Antonio Dutra e a Rua Matacavalos

Parabéns ao gente-boa Antonio Dutra, um dos vencedores da oficina Veredas da Literatura, que reuniu 60 autores iniciantes durante a Flip 2004. Para quem não lembra, o Dutra é aquele que escreveu bela resenha sobre o Prosas cariocas, postada aqui há mais ou menos uma semana. Como prêmio, ele terá seu romance - que se chama Matacavalos - publicado no ano que vem. A premissa do livro é ótima: no primeiro capítulo, um encontro inesperado acontece na antiga Rua Matacavalos, atual Riachuelo. Euclides, funcionário do Instituto do Câncer, depara-se, em pleno século XXI, com uma carruagem. E do veículo tombado na rua saem dois personagens do século XIX: Damião, o cocheiro negro, e José Pertence, o passageiro branco. Dutra informou ao jornal O Globo que teve a idéia de escrever o romance quando estava num ponto de ônibus na Glória, bairro onde mora, numa época em que estava relendo muitos livros de Machado de Assis passados na região do Centro, do Catete, do Cosme Velho e de outros bairros próximos. Esperemos, pois, a chegada do livro.

P.S. A foto é de Augusto Malta



 Escrito por Marcelo às 14h35
[   ] [ envie esta mensagem ]




Antes do pôr-do-sol

Já que o Antes do pôr-do-sol estréia hoje aqui no Rio, vale indicar a resenha que escrevi sobre o filme: o texto continua no ar no site Críticos.Com. Abaixo, um trecho. A íntegra está aqui.

A paixão para além do idílio

Marcelo Moutinho

(...) Antes do Pôr-do-Sol está essencialmente centrado no diálogo entre os dois, filmado em tempo real e preenchido pelas expressões (“e se...”, “por quê?”, “mas...”) naturais do tardio reencontro em novo interregno. O filme estrutura-se em seis grandes movimentos – o contato na livraria, a caminhada pelas ruas, a parada para o café, a curta navegação pelo Sena, a carona até a casa dela e o diálogo final, já dentro do apartamento – que se revezam entre longos planos-seqüência e tomadas intimistas em primeiro plano. Os dois atores, à vontade nos personagens, expressam com competência o desconforto diante das agruras da realidade (a frustração amorosa dele, a desesperança dela), em contraponto às imagens-ideais construídas nas 14 horas idílicas do passado. O roteiro, aliás, tece permanentes relações com os acontecimentos de Viena, o que é um alento para quem não viu Antes do Amanhecer. E malgrado em alguns momentos dar espaço demasiado às “filosofices” que tanto prejudicaram Walking Life, por vezes chegando à inverossimilhança, é um tanto enxuto. (...)"



 Escrito por Marcelo às 12h38
[   ] [ envie esta mensagem ]




Poema (roubado do Guiu)

"Cultivava orquídeas -
Pelo prazer da idéia
de orquídea, do devir
de abelha a florir
flor a zumbir
no ponto de fusão."

in Nômada, de Rodrigo Garcia Lopes (achei este poema lá no Perto do coração selvagem, do Guiu, e gostei pacas!)



 Escrito por Marcelo às 12h23
[   ] [ envie esta mensagem ]




Lendo...

"(...) Não conseguiu ir adiante, comprimiu os olhos, esfregou as mãos sobre as pálpebras, abriu-os novamente, e o quarto tremeluziu como objetos vistos através de lágrimas. Mas ele não chorava, era mais um bolo na garganta, seco. No esfuziar dos objetos no silêncio, os pingos d'água na pia criavam círculos de desespero. (...)"

Trecho de Solidão solitude, de Autran Dourado



 Escrito por Marcelo às 12h15
[   ] [ envie esta mensagem ]




Terceira edição do encontro

Na próxima segunda, rolará a terceira e última edição do Encontro da nova dramaturgia com a nova prosa carioca, que tem sido uma delícia de evento. Representando os escritores (e adaptando peças dos dois outros), estarão os amigos Mara Coradello e Henrique Rodrigues. Os dramaturgos serão Marcelo Pedreira e Rodrigo de Roure. Às 21h, no Teatro Café Pequeno (no Leblon), com entrada gratuita.



 Escrito por Marcelo às 11h48
[   ] [ envie esta mensagem ]




A Serrinha no trem

A primeira-dama do samba, Dona Ivone Lara, e mestre Silas de Oliveira, legendas da querida Serrinha, serão os homenageados do 4º show do projeto Pagode do Trem 2004, que acontece hoj., às 18h, Marquinhos de Oswaldo Cruz receberá como convidados especiais a Velha Guarda do Império Serrano, Arlindinho Cruz, Délcio Carvalho eTia Doca. A concentração é na Central do Brasil, e o programa, sempre vale lembrar, é inteiramente gratuito. Dona Ivone é bastante conhecida. Silas de Oliveira nem tanto, apesar das pérolas que compôs.  Por isso, posto algumas informações sobre ele (retiradas da home-page do Império):

"Silas Oliveira de Assumpção nasceu no Rio de Janeiro, em Madureira, no dia 4 de outubro de 1916. Seu pai, José Mário de Assumpção, era pastor protestante e deu aos filhos instrução sólida e educação rígida. Isto não impediu que o jovem Silas, quando a família se mudou para a Rua Maroim (hoje Rua Compositor Silas de Oliveira), no sopé do morro da Serrinha, cedesse ao fascínio que sobre ele exerciam o samba e o jongo, praticados a dois passos de sua casa. Tornando-se amigo de Antônio dos Santos, o Fuleiro, e de Décio Antônio Carlos, o Mano Décio, com este compôs seu primeiro samba em 1934, "Meu grande amor". Passou a freqüentar a escola de samba Prazer da Serrinha, onde, além de integrar a bateria, dá os primeiros passos como compositor.
Em 1946 compôs com Mano Décio seu primeiro samba-enredo, Conferência de São Francisco, ainda no Prazer da Serrinha. Em 1947, juntamente com Sebastião de Oliveira (Molequinho), Antônio dos Santos (Fuleiro) e outros sambistas, fundou o Império Serrano, que por catorze vezes cantou no desfile sambas de sua autoria. Os mais conhecidos são os do período compreendido entre 1964 e 1969, em que Silas foi hexacampeão de samba-enredo na escola. São dessa fase Aquarela Brasileira, Os Cinco Bailes da História do Rio, Glória e Graças da Bahia, São Paulo Chapadão de Glórias, Pernambuco Leão do Norte e Heróis da Liberdade.
Casa-se em 1944 com Elane dos Santos, sua companheira ao longo da vida, com quem teve sete filhos. Sua vida, como a de muitos outros sambistas, foi caracterizada pela luta diária pela sobrevivência: para complementar o salário do humilde emprego público, cantava em rodas de samba e espetáculos. Foi numa roda de samba no clube ASA, em Botafogo, promovida pelo compositor Mauro Duarte, que morreu do coração, aos 55 anos, no dia 20 de maio de 1972. Seu corpo foi velado na Associação das Escolas de Samba do Rio de Janeiro e em seu enterro, por sugestão do presidente da Portela, Natal, foi entoado o samba Heróis da Liberdade, de autoria de Silas, Mano Décio e Manuel Ferreira, que desde então passou a ser cantado nos enterros de grandes sambistas.
Silas de Oliveira é considerado consensualemente o maior compositor de sambas-enredo de todos os tempos. Seus sambas tiveram gravações na voz de grandes intérpretes e não só os sambas-enredo: Apoteose ao Samba foi gravado por Jamelão, Paulinho da Vila e mais recentemente por Marcos Sacramento, e Senhora tentação (Meu Drama), por exemplo, tornou-se sucesso nacional na voz de Roberto Ribeiro e do compositor Cartola muitos anos após a morte de seu autor."



 Escrito por Marcelo às 11h37
[   ] [ envie esta mensagem ]




Na cabeça

Vocês lembram do Marcelo, um cantor meio breguinha que chegou a fazer algum sucesso bem no começo dos anos 80? Em seu primeiro disco, ele gravou Tempo de estio, do Caetano. Pois bem: o tal Marcelo é autor dessa beleza aí embaixo, que a Gal registrou e - sei lá por que - veio à minha cabeça ontem e ainda não saiu...

"Fogo, luz e paixão"

Marcelo / Ney Costa

"Sou uma estrela brilhando no seio da lua
Sou uma estrela brilhando, sou um pedacinho do sol
Coração sem destino
Preso aos véus da poesia
Sou uma estrela cadente

Faça um pedido ao silêncio
Se alguma vez me encontrar
Faça um pedido ao silêncio
Se alguma vez me encontrar

Sou um cometa vadio manchando o teu nome
Um mistério infinito de fogo de luz e paixão
Aventura sem tino
Mergulhado em fantasia
Sou um cometa vadio

Faça um pedido ao silêncio
Se alguma vez me encontrar
Faça um pedido ao silêncio
Se alguma vez me encontrar" 



 Escrito por Marcelo às 16h32
[   ] [ envie esta mensagem ]




Tutty

Da coluna do Tutty Vasques no site No Mínimo:

"Esclarecimento"

"O livro ‘Prosa Carioca’ não é biografia de Romário. E não se fala mais nisso, caramba!"



