O compositor e a escritora

Acabo de chegar da exposição Chico Buarque - O tempo e o artista, em cartaz no Espaço Eliseu Visconti, da Biblioteca Nacional. A mostra não é extensa, mas foi muito bem montada, com didatismo e cheia de curiosidades. Entre as últimas, jornalecos que o compositor fazia quando ainda miúdo e originais datilografados e manuscritos de várias letras, como Valsinha (através de carta, Vinícius sugere várias modificações e Chico comenta uma a uma) e Valsa brasileira, com as alterações feitas à caneta. Contudo, o que talvez tenha mais chamado a minha atenção foi o pungente bilhete de Clarice Lispector para o Chico, no qual a autora justifica por que, apesar de nunca convidar "personalidades" para visitarem sua casa, ela o chamou. "Seus olhos trasmitem candura", diz Clarice. "Eu também tenho candura dentro de mim, só que foi muito machucada", segue a escritora, para depois suplicar-lhe: "Não deixe nunca que a sua seja atingida". As palavras não são exatamente estas, mas a carta, dorida, dorida, tem a marca patente de Clarice...



 Escrito por Marcelo às 14h52
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Para anotar na agenda

Já estão fechadas as datas de lançamento do livro Prosas cariocas - Uma nova cartografia do Rio, coletânea de contos que eu e o amigo Flavio Izhaki estamos organizando. As noites de autógrafos serão nos dias 15 (às 20h, na Livraria da Travessa de Ipanema) e 19 de setembro (às 18h, na Tenda dos Autores, da Primavera dos Livros, no Jóquei - Gávea). Quando estiver mais próximo, avisarei novamente. Espero vocês todos lá!

 Escrito por Marcelo às 11h41
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"Da janela lateral..."

Esta canção é das mais óbvias entre os sucessos do pessoal do Clube da Esquina. Mas creio que algumas pessoas não saibam que ela foi composta para Ouro Preto, cidade histórica mineira que até hoje não tive a alegria de conhecer. Literalmente "até hoje", porque nos próximos dias sigo para lá com a minha bonitinha, num giro sem muito programa prévio e que vai obedecer apenas às nossas vontades. Muita cerveja, cachacinha, comida boa (alguns quilos a mais, pouco importa!), música de primeira e descanso num casario espetacular. Uai, quer mais o quê?

"Paisagem da janela"

Lô Borges - Fernando Brant

"Da janela lateral do quarto de dormir
Vejo uma igreja, um sinal de glória
Vejo um muro branco e um vôo pássaro
Vejo uma grade, um velho sinal
Mensageiro natural de coisas naturais

Quando eu falava dessas cores mórbidas
Quando eu falava desses homens, sórdidos
Quando eu falava desse temporal
Você não me escutou
Você não quer acreditar
Mas isso é tão normal
Você não quer acreditar
E eu era apenas
Cavaleiro marginal lavado em ribeirão

Cavaleiro negro que viveu  mistérios
Cavaleiro e senhor de casa e árvores
Sem querer descanso nem dominical
Cavaleiro marginal, banhado em ribeirão

Conheci as torres e os cemitérios
Conheci os homens e os seus velórios
Eu olhava da janela lateral
Do quarto de dormir
Você não quer acreditar
Mas isso é tão normal"



 Escrito por Marcelo às 11h27
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Ê, Minas, ê, Minas...

Estresse, ansiedade e sobretudo cansaço. Eu não vejo a hora de botar o pé na estrada com a bonitinha...



 Escrito por Marcelo às 20h13
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Pobre futebol carioca

  

Um dia depois de o Flu mandar embora o Ricardo Gomes, dois outros times cariocas perderam seus técnicos. Mauro Galvão, do Botafogo, e Paulo César Gusmão, do Urubu (este foi recorde negativo de permanência), acabam de pedir demissão. Ah, futebol do Rio... 



 Escrito por Marcelo às 17h52
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Jornal, livro, projeto, viagem

Comentários sobre o novo Woody Allen, sobre o Autran Dourado que estou lendo, sobre oe textos bacanas do caderno Mais! (Folha de S. Paulo) de domingo passado... tanta a coisa sobre o que falar, mas a correria de fechamento de jornal (agora é o da Caarj), o projeto do Prosas cariocas, a curadoria de um evento sobre literatura no Sesc Copacaba e os preparativos para a viagem a Minas me impedem. Espero que amanhã sobre mais tempo.



 Escrito por Marcelo às 16h17
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Um livro e algumas fotos

Amigos, cerveja, vinho e comidinhas - não necessariamente nesta ordem, mas como deve ser: tudo misturado, tudo ao mesmo tempo e, principalmente, tudo muito bacana, embora meio improvisado. No registro do fim do encontro, poucos minutos após a meia-noite, algumas sobras: uma biografia do Truffautt, uma lembrança de um show do Roberto Carlos no Canecão em 1979, e as fotos antigas que (re)descobri dia desses, ao visitar minha mãe (ela achou numa gaveta durante a mudança recente): eu, menino ainda, e pais, irmãos, tios... Afetos antigos - e renascidos...



 Escrito por Marcelo às 16h05
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O "Noir" no teatro

Outro programa que promete ser muito interessante é a peça Filme noir, em montagem da Cia Pequod de Teatro de Animação. Com bonecos manipulados e várias referências ao estilo cinemtográfico que bebeu na fonte dos expressionistas alemães e consagrou artistas como Humprey Bogart, o espetáculo narra a história de um detetive contratado por uma cantora que se diz vítima de perseguição. Em cartaz, no Sesc Copacana.



 Escrito por Marcelo às 15h41
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Robert Guédiguian

Poucos filmes de Robert Guédiguian chegaram ao Brasil. Ao que eu saiba, apenas A cidade está tranqüila, de 2000, e Marie-Jo e seus dois Amores, de 2001, ambos ótimos. Pois o CCBB apresentará a partir da próxima semana uma mostra com estes e outros trabalhos do diretor francês, cujo foco, como bem destaca o crítico Ricardo Kalil, centra-se sempre sobre um mesmo bairro - o L’Estaque - e a mesma classe social, filmados com a mesma equipe técnica e os mesmos atores. Oportunidade daquelas que não são de se perder...



 Escrito por Marcelo às 15h35
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A "gorda"

Costumo chamá-lo de "a gorda", por causa de sua eterna batalha (cheia de derrotas) contra a balança. Bem mais discretamente, o jornal O Globo deu uma alfinetada no atacante fashion do Vasco, no subtítulo da matéria sobre o clube, publicada hoje no caderno de Esportes:

"Time pode ter uma jogador de peso em Criciúma: Alex Alves"



 Escrito por Marcelo às 11h59
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Parabéns ao Beto

Acabo de saber, através do sempre atento Gosto de Samba, que hoje é aniversário do querido Beto Guedes, de quem, como voces bem sabem, este blog é fã convicto. Então, não poderia passar o dia sem postar algo dele. Escolhi uma canção menos conhecida, que ele fez em parceria com o Ronaldo Bastos para o filho assim que nasceu. Ronaldo é o padrinho de Gabriel (hoje, este garotão aí da foto).

"Gabriel"

"É só de ninar
E de desejar que a luz do nosso amor
Matéria prima dessa canção
Fique a brilhar
E é pra você e pra todo mundo que quer trazer assim
A paz no coração
Meu pequeno amor
E de você me lembrar
Toda vez que a vida mandar olhar pro céu
Estrela da manhã
Meu pequeno grande amor
Que é você Gabriel
Pra poder ser livre
Como a gente quis
Quero te ver feliz"



 Escrito por Marcelo às 11h02
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Dia dos canhotos

Abrindo o JB de hoje, deparo-me com uma pequena matéria sobre o Dia dos Canhotos, que é hoje: 13 de agosto. Curioso: quando eu era criança, queria muito duas coisas - usar óculos e ser canhoto. A primeira, logo consegui, talvez por hereditariedade, talvez por insistir em ler gibis e livros mesmo sem a luz adequada. Quanto à destreza (palavrinha que já denota preconceito, mas são coisas da língua, fazer o quê?), segue firme. Acho besteira ficar apontando quem tem mais habilidade, se os destros ou os canhotos. Mas reconheço uma delas no pessoal da "esquerda": o chute. Talvez pela maior singularidade, os canhotos costumam conseguir imprimir efeitos à bola que nós, destros, não alcançamos. Por isso, entre filósofos (Aristóteles), músicos (Beethoven), cineastas (Charles Chaplin), cientistas (Einste) e escritores (Machado de Assis) geniais, escolhi a imagem do tricolor Canhotinha de Ouro para ilustrar este post.



