Série 300 toques - Número 12

Carretel

Para Iberê Camargo

Jurara desfiar uma mentira até que o carretel terminasse. O fio esticava, esticava, ainda longe do fim, e ele, insistente, teimava em puxar, ignorando o cerol ou o que pudesse vir: um falso juramento, um medo desfocado, um nariz enorme. Jamais tocou na presilha da linha. Sempre contou boas histórias.



 Escrito por Marcelo às 14h25
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Mais enganação?

É hoje! Estréia nos cinemas o aguardado Fahrenheit 11 de Setembro, novo filme/panfleto (não vou chamar de documentário, ok?) de Michael Moore. Estou ansioso para conferir as "qualidades estéticas" que acabaram por consagrar o trabalho no último Festival de Cannes. Afinal, não posso crer que um júri de alto nível possa ter premiado as rasas diatribes do diretor e sua obra por razões políticas, né? A conferir.



 Escrito por Marcelo às 12h35
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Série 300 toques - Número 11

A hora exata

Um homem correto, sim. Cumpridor das tarefas. Exemplo para esposa e filhos. Às sete, o banho. Oito, trabalho. Meio-dia, almoço. A TV, o jantar. Dez em ponto na cama. Sabe-se lá por que decidira passar na praia após o serviço. O mar engolindo o sol e ele, atônito: ainda é boa tarde ou já é boa noite?



 Escrito por Marcelo às 11h54
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Série 300 toques - Número 10

Morte

Como era costume aos sábados, logo pela manhã pegou o jornal deixado à porta e sentou-se na privada para ler. Então, o susto: na primeira página, a foto estampava seu corpo. Morto. Ainda inebriado pela imagem, pensou "mas como, se estou aqui, agora mesmo, lendo...".

Era a edição de domingo.



 Escrito por Marcelo às 11h36
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Lendo

"Um fundo ruborizado na face. Era tudo o que havia sobrado quando, às cinco e meia, a manhã começou, latejando. Os cachorros da vizinhança incomodavam. Os lábios secos incomodavam. E, de algum modo, naquela manhã o mundo não vingou, devedor de si mesmo. Uma gota de leite caiu dentro da taça e criou o imprevisto: um matiz mais denso que pensava na véspera, nas vésperas, acres, as mesclas estranhas, os estilhaços, a casa inchada de insônia. Os cachorros da vizinhança doíam."

Adriana Lisboa, em Caligrafias (parte do livro 25 mulheres que estão fazendo a nova literatura brasileira)



 Escrito por Marcelo às 18h20
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Casas casadas

Saiu hoje em O Globo que após muita procrastinação as Casas Casadas de Laranjeiras serão enfim inauguradas no dia 20 de setembro (pouco antes das eleições municipais. Aliás: será que algum outro pleito já foi tão difícil escolher um candidato à Prefeitura?). Os imóveis abrigarão duas salas de cinema, café, livraria, auditório e restaurante. Um alento para o pessoal do bairro e adjacências.

 Escrito por Marcelo às 14h21
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Série 300 toques - Número 9

Casal

Brigavam toda manhã. Ela xingava-o aos gritos, reclamando de sua apatia. Calado, ele somente a confirmava, enquanto o bebê vertia em balbucios um repúdio. Naquele dia, era o leite fora da geladeira. "Já te falei que estraga", berrou ela, antes de lamentar: "Tá tudo estragando nesta casa"...



 Escrito por Marcelo às 12h11
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Woody e Gershwin

Esta é do meu compositor americano favorito e está na excepcional trilha sonora de Manhattan (Woody Allen), um dos filmes da minha vida. Na trilha, as canções de Gerswhin recebem o tratamento especial da Filarmônica de Nova York, regida por Zubin Mehta. Já na seqüência de abertura fica evidente como a música dialoga perfeitamente com as imagens durante todo o tempo (Woody talvez seja um dos cineastas que melhor realiza este diálogo): as cenas da cidade, registradas na deslumbrante fotografia em PB de Gordon Wills, revezam-se, enquanto ouvimos a narração em off do protagonista e a magnífica Rhapsody in blue. A minha preferida da trilha, no entanto, é mesmo Someone to watch over me.

"Someone to watch over me"

Gershwin

"There's a saying old says that love is blind
Still we're often told "seek and ye shall find"
So I'm going to seek a certain girl I've had in mind
Looking everywhere, haven't found her yet
She's the big affair I cannot forget
Only girl I ever think of will regret


I'd like to add her initial to my monogram
Tell me where's the shepherd for this lost lamb

There's a somebody I'm longing to see
I hope that she turns out to be
Someone who'll watch over me

I'm a little lamb who's lost in a wood
I know I could always be good
To one who'll watch over me

Although she may not the girl some men think of
As handsome to my heart
She carries the key

Won't you tell her please to put on some speed
Follow my lead, oh how I need
Someone to watch over me
Someone to watch over me"



 Escrito por Marcelo às 10h46
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Balzac e a costureirinha chinesa

O filme baseado no livro Balzac e a costureirinha chinesa está sendo exibido em algumas salas do Rio. Ao vê-lo em cartaz, lembrei que a resenha da obra escrita por Saí Stie, que também dirige a versão em película, foi uma das primeiras que fiz lá para o Idéias (JB). Reli meu texto ontem e, como o livro é muito interessante, resolvi postá-lo aqui.

Balzac e a costureirinha chinesa
Daí Sijie
156 páginas R$24,90
Tradução: Vera Lúcia dos Reis

Por Marcelo Moutinho

Em "A insustentável leveza do ser", o escritor Milan Kundera revela, com certa amargura, a existência de laços estreitos entre o nosso "inelutável peso de viver" e as formas de opressão em geral. O peso da vida, sublinha Calvino ao comentar o livro do theco em suas "Seis propostas para o próximo milênio", habita "a intrincada rede de constrições públicas e privadas que acaba por aprisionar cada existência em suas malhas cada vez mais cerradas". Um romance sobre as aventuras de dois estudantes às voltas com o processo de ‘reeducação’ proposto pela Revolução Cultural na China dos anos 60 poderia espelhar este "peso". Não é o que ocorre, contudo, com "Balzac e a costureirinha chinesa", de Daí Sijie, autor alçado de mero desconhecido a best-seller na França em apenas duas semanas. A história das dificuldades de dois jovens sob a égide do projeto maoísta, contada no livro, em nenhum momento soa como libelo panfletário contra o totalitarismo. Ao contrário, é narrada com sabor, delicadeza e algum humor.

A obra, que sai no Brasil pela Editora Objetiva, foi lançada de maneira discreta, mas se transformou em um verdadeiro fenômeno literário, e não só em termos comerciais: a indicação ao Goncourt, mais importante prêmio da literatura francesa, comprova a aprovação da crítica. Acompanhando a trajetória dos rapazes da cidade – o narrador (18 anos) e o amigo Luo (17) – em seu exílio nas montanhas distantes, o texto de Sijie espelha, no microcosmo da aldeia, as conseqüências da política que fechou as universidades e atingiu diretamente a burguesia intelectual chinesa, cujos filhos foram enviados aos campos para aprender a ‘exemplar’ vida do proletariado. A diretriz seguia um dos ditados prediletos de Mao, destacado por Jung Chang em "Cisnes selvagens", livro que acompanha a saga de três gerações durante a história do país. Dizia o Grande Timoneiro que "os camponeses têm mãos sujas e pés sujos de bosta de vaca, mas são muito mais limpos que os intelectuais". A exemplo da escritora, Sijie, que mora na Europa há 15 anos e atua também como diretor de cinema, viveu ele próprio os dissabores da ‘reeducação’. A experiência com a Sétima Arte, aliás, transparece em sua narrativa, repleta de imagens fortes, que em breve chegarão às telas: o autor já anunciou que pretende transformar em longa-metragem as agruras dos garotos chineses.

"Balzac e a costureirinha chinesa" centra foco no choque que o "cheiro de civilização" dos jovens urbanos provocou nos camponeses. Explicita também os preconceitos que, gerados no ventre da ignorância, colocam em alguns momentos os rapazes em situações difíceis, sempre resolvidas graças a muita sagacidade. A seqüência da chegada no campo, por exemplo, é emblemática. Desconfiados quanto ao violino que um dos dois carrega, os aldeões anunciam que irão queimar o instrumento, classificado pelo chefe local como um "brinquedo burguês". Luo propõe então que o narrador toque uma sonata de Mozart, cuja execução evidentemente era proibida pela Revolução. A esperteza do narrador o livra da aflição. Indagado sobre o título da música, ele de imediato responde: "Mozart pensa no presidente Mao". É o suficiente para que a censura dê lugar a aplausos, e antecipe o tanto de astúcia necessário para garantir a sobrevivência nas montanhas.

