso nas agruras da realidade.



 Escrito por Marcelo às 10h30
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O som de Saturno

Às vezes, os jornais nos reservam notícias aparentemente banais, mas que no fundo são tão bonitas, tão bonitas... Esta, que saiu ontem em O Globo, foi uma delas...

"Nave espacial capta sons produzidos pelo impacto de meteoritos com os blocos de gelo ao redor do planeta"

"A sonda Cassini, da Nasa, fez uma descoberta surpreendente: os anéis de Saturno emitem constantemente uma série melódica de notas musicais. A descoberta foi feita em julho, quando a nave passou sobre os anéis rumo ao planeta, mas só foi divulgada ontem.
Os sons são emitidos como ondas de rádio, segundo Don Gurnett, da Universidade de Iowa, cuja equipe conseguiu reduzir as freqüências de forma a torná-las audíveis por seres humanos. O cientista disse que ficou perplexo ao ouvir as notas musicais.
Os tons são curtos, duram de um a três segundos, e, diferentemente de outros sons etéreos associados a processos cósmicos, bastante distintos. Indícios sugerem que os sons são produzidos pelo impacto de meteoritos com os blocos de gelo que formam os anéis.
Cada uma dessas colisões, explica Gurnett, cria uma vibração a partir do ponto de impacto. Estimando a energia envolvida, o cientista calcula que os objetos tenham cerca de um centímetro, mas frisa que sua margem de erro é muito grande.
As descobertas foram anunciadas no encontro anual da Divisão de Ciências Planetárias da Sociedade Americana de Astronomia e divulgadas ontem no site da “New Scientist”."



 Escrito por Marcelo às 18h15
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"Prosas" em Tiradentes

No próximo dia 24 (daqui a duas quartas-feiras), eu e o amigo Flávio Izhaki estaremos em Tiradentes (MG), falando sobre o Prosas cariocas para o povo da charmosíssima cidade. Estive lá há pouco tempo com a Paulinha e pude constatar mais uma vez que a cidade tem uma delicada magia, em suas ladeiras rudes, no casario da época do Caminho do Ouro... Flávio e eu fomos convidados pelo Centro Cultural Yves Alves. Traremos notícias e fotos de lá!



 Escrito por Marcelo às 13h44
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Paulo Henriques Britto

Esses versos, tão cruelmente verdadeiros, achei no blog do amigo Guiu.

"A realidade é coisa delicada
de se pegar com as pontas dos dedos.
Um gesto mais brutal, e pronto: o nada (...)"

Paulo Henriques Britto



 Escrito por Marcelo às 11h45
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Post roubado

Lendo hoje o Mascavinhas, fiquei subitamente feliz ao reencontrar uma canção que me remete sempre às cenas do ótimo Poderosa Afrodite, de Woody Allen. Amo plenamente a trilha-sonora do filme, com destaque para essa música, composta por Cole Porter, e que na tela é cantada pelo coro que segue a protagonista. Foi o Woody Allen que me ensinou a gostar de jazz...

"You do something to me"

Cole Porter

"You do something to me
Something that simply mystifies me
Tell me, why should it be
You've got the power to hypnotize me?

Let me live 'neath your spell
Do that voodoo that you do so well
'cause you do something to me
Nobody else could do"



 Escrito por Marcelo às 11h35
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Dona Olympia

Adoro a canção que Toninho Horta e Ronaldo Bastos fizeram inspirados nela, e foi através da música que soube da existência da mítica figura de Dona Olympia, que até o início da década de 70 podia ser vista pelas ruas de Ouro Preto, com seu cajado majestoso, o chapéu florido, o vestido de fitas e muitas histórias para contar. A personagem ainda respira em casa canto da cidade e extrapolou seus limites não apenas através da composição dos dois artistas: foi também homenageada pela Mangueira num carnaval passado (aquele dos versos "Sinhá Olympia, quem é você...").