 Escrito por Marcelo às 14h22
[   ] [ envie esta mensagem ]




Pra manter o JB no Rio

 
Juntem-se aos jornalistas do Rio contra a idéia insana de transferência do JB, que brindou os leitores com edições históricas, como a da imagem acima) para Brasília. Entre nessa campanha. Acesse o blog do movimento e deixe sua mensagem de protesto. O endereço é www.jornaldobrasil.blogspot.com. Envie mensagens para a direção do JB e repasse a sugestão para os amigos. Este é o texto dos seis mil panfletos que os organizadores do movimento distribuíram domingo num arrastão cívico nas praias do Leblon e Ipanema, e que me foi entregue nas proximidades na barraca do Aleido (Posto 9):
 
"NÃO DEIXE O JB SAIR DO RIO"

"Durante seus 113 anos, o JORNAL DO BRASIL tem sido um dos maiores orgulhos do leitor carioca. Esteve na vanguarda dos movimentos culturais e resistiu com firmeza e dignidade à censura dos governos autoritários. Manteve-se durante décadas como um dos principais formadores de opinião de intelectuais e da parcela mais bem-informada da população do Rio de Janeiro. É, portanto, um dos maiores patrimônios da nossa cidade.

Não é novidade para ninguém que o jornal atravessa momentos difíceis, com demissões e perda de nomes consagrados. Agora, a direção da empresa, por iniciativa do vice-presidente PAULO MARINHO, planeja transferir para Brasília o coração do JB, incluindo a chefia de redação e as principais editorias. Este ato desastrado agravaria o processo de esvaziamento político, econômico e cultural da nossa cidade.

Apesar das dificuldades, os profissionais do JORNAL DO BRASIL têm se esforçado para fazer o melhor. Contamos com seu apoio para preservar a alma carioca do seu JB, com qualidade. Ligue, mande e-mails, proteste. Defenda o Rio e o direito dos jornalistas do JB de produzirem um jornal digno.
Telefones: 3233-4000 (geral) / 2323-1000 (central do assinante) / 3233-4667 (cartas ao leitor)  / 0800-707-2000
E-mails: cartas@jb.com.br  / assinante@jb.com.br.


 Escrito por Marcelo às 14h13
[   ] [ envie esta mensagem ]




Na Tribuna da Imprensa

A Tribuna da Imprensa publicou ontem simpática matéria sobre o Prosas cariocas. Pena que o repórter aproveitou trechos da apresentação e os transformou em declarações minhas. Não custava bater um papo direto, né? Segue o texto:

"O Rio dos novos escritores"

Pedro Henrique Neves

"Poucas cidades do mundo inspiraram tantos artistas quanto o Rio de Janeiro. Na poesia de Carlos Drummond de Andrade e Vinícius de Morais, na música de Tom Jobim ou nas crônicas de Rubem Braga, a cidade sempre foi mais do que um pano de fundo. O livro "Prosas cariocas - uma nova cartografia do Rio", lançado recentemente, apresenta uma coletânea de contos escritos pela mais nova geração de escritores cariocas. A cidade - mais uma vez - é a protagonista de quase todas as 16 histórias.

Como cada conto fala de um bairro, seus autores foram escolhidos pela relação com que tinham com determinada área da cidade. "Cada autor foi designado para escrever sobre o lugar onde mora, já morou ou com o qual tenha afinidade. Quem conhece bem o bairro sobre o qual escreve sabe encontrar seus mínimos defeitos e fraquezas", conta o jonalista Marcelo Moutinho, organizador do livro, ao lado do também jornalista Flávio Izhaki. Os dois assinam contos sobre a Urca e o Catete, respectivamente.

A idéia não era somente mapear os diferentes bairros do Rio, mas também localizar a produção literária da cidade. Por isso, o organizador pensou nos jovens autores, alguns com pouco mais de 20 anos e estreantes. Neste "elenco", a apresentadora Bianca Ramoneda, a festejada escritora Adriana Lisboa e a cronista do TRIBUNA BIS Antonia Pellegrino, que escreveu "Gávea 1983".

Microcosmos

Bairros nem sempre lembrados na literatura tiveram sua vez em "Prosas cariocas", como Jacarepaguá, Pavuna, Madureira e Lins de Vasconcelos. Até a Barra da Tijuca mereceu o seu conto, assinado por Ana Beatriz Guerra. "Cada bairro é um microcosmo que abriga segredos historietas, anseios, decepções. A idéia é contar um pouco sobre a vida que viceja naquele pedaço de cidade `maravilhosa', seja ela maravilhosa ou não", esclarece Moutinho.

Boa parte dos contos explora uma faceta distante do clichê "Rio cidade partida". A violência e a probreza da cidade são, por vezes, deixadas de lado, pois os autores optaram por uma visão mais pessoal dos bairros em seus contos, preferindo escrever sobre a memória íntima que guardavam desses lugares.

No próprio prefácio da obra, os organizadores explicam: "A Cidade Maravilhosa idílica dos cartões-postais não existe. Mas o Rio de Janeiro não é apenas aquele pintado em sangue pelos noticiários. Com fotos e notícias o real escapa. Mas com literatura e ficção, a cidade se desvenda para seus habitantes".



 Escrito por Marcelo às 12h13
[   ] [ envie esta mensagem ]




Cena tocante

Ontem à noite, assistia tranquïlamente no pay-per-view ao chocolate que o Flu deu no Juventude - Roger teve uma atuação simplesmente sensacional, secundado pelos garotos Alessandro e Tiuí (Romário pra quê?) -, quando o narrador alertou para o que acabara de acontecer no jogo São Paulo x São Caetano. Imediatamente, mudei de canal, e então pude acompanhar cada minuto das impressionantes cenas da agonia do zagueiro Serginho. Há muito tempo não via uma imagem tão tocante como a dos jogadores das duas equipes, abraçados, rezando no meio do campo para que Serginho se salvasse. Foi de emocionar mesmo. Nesses momentos, sinceramente renovo minha crença na humanidade...



 Escrito por Marcelo às 11h40
[   ] [ envie esta mensagem ]




Outro poema do Guy

 
No sábado passado, tive a alegria de rever o Guy Corrêa, amigo querido, músico e escritor talentoso que mora em São Paulo. Antes de encontrá-lo, mostrei à Paulinha um de seus livros, e ela gostou muito de um poema chamado Nuvens, que promete postar lá no Gosto de Samba. Tenho muitas afinidades com o que o Guy escreve, com seu olhar algo melancólico e decerto sensível sobre as coisas, a alma embebida de um quê lusitano... Hoje, lembrei deste poema aí embaixo, absolutamente brasileiro. E a foto registra o "café" que tomamos juntos na casa dos imrãos Zaidan no sábado...
 
"Um país"

Guy Corrêa

"Havia um povo com uma dor embutida.

E um pintor, com uma tela menor.

- Como vou pintar o eco dessa gente?

- indagou-se

Sentou-se diante do teorema

e fez-se concentração,

misturando a tinta

para o lacrimejar de seus pincéis

Os dias e os anos se descoloriam

e a obra continuava inacabada

Mas ainda resistiam

um artista - hoje aos fiapos –

e uma nação descompassada

em busca de seu tom"



 Escrito por Marcelo às 14h50
[   ] [ envie esta mensagem ]




Adriana e Flavio

O casal Adriana Lisboa e Flavio Carneiro participará no dia 10 de novembro, das 13h30 às 15h, do ciclo Com a palavra, o escritor, promovido pela Puc-Rio. O evento será gratuito e acontecerá na Sala 102-K.



 Escrito por Marcelo às 14h40
[   ] [ envie esta mensagem ]




Pelesanguecarneossos

Bem sei que o texto é grande, mas achei que era o caso de postá-lo aqui. Trata-se da adaptação que fiz para a peça Pelecarnesangueossos, de Roberto Alvim, dentro do Encontro da Nova Dramaturgia com a Nova Prosa. O original tinha 19 laudas, e tentei, além de "secá-lo", transformar as rubricas em literatura. Devido ao tamanho, serão dois posts seguidos...

Pelesanguecarneossos

A gente sabe quando uma coisa importante vai acontecer. É um tipo de sensação, uma intuição, o corpo sente... Um amigo me contou que, minutos antes de sofrer um acidente de carro, começou a ter dores no braço, justamente o braço que iria perder naquela batida. Outra amiga disse que na noite em que conheceu o futuro marido teve pensamentos esquisitos a tarde inteira, uma euforia romântica que não sabia de onde vinha... É como os caçadores africanos que vi na TV outro dia: antes de contornarem a montanha, sentiram que o tigre ia estar lá, esperando por eles. O monstro, na próxima esquina. Mas não é destino. De alguma forma estranha, é a gente que decide no final das contas, que escolhe continuar, encontrar o monstro, a batida de carro que vai decepar seu braço, o futuro marido que vai nos dar um filho. Não é destino. É escolha, sempre.

As palavras povoaram os pensamentos da jovem Carolina antes de tudo acontecer. Agora, há um branco imenso no lugar das idéias, e um filete de sangue escorre da cabeça, antes de percorrer o resto do rosto e espoucar levemente no chão. A seu lado, Dr. Otávio ajeita o suporte do soro. Dr. Otávio é bom pai-de-família, profissional bem-sucedido, e tem olhar longínquo: depois de anos e anos atendendo aos doentes no hospital onde trabalha, pretende lançar-se em novo desafio: a vida pública, a política, a garantia de saúde para o povo carente. Mais do que um desafio, até: uma vocação.

Dr. Otávio prende a máscara de oxigênio e o tubo do soro nas veias de Carolina sem deixar de emprestar atenção à mulher. O jantar, a aula de cerâmica, o horror estampado nos jornais do dia, o filho Gabriel... Os temas revezam-se até encontrar a moça estendida no centro da sala. "Quem é ela, Otávio?", a pergunta que chega tarde. E Otávio: "Encontrei na estrada, perto daqui. As roupas rasgadas, sangrando muito. Ia sangrar até morrer se ficasse mais um pouco. Possivelmente foi atropelada, ou espancada e abandonada para morrer. Uns animais!"

"Como pode ter gente assim no mundo, meu Deus?", assente Cecília. O Dr. pede que ela telefone para o hospital, pedindo uma ambulância. O caso é sério, talvez de cirurgia. Recomenda também, por precaução, que a polícia seja avisada.

