Antonio Dutra e a Rua Matacavalos

Parabéns ao gente-boa Antonio Dutra, um dos vencedores da oficina Veredas da Literatura, que reuniu 60 autores iniciantes durante a Flip 2004. Para quem não lembra, o Dutra é aquele que escreveu bela resenha sobre o Prosas cariocas, postada aqui há mais ou menos uma semana. Como prêmio, ele terá seu romance - que se chama Matacavalos - publicado no ano que vem. A premissa do livro é ótima: no primeiro capítulo, um encontro inesperado acontece na antiga Rua Matacavalos, atual Riachuelo. Euclides, funcionário do Instituto do Câncer, depara-se, em pleno século XXI, com uma carruagem. E do veículo tombado na rua saem dois personagens do século XIX: Damião, o cocheiro negro, e José Pertence, o passageiro branco. Dutra informou ao jornal O Globo que teve a idéia de escrever o romance quando estava num ponto de ônibus na Glória, bairro onde mora, numa época em que estava relendo muitos livros de Machado de Assis passados na região do Centro, do Catete, do Cosme Velho e de outros bairros próximos. Esperemos, pois, a chegada do livro.

P.S. A foto é de Augusto Malta



 Escrito por Marcelo às 14h35
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Antes do pôr-do-sol

Já que o Antes do pôr-do-sol estréia hoje aqui no Rio, vale indicar a resenha que escrevi sobre o filme: o texto continua no ar no site Críticos.Com. Abaixo, um trecho. A íntegra está aqui.

A paixão para além do idílio

Marcelo Moutinho

(...) Antes do Pôr-do-Sol está essencialmente centrado no diálogo entre os dois, filmado em tempo real e preenchido pelas expressões (“e se...”, “por quê?”, “mas...”) naturais do tardio reencontro em novo interregno. O filme estrutura-se em seis grandes movimentos – o contato na livraria, a caminhada pelas ruas, a parada para o café, a curta navegação pelo Sena, a carona até a casa dela e o diálogo final, já dentro do apartamento – que se revezam entre longos planos-seqüência e tomadas intimistas em primeiro plano. Os dois atores, à vontade nos personagens, expressam com competência o desconforto diante das agruras da realidade (a frustração amorosa dele, a desesperança dela), em contraponto às imagens-ideais construídas nas 14 horas idílicas do passado. O roteiro, aliás, tece permanentes relações com os acontecimentos de Viena, o que é um alento para quem não viu Antes do Amanhecer. E malgrado em alguns momentos dar espaço demasiado às “filosofices” que tanto prejudicaram Walking Life, por vezes chegando à inverossimilhança, é um tanto enxuto. (...)"



 Escrito por Marcelo às 12h38
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Poema (roubado do Guiu)

"Cultivava orquídeas -
Pelo prazer da idéia
de orquídea, do devir
de abelha a florir
flor a zumbir
no ponto de fusão."

in Nômada, de Rodrigo Garcia Lopes (achei este poema lá no Perto do coração selvagem, do Guiu, e gostei pacas!)



 Escrito por Marcelo às 12h23
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Lendo...

"(...) Não conseguiu ir adiante, comprimiu os olhos, esfregou as mãos sobre as pálpebras, abriu-os novamente, e o quarto tremeluziu como objetos vistos através de lágrimas. Mas ele não chorava, era mais um bolo na garganta, seco. No esfuziar dos objetos no silêncio, os pingos d'água na pia criavam círculos de desespero. (...)"

Trecho de Solidão solitude, de Autran Dourado



 Escrito por Marcelo às 12h15
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Terceira edição do encontro

Na próxima segunda, rolará a terceira e última edição do Encontro da nova dramaturgia com a nova prosa carioca, que tem sido uma delícia de evento. Representando os escritores (e adaptando peças dos dois outros), estarão os amigos Mara Coradello e Henrique Rodrigues. Os dramaturgos serão Marcelo Pedreira e Rodrigo de Roure. Às 21h, no Teatro Café Pequeno (no Leblon), com entrada gratuita.



 Escrito por Marcelo às 11h48
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A Serrinha no trem

A primeira-dama do samba, Dona Ivone Lara, e mestre Silas de Oliveira, legendas da querida Serrinha, serão os homenageados do 4º show do projeto Pagode do Trem 2004, que acontece hoj., às 18h, Marquinhos de Oswaldo Cruz receberá como convidados especiais a Velha Guarda do Império Serrano, Arlindinho Cruz, Délcio Carvalho eTia Doca. A concentração é na Central do Brasil, e o programa, sempre vale lembrar, é inteiramente gratuito. Dona Ivone é bastante conhecida. Silas de Oliveira nem tanto, apesar das pérolas que compôs.  Por isso, posto algumas informações sobre ele (retiradas da home-page do Império):

"Silas Oliveira de Assumpção nasceu no Rio de Janeiro, em Madureira, no dia 4 de outubro de 1916. Seu pai, José Mário de Assumpção, era pastor protestante e deu aos filhos instrução sólida e educação rígida. Isto não impediu que o jovem Silas, quando a família se mudou para a Rua Maroim (hoje Rua Compositor Silas de Oliveira), no sopé do morro da Serrinha, cedesse ao fascínio que sobre ele exerciam o samba e o jongo, praticados a dois passos de sua casa. Tornando-se amigo de Antônio dos Santos, o Fuleiro, e de Décio Antônio Carlos, o Mano Décio, com este compôs seu primeiro samba em 1934, "Meu grande amor". Passou a freqüentar a escola de samba Prazer da Serrinha, onde, além de integrar a bateria, dá os primeiros passos como compositor.
Em 1946 compôs com Mano Décio seu primeiro samba-enredo, Conferência de São Francisco, ainda no Prazer da Serrinha. Em 1947, juntamente com Sebastião de Oliveira (Molequinho), Antônio dos Santos (Fuleiro) e outros sambistas, fundou o Império Serrano, que por catorze vezes cantou no desfile sambas de sua autoria. Os mais conhecidos são os do período compreendido entre 1964 e 1969, em que Silas foi hexacampeão de samba-enredo na escola. São dessa fase Aquarela Brasileira, Os Cinco Bailes da História do Rio, Glória e Graças da Bahia, São Paulo Chapadão de Glórias, Pernambuco Leão do Norte e Heróis da Liberdade.
Casa-se em 1944 com Elane dos Santos, sua companheira ao longo da vida, com quem teve sete filhos. Sua vida, como a de muitos outros sambistas, foi caracterizada pela luta diária pela sobrevivência: para complementar o salário do humilde emprego público, cantava em rodas de samba e espetáculos. Foi numa roda de samba no clube ASA, em Botafogo, promovida pelo compositor Mauro Duarte, que morreu do coração, aos 55 anos, no dia 20 de maio de 1972. Seu corpo foi velado na Associação das Escolas de Samba do Rio de Janeiro e em seu enterro, por sugestão do presidente da Portela, Natal, foi entoado o samba Heróis da Liberdade, de autoria de Silas, Mano Décio e Manuel Ferreira, que desde então passou a ser cantado nos enterros de grandes sambistas.
Silas de Oliveira é considerado consensualemente o maior compositor de sambas-enredo de todos os tempos. Seus sambas tiveram gravações na voz de grandes intérpretes e não só os sambas-enredo: Apoteose ao Samba foi gravado por Jamelão, Paulinho da Vila e mais recentemente por Marcos Sacramento, e Senhora tentação (Meu Drama), por exemplo, tornou-se sucesso nacional na voz de Roberto Ribeiro e do compositor Cartola muitos anos após a morte de seu autor."



 Escrito por Marcelo às 11h37
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Na cabeça

Vocês lembram do Marcelo, um cantor meio breguinha que chegou a fazer algum sucesso bem no começo dos anos 80? Em seu primeiro disco, ele gravou Tempo de estio, do Caetano. Pois bem: o tal Marcelo é autor dessa beleza aí embaixo, que a Gal registrou e - sei lá por que - veio à minha cabeça ontem e ainda não saiu...

"Fogo, luz e paixão"

Marcelo / Ney Costa

"Sou uma estrela brilhando no seio da lua
Sou uma estrela brilhando, sou um pedacinho do sol
Coração sem destino
Preso aos véus da poesia
Sou uma estrela cadente

Faça um pedido ao silêncio
Se alguma vez me encontrar
Faça um pedido ao silêncio
Se alguma vez me encontrar

Sou um cometa vadio manchando o teu nome
Um mistério infinito de fogo de luz e paixão
Aventura sem tino
Mergulhado em fantasia
Sou um cometa vadio

Faça um pedido ao silêncio
Se alguma vez me encontrar
Faça um pedido ao silêncio
Se alguma vez me encontrar" 



 Escrito por Marcelo às 16h32
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Tutty

Da coluna do Tutty Vasques no site No Mínimo:

"Esclarecimento"

"O livro ‘Prosa Carioca’ não é biografia de Romário. E não se fala mais nisso, caramba!"



 Escrito por Marcelo às 14h22
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Pra manter o JB no Rio

 
Juntem-se aos jornalistas do Rio contra a idéia insana de transferência do JB, que brindou os leitores com edições históricas, como a da imagem acima) para Brasília. Entre nessa campanha. Acesse o blog do movimento e deixe sua mensagem de protesto. O endereço é www.jornaldobrasil.blogspot.com. Envie mensagens para a direção do JB e repasse a sugestão para os amigos. Este é o texto dos seis mil panfletos que os organizadores do movimento distribuíram domingo num arrastão cívico nas praias do Leblon e Ipanema, e que me foi entregue nas proximidades na barraca do Aleido (Posto 9):
 
"NÃO DEIXE O JB SAIR DO RIO"

"Durante seus 113 anos, o JORNAL DO BRASIL tem sido um dos maiores orgulhos do leitor carioca. Esteve na vanguarda dos movimentos culturais e resistiu com firmeza e dignidade à censura dos governos autoritários. Manteve-se durante décadas como um dos principais formadores de opinião de intelectuais e da parcela mais bem-informada da população do Rio de Janeiro. É, portanto, um dos maiores patrimônios da nossa cidade.

Não é novidade para ninguém que o jornal atravessa momentos difíceis, com demissões e perda de nomes consagrados. Agora, a direção da empresa, por iniciativa do vice-presidente PAULO MARINHO, planeja transferir para Brasília o coração do JB, incluindo a chefia de redação e as principais editorias. Este ato desastrado agravaria o processo de esvaziamento político, econômico e cultural da nossa cidade.

Apesar das dificuldades, os profissionais do JORNAL DO BRASIL têm se esforçado para fazer o melhor. Contamos com seu apoio para preservar a alma carioca do seu JB, com qualidade. Ligue, mande e-mails, proteste. Defenda o Rio e o direito dos jornalistas do JB de produzirem um jornal digno.
Telefones: 3233-4000 (geral) / 2323-1000 (central do assinante) / 3233-4667 (cartas ao leitor)  / 0800-707-2000
E-mails: cartas@jb.com.br  / assinante@jb.com.br.


 Escrito por Marcelo às 14h13
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Na Tribuna da Imprensa

A Tribuna da Imprensa publicou ontem simpática matéria sobre o Prosas cariocas. Pena que o repórter aproveitou trechos da apresentação e os transformou em declarações minhas. Não custava bater um papo direto, né? Segue o texto:

"O Rio dos novos escritores"

Pedro Henrique Neves

"Poucas cidades do mundo inspiraram tantos artistas quanto o Rio de Janeiro. Na poesia de Carlos Drummond de Andrade e Vinícius de Morais, na música de Tom Jobim ou nas crônicas de Rubem Braga, a cidade sempre foi mais do que um pano de fundo. O livro "Prosas cariocas - uma nova cartografia do Rio", lançado recentemente, apresenta uma coletânea de contos escritos pela mais nova geração de escritores cariocas. A cidade - mais uma vez - é a protagonista de quase todas as 16 histórias.

Como cada conto fala de um bairro, seus autores foram escolhidos pela relação com que tinham com determinada área da cidade. "Cada autor foi designado para escrever sobre o lugar onde mora, já morou ou com o qual tenha afinidade. Quem conhece bem o bairro sobre o qual escreve sabe encontrar seus mínimos defeitos e fraquezas", conta o jonalista Marcelo Moutinho, organizador do livro, ao lado do também jornalista Flávio Izhaki. Os dois assinam contos sobre a Urca e o Catete, respectivamente.

A idéia não era somente mapear os diferentes bairros do Rio, mas também localizar a produção literária da cidade. Por isso, o organizador pensou nos jovens autores, alguns com pouco mais de 20 anos e estreantes. Neste "elenco", a apresentadora Bianca Ramoneda, a festejada escritora Adriana Lisboa e a cronista do TRIBUNA BIS Antonia Pellegrino, que escreveu "Gávea 1983".

Microcosmos

Bairros nem sempre lembrados na literatura tiveram sua vez em "Prosas cariocas", como Jacarepaguá, Pavuna, Madureira e Lins de Vasconcelos. Até a Barra da Tijuca mereceu o seu conto, assinado por Ana Beatriz Guerra. "Cada bairro é um microcosmo que abriga segredos historietas, anseios, decepções. A idéia é contar um pouco sobre a vida que viceja naquele pedaço de cidade `maravilhosa', seja ela maravilhosa ou não", esclarece Moutinho.

Boa parte dos contos explora uma faceta distante do clichê "Rio cidade partida". A violência e a probreza da cidade são, por vezes, deixadas de lado, pois os autores optaram por uma visão mais pessoal dos bairros em seus contos, preferindo escrever sobre a memória íntima que guardavam desses lugares.

No próprio prefácio da obra, os organizadores explicam: "A Cidade Maravilhosa idílica dos cartões-postais não existe. Mas o Rio de Janeiro não é apenas aquele pintado em sangue pelos noticiários. Com fotos e notícias o real escapa. Mas com literatura e ficção, a cidade se desvenda para seus habitantes".



 Escrito por Marcelo às 12h13
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Cena tocante

Ontem à noite, assistia tranquïlamente no pay-per-view ao chocolate que o Flu deu no Juventude - Roger teve uma atuação simplesmente sensacional, secundado pelos garotos Alessandro e Tiuí (Romário pra quê?) -, quando o narrador alertou para o que acabara de acontecer no jogo São Paulo x São Caetano. Imediatamente, mudei de canal, e então pude acompanhar cada minuto das impressionantes cenas da agonia do zagueiro Serginho. Há muito tempo não via uma imagem tão tocante como a dos jogadores das duas equipes, abraçados, rezando no meio do campo para que Serginho se salvasse. Foi de emocionar mesmo. Nesses momentos, sinceramente renovo minha crença na humanidade...



 Escrito por Marcelo às 11h40
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Outro poema do Guy

 
No sábado passado, tive a alegria de rever o Guy Corrêa, amigo querido, músico e escritor talentoso que mora em São Paulo. Antes de encontrá-lo, mostrei à Paulinha um de seus livros, e ela gostou muito de um poema chamado Nuvens, que promete postar lá no Gosto de Samba. Tenho muitas afinidades com o que o Guy escreve, com seu olhar algo melancólico e decerto sensível sobre as coisas, a alma embebida de um quê lusitano... Hoje, lembrei deste poema aí embaixo, absolutamente brasileiro. E a foto registra o "café" que tomamos juntos na casa dos imrãos Zaidan no sábado...
 
"Um país"

Guy Corrêa

"Havia um povo com uma dor embutida.

E um pintor, com uma tela menor.

- Como vou pintar o eco dessa gente?

- indagou-se

Sentou-se diante do teorema

e fez-se concentração,

misturando a tinta

para o lacrimejar de seus pincéis

Os dias e os anos se descoloriam

e a obra continuava inacabada

Mas ainda resistiam

um artista - hoje aos fiapos –

e uma nação descompassada

em busca de seu tom"



 Escrito por Marcelo às 14h50
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Adriana e Flavio

O casal Adriana Lisboa e Flavio Carneiro participará no dia 10 de novembro, das 13h30 às 15h, do ciclo Com a palavra, o escritor, promovido pela Puc-Rio. O evento será gratuito e acontecerá na Sala 102-K.