 Escrito por Marcelo às 10h49
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Dona Ivone e Leandro Braga

Não curti muito o lugar quando estive lá (sabe quando se quer ser chique, mas...). Contudo, vale dar uma segunda chance ao Estrela da Lapa, principalmente neste fim-de-semana, quando Dona Ivone Lara e Leandro Braga estarão apresentando-se em dupla, num show de voz e piano. O arranjador e pianista, que gravou no ano passado o disco Primeira Dama, só com canções de Dona Ivone, é um fã declarado da artista (assim como nós). A Agenda do Samba e do Choro adianta que no repertório estarão pérolas como Nos combates da vida, Acreditar, Alguém me avisou, Sorriso de criança, Sonho Meu (parcerias com Delcio Carvalho); Tendência e Enredo do meu Samba (com Jorge Aragão); além da onipresente Quem disse que te eu esqueço (com Hermínio Bello de Carvalho). Os shows acontecem na sexta e no sábado, sempre às 22h.



 Escrito por Marcelo às 10h33
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Penafiel

Não faz muito tempo, eu e Paulinha fizemos uma incursão pelo Centro na tentativa de enfim conhecer o famoso Penafiel. Em vão. No entanto, se naquele dia a frustração foi minorada pelos quitutes árabes do Cedro do Líbano, hoje ela se renovou quando li, em O Globo, que o tradicional botequim vai fechar de vez as sua portas. Os culpados? A violência e o abandono da Zona Portuária, alvo de tantas promessas do alcaide Cesar Maia, que ameaça se reeleger embora no último mandato nada de útil tenha feito pela cidade (na primeira gestão, ainda o fez, reconheço...). O fim do Penafiel é mais uma perda para o Rio.



 Escrito por Marcelo às 13h47
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Maogani - Primeira audição

Ainda estou nas primeiras audições, mas desde já destaco duas faixas do disco Água de beber, que o Quarteto Maogani lançou pela Biscoito Fino, homenageando Tom Jobim e alguns dos artistas que o influenciaram. Os arranjos de Imagina (Tom e Chico), feito pelo amigo Paulo Aragão e por Marcus Tardelli, e Mulher (Custódio Mesquita e Sadi Cabral), este só do Paulo, são de uma delicadeza que vou lhes contar...



 Escrito por Marcelo às 12h22
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Eu e o Glorioso

Foi uma noite daqueles de não esquecer mais. Maracanã lotado. Do outro lado, as cores que acostumei desde cedo a ver do outro lado: vermelho e preto. À minha volta, contudo, não estavam as tradicionais verde, branco e grená. Estavam, sim, alvinegros, milhares deles, que cantavam enfurecidamente (e eu também no coro), um pouco porque em campo a equipe comandada por Maurício e Paulinho Criciúma dominava inteiramente o adversário, outro tanto porque havia muito tempo estavam engasgados. Faltava, ao clube que ficara conhecido como "Glorioso", um título.

Presenciei, no "maior do mundo", aquele 0x0 da primeira decisão do célebre campeonato em que terminou o jejum do Botafogo. Ao segundo jogo, aquele do gol de Maurício com uma deslocada "santa" (porque estabeleceu a justiça) no Leonardo, assisti em casa. Foi uma das duas oportunidades em que torci para o alvinegro como se fosse o meu Flu (a posterior deu-se na final do Brasileirão contra um Santos cheio de empáfia), com a garra e a paixão em que torço para o tricolor das Laranjeiras. E estes dois episódios nunca mais se repetiram, com nenhum outro clube.

O fato é que tenho uma grande simpatia pelo Botafogo. Não sei se porque era o time de meu pai e de praticamente todos os irmãos. Não sei se é porque até os seis anos me dizia botafoguense. Na verdade, não sei mesmo por quê. Enfim, hoje o Glorioso completa 100 anos. E para parabenizar a camisa que nos brindou com Nilton Santos, Heleno de Freitas, Garrincha e tantos craques, resolvi contar essas duas histórias.



 Escrito por Marcelo às 12h21
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400 anos do Quixote

 

Boa dica também foi a que nos deu Helena Aragão no Caderno B de ontem: o Centro Cultural da Justiça Federal abrigará até o dia 9 de setembro uma exposição com 101 imagens de edições publicadas entre 1771 e 1819 do célebre romance O engenhoso fidalgo Dom Quixote de La Mancha, de Miguel de Cervantes. O livro completa 400 anos em 2005. A mostra apresenta imagens caricatas, tratamento dispensando à personagem por ilustradores dos séculos XVII e XVIII, ao lado de outras, posteriores, que procuram dignificá-lo. Segundo a matéria, a mudança de tratamento foi reflexo direto do Iluminismo, quando a obra de Cervantes passa a ser considerada como "grande arte". Para quem não sabe, o Dom Quixote é o livro com maior número de traduções no mundo, depois da Bíblia.



 Escrito por Marcelo às 14h08
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Coisas

Fiquei quase sem palavras ontem ao ler, no Segundo Caderno, a notícia de que o seminal Coisas, do maestro Moacir Santos, enfim está sendo lançado em cd. Na boa matéria, o Hugo Sukman lembra que o impacto do disco, lançado originalmente em 1965, continua o mesmo hoje, não só pelas melodias absolutamente originais, mas também pela orquestração, ritmada pela bateria de ninguém menos do que Wilson da Neves. Escreve o Hugo (e subscrevo eu): "Na verdade, mais do que os temas em si — e o prazer de ouvi-los é infinito — a importância de “Coisas” é de ter inventado uma língua mesmo para a orquestra brasileira. O que Pixinguinha fizera 30, 40 anos antes, Moacir fez nos anos 60. Mas se a língua de Pixinguinha curiosamente “embranquecia” as idéias musicais negras de sambas e batucadas, adaptando-as aos formatos europeus da orquestra, a de Moacir ia na direção oposta, tornava a música brasileira ainda mais negra.Pixinguinha criou a linguagem clássica da música brasileira. Moacir Santos, a moderna, num contexto em que essa música havia chegado ao auge, à excelência tanto na preservação de sua força primal (num espetáculo como o “Rosa de Ouro”, revelando Clementina e uma nova geração de sambistas) como nos progressos formais de uma turma como a do samba-jazz, que fazia uma das melhores músicas instrumentais do mundo. Moacir funde tudo isso".

O jeito é separar o trocado e correr às lojas.



 Escrito por Marcelo às 11h49
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Encontros literários

   

Foi um imenso prazer encontrar ontem, durante o lançamento de Lucidez embriagada (org. de Antonia Pellegrino) e do Arquivinho Hélio Pellegrino (org. de Paulo Roberto Pires), o amigo e grande escritor Antonio Torres. Apesar de, com a gaiatice habitual, "macular" minha imagem com a Paulinha, aconselhando-a a livrar-se de "músicos" e "escritores" (rs), o Torres trouxe uma ótima notícia. A Emerj (para quem não é do meio: Escola de Magistratura do Estado do Rio de Janeiro) agendou para o mês de setembro, dentro de seu projeto cultural, uma série de encontros entre leitores e autores, totalmente gratuita. Além do bate-papo, haverá leitura dramatizada de trechos da obra do palestrante. As atividades começam no dia 9, com o próprio Antonio, e seguem nos dias 16, 23 e 30, respectivamente com Milton Hatoum, Alcione Araújo e Moacyr Scliar.


P.S. Sobre o Antonio, aliás, descobri que ele tem um site bem bacana, com informações sobre seus livros, resenhas etc. Acesse aqui.