Carolina continua desmaiada no centro da sala, mas o sangue já não escorre com tanta profusão. Otávio a limpara com esmero, e aplicara uma dose de adrenalina para tentar despertá-la. Chegando no hospital, tudo estaria resolvido.



 Escrito por Marcelo às 12h57
[   ] [ envie esta mensagem ]




(...)

Então Gabriel entra na sala. "Vai morrer?", indaga secamente ao pai. "Não, trouxe ela para casa porque era mais perto do que o hospital. Agora, basta aguardar a ambulância", ele responde. O garoto avisa que a mãe não conseguira fazer a ligação para o pronto-socorro. Solícito como de hábito, Otávio prontifica-se a ajudá-la, e ruma para o quarto.

No exato instante em que o Dr. deixa a sala, Gabriel aproxima-se de Carolina e subitamente começa a enforcá-la. Ela tenta resistir, segurando as mãos dele, e é salva porque Cecília retorna ao local. Ao notar a presença da mãe, o garoto lentamente afrouxa as mãos e solta Carolina, que respira com dificuldade. Aparentemente, Cecília não percebera o ataque, pois logo envereda por outros assuntos. Fala ao filho sobre a viagem que anda programando para a família: alguns dias juntos, para o pai descansar do hospital, dos estresses da campanha política...

É quando chega Otávio. Tem o rosto algo assustado, o que logo se explica pela frase pronunciada a seguir: "Descobri o problema do telefone. Alguém cortou o fio, do lado de fora da casa. Por isso está mudo". "Política?", questiona Cecília. "Esses filhos da puta estão pensando que vão me assustar...", rebate ele, para ouvir a repreensão da mulher: "Já pedi para usar essas palavras dentro de casa, Otávio!"

"Perdão", ele concede, e então lembra-se do celular. Estava dirimida a questão.

"Alô, é o Dr. Souto. Preciso de uma ambulância agora, na minha casa. Não, não, tudo bem; foi uma moça que eu encontrei machucada na estrada...". À medida que Otávio fala, Gabriel tenta interrompê-lo. Em vão. Otávio já solicitara a ambulância quando o filho, numa frase cortante, enfim atrai sua atenção: "Pai, fui eu que fiz isso com ela".

O silêncio pesa na sala por quase um minuto. É quebrado por Carolina, que solta um grito estridente. Otávio apressa-se em ver o que se passa com ela, mas Gabriel o detém. "Deixa ela, pai! Deixa ela! Mais meia hora e ninguém nunca vai saber!", grita o menino, ao passo que o Dr. tenta de todo jeito se desvencilhar. De volta após conferir o corte no fio do telefone, Cecília flagra a cena: "O que está acontecendo, Otávio, pelo amor de Deus?!".

Toca o telefone do Dr. Mais uma vez, a sala põe-se em silêncio. "É ele. Tá certo: 30 minutos. A polícia também... Obrigado". Otávio desliga. Os três permanecem imóveis. Movida pela adrenalina aplicada pelo médico, Carolina delira, dizendo coisas desconexas sobre casamento, filhos, um cachorro, o lar, uma noite de lua nova...

Gabriel preocupa-se. Acha que ela o reconhece. Os pais, entre atônitos e desesperados, querem saber como tudo aconteceu. Ele explica que esmurrou rosto dela, chutou seu corpo, bateu a cabeça no chão até que ela se calasse, e então empurrou o corpo ladeira abaixo. A mãe exaspera-se: "É um demônio! Um demônio!". O pai contemporiza: "É só uma garoto. É o nosso filho...". Gabriel apenas repete: "Vocês vão me entregar? Me entregar aos urubus?".

Otávio e Cecília simplesmente não conseguem assimilar os motivos do ato insano do filho. Ela se lamenta por ter dado luz a um monstro. Por não ter conseguido ir até o fim. Agora, é Gabriel quem não entende: "O que ela está dizendo, pai?". "Matar você!", rebate a mãe, aos berros, "Matar você!". Até que Otávio os interrompe - "Essa história está enterrada, enterrada para sempre" - e suplica à mulher que encerre a discussão.

Cecília recorda-se do ódio que sentia quando, ainda bebê, Gabriel a mordia, sugando seu leite, chorando a noite toda, gritando como um gato... E lembra também de Otávio chegando a tempo de evitar o pior. "Se tivesse matado, matado ele naquela hora", lastima-se. "Depressão pós-parto, é um distúrbio neurótico, uma doença, uma psicopatologia", explica o Dr., voltando-se para o garoto.

Diante da revelação, Gabriel parece compreender o ódio que sempre sentiu por tudo e por todos. O pai abraça-o e tenta acalmá-lo: "Meu filho, quando a polícia chegar, você vai ter um advogado, o melhor. Mas vai ser julgado pelo que fez com essa pessoa". O garoto reage: "Você vai me enterrar vivo, pai? Vai me matar, terminar o que a louca começou?". O Dr. se justifica, ressaltando que é um médico respeitado, que seu objetivo maior é salvar a vida das pessoas, mas Gabriel retruca: "Os pais do assassino. É o que os jornais vão publicar, o que as pessoas vão dizer".

No auge da confusão, naquela ínfima medida de tempo em que são feitas as mais difíceis escolhas, Otávio lembra-se de uma máxima de Kant: "Age sempre de modo que o motivo da tua ação seja a vontade de Deus". Mas qual seria a vontade de Deus? Ele não sabia.

A algaravia segue com os três trocando frases que servem tão-só para distribuir culpas. O Dr. então troca o pensamento pela ação: caminha lentamente e aproxima-se de sua maleta, de onde retira um frasco com líquido e uma seringa. "O que você está fazendo?", indaga Cecília. Ele garante: a menina morrerá por asfixia, que não será detectada em nenhum exame. E completa: "Assinarei o laudo: morte por politraumatismo".

Quando Otávio prepara-se para dar a injeção, Carolina desperta. "Que lugar é esse? Minha cabeça, meu corpo todo dói; minha família, meu noivo". Ele tenta serená-la: "Já vai acabar, querida". Gabriel insiste para que o pai faça logo o "serviço", alertando que a polícia está chegando. Cecília, agora, o apóia: "O que você está esperando, Otávio?". Mas Otávio resiste: "Eu não posso fazer isso! Sou um médico, Cecília, não posso matar! Ela é uma pessoa, um ser humano!"

O embate desenrola-se em poucos segundos, até que Gabriel de modo sagaz acena com a pecha da execração pública: "Ela vai contar tudo para a polícia, para os jornais, vocês serão ‘os pais do assassino’!".

Otávio pensa no pecado, em Kant, nos olhos de Deus, e hesita em aplicar a injeção. Os três já podem ouvir o som da sirene da ambulância que se aproxima, e o Dr. então se toca: o líqüido precisa de dez minutos para agir no sangue. Os médicos chegarão antes.

Carolina aproveita-se e tenta gritar por socorro. Otávio corre até ela e fecha a sua boca com as mãos. Em seguida, Cecília e Gabriel fazem o mesmo, e pressionam o rosto de Carolina, que se debate febrilmente sobre a mesa. O som da sirene aumenta até que o barulho acaba e a porta se abre. Os três então soltam Carolina, que permanece imóvel.

Otávio informa aos médicos que a moça não resistiu. "Minha família e eu tentamos salvá-la. Tentamos de tudo, mas...". Os médicos lamentam - e se vão.

O cadáver de Carolina ainda jaz sobre a mesa quando o Dr., choroso, comenta: "Nós não temos mais alma". A esposa carinhosamente o repreende: "Você tá errado, querido. Nós ainda existimos, ainda estamos aqui".

Cecília aposta que conseguirão viver, talvez ainda com mais harmonia, a partir de agora. E fica praticamente certa disso ao ouvir Gabriel dizer que a perdoa.

"A violência, meu Deus, cada vez mais próxima de nossas casas, de nossas famílias. Se esse quadro não se alterar nas próximas eleições, qual de nós vai ser a próxima vítima?", Otávio pensa. O Dr. abraça carinhosamente o filho e a mulher. Pela fresta da janela, Cecília vislumbra a imagem da lua, apontando com o indicador para o céu. Otávio e Gabriel olham na mesma direção. Os três sorriem. Ela então aperta-os um pouco mais entre os braços e sussurra: "Estamos juntos nesse mundo. Agora eu sei, sei quem somos nós. Unidos. Juntos. Uma família. Finalmente."



 Escrito por Marcelo às 12h56
[   ] [ envie esta mensagem ]




Tempo de galos

Terminei ontem de ler a Beatriz Bracher. Já quase no fim de Não falei, ela constrói uma passagem linda, linda mesmo, citando o poema que mais gosto do João Cabral. Foi uma lembrança boa, e que acabou servindo como contraponto poético ao lamentável episódio com a dupla dinâmica Duda Mendona e Jorge Babú.

"Tecendo a manhã"

João Cabral de Mello Neto

"1.
Um galo sozinho não tece uma manhã:
ele precisará sempre de outros galos.

De um que apanhe esse grito que ele
e o lance a outro; de um outro galo
que apanhe o grito de um galo antes
e o lance a outro; e de outros galos
que com muitos outros galos se cruzem
os fios de sol de seus gritos de galo,
para que a manhã, desde uma teia tênue,
se vá tecendo, entre todos os galos.

2.
E se encorpando em tela, entre todos,
se erguendo tenda, onde entrem todos,
se entretendendo para todos, no toldo
(a manhã) que plana livre de armação.