 Escrito por Marcelo às 14h40
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Pelesanguecarneossos

Bem sei que o texto é grande, mas achei que era o caso de postá-lo aqui. Trata-se da adaptação que fiz para a peça Pelecarnesangueossos, de Roberto Alvim, dentro do Encontro da Nova Dramaturgia com a Nova Prosa. O original tinha 19 laudas, e tentei, além de "secá-lo", transformar as rubricas em literatura. Devido ao tamanho, serão dois posts seguidos...

Pelesanguecarneossos

A gente sabe quando uma coisa importante vai acontecer. É um tipo de sensação, uma intuição, o corpo sente... Um amigo me contou que, minutos antes de sofrer um acidente de carro, começou a ter dores no braço, justamente o braço que iria perder naquela batida. Outra amiga disse que na noite em que conheceu o futuro marido teve pensamentos esquisitos a tarde inteira, uma euforia romântica que não sabia de onde vinha... É como os caçadores africanos que vi na TV outro dia: antes de contornarem a montanha, sentiram que o tigre ia estar lá, esperando por eles. O monstro, na próxima esquina. Mas não é destino. De alguma forma estranha, é a gente que decide no final das contas, que escolhe continuar, encontrar o monstro, a batida de carro que vai decepar seu braço, o futuro marido que vai nos dar um filho. Não é destino. É escolha, sempre.

As palavras povoaram os pensamentos da jovem Carolina antes de tudo acontecer. Agora, há um branco imenso no lugar das idéias, e um filete de sangue escorre da cabeça, antes de percorrer o resto do rosto e espoucar levemente no chão. A seu lado, Dr. Otávio ajeita o suporte do soro. Dr. Otávio é bom pai-de-família, profissional bem-sucedido, e tem olhar longínquo: depois de anos e anos atendendo aos doentes no hospital onde trabalha, pretende lançar-se em novo desafio: a vida pública, a política, a garantia de saúde para o povo carente. Mais do que um desafio, até: uma vocação.

Dr. Otávio prende a máscara de oxigênio e o tubo do soro nas veias de Carolina sem deixar de emprestar atenção à mulher. O jantar, a aula de cerâmica, o horror estampado nos jornais do dia, o filho Gabriel... Os temas revezam-se até encontrar a moça estendida no centro da sala. "Quem é ela, Otávio?", a pergunta que chega tarde. E Otávio: "Encontrei na estrada, perto daqui. As roupas rasgadas, sangrando muito. Ia sangrar até morrer se ficasse mais um pouco. Possivelmente foi atropelada, ou espancada e abandonada para morrer. Uns animais!"

"Como pode ter gente assim no mundo, meu Deus?", assente Cecília. O Dr. pede que ela telefone para o hospital, pedindo uma ambulância. O caso é sério, talvez de cirurgia. Recomenda também, por precaução, que a polícia seja avisada.

Carolina continua desmaiada no centro da sala, mas o sangue já não escorre com tanta profusão. Otávio a limpara com esmero, e aplicara uma dose de adrenalina para tentar despertá-la. Chegando no hospital, tudo estaria resolvido.



 Escrito por Marcelo às 12h57
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(...)

Então Gabriel entra na sala. "Vai morrer?", indaga secamente ao pai. "Não, trouxe ela para casa porque era mais perto do que o hospital. Agora, basta aguardar a ambulância", ele responde. O garoto avisa que a mãe não conseguira fazer a ligação para o pronto-socorro. Solícito como de hábito, Otávio prontifica-se a ajudá-la, e ruma para o quarto.

No exato instante em que o Dr. deixa a sala, Gabriel aproxima-se de Carolina e subitamente começa a enforcá-la. Ela tenta resistir, segurando as mãos dele, e é salva porque Cecília retorna ao local. Ao notar a presença da mãe, o garoto lentamente afrouxa as mãos e solta Carolina, que respira com dificuldade. Aparentemente, Cecília não percebera o ataque, pois logo envereda por outros assuntos. Fala ao filho sobre a viagem que anda programando para a família: alguns dias juntos, para o pai descansar do hospital, dos estresses da campanha política...

É quando chega Otávio. Tem o rosto algo assustado, o que logo se explica pela frase pronunciada a seguir: "Descobri o problema do telefone. Alguém cortou o fio, do lado de fora da casa. Por isso está mudo". "Política?", questiona Cecília. "Esses filhos da puta estão pensando que vão me assustar...", rebate ele, para ouvir a repreensão da mulher: "Já pedi para usar essas palavras dentro de casa, Otávio!"

"Perdão", ele concede, e então lembra-se do celular. Estava dirimida a questão.

"Alô, é o Dr. Souto. Preciso de uma ambulância agora, na minha casa. Não, não, tudo bem; foi uma moça que eu encontrei machucada na estrada...". À medida que Otávio fala, Gabriel tenta interrompê-lo. Em vão. Otávio já solicitara a ambulância quando o filho, numa frase cortante, enfim atrai sua atenção: "Pai, fui eu que fiz isso com ela".

O silêncio pesa na sala por quase um minuto. É quebrado por Carolina, que solta um grito estridente. Otávio apressa-se em ver o que se passa com ela, mas Gabriel o detém. "Deixa ela, pai! Deixa ela! Mais meia hora e ninguém nunca vai saber!", grita o menino, ao passo que o Dr. tenta de todo jeito se desvencilhar. De volta após conferir o corte no fio do telefone, Cecília flagra a cena: "O que está acontecendo, Otávio, pelo amor de Deus?!".

Toca o telefone do Dr. Mais uma vez, a sala põe-se em silêncio. "É ele. Tá certo: 30 minutos. A polícia também... Obrigado". Otávio desliga. Os três permanecem imóveis. Movida pela adrenalina aplicada pelo médico, Carolina delira, dizendo coisas desconexas sobre casamento, filhos, um cachorro, o lar, uma noite de lua nova...

Gabriel preocupa-se. Acha que ela o reconhece. Os pais, entre atônitos e desesperados, querem saber como tudo aconteceu. Ele explica que esmurrou rosto dela, chutou seu corpo, bateu a cabeça no chão até que ela se calasse, e então empurrou o corpo ladeira abaixo. A mãe exaspera-se: "É um demônio! Um demônio!". O pai contemporiza: "É só uma garoto. É o nosso filho...". Gabriel apenas repete: "Vocês vão me entregar? Me entregar aos urubus?".

Otávio e Cecília simplesmente não conseguem assimilar os motivos do ato insano do filho. Ela se lamenta por ter dado luz a um monstro. Por não ter conseguido ir até o fim. Agora, é Gabriel quem não entende: "O que ela está dizendo, pai?". "Matar você!", rebate a mãe, aos berros, "Matar você!". Até que Otávio os interrompe - "Essa história está enterrada, enterrada para sempre" - e suplica à mulher que encerre a discussão.

Cecília recorda-se do ódio que sentia quando, ainda bebê, Gabriel a mordia, sugando seu leite, chorando a noite toda, gritando como um gato... E lembra também de Otávio chegando a tempo de evitar o pior. "Se tivesse matado, matado ele naquela hora", lastima-se. "Depressão pós-parto, é um distúrbio neurótico, uma doença, uma psicopatologia", explica o Dr., voltando-se para o garoto.

Diante da revelação, Gabriel parece compreender o ódio que sempre sentiu por tudo e por todos. O pai abraça-o e tenta acalmá-lo: "Meu filho, quando a polícia chegar, você vai ter um advogado, o melhor. Mas vai ser julgado pelo que fez com essa pessoa". O garoto reage: "Você vai me enterrar vivo, pai? Vai me matar, terminar o que a louca começou?". O Dr. se justifica, ressaltando que é um médico respeitado, que seu objetivo maior é salvar a vida das pessoas, mas Gabriel retruca: "Os pais do assassino. É o que os jornais vão publicar, o que as pessoas vão dizer".

No auge da confusão, naquela ínfima medida de tempo em que são feitas as mais difíceis escolhas, Otávio lembra-se de uma máxima de Kant: "Age sempre de modo que o motivo da tua ação seja a vontade de Deus". Mas qual seria a vontade de Deus? Ele não sabia.

A algaravia segue com os três trocando frases que servem tão-só para distribuir culpas. O Dr. então troca o pensamento pela ação: caminha lentamente e aproxima-se de sua maleta, de onde retira um frasco com líquido e uma seringa. "O que você está fazendo?", indaga Cecília. Ele garante: a menina morrerá por asfixia, que não será detectada em nenhum exame. E completa: "Assinarei o laudo: morte por politraumatismo".

Quando Otávio prepara-se para dar a injeção, Carolina desperta. "Que lugar é esse? Minha cabeça, meu corpo todo dói; minha família, meu noivo". Ele tenta serená-la: "Já vai acabar, querida". Gabriel insiste para que o pai faça logo o "serviço", alertando que a polícia está chegando. Cecília, agora, o apóia: "O que você está esperando, Otávio?". Mas Otávio resiste: "Eu não posso fazer isso! Sou um médico, Cecília, não posso matar! Ela é uma pessoa, um ser humano!"

O embate desenrola-se em poucos segundos, até que Gabriel de modo sagaz acena com a pecha da execração pública: "Ela vai contar tudo para a polícia, para os jornais, vocês serão ‘os pais do assassino’!".

Otávio pensa no pecado, em Kant, nos olhos de Deus, e hesita em aplicar a injeção. Os três já podem ouvir o som da sirene da ambulância que se aproxima, e o Dr. então se toca: o líqüido precisa de dez minutos para agir no sangue. Os médicos chegarão antes.

Carolina aproveita-se e tenta gritar por socorro. Otávio corre até ela e fecha a sua boca com as mãos. Em seguida, Cecília e Gabriel fazem o mesmo, e pressionam o rosto de Carolina, que se debate febrilmente sobre a mesa. O som da sirene aumenta até que o barulho acaba e a porta se abre. Os três então soltam Carolina, que permanece imóvel.

Otávio informa aos médicos que a moça não resistiu. "Minha família e eu tentamos salvá-la. Tentamos de tudo, mas...". Os médicos lamentam - e se vão.

O cadáver de Carolina ainda jaz sobre a mesa quando o Dr., choroso, comenta: "Nós não temos mais alma". A esposa carinhosamente o repreende: "Você tá errado, querido. Nós ainda existimos, ainda estamos aqui".

Cecília aposta que conseguirão viver, talvez ainda com mais harmonia, a partir de agora. E fica praticamente certa disso ao ouvir Gabriel dizer que a perdoa.

"A violência, meu Deus, cada vez mais próxima de nossas casas, de nossas famílias. Se esse quadro não se alterar nas próximas eleições, qual de nós vai ser a próxima vítima?", Otávio pensa. O Dr. abraça carinhosamente o filho e a mulher. Pela fresta da janela, Cecília vislumbra a imagem da lua, apontando com o indicador para o céu. Otávio e Gabriel olham na mesma direção. Os três sorriem. Ela então aperta-os um pouco mais entre os braços e sussurra: "Estamos juntos nesse mundo. Agora eu sei, sei quem somos nós. Unidos. Juntos. Uma família. Finalmente."



 Escrito por Marcelo às 12h56
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Tempo de galos

Terminei ontem de ler a Beatriz Bracher. Já quase no fim de Não falei, ela constrói uma passagem linda, linda mesmo, citando o poema que mais gosto do João Cabral. Foi uma lembrança boa, e que acabou servindo como contraponto poético ao lamentável episódio com a dupla dinâmica Duda Mendona e Jorge Babú.

"Tecendo a manhã"

João Cabral de Mello Neto

"1.
Um galo sozinho não tece uma manhã:
ele precisará sempre de outros galos.

De um que apanhe esse grito que ele
e o lance a outro; de um outro galo
que apanhe o grito de um galo antes
e o lance a outro; e de outros galos
que com muitos outros galos se cruzem
os fios de sol de seus gritos de galo,
para que a manhã, desde uma teia tênue,
se vá tecendo, entre todos os galos.

2.
E se encorpando em tela, entre todos,
se erguendo tenda, onde entrem todos,
se entretendendo para todos, no toldo
(a manhã) que plana livre de armação.

A manhã, toldo de um tecido tão aéreo
que, tecido, se eleva por si: luz balão"



 Escrito por Marcelo às 12h25
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O rei está nu

. Por que grandes jornalistas (com o Marceu Vieira) não tem espaço nos grandes jornais e a gente precisa aturar colunistas publicando textos fraquíssimos sobre temas "revelantes" como "pombos"?;

. Por que há resenhas literárias que não falam de literatura?;

. Por que um caderno cultural dedica duas páginas inteiras a colunistas sociais?;

. Por que a mais importante revista do país insiste em manter como colunista um arremedo de Paulo Francis?;

. Por que os jornais não publicam mais crônicas?;

. Por que uma coluna que deveria tratar das coisas bacanas da cidade está virando uma espécie de sucursal da Hildegard Angel?.

Vocês podem acrescentar mais perguntas nos comentários...



 Escrito por Marcelo às 11h20
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O samba do D2

Ainda não tinha elogiado aqui o Acústico que o Marcelo D2 lançou recentemente. No disco, a mistura de rap com samba ganha também um acento jazz, através do piano espertíssimo do amigo Phillippe Baden Powell. Hoje, no site No Mínimo, o Paulo Pires comenta sobre o c. Mais uma vez, o Paulo é mais preciso em sua análise. Tão preciso que resolvi reproduzir a coluna dele aqui:

"A maldição do samba"

Paulo Roberto Pires

"O Acústico MTV de Marcelo D2 traz de volta a provocação de um dos melhores discos do ano passado, o premiado "À procura da batida perfeita". Limpo dos scratches e dos samples, o som que se ouve nesta versão "unplugged" ressalta ainda mais os hibridismos entre e rap e samba que têm sido a obsessão do ex-vocalista do Planet Hemp e, de muitas formas, reafirma sua importância no momento em que o samba volta a ser eivado dos valores nacionais populares que, nos anos 1960, já haviam marcado sua aproximação da classe média intelectualizada.
Não fiz a pesquisa empírica mas, de memória, acho que nos últimos dois anos foram lançados, sem exagero, mais de 50 discos de samba. Pois bem: se o mundo acabar amanhã de manhã e, alguns séculos depois, arqueólogos tentarem reconstituir nossa época, chegarão à conclusão que o samba vive, no início do século XXI, um apogeu não visto nem mesmo nas épocas de Noel Rosa ou Ataulfo Alves. Pois tirando os CDs de artistas ligados ao samba-mauriçola ou aos novos pagodeiros, rigorosamente todos os lançamentos recentes são enaltecidos, elogiados, devidamente integrados a um mesmo e quimérico movimento de "revitalização do samba".
Há 40 anos era perfeitamente compreensível que se buscasse a cultura popular "autêntica" como parte de um projeto político no qual o intelectual de classe média assumia a "direção" do movimento de conscientização do "povo" (aspas necessárias) para seus próprios valores e cultura. Era a época em que se "descobria" nos morros gente como Zé Kéti ou Nelson Cavaquinho, em que o garoto da Zona Sul carioca abria os ouvidos e olhos para misturar classes, valores e sonoridades. Equivocado ou não, tratava-se de um movimento vitalista, de busca de novos horizontes para a cultura.
O anacronismo de hoje, para o qual Marcelo D2 é o antídoto perfeito, é a tomada de uma atitude parecida, só que totalmente desconectada dos movimentos da História. É incrível, mas ainda se fala em "resistência" do samba, "pureza" e "autenticidade". Mas raramente esta mesma classe média olha para quem está produzindo samba agora, a seu lado: a exaltação é, com raras exceções, ao passado, ao eterno embrenhar-se na "pesquisa" e na defesa populista do samba como a ponta de uma espécie de cultura marginal sempre em risco de extinção – quando ela é hoje muito, mas muito próxima mesmo do mainstream. Afinal, o samba hoje resiste a quê? Defende-se de quem?
"Resitência cultural casa do caralho", esbraveja D2 em "A maldição do samba", ela mesma uma ironia: procurar a batida perfeita é, como defende o cantor, deixar-se tomar pela "maldição" e embrenhar-se nas muitas misturas que ela propicia. "O MC que é partideiro o bumbo que vira scratch", versa ele, que no disco da MTV espertamente substituiu os scratches por efeitos "corporais". Em cada uma das faixas do novo disco, estas misturas dependem menos da parafernália do que da excelente qualidade da banda e da ótima forma de D2 como cantor, "dizendo" sem embolar suas letras quilométricas e inteligentíssimas.
A "mistura de Racionais com Orquestra Tabajara", como define a letra de "Encontro com Nogueira", é irresistível. Consegue ficar num difícil equilíbrio entre os dois gêneros que cultua: aqui o hip hop não serve para "modernizar" o samba e este não está aqui simplesmente para "aclimatar" o primeiro. O que torna a síntese perfeita é exatamente o apagamento das fronteiras e não a "rendição à tradição" que se insiste em ver quando artistas pop estão fazendo o que os museólogos não conseguem: tocar pra frente um samba vivo e livre de receitas passadistas."