 Escrito por Marcelo às 10h52
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Tricolores do céu e da terra

Em Botafogo – Entre o céu e o inferno, o elogiado livro de Sérgio Augusto sobre o glorioso, ele escala um time imaginário composto apenas por escritores, artistas e intelectuais alvinegros (Glauber Rocha, Paulo Mendes Campos e Antonio Candido entre eles), sugerindo que haveria grande incidência entre a torcida de General Severiano. Após uma consulta rápida a amigos tricolores, resolvi fazer o mesmo com o Flu. A equipe ficou assim:

Defesa: Jô Soares, Mário Lago, Donga, Ivan Lins e Gilberto Gil

Meia: Arthur Moreira Lima, Nelson Rodrigues, Cartola e Chico Buarque, com a 10

Ataque: João Máximo e Tom Jobim

Tem lugar no banco ainda para o Zuenir Ventura e o Noca da Portela. E, como bem lembra o amigo Sidney, poderíamos escalar Machado de Assis como técnico, pois se vivesse na era futebolística decerto seria um aristocrático tricolor.



 Escrito por Marcelo às 10h43
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Woody Allen

O Segundo Caderno, aliás, trouxe no fim-de-semana outra matéria de capa interessante. Assinada por Jaiem Baggio, a reportagem da edição de domingo especulava, a partir da estréia de Igual a tudo na vida, o novo filme de Woody Allen, se os seus trabalhos não teriam ficado repetitivos, ou mesmo entrado em decadência. Como admirador do diretor - não só como humorista e roteirista, mas principalmente como "cineasta" na mais completa acepção da palavra - digo em voz alta que não! Porque cada nova produção de Allen, ainda que não se compare com obras-primas como Manhattan e Annie Hall, revela apenas que mesmo seus filmes "menores" estão a anos-luz da média da cinematografia atual. Dito isto, vou é correr para o cinema na próxima sexta. E com grande prazer ver aquelas mesmas questões que movem a absoluta maioria de suas criações, até porque não é incomum um "autor" centrar suas reflexões em pontos-chave, que serão dissecados ao longo de toda a "obra", às vezes com mais, às vezes com menos felicidade.



 Escrito por Marcelo às 11h41
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Cortázar em exposição (na Argentina)

O Segundo Caderno (O Globo) de ontem trouxe na capa matéria a respeito de uma exposição sobre Cortázar, que foi montada em seu país natal, a Argentina, por conta dos 90 anos que escritor completaria em 2004, se vivo fosse. A boa notícia é que talvez a mostra seja trazida para o Brasil. Segue o texto da reportagem:

"Exposição na Argentina marca os 90 anos de nascimento do autor de ‘O jogo da amarelinha’"

"Uma vida em 150 imagens inéditas, que até hoje estavam guardadas por seus amigos e familiares mais próximos. Até meados de setembro, argentinos e turistas poderão percorrer o caminho transitado por um dos maiores mitos da literatura moderna latino-americana. Esta semana, foi inaugurada no Centro Cultural Recoleta a exposição “Presenças”, em homenagem a Julio Cortázar, um dos representantes mais ilustres da cultura argentina.
— Este projeto foi declarado de interesse do Mercosul e estamos tentando levá-lo ao Brasil. Cortázar, antes de ser argentino, é latino-americano — disse ao GLOBO o diretor da Fundação Internacional Argentina (FIA), Facundo de Almeida, um dos organizadores do evento.
“Presença” foi o primeiro livro publicado por Cortázar, em 1938, sob o pseudônimo de Julio Dinis. Depois veio a consagração com obras como “Bestiário” (1951, seu primeiro livro de contos) e “O jogo da amarelinha” (“Rayuela”, no original, de 1963). Caminhar pelo pavilhão C do Centro Cultural Recoleta é como entrar no túnel do tempo e reviver os momentos mais importantes da vida de Cortázar, que morreu em 12 de fevereiro de 1984, aos 69 anos, vítima de leucemia. Seu corpo está enterrado no cemitério de Montparnasse, em Paris, onde também está enterrada sua terceira mulher, Carol Dunlop. Um dos objetivos da exposição, explicou Almeida, é manter presente o legado deixado por Cortázar.
— Os que o conheceram não podem esquecê-lo e as novas gerações que ainda não o encontraram devem entrar em contato com sua obra, porque Cortázar é um dos grandes escritores do século passado, não pode nem deve ser esquecido — assegurou o diretor da FIA.
A exposição que refaz em imagens a trajetória do consagrado escritor já foi apresentada na Feira do Livro de Bogotá e em breve será exposta no Peru. No ano que vem, os organizadores pretendem chegar aos museus europeus, depois de levar a mostra a cidades do interior da Argentina, como Rosário e Neuquén.
A mostra passa por diferentes fases na vida de Cortázar. A infância no bairro de Banfield, na Argentina, após ter nascido (em 26 de agosto de 1914) em Bruxelas, na Bélgica, onde seus pais residiam. Os anos na escola normal onde obteve o diploma de professor. O exílio em Paris, que começa em 1951, onde Cortázar trabalhou como tradutor da Unesco. O casamento com sua primeira mulher, Aurora Bernárdez, uma tradutora argentina, em 1953. A primeira visita a Cuba, em 1961. Em 1970, uma visita ao Chile de Salvador Allende, acompanhado por sua segunda mulher, Ugné Karvelis.
O forte compromisso político assumido pelo escritor em meio à repressão exercida por todos os governos ditatoriais da região se reflete em várias fotos selecionadas para a exposição. Cortázar foi um dos principais defensores dos parentes de presos políticos desaparecidos. O escritor denunciou o desaparecimento de pessoas em artigos publicados em vários jornais da América Latina e da Europa. Durante a ditadura argentina (1976-1983), Cortázar, exilado, costumava se encontrar com a sua família no Brasil, pois era um dos integrantes da lista negra dos militares argentinos e não podia pisar em seu país.
— Mais de 150 pessoas nos ajudaram a reconstruir a vida de Cortázar. Com pouco dinheiro, mas com muito esforço, conseguimos alcançar nosso objetivo — contou Teresa Anchorena, da FIA.
Além das fotos, a exposição também inclui edições inéditas das obras de Cortázar, vídeos com depoimentos do escritor e entrevistas a familiares e amigos. Numa das salas do Centro Cultural Recoleta foram colocadas duas mesas com cadeiras para quem tiver tempo e quiser penetrar no mundo da ficção fantástica de Cortázar. Pensando nos leitores brasileiros, os organizadores oferecem, ainda, edições em português."



 Escrito por Marcelo às 11h27
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Bicudos em curta temporada

Quem perdeu o show de lançamento do disco dos amigos Pedro Paula Malta e Alfredo Del Penho tem três novas chances: a partir de hoje, e durante as demais terças-feiras do mês de agosto, os "dois bicudos" estarão se apresentando no querido CCC. Já vi o show e faço questão de indicá-lo aqui.



 Escrito por Marcelo às 11h03
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Jornalistas-escritores

Peguei a dica lá no blog da Cecília Giannetti: o Observatório da Imprensa publica entrevista com Cristiane Costa (foto), editora do Idéias, sobre a tese de doutorado que ela defendeu recentemente na Eco-UFRJ. Em seu trabalho acadêmico, ela analisa o papel de jornalistas-escritores, questionando o que tem significado para a cultura brasileira essa aproximação entre o Jornalismo e a Literatura. Abaixo, um trecho da entrevista. leia tudo aqui.

"Jornalistas escritores: entre a pressa e a perenidade"

Paulo Lima

"O jornalismo, especialmente no Brasil, é um fator bom ou mau para a arte literária?", indagava o escritor João do Rio, em 1904, numa enquete com cinco perguntas publicada em A Gazeta de Notícias. Dos 100 intelectuais questionados à época, somente 26 se manifestaram. O resultado da pesquisa foi posteriormente reunido no livro O momento literário, considerado o painel mais completo da vida literária no início do século 20. O tema foi retomado em 2001 pela jornalista Cristiane Costa, num projeto de pesquisa premiado com a Bolsa Vitae de Literatura. O trabalho acabou provocando uma discussão teórica, que resultou na tese de doutorado "Jornalistas escritores no Brasil", defendida em junho na Escola de Comunicação da UFRJ, sob a orientação do professor Muniz Sodré.