A manhã, toldo de um tecido tão aéreo
que, tecido, se eleva por si: luz balão"



 Escrito por Marcelo às 12h25
[   ] [ envie esta mensagem ]




O rei está nu

. Por que grandes jornalistas (com o Marceu Vieira) não tem espaço nos grandes jornais e a gente precisa aturar colunistas publicando textos fraquíssimos sobre temas "revelantes" como "pombos"?;

. Por que há resenhas literárias que não falam de literatura?;

. Por que um caderno cultural dedica duas páginas inteiras a colunistas sociais?;

. Por que a mais importante revista do país insiste em manter como colunista um arremedo de Paulo Francis?;

. Por que os jornais não publicam mais crônicas?;

. Por que uma coluna que deveria tratar das coisas bacanas da cidade está virando uma espécie de sucursal da Hildegard Angel?.

Vocês podem acrescentar mais perguntas nos comentários...



 Escrito por Marcelo às 11h20
[   ] [ envie esta mensagem ]




O samba do D2

Ainda não tinha elogiado aqui o Acústico que o Marcelo D2 lançou recentemente. No disco, a mistura de rap com samba ganha também um acento jazz, através do piano espertíssimo do amigo Phillippe Baden Powell. Hoje, no site No Mínimo, o Paulo Pires comenta sobre o c. Mais uma vez, o Paulo é mais preciso em sua análise. Tão preciso que resolvi reproduzir a coluna dele aqui:

"A maldição do samba"

Paulo Roberto Pires

"O Acústico MTV de Marcelo D2 traz de volta a provocação de um dos melhores discos do ano passado, o premiado "À procura da batida perfeita". Limpo dos scratches e dos samples, o som que se ouve nesta versão "unplugged" ressalta ainda mais os hibridismos entre e rap e samba que têm sido a obsessão do ex-vocalista do Planet Hemp e, de muitas formas, reafirma sua importância no momento em que o samba volta a ser eivado dos valores nacionais populares que, nos anos 1960, já haviam marcado sua aproximação da classe média intelectualizada.
Não fiz a pesquisa empírica mas, de memória, acho que nos últimos dois anos foram lançados, sem exagero, mais de 50 discos de samba. Pois bem: se o mundo acabar amanhã de manhã e, alguns séculos depois, arqueólogos tentarem reconstituir nossa época, chegarão à conclusão que o samba vive, no início do século XXI, um apogeu não visto nem mesmo nas épocas de Noel Rosa ou Ataulfo Alves. Pois tirando os CDs de artistas ligados ao samba-mauriçola ou aos novos pagodeiros, rigorosamente todos os lançamentos recentes são enaltecidos, elogiados, devidamente integrados a um mesmo e quimérico movimento de "revitalização do samba".
Há 40 anos era perfeitamente compreensível que se buscasse a cultura popular "autêntica" como parte de um projeto político no qual o intelectual de classe média assumia a "direção" do movimento de conscientização do "povo" (aspas necessárias) para seus próprios valores e cultura. Era a época em que se "descobria" nos morros gente como Zé Kéti ou Nelson Cavaquinho, em que o garoto da Zona Sul carioca abria os ouvidos e olhos para misturar classes, valores e sonoridades. Equivocado ou não, tratava-se de um movimento vitalista, de busca de novos horizontes para a cultura.
O anacronismo de hoje, para o qual Marcelo D2 é o antídoto perfeito, é a tomada de uma atitude parecida, só que totalmente desconectada dos movimentos da História. É incrível, mas ainda se fala em "resistência" do samba, "pureza" e "autenticidade". Mas raramente esta mesma classe média olha para quem está produzindo samba agora, a seu lado: a exaltação é, com raras exceções, ao passado, ao eterno embrenhar-se na "pesquisa" e na defesa populista do samba como a ponta de uma espécie de cultura marginal sempre em risco de extinção – quando ela é hoje muito, mas muito próxima mesmo do mainstream. Afinal, o samba hoje resiste a quê? Defende-se de quem?
"Resitência cultural casa do caralho", esbraveja D2 em "A maldição do samba", ela mesma uma ironia: procurar a batida perfeita é, como defende o cantor, deixar-se tomar pela "maldição" e embrenhar-se nas muitas misturas que ela propicia. "O MC que é partideiro o bumbo que vira scratch", versa ele, que no disco da MTV espertamente substituiu os scratches por efeitos "corporais". Em cada uma das faixas do novo disco, estas misturas dependem menos da parafernália do que da excelente qualidade da banda e da ótima forma de D2 como cantor, "dizendo" sem embolar suas letras quilométricas e inteligentíssimas.
A "mistura de Racionais com Orquestra Tabajara", como define a letra de "Encontro com Nogueira", é irresistível. Consegue ficar num difícil equilíbrio entre os dois gêneros que cultua: aqui o hip hop não serve para "modernizar" o samba e este não está aqui simplesmente para "aclimatar" o primeiro. O que torna a síntese perfeita é exatamente o apagamento das fronteiras e não a "rendição à tradição" que se insiste em ver quando artistas pop estão fazendo o que os museólogos não conseguem: tocar pra frente um samba vivo e livre de receitas passadistas."



 Escrito por Marcelo às 17h01
[   ] [ envie esta mensagem ]




Mais blogs

Hoje, em dia de mudanças por aqui, estréiam também quatro novos links. Inveja de gato é o blog da amiga Antonia Pellegrino, que participou comigo e tantos outros autores do Prosas Cariocas. Também na coletânea, a amiga Mara Coradello mantém o Caderno Branco de Mora Mey. Fecham a nova lista os blogs Cartas de hades e Cordas de aço, respectivamente dos amigos Mariana Blanc (jornalista e filha do mestre Aldir) e Lucas Porto (violonista de primeira e, acima de tudo, um camarada muito bacana.

 Escrito por Marcelo às 14h03
[   ] [ envie esta mensagem ]




Camaleão

Não se assustem: esse blog está mudando de pele...

 Escrito por Marcelo às 11h36
[   ] [ envie esta mensagem ]




Tom inédito

 

A Biscoito Fino anuncia o lançamento de um cd inédito de Tom Jobim. O disco registra show realizado em 1981 no Palácio das Artes, em Belo Horizonte. Só com piano e voz, Tom apresenta clássicos como Samba de uma nota só, Por causa de você, Estrada do sol, Modinha, Retrato em preto e branco e Lígia. Pelo visto (e infelizmente), nenhuma grande novidade... As pré-vendas já estão sendo feitas através do site da gravadora.



 Escrito por Marcelo às 11h10
[   ] [ envie esta mensagem ]




Da série 300 toques - Número 14

Recado

"Alô, aqui é a Renata. No momento não posso atender. Deixe seu recado após o sinal que retorno assim que puder ". Pela sexta vez a secretária repetia a frase, e ele desligava, sem falar. As palavras ganhavam peso ao cruzar o fio, mas ainda eram mais leves que o silêncio.

Ligaria outras vezes.



 Escrito por Marcelo às 14h27
[   ] [ envie esta mensagem ]




Amor e paixão

Muito bom o artigo de Luiz Paulo Horta (claramente embedido da perspectiva cristã), publicado em O Globo de ontem:

"Amor e paixão"

Luiz Paulo Horta

Escrevendo sobre o prêmio Nobel de Literatura Isaac Bashevis Singer, diz o crítico Joseph Epstein: “Em diversas entrevistas, Singer afirmou que a melhor história é uma história de amor. Curiosamente, ele tendia a escrever não sobre o amor, mas sobre a paixão, que está longe de ser a mesma coisa. Como um personagem em um de seus contos diz ao narrador, que podia ser o próprio Singer, ‘você escreve sobre o amor, mas não sabe o que é isso. Desculpe, mas o que você descreve é a paixão, e não o amor, que faz sacrifícios e amadurece ao longo dos anos’.” Comenta Epstein: “Como se vê, talvez o melhor crítico de Singer seja o próprio Singer.”
O amor/paixão sempre foi o grande tema da literatura ocidental, desde aquela antiquíssima história que é “Tristão e Isolda”, e que trata de uma paixão irrealizada. Depois disso, o amor romântico inundou a literatura, e deixou na sombra o que seria um outro tipo de amor, mais tranqüilo, mais duradouro. Por exemplo, “Anna Karenina” é um romance que descreve o amor relativamente impossível entre Anna e Wronsky, seu amante. Na Rússia daquele tempo, o adultério ainda pedia punição severa — e, não por acaso, a epígrafe do livro é uma frase terrível da Bíblia: “Eu me reservei a vingança, diz o Senhor.” Nos “Irmãos Karamazov”, a grande história de amor também é um caso típico de paixão — a atração que sobre Dmitri Karamazov exerce a volúvel Gruschenka, paixão que destrói o apaixonado, que o leva ao crime. E assim nos alimentamos de histórias românticas; e confundiu-se a realidade do amor com a da paixão, como registra o personagem de Singer.
Podia ser diferente? Em outras culturas, sim. Na Índia tradicional, por exemplo, a paixão era considerada antes um motivo para não casar do que o contrário. O casamento hindu era arranjado entre as famílias. E mesmo no Ocidente, até uma época relativamente recente, os pais ainda influíam no casamento dos filhos.
Antes que você diga, ou pense, que o articulista enlouqueceu: não estou defendendo um retorno aos velhos tempos. Mas a verdade é que agora chegamos ao outro extremo: as uniões não passam pelo teste da estabilidade. E uma das razões para isso é a confusão entre a idéia de paixão e a de amor.
Voltemos ao personagem de Singer: “O que você descreve é a paixão, e não o amor, que faz sacrifícios e amadurece ao longo dos anos.” É um bom ponto de partida. Sim, é verdade: pelo menos no início, é difícil separar o amor e a paixão (e por que deveriam ser separados?). Parece que eles começam juntos — e por isso a gente diz que “o amor é lindo”. É aquele frisson, aquela coisa “de pele”, aquele arrepio interior provocado pelos motivos mais simples. A natureza é sábia nessas coisas, não precisa de processos complicados.
Mas por que não seriam simplesmente sinônimos a paixão e o amor? Porque a paixão não está ligada a nenhuma idéia de estabilidade. Pelo contrário, ela tem a natureza do fogo, é mutável e ardente como o fogo. (Vejam o delicioso romance de Arthur Dapieve, “De cada amor tu herdarás só o cinismo”, que a Objetiva acaba de publicar; um caso típico de paixão desestruturante.)
Já o amor tende ao enraizamento. Entra, aqui, outro truque da natureza, que usa a paixão como uma introdução para o amor. O impulso arrebatado da paixão costuma ser uma oportunidade para um encontro mais profundo, que já seria, por exemplo, o encontro de duas pessoas, e não só de dois corpos em êxtase.
Era com esse jogo que contavam épocas mais estáveis do que a nossa. Ainda no tempo de nossos avós, a chegada dos filhos, por exemplo, seria um motivo para que um casal pensasse a sua união de um modo mais consistente, ainda que mais prosaico — pois é evidente que, com filhos pela casa, nem tudo se resume à paixão. Instala-se uma certa “domesticidade”. Tanto a mulher quanto o marido passam a ter tarefas que já não são “românticas” — acordar de noite porque o filho está com febre; descobrir qual é a melhor escola da vizinhança; arranjar dinheiro para as despesas da casa.
Tudo muito “família”. Mas nessa acumulação de atividades prosaicas, surgia o grande desafio: transformar a paixão em amor.
E nessa mesma sucessão de tarefas está embutida a proposta principal: a da superação do egoísmo, a passagem do amor que simplesmente recebe para aquele que é capaz de dar.
Nessa possibilidade, as grandes culturas humanas jogaram todas as suas fichas. Todas elas, de um modo ou de outro, perceberam que o caminho para o pleno desenvolvimento da personalidade é a descoberta do Outro — seja o ser humano que está mais próximo de você, seja a Cidade que é preciso construir, seja um Outro ainda mais elevado, que é o nível da transcendência.
Talvez o problema, hoje, e não só no plano da relação entre duas pessoas, é que fomos sendo encurralados pela lógica da paixão, pelos mecanismos do desejo (e temos uma civilização de consumo cuja principal ocupação é atiçar o desejo).
Parece ter ficado só a idéia da combustão inicial — do fósforo antes que o fogo alcance a madeira. E o estranho paradoxo é que, neste sentido, há um momento em que a paixão pode se tornar inimiga feroz do amor verdadeiro."