Luo e o narrador têm colado em si o estigma de filhos de pais burgueses. São obrigados a realizar pesadas tarefas, como carregar nas costas baldes cheios de adubo, inclusive humano, ou enfrentar os pesados cestos de antracito em uma mina de carvão. Mas os rapazes por vezes conseguem escapar do trabalho, devido ao talento de Luo para reproduzir aos aldeões as histórias de filmes que conhecia. Enfeitiçado pelo poder narrativo do jovem, o chefe dos camponeses determina que ele estará presente às eventuais sessões do cinema da cidade mais próxima, a fim de assistir às produções oficiais e repassá-las à aldeia. Trata-se do indício primevo da grande questão proposta pelo romance de Sijie.

Uma questão que se explicitará com o giro radical na vida dos jovens, representado pela descoberta de uma valise que contém inestimável tesouro: livros de Flaubert, Baudelaire, Dostoievski, Dickens, Dumas; em resumo, boa parte dos cânones literários do Ocidente. De início, eles envolvem-se com "Úrsula Mirouët", de Balzac, que abrirá seus horizontes para além da fogueira inquisitória de Mao - onde, como a música, ardeu também toda a literatura ocidental, expurgada do país sob a pecha de decadente, apesar da sobrevida no mercado negro. No esteio do fascínio com as tramas de mistério, amor e desejo dos autores recém-descobertos, brota uma formidável sensação de autonomia, que os jovens comungam com os montanheses, principalmente com a Costureirinha, a filha de um alfaiate que atende aos habitantes de todas as aldeias da região e imediatamente capta as atenções dos rapazes por sua beleza. Desenha-se então uma marca indelével: o olhar em direção ao mundo se modifica, alterando também o comportamento de todos os que, de alguma forma, se vêem tocados pela literatura emanada da valise. Serão irremediavelmente diferentes as futuras páginas de suas vidas. De algum modo, a literatura os protege, forma um cerco a preservar a consciência individual, metaforizado pelo casaco do jovem narrador, no qual ele, temeroso em perder o contato com o romance, reproduz, linha por linha, o "Úrsula Mirouët" sobre o forro de pele de carneiro.

Ao embarcar nessa nova viagem do imaginário, os garotos encontram a "vivacidade" que, citando mais uma vez Calvino, pode nos fazer escapar à condenação do "peso" da vida. Curioso constatar que a grande Revolução comportou em seus escaninhos também pequeninas revoluções individuais, como estas que o livro de Sijie menciona, com a mesma leveza das histórias que fascinaram os jovens, funcionando como um escape possível para que, embora condenados inexoravelmente à opressão, lhes fosse possível vislumbrar alguma forma de liberdade.



 Escrito por Marcelo às 10h30
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Confirmando prenúncios

O genial Moidsch está de volta com seu blog.



 Escrito por Marcelo às 12h48
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Clássico

Quem gosta de fortes emoções não pode deixar de acompanhar hoje o tradicional clássico entre Flamengo e Botafogo. Em disputa, a honra de figurar na lanterna do Campeonato Brasileiro. Respeitando a memória de meu pai, nobre alvinegro (e só por este motivo), confesso que torcerei a favor da equipe comandada pelo Mauro Galvão.



 Escrito por Marcelo às 12h03
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Das Neves no CCC

Ontem fui ao show de lançamento de Brasão de Orfeu, o novo disco do mestre Wilson das Neves, no CCC. As ótimas impressões da primeira audição do cd confirmaramse plenamente. Wilson mostrou pleno domínio do palco, com bom humor e até certas trapalhadas que, ao contrário de depor contra o espetáculo, dispensou-lhe "vida", algo ultimamente bastante raro entre nosso rol de cantores virtuoses, mas sem alma e cheios de medo do erro. Arrisco-me a dizer que o novo trabalho é ainda superior ao célebre O som sagrado de Wilson das Neves, pelo menos para meu gosto pessoal. As inspiradas melodias do imperiano ganharam letras à altura de um grupo de feras, como Paulo César Pinheiro, Aldir Blanc, Cláudio Jorge e Délcio Carvalho, e os arranjos, embora contrariando minha implicância com bateria e baixo elétrico no samba, ajustam-se perfeitamente às canções. Meus destaques são a bela Imperial, parceria com Aldir, que homenageia minha escola de coração ("Beijos / a lenha antiga ardendo na fogueira / balões cruzando o céu de Madureira, / a Serra em nós nos dizendo que é imperial"), e três canções com Paulinho Pinheiro: Ensinamento ("Vou chorar o que for para chorar / Sorrir depois que a dor passar / Até cumprir minha missão / E que missão será? Sei lá"), Amor da minha vida, feita para as netas ("Tu és para mim certeza de missão cumprida / E a esperança que além da vida / Na tua vida a minha continua") e Traço de giz, que faço questão de postar inteira.

"Traço de giz"

Wilson das Neves / Paulo César Pinheiro

"As nossas ilusões

São folhas que o vento levou

Nos nossos corações

Depois que a tristeza passou

Sonhos que o amar

Secou, murchou, desfez

Projetos que não voltam outra vez

E as desilusões

Que aos poucos a brisa levou

Foram também momentos bons

Que é a gente é que desperdiçou

Todo dissabor

O tempo ameniza

Só lembrança nunca cicatriza

A ilusão de a gente ser feliz

É como um brilho de verniz

Que dura um tempo e se desfaz

Desilusão se corta na raiz

Não fica nem cicatriz

Nem um traço de giz

Nem um risco fugaz

Mas tem que se fazer o que se quis

Que a vida passa como um triz

Mas pra quem quer tudo é capaz

E é só a lembrança

Do que ficou pra trás

Que tem valor de herança

E nada mais".



 Escrito por Marcelo às 11h52
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Cursos e oficinas

 Acabo de receber a programação de cursos e oficinas da Estação das Letras para o segundo semestre. Entre os destaques, a Oficina de Ficção, com Sérgio Santanna, a Oficina do Conto, com Jair Ferreira dos Santos, Introdução à Crônica, com Maria Veronica Aguilera, Fernando Pessoa: o jogo de máscaras e a poetização da existência, com Antônio Máximo Ferraz, e Vozes da Poesia Hispano-Americana, com Adolfo Montejo Navas. Os custos estão entre R$ 100 e R$ 200. Mais informações, na página da Estação.



 Escrito por Marcelo às 11h24
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Canções no rádio

Redigindo textos e ouvindo rádio. A emisora que o pessoal aqui do Departamento de Jornalismo escolheu (soube agora, é a Paradiso FM). Entre o "mais do mesmo" habitual, uma bela seqüência do Caetano: Trem das cores, esta canção que traz uma inexplicável sensação de paz (e me lembra das férias que estão chegando... ah, o campo...), e a bela Sou você, que ele compôs para o irregular Orfeu do Cacá Diegues. A primeira já apareceu aqui no Pentimento por mais de uma vez. A segunda estréia hoje:

"Sou você"

Caetano Veloso

"Mar sob o céu, cidade na luz
Mundo meu, canção que eu compus
Mudou tudo, agora é você
A minha voz que era da amplidão
Do universo, da multidão
Hoje canta só por você
Minha mulher, meu amor, meu lugar
Antes de você chegar, era tudo saudade
Meu canto mudo no ar
Faz do seu nome hoje o céu da cidade
Lua no mar, estrelas no chão
A seus pés, entre as suas mãos
Tudo quer alcançar você
Levanta o sol do meu coração
Já não vivo, nem morro em vão
Sou mais eu porque sou você"



 Escrito por Marcelo às 16h23
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Os efeitos do McDonalds

Hoje, às 18h20, no CCBB, rolará sessão do documentário Super size me, dirigido por Morgan Spurlock, que passou um mês inteiro aomendo somente no McDonalds para conferir os devastadores efeitos do exagero de fast-food no seu organismo. Depois da exibição, haverá um debate com o próprio Spurlock. Vai lotar!