A jornalista refez a questão inicial levantada por João do Rio, desdobrando-a. A pergunta "Trabalhar em jornal é bom ou mau para quem deseja ser escritor?" foi encaminhada a 30 jornalistas cujas atuações têm sido pautadas pelo exercício da literatura. As respostas fornecidas por Arnaldo Bloch, Bernardo Carvalho, Bernardo Ajzenberg, Luiz Ruffato, Michel Laub, Marçal Aquino, Fernando Molica, José Castello, dentre outros, contribuíram para atualizar a discussão, 100 anos depois (...)"



 Escrito por Marcelo às 13h50
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Prosas cariocas

Desde o começo do ano, eu e o amigo Flavio Izhaki estamos trabalhando no projeto do livro Prosas cariocas - Uma nova cartografia do Rio. Trata-se de uma coletânea de contos, escritos por jovens autores cariocas e ambientados em diferentes bairros da cidade. A idéia é fazer um mapeamento de novos talentos, privilegiando o Rio como cenário para a literatura. No sábado passado, o caderno Prosa e Verso (O Globo) deu a primeira nota pública sobre o trabalho, adiantando nosso acordo com a Casa da Palavra e que o lançamento acontecerá durante a Primavera dos Livros, em setembro. Dizia o texto veiculado na seção "No prelo":

"Prosas cariocas, da Zona Sul à Zona Norte"

"O Rio, fonte inesgotável para a literatura, inspira os novos contistas que vão mostrar um pouco de seu talento no livro "Prosas cariocas - Uma nova cartografia do Rio", organizado por Flavio Izhaki e Marcelo Moutinho. A coletânea está sendo editada pela Casa da Palavra e será lançada na época da Primavera dos Livros, a bienal cult dos pequenos e médios editores, no Jockey Club, na Gávea. Participam, além de Moutinho e Izhaki, outros 14 autores, entre eles Adriana Lisboa, JP Cuenca, Juva Batella, Bianca Ramoneda, Antonia Pellegrino, Augusto Sales, Mara Coradello, Sidney Silveira. Cada conto se passa num bairro diferente da cidade. "Vamos fazer um certo barulho", promete Moutinho."

Durante o fim-de-semana, conseguimos reunir quase todos os autores na Cinelândia para uma sessão de fotos de divulgação do livro. Faltou a Cecilia Giannetti (Ilha do Governador), mas lá estive eu (Urca) e estiveram também Flavio Izhaki (Catete), Adriana Lisboa (Laranjeiras), JP Cuenca (Cosme Velho), Bianca Ramoneda (Muda), Juva Batella (Leblon), Henrique Rodrigues (Jacarepaguá), Augusto Sales (Copacabana), Marcelo Alves (Lins de Vasconcelos), Mariel dos Reis (Pavuna), Sidney Silveira (Maracanã), Antonia Pellegrino (Gávea), Mara Coradello (Santa Teresa), Ana Beatriz Guerra (Barra da Tijuca) e Miguel Conde (Centro). Como se pode notar, blogueiro é o que não falta no livro.

Assim que tivermos fechadas as datas de lançamento e mais notícias sobre o Prosas, avisaremos.



 Escrito por Marcelo às 10h20
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O livro de Zenóbia

 
No último sábado, o caderno Idéias, do Jornal do Brasil, trouxe resenha minha sobre O livro de Zenóbia, da professora e ficcionista Maria Esther Maciel. Segue o texto, para quem não conferiu:
 
Romance? Diário? Ou bela colcha de retalhos?
 
Marcelo Moutinho
Jornalista e escritor

O livro de Zenóbia
Maria Esther Maciel
Editora Lamparina
160 páginas
R$ 29,50

Zenóbia gosta de flores e plantas de raízes drásticas, de peixes perplexos, receitas criativas, cidades raras, palavras inventadas. Zenóbia tem filhos e se lembra dos que nem nasceram. Adora suas tias, amigas, ex-namorados – um deles, Belmiro, "queria todas as dores que não sentia para sobre elas escrever poemas tristes" Em companhia da mãe, Zenóbia plana em vôos implícitos, dividindo duas "quase-solidões". Mas a fascinante personagem criada pela poeta e ensaísta Maria Esther Maciel não se dá a conhecer no todo; apenas por meio de anotações, aforismos, pequenos comentários, listas pessoais. Como definir O livro de Zenóbia? Diário? Caderno de registros? Álbum de família? Conjunto de recortes? Tarefa vã. Melhor sorvê-lo.

A narrativa elaborada por Maria Esther Maciel não se inscreve no convencional dispositivo da representação, não anseia por verossimilhança, como destaca Lúcia Castello Branco no posfácio. Insere-se, sim, na perspectiva do romance pós-moderno, com suas ramificações, sua não-linearidade, suas micro-abordagens, sua fluidez permanente, seus jogos de montar, expedientes que vêm sendo trabalhados com maior ou menor talento por relevante parcela do que se pode denominar hoje de "nova literatura brasileira".

"Oblíqua", como quis Clarice Lispector, é a vida de Zenóbia, esta filha de Zeus e da memória, cujos rabiscos marcam o "desencontro leve entre as coisas (...) e entre seres que se perdem uns aos outros, entre palavras que quase não dizem mais nada". Assim como em Água viva, romance citado na epígrafe, esse "leve desencontro" é, para ela, "a única forma de suportar a vida em cheio".

A escritura de Clarice, aliás, permeia toda a obra, que contém ecos também de autores como Manoel de Barros e Italo Calvino - este, principalmente se lembramos da estrutura de As cidades invisíveis. Pois O livro de Zenóbia (novela? romance? coletânea de contos?) assemelha-se a uma colcha de retalhos urdida por partos e mortes sucessivas, aromas e súbitas iluminações, flores e pessoas, a quem observa e com quem convive no decorrer de toda a existência, e que no livro ganham uma segunda voz, a da narradora. É esta quem, por vezes, confessa que a obsessiva busca pela "palavra" capaz de exprimir torna-se infrutífera: "Era para ter aprendido que a imperfeição é nossa porção de paraíso possível e que há sempre um poema que não chega à palavra, por mais que delire", sublinha em certa passagem. A "palavra" que aqui falta é capaz, contudo, de ajudar a purgar o horror da imagem do corpo já decomposto do pai. "Não, ela não deseja dizer que aquele que ora foi um corpo agora é um cadáver que já não se dá a ver senão com palavra", e então escreve metáforas "para velar a realidade das larvas, os reveses das vísceras e das cartilagens. Falsas paisagens da alma, do nada inumerável".

A paixão pela "palavra" não se refere meramente ao aspecto poético que esta possa encerrar. Longe disso. Zenóbia interessa-se por plantas de "climas ríspidos" e nomes científicos - Alpinia sesilis, Ascanea sativa, Rosa canina -, as quais cultiva. As belas ilustrações de Elvira Vigna, baseadas em desenhos de plantas americanas feitos por botânicos ingleses do século XVII, captam bem o traço exótico que o olhar deles lhes dispensou. E espelham um estranhamento que é também de Zenóbia. Ela se vê atraída pelo "esquisito", pelo difícil", assinala a narradora. Seu gato, por exemplo, chamava-se Finnicius. Os (inusuais?) apreços da personagem aparecem listados no fim do livro, ao lado de seus contos, de suas cidades preferidas e de seus livros de cabeceira - entre eles, não por acaso, três de Clarice: A paixão segundo G.H., Laços de família e o já citado Água viva. Também estão no romance suas receitas culinárias - salada de melancia com hortelã e queijo de cabra, sopa de cenoura com maçã ao açafrão, pamonha com erva-doce -, listas de temperos, ervas de cheiro e aves raras, notas biográficas sobre a protagonista e até mesmo uma breve fortuna crítica a respeito do próprio livro.