 Escrito por Marcelo às 12h17
[   ] [ envie esta mensagem ]




Nova edição do encontro

Hoje é dia de prestigiar os amigos Flávio Izhaki e Antonia Pellegrino no Teatro Café Pequeno: eles apresentarão suas adaptações para as duas peças do pessoal da Nova Dramaturgia, e verão como ficou a leitura dramatizada de seus contos. É a segunda semana do projeto A nova prosa encontra a nova dramaturgia carioca, do qual eu e Cuenca participamos na semana passada. Às 21h. 

 Escrito por Marcelo às 11h16
[   ] [ envie esta mensagem ]




Prosas, por Carla Rodrigues

Hoje, no site No Mínimo, foi publicada a resenha da Carla Rodrigues sobre o Prosas cariocas. Segue o texto:

"Cariocas nem sempre são bacanas"

Carla Rodrigues

"Quem é o verdadeiro carioca? Em tempos de exaltação da pluralidade, está na hora de dar um fim nessa idéia de que a carioquice existe. Cada morador desta cidade – tenha nascido aqui ou não – se atribui, muito justamente, diga-se de passagem, o direito de definir o que é ser carioca. Todas as visões que partem do princípio que "carioca sou eu" são excludentes das múltiplas possibilidades do exercício da carioquice. Nessa exclusão do Outro se funda, por exemplo, a idéia de que o "verdadeiro" Rio de Janeiro é o que habita o grande qualidrilátero que tem como linhas de fronteira a rua Farme de Amoedo, de um lado, o canal do Leblon, do outro, as praia de Ipanema e Leblon, abaixo, e as franjas da floresta no Jardim Botânico e na Gávea. A Zona Sul como emblema do Rio de Janeiro é mais uma maneira de partir a cidade partida do jornalista Zuenir Ventura.

Em "Prosa carioca – uma nova cartografia do Rio de Janeiro" (Casa da Palavra, R$ 27, 144 págs.), 17 autores se dividem para falar da cidade, sempre a partir da perspectiva de um certo bairro. A divisão geográfica é para lá de democrática, e inclui subúrbios tradicionais, como Lins de Vasconcelos e Madureira, bairros relativamente novos, como Jacarepaguá e Barra da Tijuca, bairros já decadentes, como Catete e Copacabana, e os típicos lugares de badalação, como Gávea e Leblon. Paradigma de uma cidade cosmopolita e dos "cariocas bacanas" de Adriana Calcanhoto, o Leblon que hoje figura nas páginas do noticiário policial toda semana aparece não apenas no texto que lhe é oficialmente dedicado ("A varredura", de Juva Batella). O bairro é personagem de outros textos, nos quais faz contraponto com essa idéia de que o bairro possa vir a sintetizar – e portanto, também excluir – o espírito carioca.
Esse olhar crítico sobre o Leblon quem apresenta é a jornalista Bianca Ramoneda, na crônica "Quando se muda". Moradora do bairro da Muda, que ela define como "um pequeno bairro na enorme Tijuca", Bianca conta sua trajetória de migrante: sair da Zona Norte para a Sul, trocar o "provincianismo tijucano" pelo "cosmopolitismo do Leblon", e se ver obrigada a achar natural, por exemplo, encontrar o Chico Buarque na fila do supermercado. Fato que, na Tijuca, renderia assunto para semanas de conversa com os vizinhos. Desta mudança de um ponto a outro, cuja distância é muito maior do que os 30 quilômetros que separam os dois bairros, Ramoneda diz: "Hoje, não acredito nem na pobreza romântica de quem vê de longe a zona norte, nem na plástica sorridente de quem vê de longe a zona sul. E me sinto estrangeira em ambos os pontos da cidade."
Sentir-se estrangeiro é exatamente o oposto de sentir-se carioca, de experimentar essa suposta democracia das calçadas, a leveza do encontro casual, a frouxidão de laços e a rigidez de clubes invisíveis nos quais não se entra assim tão fácil, apesar do mito da hospitalidade local. É desta contradição entre o privilégio da Zona Sul sobre a Zona Norte que brota, também, o bom "Ilha debaixo da terra", de Cecilia Giannetti. "Imagino a quantidade de corpos que migram para a Ilha depois de mortos, pela Linha Vermelha, pela avenida Brasil, vindo dos subúrbios vizinhos, vizinhos que atiram uns nos outros em guerras do tráfico que varam as noites nessas estradas. A Ilha é diferente da Zona Sul em quê?", pergunta ela, reforçando as vozes que enxergam na glamurização da Zona Sul mais do que um desvio, uma violência de exclusão do "resto". A cidade não é só partida em diferenças sociais e econômicas, dessas que se pode medir com estatísticas do IBGE. O Rio de Janeiro é um lugar culturalmente dividido entre "nós" e "os outros", e a grande disputa está em quem terá a hegemonia para dizer "nós" e, assim, determinar quem são os indesejáveis outros."


 Escrito por Marcelo às 11h12
[   ] [ envie esta mensagem ]




Roberto Ribeiro

Para entrar no clima do show de mestre Wilson das Neves, ao qual assistirei daqui a pouco, andei fuçando sambas na net. Inesperadamente, acabei encontrando uma das canções que mais gosto no ótimo repertório de Roberto Ribeiro. Procurava essa letra há tempos! Raramente ouço-a nas rodas. Pra falar a verdade, creio que só a escutei uma vez, cantada pelo sempre atento Alfredo Del Penho. Também desconheço completamente os dois autores, Jorge Macedo e Zelito. Alguém sabe quem são? Como bem salientou o amigo Fernando Toledo, os versos do samba têm um clima drummondiano... 

"Coisas da vida"

Jorge Macedo e Zelito

"E o sol já não brilha

As flores sem perfume

Natureza ausente

Numa vigília afora

Numa vigília afora

Numa vigília afora

Um pandeiro calado

Um cavaco quebrado

Um apito entupido

Um surdo sem marcação

Uma sandália esquecida

Num terreiro vazio

Uma vela se apaga

Num pires cheio de pó

Há uma mosca que enjoa

Há mau cheiro na vala

Quando sujo na mesa

A toalha em que limpo a cara

E se parar pra pensar

Nas coisas tristes da vida

No peito a tristeza que dói

Assim eu levo meu pranto

Sagrando em desencanto

E quando alerto pra vida

É obra de pura puro espanto"



 Escrito por Marcelo às 19h14
[   ] [ envie esta mensagem ]




Batuque na cozinha (o livro)

Depois de lançar o bacana Heranças do samba (de Aldir Blanc, Hugo Sukman e Luiz Fernando Carvalho), a Casa da Palavra faz na próxima terça-feira sua nova investida no gênero "literatura sobre música popular brasileira". Trata-se de Batuque da cozinha, livro do jornalista Alexandre Medeiros, que foi escrito paralelamente ao curta-metragem homônimo. A obra narra um pouco da história das tias da Velha Guarda da Portela - Eunice, Doca e Surica - e traz receitas dos incermentados pratos que elas costumam fazer para matar a fome dos participantes das rodas-de-samba. O lançamento acontecerá no Armazém Digital, a partir das 18h.