 Escrito por Marcelo às 17h01
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Mais blogs

Hoje, em dia de mudanças por aqui, estréiam também quatro novos links. Inveja de gato é o blog da amiga Antonia Pellegrino, que participou comigo e tantos outros autores do Prosas Cariocas. Também na coletânea, a amiga Mara Coradello mantém o Caderno Branco de Mora Mey. Fecham a nova lista os blogs Cartas de hades e Cordas de aço, respectivamente dos amigos Mariana Blanc (jornalista e filha do mestre Aldir) e Lucas Porto (violonista de primeira e, acima de tudo, um camarada muito bacana.

 Escrito por Marcelo às 14h03
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Camaleão

Não se assustem: esse blog está mudando de pele...

 Escrito por Marcelo às 11h36
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Tom inédito

 

A Biscoito Fino anuncia o lançamento de um cd inédito de Tom Jobim. O disco registra show realizado em 1981 no Palácio das Artes, em Belo Horizonte. Só com piano e voz, Tom apresenta clássicos como Samba de uma nota só, Por causa de você, Estrada do sol, Modinha, Retrato em preto e branco e Lígia. Pelo visto (e infelizmente), nenhuma grande novidade... As pré-vendas já estão sendo feitas através do site da gravadora.



 Escrito por Marcelo às 11h10
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Da série 300 toques - Número 14

Recado

"Alô, aqui é a Renata. No momento não posso atender. Deixe seu recado após o sinal que retorno assim que puder ". Pela sexta vez a secretária repetia a frase, e ele desligava, sem falar. As palavras ganhavam peso ao cruzar o fio, mas ainda eram mais leves que o silêncio.

Ligaria outras vezes.



 Escrito por Marcelo às 14h27
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Amor e paixão

Muito bom o artigo de Luiz Paulo Horta (claramente embedido da perspectiva cristã), publicado em O Globo de ontem:

"Amor e paixão"

Luiz Paulo Horta

Escrevendo sobre o prêmio Nobel de Literatura Isaac Bashevis Singer, diz o crítico Joseph Epstein: “Em diversas entrevistas, Singer afirmou que a melhor história é uma história de amor. Curiosamente, ele tendia a escrever não sobre o amor, mas sobre a paixão, que está longe de ser a mesma coisa. Como um personagem em um de seus contos diz ao narrador, que podia ser o próprio Singer, ‘você escreve sobre o amor, mas não sabe o que é isso. Desculpe, mas o que você descreve é a paixão, e não o amor, que faz sacrifícios e amadurece ao longo dos anos’.” Comenta Epstein: “Como se vê, talvez o melhor crítico de Singer seja o próprio Singer.”
O amor/paixão sempre foi o grande tema da literatura ocidental, desde aquela antiquíssima história que é “Tristão e Isolda”, e que trata de uma paixão irrealizada. Depois disso, o amor romântico inundou a literatura, e deixou na sombra o que seria um outro tipo de amor, mais tranqüilo, mais duradouro. Por exemplo, “Anna Karenina” é um romance que descreve o amor relativamente impossível entre Anna e Wronsky, seu amante. Na Rússia daquele tempo, o adultério ainda pedia punição severa — e, não por acaso, a epígrafe do livro é uma frase terrível da Bíblia: “Eu me reservei a vingança, diz o Senhor.” Nos “Irmãos Karamazov”, a grande história de amor também é um caso típico de paixão — a atração que sobre Dmitri Karamazov exerce a volúvel Gruschenka, paixão que destrói o apaixonado, que o leva ao crime. E assim nos alimentamos de histórias românticas; e confundiu-se a realidade do amor com a da paixão, como registra o personagem de Singer.
Podia ser diferente? Em outras culturas, sim. Na Índia tradicional, por exemplo, a paixão era considerada antes um motivo para não casar do que o contrário. O casamento hindu era arranjado entre as famílias. E mesmo no Ocidente, até uma época relativamente recente, os pais ainda influíam no casamento dos filhos.
Antes que você diga, ou pense, que o articulista enlouqueceu: não estou defendendo um retorno aos velhos tempos. Mas a verdade é que agora chegamos ao outro extremo: as uniões não passam pelo teste da estabilidade. E uma das razões para isso é a confusão entre a idéia de paixão e a de amor.
Voltemos ao personagem de Singer: “O que você descreve é a paixão, e não o amor, que faz sacrifícios e amadurece ao longo dos anos.” É um bom ponto de partida. Sim, é verdade: pelo menos no início, é difícil separar o amor e a paixão (e por que deveriam ser separados?). Parece que eles começam juntos — e por isso a gente diz que “o amor é lindo”. É aquele frisson, aquela coisa “de pele”, aquele arrepio interior provocado pelos motivos mais simples. A natureza é sábia nessas coisas, não precisa de processos complicados.
Mas por que não seriam simplesmente sinônimos a paixão e o amor? Porque a paixão não está ligada a nenhuma idéia de estabilidade. Pelo contrário, ela tem a natureza do fogo, é mutável e ardente como o fogo. (Vejam o delicioso romance de Arthur Dapieve, “De cada amor tu herdarás só o cinismo”, que a Objetiva acaba de publicar; um caso típico de paixão desestruturante.)
Já o amor tende ao enraizamento. Entra, aqui, outro truque da natureza, que usa a paixão como uma introdução para o amor. O impulso arrebatado da paixão costuma ser uma oportunidade para um encontro mais profundo, que já seria, por exemplo, o encontro de duas pessoas, e não só de dois corpos em êxtase.
Era com esse jogo que contavam épocas mais estáveis do que a nossa. Ainda no tempo de nossos avós, a chegada dos filhos, por exemplo, seria um motivo para que um casal pensasse a sua união de um modo mais consistente, ainda que mais prosaico — pois é evidente que, com filhos pela casa, nem tudo se resume à paixão. Instala-se uma certa “domesticidade”. Tanto a mulher quanto o marido passam a ter tarefas que já não são “românticas” — acordar de noite porque o filho está com febre; descobrir qual é a melhor escola da vizinhança; arranjar dinheiro para as despesas da casa.
Tudo muito “família”. Mas nessa acumulação de atividades prosaicas, surgia o grande desafio: transformar a paixão em amor.
E nessa mesma sucessão de tarefas está embutida a proposta principal: a da superação do egoísmo, a passagem do amor que simplesmente recebe para aquele que é capaz de dar.
Nessa possibilidade, as grandes culturas humanas jogaram todas as suas fichas. Todas elas, de um modo ou de outro, perceberam que o caminho para o pleno desenvolvimento da personalidade é a descoberta do Outro — seja o ser humano que está mais próximo de você, seja a Cidade que é preciso construir, seja um Outro ainda mais elevado, que é o nível da transcendência.
Talvez o problema, hoje, e não só no plano da relação entre duas pessoas, é que fomos sendo encurralados pela lógica da paixão, pelos mecanismos do desejo (e temos uma civilização de consumo cuja principal ocupação é atiçar o desejo).
Parece ter ficado só a idéia da combustão inicial — do fósforo antes que o fogo alcance a madeira. E o estranho paradoxo é que, neste sentido, há um momento em que a paixão pode se tornar inimiga feroz do amor verdadeiro."



 Escrito por Marcelo às 12h17
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Nova edição do encontro

Hoje é dia de prestigiar os amigos Flávio Izhaki e Antonia Pellegrino no Teatro Café Pequeno: eles apresentarão suas adaptações para as duas peças do pessoal da Nova Dramaturgia, e verão como ficou a leitura dramatizada de seus contos. É a segunda semana do projeto A nova prosa encontra a nova dramaturgia carioca, do qual eu e Cuenca participamos na semana passada. Às 21h. 

 Escrito por Marcelo às 11h16
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Prosas, por Carla Rodrigues

Hoje, no site No Mínimo, foi publicada a resenha da Carla Rodrigues sobre o Prosas cariocas. Segue o texto:

"Cariocas nem sempre são bacanas"

Carla Rodrigues

"Quem é o verdadeiro carioca? Em tempos de exaltação da pluralidade, está na hora de dar um fim nessa idéia de que a carioquice existe. Cada morador desta cidade – tenha nascido aqui ou não – se atribui, muito justamente, diga-se de passagem, o direito de definir o que é ser carioca. Todas as visões que partem do princípio que "carioca sou eu" são excludentes das múltiplas possibilidades do exercício da carioquice. Nessa exclusão do Outro se funda, por exemplo, a idéia de que o "verdadeiro" Rio de Janeiro é o que habita o grande qualidrilátero que tem como linhas de fronteira a rua Farme de Amoedo, de um lado, o canal do Leblon, do outro, as praia de Ipanema e Leblon, abaixo, e as franjas da floresta no Jardim Botânico e na Gávea. A Zona Sul como emblema do Rio de Janeiro é mais uma maneira de partir a cidade partida do jornalista Zuenir Ventura.

Em "Prosa carioca – uma nova cartografia do Rio de Janeiro" (Casa da Palavra, R$ 27, 144 págs.), 17 autores se dividem para falar da cidade, sempre a partir da perspectiva de um certo bairro. A divisão geográfica é para lá de democrática, e inclui subúrbios tradicionais, como Lins de Vasconcelos e Madureira, bairros relativamente novos, como Jacarepaguá e Barra da Tijuca, bairros já decadentes, como Catete e Copacabana, e os típicos lugares de badalação, como Gávea e Leblon. Paradigma de uma cidade cosmopolita e dos "cariocas bacanas" de Adriana Calcanhoto, o Leblon que hoje figura nas páginas do noticiário policial toda semana aparece não apenas no texto que lhe é oficialmente dedicado ("A varredura", de Juva Batella). O bairro é personagem de outros textos, nos quais faz contraponto com essa idéia de que o bairro possa vir a sintetizar – e portanto, também excluir – o espírito carioca.
Esse olhar crítico sobre o Leblon quem apresenta é a jornalista Bianca Ramoneda, na crônica "Quando se muda". Moradora do bairro da Muda, que ela define como "um pequeno bairro na enorme Tijuca", Bianca conta sua trajetória de migrante: sair da Zona Norte para a Sul, trocar o "provincianismo tijucano" pelo "cosmopolitismo do Leblon", e se ver obrigada a achar natural, por exemplo, encontrar o Chico Buarque na fila do supermercado. Fato que, na Tijuca, renderia assunto para semanas de conversa com os vizinhos. Desta mudança de um ponto a outro, cuja distância é muito maior do que os 30 quilômetros que separam os dois bairros, Ramoneda diz: "Hoje, não acredito nem na pobreza romântica de quem vê de longe a zona norte, nem na plástica sorridente de quem vê de longe a zona sul. E me sinto estrangeira em ambos os pontos da cidade."
Sentir-se estrangeiro é exatamente o oposto de sentir-se carioca, de experimentar essa suposta democracia das calçadas, a leveza do encontro casual, a frouxidão de laços e a rigidez de clubes invisíveis nos quais não se entra assim tão fácil, apesar do mito da hospitalidade local. É desta contradição entre o privilégio da Zona Sul sobre a Zona Norte que brota, também, o bom "Ilha debaixo da terra", de Cecilia Giannetti. "Imagino a quantidade de corpos que migram para a Ilha depois de mortos, pela Linha Vermelha, pela avenida Brasil, vindo dos subúrbios vizinhos, vizinhos que atiram uns nos outros em guerras do tráfico que varam as noites nessas estradas. A Ilha é diferente da Zona Sul em quê?", pergunta ela, reforçando as vozes que enxergam na glamurização da Zona Sul mais do que um desvio, uma violência de exclusão do "resto". A cidade não é só partida em diferenças sociais e econômicas, dessas que se pode medir com estatísticas do IBGE. O Rio de Janeiro é um lugar culturalmente dividido entre "nós" e "os outros", e a grande disputa está em quem terá a hegemonia para dizer "nós" e, assim, determinar quem são os indesejáveis outros."


 Escrito por Marcelo às 11h12
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Roberto Ribeiro

Para entrar no clima do show de mestre Wilson das Neves, ao qual assistirei daqui a pouco, andei fuçando sambas na net. Inesperadamente, acabei encontrando uma das canções que mais gosto no ótimo repertório de Roberto Ribeiro. Procurava essa letra há tempos! Raramente ouço-a nas rodas. Pra falar a verdade, creio que só a escutei uma vez, cantada pelo sempre atento Alfredo Del Penho. Também desconheço completamente os dois autores, Jorge Macedo e Zelito. Alguém sabe quem são? Como bem salientou o amigo Fernando Toledo, os versos do samba têm um clima drummondiano... 

"Coisas da vida"

Jorge Macedo e Zelito

"E o sol já não brilha

As flores sem perfume

Natureza ausente

Numa vigília afora

Numa vigília afora

Numa vigília afora

Um pandeiro calado

Um cavaco quebrado

Um apito entupido

Um surdo sem marcação

Uma sandália esquecida

Num terreiro vazio

Uma vela se apaga

Num pires cheio de pó

Há uma mosca que enjoa

Há mau cheiro na vala

Quando sujo na mesa

A toalha em que limpo a cara

E se parar pra pensar

Nas coisas tristes da vida

No peito a tristeza que dói

Assim eu levo meu pranto

Sagrando em desencanto

E quando alerto pra vida

É obra de pura puro espanto"



 Escrito por Marcelo às 19h14
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Batuque na cozinha (o livro)

Depois de lançar o bacana Heranças do samba (de Aldir Blanc, Hugo Sukman e Luiz Fernando Carvalho), a Casa da Palavra faz na próxima terça-feira sua nova investida no gênero "literatura sobre música popular brasileira". Trata-se de Batuque da cozinha, livro do jornalista Alexandre Medeiros, que foi escrito paralelamente ao curta-metragem homônimo. A obra narra um pouco da história das tias da Velha Guarda da Portela - Eunice, Doca e Surica - e traz receitas dos incermentados pratos que elas costumam fazer para matar a fome dos participantes das rodas-de-samba. O lançamento acontecerá no Armazém Digital, a partir das 18h.



 Escrito por Marcelo às 17h15
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Madureira no Estação Cultura

 

Muito boa, mas muito boa mesmo a matéria que o amigo Anderson Baltar escreveu para o jornal Estação Cultura. A publicação ainda está em fase experimental, mas a idéia é fazê-la circular pelos trens do Rio de Janeiro, com pauta voltada para os bairros do subúrbio. Uma bela idéia, aliás. No projeto está também outro amigo, o Leonardo Lichote, que descobriu um cineclube em Caxias. A reportagem do Anderson, fartamente ilustrada, está na capa e fala sobre meu bairro de origem, a querida Madureira de Império e Portela e de muita gente boa. Quem quiser conferir o texto dele, do Lichote e outros tantos pode acessar a versão virtual do Estação Cultura.