Há pouco mais de dois meses, quando estive em Ouro Preto, curiosamente acabei hospedado com Paulinha numa (ótima) pousada que levava o nome dela. Depois, descobri que a proprietária era sobrinha de Dona Olympia. Ontem, então, resolvi pesquisar um pouco mais sobre tão comentada mulher, e me deparei com uma história fascinante. Segundo relatos, nascida em 1888, ela descendia de família rica e era neta do Marquês de Paraná. Aos 40 anos, diz-se que por causa de uma frustração amorosa, transformou as ruas em seu espaço de vida, construindo um mundo lúdico e cheio de imaginação.

Dona Olympia circulava pelas ladeiras da cidade histórica narrando saborosos "causos" locais e um pouco da história do lugar. Falava sobre os bandeirantes, os inconfidentes, a corte de Dom Pedro, a proclamação da república, chegando até o governo de Juscelino Kubitschek e a mudança da capital de Minas para Belo Horizonte.

As pessoas chegavam, tiravam uma foto, a ouviam e deixavam uma moeda. Vinícius de Moraes disse certa vez que um papo com ela valia uma viagem à Minas. A "Linda Morena" - como era chamada na juventude - rompeu barreiras, foi excluída, discriminada. E nunca deixou de levar alegria e transmitir uma espécie paz em conflito com seus delírios, misturando dados históricos de várias épocas e contando histórias mezzo reais, mezzo ficcionais para os visitantes, numa linguagem que aliava cultura à fantasia. Dona Olympia morreu em 1976.



 Escrito por Marcelo às 10h52
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Clarice

"Estou sentindo uma clareza tão grande
que me anula como pessoa atual e comum:
é uma lucidez vazia, como explicar?
assim como um cálculo matemático perfeito
do qual, no entanto, não se precise."

Clarice Lispector



 Escrito por Marcelo às 18h18
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Coleção Risco: ruído

Para quem estiver de bobeira por São Paulo: hoje acontece o lançamento da coleção Risco: ruído, lançada pela Editora DBA em sua primeira investida na área da literatura. Será no Bop Bistrô Eletrônico, na Vila Madalena, a partir das 19h. A estréia se dá com dois títulos - O natimorto, de Lourenço Muratelli, e Gozo fabuloso, de Paulo Leminski. A coleção tem coordenação de Joca Terron, Marcelino Freire, Nelson de Oliveira e Ronaldo Bressane. Aguardemos o evento carioca...



 Escrito por Marcelo às 17h23
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Almodóvar e Bethânia

 

Fim-de-semana com estréia do novo Almodóvar (A má educação) e Bethânia de volta ao Canecão com o show Brasileirinho. Não vi o filme do espanhol quando passou no Festival do Rio e nem o espetáculo da Abelha Rainha em sua primeira temporada (e show da Bethânia é sempre evento imperdível...). Alguém sabe se ainda há ingressos?



 Escrito por Marcelo às 13h41
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Lô na Barra

 
Lá vou eu para a Barra: é que no próximo dia 4 de dezembro, o Lô Borges aporta no Garden Hall, onde fará show com banda. Pra já ir entrando no clima, uma canção dele, das que mais gosto (aliás, é uma das músicas mais postadas neste blog até hoje):
 
"Um girassol da cor do seu cabelo"
 
Lô Borges / Marcio Borges
 
"Vento solar e estrelas do mar
A terra azul da cor do seu vestido
Vento solar e estrelas do mar
Você ainda quer morar comigo?
Se eu cantar, não chore não, é só poesia
Eu só preciso ter você por mais um dia
Ainda gosto de dançar bom dia, como vai você?
Sol girassol, verde vento solar
Você ainda quer morar comigo?
Vento solar e estrelas do mar
Um girassol da cor de seu cabelo
Se eu morrer, não chore não
É só a lua, é seu vestido cor de mar
É filha nua ainda moro nesta mesma rua
Como vai você?
Você vem, ou será que é tarde demais?
O meu pensamento tem a cor
De seu vestido ou um girassol que tem a cor
De seu cabelo? O meu pensamento tem a cor
De seu vestido ou um girassol que tem a cor
De seu cabelo? O meu pensamento tem a cor
De seu vestido ou um girassol que tem a cor
De seu cabelo"