 Escrito por Marcelo às 12h56
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Sobre o crepúsculo

Curioso: sempre tive com a hora do crepúsculo uma relação dúbia. Ao tempo em que vejo enredado numa paisagem de beleza difusa, sinto-me melancólico como só. Lembro-me que, na época em que morava na Barra, costumava jogar futebol na praia ao cair da tarde. Terminado o jogo, tomado o devido banho revigorante no mar, ficava observando o sol ser engolido pelo horizonte num misto de pasmo maravilhado e tristeza sem explicação, talvez pela sensação de que "algo" se ia ali. Hoje, lendo a coluna do Paulo Pires no site No Mínimo, compreendi que este é um estado que atinge também a outras pessoas. Não deixem de ler o belo e lírico texto do Paulo, sem dúvida um dos melhores que ele já escreveu:

"Anotações sobre o crepúsculo"

Paulo Roberto Pires

"Há toda uma discussão bizantina sobre a crônica: se é gênero literário, se é carioca ou não, por que se chama assim, o que a caracteriza exatamente e se, admitindo-se que é literatura, é “maior” ou “menor”. Resolvo a história de forma mais simples, que é submeter este tipo de texto a uma prova dos noves nada universal e pouquíssimo científica: para mim, a crônica vale na medida em que o leitor se reconhece nela, encontra naquele naco de texto um flagrante qualquer de seu cotidiano imediato ou, de forma mais transcendente, de uma experiência decisiva. Isso levando em conta que a crônica parte, principalmente, de uma experiência vivida/observada pelo cronista, no fio da navalha entre o que se consegue compartilhar e uma viagem canhestra ao próprio umbigo. O pedaço de uma crônica do Arthur Dapieve, colega aqui de página, já foi parar numa letra do Aldir Blanc (“Choro réquiem”, parceria com Guinga) por refletir de alguma forma a dor que ambos dividiram com a morte da mãe.
Já faz tempo um amigo dividia comigo a angústia de encarar os fins de tarde e seu lusco-fusco, angústia reforçada quando o fim de tarde é, também, um fim de semana, domingos implacáveis que chegam rápido e custam uma eternidade para ir embora. A explicação que buscava para me tornar solidário acabou vindo, meses depois, sob a forma de textos de dois dos melhores cronistas de todos os tempos, Paulo Mendes Campos e José Carlos Oliveira, cariocas apaixonados vindos de Minas Gerais e do Espírito Santo, boêmios convictos, sensíveis ao que representa viver numa cidade cuja beleza às vezes resulta opressiva, “inútil paisagem”.
“O sol é viril, a noite é feminina, e eu não sei de onde me chega tanta incompetência de viver a hora do crespúsculo”, escreve Paulo Mendes Campo na crônica que batizou como esse momento do dia, hoje republicada em “O cisne de feltro”, volume dedicado aos textos autobiográficos em suas obras completas. “Se entro em um bar, autômato incoerente, coração de lata. Possa amar tudo, fingir-me de tudo, mas não naquela hora descompasssada do ocaso, quando não é ainda, mas é quase. Grade em todas as janelas; todas as paisagens como se fossem recordadas em aflição; todos os pensamentos contraídos; todos os sentimentos minimizados”.
Carlinhos Oliveira também não se entendida consigo mesmo e com o mundo nessa hora, sobretudo vivida no famigerado domingo. “Depois do almoço, a sesta; depois da sesta, preguiça crepuscular.(...) Ninguém faz nada. O domingo à tarde já terminou, e ainda não começou o domingo à noite. Os rádios estão ligados, as janelas estão abertas, os automóveis circulam sem destino”, descreve ele num dos textos do esgotado “Os olhos dourados do ódio”, de 1962. “De apartamentos obscurecidos emana uma tosse que revolve profundamente os brônquios. São os bêbados acordando de seu pesado sono. Acordam e tossem desesperadamente e depois bebem água gelada – uma concessão à quietude do anoitecer. Coitados dos bêbados! Domingo é para eles o dia de não ir à praia”.
Ipanema, cenário de um e de outro, insiste em contrariá-los e, há mais de 20 anos, costuma aplaudir de pé os fantásticos crepúsculos, principalmente no verão. Mudaram os crespúsculos ou os cronistas? Certamente uns e outros. Mas esta coincidência, a tal da experiência compartilhada e compartilhável, é que faz pensar sobre o que se deduz desta confissão de fragilidade. Por que, para os boêmios que ambos são – e também o meu amigo – esta é a hora que apavora? Confortável no fuso horário do álcool e da conversa esticada, das doses além da conta e dos excessos renovados a cada noite, o boêmio é mais racional do que parece quando decide trocar sistematicamente a noite pelo dia. O que ele simplesmente não consegue suportar é o momento de transição, quando não é mais dia mas ainda não é noite. (O “Aurélio” dá conta da existência, científica, de crepúsculos matutino e vespertino, mas a precisão científica vale de muito pouco para a crônica e para a vida).
A boemia tem seu tempo próprio – e não só porque ela acontece nas viradas de madrugada. O ritmo do dia é batido pelo sacrifício do trabalho ou pela angústia da falta dele. É o tempo da produção e dos horários, da impontualidade e da pressão – para muitos dos boêmios, jornalistas, tudo isso se incorpora nos deadlines – e do atraso permanente, de nascença. Na noite, onde a relatividade é radical, horas e minutos encolhem ou se estendem em cada um, no pique da conversa, da embriaguez, de amores doídos e passados, de perspectivas fugazes. Entre os copos e os amigos falsos e verdadeiros, a única coisa que se acumula é o desperdício e a economia possível é a dos excessos. Nesta dimensão, diametralmente oposta ao tempo ordenado pelo trabalho e pela família, quando há um e outro, o boêmio encontra sua estabilidade peculiar, cimentada pelo desregramento mais ou menos relativo.
Quando troca o dia pela noite e testemunha, alegre ou triste, o sol ou o céu cinza chegarem no horizonte, o boêmio está de certa forma redimido: missão cumprida, mais uma noite desperdiçada na velocidade dos prazeres mais primários, solitário em Copacabana como Antonio Maria a descreveu, povoado de gordos que fazendo ginástica na praia deserta podem expor-se sem medo do ridículo e sem a pressão dos padrões estéticos. As horas que se seguirão são, de certa forma, um porto seguro, seja na obrigação da recuperação para encarar o dia produtivo ou no alívio ambíguo de ser derrotado por uma ressaca.
Só o crepúsculo pode acabar com esse equilíbrio. Primeiro, porque traz em si uma carga simbólica de decadência, fim, lento desmoronar, oposto simétrico às perspectivas, boas ou não, de uma nova jornada. A chegada da noite, naquele momento em que dissolve os últimos claros do dia, é ambígua, pois representa, a um só tempo, o alívio com o fim das obrigações e a angústia pelo desperdício: o que trará mais esta noite? o que o seu “feminino”, como diz PMC, pode reservar com seus mistérios? Mas esta angústia é, paradoxalmente, a única certeza que têm os solitários (mesmo acompanhados) que insistem quixotescamente em bagunçar calendários e hierarquias. No crepúsculo, todas estas dúvidas se impõem e radicalizam. E só ele as faz, de alguma forma, valerem a pena."



 Escrito por Marcelo às 12h45
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Enquete

Colaborando para o Jaburu, vamos lá: qual o pior livro que você leu no último ano?

P.S. Vale citar amigos, tá? (rs)



 Escrito por Marcelo às 12h31
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Brilho eterno de uma mente sem lembranças

Um dos mais belos filmes já feitos sobre o amor. Definição apressada? Não creio. Brilho eterno de uma mente sem lembranças foge totalmente aos usuais esquemas do "filme sentimental", principalmente devido ao roteiro inquieto do sempre criativo Charlie Kaufman (de Quero ser John Malkovich), e nem por isso é menos romântico. Embora a direção seja do francês Michel Gondry, os traços de Kaufman estão claramente presentes: fragmentação na narrativa, fusão entre tempos presente e passado, elementos que, a partir de uma montagem precisa, ajudam a atirar o espectador num estado de confusão semelhante ao vivido pelo protagonista do filme, vivido com brilhantismo (e poucas caretas) por Jim Carrey.