P.S. Nas fotos, respectivamente o morro da Serrinha e a feijoada da Vellha Guarda da Portela... 



 Escrito por Marcelo às 16h41
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Sady

Mas o mais curioso da matéria da Programa foi o box dedicado ao mítico Sady, com quem (pelo menos eu achava) estudei na Facha. Quanto entrei para a faculdade, em 1990, ele já estava lá. Quando saí, quatro anos depois, continuava pintando no campus. Quem circulou pelo circuito da boêmia carioca durante a década de 90 chegava a se impressionar com a capacidade de multiplicação da figura. Você saía do Baixo Gávea, onde ele marcava ponto, para tomar uma cerveja no Plebeu e encontrava-o na porta. POr essa razão, chegou a ser "homenageado" no filme Como ser solteiro. A repórter do JB foi investigar por onde o Sady Bianchin anda atualmente. E a resposta é: na faculdade. Só que agora dando aula. Na verdade, o que mais me espantou nisso tudo foi saber que, apesar dos anos e anos freqüentando a Facha, ao que parece ele não se formou lá, já que a reportagem informa que seus bacharelados são em Teatro pela Uni-Rio, Ciências Sociais pela UFF e eComunicação Social pela UFRJ. O que será ele fazia então lá na Hélio Alonso todo dia?



 Escrito por Marcelo às 12h14
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Figurinha fácil

A Revista Programa, do Jornal do Brasil, traz hoje matéria de capa sobre indivíduos que são assíduos freqüentadores dos mundos do rock, da música eletrônica, da cena alternativa, dos points mais mauricinhos e de outros cantos da cidade. Como "figurinha fácil" do samba, a repórter Catharina Epprecht escolheu este que vos escreve. Mereci o adjetivo de "folião" (rs) e uma foto ao lado da Paulinha. Só não precisava colocar em cima do box com o lugares que indiquei o título Só no sapatinho... Seguem a matéria principal e a subretranca comigo:

"Em todas"

Catharina Epprecht

"Juliana Zommer nunca esbarrou com Julinho Reinaldo Graúna na noite carioca. Tampouco deve ter visto Sérgio Careca num afterhours, bebido uma cerveja no mesmo balcão que Jonas Sá ou soltado o gogó na quadra da Portela a poucos metros do folião Marcelo Moutinho. Os cinco, porém, são conhecidíssimos em suas turmas. São personagens ilustres, figurinhas fáceis de cada uma das tribos noturnas cariocas, vistos a toda hora, por todos os lugares - na linguagem universal, são os Wallys, o personagem dos quadrinhos que sempre se escondia na multidão; na carioca, uma espécie de novos Sadys, aquele poeta boa-praça que parecia ter o dom da onipresença em meados da década de 90. Encontrá-los na noite é sinal de lugar certo, badalado, popular.

Os limites dessas figurinhas carimbadas são largos, as noites em casa, rarissímas. Julinho, por exemplo, vai, numa mesma semana, a shows no Claro Hall, na Barra, e no inferninho Garage, na Praça da República, e dança na festa Alien Nation, na Sygno, em Copacabana. Sempre com flyers à mão, divulga shows de bandas desconhecidas nos subúrbios cariocas. Juliana, símbolo da juventude dourada carioca, transita pelas boates mais caras da Zona Sul. Marcelo Moutinho é habituê da Lapa, mas, uma vez por mês, estica as pernas até os sambas em Madureira. Jonas Sá curte cinema e shows, num circuito alternativo, com passadas no Sérgio Porto e mostras de cinematecas no Centro, e Serginho transita pelas boates de música eletrônica.

O quinteto não hesita em apontar a música como o principal indicador para traçar um bom roteiro noturno. ''Escolho os lugares que não tocam apenas as 20 mais pedidas, os hits mais populares. É bom ir para um lugar e lá curtir aquela música que você não ouvia há tempos, ser surpreendido'', explica Marcelo Moutinho. Outro quesito para uma noite feliz é o encontro com os conhecidos, que volta e meia esbarram neles. ''Gosto de estar na rua, com as pessoas, ver todo mundo reunido'', afirma Jonas. Um terceiro ponto é a ''democracia do lugar'', em que cada um puxa a sardinha para a sua brasa. ''Nas casas de samba, vai a patricinha e o suburbano'', discursa Moutinho. ''Hoje, a noite underground recebe todo mundo sem preconceito. Vai o povo da música eletrônica, do rock, do hip-hop'', defende Serginho.

Fugir das roubadas é outra arte conquistada com a experiência de noites e noites na rua. ''Não gosto de lugares que não têm muita comida. Geralmente, só há bebida e as pessoas passam a noite enchendo a cara'', dá a dica Julinho para evitar as confusões que de vez em quando viram notícia. ''É muito chato conhecer um lugar e ver que, depois de virar moda, os preços aumentam e fica sempre lotado'', reclama Jonas Sá. Espaços com tendência elitista também são evitados por esses personagens da noite carioca. ''Fila é chato, mas fazer carteirinha VIP é muito pouco democrático'', teoriza Moutinho. Já as festas que viraram símbolos de transtorno, como as raves, volta e meia canceladas na última hora, são descartadas.

Mesmo assim, virar figurinha fácil tem lá suas vantagens. Seja com o segurança que facilita a entrada, seja com o barman que serve drinques com mais rapidez. ''Como estou sempre nesses lugares, conheço todo mundo. Tanto os freqüentadores, quanto as pessoas que trabalham lá, como o povo do bar, os seguranças e os promoters'', diz Juliana.

A receita do quinteto para manter o pique é simples: dormir pouco. Juliana, por exemplo, sai mais nas férias, mas já houve época em que saía nos sete dias da semana, depois de trabalhar entre as 10h e as 16h e estudar das 17h às 20h. ''A gente sempre dá um jeitinho'', conta.

O dom da onipresença na noite carioca ganha a definição - poética, claro - do sumido Sady: ''O Mário de Andrade também tinha essa fama, de estar em todos os lugares ao mesmo tempo. As pessoas afirmavam vê-lo sempre e às vezes os discursos eram desencontrados. E, sobre isso, ele respondia: 'Eu não sou um, eu sou 350. E talvez um dia, eu possa me encontrar''', filosofa."

"Só no sapatinho"

"Quem freqüenta o circuito de samba provavelmente já esbarrou com o escritor e jornalista Marcelo Moutinho, 32 anos e 12 de noite. Ele bate ponto em casas badaladas da Lapa, como o Sacrilégio, o Semente e o Carioca da Gema, mas também vai ao Centro Cultural Carioca e ao bar Bip-Bip, em Copacabana. É fanático pela Império Serrano, apesar de já ter escola para desfilar no ano que vem: a Vila Isabel. ''A Vila está voltando. A gente tem que prestigiar'', diz, abrindo um sorriso meio simpático, meio envergonhado. Mesmo sem ir tanto aos ensaios, não se afasta das quadras e mensalmente vai - e recomenda - a Feijoada da Velha Guarda da Portela, realizada sempre no primeiro sábado de cada mês. ''Por uns R$ 10 é possível ouvir música boa e comer bem''.

Carioca da Gema-Rua Mem de Sá, 79, Lapa (2221-0043). Capacidade: 300 pessoas. Idade mínima: 18 anos.

Bip-Bip- Rua Almirante Gonçalves, 50, Copacabana (2267-9696).

Feijoada da Velha Guarda- Rua Clara Nunes, 81, Madureira (2489-6440). Primeiro sábado do mês, das 13h às 20h. Entrada: R$ 6 (masc.), R$ 3 (fem.). Feijoada: R$ 6. Cap.: 10 mil pessoas."



 Escrito por Marcelo às 12h12
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Escrevendo, escrevendo...

Matérias, resenha e um conto. Por isso, posts só amanhã, tá bom?



 Escrito por Marcelo às 16h19
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Um acerto e um erro

Em Desconstrução mortal: Derrida e Sabino, texto publicado no site No Mínimo, Mario Sergio Conti acerta ao comentar aspectos hilariantes da relação dos jornais com o óbito de personalidades. Infelizmente, em seguida erra feio ao reduzir O encontro marcado a "um livrinho para adolescentes mineiros pré-anos 60". Seguem o interessante trecho inicial e o lamentável ataque ao romance de Sabino.

"Jacques Derrida preparou-se para morrer. Enquanto seu câncer no pâncreas deu trégua, ele colaborou com um documentário sobre si mesmo, deu uma longa entrevista ao “Monde”, supervisionou à distância a publicação de uma revista a respeito da sua obra, apareceu num debate na televisão. Com tudo publicado e exibido, morreu.

Uma morte à lá Mitterrand, que também esperou seus últimos dias para finalmente explicar (parcialmente) o que fazia quando os nazistas ocuparam a França e para esclarecer que tinha uma filha fora do casamento.

Como a imprensa estava preparada, foram longos e bem editados os cadernos especiais, perfis e páginas de avaliação de Derrida. Estava a imprensa preparada em exagero, até. O “Monde”, por exemplo, havia publicado três semanas antes a sua longa entrevista com o filósofo. E como era boa, republicou-a na íntegra. Com um bom adendo: um comentário do entrevistador, contando que, ao reler e emendar o texto, Derrida reclamou: “parece uma entrevista póstuma”. O que pode inaugurar um gênero: a entrevista pré-póstuma.

(Desse embaraço escapou Lévi-Strauss. No ano passado, pulularam cadernos, revistas, entrevistas na televisão, perfis vários etc. do etnólogo. Deve estar para morrer, pensei. Como não estava, o surto de publicações permaneceu inexplicado, pois nem havia uma efeméride ou obra inédita para justificá-los.)

A estratégia do pré-póstumo combina dois procedimentos. Um, dos vivos, sobretudo dos abutres da imprensa. Como se sabe que o bom necrológio é o escrito com antecedência, o féretro dos cadáveres ilustres é preparado com denodo e paciência. Quando ele fica pronto, e corre o rumor de que o objeto está prestes a bater as botas, alguém tem a brilhante idéia de tentar fazer confluir a morte com o necrológio. Quando os ponteiros confluem, no entanto, o resultado é grotesco. Caso da capa com Jorge Amado que “Época” estampou no dia que o escritor morreu.

O segundo procedimento é o sujeito que se sabe à véspera da morte. Imagino que ele queira então deixar sua vida e sua obra em ordem. Esclarecer alguns assuntos, chamar a atenção para outros, acertar contas, encaminhar o inventário, distribuir a herança, essas coisas. E talvez resida aí uma ilusão de onipotência (como quer a bancada vienense) de fundo narcisista: a pretensão, se não de controlar o futuro, pelo menos de moldá-lo, ou encaminhá-lo (...)"

"(...) "O encontro marcado” pertence à categoria de “O pequeno príncipe”, de Saint-Exupéry. É um livrinho para adolescentes mineiros pré-anos 60, para coroinhas atormentados pelo pecado da masturbação. É um romance banal, com a pieguice tola, miúda e egocêntrica – ah, os belos sentimentos! os vagidos de alminhas puras descobrindo o amor nas ruas aprazíveis de Belo Horizonte! – que caracteriza o homem cordial de classe média, dado às letras (sobretudo de católicos franceses conservadores) e, se pintar, um cartório no Rio, presente do sogrão camarada. Tudo em prosa escorreita, boa família. Que é o seu único mérito. (...)~"



 Escrito por Marcelo às 16h28
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Oduvaldo Vianna Filho

Quando ainda estava na faculdade, li uma biografia no Vianinha. Lembro que fiquei impressionado com a epígrafe do livro, uma frase do Maiakovski com a qual me identifico absurdamente: "Comigo a anatomia se vê louca. Sou todo coração". Digressiono, digressiono, diria o Dapieve. Porque o post é para informar que hoje começa no Espaço Cultural Constituição, próximo à Praça Tiradentes e ao Bar Luiz (ótima pedida, sempre), o evento 30 anos sem Vianinha. Leituras, palestras e exposição fotográfica integram o ciclo comemorativo. Hoje à noite haverá leitura de sua primeira peça, Bilbao, via Copacabana. Amanhã, será a vez de Chapetuba Futebol Clube. E ainda constam do programa Moço em estado de sítio, Se correr o bicho pega, se ficar o bicho come, Corpo a corpo e Rasga coração, entre outras. No total, serão 12 textos do dramaturgo. O Espaço Constituição fica na Rua da Constituição 34, Centro - Tel: 2242-3102.



 Escrito por Marcelo às 14h24
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Dostoievski

A Estação das Letras promoverá na próxima sexta-feira o evento Lendo Dostoievski, incluindo leitura e comentários sobre a obra do autor russo pelo  professor e tradutor Paulo Bezerra. Na ocasião, Bezerra lançará também sua tradução para "Os Demônios"(Editora 34). Às 18h, na nova filial da Estação, que fica no 2º andar do AL Fahabi (Rua do Rosário, 30), o simpático sebo do amigo Carlos.



 Escrito por Marcelo às 14h17
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Conexões

(...) O gavetão de baixo do armário eu reservei para o estrilar de pequeninos guizos. Não chegam a soar em plenitude, mas... Lá está, por exemplo, o dia em que viajava de carro pela Rua Voluntários da Pátria e assustei-me quando um mendigo, entre tantos que dormiam ao lado da estação do metrô, levantou-se subitamente e, aos pulos, acordou os demais para que olhassem em direção ao céu. Olhei também. E pude sentir germinando olhos adentro as sete cores de um arco-íris atemporão, sem chuva nem sol, que me fez estacionar e colocar Stormy Weather no aparelho de som, porque aquela cena, ah..., aquela cena parecia exigir uma canção capaz de rivalizar com o silêncio.(...)"

Trecho de O armário, conto que escrevi faz algum tempo. Lembrei dele ao ver esta linda foto da Mariana Newslands no Interlúdio.



 Escrito por Marcelo às 14h40
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Sophia de Mello Breyner Andresen

Cada vez mais, cada vez mais impressionado com a delicadeza das imagens criadas por ela...

"A noite e a casa"

"A noite reúne a casa e o seu silêncio

Desde o alicerce até o fundamento

Até à flor imóvel

Apenas se ouve bater o relógio do tempo

A noite reúne a casa a seu destino

Nada agora se dispersa ou divide

Tudo está como o cipreste atento

O vazio caminha em seus espaços vivos"



 Escrito por Marcelo às 11h46
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Dramaturgos e prosadores

Ontem à noite, no Teatro Café Pequeno, eu e JP Cuenca passamos por uma experiência muito bacana: ver nossos contos adaptados para leitura dramatizada e, em contrapartida, "transcriar" peças de outrem sob a forma literária. O diálogo entre novos dramaturgos e novos prosadores, proposto por Daniela Pereira de Carvalho (do grupo Dezequilibrados), deu-se com harmonia, apesar das diferenças de linguagem e da falta de costume de nós todos, calouros na prática. E prosseguiu após as apresentações, através da conversa entre mim, Cuenca, Daniela e o dramaturgo Roberto Alvim, de quem adaptei o texto Pelesanguecarneossos (que, aliás, está sendo montado no próprio Café Pequeno). Questões como a rubrica, o papel do ator, a diferença entre a palavra escrita para ser lida ou para ser falada dominaram as discussões, que ficou ainda mais rica com a participação no debate dos atores que fizeram a leitura, da professora Beatriz Resende e do diretor de teatro Ivan Sugahara, que prestigiaram o encontro. Na segunda-feira que vem que vem, estarão no palco do Teatro os amigos Flavio Izhaki e Antonia Pellegrino.  