 Escrito por Marcelo às 10h56
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Manoel de Barros

"Por viver muitos anos dentro do mato moda ave O menino pegou um olhar de pássaro - Contraiu visão fontana. Por forma que ele enxergava as coisas por igual como os pássaros enxergam. As coisas todas inominadas. Água não era ainda a palavra água. Pedra não era ainda a palavra pedra. E tal. As palavras eram livres de gramáticas e podiam ficar em qualquer posição. Por forma que o menino podia inaugurar. Podia dar às pedras costumes de flor. Podia dar ao canto formato de sol. E, se quisesse caber em uma abelha, era só abrir a palavra abelha e entrar dentro dela. Como se fosse infância da língua."

Trecho do livro Poemas Rupestres, que o poeta Manoel de Barros acaba de lançar.



 Escrito por Marcelo às 10h45
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Zero ponto nove

Ontem visitei mais uma vez e pude então constatar novemente: é muito bacana o blog Zero ponto nove milímetros, da Márcia Novaes, que hoje ganha link aqui no Pentimento. ALém de literartura, há sempre cinema, teatro e música por lá. Confiram!



 Escrito por Marcelo às 10h38
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Da série 300 toques - Número 20

Pescaria

Como fosse possível pescar estrelas com tarrafa, assim como se caçam pampos na água espumada, ele joga sua rede ao céu quase toda noite. Menos quando o tempo nubla ("Não consigo enxergá-las", explica).

Que não perguntem por que cata estrelas, nem digam que já explodiram e são só brilho esparso, quimera, tapeação.

Pescar nada tem a ver com pegar peixes.



 Escrito por Marcelo às 20h59
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"Tempo, tempo, tempo, tempo..."

Lembrei desta canção hoje, lendo o Memorabilia...
 
"Oração ao tempo"

Caetano Veloso

"És um senhor tão bonito quanto a cara do meu filho 

Tempo Tempo Tempo Tempo, vou te fazer um pedido 

Tempo Tempo Tempo Tempo 

Compositor de destinos, tambor de todos os ritmos 

Tempo Tempo Tempo Tempo entro num acordo contigo 

Tempo Tempo Tempo Tempo 

Por seres tão inventivo e pareceres contínuo 

Tempo Tempo Tempo Tempo és um dos deuses mais lindos 

Tempo Tempo Tempo Tempo 

Que sejas ainda mais vivo no som do meu estribilho 

Tempo Tempo Tempo Tempo ouve bem o que te digo 

Tempo Tempo Tempo Tempo 

Peço-te o prazer legítimo e o movimento preciso 

Tempo Tempo Tempo Tempo quando o tempo for propício 

Tempo Tempo Tempo Tempo 

De modo que o meu espírito ganhe um brilho definido 

Tempo Tempo Tempo Tempo e eu espalhe benefícios 

Tempo Tempo Tempo Tempo 

O que usaremos pra isso fica guardado em sigilo 

Tempo Tempo Tempo Tempo apenas contigo e migo 

Tempo Tempo Tempo Tempo 

E quando eu tiver saído para fora do círculo 

Tempo Tempo Tempo Tempo não serei nem terás sido 

Tempo Tempo Tempo Tempo 

Ainda assim acredito ser possível reunirmo-nos 

Tempo Tempo Tempo Tempo num outro nível de vínculo 

Tempo Tempo Tempo Tempo 

Portanto peço-te aquilo e te ofereço elogios 

Tempo Tempo Tempo Tempo nas rimas do meu estilo 

Tempo Tempo Tempo Tempo"


 Escrito por Marcelo às 10h53
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Nas veias do rio

Na próxima sexta, às 15h, o documentário Nas veias do rio, dirigido pela amiga Ana Rieper, será exibido na Casa França Brasil, dentro do evento Mostra o seu que mostro o meu. O filme centra foco sobre os moradores das margens do Baixo São Francisco, percorrendo cerca de 300 Km do rio. Como o ritmo das cheias, o tempo da colheita, da pesca, do vento que levava as grandes canoas está marcado na vida dessas pessoas? Esta e outras perguntas são propostas pela diretora, que explora o embate entre tradição e modernidade na vida ribeirinha através de seus personagens. Mais informações, aqui.