Dois textos inspiraram Kaufman a escrever o roteito. O primeiro foi o poema "Eloisa to Abelard", de Alexander Pope, que comenta o caso verídico de um teólogo de 38 anos com uma jovem de 18, e do qual sai o título ("Feliz é o destino da inocente vestal/ Esquecida pelo mundo que ela esqueceu/ Brilho eterno da mente sem lembrança!"). O segundo, uma frase do filósofo alemão Friedrich Nietzsche (1844-1900): "Abençoados os que esquecem, porque aproveitam até mesmo seus equívocos".

Ambos aparecem no filme em certo momento, cuja premissa já é ótima: um casal apaixonado se separa. Ela, então, decide apagar todas as lembranças que tinha do relacionamento, a fim de não sofrer com a separação. Ao ver o que a ex-namorada fez, o rapaz segue o mesmo caminho. Só que, durante o processo de "apagamento", arrepende-se. E o que assistimos então é a luta dele por evitar que belas e importantes recordações simplesmente sumam de sua mente. Mais do que uma crítica à verdadeira indústria do prazer, que promete nos redimir de qualquer dor através da química e da tecnologia, o filme funciona como um libelo em favor da memória. Neste sentido, muito precisa foi a citação do crítico Ricardo Kalil, em sua resenha para o site No Mínimo. Kalil recorre a Buñuel, que afirmou: “É preciso começar a perder a memória para perceber que é justamente essa memória que faz toda a nossa vida. Uma vida sem memória não seria uma vida, assim como uma inteligência sem possibilidades de se exprimir não seria uma inteligência. Nossa memória é nossa coerência, nossa razão, nossa ação, nosso sentimento. Sem ela não somos nada”.



 Escrito por Marcelo às 11h26
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Prêmio Jaburu

O Marcelino Freire, confrade escritor e titular do Era O Dito, manda email avisando que acaba de reinstituir o Prêmio Jaburu de Prosa e Poesia (uma brincadeira com o "oficial" Jabuti). Algumas das regras:

  1. Não existem cláusulas.
  2. E nem lista de obras.
  3. Você é quem vota no livro que quiser, indicando o título e o autor no linque Comentar (lá no blog dele).
  4. Não seja ingênuo(a): não precisa se identificar com o seu verdadeiro nome. Invente um e saravá! No júri do Jabuti também é assim, quem saberá?
  5. E o melhor: você não precisa ter lido o livro para votar no Prêmio Jaburu. Oh, yeah! No Jabuti parece que também é assim, não é? Vale lembrar o meu respeito por todos os ganhadores do Jabuti (alguns merecem). E, previamente, pelos ganhadores do Jaburu (alguns merecem). E pelos perdedores dos dois Prêmios, uhhh!
  6. Só não vote nos meus livros, por favor. Não vale também votar nos do Ronaldo Bressane, pô! E em ninguém da Geração. Vão dizer que é proteção.
  7. Premiaremos os três piores livros. E atenção: mesmo que eles já tenham sido premiados no Jabuti. Ou que tenham sido publicados neste ou em outro ano. Ou livros ainda a serem publicados. Por exemplo: você pode votar no novo do Veloso, o Caetano. Ou no próximo do Saramago. Tudo vale a pena quando a grana é pequena. Eta danado!
  8. O livro que tirar em primeiro lugar no Jaburu ganhará, além de troféu, um real em dinheiro.
  9. O resultado sairá daqui a uma semana. Ou mais.
  10. Mais uma coisinha: Jaburu é uma ave, de grande porte, que vive em grandes rios e lagoas, preferindo os pantanais. Alimenta-se de peixes e de outros animais. Jaburu, idem, é o nome que se dá a uma pessoa desajeitada, mal-amanhada, feiosa e esquisita. Para quem e por quem está definitivamente reinstituído, neste dia 26 de julho de 2004, o Prêmio Jaburu de Prosa e Poesia.


 Escrito por Marcelo às 11h20
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Mortalidade

"(...) A imortalidade é irrelevante; deste lado da morte é a mortalidade que cintila: saber-me mortal dava densidade e cor às pedras do meu caminho; porque eu era mortal, a lua lembrava-me o amor e o mistério, e no céu inundado de estrelas estremecia o meu desejo de futuro. A única substância incompreensível é a mortalidade, que só o ser humano conhece".

Belo, belo, belo este trecho de um livro da portuguesa Inês Pedrosa. Conheci-o hoje, ao ler Pão físico, de Fernanda Benevides de Carvalho, que o escolheu como epígrafe de seu conto na coletânea 25 mulheres que estão fazendo a nova literatura brasileira.

P.S. O quadro é Frágil, de Armando Lara



 Escrito por Marcelo às 18h11
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Dona Ivone

Embora não traga novidades, vale conferir a entrevista que o jornalista Pedro Alexandre Seixas fez com Dona Ivone Lara, publicada na Folha On Line. A íntegra do texto está aqui. Abaixo, um trecho:

"(...) Em 1965, fui convidada para ser parceira de Silas de Oliveira num samba-enredo, "Os Cinco Bailes da História do Rio". Todo ano o Império Serrano apresentava novidades, e naquele ano a novidade ia ser uma mulher sendo parceira num samba-enredo. Jorge Goulart, com aquele vozeirão, saiu puxando o samba. E nós ganhamos."



 Escrito por Marcelo às 15h02
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Solidariedade a Delmiro

Está circulando pela internet um email do Moacyr Luz, fazendo uma convocação geral para o show em solidariedade ao mestre do violão Hélio Delmiro, que enfrenta sérios problemas e necessita de ajuda. O espetáculo acontecerá no dia 3 de agosto, às 21h, no Teatro João Caetano, e contará com a participação de um time de primeira. Além do próprio Moacyr, estão confirmados Guinga, Jards Macalé, Zé Renato, Wagner Tiso, Victor Biglione, Fátima Guedes, Marco Pereira, Yamandú Costa, Leila Pinheiro, Cristovão Bastos, João Lyra, Nana Caymmi, Quarteto Maogani, Trio Madeira Brasil, Aldir Blanc, Wilson das Neves e Paulão Sete Cordas. Ingressos a R$ 20,00.

P.S. A foto acima foi tirada pelo Paulo Eduardo Neves, da Agenda do Samba e do Choro



 Escrito por Marcelo às 12h41
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Jurujuba

 

Dois registros do passeio em Jurujuba, ontem. Na primeira foto, a praia. Na segunda, detalhe do sol se pondo em contraste com um dos canhões da Fortaleza de Santa Cruz.



 Escrito por Marcelo às 12h17
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Escritores

"Os homens escrevem ficções porque estão encarnados, porque são imperfeitos. Um Deus não escreve romances."

Ernesto Sabato, in O escritor e seus fantasmas


Lembrando de ontem, o Dia do Escritor, minha homenagem aos amigos Flavio Izhaki, Henrique Rodrigues, Adriana Lisboa, JP Cuenca, Sidney Silveira e Cecília Giannetti, entre tantos que se dedicam a tentar verter seus mundos em palavras...



 Escrito por Marcelo às 11h42
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Mestre Wilson

Letras inspiradíssimas de Paulo César Pinheiro, arranjos simples e eficientes... o novo disco do mestre Wilson das Neves está mesmo uma beleza. E o melhor de tudo é que hoje e amanhã o imperiano estará no Centro Cultural Carioca mostrando o novo trabalho. Não dá para deixar de ir!



 Escrito por Marcelo às 11h15
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"Pipi show"

No próximo sábado, o sebo Baratos da Ribeiro vai sediar a segunda edição do inusitado Pipi show literário organizado pela Mara Coradello. Durante o evento, diferentes escritores, encerrados em cabines, lêem textos de sua lavra. "Livros quase de graça, descontos, roquenrol ao vivo, batucada, leituras, cerveja, catuaba, pipoca, cuspidores de fogo, contorcionistas e até engolidores de espada. São diversas atrações ao longo da noite com discotecagem até a hora que a prefeitura permitir", garante a matéria publicada na Paralelos. A festa começa às 17h. A Baratos da Ribeiro fica na Rua Barata Ribeiro 354 - Copacabana.