 Escrito por Marcelo às 11h34
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Ô, sorte!

Legítimo representante da família da Serrinha e, mais do que isto, patrimônio da cultura brasileira, mestre Wilson das Neves estará hoje à noite no projeto Puxando conversa, que acontece nos jardins do Museu da República. Além de um vídeo em que Das Neves mostra um pouco de sua trajetória (conferi o filme uma vez no Bip, é bem interessante...), haverá roda de samba, comandada por ele e com participação de outroa bambas. Tudo de graça. A partir das 18h30.



 Escrito por Marcelo às 11h22
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O encontro marcado

O site Paralelos incluiu, no especial em tributo a Fernando Sabino, o texto bacana que o Cuenca escreveu em sua coluna no JB de sábado passado. Vale a conferida. Abaixo, a íntegra da minha homenagem, personificada no livro O encontro marcado:

Sobretudo, um livro sobre o amor

por Marcelo Moutinho

"Fernando Sabino, meu amigo, as rosas estão frias
E estremeceram nas hastes como uma voz de eternidade"
~ Hélio Pellegrino, em carta-poema, 4 de maio de 1945


Não era meu cronista preferido (pronto, falei!). A verdade é que, entre os "quatro mineiros do Apocalipse", afeiçoei-me mais ao lirismo comedido do Paulo Mendes Campos e ao pessimismo permanente do Otto. Mas não é sempre que um romance lido quando já passada a adolescência entra numa lista particular (e necessariamente ilógica) dos "livros de nossa vida". Os títulos que relacionamos costumam perdurar e em geral circundam textos sorvidos na quentura da descoberta, quando olhamos para o mundo e, ao nos flagarmos nus, então percebemos que a nudez não nos é exclusiva.

Falo de "O encontro marcado", evidentemente. Que segue firme, ao lado de Kafkas, Dostoievskis, Clarices e Camus na prateleira mais preciosa de minha estante íntima. Com a morte de Sabino, o último dos quatro mineiros, pus-me a pensar por que afinal esse livro fora capaz de forçar espaço nessa listagem, apesar de tão tardiamente. E revisitei o romance, relendo apenas as frases sublinhadas:

"Estamos imprensados entre esses dois acontecimentos: o nascimento e a morte. Temos apenas 60 anos para resolver o problema, talvez menos."

"A idéia da morte os fazia mais velhos."

"Quem fala em sangue, e não esta sangrando, é um impostor."

"Há uma fresta em minha alma por onde a substância do que sou está sempre escapando mas não vejo onde nem porquê."

As quatro acima são apenas exemplos soltos das tantas passagens que mereceram rabiscos daquele rapaz de vinte e poucos anos que era eu, por falarem de coisas intangíveis e ressonantes. Que continuam ressonantes, mesmo na leitura apressada de anteontem à noite. Contudo, para além das frases, da prosa fluente do narrador, compreendi que minha profunda ligação com a obra atrelava-se essencialmente ao fato de "O encontro marcado" ser antes de tudo um romance sobre o amor, urgido no sentimento trágico diante da vida que uniu Sabino, Hélio, Otto e Paulo. Aquele mesmo amor que os levava a "puxar angústia", em expressão que se tornou clássica. Pobre de quem nunca "puxou angústia" ao ouvir um samba triste, ao engolir o quinto chope numa mesa de bar, ou ainda ao encontrar um cartão antigo, já amarelado, dormindo esquecido dentro de um livro...

"Vivíamos em estado permanente de discussão", comentou certa vez Sabino, referindo-se ao grupo. E as delongas superavam tempo ou geografias. Na correspondência trocada entre eles, anos e anos depois das travessuras na Praça da Liberdade de uma Belo Horizonte quase provinciana, o misterioso fio que os ligava permanecia firme. Como o demonstra carta remetida a Hélio, datada de 1945. Sabino confessava ter o coração cheio de "alegria triste", e observava: "Há qualquer coisa de comovente nesse encontro de nós quatro assim de longe – tão longe que estamos um do outro, você do Paulo, o Paulo do Otto, o Otto de mim, e no entanto tão juntos, que nossa respiração se confunde, nossas mãos se tocam no ar e há um resto de doçura no olhar de cada um, que é a lembrança dos outros três."

Essa doçura valente - presente em cada linha de "O encontro marcado"- nasce da generosidade de "mostrarmos nossos corações uns para os outros", como bem definiu um desses amigos que sabem ser doces. É ela que confere intensidade às relações humanas. É ela que me faz situar o romance entre os grandes livros que li. É ela, enfim, como bem souberam o próprio Sabino e seus parceiros Hélio, Otto e Paulo, que faz da amizade uma forma [sublime] de amor.



 Escrito por Marcelo às 19h24
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No Portal Literal

O Portal Literal põe no ar hoje a ótima resenha da crítica e professora Beatriz Resende sobre o Prosas cariocas. Ao lado do texto dela, traz um guia comentado, escrito por mim (com a colaboração especialíssima do amigo Flavio Izhaki), com os blogs mantidos por novos escritores. Abaixo, trechos da resenha da Beá e do meu mapeamento. Confira tudo aqui.

"Flechada no Rio"

Beatriz Resende

"(...) O que de mais importante quase todos têm em comum é a influência da crônica, gênero carioca por excelência, prática literária limítrofe entre o ficcional e o não ficcional. Assim como a crônica, entre nós, foi incorporando personagens, modelando-se com relatos da memória até beirar a história curta, também o conto, ao se ocupar da cidade, assume o aspecto de flânerie tão comum à crônica, um jeito de folha levada pelo vento calçadas afora. Passando por espaços de ruas, bares ou prédios, o contista se faz neste conjunto, o mais das vezes, quase um cronista.

Do Rio de Janeiro vêm para o livro a Zona Sul e a Norte, da Zona Oeste aparece o espaço híbrido da Barra da Tijuca. Nossos jovens contistas não chegam até a periferia da cidade, aos guetos dos conjuntos habitacionais criados por perversas ordens de remoção, prática mais política do que urbanística felizmente derrotada. Também ali não falam os morros, parte tão importante da personalidade carioca. A proposta de se mapear espaços realmente vividos pelos autores, no entanto, evidencia certa sinceridade e comprova que não é mais do interesse dos escritores exercer a tarefa de intérprete dos excluídos, até porque estes já se falam por suas próprias vozes. Nada a ver com a cidade de outras práticas culturais como o famoso Cinco vezes favela, filme de 1961. Afinal, é de outro tempo e de outra cidade que estamos falando.

Nesse cruzar da cidade criando uma nova "cartografia" é bastante curioso que, no mais das vezes, o bairro ou área a serem tratados não apareçam de fato ou sejam desconstruídos. Assim, a lírica Urca de Marcelo Moutinho nunca chega, na viagem de ônibus que conduz o narrador. O Baixo Gávea de Antônia Pelegrino não é o encontro de bares, boêmios e jovens tomando a indefectível Skol, é o espaço de uma memória de infância. O centro de Miguel Conde é lugar de moradia por onde se caminha à noite. A Barra da Tijuca, com Ana Beatriz Guerra, não traz a alegria dos bares nem o prazer dos motéis, mas a tragédia. A Pavuna, para Mariel Reis, é um lugar qualquer onde acontecem encontros inesperados e a morte ronda a vida. Por Jacarepaguá, se passa rumo à Barra ou à Gávea, como no "anticinema" de Henrique Rodrigues. A Muda, de uma classe média falida, é de onde se muda a jovem de Bianca Ramoneda, em direção a espaços mais nobre que podem ser resumidos com o reconhecimento de que "falta um feijãozinho no dente da Zona Sul. Na interessante circulação pelo Catete promovida por Flávio Izhaki, o bairro que abriga um palácio republicano aparece absolutamente degradado: "Catete, Copacabana dos excluídos", mas lá pode estar um terno amor (...)"

Muito distante do diário íntimo

Marcelo Moutinho

(...) Se nasceram como paradoxais depositórios públicos de confissões privadas, os blogs representam hoje uma ferramenta importante para os novos escritores. Na internet, eles postam experimentos para futuros livros e estabelecem uma ligação direta com os leitores. A partir do sistema de comentários (abaixo de cada post, os visitantes podem comentar sobre o que ele contém), trocam idéias não só a respeito de literatura, mas sobre cinema, música, teatro, artes plásticas, política.

Geralmente conectados através de links, esses blogs formam uma interessante rede que une (ainda que virtualmente) a nova geração, permitindo que haja um diálogo produtivo entre seus atores. São contatos iniciais, que costumam evoluir num segundo momento para o convívio real. (...)



 Escrito por Marcelo às 17h10
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Mais uma resenha

O site Verbo 21, voltado para "literatura e internet", publica resenha do nosso Prosas cariocas. Entre algumas porradinhas e alguns elogios, o bem-escrito texto de José Carlos Rodrigues parece-me afeito às exigências de uma das facetas do chamado "pós-moderno", em sua ânsia pela novidade a qualquer custo. Confira aqui.

 Escrito por Marcelo às 14h52
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Boa companhia

Este Pentimento está encabeçando hoje a lista de blogs indicados do Portal Literal. Mas o melhor da história é mesmo a companhia. Ao meu lado, está ninguém menos do que Noam Chomsky, com seu Turning the tide



 Escrito por Marcelo às 16h10
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Ainda o Sabino...

O Globo de hoje traz ótimo artigo do Wilson Figueiredo sobre o autor de O encontro marcado. O articulista faz uma análise acurada da carreira de Sabino, inclusive em seus momentos mais difíceis, como a época do lançamento de Zélia, uma paixão. Abaixo, um trecho. Confira a íntegra aqui.

"O juízo final das gavetas de um escritor"

Wilson Figueiredo

"(...) A “biografia romanceada da ex-ministra da Economia Zélia Cardoso de Mello”, como consta da relação dos seus livros, foi sucesso de venda maior do que a iniciativa comportava. Mas sob tremendo bombardeio crítico, oral e escrito. Ambos contundentes. Fernando se defendeu com a natureza jornalística do livro que foi o marco zero da longa e discreta retirada do autor para o fundo do palco.
Sob a anômala popularidade política da ministra, atestada pela venda recorde do livro, explodiu a corrosiva incompatibilidade da personagem com a crítica social, universitária, estudantil, jornalística e política (em suma, com a classe média da qual Zélia era oriunda). O livro foi um estouro editorial, a começar pelo segredo e o despistamento feito pelo autor. Mas Fernando não previra o conflito implícito nos dois signos do lançamento de “Zélia, uma paixão”: sucesso de vendas e restrição política da parcela pensante da sociedade. O autor se feriu na engrenagem que sabia operar em condições de mercado, não sob tensão política, que é outra paixão: teve a lisonja dos leitores anônimos mas faltou o apreço da opinião crítica e da classe média.
Em vão Fernando Sabino defendeu-se com a natureza jornalística (era verdade), isenta de veleidades literárias. Uma aventura. A restrição “politicamente correta” do meio intelectual e da classe média era, porém, de fundo ético, e falava por todas as insatisfações acumuladas. (...)"



 Escrito por Marcelo às 12h40
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Da série 300 toques - Número 13

Noturno

O dia entorna as horas e todas parecem derramadas sobre mim (o corpo dói). Pela fresta da janela, em lusco-fusco, o tempo morre (o corpo sofre). Fagulhas de homens, rabiscos amarelados na noite - a cidade tem sono. Entorpecido de imagens, cansado de artifícios, o corpo dorme.



 Escrito por Marcelo às 12h21
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Cartola, por Monica Ramalho

A gente-muito-boa Monica Ramalho lança amanhã, a partir das 15h, uma biografia infanto-juvenil do grande Cartola. O evento acontecerá na Livraria Folha Seca e será animado por uma roda de samba comandada pelo amigo violonista Lucas Porto e pela saxofonista Daniela Spielmann, com participações especialíssimas do Pedro Paulo Malta (vocal), Márcio Hulk (cavaquinho) e Fabiano Salek (percussão).

O livro da Monica integra a coleção Mestres da Música no Brasil, da Editora Moderna, destinada a crianças e adolescentes. A publicação conta com desenhos de Lan, 40 fotografias - de feras como Evandro Teixeira e Walter Firmo – e uma caricatura inédita de Cássio Loredano. Quem assina a apresentação é Hermínio Bello de Carvalho, parceiro e amigo do compositor mangueirense. A Folha Seca fica na Rua do Ouvidor, 37.



 Escrito por Marcelo às 11h20
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Filipeta



 Escrito por Marcelo às 11h09
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A nova dramaturgia encontra a nova prosa

O evento Cena Pop Carioca/Ciclo Novos Autores inaugura na próxima segunda, às 21h, uma série de encontros entre as novas gerações de dramaturgos e escritores do Rio de Janeiro. Com entrada franca, os espetáculos se constituirão basicamente na leitura dramatizada de contos adaptados para o teatro e de peças transformadas em literatura.
Terei a honra de participar da estréia, ao lado de João Paulo Cuenca e dos dramaturgos Daniela Pereira de Carvalho (coordenadora do evento, integrante do grupo Os Dezequilibrados) e Roberto Alvim. Nas próximas edições, estarão lá Flávio Izhaki, Bianca Ramoneda, Antonia Pellegrino e Henrique Rodrigues. As leituras acontecerão no Teatro Café Pequeno (Av. Ataulfo de Paiva, 269 - Leblon - Tel: 2294-4480). Segue o programa da segunda:

· João Paulo Cuenca apresentará adaptação para conto da peça Tempo-máquina, de Daniela Pereira de Carvalho;

· Daniela Pereira de Carvalho apresentará adaptação para cena do conto Flores de inverno, de Marcelo Moutinho;

· Marcelo Moutinho apresentará adaptação para conto da peça Pelecarnesangueossos, de Roberto Alvim;

· Roberto Alvim apresentará adaptação para cena do conto Uma e o gato, de João Paulo Cuenca.

Todos estão, desde já, convidados.



 Escrito por Marcelo às 17h40
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Paralelos - Especial Sabino

Não deixem de conferir o especial em tributo a Fernando Sabino, que o site Paralelos colocou no ar. Os textos - de amigos como Flávio Izhaki, Cecilia Giannetti e Jaime Gonçalves, entre outros - ficaram muito bacanas. Também escrevi um artiguinho para lá. Leia um trecho abaixo. A íntegra está aqui.

Sobretudo, um livro sobre o amor

Marcelo Moutinho

Não era meu cronista preferido (pronto, falei!). A verdade é que, entre os “quatro mineiros do Apocalipse”, afeiçoei-me mais ao lirismo comedido do Paulo Mendes Campos e ao pessimismo permanente do Otto. Mas não é sempre que um romance lido quando já passada a adolescência entra numa lista particular (e necessariamente ilógica) dos “livros de nossa vida”. Os títulos que relacionamos costumam perdurar e em geral circundam textos sorvidos na quentura da descoberta, quando olhamos para o mundo e, ao nos flagarmos nus, então percebemos que a nudez não nos é exclusiva.

Falo de “O encontro marcado”, evidentemente. Que segue firme, ao lado de Kafkas, Dostoievskis, Clarices e Camus na prateleira mais preciosa de minha estante íntima. Com a morte de Sabino, o último dos quatro mineiros, pus-me a pensar por que afinal esse livro fora capaz de forçar espaço nessa listagem, apesar de tão tardiamente (...).