Foi com as aves migratórias, aliás, que Zenóbia aprendeu a "inventar seu espaço" particular. Se espaço não há, ela o imagina; assim como se não há palavra, ela a cria, sempre liricamente. Pois "é a lírica, e não a crônica, que define seu pacto com a vida e o sonho" - substantivos cuja fronteiras no livro mostram-se quase invisíveis -, embora o "trágico constitua seu pathos, seu idioma subterrâneo". "Não é na dor que reluz o mundano?", indaga a narradora. Talvez, sim. E possivelmente dela Zenóbia retire sua delicadeza tão pouco óbvia, crendo firme e serenamente, como intuiu no funeral de um amigo, que "toda perda oculta uma controversa beleza".



 Escrito por Marcelo às 10h18
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Chico por Renato Braz

Boa pedida para a happy-hour de hoje é o show do afinadíssimo Renato Braz, cantando músicas do Chico, na Biblioteca Nacional. A apresentação abre uma série de espetáculos ligados à exposição Chico Buarque - O tempo e o artista. Às 18h30, com ingressos a R$ 10,00 e meia entrada para estudantes e maiores de 65 anos. 



 Escrito por Marcelo às 14h16
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Evandro Teixeira

Malgrado as críticas negativas que o filme vem recebendo, estou curioso para conferir Evandro Teixeira - Instantâneos da realidade, documentário dirigido por Paulo Fontenelle sobre o grande fotojornalista, que há 37 anos trabalha no Jornal do Brasil. Evandro é autor de algumas fotos que hoje fazem parte do nosso imaginário, como a da passeata dos cem mil (acima), e também de outras pequenas pérolas, não tão conhecidas, algumas das quais posto aqui:

  



 Escrito por Marcelo às 11h45
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Teresa no Democráticos

Essa eu realmente não entendi: a querida Teresa Cristina reclamava tanto do som do antigo Semente que um dia cansou e parou de se apresentar por lá. Agora, a Agenda do Samba e do Choro anuncia que ela, Pedrinho Miranda e companhia farão shows aos sábados no Clube Democráticos, um dos estabelecimentos com sistema de som mais sofrível do Centro. Alguém, se puder, me explica?



 Escrito por Marcelo às 11h14
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Ele e eu

 

Trilha frita com cerveja, Botafogo, Roberto Ribeiro, Império Serrano, filmes de Budd Spencer e Terence Hill, rabada com agrião, João Nogueira, camisa de botão com bolso, Nelson Gonçalves, óculos para vista cansada, cigarro Hollywood, Altemar Dutra, soneca depois do almoço dentro do Cine Madureira 1... tudo isso tanta me lembra ele, que não almoçará comigo e o resto da gurizada no domingo, mas de alguma forma estará conosco.



 Escrito por Marcelo às 11h00
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Foi assim

Uma tarde de domingo, ou de feriado, na antiga casa alugada em que passávamos as férias, na Barra, e onde viríamos a morar. No quarto, minhas três irmãs mais velhas (sim, até a que morreu) ouviam esta canção, que agora mesmo acaba de tocar na rádio sintonizada aqui no trabalho, transportando-me absolutamente no tempo. Lembro que desde aquela época da casa na Barra gostava de ouvir a Fafá cantá-la e que, muito tempo depois, pegando uma carona com o amigo Ronaldo, após a aula da pós em Jornalismo Cultural, ele se emocionou ao me ouvir sussurrar alguns de seus versos. Segundo o Ronaldo, que é natural de Belém, o Ruy Barata (um dos autores, este da foto), embora não tão conhecido fora do Estado, era um poeta muito respeitado por lá (ele faleceu em 1990). Segue a letra completa, gravada pela Fafá num de seus primeiros discos.

"Foi assim"

Paulo André / Ruy Barata

"Foi assim
Como um resto de sol no mar
Como a brisa na préamar
Nós chegamos ao fim

Foi assim
Quando a flor ao luar se deu
Quando o mundo era quase meu
Tu te fostes de mim

Volta meu bem, murmurei
Volta meu bem, repeti
Não há canção nos teus olhos
Nem há manhã nesse adeus

Horas, dias, meses se passando
E nesse passar, uma ilusão guardei
Ver-te novamente na varanda
A voz sumida em quase pranto
A me dizer, meu bem, voltei

Hoje esta ilusão se fez em nada
E a te beijar, outra mulher eu vi
Vi no seu olhar envenenado
O mesmo olhar do meu passado
E soube então, que te perdi"



 Escrito por Marcelo às 18h22
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Octaedro

Duas frases soltas colhidas no Octaedro, de Julio Cortázar:

"... a inútil necessária retórica que não é consolo nem menira nem sequer frases coerentes, um simples estar aí, que é tanto". (em Liliana chorando)

"Acabou por irritá-lo a facilidade com que a ignorância favorece a admiração (...)", (em Os passos no rastro)



 Escrito por Marcelo às 10h59
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As máscaras de Noll

No site No Mínimo, o jornalista José Castello entrevista João Gilberto Noll a respeito de Lorde, novo romance do escritor. A introdução à entrevista está um primor, e nela Castello comenta sobre a comum confusão que se faz entre autor e narrador, atingindo principalmente criadores muito subjetivos, como Clarice Lispector e o próprio Noll. Postei abaixo a parte inicial da matéria e uma das perguntas do repórter ao escritor. Leia tudo aqui.

"A máscara arrancada"

José Castello

Circula na Internet uma "entrevista sensorial" com Clarice Lispector, o que não deve ser confundido com as reportagens psicografadas dos espíritas, ou qualquer outra peripécia mediúnica. Vinte e sete anos depois da morte da escritora, o procedimento é bem simples: a cada pergunta, os repórteres vão aos romances de Clarice em busca das respostas. O mais fantástico: eles as encontram, ou acreditam que encontram.
Uma confusão elementar sustenta esse procedimento, equívoco, enfim, bastante habitual: o que leva a misturar as vozes dos narradores de romances com as vozes de seus autores. Clarice Lispector foi, sem dúvida, uma escritora para quem vida e obra não se desligavam. Ocorre que essa ligação é muito mais sutil, e complicada, do que a associação mecânica e simples entre o que dizem seus personagens e aquilo que ela supostamente pensava. A expressão literária é uma complexa liga de elementos contraditórios, em que entram a memória, as imagens do inconsciente, as fantasias pessoais e a imaginação, entre outros componentes. A literatura é, por isso, uma máquina de enunciados dolorosos, que traz em seu bojo a mescla aflitiva da alegria de criar com o horror de não poder dizer. Autores que adotam essa postura radical, como foi o caso de Clarice Lispector, e como é também o caso de João Gilberto Noll, pagam um alto preço íntimo por sua escolha. Um desses castigos: ser tomado por quem não é. Não é fácil - mas é o único caminho para escrever grandes livros (...)"

Seu romance (ele fala de "Lorde") tem ainda um elemento muito contemporâneo, que é o sentimento de perseguição. Bem, há até um movimento de soldados que supostamente estão ali para enfrentar uma indefinida ameaça do terror. Isso tudo exacerba uma atmosfera de grande suspense. Em que medida o sentimento de perseguição é uma peça chave em sua literatura?

O sentimento de perseguição, a paranóia, é a alma dos meus livros. Meu segundo livro e primeiro romance, "A fúria do corpo", começa com a frase: "O meu nome não." Ou seja, não darei pistas ao leitor. Assim, quanto mais vaga, mais indeterminada for a atmosfera dos meus enredos, se é que eles existem, menos chances de eu ser encarcerado pelo olhar do outro sempre aprisionado em gêneros, espécies ficcionais, horizontes estéticos. Por isso não posso dar soluções de cunho policial à tensão que norteia cada livro, porque isso seria trair uma verossimilhança que eu defendo caninamente: à da vida, sim, senhor, essa que exprime o congestionamento do nosso cotidiano de situações não resolvidas, gestos flutuantes, dúvidas atrozes, esboços que não se completam...