 Escrito por Marcelo às 17h15
[   ] [ envie esta mensagem ]




Madureira no Estação Cultura

 

Muito boa, mas muito boa mesmo a matéria que o amigo Anderson Baltar escreveu para o jornal Estação Cultura. A publicação ainda está em fase experimental, mas a idéia é fazê-la circular pelos trens do Rio de Janeiro, com pauta voltada para os bairros do subúrbio. Uma bela idéia, aliás. No projeto está também outro amigo, o Leonardo Lichote, que descobriu um cineclube em Caxias. A reportagem do Anderson, fartamente ilustrada, está na capa e fala sobre meu bairro de origem, a querida Madureira de Império e Portela e de muita gente boa. Quem quiser conferir o texto dele, do Lichote e outros tantos pode acessar a versão virtual do Estação Cultura.

P.S. Nas fotos, respectivamente o morro da Serrinha e a feijoada da Vellha Guarda da Portela... 



 Escrito por Marcelo às 16h41
[   ] [ envie esta mensagem ]




Sady

Mas o mais curioso da matéria da Programa foi o box dedicado ao mítico Sady, com quem (pelo menos eu achava) estudei na Facha. Quanto entrei para a faculdade, em 1990, ele já estava lá. Quando saí, quatro anos depois, continuava pintando no campus. Quem circulou pelo circuito da boêmia carioca durante a década de 90 chegava a se impressionar com a capacidade de multiplicação da figura. Você saía do Baixo Gávea, onde ele marcava ponto, para tomar uma cerveja no Plebeu e encontrava-o na porta. POr essa razão, chegou a ser "homenageado" no filme Como ser solteiro. A repórter do JB foi investigar por onde o Sady Bianchin anda atualmente. E a resposta é: na faculdade. Só que agora dando aula. Na verdade, o que mais me espantou nisso tudo foi saber que, apesar dos anos e anos freqüentando a Facha, ao que parece ele não se formou lá, já que a reportagem informa que seus bacharelados são em Teatro pela Uni-Rio, Ciências Sociais pela UFF e eComunicação Social pela UFRJ. O que será ele fazia então lá na Hélio Alonso todo dia?



 Escrito por Marcelo às 12h14
[   ] [ envie esta mensagem ]




Figurinha fácil

A Revista Programa, do Jornal do Brasil, traz hoje matéria de capa sobre indivíduos que são assíduos freqüentadores dos mundos do rock, da música eletrônica, da cena alternativa, dos points mais mauricinhos e de outros cantos da cidade. Como "figurinha fácil" do samba, a repórter Catharina Epprecht escolheu este que vos escreve. Mereci o adjetivo de "folião" (rs) e uma foto ao lado da Paulinha. Só não precisava colocar em cima do box com o lugares que indiquei o título Só no sapatinho... Seguem a matéria principal e a subretranca comigo:

"Em todas"

Catharina Epprecht

"Juliana Zommer nunca esbarrou com Julinho Reinaldo Graúna na noite carioca. Tampouco deve ter visto Sérgio Careca num afterhours, bebido uma cerveja no mesmo balcão que Jonas Sá ou soltado o gogó na quadra da Portela a poucos metros do folião Marcelo Moutinho. Os cinco, porém, são conhecidíssimos em suas turmas. São personagens ilustres, figurinhas fáceis de cada uma das tribos noturnas cariocas, vistos a toda hora, por todos os lugares - na linguagem universal, são os Wallys, o personagem dos quadrinhos que sempre se escondia na multidão; na carioca, uma espécie de novos Sadys, aquele poeta boa-praça que parecia ter o dom da onipresença em meados da década de 90. Encontrá-los na noite é sinal de lugar certo, badalado, popular.

Os limites dessas figurinhas carimbadas são largos, as noites em casa, rarissímas. Julinho, por exemplo, vai, numa mesma semana, a shows no Claro Hall, na Barra, e no inferninho Garage, na Praça da República, e dança na festa Alien Nation, na Sygno, em Copacabana. Sempre com flyers à mão, divulga shows de bandas desconhecidas nos subúrbios cariocas. Juliana, símbolo da juventude dourada carioca, transita pelas boates mais caras da Zona Sul. Marcelo Moutinho é habituê da Lapa, mas, uma vez por mês, estica as pernas até os sambas em Madureira. Jonas Sá curte cinema e shows, num circuito alternativo, com passadas no Sérgio Porto e mostras de cinematecas no Centro, e Serginho transita pelas boates de música eletrônica.

O quinteto não hesita em apontar a música como o principal indicador para traçar um bom roteiro noturno. ''Escolho os lugares que não tocam apenas as 20 mais pedidas, os hits mais populares. É bom ir para um lugar e lá curtir aquela música que você não ouvia há tempos, ser surpreendido'', explica Marcelo Moutinho. Outro quesito para uma noite feliz é o encontro com os conhecidos, que volta e meia esbarram neles. ''Gosto de estar na rua, com as pessoas, ver todo mundo reunido'', afirma Jonas. Um terceiro ponto é a ''democracia do lugar'', em que cada um puxa a sardinha para a sua brasa. ''Nas casas de samba, vai a patricinha e o suburbano'', discursa Moutinho. ''Hoje, a noite underground recebe todo mundo sem preconceito. Vai o povo da música eletrônica, do rock, do hip-hop'', defende Serginho.

Fugir das roubadas é outra arte conquistada com a experiência de noites e noites na rua. ''Não gosto de lugares que não têm muita comida. Geralmente, só há bebida e as pessoas passam a noite enchendo a cara'', dá a dica Julinho para evitar as confusões que de vez em quando viram notícia. ''É muito chato conhecer um lugar e ver que, depois de virar moda, os preços aumentam e fica sempre lotado'', reclama Jonas Sá. Espaços com tendência elitista também são evitados por esses personagens da noite carioca. ''Fila é chato, mas fazer carteirinha VIP é muito pouco democrático'', teoriza Moutinho. Já as festas que viraram símbolos de transtorno, como as raves, volta e meia canceladas na última hora, são descartadas.

Mesmo assim, virar figurinha fácil tem lá suas vantagens. Seja com o segurança que facilita a entrada, seja com o barman que serve drinques com mais rapidez. ''Como estou sempre nesses lugares, conheço todo mundo. Tanto os freqüentadores, quanto as pessoas que trabalham lá, como o povo do bar, os seguranças e os promoters'', diz Juliana.

A receita do quinteto para manter o pique é simples: dormir pouco. Juliana, por exemplo, sai mais nas férias, mas já houve época em que saía nos sete dias da semana, depois de trabalhar entre as 10h e as 16h e estudar das 17h às 20h. ''A gente sempre dá um jeitinho'', conta.

O dom da onipresença na noite carioca ganha a definição - poética, claro - do sumido Sady: ''O Mário de Andrade também tinha essa fama, de estar em todos os lugares ao mesmo tempo. As pessoas afirmavam vê-lo sempre e às vezes os discursos eram desencontrados. E, sobre isso, ele respondia: 'Eu não sou um, eu sou 350. E talvez um dia, eu possa me encontrar''', filosofa."

"Só no sapatinho"

"Quem freqüenta o circuito de samba provavelmente já esbarrou com o escritor e jornalista Marcelo Moutinho, 32 anos e 12 de noite. Ele bate ponto em casas badaladas da Lapa, como o Sacrilégio, o Semente e o Carioca da Gema, mas também vai ao Centro Cultural Carioca e ao bar Bip-Bip, em Copacabana. É fanático pela Império Serrano, apesar de já ter escola para desfilar no ano que vem: a Vila Isabel. ''A Vila está voltando. A gente tem que prestigiar'', diz, abrindo um sorriso meio simpático, meio envergonhado. Mesmo sem ir tanto aos ensaios, não se afasta das quadras e mensalmente vai - e recomenda - a Feijoada da Velha Guarda da Portela, realizada sempre no primeiro sábado de cada mês. ''Por uns R$ 10 é possível ouvir música boa e comer bem''.

Carioca da Gema-Rua Mem de Sá, 79, Lapa (2221-0043). Capacidade: 300 pessoas. Idade mínima: 18 anos.

Bip-Bip- Rua Almirante Gonçalves, 50, Copacabana (2267-9696).

Feijoada da Velha Guarda- Rua Clara Nunes, 81, Madureira (2489-6440). Primeiro sábado do mês, das 13h às 20h. Entrada: R$ 6 (masc.), R$ 3 (fem.). Feijoada: R$ 6. Cap.: 10 mil pessoas."



 Escrito por Marcelo às 12h12
[   ] [ envie esta mensagem ]




Escrevendo, escrevendo...

Matérias, resenha e um conto. Por isso, posts só amanhã, tá bom?



 Escrito por Marcelo às 16h19
[   ] [ envie esta mensagem ]




Um acerto e um erro

Em Desconstrução mortal: Derrida e Sabino, texto publicado no site No Mínimo, Mario Sergio Conti acerta ao comentar aspectos hilariantes da relação dos jornais com o óbito de personalidades. Infelizmente, em seguida erra feio ao reduzir O encontro marcado a "um livrinho para adolescentes mineiros pré-anos 60". Seguem o interessante trecho inicial e o lamentável ataque ao romance de Sabino.

"Jacques Derrida preparou-se para morrer. Enquanto seu câncer no pâncreas deu trégua, ele colaborou com um documentário sobre si mesmo, deu uma longa entrevista ao “Monde”, supervisionou à distância a publicação de uma revista a respeito da sua obra, apareceu num debate na televisão. Com tudo publicado e exibido, morreu.

Uma morte à lá Mitterrand, que também esperou seus últimos dias para finalmente explicar (parcialmente) o que fazia quando os nazistas ocuparam a França e para esclarecer que tinha uma filha fora do casamento.

Como a imprensa estava preparada, foram longos e bem editados os cadernos especiais, perfis e páginas de avaliação de Derrida. Estava a imprensa preparada em exagero, até. O “Monde”, por exemplo, havia publicado três semanas antes a sua longa entrevista com o filósofo. E como era boa, republicou-a na íntegra. Com um bom adendo: um comentário do entrevistador, contando que, ao reler e emendar o texto, Derrida reclamou: “parece uma entrevista póstuma”. O que pode inaugurar um gênero: a entrevista pré-póstuma.