 Escrito por Marcelo às 17h27
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Manhãs

"(...) O primeiro som, ainda misturado aos sonhos, som que acompanha meu repousar à terra, pouso ainda não na casa e cama e espaço de paredes quarto, mas cobertor, travesseiro, música que me torna ao corpo, é o cantar da escada anunciando a mãe. Entreabro os olhos e seu vestido roça a meia-grade de minha cama, deixando um cheiro morno de manhã com a poeira de luz a dançar pela veneziana, a bunda e as costas da mãe ondulam para o lado de Amado. Nosso quarto é apertado, o corpo faz voltas mansas e precisas até sentar-se na cama de meu irmão, inclinar-se estendendo as mãos em cafuné e sussurro, acorda, filho, hora da escola. Amado prolonga o carinho revirando-se e gemendo, ainda não, só mais um pouquinho, e a mãe novamente de pé vira-se para mim e seu rosto surge. A veneziana é alta, ela é baixa, a luz da manhã cria uma aura em seus cabelos presos em coque, toda sua cabeça paira no ar, os olhos claros e o sorriso parcimonioso intensificam essa nuvem que não ofusca, atrai, absorve e está em desacordo com a sólida massa que vem abraçar-me, levanta-me da cama com calor terreno. O ritual da manhã é quebrado, apressado ou modificado se G. entra antes de seu final, vestido, limpo, cheiro de sabão de coco, silencioso. Guarda o pijama dobrado no armário, ajeita a cama e desce sem beijar a mãe, apenas respode "dia" ao seu bom-dia. O dia de G. esfarinha essa mistura de céu e terra ainda um pouco noite e sonho e o dia se impõe definitivo com a batida da prota de baixo e o cheiro do pão que meu pai traz junto com seu jornal máscara matutina. Não conheci o corpo de G., vestia-se no banheiro, dormia de pijama. O corpo de Amado, no café-da-manhã, cheirava a sono, acho que só molhava o cabelo na pia, para alisar os cachos e fingir que tomara banho. O corpo de Amado é o início da percepção de meu corpo, o de G., o seu limite. Vim do corpo da mãe e deveria chegar ao do pai.

Assim eram as manhãs da minha casa, tudo caminha e modifica-se, fala e ouve. Começo a falar tarde, e, diferente de meus irmãos, tenho dificuldade para aprender a escrever. A casa não era de muitas palavras, falava-se de outras formas. A escada dizia quem chegava ou saía, o cheiro de cada cliente dizia o tipo de trabalho da mãe, o jeito de a porta abrir à noite para o meu pai determinava a hora em que iríamos para o quarto. No escuro a casa cresce e é tomada por seus verdadeiros donos, o chão, as paredes, as panelas e pratos, a poltrona, a porta, o teto, as rachaduras (...)."


Trecho de Não falei, de Beatriz Bracher



 Escrito por Marcelo às 10h48
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A última crônica

Em 1965, Fernando Sabino escreveu a crônica que gostaria que fosse a sua última. O texto foi publicado no livro A companheira de viagem, e é reembrado hoje no Portal Literal. Belo, belo, belo, do início ao lírico desfecho. Ta aí embaixo, amigos, "puro como um sorriso":

"A última crônica"

Fernando Sabino
 
"A caminho de casa, entro num botequim da Gávea para tomar um café junto ao balcão. Na realidade estou adiando o momento de escrever. A perspectiva me assusta. Gostaria de estar inspirado, de coroar com êxito mais um ano nesta busca do pitoresco ou do irrisório no cotidiano de cada um. Eu pretendia apenas recolher da vida diária algo de seu disperso conteúdo humano, fruto da convivência, que a faz mais digna de ser vivida. Visava ao circunstancial, ao episódico. Nesta perseguição do acidental, quer num flagrante de esquina, quer nas palavras de uma criança ou num acidente doméstico, torno-me simples espectador e perco a noção do essencial. Sem mais nada para contar, curvo a cabeça e tomo meu café, enquanto o verso do poeta se repete na lembrança: "assim eu quereria o meu último poema". Não sou poeta e estou sem assunto. Lanço então um último olhar fora de mim, onde vivem os assuntos que merecem uma crônica.

Ao fundo do botequim um casal de pretos acaba de sentar-se, numa das últimas mesas de mármore ao longo da parede de espelhos. A compostura da humildade, na contenção de gestos e palavras, deixa-se acrescentar pela presença de uma negrinha de seus três anos, laço na cabeça, toda arrumadinha no vestido pobre, que se instalou também à mesa: mal ousa balançar as perninhas curtas ou correr os olhos grandes de curiosidade ao redor. Três seres esquivos que compõem em torno à mesa a instituição tradicional da família, célula da sociedade. Vejo, porém, que se preparam para algo mais que matar a fome.

Passo a observá-los. O pai, depois de contar o dinheiro que discretamente retirou do bolso, aborda o garçom, inclinando-se para trás na cadeira, e aponta no balcão um pedaço de bolo sob a redoma. A mãe limita-se a ficar olhando imóvel, vagamente ansiosa, como se aguardasse a aprovação do garçom. Este ouve, concentrado, o pedido do homem e depois se afasta para atendê-lo. A mulher suspira, olhando para os lados, a reassegurar-se da naturalidade de sua presença ali. A meu lado o garçom encaminha a ordem do freguês. O homem atrás do balcão apanha a porção do bolo com a mão, larga-o no pratinho - um bolo simples, amarelo-escuro, apenas uma pequena fatia triangular. A negrinha, contida na sua expectativa, olha a garrafa de Coca-Cola e o pratinho que o garçom deixou à sua frente. Por que não começa a comer? Vejo que os três, pai, mãe e filha, obedecem em torno à mesa um discreto ritual. A mãe remexe na bolsa de plástico preto e brilhante, retira qualquer coisa. O pai se mune de uma caixa de fósforos, e espera. A filha aguarda também, atenta como um animalzinho. Ninguém mais os observa além de mim.

São três velinhas brancas, minúsculas, que a mãe espeta caprichosamente na fatia do bolo. E enquanto ela serve a Coca-Cola, o pai risca o fósforo e acende as velas. Como a um gesto ensaiado, a menininha repousa o queixo no mármore e sopra com força, apagando as chamas. Imediatamente põe-se a bater palmas, muito compenetrada, cantando num balbucio, a que os pais se juntam, discretos: "Parabéns pra você, parabéns pra você..." Depois a mãe recolhe as velas, torna a guardá-las na bolsa. A negrinha agarra finalmente o bolo com as duas mãos sôfregas e põe-se a comê-lo. A mulher está olhando para ela com ternura - ajeita-lhe a fitinha no cabelo crespo, limpa o farelo de bolo que lhe cai ao colo. O pai corre os olhos pelo botequim, satisfeito, como a se convencer intimamente do sucesso da celebração. Dá comigo de súbito, a observá-lo, nossos olhos se encontram, ele se perturba, constrangido - vacila, ameaça abaixar a cabeça, mas acaba sustentando o olhar e enfim se abre num sorriso.

Assim eu quereria minha última crônica: que fosse pura como esse sorriso."

P.S. O quadro é de Iberê Camargo...



 Escrito por Marcelo às 12h31
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Resenha

O amigo Mariel Reis me manda via email a generosa resenha do professor de literatura Antonio Dutra sobre o livro Prosas cariocas. Ficou tão bacana que queria dividir com vocês...

"Evoé, jovens à vista"

Antonio Dutra

"O aparecimento de uma nova geração de escritores deve ser sempre saudado como algo benéfico, ainda mais quando não obedecem a um programa ou regras. É o que se observa lendo Prosas cariocas - Uma nova cartografia do Rio de Janeiro. Marcelo Moutinho, Flávio Izhaki (organizadores) – Rio de Janeiro: Casa da Palavra, 2004.
Um dos grandes méritos da coletânea é fugir dos lugares comuns, como justificam os organizadores, ao invés da evocação de uma cidade rapidamente consumível em lugares turísticos, acompanhamos as cidades dentro da cidade, para abusar da epígrafe de Marques Rebêlo no próprio livro. São respectivamente autores e bairros retratados: Cecilia Giannetti (Ilha do Governador), Mariel Reis (Pavuna), Vinicius Martinelli Jatobá (Madureira), Marcelo Alves (Lins), Sidney Silveira (Maracanã), Bianca Ramoneda (Muda), Henrique Rodrigues (Jacarepaguá), Ana Beatriz Guerra (Barra), Antonia Pellegrino (Gávea), Juva Batella (Leblon), Augusto Sales (Copacabana), Marcelo Moutinho (Urca), Flávio Izhaki (Catete), Miguel Conde (Centro), Mara Coradello (Santa Teresa), Adriana Lisboa (Laranjeiras), e João Paulo Cuenca (Cosme Velho).
Há diversos pontos de contatos entre os textos. Bairros que se atropelam, imagens que se duplicam. É a Gávea servindo de modelo para os playboys da Ilha do Governador, ou o narrador do conto sobre o Catete que vê o bairro como Copacabana, porém mais miserável. O Leblon surgindo do conto da Muda, e de novo a Ilha e a temível Linha Vermelha, a Lagoa, o Arpoador e Ipanema.
Nas narrativas vemos o ritmo da vida contemporânea, a velocidade implícita como fragmentos de nossas urgências quotidianas. Exemplar é a sucessão entre os trechos de Para ver as meninas (Marcelo Moutinho) na qual se revelam os aspectos da personalidade do narrador em busca de uma pausa em meio ao ônibus, frustrações e cólera; pausa que se anuncia da canção de Paulinho da Viola como tema e - quase mais uma personagem - surge com gosto de infância.
Enquanto o narrador de Para a moradora do 707 vai deixando de lado a análise das ruas do Catete, para em meio a espiral de angústia querer a serenidade prometida no sétimo andar. A técnica aparece como questão importante em alguns contos. Aos pedaços, ou como fotos é que Mariel Reis apresenta Pavuna em cinco movimentos: do puro divertimento até o trágico, num mundo arruinado de sonhos. Aliás, a preocupação com a experimentação não é exclusividade destes contos. A prosa elegante de Sidney Silveira alterna colchetes para os diálogos em A escolha
de Elias Antero
, em torno do personagem-título, um professor aposentado, culto e irônico, e de maneira similar Mara Coradello prefere o uso de
chaves. Retratando um artista plástico que pinta trípticos também nas relações amorosas. Enquanto Miguel Conde nos mostra as notas de seu
personagem – propositalmente sem nome - no Centro.
No conto Ilha debaixo da terra, Cecilia Giannetti nos mostra o aprendizado da personagem central, e na dupla perda que se delineia aos poucos, tendo como pano de fundo o mar que fede e a memória da personagem. Neste ponto, seu texto se aproxima do conto 1983 de Antonia Pellegrino no qual a Gávea é palco de imagens recorrentes de toda uma geração que esteve diante da V. É a memória quem guia. No conto Sorria, você está na Barra, de Ana Beatriz Guerra, vemos o narrador inquirindo pela memória da amada, "você lembra", com a esperança de algo duradouro em meio à solidão. A mesma solidão que conduz Lúcia pelas ruas quentes de Madureira, pela escrita de Vinicius
Martinelli Jatobá, ou o pensamento do personagem idoso de Encontro, por Adriana Lisboa. Um senhor que avalia sua vida... até que tudo se acelera, uma linha é ultrapassada.
No conto Dia de jogo na rua, o futebol é quem delimita a fronteira entre morro e asfalto, que conhecemos. Aliás muitos morros são entrevistos: A Muda como um vale entre as favelas do Borel, Formiga e Casa-Branca, o próprio Lins e os meninos da Cachoeirinha, e o contraponto entre a Gávea e a Rocinha, a Barra e a Cidade de Deus ou a Taquara e a favela do Jordão, apontados por Henrique Rodrigues.
A ausência de um conto ambientado em uma das muitas comunidades carentes do Rio poderia ser apontada como um defeito, mas que em compensação faz a coletânea ter o mérito de evitar uma certa artificialidade da escrita, ou de
personagens mal caracterizados. Conhecer a cidade é entender seus limites bem circunscritos, como no conto A varredora de Juva Batella e a "pequena ilha" do Leblon ou muitas vezes limites interiorizados, como se observa no belo conto Quando se Muda, de Bianca Ramoneda, e sua personagem que vai superando imagens estereotipadas de zona norte e zona sul.
No conto Alcatrão 10mg Nicotina 0,8mg Monóxido de carbono 10 mg, de Augusto Sales, vemos Arlindo disposto a mudar de vida, a largar o vício – pedindo ajuda até de divindades e santos – mas que na hora h... pensa e retrocede. Um conto direto, com enredo simples e que por isso funciona muito bem. A coletânea termina com o conto de João Paulo Cuenca, denominado Último conto, que trata da história de sr. Carvalho de Souza que se refugia na segurança de sua "erudição incompleta" (é ler pra entender o por quê) de ficcionista premiadíssimo.
No todo, os contos são bons. É claro que se pode apontar críticas aqui ou ali: um trecho que não desperta tanta atenção num conto ou às vezes um preciosismo de expressão que atrapalha, mas tudo bem; é o início. Escrever é trabalhoso, é carpintaria, como bem lembra Autran Dourado no seu Breve manual de estilo e romance (p.20): "...escritor é aquele sujeito que escreve com dificuldade; quem escreve com facilidade é orador. A ambição da palavra escrita é permanecer."
Quem permanecerá ou o que virá depois... Não sabemos; dos contos emergem memórias, cenas e personagens que compõem um mosaico da literatura destes jovens e seus olhares sobre a cidade que sabe ser um lugar escuro ou apenas um sorriso. Microcosmos desenhados: Eis o Rio de Janeiro.
Boa leitura."



 Escrito por Marcelo às 10h57
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Leituras

Das leituras do fim-de-semana esticado, dois textos me chamaram a atenção. Um deles foi a tocante homenagem do Paulo Roberto Pires a mestre Sabino no site No Mínimo. O outro, a coluna do Joaquim Ferreira dos Santos, publicada segunda-feira em O Globo, no qual ele abusa do sarcasmo para ironizar a postura de alguns "roqueiros" durante a entrega do prêmio da MTV. Lembrando a pergunta feita pelo Lobão, será que "o rock errou" mesmo? Segue o texto do Joaquim: 

"E aí, beleza?"