 Escrito por Marcelo às 11h09
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Bettega

Como já havia adiantado aqui, a última edição do caderno Prosa & Verso trouxe resenhas minha e do amigo Sidney Silveira. Para quem não pôde conferir meu texto, aí vai ele:

Eterno movimento do círculo


Os lados do círculo, de Amilcar Bettega Barbosa.Companhia das Letras, 160 pgs. R$ 32

Marcelo Moutinho

Mestre do gênero, Cortázar comparava o conto à imagem do círculo, forma geométrica perfeita, em que um ponto não pode se separar da superfície total. Diferentemente do romance, cujas possibilidades de bifurcação e abertura de novos campos revelam-se ilimitadas, ao conto não bastaria uma trama interessante: seria preciso enredá-la dentro de tal esfera. A tese de Cortázar semeia as 12 breves narrativas que compõem "Os lados do círculo", terceiro livro do gaúcho Amilcar Bettega Barbosa.
Dotado de impressionante organicidade, o novo trabalho de Bettega funde-se acima de tudo nos vasos comunicantes que os contos estabelecem entre si, encenando uma mímesis possível do movimento do círculo, cuja linha percorre infinitamente o mesmo trajeto. A proposta fica evidente na própria estrutura da obra, erigida sobre ciclos que se encerram e recomeçam, como um moto-contínuo: os capítulos inicial e final trazem a palavra "puzzle" em seu título, e os dois ajuntamentos de contos que completam o livro — chamados pelo autor de "Um lado" e "Lado um" — sugerem, tal um espelho, reflexos invertidos de um elemento comum. Nesse jogo, as peças estão nas mãos do leitor: cada um à sua maneira deve procurar (e estabelecer) ligações entre os textos.
A evidente conexão com o legado de Cortázar, contudo, não se limita ao aspecto formal. Assumindo sem rodeios a influência, Bettega chega a transformá-lo em personagem de um dos contos. "A/c editor cultura segue resp. cf. solic. fax", estruturado numa série enumerada de respostas a um jornalista, alude ao suposto encontro entre o protagonista e o ficcionista portenho. "Quando conheci Cortázar eu já o imitava", admite o narrador, que oferece uma chave possível para se compreender na essência os afetos que unem as escrituras de Bettega e do argentino ao eleger, entre as razões pelas quais o "imita", a ânsia por romper "com os códigos puídos de uma tradição literária por vezes conservadora e até reacionária, aferrada quase sempre a um realismo ilusório, que muito mais ocultava do que revelava a verdade das coisas". Aqui, como em outras partes de "Os lados do círculo", autor e personagem se confundem, pois tal ânsia também move Bettega. E não é de hoje.
Se em "Deixe o quarto como está", livro anterior, ele apostava no insólito para asseverar seu questionamento sobre a obediência cega a uma idéia de "real" que comporta permanentemente uma "falta", e nunca nos redime, na nova seleta, com intuito similar, o fantástico dá lugar à multileitura, à constante reordenação. A gênese é apresentar as várias possibilidades narrativas que uma história comporta.
Algumas vezes, tal prática dá-se entre textos diferentes — caso de "A próxima linha" e "The end". Embora separados por algumas páginas e narrados de modo distinto — o primeiro com diálogos embaralhados, numa diagramação que obriga o leitor a "montá-los"; o segundo, num trajeto mais linear —, ambos vislumbram um único acontecimento, experimentado pelos mesmos personagens. Noutras, como no ótimo "Círculo vicioso", a cadeia fecha-se dentro da própria narrativa — início e fim deslocam-se e voltam a se encontrar como uma cobra que morde o próprio rabo.
Mas todos os expedientes citados denotariam apenas "mais do mesmo" se Bettega não conseguisse encontrar uma simbiose afinada entre as formas (o plural aqui é necessário) e o conteúdo. Remetendo à Porto Alegre soturna esboçada por alguns de seus pares, como João Gilberto Noll e Caio Fernando Abreu, os personagens do livro parecem dominados pela apatia melancólica de quem tateia "sentidos" que ficaram estagnados em algum lugar ou momento pretérito. Aparentes tentativas de escape passam pela reordenação, seja do passado idílico da juventude (nos dois "Puzzle"), seja dos relacionamentos amorosos ("Crônica de uma paixão") ou, mais prosaicamente, apenas dos móveis da casa ("Mano a mano"). Buscas por novas configurações, em geral. Inventários sobre perdas, quase sempre.
Não por acaso na maioria dos textos a noite desponta como cenário preferencial. Ambígua, a escuridão enseja "uma espécie de ausência" que apaga "as formas das coisas", e nela os personagens de Bettega vagam como "débeis faíscas", esgarçando suas ilusões. Assim o fazem os jovens que promovem misteriosas reuniões à beira do Guaíba, numa brincadeira aleatória na qual procuram "dialogar com o outro, com o vizinho, (...) com o ser invisível que passa o jornal por baixo da tua porta todas as manhãs", e tentam vislumbrar algum jeito de "se acharem vivos". Os mesmos amigos, já não tão jovens, retornarão nas últimas páginas personificados em recortes de papel que guardam "pedaços de vida", "gritos de socorro", ou "retratos falsificados, meras tentativas, inúteis, de dar sentido àquelas vidas", como um "puzzle a ser formado".
Na epígrafe do livro, Amaro Barros assinala que o "esforço inútil para ir a qualquer lugar" explica-se porque, "com seu centro fixo, um quadrado em movimento gera o círculo que o aprisiona". Movimento que encerra, portanto, um eterno retorno, sinalizado com nitidez por todo o livro e ainda mais nas palavras do repórter protagonista de "Círculo vicioso". Ao desenhar uma linha sobre a folha de papel, ele digressiona: "Eu poderia continuar traçando esta linha indefinidamente (...), acabaria a página mas eu seguiria riscando sempre em linha reta, acabaria o território da cidade, do país, mas eu seguiria, cruzaria os campos e as coxilhas, depois as montanhas, os mares, sempre à frente através da superfície terrestre. Parece um caminho infinito mas na verdade há um fim: quando eu terminar a volta e chegar de novo aqui, (...) nesta página, no mesmo ponto onde comecei. Só que aí, com o círculo fechado, já não há mais início nem fim, e eu fico perdido no meio do trajeto, preso, não no meio do círculo mas no próprio círculo, como um elemento dele". Eis o drama de Bettega. E, por que não?, também o nosso.



 Escrito por Marcelo às 11h08
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Versos budistas

 

Hoje, lembrei dos belos versos budistas do Renato Russo:

"Toda dor vem do desejo de não sentirmos dor"



 Escrito por Marcelo às 17h56
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Circo

Promete bastante o espetáculo Faz parte do meu show, que vai rolar amanhã no renovado Circo Voador. Será uma apresentação em homenagem ao saudoso Cazuza, com a participação de Lobão, Guto Goffi, George Israel, Maurício Barros, Nilo Romero e Arnaldo Brandão, além de Daniel de Oliveira, ator que interpreta o músico no filme de Sandra Werneck. No espaço batizado de Plataforma Voadora, haverá apresentação teatral/poética/musical de textos de Cazuza com o grupo formado por Demétrius Gomes (guitarra), Maria Raquel Hernandez (interpretação) e Rodrigo Pacato Machado (percussão). Ingressos a R$ 24.

Agora fiquei no dilema: Circo ou Brazooka?

Atualizando: vou ao Circo mesmo. Monica e Anne já confirmaram. Alguém mais no barco? Concentração no Capela às 21h...



 Escrito por Marcelo às 13h09
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O "pressentimento" da Áurea

Ontem, no Carioca da Gema, fui apresentado pelo Pepê à simpaticíssima Áurea Martins. Em certo momento do show, ela resolveu homenagear Elton Medeiros, que aniversariava. Foi de emocionar pedra a interpretação de Pressentimento, pérola de melodia sinuosa e bela letra que Elton criou ao lado de Hermínio Bello de Carvalho.

"Pressentimento"

Elton Medeiros/Hermínio Bello de Carvalho

"Ai, ardido peito
Quem irá entender o teu segredo
Quem irá pousar em teu destino
E depois morrer do teu amor

Ai, mas quem virá?
Me pergunto a toda hora
E a resposta é o silêncio
Que atravessa a madrugada

Vem, meu novo amor
Vou deixar a casa aberta
Ja escuto os teus passos
Procurando o meu abrigo

Vem, que o sol raiou
Os jardins estão florindo
Tudo faz pressentimento
Este é o tempo ansiado
De se ter felicidade"



 Escrito por Marcelo às 12h02
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Prosa & Verso

A se confirmar a pauta programada, amanhã estarei no caderno Prosa & Verso (O Globo) em ótima companhia. O amigo Sidney assina a resenha de capa sobre o livro Contos amazônicos, de Inglês de Souza. Os bem escritos textos do Sid são sempre um prazer para quem os lê e uma razão para se refletir. Na parte interna, estará uma resenha minha, analisando o ótimo Os lados do círculo, de Amilcar Bettega Barbosa.