 Escrito por Marcelo às 10h39
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Neruda

"Se cada dia cai"

Pablo Neruda

"Se cada dia cai, dentro de cada noite,
há um poço
onde a claridade está presa.

há que sentar-se na beira
do poço da sombra
e pescar luz caída
com paciência."



 Escrito por Marcelo às 20h09
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Chuva oblíqua

"(...) Não sei quem me sonho

Súbito toda a água do mar do porto é transparente

E vejo no fundo, como uma estampa enorme que lá estivesse desdobrada,

Esta paisagem toda, renque de árvores, estrada a arder em aquele porto,

E a sombra duma nau mais antiga que o porto que passa

Entre o meu sonho do porto e o meu ver esta paisagem

E chega ao pé de mim, e entra por mim dentro,

E passa para o outro lado da minha alma..."

Trecho de Chuva oblíqua, de Fernando Pessoa...



 Escrito por Marcelo às 12h37
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Leu o livro do Chico?

No sábado, o suplemento Prosa e Vervo (O Globo) trouxe resenha minha sobre Leu o livro do Chico?, de Márcio Moraes Valença. Segue o texto:

Problemas pessoais, não sociais


Leu o livro do Chico?, de Márcio Moraes Valença. Boitempo Editorial, 80 páginas. R$ 23
Marcelo Moutinho

Inadequação e não-pertencimento são argamassa de alguns dos mais célebres personagens da literatura universal. Embora sob véus distintos, tanto a angústia do Gregor Samsa concebido por Kafka, quanto a melancolia trágica do Marcher imaginado por Henry James no primoroso “A fera na selva”, ou ainda o silêncio obsequioso de Mersault, protagonista de “O estrangeiro”, de Camus, alimentam-se e relacionam-se com o mundo a partir de um estranhamento. Seu ponto de contato precípuo — e sua riqueza — é o desconforto diante do incompreensível e a crise que se amalgama daí. Mesmo que possam se encontrar acuados por entraves de caráter social — capazes de agravar quadros em si caóticos — e malgrado sua solidão ter assumido paradoxais traços epidêmicos, os dramas de tais personagens são eminentemente individuais. Reduzi-los a categorias sociais seria, portanto, um equívoco.
A menção ao cânone em resenha de um livro de estréia poderia ensejar injustiças. Mas a lembrança quer marcar a idéia de que, nem mesmo quando calcados na crítica social de um Dostoievski, Zola ou Graciliano, extraímos ouro literário de minas somente ideológicas. E, infelizmente, é esta conexão que tanto prejudica “Leu o livro do Chico?”, de Márcio Moraes Valença.
A trama básica se dá em torno de um homem por volta dos 40 anos, em desconforto com o que o cerca, de um país socialmente injusto à mulher que, de repente, virou-lhe desconhecida. Ele tem dúvidas quanto ao casamento, à labuta e aos que o rodeiam. Questiona-se sobre a felicidade. Valença trabalha com frases curtíssimas para narrar em ritmo vertiginoso tergiversações do protagonista.
Falamos de um indivíduo “perdidamente ocupado com trabalho e casa; perdidamente necessitado de tempo”, acostumado a “conciliar suas duas vidas: a de dentro e a de fora do pensamento”. A confusão do personagem é sublinhada na forma do texto, entremeado por “interferências” — uma piada, os gestos do vizinho, a música do rádio, uma carta — e sua angústia também parece cindida, entre o individual e o social. Valença tenta espelhar tal quadro atrelando o conflito interno à insatisfação com as agruras do país, mas a ligação não funciona, principalmente porque torna-se patente que o mundo verdadeiramente em destroços é o de dentro.
Quando o narrador refere-se a essa espécie de “falta” o livro cresce. Surgem, então, bons achados; caso da passagem em que o sujeito indeciso e inseguro ilumina-se e consegue vislumbrar alguma nitidez no que se passa. “É difícil imaginar-se sozinho sem estar só”, constata. Isto, apesar da recorrência ao clichê, exemplificado na eleição do oceano como elemento de evasão e contraponto à desestrutura do personagem.
Os clichês fazem-se presentes também quando o narrador cede o verbo ao personagem. A frágil e rarefeita relação entre o drama pessoal e o panorama social sustenta-se em desgastadas expressões. “A corrupção permeia a sociedade”, “Está indignado com a situação dos transportes públicos” são algumas das frases. Afeitas ao discurso político, nem por isso transformam a novela de Valença em literatura política. Soam, sim, panfletárias. E desnecessárias, porque, como o personagem percebe ao final da história, inspirado numa canção do Chico, ainda que difícil, a dissolução da crise que o domina é um amanhecer essencialmente seu, e não do país inteiro.
MARCELO MOUTINHO é jornalista e escritor