 Escrito por Marcelo às 10h29
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O Cinema e a Multidão

Mestre em Filosofia pela PUC e doutor em Comunicação pela UFRJ, o professor Henrique Antoun montou um interessante curso sobre O Cinema e a Multidão, que consistirá de 12 aulas, com projeção de filmes. Serão duas turmas, iniciando as atividades respectivamente nos dias 17 e 18 de agosto. Os encontros acontecerão às terças ou quartas, às 19h, em Ipanema. Informações, pelo telefone 2267-9904
Claramente deleuziano, Antoun fala um pouco sobre o curso: "O cinema passou metade do século procurando despertar um povo adormecido através das vibrações produzidas pela imagem-movimento no córtex da massa. Ele acreditava poder fazer dela um sujeito capaz de governar o seu próprio destino. Seguindo o decálogo das revoluções, ele apostava que com o pensamento guiando a ação o mundo podia transformar-se em um só golpe. Foi com imenso horror que essa poderosa ambição viu seu sonho ser roubado pelos feitiços da comunicação de massa, que fez do autômato espiritual um aparelho hipnotizador e do despertar do povo uma tropa de sonâmbulos. Cabia ao cinema do pós guerra abandonar seu devaneio orgânico e mergulhar nas cristalizações da imagem-tempo para limpar-se dessa vergonha. Nesse mergulho o cinema vai encontrar toda a dificuldade de fugir do controle hipnótico da imagem-movimento sobre o sistema sensório motor. Ele vai ter de lutar contra a paralisia no cerne da mobilidade, contra a imobilidade no coração da vontade, contra a imutabilidade na aspiração do desejo, esposando as revoltas contra a disciplina. Entre o povo e a massa, uma multidão descobriu no cinema como inventar seu rosto a 24 quadros por segundo. O cinema é a ética da multidão".
As projeções incluem clássicos como Câmera olho, de Vertov (foto); O encouraçado Potemkin, de Eisenstein, M - O vampiro de Düsseldorf, de Fritz Lang; O triunfo da vontade, de Leni Riefenstahl; A grande ilusão, de Jean Renoir; Roma, cidade aberta, de Roberto Rossellini; O terceiro homem, de Carol Reed; Arkadin, de Orson Welles; Oito e meio, de Federico Fellini; Montenegro, de Dusan Makavejev; Nostalgia, de Andrei Tarkovski; e O diabo no corpo, de Marco Bellochio.



 Escrito por Marcelo às 10h17
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Cartier-Bresson

         

Acaba de ser anunciada a morte, em Paris, de um dos grandes mestres da fotografia: Henri Cartier-Bresson. As agências internacionais informam que um familiar avisou publicamente que o fotógrafo faleceu na última segunda-feira, aos 95 anos de idade, em sua casa, localizada na Isle-sur-la-Sorgue. Cartier-Bresson foi um dos fundadores, ao lado de Robert Capa, da célebre agência Magnum, e um dos grandes nomes do fotojornalismo mundial.

O fotógrafo nasceu na França, em 1908. Seu interesse por arte e estética fez com que tivesse aulas com os maiores pintores de sua época, como Gertrude Stein, Max Jacob, Salvador Dali e Max Ernst. Em 1940, foi capturado e feito prisioneiro na Alemanha durante três anos, até conseguir escapar e fugir para seu país.

Descobriu seu ofício através da obra do fotógrafo Martin Munkacsi. Era um estudante de literatura e sonhava ser pintor. Foi profundamente influenciado pelo surrealismo, que encorajava os artistas a explorar o sentido que havia debaixo da superfície da vida cotidiana. Nas mãos dos surrealistas, a fotografia se tornou um meio de revelar a significância da vida que, de outra forma, se perderia. Quando capturado em uma fotografia, um gesto simples poder conter beleza, tragédia ou graça.

Ao fotografar, Cartier-Bresson não usava tripé, somente uma Leica na mão, para evitar que se perdesse a fluidez do instante. "A gente olha e pensa: quando aperto? Agora? Agora? Agora? Entende? A emoção vai subindo e, de repente, pronto. É como um orgasmo, tem uma hora que explode. Ou temos o instante certo, ou o perdemos para sempre. E não podemos recomeçar. O desenho é uma meditação enquanto que a foto é um tiro. Pode-se apagar um desenho e fazer outro. Não se está lutando contra o tempo. Tem-se todo o tempo pela frente, é uma meditação. Mas com a foto há um espécie de angústia constante pelo fato de estar presente. Mas é uma angústia muito calma", afirmou certa vez, procurando definir, poeticamente, o ato de fotografar.



 Escrito por Marcelo às 16h25
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Show de ontem

Acima da expectativas o show de ontem no Teatro João Caetano, organizado para ajudar o violonista Hélio Delmiro a sair da prisão (para quem não sabe: ele foi detido por atraso na pensão alimentícia da ex-mulher e das filhas... um desses absurdos de nossa legislação, com sua crença nas penas privativas de liberdade...). Poderia falar aqui da beleza que foi ver novamente reunidos Zé Renato, Moacyr Luz, Guinga e Jards Macalé, da voz arrepiante da Nana, do grande Cristóvão Bastos, da alegria de rever a Fátima Guedes, da Leila "mezzo mezzo" Pinheiro cantando a obra-prima Catavento e girassol (e salve Aldir Blanc!). Ou ainda do receptividade do público ao som do Trio Madeira Brasil, do Quarteto Maogano, ou do mestre Wilson das Neves, sempre bem-humorado, fechando o espetáculo com Imperial e O samba é meu dom. Mas a nota da noite foi mesmo a corridinha do Licínio para retirar da frente do palco um fotógrafo que estava perturbando o público. Com os braços estendidos, como quem diz "^}ô, meu camarada, senta aí", o rei do frescobol no Nove e do Escravos da Mauá, botou imediatamente ordem na casa.

 Escrito por Marcelo às 12h56
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Crônica de aniversário

Hoje é aniversário de um amigo recente (e nem por isso menos amigo): o talentoso e gente-muito-boa JP Cuenca. Para homenageá-lo, pensei inicialmente em postar algo do João Antonio, autor que lhe é tão caro. Mas ao me deparar com essa crônica do escritor, letrista e acima de tudo boêmio Antônio Maria, publicada em 12 de setembro de 1959, achei mais adequada. Até porque, como Maria, é desse cotidiano aparentemente banal, dessa cidade que ferve à nossa volta, que Cuenca retira a matéria –prima para a sua litaratura.

"Amanhecer em Copacabana"

Antônio Maria

"Amanhece, em Copacabana, e estamos todos cansados. Todos, no mesmo banco de praia. Todos , que somos eu, meus olhos, meus braços e minhas pernas, meu pensamento e minha vontade. O coração, se não está vazio, sobra lugar que não acaba mais. Ah, que coisa insuportável, a lucidez das pessoas fatigadas! Mil vezes a obscuridade dos que amam, dos que cegam de ciúmes, dos que sentem falta e saudade. Nós somos um imenso vácuo, que o pensamento ocupa friamente. E, isso, no amanhecer de Copacabana.

As pessoas e as coisas começaram a movimentar-se. A moça feia, com o seu caniche de olhos ternos. O homem de roupão, que desce à praia e faz ginástica sueca. O bêbado, que vem caminhando com um esparadrapo na boca e a lapela suja de sangue. Automóveis, com oficiais do Exército Nacional, a caminho da batalha. Ônibus colegiais e, lá dentro, os nossos filhos, com cara de sono. O banhista gordo, de pernas brancas, vai ao mar cedinho, porque as pessoas da manhã são poucas e enfrentam, sem receios, o seu aspecto. Um automóvel deixou uma mulher à porta do prédio de apartamentos — pelo estado em que se encontra a maquillage, andou fazendo o que não devia. Os ruídos crescem e se misturam. Bondes, lotações, lambretas e, do mar, que se vinha escutando algum rumor, não se tem o que ouvir.

Enerva-me o tom de ironia que não consigo evitar nestas anotações. Em vezes outras, quando aqui estive, no lugar destas censuras, achei sempre que tudo estava lindo e não descobri os receios do homem gordo, que vem à praia de manhã cedinho. E Copacabana é a mesma. Nós é que estamos burríssimos aqui, neste banco de praia. Nós é que estamos velhíssimos, à beira-mar. Nós é que estamos sem ressonância para a beleza e perdemos o poder de descobrir o lado interessante de cada banalidade. Um homem assim não tem direito ao amanhecer de sua cidade. Deve levantar-se do banco de praia e ir-se embora, para não entediar os outros, com a descabida má-vontade dos seus ares."