Joaquim Ferreira dos Santos

"Eu vi a “Geração é isso aí, galera”, semana passada na entrega dos prêmios de videoclipe da MTV, e faço minhas as palavras de Caetano. Tomem vergonha na cara, honrem Johnny Rotten, urinem no túmulo de Jim Morrison e acordem para cuspir na careta desses VJs. Elvis Presley morreu gordo. João Gordo vai morrer magérrimo. Até quando a história do rock vai repetir que um garoto na rua não tem o que fazer além de se juntar a outros, montar uma banda para anarquizar os otários e depois falecer quietinho, com os burros cheios, no caixão de peroba de todos eles?
Vamos parar com essa gritaria de “u-hu” e “valeu, galera”. Isso aqui era um estacionamento cheio de som e fúria, hoje é um oásis de tranqüilidade e margaridas do campo, diz a bela música que Caetano Veloso cantou com David Byrne. E agora? Fica todo mundo aos gritos de “é isso, aí”, todos aplaudindo a premiação e o blablabá dos VJs de calças Armani rasgadinhas no joelho. Papo furado. O som está uma porcaria não é de hoje, e foi preciso um cara, que já devia estar acoplado a um Vienatone básico, botar mais uma vez os cornos acima da manada e gritar aos moleques que o rei é que está surdo. Ninguém está ouvindo nada. Deve ser culpa da touca Cavallera que o cara do Sepultura, depois de aumentar diabolicamente o som da caixa, desenhou para proteger as orebas dos consumidores e fazer o caixa. Fatura-se em todas as pontas. Custa crer. Tanto coquetel molotov no cavalo dos meganhas para se viver nessa imensa butique de imagens.
Eu queria ser jovem o suficiente para quedar quietinho na paz da minha tatuagem de cobra enroscada, curtindo o jeitão irado de ela ir descendo pelo ombro e cair de boca, a língua esticada, na aranha espalhada pelo cotovelo. Queria ficar na minha, falando um palavrão qualquer, como eu vi os moleques no programa, para fingir que continuo na contramão do discurso. Queria acertar com gel o arrepio exato do cabelo, como fez o Selton Mello. Mas eu vi, agora me lembro o que me traz aqui, eu vi a entrega dos prêmios da MTV e pasmei. Lamento que tenha se passado tanto rock and roll para tão nada. Tantas guitarras quebradas pelo Pete Townsend, a solidão tamanha da Janis Joplin, o tiro esquentado na orelha do Kurt Cobain, a piração que nenhum choque cura do Brian Wilson. Tudo desperdício e, agora se vê, apenas material para anúncio do novo Volks no intervalo VMB 2004.
Valeu o escambau, MTV. Se os Panteras Negras diziam “Queima, baby, queima”, os negões do hip hop em 2004 clamam pela “fé na humildade”. A rebeldia virou uma coisa velha, uma nostalgia de cara que já entrou nos enta, como esse Caetano 60, não se agüenta e solta o verbo pelos cinco mil alto-falantes. Ela não vai entrar nunca no Top 20, não faz o gênero de chegar na esquina e, como é bordão entre os menores de 20 anos, perguntar serelepe: “E aí, beleza?”
Eu vi a “Geração e aí, beleza?” no Vídeo Music Brasil, todo mundo interessado em não desagradar ao patrocinador da cervejaria, e sinceramente não acredito que o Marcelo D2 acredita que o negócio é “plantar o amor para se colher o bem”. Qualé, mermão ?, faça-me o favor. Beleza coisa nenhuma. Estão de novo em cena os jovens que vão matar amanhã a idéia ultrapassada que morreu ontem. E, se é assim, parodiando o discurso do velho baiano em 1968, estamos fritos.
Era uma geração que dizia não ao não. Derrubou as prateleiras, as estátuas, as vidraças, louças, e foi sucedida por outra, mais radical ainda, que via “no future”. Eis que agora surge, inteirinha no seu vídeo, a geração que se planta diante dos clipes jeitosinhos da MTV e diz sim ao sim. Todos em busca de um patrocínio maneiro, de olho no futuro que, além de existir, pode trazer uma sorte igual ao do VJ Rafa, escolhido num concurso público. “Ser jovem e morrer” ficava a sua vovozinha, aquela revoltada gritando bordões dos punks.
A juventude, como sempre se soube, é um verbo que se conjuga afirmativo e radical, mas sempre na forma negativa. Ouvi vaias contra uma baladinha da Sandy e Junior na festa. Achei pouco. Li sobre estudantes do Rio que foram às ruas semana passada protestar contra o elevador da faculdade que não funciona. Lamentei a dispersão de energia. Passaram-se as eleições, nenhum vereador se apresentou como articulador no legislativo das portarias jovens. Dei a questão como voto perdido e fui ao Festival do Rio ver o novo Bertolucci, “Os sonhadores”, sobre a revolução da estudantada de maio. O filme abre e fecha com trovões disparados pela guitarra de Jimi Hendrix.
Eu vi na MTV os garotos atrás da música, essa força sonora que fez diferente e deu norte à cabeça de várias gerações no passado. Depois de dezenas de popizinhos, depois de mais uma vez perceber que os caretas por trás dos botões ainda tentam escandalizar a platéia com duas mulheres se beijando e uma saraivada de “porras” gratuitos — eu voltei para a bela “(Nothing but) Flowers”, de David Byrne.
Caetano cantou e ninguém percebeu, primeiro por causa da porra do som e depois pelo embotamento geral dos sentidos, que a música sublinhava o vazio no furo dos piercings na pele da platéia e na língua dos apresentadores. Falava, com melancolia, como se perfilassse a platéia em frente, das transformações e do que fazer depois que elas chegam. “Não me deixa encalhado aqui/ Eu não me acostumo com esse estilo de vida”. E agora?
Os jovens da MTV, e todo ano eu dou uma geral na festa para ver como eles andam, têm os corpos sarados e as idéias gordas. Papai e mamãe deram permissão a todos os doces de sexo. Lambuzaram-se com a pimenta da contravenção comportamental nas últimas décadas. Saciados, cansados, aposentaram a dona rebeldia. Talvez só tirem o pijama se lhes for garantido que em troca vão ficar como o Marquinhos Mion, o VJ que tempos atrás apareceu do nada esculhambando a caretice da estética videoclipe e, depois de uns tempos afastado, reapareceu semana passada na festa do VMB.
Mion não zoou com a cara de ninguém. O bronzeado e o terno branco matariam de inveja qualquer bicheiro de Las Vegas. Seus dentes, que agora brilham, odontologicamente corretos, eram a mensagem. O futuro lhe sorriu."



 Escrito por Marcelo às 10h50
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Sabino

"(...) E a certeza de sermos interrompidos antes de terminar."

Toca o celular. Ao atender, ouço o Cuenca apenas perguntar: "E aí? Já sabe?". Estas perguntas sempre trazem a morte com elas. "O Sabino", seguiu ele, ainda atordoado. "Mas não tinha saído do hospital", ainda insisti. "Pois é...".

"Fazer da queda um passo de dança." Não era isso? Pois então: viva Fernando Sabino, vivam os quatro mineiros do Apocalipse. É vida que segue...



 Escrito por Marcelo às 18h23
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Premiére Brasil

Só para informar mesmo: acaba de sair o resultado da Premiére Brasil do Festival do Rio 2004 - Júri popular. Os vencedores foram Vida de menina (foto), de Helena Solberg (melhor longa de ficção), Fabio fabuloso, de Pedro Cezar, Ricardo Bocão e Antonio Ricardo (Melhor documentário), e Nada a declarar, de Gustavo Acioli (melhor curta). Não assisti a nenhum deles...



 Escrito por Marcelo às 12h33
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Lendo Sophia

Um livro que está me encantando é a seleta de poemas de Sophia de Mello Breyner Andresen, organizada por Vilma Arêas, que a Cia das Letras colocou há pouco nas livrarias e já foi mencionada aqui. A portuguesa Sophia tem a capacidade de extrair poesia da paisagem de um forma deslumbrante. No livro, há poemas como este:

"Meio-dia"

Sophia de Melo Breyner Andresen

"Meio-dia. Um canto da praia sem ninguém.

O sol no alto, fundo, enorme, aberto,

Tornou o céu de todo o deus deserto.

A luz cai implacável como um castigo.

Não há fantasmas nem almas,

E o mar imenso solitário e antigo,

Parece bater palmas."



 Escrito por Marcelo às 12h12
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Cem "menores" contos

Ando fascinado com narrativas curtíssimas. Por esses dias, estive lendo a simpática coletânea Os cem menores contos brasileiros do século, organizada pelo Marcelino Freire, e cujos textos têm até 50 palavras. No livro, encontrei algumas pérolas...

... Do humor, com Nelson de Oliveira:

"Chico"

"- Quando atrasa, preocupa.

Quando chega, incomoda.

- Menstruação?

- Não, meu marido"

... Do sarcasmo, com Glauco Mattoso:

"O eutanazista"

"Não podendo eliminar

o resto da humanidade,

suicidou-se."

Do realismo, com Cíntia Moscovich:

"Uma vida inteira pela frente.

O tiro veio por trás."

... Do lirismo, com Menalton Braff:

"Crespuscular"

"Pegou o chapéu, embrulhou o sol

então nunca mais amanheceu."

... E com João Anzanello Carrascoza:

"Vigília"

"Pronto nos olhos,

o pranto só espera a notícia"

Sensacional também o míni mini-conto do Millôr, que tem um título imenso (o título não conta para o limite de 50 palavras) e uma conclusão brevíssima. Um gaiato, esse Millôr...



 Escrito por Marcelo às 11h11
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Bip no CCC

O amigo Flavio Vaz, representante do mítico Alfredinho nas lides virtuais, manda avisar que na próxima segunda, dia 11, vai rolar um show no Centro Cultural Carioca visando a arrecadar fundos para o CD do Bip Bip. Ainda não está confirmado se o espetáculo será show uma "avant-premiére" do disco ou a própria gravação. De qualquer maneira, vale a pena conefrir, porque entre as ilustres presenças confirmadas está a de mestre Wilson Moreira. O show começará às 20h, e o Alfredinho alerta é melhor não chegar muito tarde, porque o CCC tem capacidade para apenas 200 pessoas.



 Escrito por Marcelo às 11h22
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No Globo Zona Sul

O Globo Zona Sul de hoje traz caprichadíssima matéria da repórter Suzana Velasco sobre o Prosas cariocas. O texto explora a relação dos autores com os bairros da região onde ambientaram seus contos. Estamos lá eu, Flávio Izhaki, Mara Coradello, Adriana Lisboa, João Paulo Cuenca, Augusto Salles e Antonia Pellegrino. Abaixo, um trecho da matéria. Leia na íntegra aqui.

"As ‘cidades’ da Zona Sul"

Suzana Velasco

“Cada bairro tem uma personalidade própria: o Rio é uma cidade com muitas cidades dentro.” A frase de Marques Rebêlo, epígrafe de “Prosas cariocas”, traduz bem o espírito do livro de contos: diferentes bairros da cidade, retratados pelo olhar de jovens escritores. Dos 17 textos, oito são situados na Zona Sul: Copacabana, Catete, Urca, Leblon, Laranjeiras, Gávea, Santa Teresa e Cosme Velho.
— As singularidades dos bairros aparecem nos contos, apesar de nem sempre os locais serem os personagens principais. A única condição era que o texto tivesse pelo menos uma cena na área escolhida. E, apesar de cada um ter seu estilo, há uma organicidade no livro, talvez por sermos de uma mesma geração — diz Marcelo Moutinho, que escreveu sobre a Urca.
As diferenças aparecem não apenas entre Pavuna e Copacabana, mas entre Copacabana e Gávea, Gávea e Leblon, Leblon e Cosme Velho.
— O Leblon é mais metido, quem mora lá não quer sair. A Gávea é mais misturada. E no Jardim Botânico ouço as pessoas tocando piano de tarde. Gosto dos prédios antigos de lá — conta Antonia Pellegrino, que escreveu sobre a Gávea.
Moutinho organizou o livro com Flávio Izhaki, cujo conto sobre o Catete inspirou a idéia de escrever sobre bairros do Rio. Bairros, sem o artigo definido, porque, em momento algum, foram estipulados que locais deveriam fazer parte de “Prosas cariocas”, lançado no mês passado.
— Fizemos uma seleção de pessoas, não de contos. Achávamos que a Tijuca, por exemplo, era importante, mas não impusemos nada a ninguém e o bairro não está no livro — conta Izhaki.
Bairros distintos, olhares distintos:
— Há uma pequena cidade dentro de Santa. Quando vim para cá, sentia-me insegura, pois, quando você se muda, o estranhamento superdimensiona tudo. Mudei de bairro consciente de que poderia ter um olhar diferente do Rio — diz Mara Coradello, que morava no Lido antes de se mudar para Santa Teresa, em março deste ano. No conto “Sagrado coração”, Mara fala de peculiaridades de Santa Teresa, como o caos criado quando alguém estaciona o carro perto do trilho do bonde.
— Ingenuamente, confiava no bonde como meio de transporte. Estava atrasada para o trabalho e de repente começou uma confusão — conta ela, enquanto procuramos um local para as fotos, depois de a dona de uma mercearia ter proibido fotografias dentro do local. — O bairro é superestrela, ninguém se fascina com imprensa. Aqui, ser artista é normal.
Mara faz uma certa crítica ao maluco-beleza de Santa Teresa:
— Existe um hippie falcatrua, que diz que não liga para bens materiais. O hippie às vezes me atrai e às vezes não. Tenho um olhar muito industrial sobre o bairro, ele não me contamina.
Se em “Sagrado coração” a referência a Santa Teresa é constante, em “Para ver as meninas”, a Urca é apenas uma idéia:
— Seria clichê falar da Urca como um lugar lindo. No conto, sua beleza não é desfrutável a não ser esteticamente. A Urca não consegue apaziguar o personagem — diz Moutinho. (...)"



 Escrito por Marcelo às 10h41
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Santiago Nazarian

O Pentimento inclui hoje mais um blog entre os links indicados. É o blog do Santiago Nazarian, co-autor de Parati para mim, e autor dor romances Olívio e A morte sem nome. Este último, muito elogiado pelo Flávio Izhaki, recebi na semana passada. Depois de ler, comentarei aqui.



 Escrito por Marcelo às 10h36
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Caixa da Elizeth

Boa notícia para quem gosta de boa música: a magnífica caixa da Elizeth Cardoso (Faxineira das canções), que estava esgotada, voltará a ser vendida, mas não nas lojas. A compra precisa ser feita diretamente com a Biscoito Fino, que já aceita encomendas em sistema de pré-venda através de sua página na internet.



 Escrito por Marcelo às 10h56
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Dez anos da Dantes

No próximo domingo, a partir das 15h, vai rolar e festa de dez anos da Dantes, aquele livrariazinha charmosa ali na rua Dias Ferreira (Leblon). Haverá venda especial de livros usados, apresentação de sambas e leitura de poemas. Além disso, o programa de rádio Superestéreo, de Lucas Santtana, tocará canções da cena independente nacional. As atividades se enceram com a Digital Dub Sound System, às 20h.



 Escrito por Marcelo às 10h49
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Nova literatura no JB e no Portal Literal

Hoje, o Caderno B publica, sob o título Literatura em tempos de blog, resumo de dois artigos, assinados por mim e pelo escritor Nelson de Oliveira. A íntegra dos textos está no Portal Literal. Abaixo, uma palinha...

Do artigo do Nelson:

"(...) Penso que é legítimo falar na Geração 90 e na Geração 70. Até mesmo na Geração Zero Zero. Por quê? Porque o conceito de geração literária é algo tão amoldável, tão ajustável, que nem é necessário lançar mão da liberdade poética para fazer valer esses três casos. Aliás, é por ser tão amoldável, tão ajustável, que esse conceito não deve ser levado muito a sério.  No frigir dos ovos o que vale é a qualidade literária, e só ela. Se tal escritor pertence ao clube A ou B, isso é secundário. O alarido dos que, sentindo-se ofendidos e ultrajados — "Não existe Geração 90! Isso é bobagem!" —, atiraram pedra nas duas antologias que eu organizei soou patético justamente por isso: muito barulho por nada. Tempestade em copo d'água. O principal das antologias são os contos e os contistas. O resto é mero capricho do organizador. Que, também ele ficcionista, defenderá sempre o direito dos escritores de misturarem fantasia e vida, vida e invenção. Literatura e liberdade ficam bem, lado a lado. A questão da Geração 90 perde todo o charme poético, toda a verve, quando é levada muito a sério. Quando a polícia é chamada a todo o instante: "Não existe Geração 90! Isso é bobagem!". Nessa hora, concordo com Goethe: "Desconfie de todos que possuem o desejo imperativo de policiar e punir (...)"

Do meu artigo:

(...) Só para nos mantermos na seara da prosa, abundam em universidades e livrarias teses e monografias sobre Machado de Assis, Guimarães Rosa, Graciliano Ramos, Clarice Lispector e tantos outros que ajudaram a construir a "tradição" brasileira. Também merecem a deferência de pesquisadores e editoras nomes mais contemporâneos, como Sérgio Sant’anna, Rubem Fonseca, Caio Fernando Abreu... Todos eles, sem dúvida, mui dignos da atenção dispensada. Mas a quem o bastão será entregue?

Caso os próprios autores que tentam romper esse círculo vicioso não começassem a forçar passagem, provavelmente tal bastão não sairia do lugar. E o rompimento vem se dando a partir de várias frentes. De edições independentes, que lutam bravamente contra as imensas dificuldades de distribuição e penetração na mídia especializada; dos blogs, que - vale lembrar - constituem um meio, e não um fim, e facilitam a "publicação" dos textos e o contato inicial com um público-leitor; de oficinas e saraus que se multiplicam espontaneamente; e de iniciativas como a revista Paralelos, com seu fundamental trabalho de mapeamento em nível nacional.