 Escrito por Marcelo às 12h29
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Em Santa Teresa

  

Foi muito bacana o Encontro com o leitor que a livraria Largo das Letras, na charmosa Santa Teresa, promoveu no último sábado. Participei do evento ao lado dos amigos Adriana Lisboa, Mara Coradello e Mariel Reis. Em clima informal, conversamos com o público sobre o livro Prosas cariocas, os novos autores da cena literária, os caminhos para a publicação e o problema ds distribuição, entre outros assuntos. O debate foi prestigiado por escritores - Henrique Rodrigues, Antônio Dutra, Marcelo Alves, Vinicius Martinelli Jatobá e Augusto Sales -, amigos e gente do bairro. Pena que tive que sair correndo para um casamento em Cabo Frio e não pude esticar com o pessoal. As fotos acima foram tiradas pela Paulinha...



 Escrito por Marcelo às 11h58
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O verão e o inferno

A cada dia concordo mais com a assetiva do Dapieve: "o Rio tem duas estações: o verão e o inferno".

O verão, infelizmente, está terminando...



 Escrito por Marcelo às 13h37
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Mais Vianinha

Na próxima quarta-feira, o Espaço Sesc inaugura ciclo de leituras de textos do dramaturgo Oduvaldo Viana Filho, o grande Vianinha. Serão três peças - Rasga coração (linda, linda...), Papa Highirte (esta não conheço) e Mão na luva (uma beleza também...) -, com apresentações respectivamente nos dias 12, 23 e 24 deste mês, sempre às 20h. As leituras ficarão a cargo de atores como Chico Diaz e José de Abreu e, ao final de cada sessão, haverá debate com especialistas na obra de Vianinha, como Luiz Carlos Maciel e Aderbal Freire-Filho.  



 Escrito por Marcelo às 11h45
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Os últimos dias de Gilda

Estréia hoje no Teatro Carlos Gomes a peça Os últimos dias de Gilda, de Rodrigo de Roure. O texto foi belamente adaptado para a literatura pelo grande Henrique Rodrigues na última edição do Encontro entre a nova prosa e a nova dramaturgia. Ficou a curiosidade de ver o original encenado. O espetáculo é estrelado pela atriz Karine Teles e fica em cartaz até dia 28 de novembro. De quintas a sábado, às 20h, e aos domingos, às 19h.



 Escrito por Marcelo às 11h37
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"Porque mistério sempre há de pintar por aí..."

Lembrei desta canção ontem, no registro histórico e inesquecível do disco dos doces bárbaros (alguns deles, hoje, nem tanto...).