 Escrito por Marcelo às 11h39
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Só pode ser ironia

Dava uma limpeza na minha pasta hoje e o que encontrei? Um pãozinho de Santo Antônio acondicionado em plástico, que ganhei no dia 9 de junho, quando fui visitar a Igreja em festa. A foto acima, tirei no dia da visita...



 Escrito por Marcelo às 20h04
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Superbrazooka

Sábado, no recém-aberto Teatro Odisséia, rolará mais uma edição da Superbrazooka. Os trabalhos começam às 23h e, além do Janot nas carrapetas, haverá show do grupo Empolga à 9. O Teatro Odisséia fica na Avenida Mem de Sá, 66 (após os Arcos da Lapa, ao lado do Circo Voador). Ingressos a R$ 16,00 e R$ 12,00 (com filipeta ou imprimindo o post que o Janot colocou na página da Brazooka). Estarei lá!



 Escrito por Marcelo às 19h40
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Mais um link

Hoje o Pentimento ganha mais um link entre seus indicados. É o blog Meu outro eu, da Luiza Porto. Música, cinema e cultura em geral, comentados com muito charme - e sempre guardados por dois intensos olhos azuis...



 Escrito por Marcelo às 18h56
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Reminiscências

Um dos belos momentos do show da Mônica Salmaso no Café Paraty, durante a Flip. Fui transportado no tempo para uma tarde de chuva...

"Senhorinha"

Guinga e Paulo César Pinheiro

"Senhorinha
Moça de fazenda antiga, prenda minha
Gosta de passear de chapéu, sombrinha
Como quem fugiu de uma modinha

Sinhazinha
No balanço da cadeira de palhinha
Gosta de trançar seu retrós de linha
Como quem parece que adivinha (amor)

Será que ela quer casar
Será que eu vou casar com ela
Será que vai ser numa capela
De casa de andorinha

Princesinha
Moça dos contos de amor da carochinha
Gosta de brincar de fada-madrinha
Como quem quer ser minha rainha

Sinhá mocinha
Com seu brinco e seu colar de água-marinha
Gosta de me olhar da casa vizinha
Como quem me quer na camarinha (amor)

Será que eu vou subir no altar
Será que irei nos braços dela
Será que vai ser essa donzela
A musa desse trovador

Ó prenda minha
Ó meu amor
Se torne a minha senhorinha"



 Escrito por Marcelo às 16h07
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Sobre rios e barcos

Por esses dias, o Felipe K., em seu La Vie En Blues, comentou a respeito do excepcional Primeiras estórias, de Guimarães Rosa. O livro traz um dos meus textos preferidos: A terceira margem do rio. Ontem mesmo fui dar uma olhada no conto que fala sobre o pai que abandona a casa, passando a viver numa canoa sobre o rio. Às vezes, a retirada encerra também uma fuga de si mesmo. Selecionei um trecho:

"(...) Por pavor, arrepiados os cabelos, corri, fugi, me tirei de lá, num procedimento desatinado. Porquanto que ele me pareceu vir: da parte de além. E estou pedindo, pedindo, pedindo um perdão. Sofri o grave frio dos medos, adoeci. Sei que ninguém soube mais dele. Sou homem, depois desse falimento? Sou o que não foi, o que vai ficar calado. Sei que agora é tarde, e temo abreviar com a vida, nos rasos do mundo. Mas, então, ao menos, que, no artigo da morte, peguem em mim, e me depositem também nunca canoinha de nada, que não pára, de longas beiras: e, eu, rio abaixo, rio a fora, rio a dentro o rio"



 Escrito por Marcelo às 13h19
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Piada?

"Dimba terá tratamento diferenciado, como o Romário no Fluminense e o Petkovic no Vasco".

Paulo Dantas, vice-presidente de futebol do Flamengo, em comparação "inspirada".



 Escrito por Marcelo às 11h59
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Show do Toni

Hoje acontece uma das últimas apresentações do show Déjà Vu, do parceiro tricolor e gente muito boa Toni Platão, no Madame Vidal. Toni empresta seu vozeirão a algumas das melhores canções de Paralamas, Legião, U2, REM, entre outras. Vale a conferida.



 Escrito por Marcelo às 11h54
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Constatação

Definitivamente, a inteligência é mesmo uma forma de beleza.



 Escrito por Marcelo às 11h11
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"os poemas respiram nas prisões"

"Máquina de escrever"

Mathilda Kóvak / Luís Capucho

"Meu coração é uma máquina de escrever
as paixões passam
as canções ficam
os poemas respiram nas prisões
pra valer um verso, ouvir, escutar
meu coração falar
até se calar a pulsação
meu coração é uma máquina de escrever
no papel da solidão
meu coração é
da era de Guttemberg
meu coração se ergue
meu coração é
uma impressão
meu coração
já era
quando ainda não era
a palavra emoção
mas há palavras no meu coração
letras e sons,
brinquedos e diversões
que passem as paixões
que fiquem as canções
nos poemas, nos batimentos
das teclas da máquina de escrever
Ilusões
meu coração é uma máquina de escrever
basta você bater
pra entrar na minha história"



 Escrito por Marcelo às 10h57
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Poesia no caos

"Onde será que isso começa
A correnteza sem paragem
O viajar de uma viagem
A outra viagem que não cessa
Cheguei ao nome da cidade
Não a cidade mesma espessa
Rio que não é Rio: imagens
Essa cidade me atravessa"

No final da tarde de ontem, seguia para uma reunião na Lapa quando me deparei com um natural engarrafamento. Ali, de dentro do carro, pude flagrar esta cena. É um pequeno recorte poético no ambiente caótico da cidade, possibilitado pelas facilidades de uma máquina digital.



 Escrito por Marcelo às 10h18
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Para quem gosta de Astrologia

Uma ótima dica passada pela Mariana Newsland, aliás, é o site Astros, no qual você registra sua data e hora de nascimento e pode acessar gratuitamente comentários sobre seu mapa todos os dias.



 Escrito por Marcelo às 18h09
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Blog do Cravo Albim

A página do Dicionário Cravo Albim de Música Popular Brasileira disponibiliza agora um blog, com informações diárias sobre o que acontece na área. Acesse o blog aqui.



 Escrito por Marcelo às 17h58
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Show, revista e Estrela da Lapa

Como poderia imaginar que a vontade de postar viria tão rápido? Chegou junto com a fome, que andava em falta, e uma disposição redobrada. Ontem assisti ao divertido show de lançamento do disco Dois bicudos, dos amigos Pepê e Alfredão. O CCC estava totalmente lotado, cheio de celebridades – Francis Hime, Zélia Duncan, Geraldinho Carneiro, Paulo Cesar Pinheiro são apenas alguns exemplos – e de gente conhecida, todos prestigiando o espetáculo da dupla, que privilegiou o repertório do cd. Fica claro que houve muito garimpo na seleção das músicas, bastante adequadas ao canto a dois. Tenho que confessar que, para mim, algumas das canções inéditas não estão à altura de outras obras de seus autores, mas o balanço geral é extremamente positivo, principalmente graças ao desempenho gaiato do Pepê e do Alfredão, sempre afinados, e aos arranjos inspirados de Maurício Carrilho, Paulão Sete Cordas e Paulo Aragão, entre outros. Ainda no CCC, uma boa notícia: o projeto de relançar a revista Roda de Choro, que o designer Egeu Laus editava nos anos 80. O próprio Egeu, a Monica Ramalho (comigo na foto acima) e eu tentaremos levar o barco à frente e desde já contamos com a ajuda de amigos colaboradores.

Após o show, conferi a inauguração do Estrela da Lapa, que pretende ser uma espécie de Canecão do Centro da cidade. As perspectivas não me parecem promissoras: um tom excessivamente "luxuoso", à beira do cafona, é a marca do lugar, cuja abertura oficial se dará com um show de Fafá de Belém (???) no próximo dia 29. Valeu pelas companhias do Janjão, sempre figura, do Paulo, da Chris e do Marcos Fernando.