 Escrito por Marcelo às 12h21
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Hélio Pellegrino

A Antonia Pellegrino manda mensagem avisando que na próxima terça, dia 10, vai rolar na Livraria Argumento o lançamento de Lucidez embriagada, volume que ela organizou com base num verdadeiro mergulho nos arquivos do avô, Helio Pellegrino, um dos "quatro cavaleiros de um íntimo apocalipse" do célebre Encontro marcado (de Fernando Sabino). Junto ao trabalho de Antonia, estará sendo lançado na ocasião também o Arquivinho Hélio Pellegrino, que contém cartas, artigos, cronologia e desenhos do psicanalista, organizados com esmero pelo amigo Paulo Roberto Pires.

Em matéria publicada recentemente pela Folha de S. Paulo, o jornalista Luiz Fernando Vianna colheu algumas declarações de Antonia sobre o avô, com quem ela conviveu apenas até chegar aos 8 anos de idade. "Ele era um libertário na rua, mas em casa não. Foi um marxista que se casou com uma milionária. Esses paradoxos eram elementos de uma personalidade angustiada. Mas ele se realizava completamente na devoção pelo outro. Tentava sempre entender os lados opostos de uma situação", afirmou Antonia à Folha.

"Essa avaliação do avô a levou a criar uma estrutura dialética do livro: a primeira parte se chama ‘Hélio’; a segunda, ‘Outro’; a terceira, ‘Encontro’. Não por caso, o primeiro bloco é o menor, já que Hélio falava mais de si dedicando-se aos outros. E o terço final é o maior, porque, fosse no amor, na religião, na psicanálise ou na política, a fraternidade entre as pessoas era a utopia buscada por ele", explica a reportagem, que traz também observações de Paulo Pires: "[Pellegrino] Tinha um único objetivo, quase obsessão: lutar pela libertação de tudo o que, sendo imposto ao homem, o faz sofrer e apequena sua vida".

É de Hélio, aliás, uma das melhores definições da "busca" que move a escritura de Clarice Lispector. Desafiado pela escritora a valer-se de seus conhecimentos como psicanalista e amigo para defini-la, ele respondeu: "Você, Clarice, é uma pessoa com uma dramática vocação de integridade e totalidade. Você busca, apaixonadamente, o seu self, e esta tarefa a consome e faz sofrer. Procura casar, dentro de você, luz e sombra, dia e noite, sol e lua...".

Um grande homem e intelectual, o Hélio. Estou curioso para ler os dois livros. 


P.S. Na foto, os "quatro cavaleiros de um íntimo apocalipse": Fernando Sabino, Hélio Pellegrino, Otto Lara Resende e Paulo Mendes Campos



 Escrito por Marcelo às 14h54
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"Bom dia, amor!"

Receber esta mensagem, logo ao chegar no trabalho, é mais do que um desejo; é uma razão inequívoca para se ter um dia realmente feliz. Há dez meses, é com esta frase que começo meus dias. Eles ganharam outra relevância, outro brilho, outra delicadeza. São girassóis na forma de horas, minutos, segundos...



 Escrito por Marcelo às 12h22
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Curtas e cursos no Ateliê

O remodelado Ateliê da Imagem vem programando uma sessão semanal de curtas. A próxima acontece na sexta que vem, às 20h. Os filmes são os seguintes: Fragmentos de uma mulher sozinha (de Poliana Paiva e Camila Márquez), Selarón (José Roberto Mesquita e Renata Britto), Está lá, é do inimigo (Pedro Lobito), Lama negra (coletivo), O metro quadrado (Flavia Candida), Desejo citrullus (Ana Bárbara Ramos), Ausar (Igor Cabral e Bruno de Sales) e Fácil demais (Carlos Dowling e Igor Cabral).

Além disso, o Ateliê já divulgou sua agenda de atividades, que inclui oficinas de Realização em videodigital, 16 mm, Videdocumentário, Videojornalismo, Animação com fotografias, e cursos de Fotografia Digital, Fotojornalismo e Fotografia Pinhole. Mais informações, aqui.



 Escrito por Marcelo às 10h50
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Cartas de amor

Seriam elas, como o disse Fernando Pessoa, "ridículas"? Uma boa oportunidade de pensar sobre o assunto será prestigiando o evento Cartas de amor na literatura, que a Estação das Letras promove entre os dias 10 e 13 de agosto, no Centro Cultural dos Correios. As atividades começam às 18h30 do próprio dia 10, com a leitura dramatizada (por Marcelo Anthony) de um carta de Freud à namorada, com posteriores comentários de Lívia Garcia-Roza. E os trabalhos continuam nos dias seguintes, sempre no mesmo horário. O restante da programação:

Dia 11 - Carta de Graciliano Ramos à sua amada, lida por Antonio Calloni, com comentários de Ana Cristina Chiara

Dia 12 – Carta de Fernando Pessoa, lida por Ítalo Grossi, com comentários de Gilda Santos

O evento é totalmente gratuito, com senhas distribuídas meia hora antes das leituras.



 Escrito por Marcelo às 10h47
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Resposta ao Tutty

O amigo Fernando Pinto é um dos leitores "silenciosos" do Pentimento. Hoje, ao ler a coluna do Tutty que reproduzi aqui, ele resolveu preparar uma resposta e me enviou. Ficou tão bacana que compartilho o texto aqui com vocês:

"No que ajuda ser Fluminense"

Fernando Pinto

"Li o artigo do Tutty Vasques intitulado “Política do Rio na segundona”. O artigo compara o fiasco dos times cariocas com o da política do Rio, sublinhando o desinteresse dos habitantes da cidade maravilhosa pelo futebol e pelo certame eleitoral. O artigo termina com uma frase enigmática: “o carioca vai aos poucos percebendo que não precisa de futebol ou de política para ser feliz. Não lhe resta, aliás, alternativa”.

Meu irmão Gustavo, 15 anos, não tem o menor estímulo para ser Fluminense ou continuar sendo. O Flu não é campeão carioca de verdade (2002 não conta) 1995 e o título de campeão da série C, depois de duas rebaixadas, significou mais alegria de alívio. O jejum de títulos e o vexame deveriam ter marcado tragicamente o menino, a ponto de até não querer saber mais do Fluminense. Corta para sábado passado. Eu mesmo nem sabia quem o Fluminense ia enfrentar. Fui filar uma bóia na casa dos meus pais e encontrei os meus dois irmãos prontos para ir para o Maraca assistir ao Fluminense x Cruzeiro. A empolgação do moleque em ir para o estádio é assustadoramente grande. Contrariando os costumes da geração pay-per-view, o cara se amarra naquele ambiente do estádio - a ansiedade coletiva nas arquibancadas, o xingamento catártico, a supertição de não gritar gol antes, a pipoca fria na embalagem de plástico, a visão incomparável do gramado e do céu do fim de tarde. Realmente, é legal pra caramba. Não sei das outras torcidas, mas a torcida tricolor, pelo menos a da minha família, descobri que é assim: curte e acredita no Fluminense, gosta da agitação e de ver as três cores em ação. A fama do Fluminense de timinho é verdadeira. Poucas vezes tivemos grandes craques. Não temos títulos espetaculares. Mas seguimos na história, marcando presença, fazendo a diferença.

Corta para as eleições de 1996. Zoológico do Rio. Dia dos pais. Lançamento da campanha de Chico Alencar para prefeito. Éramos meia dúzia de gatos pingados, mais o Chico e os outros bichos do Zôo. O cara que tava gravando para o programa eleitoral mandou a gente juntar para dar a impressão de que tinha pelo menos umas dez pessoas ali. Saímos no programa do Chico balançando as bandeiras da mesma maneira que dois meses depois estamos na Cinelândia inacreditavelmente lotada, no encerramento da campanha. Tínhamos a certeza do segundo turno enquanto os institutos indicavam uma diferença de 12% entre o Chico e o segundo lugar, Sergio Cabral (argh!). O resultado deu uma diferença de menos de dois pontos. Uma sacanagem. Mas foi muito maneiro, panfletagem andando da Rocinha até a Urca, xingamentos à perua da Leila do Flamengo, boca de urna escancarada.