"Esotérico"

Gilberto Gil

"Não adianta nem me abandonar

Porque mistério sempre há de pintar por aí

Pessoas até muito mais vão lhe amar

Até muito mais difíceis que eu pra você

Que eu, que dois, que dez, que dez milhões

Todos iguais

Até que nem tanto esotérico assim

Se eu sou algo incompreensível

Meu Deus é mais

Mistério sempre há de pintar por aí

Não adianta nem me abandonar

Nem ficar tão apaixonada, que nada!

Que não sabe nadar

Que morre afogada por mim"



 Escrito por Marcelo às 11h14
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Turma da Bossa

O conjunto Turma da Bossa, em cujo vocal brilha a amiga Juli Mariano, vai se apresentar no Vinícius Piano Bar nos próximos dias 11, 12, 13 e 14 de novembro, sempre às 23h. No repertório, o melhor da bossa nova. Saiba mais sobre o grupo aqui. O Vinícius fica na Rua Vinícius de Moraes, 39 - Ipanema – Tel: 2523-4757.



 Escrito por Marcelo às 18h13
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Curtas no Ateliê da Imagem

O Ateliê da Imagem, que fica ali pertinho de mim na Urca, promoverá amanhã , às 20h, mais uma edição do projeto Sextas-Livres, com uma sessão de curtas. No programa, estão Cinediário, de Marcelo Ikeda, Jugular, de Fernanda Ramos, e Malabares, de Pedro Segreto. A projeção dura 82 minutos e, ao final, haverá sorteio de brindes. Entrada gratuita. As sinopses dos filmes estão aqui. O Ateliê fica na Avenida Pasteur, 453 - Tel: 2541-3314.



 Escrito por Marcelo às 11h23
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Programa de palavra

Vocês conhecem o Programa de palavra, que o professor Sérgio Nogueira apresenta na STV? Pois bem: estive lá, falando sobre o Prosas cariocas. O programa original já foi ao ar, mas ainda haverá reprises hoje (às 12h30), amanhã (às 3h30), sábado (às 10h) e domingo (às 19h). A STV é o canal 54 da Net.



 Escrito por Marcelo às 11h14
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Festa da Agenda Samba e Choro

Maior portal brasileiro do gênero, a Agenda Samba e Choro vai comemorar no próximo domingo seu 8º aniversário com a tradicional roda, que costuma ser uma das melhores do ano. Na edição de 2004, o homenageado será Seu Jair do Cavaquinho, célebre integrante da Velha Guarda da Portela. Por isso, a festa este ano acontecerá na quadra da escola. A "cozinha" estará formada por Altyr Pereira (pandeiro), André Pressão (pandeiro), Dirceu Leite (saxes e flauta), Eduardo Gallotti (cavaquinho e voz), Jorge Gomes (percussão), Luís Filipe de Lima (sete cordas e direção musical), Marquinho Basílio (surdo) e Pedro Amorim (cavaquinho, bandolim e voz), que acompanharão as dezenas de artistas que dão suas canjas a cada edição da festa.

Os ingressos custam R$5,00, e a camiseta, R$12,00 (tamanhos pequeno, médio e grande) ou R$15,00 (extra-grande). As estampas trazem uma caricatura bacana de Seu Jair, feita pelo Lan. Para rebater a cerveja, a organização garante que estarão à venda salpicão de frango, sopa de ervilha, caldo verde e petiscos variados. E quem não curte cerveja poderá optar pelos Drinks do Luizinho (aquele camarada gente-boa que fica no choro da General Glicério e no Escravos da Mauá). Luizinho também venderá CDs raros de samba e choro. É um evento impertível. Mais informações podem ser obtidas aqui.



 Escrito por Marcelo às 11h04
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Em Santa Teresa

Além de nós três, o querido Mariel Reis (que não entrou no convite porque confirmou em cima) também participará do debate... Espero vocês lá!