 Escrito por Marcelo às 17h22
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Paraty, por Mariana

 

A Paralelos traz uma edição especial com contos novos, textos com a impressão de alguns escritores sobre a II Flip e uma mostra de fotos absolutamente linda sobre o evento. A fotógrafa foi a discreta e simpaticíssima Mariana Newsland, que tive o prazer de conhecer pessoalmente lá. Quando a via clicando aqui e ali, não poderia imaginar que o resultado ficasse tão bacana. Confiram, porque as fotos de cima são só uma palinha...



 Escrito por Marcelo às 14h08
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Roberto Ribeiro

Minhas duas vozes masculinas preferidas no samba são as de João Nogueira e Roberto Ribeiro. Aprendi a gostar de ambos com meu pai, que colocava as fitas k7 no som do carro enquanto levava a mim e a meus irmãos para a escola. A loja do velho ficava pertinho da quadra do (hoje também meu) Império Serrano, e era no boteco ao lado que ele de vez em quando tomava "uma" com o Roberto Ribeiro. Gostava de um chope que costumava chamar, sei lá por qual razão, de "Jacerapaguá". Era metade claro, metade escuro, na pressão.

Já com o pai doente, pensei para encontrar uma coletânea do Roberto Ribeiro em cd (esta aí da foto) e presenteá-lo. Assim que ganhou, ele pôs o disco para tocar, e seu rosto ganhou contornos de inequívoca felicidade. Meu velho morreu um pouco mais feliz do que estivera durante quase toda a vida. Conseguira reconciliação com tantas pessoas que brigara, e recebia o carinho da família, talvez como nunca antes. Quase sempre a proximidade do fim ajuda a desmontar as barreiras construídas pela mágoa, ou pelas idiossincrasias tão caras a quem se ama. Era em momentos como este, da entrega do disco, que eu refletia sobre o tanto que ele sofrera, em silêncio. E era nesses momentos também que flagrava um guizo de alegria soar por detrás daqueles óculos baratos e daqueles olhos já tão miúdos. E isso era bom para mim.

Hoje, se vivo, Roberto Ribeiro faria aniversário. Em homenagem a ele e a meu pai, que me ensinou esta, além de tantas outras lições (ainda que por contraste), uma canção que o sambista gravou:

"Liberdade"

Ivone Lara / Délcio Carvalho

"Liberdade, desfrutei

Conheci quando na minha mocidade

A ternura de um amor sem falsidade

Procurando sempre a felicidade, eu cantava, eu sorria

Tudo que sonhei

Mas depois que me escondeu a realidade

Foi o fim da ilusão


E agora, dessa recordação

Um gesto de perdão, que eu não quis

Tudo o que é feliz não tem direito à eternidade

Porque sempre chega a vez

De entrar em cena a saudade

Das ondas dessa desilusão

Existe uma lição que eu não fiz

O remorso traz aquela triste melodia

Que me faz infeliz"



 Escrito por Marcelo às 12h50
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O Orkut é pop!

Hoje constatei definitivamente que o Orkut é a coisa mais "pop" da internet. Achei lá simplesmente a Lilian, minha ex-namorada, que tinha alergia a qualquer referência à grande rede virtual. Estou pasmo!

 Escrito por Marcelo às 11h10
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Alfredão e Pepê n' O Globo

Depois do Tárik de Souza, no JB de ontem, é o João Pimentel, o nosso Janjão, que joga seus confetes sobre o disco da dupla Alfredão e Pepê. A matéria publicada no Segundo Caderno (O Globo) de hoje confere cinco cubinhos (avaliação máxima) ao disco dos dois, que, aliás, é resenhado em companhia ilustre: mestre Wilson das Neves e Dona Ivone Lara, dois imperianos queridos. Uma foto simpática dos amigos enfeita a página. Hoje estarei no CCC conferindo o show de lançamento. Um trecho do texto:

"(...) Dos lançamentos o que mais chama atenção é o “Dois bicudos”, dupla formada pelos jovens Pedro Paulo Malta e Alfredo Del-Penho. O disco que integra a primeira leva de discos do Quelé — selo resultante de uma parceria entre a Acari Records e a Biscoito Fino — é fruto de um estudo profundo dos cantores sobre a tradição de duplas como Mário Reis e Francisco Alves; Cyro Monteiro e Dilermando Pinheiro; Wilson Batista e Erasmo Silva. Mais do que pesquisar um repertório, Malta e Del-Penho, este um violonista de primeira, desenvolvem a técnica, nada fácil, por sinal, de contracanto e segunda voz. Apesar de um certo saudosismo no conceito, o trabalho é moderno e o repertório, irrepreensível. Os jovens cantores provam que a Lapa não vive apenas do talento da badalada Tereza Cristina. São consistentes ao se alternarem nas vozes de clássicos como “Tudo que você diz”, de Noel Rosa, e “Foi uma pedra que rolou”, de Pedro Caetano, e de novidades como a deliciosa “Baile no bola”, de Maurício Carrilho e Paulo César Pinheiro. Destaque também para a participação do Regional Carioca, formado por jovens talentosos como o clarinetista Ivan Mendes e a cavaquinista Ana Rabello Pinheiro. (...)" 



 Escrito por Marcelo às 09h59
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Sol

Só para abrir um sol inesperado no meio desse dia frio e chuvoso... :)  Meu Deus, como essa menina é linda! 



 Escrito por Marcelo às 18h33
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Bar Balcão

Aproveitando o mote do lançamento de um livro comemorativo sobre o estabelecimento, o Paulo Roberto Pires fala em sua mais recente coluna no site No Mínimo sobre o Bar Balcão, que fica na agitada Vila Madalena, em São Paulo. Recentemente, tive a alegria de conhecer o lugar, que tem ótimos chopes claro e escuro e um pastel de bobó de camarão simplesmente espetacular. O Balcão é um bom exemplo de que não é só no Rio que há bons bares. E uma boa dica para o Guiu, a Gi, a pops e o Guy Correia (os dois andam sumidos...), e também para a Manoela, que está na cidade a trabalho... Um trecho da coluna do Paulo:

"(...) O Bar Balcão é auto-explicativo: trata-se de um enorme e sinuoso balcão cercado de bar por todos os lados. Nas contas de Roberto Comodo, um dos colaboradores do livro, são 40 metros de balcão capazes de acolher 60 pessoas, que ficam ali se olhando como se estivessem numa imensa mesa coletiva. Este um dos principais encantos do bar, a sensação de estar cercado de amigos que você não conhece – ou ainda vai conhecer.
Pelos autores-convidados tem-se uma idéia das tribos: escritores, cineastas, arquitetos, jornalistas (muitos), editores, livreiros, artistas plásticos. Ou seja, o elenco que faz tradicionalmente a boemia militante em qualquer cidade, que faz da noite e suas relações inusitadas parte integrante do trabalho – precisamente porque tem o trabalho como parte fundamental da vida. Quem acha chato tamanha concentração de intelecas também pode se divertir, pois por sua geografia o Balcão permite assistir, de camarote, a estas e outras comédias da vida privada (...)"



 Escrito por Marcelo às 14h26
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Da série 300 toques - Número 7

Leme

A chuva fina reveza-se com o limpador em movimentos lentos sobre o pára-brisa. Na praia do Leme, a palidez da areia, o mar acizentado, o céu oblíquo. Ninguém. Entre bancos e mastros de vôlei, o laranja das lixeiras destoa. Caixotes para o que já não serve. Vazios. O contraste é sua imensidão.



 Escrito por Marcelo às 11h07
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A amiga Mônica Ramalho anuncia em seu blog que muito em breve acontecerá o lançamento do livro Cartola, escrito pela própria. A tarde de autógrafos, cuja data será avisada aqui logo que a Mônica souber, vai rolar na Livraria Folha Seca, que fica na Rua do Ouvidor.



 Escrito por Marcelo às 10h43
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Comentários

Ontem conversava com minha irmã e fiquei sabendo que uma amiga lá do trabalho dela costuma visitar o Pentimento, sem comentar. Pelo número de pessoas que entra aqui diariamente, posso perceber que não se trata de um caso isolado. Seja por timidez ou outro motivo, preferem não se manifestar, limitando-se a ler o que foi postado. Bom, então este é um recado para os "silenciosos": uma das coisas mais bacanas em se manter um blog é justamente sentir o feedback que os posts foram capazes de causar. Portanto, Ana Luiza (amiga da minha irmã) e cia: estejam à vontade... 