O lançamento da coletânea Prosas cariocas – Uma nova cartografia do Rio e o conseqüentes debate A nova prosa carioca, promovido pelo Espaço Sesc, vêm somar-se a esse grande movimento cuja meta primeira é a visibilidade - não sob a perspectiva espúria do ingresso no mundo cor-de-rosa das "celebrities", mas sob a premissa de que escritores escrevem para serem lidos. O livro Prosas cariocas, organizado por mim em parceria com o jornalista e escritor Flávio Izhaki, reúne alguns desses novos escribas, cuja produção não pode continuar a ser ignorada a priori. O conjunto de 17 contos expõe uma visão sobre o panorama literário da cidade, e os 17 escritores esperam que possíveis avaliações tenham como base dados concretos - ou seja, a leitura de seus textos -, e não abstrações que preguiçosamente estão sempre à mão, sobretudo daqueles que, "nostálgicos", não se dispõem a procurar.

Estão aí, atrás de publicação individual, Ana Beatriz Guerra, Antonia Pellegrino, Augusto Sales, Cecilia Giannetti, o já citado Flávio, Henrique Rodrigues, Marcelo Alves, Mariel Reis, Miguel Conde, Sidney Silveira e Vinicius Martinelli Jatobá. Estão aí, dando seguimento à trajetória já iniciada, Bianca Ramoneda, João Paulo Cuenca, Juva Batella e Mara Coradello. Está aí Adriana Lisboa, chegando ao quarto livro. E estão aí também autores como Tatiana Salem Levy, Pedro Sussekind, Simone Campos e Rosana Caiado, que não entraram no Prosas cariocas, mas têm ajudado a oxigenar nossa literatura ao dar efetividade prática ao mister a que se propuseram – escrever –, sem chororô e com entusiasmo. Apesar de o artigo ter como objeto autores-revelação no âmbito do Rio de Janeiro, não falamos de um "fenômeno" carioca. O espectro é mais amplo, como o demonstram Santiago Nazarian, Índigo, Joca Reiners Terron, entre tantos ao redor do país. E nem mesmo restringe-se às Letras, já que em outras áreas – o teatro, as artes plásticas, o cinema, para ficarmos só com três exemplos - ocorrem movimentações semelhantes (...).



 Escrito por Marcelo às 10h35
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Moreira, Garotinho e o lixo da política

Lamentável o que aconteceu ontem em Niterói. Ao renunciar à sua candidatura, o patético Moreira Franco não desrespeitou apenas os mais de 50 mil desvairados que nele votaram. Respeitou o próprio processo democrático. Mais uma cena ridícula (e às escuras, como lhe convém) do mau-caráter contumaz Anthony Garotinho e de seus asseclas. Papelão também do PDT, que se arvora sempre tão cioso da ética. Espero, espero muito mesmo, que a vitória de Godofredo Pinto seja ainda mais incisiva.

Ainda no tema 'política': foi de uma cara-de-pau ímpar a coluna de V.Exa FHC em O Globo de domingo, ao dizer que a vitória de Serra é "fundamental para o equilíbrio político" e criticar os “ímpetos autoritários” do governo petista. Quem foi mesmo que casuisticamente propôs a emenda da reeleição inclusive para os que estavam no cargo (e ele estava)? FHC não está no lixo que consome Moreira e a família Garotinho, mas precisa se controlar, porque o telhado é de vidro.

P.S. Costumo evitar post sem imagens, mas certos rostos não devem ser avocados...



 Escrito por Marcelo às 10h28
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Bravo!

A revista Bravo! que chegou às bancas hoje relaciona o livro Prosas cariocas entre os dez indicados do mês. A nota sublinha que "a relação pessoal de cada autor com seu bairro oferece uma cartografia sensível da cidade, diferentemente da apresentada diariamente pelos jornais". Ressalta ainda que o leitor deve "prestar atenção no movimento encontrado no conjunto do livro, como se um indivíduo oculto passeasse pela cidade, examinando cada bairro e recriando a figura do flanêur". Ao lado da nota, a revista publica um trecho do meu conto, Para ver as meninas.

 Escrito por Marcelo às 14h44
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No Sesc, ontem

 

Muito produtivo e agradável o debate A nova prosa carioca - Quem é você, Geração 00, promovido ontem pelo Espaço Sesc Copacabana. A professora Beatriz Resende foi responsável por alguns dos melhores momentos da noite, fazendo uma acurada análise das relações entre os novos autores, o pessoal dos anos 70 e 80, e as revelações dos anos 90, mapeadas por Nelson de Oliveira em coletânea. Bea conseguiu também resenhar oralmente o livro Prosas cariocas, citando vários contos e destacando traços particulares de cada escritor participante. A jornalista Cristiane Costa abordou o tema do evento sob a perspectiva dos suplementos literários, enquanto Adriana Lisboa e João Paulo Cuenca trataram especificamente de suas relações com o processo de criação literária, e seu diálogo com os demais autores. Tive a honra de mediar as discussões, que suscitaram perguntas interessantes por parte da platéia, formada por gente interessada em literatura, pela namorada (é claro!), por amigos -como Flavio Vaz, Felipe K, Ana Jones e Elis Galvão - e por colegas escritores, como Augusto Sales, Mariel Reis, Flávio Izhaki e Mara Coradello. 



 Escrito por Marcelo às 14h34
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Nova roda

O gente-boa Rodrigo, da Livraria e Editora Folha Seca, manda avisar:



 Escrito por Marcelo às 14h29
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Samba na tela

  

Ontem, além de todas comemorações, foi um dia de ver filmes sobre samba. A convite da simpática Mariana Blanc, estive no Odeon para conferir a pré-estréia de Aldir Blanc – Dois pra lá, dois pra cá, com direito à aperitivo de luxo: o curta Batuque na cozinha. Dirigido por Alexandre R. Carvalho, André Sampaio e José Roberto de Morais, o documentário sobre o Aldir sustenta-se no imenso carisma do letrista, escritor e carioca da gema, e em suas letras geniais, embora seja muito mal fotografado e exagere na recorrência a imagens de arquivo. Senti falta também de pelo menos uma declaração do Paulo César Pinheiro, que é parceiro dele (e do Moacyr Luz) na primorosa Saudades da Guanabara. De qualquer maneira, o filme provocou em mim certa nostalgia, principalmente quando fez alusão aos movimentos políticos das décadas de 70 e 80. Num dia de eleição morna como a de ontem, o contraste foi inevitável.

Batuque na cozinha, de Anna Azevedo, é uma delícia de curta. O filme integra um projeto maior, que inclui livro escrito pelo jornalista Alexandre Medeiros, a ser lançado no próximo dia 18 pela Casa da Palavra. No livro, estarão algumas das receitas das três "tias" mais famosas da Velha Guarda da Portela: Surica, Doca e Eunice, e um pouco de suas histórias. Na tela, as receitas culinárias ficaram de lado para que o espectador pudesse conhecê-las mais intimamente, seus gostos, afetos, sua relação com o samba... Primorosamente fotografado (um dos fotógrafos é ninguém menos do que Dib Luft), o curta tem pelo menos uma seqüência genial: com aquela voz pequenina, tia Eunice canta Contos de areia. À medida que ela canta, a câmera percorre sua casa, num passeio poético que ilustra os versos da canção ao focalizar a devoção religiosa e o sincretismo de santos critãos convivendo em harmonia com entidades do candomblé.

Já estava em casa, pronto para dormir, quando me surpreendi com a exibição de O jaqueirão do Zeca, na Rede Brasil. O filme de Denise Moraes e Ricardo Bravo flagra a roda-de-samba costumeiramente organizada por Zeca Pagodinho para selecionar o repertório de seus discos. É bacana conhecer alguns dos compositores responsáveis pelos sucessos do sambista, mas o filme não passa muito disso não...



 Escrito por Marcelo às 12h34
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Debate hoje

Só para lembrar: hoje, a partir das 20h, no Espaço Sesc Copacabana, acontecerá o debate

Com os escritores Adriana Lisboa e João Paulo Cuenca, a jornalista Cristiane Costa (editora do caderno Idéias, do Jornal do Brasil) e a professora Beatriz Resende. A mediação será minha, e na pauta estarão temas como os traços estilísticos dos novos autores, a influência da internet e a dificuldade de publicação e espaço nos suplementos literários. A entrada é gratuita. O Sesc fica na Rua Domingos Ferreira, 160.



 Escrito por Marcelo às 12h03
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Um ano

      

"Olhos negros / Juro que sonhei / Quando encontrasse me entregar / Luzes negras... / São como faróis a me guiar / Na luz negra / Do mar" 

Não importa quando ele escreveu. Os versos do Johhny Alf completam ano é neste domingo, com nós dois.



 Escrito por Marcelo às 11h51
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Mais Sophia

"Signo"

Sophia de Mello Breyner Andresen

"Meu signo é o da morte porém trago

Uma balança interior uma aliança

Da solidão com as coisas exteriores"



 Escrito por Marcelo às 11h28
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Sophia

"Alguém diz: "Aqui antigamente houve roseiras" / Então as horas / Afastam-se estrangeiras, / Como se o tempo fosse feito de demoras".

Há muito não lia a coluna do Marcelo Coelho na Folha de S. Paulo. Durante alguns anos, era leitura obrigatória toda manhã. Por esses dias, navegando pelo site do jornal, deparei-me com o texto abaixo, em que Coelho fala sobre a poeta portuguesa Sophia de Mello Breyner Andresen. Ela é a autora dos primorosos versos acima, já postados pelo Guiu. O texto do colunista, no ensejo do lançamento no Brasil de uma coletânea com alguns dos melhores trabalhos da escritota, está simplesmente encantador. Agora, é comprar o livro.

"Sophia"

Marcelo Coelho

"Por pior que seja a cidade, sempre é bonito quando ela aparece de repente, numa curva da estrada, depois de horas de viagem. Sinto falta de um fundo musical apropriado para essas chegadas a São Paulo: a paisagem urbana, recortada contra o céu poluído, requer algum tipo de grave ênfase -sem dúvida bem diversa das marchinhas eleitorais que nestes dias nos perseguem pelo rádio.
Mas não vou falar de eleições nem de São Paulo. Passo a palavra à poeta portuguesa Sophia de Mello Breyner Andresen, que escrevia isto em 1977: "Digo: / "Lisboa" / Quando atravesso -vinda do sul- o rio / E a cidade a que chego abre-se como se do seu nome nascesse / Abre-se e ergue-se em sua extensão noturna/ ... / Com seus meandros de espanto insônia e lata/ E seu secreto rebrilhar de coisa de teatro/ ... / Lisboa oscilando como uma grande barca / Lisboa cruelmente construída ao longo de sua própria ausência / Digo o nome da cidade / -Digo para ver".
Sophia Breyner Andresen (1919-2004) é considerada uma das principais poetas portuguesas do século 20; amiga de Murilo Mendes e de João Cabral, não tem ainda muitos leitores no Brasil. Uma antologia de seus textos, organizada por Vilma Arêas, acaba de ser publicada pela Companhia das Letras.
Cito mais alguns trechos. No poema "A Escrita", a autora descreve o interior do palácio Mocenigo, em Veneza, onde viveu lorde Byron. Fala da "beleza das portas quando ninguém passava", do "liso brilhar do chão polido", dos "tetos altos onde se enrolam as sombras". Termina imaginando o próprio poeta: "A camisa aberta e branca / O branco do papel as aranhas da escrita/ E a luz da vela -como em certos quadros- / Tornando tudo atento".
Esse mesmo efeito súbito, de aparição fantasmagórica -Lisboa e Byron emergindo da escuridão-, pode ser encontrado em outros poemas. A autora conta, em "Cesário Verde", como "a luzidia noite assombrou os olhos dilatados" do poeta. Um texto curto faz menção a viajantes que "se perderam no repentino azul dos temporais". Numa paisagem, observa em outro poema, "passavam pelo ar aves repentinas".
Todas essas imagens -o rebrilhar de Lisboa, a luz da vela tornando tudo mais atento, as aves repentinas- evocam uma sensação difícil de definir. Aparecendo num clarão instantâneo, surgindo num momento especial, as coisas visíveis parecem emitir uma radiação que é não apenas luminosa mas também sonora; em vez de simplesmente olhar, é como se a poeta "escutasse" aquilo que se apresenta ao seu raio de visão.
A autora conta, aliás, que mesmo antes de saber ler, conhecia vários poemas de cor. "Encontrei a poesia antes de saber que havia literatura. Pensava que os poemas não eram escritos por ninguém, que existiam em si mesmos, por si mesmos, que eram como que um elemento do natural, que estavam suspensos, imanentes. E que bastaria estar muito quieta, calada e atenta para ouvi-los. Desse encontro inicial, ficou em mim a noção de que fazer versos é estar atento e de que o poeta é um escutador."
É assim que, ao lado daqueles momentos de "assombração" que víamos/ouvíamos acima, os poemas de Sophia Breyner Andresen tratam longamente do silêncio. "Sei que canto à beira de um silêncio", diz ela. Em outro poema, agradece o "dia de hoje", em que "o fantasma das maravilhas raras / visita, uma por uma, as tuas horas / Em que há por vezes súbitas demoras / Plenas como as pausas de um verso." Em "Jardim", o estado de espírito é diferente, mas a sensação é análoga: "Alguém diz: / "Aqui antigamente houve roseiras" / Então as horas / Afastam-se estrangeiras, / Como se o tempo fosse feito de demoras".
O jogo se faz, sem dúvida, entre pólos bem marcados: ausência e plenitude, luto e celebração. A vontade de louvar o existente, de dar graças ao mundo, é sempre suspeita na arte moderna; cumpre negá-la de algum modo, adiá-la ou desolar-se diante de sua impossibilidade. No caso de Sophia Breyner Andresen, vários poemas parecem confiar numa espécie de recuo, de silêncio, de recolhimento da autora, para que só assim o mundo possa surgir num transitório e brusco movimento de afirmação.
Sem dúvida, há algo de bem feminino nessa expectativa: alguns versos falam, por exemplo, de uma "flor de pânico e sossego" que aparece "nos grandes pátios da noite". Mas a mesma atitude aparece num registro político: a autora sempre combateu a ditadura salazarista em Portugal e foi capaz de escrever, em 1972, um poema ainda hoje convincente sobre Che Guevara. Ela critica o pôster do guerrilheiro, "pairando na sociedade de consumo" de forma puramente ritual, e também o "primarismo daqueles que confundem revolução com desforra". "Porém", continua, "em frente do teu rosto / Medita o adolescente à noite no seu quarto / Quando procura emergir de um mundo que apodrece".
Curioso intimismo de esquerda, em que a busca do despojamento poético, da forma pura e clara, no estilo de João Cabral, se mistura com uma sensibilidade quase mística, atenta aos rumores do vento e aos presságios da noite, no estilo de Cecília Meireles.
Num discurso pronunciado em 1964, Sophia Breyner Andresen dá conta dessa dupla face de sua poesia, entre a crítica e a celebração. Afirma que a busca da justiça social é uma "coordenada fundamental de toda a obra poética", já que "a justiça se confunde com aquele equilíbrio das coisas, com aquela ordem do mundo onde o poeta quer integrar seu canto".
Falar em "ordem do mundo" soa um tanto clássico e estetizante; a idéia talvez responda pelo que existe de mais bonito, mas também de menos vital, nos poemas da autora. Seus fantasmas, suas sombras e rápidos vislumbres permanecem, entretanto, espantosamente inquietos nos melhores poemas deste livro".

P.S. Quem assina o desenho de Sofia é Arpad Szenes...



 Escrito por Marcelo às 11h01
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Voto

 

Abrindo o voto: domingo, vou de Jorge Bittar e Eliomar Coelho. Recuso-me a postergar uma administração que, não obstante alguns bons projetos, já dá sinais de cansaço há muito tempo.



 Escrito por Marcelo às 10h45
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