 Escrito por Marcelo às 18h07
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Oswald (em Sampa)

Nós, cariocas, perderemos essa, mas os amigos que estiverem em São Paulo terão uma ótima pedida no próximo sábado pela manhã. Como parte do lançamento de Memórias sentimentais – Lembranças de Oswald de Andrade e de Feira das sextas, também de Oswald, a Editora Globo promoverá palestra com Antonio Candido, contando com a participação de José Miguel Wisnik, Maria Augusta Fonseca, Gênese Andrade e José Rubens Chachá. O evento será gratuito (senhas retiradas 30 minutos antes) e acontecerá a partir das 11h no Auditório Pinacoteca do Estado – Praça da Luz, 2 – Luz.



 Escrito por Marcelo às 18h01
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Literatura em Manaus

A foto acima foi tirada pelo amigo Henrique Rodrigues e registra uma sessão de narração de histórias da feira literária de Manaus (AM), a única realizada anualmente na cidade. O HR comandou uma oficina de escrita para 20 professores. Eventos como esse são a maior prova de que a literatura (felizmente) não se resume às bienais e às flips (ambas importantes também). Falta é divulgação!



 Escrito por Marcelo às 17h14
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Tréplica do Sidney

A tréplica do Sidney - "João Carlos Rodrigues, se fui irônico ou desrespeitoso com você, ao referir-me ao seu artigo sobre o "Prosas", lhe peço publicamente desculpas. Não é meu feitio ser deselegante, e muito menos entrar em controvérsias estéreis. Duas pessoas só devem discutir algo se, honestamente, partirem de uma ou mais premissas
aceitas por ambas — para então, após um cuidadoso procedimento dialético, chegarem a conclusões necessárias inferidas daquelas premissas. Fora daí, só pode haver bate-boca. Por isso, reitero: se puder, me desculpe pela forma do meu comentário.

Com relação ao conteúdo, mantenho-o, na firmíssima convicção de que a crítica literária é juízo de valor, o qual precisa embasar-se em conceitos muito bem fundamentados; em caso contrário, acaba por se aproximar do ardor
opiniático típico de torcedores de futebol a beber uma cervejinha num boteco discutindo se certo lance foi pênalti. Antes de alguém chamar Platão de "reacionário", é preciso verificar quantos dos questionamentos dele têm
vigência ainda hoje. E asseguro a você: não são poucos. Infelizmente, a má-leitura de um autor acarreta erros tremendos, os quais às vezes se perpetuam.
Relendo hoje a sua resposta ao meu comentário, cujo tom agressivo entendo perfeitamente (pois acho que o mereci), agora me veio à mente o seguinte: uma vez, o escritor Hermann Broch disse que o artista é um sujeito contrário
à totalidade do seu tempo, contrário à imagem unitária que ele possui dos valores vigentes no seu tempo. Veja bem, não se trata de ser contra isso ou aquilo (este é o papel do panfletário, e grandes talentos se perderam atacando ou defendendo facções), mas se trata, sim, de uma antevisão da ruína do todo — e não de apenas uma de suas partes. Tendo isso em mente, podemos compreender porque Dostoievski, depois de ficar injustamente preso na Sibéria durante 10 anos, acusado de uma conspiração da qual não participou, em vez de reclamar do Estado por tê-lo encarcerado, apenas disse que, com aquela experiência, ele se sentia mais humano. E escreveu o admirável livro "Recordações da casa dos mortos". Ora, em vez de atacar os seus algozes, ele compôs um retrato da capacidade humana de cometer as maiores injustiças e barbaridades. Era um espírito livre, embora estivesse preso naquele inferno gelado. Um verdadeiro artista. E o mesmo se pode dizer de Boécio, que entre uma tortura e outra, sabendo-se praticamente morto, escreveu no cárcere o seu "Da consolação da filosofia", um clássico que ele mesmo não pôde ler.
Um exemplo do que falei acima (sobre as pessoas procurarem um ponto em comum, para iniciar qualquer discussão frutífera) serve para a idéia de liberdade, para a qual você citou Rosa Luxemburgo — de tão triste fim, em seus anseios de liberdade, pobrezinha! Muita gente confunde liberdade com livre-arbítrio. Há muitos séculos, Santo Agostinho já nos chamava a atenção para os erros que algumas filosofias cometeram, ao não fazerem a necessária distinção entre livre-arbítrio e liberdade. Livre-arbítrio é faculdade de escolha, inerente à natureza humana; liberdade é a escolha do Bem, aqui identificado com a verdade e a unidade apreendidas pelo intelecto humano,
mas apreendidas somente pelo canal do Amor. Enfim, este é um assunto que não dá para discutir num blogue.
Uma vez mais, lhe peço desculpas, pois relendo o meu comentário ao seu texto, vi que foi desnecessariamente irônico. E o faço de público, porque ele foi feito também publicamente, aqui no espaço do meu amigo Marcelo Moutinho.
Quanto às demais considerações suas, partindo da premissa de que eu fiquei "tristinho" porque não fui mencionado por você em seu texto, lhe garanto: não estou à procura de clipping... E não me encontro na situação daquele personagem do nosso Machado (de "O espelho") que só consegue adquirir personalidade própria — a identidade de alferes — quando outras pessoas o reconhecem como alferes, e com a farda. Um abraço e boa sorte.
Cordialmente, Sidney Silveira".