(Desse embaraço escapou Lévi-Strauss. No ano passado, pulularam cadernos, revistas, entrevistas na televisão, perfis vários etc. do etnólogo. Deve estar para morrer, pensei. Como não estava, o surto de publicações permaneceu inexplicado, pois nem havia uma efeméride ou obra inédita para justificá-los.)

A estratégia do pré-póstumo combina dois procedimentos. Um, dos vivos, sobretudo dos abutres da imprensa. Como se sabe que o bom necrológio é o escrito com antecedência, o féretro dos cadáveres ilustres é preparado com denodo e paciência. Quando ele fica pronto, e corre o rumor de que o objeto está prestes a bater as botas, alguém tem a brilhante idéia de tentar fazer confluir a morte com o necrológio. Quando os ponteiros confluem, no entanto, o resultado é grotesco. Caso da capa com Jorge Amado que “Época” estampou no dia que o escritor morreu.

O segundo procedimento é o sujeito que se sabe à véspera da morte. Imagino que ele queira então deixar sua vida e sua obra em ordem. Esclarecer alguns assuntos, chamar a atenção para outros, acertar contas, encaminhar o inventário, distribuir a herança, essas coisas. E talvez resida aí uma ilusão de onipotência (como quer a bancada vienense) de fundo narcisista: a pretensão, se não de controlar o futuro, pelo menos de moldá-lo, ou encaminhá-lo (...)"

"(...) "O encontro marcado” pertence à categoria de “O pequeno príncipe”, de Saint-Exupéry. É um livrinho para adolescentes mineiros pré-anos 60, para coroinhas atormentados pelo pecado da masturbação. É um romance banal, com a pieguice tola, miúda e egocêntrica – ah, os belos sentimentos! os vagidos de alminhas puras descobrindo o amor nas ruas aprazíveis de Belo Horizonte! – que caracteriza o homem cordial de classe média, dado às letras (sobretudo de católicos franceses conservadores) e, se pintar, um cartório no Rio, presente do sogrão camarada. Tudo em prosa escorreita, boa família. Que é o seu único mérito. (...)~"



 Escrito por Marcelo às 16h28
[   ] [ envie esta mensagem ]




Oduvaldo Vianna Filho

Quando ainda estava na faculdade, li uma biografia no Vianinha. Lembro que fiquei impressionado com a epígrafe do livro, uma frase do Maiakovski com a qual me identifico absurdamente: "Comigo a anatomia se vê louca. Sou todo coração". Digressiono, digressiono, diria o Dapieve. Porque o post é para informar que hoje começa no Espaço Cultural Constituição, próximo à Praça Tiradentes e ao Bar Luiz (ótima pedida, sempre), o evento 30 anos sem Vianinha. Leituras, palestras e exposição fotográfica integram o ciclo comemorativo. Hoje à noite haverá leitura de sua primeira peça, Bilbao, via Copacabana. Amanhã, será a vez de Chapetuba Futebol Clube. E ainda constam do programa Moço em estado de sítio, Se correr o bicho pega, se ficar o bicho come, Corpo a corpo e Rasga coração, entre outras. No total, serão 12 textos do dramaturgo. O Espaço Constituição fica na Rua da Constituição 34, Centro - Tel: 2242-3102.



 Escrito por Marcelo às 14h24
[   ] [ envie esta mensagem ]




Dostoievski

A Estação das Letras promoverá na próxima sexta-feira o evento Lendo Dostoievski, incluindo leitura e comentários sobre a obra do autor russo pelo  professor e tradutor Paulo Bezerra. Na ocasião, Bezerra lançará também sua tradução para "Os Demônios"(Editora 34). Às 18h, na nova filial da Estação, que fica no 2º andar do AL Fahabi (Rua do Rosário, 30), o simpático sebo do amigo Carlos.



 Escrito por Marcelo às 14h17
[   ] [ envie esta mensagem ]




Conexões

(...) O gavetão de baixo do armário eu reservei para o estrilar de pequeninos guizos. Não chegam a soar em plenitude, mas... Lá está, por exemplo, o dia em que viajava de carro pela Rua Voluntários da Pátria e assustei-me quando um mendigo, entre tantos que dormiam ao lado da estação do metrô, levantou-se subitamente e, aos pulos, acordou os demais para que olhassem em direção ao céu. Olhei também. E pude sentir germinando olhos adentro as sete cores de um arco-íris atemporão, sem chuva nem sol, que me fez estacionar e colocar Stormy Weather no aparelho de som, porque aquela cena, ah..., aquela cena parecia exigir uma canção capaz de rivalizar com o silêncio.(...)"

Trecho de O armário, conto que escrevi faz algum tempo. Lembrei dele ao ver esta linda foto da Mariana Newslands no Interlúdio.



 Escrito por Marcelo às 14h40
[   ] [ envie esta mensagem ]




Sophia de Mello Breyner Andresen

Cada vez mais, cada vez mais impressionado com a delicadeza das imagens criadas por ela...

"A noite e a casa"

"A noite reúne a casa e o seu silêncio

Desde o alicerce até o fundamento

Até à flor imóvel

Apenas se ouve bater o relógio do tempo

A noite reúne a casa a seu destino

Nada agora se dispersa ou divide

Tudo está como o cipreste atento

O vazio caminha em seus espaços vivos"



 Escrito por Marcelo às 11h46
[   ] [ envie esta mensagem ]




Dramaturgos e prosadores

Ontem à noite, no Teatro Café Pequeno, eu e JP Cuenca passamos por uma experiência muito bacana: ver nossos contos adaptados para leitura dramatizada e, em contrapartida, "transcriar" peças de outrem sob a forma literária. O diálogo entre novos dramaturgos e novos prosadores, proposto por Daniela Pereira de Carvalho (do grupo Dezequilibrados), deu-se com harmonia, apesar das diferenças de linguagem e da falta de costume de nós todos, calouros na prática. E prosseguiu após as apresentações, através da conversa entre mim, Cuenca, Daniela e o dramaturgo Roberto Alvim, de quem adaptei o texto Pelesanguecarneossos (que, aliás, está sendo montado no próprio Café Pequeno). Questões como a rubrica, o papel do ator, a diferença entre a palavra escrita para ser lida ou para ser falada dominaram as discussões, que ficou ainda mais rica com a participação no debate dos atores que fizeram a leitura, da professora Beatriz Resende e do diretor de teatro Ivan Sugahara, que prestigiaram o encontro. Na segunda-feira que vem que vem, estarão no palco do Teatro os amigos Flavio Izhaki e Antonia Pellegrino.  



 Escrito por Marcelo às 11h34
[   ] [ envie esta mensagem ]




Ô, sorte!

Legítimo representante da família da Serrinha e, mais do que isto, patrimônio da cultura brasileira, mestre Wilson das Neves estará hoje à noite no projeto Puxando conversa, que acontece nos jardins do Museu da República. Além de um vídeo em que Das Neves mostra um pouco de sua trajetória (conferi o filme uma vez no Bip, é bem interessante...), haverá roda de samba, comandada por ele e com participação de outroa bambas. Tudo de graça. A partir das 18h30.



 Escrito por Marcelo às 11h22
[   ] [ envie esta mensagem ]




O encontro marcado

O site Paralelos incluiu, no especial em tributo a Fernando Sabino, o texto bacana que o Cuenca escreveu em sua coluna no JB de sábado passado. Vale a conferida. Abaixo, a íntegra da minha homenagem, personificada no livro O encontro marcado:

Sobretudo, um livro sobre o amor

por Marcelo Moutinho

"Fernando Sabino, meu amigo, as rosas estão frias
E estremeceram nas hastes como uma voz de eternidade"
~ Hélio Pellegrino, em carta-poema, 4 de maio de 1945


Não era meu cronista preferido (pronto, falei!). A verdade é que, entre os "quatro mineiros do Apocalipse", afeiçoei-me mais ao lirismo comedido do Paulo Mendes Campos e ao pessimismo permanente do Otto. Mas não é sempre que um romance lido quando já passada a adolescência entra numa lista particular (e necessariamente ilógica) dos "livros de nossa vida". Os títulos que relacionamos costumam perdurar e em geral circundam textos sorvidos na quentura da descoberta, quando olhamos para o mundo e, ao nos flagarmos nus, então percebemos que a nudez não nos é exclusiva.

Falo de "O encontro marcado", evidentemente. Que segue firme, ao lado de Kafkas, Dostoievskis, Clarices e Camus na prateleira mais preciosa de minha estante íntima. Com a morte de Sabino, o último dos quatro mineiros, pus-me a pensar por que afinal esse livro fora capaz de forçar espaço nessa listagem, apesar de tão tardiamente. E revisitei o romance, relendo apenas as frases sublinhadas:

"Estamos imprensados entre esses dois acontecimentos: o nascimento e a morte. Temos apenas 60 anos para resolver o problema, talvez menos."

"A idéia da morte os fazia mais velhos."

"Quem fala em sangue, e não esta sangrando, é um impostor."

"Há uma fresta em minha alma por onde a substância do que sou está sempre escapando mas não vejo onde nem porquê."

As quatro acima são apenas exemplos soltos das tantas passagens que mereceram rabiscos daquele rapaz de vinte e poucos anos que era eu, por falarem de coisas intangíveis e ressonantes. Que continuam ressonantes, mesmo na leitura apressada de anteontem à noite. Contudo, para além das frases, da prosa fluente do narrador, compreendi que minha profunda ligação com a obra atrelava-se essencialmente ao fato de "O encontro marcado" ser antes de tudo um romance sobre o amor, urgido no sentimento trágico diante da vida que uniu Sabino, Hélio, Otto e Paulo. Aquele mesmo amor que os levava a "puxar angústia", em expressão que se tornou clássica. Pobre de quem nunca "puxou angústia" ao ouvir um samba triste, ao engolir o quinto chope numa mesa de bar, ou ainda ao encontrar um cartão antigo, já amarelado, dormindo esquecido dentro de um livro...