Hoje está todo mundo atocaiado, mas ao contrário do que diz o Tutty Vasques, doidos e prontos para ir para a rua, ou para o estádio! Pois a gente precisa de futebol e política sim para ser feliz, mesmo que o Flu não ganhe, mesmo que não tenhamos bons candidatos – pessoal, o César não pode ganhar (acabou com a Saúde), nem o Crivella! Magno Alves para prefeito!"



 Escrito por Marcelo às 17h47
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Por falar em Segundona

Vale conferir a coluna desta semana do Tutty Vasques no site No Mínimo, em que ele estende a decadência do futebol do Rio à nossa política. Um texto triste, mas bastante verdadeiro:

"A política carioca na Segundona"

Tutty Vasques

"A entrada de Anthony Garotinho na campanha de Luiz Paulo Conde tem para a política do Rio de Janeiro a mesma importância que a troca hipotética de Fabiano Eller por André Bahia no time do Flamengo. Não muda rigorosamente nada. O carioca está tendo que se virar para não ficar sem assunto nesse segundo semestre, uma vez que política e futebol, francamente, não rendem dois dedos de prosa. O próprio César Maia já percebeu que se reelege prefeito fácil no primeiro turno se entrar mudo – como, aliás, entrou – e sair calado da campanha.
Também não sou eu quem vai aqui encher o saco do leitor de outros estados explicando quem é Marcelo Crivella – já basta o Jorge Bittar, que todos conhecem de ouvir falar, ainda que não lembrem direito se bem à beça ou muito mal. Tem ainda César Maia, a estrela solitária Jandira Feghali, Nilo Batista, André Corrêa, enfim, um time de candidatos pior que o do Botafogo. “A rigor”, como dizia Brizola, o jogo político carioca caiu para a Segunda Divisão faz tempo, daí o desinteresse da ex-capital da República por eleições. Tem gente em Ipanema que ainda nem se deu conta de que vai votar este ano.
Não deixa de ser um ótimo momento para essa gente bronzeada do Rio de Janeiro cultivar paixões alternativas ao futebol e à política. Sem motivos para brigar no almoço de domingo – ninguém mais torce fervorosamente por este candidato ou aquele time –, o carioca tem a chance de buscar a alegria da vida num cineminha com a patroa, numa caminhada com os filhos ou no jantar com os amigos. Em pauta, qualquer coisa menos futebol e política.
O Rio anda mais silencioso. Há quanto tempo aquele seu distintíssimo vizinho do outro lado da rua não surta na varanda aos berros de “Meeeengooooo”? As acaloradas discussões políticas de outrora já não freqüentam nem mais as mesas da Plataforma. Ficar em casa com esse friozinho gostoso e a TV desligada também pode ser uma experiência inteiramente nova para quem passou a vida falando sozinho com Galvão Bueno nas tardes de domingo. Silêncio!
Enfim, o carioca vai aos poucos percebendo que não precisa de futebol ou de política para ser feliz. Não lhe resta, aliás, alternativa."
 



 Escrito por Marcelo às 14h30
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Abre o olho, Urubu!

Se até o perna-de-pau do Schwenck está decidindo - e com gol de bicliceta! -, é porque a sorte começou a sorrir para o Botafogo. Ao que parece, a vez é mesmo de vocês!



 Escrito por Marcelo às 14h15
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Depois do Pipi

  

Ah, sim: após o Pipi Show, cumprimos mais uma etapa do projeto Explorando as bizarrices do Rio, enfrentando corajosamente um rodízio de pizza no Rondinella, aprazível bar-restaurante às margens da tão decantada Praia de Copacabana. Na comitiva, eu, Paulinha, Flavio Izhaki com sua Bá, Tuninha e o "grande" Mariel F. dos Reis, o homem mais letrado do Rio de Janeiro. Entre chopes, pizzas portuguesa, de presunto, calabresa, milho e até chocolate, o papo variou dos cânones (Clarice, Guimarães, Pessoa) à literatura contemporânea. Destaque para o comentário de Mariel, sobre o protagonista do romance Barco a seco, de Rubens Figueiredo, que ao se afogar, antes de procurar salvação, começa a lembrar-se de um pintor.



 Escrito por Marcelo às 12h50
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"Depois desse episódio, qual sua opinião sobre Moore?

Bradbury: Ele é um ladrão e um mentiroso."


Imperdível a entrevista que Ray Bradbury, autor do livro Fahrenheit 451, concedeu ao site No Mínimo, e na qual ele critica a "usurpação" de seu célebre título pelo cineasta Michael Moore. Confira aqui.



 Escrito por Marcelo às 12h24
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Inícios

"É sempre difícil encontrar o momento inicial, o quê deflagrador de uma história cuja importância só será conhecida em um longínquo depois, já instalado no campo linear de nossas biografias. O quase nada dos primeiros movimentos é apenas sombra, sem volume ou extensão necessários para a estrutura mental fazer registro. Muito simples, nosso cérebro não consegue reconhecer os sinais sutis de uma pré-história, os elementos irônicos que maquinam futuros. Escapa-nos a faísca mínima que irá gerar o grande incêndio. Assim, toda primeira lembrança é peça de ficção, zero simulado, abstração inchada pela polpa da consciência que se adensa até oferecer o fruto já formado. No instante curto entre nascimento e morte, experimentamos um máximo de desatenção. É sobre esta destaenção que quero falar agora"

Trecho inicial de Considerações sobre o tempo, de Adriana Lunardi (in 25 mulheres que estãpo fazendo a nova literatura brasileira)



 Escrito por Marcelo às 11h57
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Nós no Pipi Show

No sábado, eu e Flavio Izhaki passamos por uma experiência inusitada. Como convidados do 2º Pipi Show Literário, realizado no sebo Baratos da Ribeiro, lemos alguns de nossos contos, confinados numa pequena cabine e "escondidos" por um pano preto. Quem ouvia a leitura não podia nos ver - e vice-versa. É claro que foram necessárias algumas cervejas de "aquecimento", mas ao que parece passamos bem pelo teste, apesar de nossa total falta de jeito para tal tarefa (acho que fomos melhores, ao menos, do que a banda cover que tocou no intervalo...). Uma pena somente não termos idéia da receptividade...



 Escrito por Marcelo às 11h40
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Três filmes

Fim-de-semana botando o cinema em dia. Três filmes:

. O agente da estação, de Thomas McCarthy. Em síntese, um filme sobre a solidão e seres solitários, a partir da história do anão Finbar (vivido na medida correta por Peter Dinklage), que vai morar num antigo depósito localizado numa estação de trem. Na cidade, ele conhece Joe (Bobby Cannavale), que tem um trailer onde vende café e comida, e Olivia (Patricia Clarkson), desiludida com a morte do filho e o fim do casamento, e com os dois pouco a pouco consegue traçar um esboço de amizade. O foco é sobre a estranheza (e quem não a tem?) e a singularidade dos três, sempre às voltas com suas idiossincrasias, sobre "aceitação" e acima de tudo sobre nossa brutal necessidade de companhia. 

. Pântano, de Lucrecia Martel. Olhar ácido sobre as relações familiares, num filme muito distinto dos dramas agridoces argentinos que têm chegado às salas brasileiras (o que não quer dizer necessariamente melhor). Muito bem dirigido, com bom uso de interessantes expedientes estéticos, principalmente com relação à fotografia e ao som, o filme só peca pelo andamento algo enfadonho.

. Sylvia, de Christine Jeffs. Cinebiografia bastante burocrática da poeta Sylvia Plath (vivida sem muitas nuances por Gwyneth Paltrow). O filme se concentra apenas na relação dela com o marido, o também poeta Ted Hughes (Daniel Craig). Trabalho não mais do que razoável, com alguns momentos de péssimo gosto (um exemplo: a constrangedora rima visual entre os beijos de Ted nos últimos escritos da mulher e na testa dela, já morta).



 Escrito por Marcelo às 11h15
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