 Escrito por Marcelo às 13h20
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Polêmica

Há pouco mais de uma semana, coloquei aqui um post com o link da resenha que José Carlos Rodrigues escreveu sobre o Prosas cariocas, publicada no site Verbo 21. Nos comentários do post, o Sidney Silveira, amigo dileto e um dos escritores do livro, fez algumas observações sobre o texto de Rodrigues. Como o autor da resenha respondeu, resolvi expor a polêmica, tão interessante, publicando os argumentos de um e de outro.

Sidney - "Nobre amigo, li a "resenha" sobre o livro e confesso que ela me pareceu situar-se entre o infantil novidadeiro e o risível involuntário (aliás, é o melhor humor que há, o que se faz sem querer!), além de revelar as premissas caras a pessoas sem quase sem nenhuma leitura literária, propriamente, e escassas referências sobre o conceito de arte ao longo dos séculos — desde o "Hípias Maior" de Platão até hoje. Não deixa de ser meio cômica a idéia de que a arte precisa ser CONTRA alguma coisa, e que ter estilo é ser "perturbador" – tão perturbador que pode deixar as pessoas psiquicamente perturbadas, tanto os leitores como os pseudo-escritores. Se arte é ofensa, não façamos literatura, mas escolhamos os palavrões do dia, e tudo estará resolvido. O último parágrafo é particularmente engraçado. Eu, na solidão da minha privada, em "actus defectorum", não diria coisas assim..."

Rodrigues - "Ora, ora, Sidney, deixa de ser ridículo. Citar Platão sobre o "Prosas" é de rolar de rir. Só faltou o Olavo de Carvalho, só pra ficar nos reacionários. "A liberdade é fundamentalmente a liberdade dos que divergem de nós" disse a Rosa Luxemburgo antes de levar a primeira coronhada. Ficou tristinho porque não falei do seu texto ? Da próxima não esquecerei, e se for bom, direi. Sua opinião diverge da do editor do Paralelos e de outros autores que entraram em contato comigo. Sou gato escaldado em Literatura (recebi até uma Bolsa Vitae) e digo que seu conto é até um dos mais experimentais do livro, e um dos menos mauricinhos. A Arte não precisa ser "contra" nada, mas o artista que cala, consente. Seu umbigo e o de tantos outros pode funcionar em blogue, mas livro é outra coisa. E literatura não se aprende em faculdade, oficina ou caderno literário de truste da família Marinho. Cresça e apareça.E não esqueça de puxar a descarga, porque jogaste muita merda, e não foi no ventilador. Boa sorte"



 Escrito por Marcelo às 13h18
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