"Vivíamos em estado permanente de discussão", comentou certa vez Sabino, referindo-se ao grupo. E as delongas superavam tempo ou geografias. Na correspondência trocada entre eles, anos e anos depois das travessuras na Praça da Liberdade de uma Belo Horizonte quase provinciana, o misterioso fio que os ligava permanecia firme. Como o demonstra carta remetida a Hélio, datada de 1945. Sabino confessava ter o coração cheio de "alegria triste", e observava: "Há qualquer coisa de comovente nesse encontro de nós quatro assim de longe – tão longe que estamos um do outro, você do Paulo, o Paulo do Otto, o Otto de mim, e no entanto tão juntos, que nossa respiração se confunde, nossas mãos se tocam no ar e há um resto de doçura no olhar de cada um, que é a lembrança dos outros três."

Essa doçura valente - presente em cada linha de "O encontro marcado"- nasce da generosidade de "mostrarmos nossos corações uns para os outros", como bem definiu um desses amigos que sabem ser doces. É ela que confere intensidade às relações humanas. É ela que me faz situar o romance entre os grandes livros que li. É ela, enfim, como bem souberam o próprio Sabino e seus parceiros Hélio, Otto e Paulo, que faz da amizade uma forma [sublime] de amor.



 Escrito por Marcelo às 19h24
[   ] [ envie esta mensagem ]




No Portal Literal

O Portal Literal põe no ar hoje a ótima resenha da crítica e professora Beatriz Resende sobre o Prosas cariocas. Ao lado do texto dela, traz um guia comentado, escrito por mim (com a colaboração especialíssima do amigo Flavio Izhaki), com os blogs mantidos por novos escritores. Abaixo, trechos da resenha da Beá e do meu mapeamento. Confira tudo aqui.

"Flechada no Rio"

Beatriz Resende

"(...) O que de mais importante quase todos têm em comum é a influência da crônica, gênero carioca por excelência, prática literária limítrofe entre o ficcional e o não ficcional. Assim como a crônica, entre nós, foi incorporando personagens, modelando-se com relatos da memória até beirar a história curta, também o conto, ao se ocupar da cidade, assume o aspecto de flânerie tão comum à crônica, um jeito de folha levada pelo vento calçadas afora. Passando por espaços de ruas, bares ou prédios, o contista se faz neste conjunto, o mais das vezes, quase um cronista.

Do Rio de Janeiro vêm para o livro a Zona Sul e a Norte, da Zona Oeste aparece o espaço híbrido da Barra da Tijuca. Nossos jovens contistas não chegam até a periferia da cidade, aos guetos dos conjuntos habitacionais criados por perversas ordens de remoção, prática mais política do que urbanística felizmente derrotada. Também ali não falam os morros, parte tão importante da personalidade carioca. A proposta de se mapear espaços realmente vividos pelos autores, no entanto, evidencia certa sinceridade e comprova que não é mais do interesse dos escritores exercer a tarefa de intérprete dos excluídos, até porque estes já se falam por suas próprias vozes. Nada a ver com a cidade de outras práticas culturais como o famoso Cinco vezes favela, filme de 1961. Afinal, é de outro tempo e de outra cidade que estamos falando.

Nesse cruzar da cidade criando uma nova "cartografia" é bastante curioso que, no mais das vezes, o bairro ou área a serem tratados não apareçam de fato ou sejam desconstruídos. Assim, a lírica Urca de Marcelo Moutinho nunca chega, na viagem de ônibus que conduz o narrador. O Baixo Gávea de Antônia Pelegrino não é o encontro de bares, boêmios e jovens tomando a indefectível Skol, é o espaço de uma memória de infância. O centro de Miguel Conde é lugar de moradia por onde se caminha à noite. A Barra da Tijuca, com Ana Beatriz Guerra, não traz a alegria dos bares nem o prazer dos motéis, mas a tragédia. A Pavuna, para Mariel Reis, é um lugar qualquer onde acontecem encontros inesperados e a morte ronda a vida. Por Jacarepaguá, se passa rumo à Barra ou à Gávea, como no "anticinema" de Henrique Rodrigues. A Muda, de uma classe média falida, é de onde se muda a jovem de Bianca Ramoneda, em direção a espaços mais nobre que podem ser resumidos com o reconhecimento de que "falta um feijãozinho no dente da Zona Sul. Na interessante circulação pelo Catete promovida por Flávio Izhaki, o bairro que abriga um palácio republicano aparece absolutamente degradado: "Catete, Copacabana dos excluídos", mas lá pode estar um terno amor (...)"

Muito distante do diário íntimo

Marcelo Moutinho

(...) Se nasceram como paradoxais depositórios públicos de confissões privadas, os blogs representam hoje uma ferramenta importante para os novos escritores. Na internet, eles postam experimentos para futuros livros e estabelecem uma ligação direta com os leitores. A partir do sistema de comentários (abaixo de cada post, os visitantes podem comentar sobre o que ele contém), trocam idéias não só a respeito de literatura, mas sobre cinema, música, teatro, artes plásticas, política.

Geralmente conectados através de links, esses blogs formam uma interessante rede que une (ainda que virtualmente) a nova geração, permitindo que haja um diálogo produtivo entre seus atores. São contatos iniciais, que costumam evoluir num segundo momento para o convívio real. (...)



 Escrito por Marcelo às 17h10
[   ] [ envie esta mensagem ]




Mais uma resenha

O site Verbo 21, voltado para "literatura e internet", publica resenha do nosso Prosas cariocas. Entre algumas porradinhas e alguns elogios, o bem-escrito texto de José Carlos Rodrigues parece-me afeito às exigências de uma das facetas do chamado "pós-moderno", em sua ânsia pela novidade a qualquer custo. Confira aqui.

 Escrito por Marcelo às 14h52
[   ] [ envie esta mensagem ]




Boa companhia

Este Pentimento está encabeçando hoje a lista de blogs indicados do Portal Literal. Mas o melhor da história é mesmo a companhia. Ao meu lado, está ninguém menos do que Noam Chomsky, com seu Turning the tide



 Escrito por Marcelo às 16h10
[   ] [ envie esta mensagem ]




Ainda o Sabino...

O Globo de hoje traz ótimo artigo do Wilson Figueiredo sobre o autor de O encontro marcado. O articulista faz uma análise acurada da carreira de Sabino, inclusive em seus momentos mais difíceis, como a época do lançamento de Zélia, uma paixão. Abaixo, um trecho. Confira a íntegra aqui.

"O juízo final das gavetas de um escritor"

Wilson Figueiredo

"(...) A “biografia romanceada da ex-ministra da Economia Zélia Cardoso de Mello”, como consta da relação dos seus livros, foi sucesso de venda maior do que a iniciativa comportava. Mas sob tremendo bombardeio crítico, oral e escrito. Ambos contundentes. Fernando se defendeu com a natureza jornalística do livro que foi o marco zero da longa e discreta retirada do autor para o fundo do palco.
Sob a anômala popularidade política da ministra, atestada pela venda recorde do livro, explodiu a corrosiva incompatibilidade da personagem com a crítica social, universitária, estudantil, jornalística e política (em suma, com a classe média da qual Zélia era oriunda). O livro foi um estouro editorial, a começar pelo segredo e o despistamento feito pelo autor. Mas Fernando não previra o conflito implícito nos dois signos do lançamento de “Zélia, uma paixão”: sucesso de vendas e restrição política da parcela pensante da sociedade. O autor se feriu na engrenagem que sabia operar em condições de mercado, não sob tensão política, que é outra paixão: teve a lisonja dos leitores anônimos mas faltou o apreço da opinião crítica e da classe média.
Em vão Fernando Sabino defendeu-se com a natureza jornalística (era verdade), isenta de veleidades literárias. Uma aventura. A restrição “politicamente correta” do meio intelectual e da classe média era, porém, de fundo ético, e falava por todas as insatisfações acumuladas. (...)"



 Escrito por Marcelo às 12h40
[   ] [ envie esta mensagem ]




Da série 300 toques - Número 13

Noturno

O dia entorna as horas e todas parecem derramadas sobre mim (o corpo dói). Pela fresta da janela, em lusco-fusco, o tempo morre (o corpo sofre). Fagulhas de homens, rabiscos amarelados na noite - a cidade tem sono. Entorpecido de imagens, cansado de artifícios, o corpo dorme.



 Escrito por Marcelo às 12h21
[   ] [ envie esta mensagem ]




Cartola, por Monica Ramalho

A gente-muito-boa Monica Ramalho lança amanhã, a partir das 15h, uma biografia infanto-juvenil do grande Cartola. O evento acontecerá na Livraria Folha Seca e será animado por uma roda de samba comandada pelo amigo violonista Lucas Porto e pela saxofonista Daniela Spielmann, com participações especialíssimas do Pedro Paulo Malta (vocal), Márcio Hulk (cavaquinho) e Fabiano Salek (percussão).

O livro da Monica integra a coleção Mestres da Música no Brasil, da Editora Moderna, destinada a crianças e adolescentes. A publicação conta com desenhos de Lan, 40 fotografias - de feras como Evandro Teixeira e Walter Firmo – e uma caricatura inédita de Cássio Loredano. Quem assina a apresentação é Hermínio Bello de Carvalho, parceiro e amigo do compositor mangueirense. A Folha Seca fica na Rua do Ouvidor, 37.