 Escrito por Marcelo às 10h21
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Dois bicudos

A boa de amanhã é prestigiar os amigos Pepê e Alfredão no espetáculo de lançamento do disco Dois bicudos não se beijam. O evento acontece no Centro Cultural Carioca, a melhor casa de shows do Centro, e o cd traz canções de Geraldo Pereira, Paulo Cesar Pinheiro, Maurício Carrilho e Pedro Amorim, mesclando músicas já gravadas com inéditas. Quem os acompanhará será o sexteto de Maurício Carrilho, composto pelo próprio (violão de 7 Cordas), Luciana Rabello (Cavaquinho), Pedro Amorim (Bandolim e Percussão), Paulino Dias (Percussão), Franklin Da Flauta (Flauta em Dó e em Sol), Pedro Paes (clarinete), Thiago Lima (percussão) e Rui Alvin (Clarone e Clarinete). A entrada custa apenas R$ 10,00, menos do que um cineminha...



 Escrito por Marcelo às 10h16
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Prédio Verde

Ontem me surpreendi ao encontrar no Orkut a comunidade Prédio Verde. A idéia é reunir gente que costumava (ou costuma) ir à praia em frente ao Posto 2 da Barra, um trechinho aprazível do Jardim Oceânico onde morei por mais de 20 anos. O bairro concentrava pouca gente... Jogávamos bola em rua de terra e terreno baldio, pescávamos pampos e siris no fim de tarde (cozinhávamos no trailer de um amigo. Aliás, alguém lembra dos trailers? Eram, digamos, uma espécie mais primitiva dos "quiosques"), comíamos Big Bog depois das peladas e, já mais crescidinhos, tomávamos cerveja no Maracujina (que, por sinal também já tem sociedade no Orkut). Foi lá ainda que fizemos um movimento ecológico, que consistia na coleta do lixo da praia pelos própros moradores. Claro, ganhamos logo o apelido de "lixeiros". Foi uma imensa alegria rever tantos rostos conhecidos, ainda que via internet... Na verdade, eu poderia ser sócio-emérito da comunidade, porque não só ia à praia na área, como residi quase todo esse tempo no próprio Prédio Verde, que nos anos 70 servia como referência a Barra em razão de sua altura. Hoje, se comparado aos arranha-céus dos condomínios fechados, o edifício é fichinha... E aquele charme provinciano, infelizmente o bairro já perdeu. 



 Escrito por Marcelo às 18h53
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"Manda teus sinais"

"Contos da lua vaga"

Beto Guedes / Marcio Borges

"Esperança viva
Que o sangue amansa
Vem lá do espaço aberto
E faz do nosso braço
Um abrigo
Que possa guardar
A vitória do sentimento claro
Vencendo todo medo
Mãos dadas pela rua
Num destino de luz e amor
Vem agora
Quase não há mais tempo
Vem com teu passo firme
E rosto de criança
A maldade já vimos demais
Olha
Sempre poderemos viver em paz
Em tempo
Tanto a fazer pelo nosso bem
Iremos passar
Mas não podemos nunca esquecer
De mais alguém
Que vem
Simples inocentes a nos julgar
Perdidos
As iluminadas crianças
Herdeiras do chão
Solo plantado
Não as ruínas de um caos
Diamantes e cristais
Não valem tal poder
Contos de luar
Ou a história dos homens
Lua vaga vem brincar
E manda teus sinais
Que será de nós
Se estivermos cansados
Da verdade
Do amor
Esperança viva
Que a mão alcança
Vem com teu passo firme
E rosto de criança
A maldade já vimos demais"



 Escrito por Marcelo às 17h01
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Da série 300 toques - Número 6

 

Solidão

Do travesseiro, brotaram seres estranhos: bichos da floresta, anjos alados, pessoas mortas. Ainda assim dormira bem. Ao acordar, notou a TV ligada, sem som. Sobre a mesa da cozinha, pão fresco, bolo de cenoura, mel, geléia e pó de café. Não tinha fome.

Às vezes, a solidão é a cafeteira vazia.



 Escrito por Marcelo às 14h36
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Da série 300 toques - Número 5

Silêncio

No salão cheio de gente feliz, entrou lentamente. Havia algo de pesaroso escapando na alvidez dos dentes, mas os lábios insistiam em sorrir. Saudou o amigo, beijou a amiga, dançou sozinho. Do corredor, ela o observava. Nada falaria. Nem o boa noite formal. Assim a madrugada morreu. Ele, ainda não.



 Escrito por Marcelo às 14h18
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Simplesmente Elizeth

Já ia comendo mosca, mas acabei de saber: hoje, se viva, Elizeth Cardoso faria aniversário. Não esqueço o dia em que a caixa da Biscoito Fino com os discos dela chegou lá em casa. Foi uma tarde com a alma em harmonia polvorosa (é, paradoxo mesmo!). Sozinho, deitado no sofá, deixando aquela voz etérea tomar conta da sala e de mim, inexplicavelmente encontrando escaninhos da sensibilidade antes não conhecidos. Além da clássica gravação do show com Jacob do Bandolim, gosto especialmente do disco da cantora com o Raphael Rabello. Principalmente a seqüência de Todo sentimento (Chico e Cristóvão Bastos) e Janelas abertas (Tom e Vininha). Não é a primeira vez que posto esta música aqui. Talvez seja a segunda ou terceira. Mas nunca é demais. Porque ao falar em Elizeth, é esta a canção (que está também no célebre Canção do amor demais) que logo me vem à mente.

"Janelas abertas"

Vinicius de Moraes / Tom Jobim

"Sim
Eu poderia fugir, meu amor
Eu poderia partir
Sem dizer pra onde vou
Nem se devo voltar

Sim
Eu poderia morrer de dor
Eu poderia morrer
E me serenizar

Ah
Eu poderia ficar sempre assim
Como uma casa sombria
Uma casa vazia
Sem luz nem calor

Mas
Quero as janelas abrir
Para que o sol possa vir iluminar nosso amor" 



 Escrito por Marcelo às 12h56
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No som

"A via láctea"

Lô Borges / Ronaldo Bastos

"Vendaval, carrossel
Segue a vida a rolar
Pé na estrada, pó de estrelas
Coração vulgar
Que navega no céu
E navega no ar
Grão de areia vagar

Caravela, pão e mel
Segue  o  circo a rolar
Picadeiros, primaveras
Coração vulgar

Que navega no céu
E navega no ar
Grão de areia viver
Na espuma do mar

E o grão de tão pequeno
Ser  tão grande
O que a gente é
Ter esse destino
De pessoa  que sonhou...

Que navega no céu
Que navega no ar
Grão de areia bailar
Lá no fundo do azul

E anda que nem bola
Como a vida
Quando quer brotar
Rola como anda
Que nem fonte de calor...

Barricadas, cordilheiras
Coração vulgar

Que navega no céu
E navega no ar
Grão de areia vagar
Na espuma do mar

Aventuras, cicatrizes
Segue  o mundo a rolar
Diamantes do universo
Coração vulgar

Que navega no céu
E navega no ar
Grão de areia vagar
Na espuma do mar"



 Escrito por Marcelo às 12h15
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Fase

Na mão e no resto, a lua minguante azulada...



 Escrito por Marcelo às 11h58
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No Dagema

Na esquisita noite de ontem, reencontrei velhos amigos no Dagema (como diria o Pepê), que estava cheio, mas não lotado. No ponto, poderia-se afirmar. O destaque absoluto foi a interpretação deslumbrante da Nilze ao cantar Nunca, canção herdada do repertório do saudoso Lembranças Cariocas. Quantas coisas não passaram na minha cabeça enquanto ela cantava...

"Nunca"

Lupiscínio Rodrigues

"Nunca
Nem que o mundo caia sobre mim
Nem se Deus mandar nem mesmo assim
As pazes contigo eu farei
Nunca
Quando a gente perde a ilusão
Deve sepultar o coração
Como eu sepultei
Saudade
Diga à esse moço por favor
Como foi sincero o meu amor
O quanto eu adorei tempos atrás
Saudade
Não esqueça também de dizer
Que é você quem me faz adormecer
Pra que eu viva em paz"



 Escrito por Marcelo às 11h33
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Da série 300 toques - Número 4

O peso

Levantou, abotoou a calça, deu dois passos até a porta - e se foi. Queria uma liberdade à qual não sabia dar nome; um vôo rasante, um salto impossível. Hoje flutua - lívido, leve como pluma -, sem as enormes asas de ferro. E contempla o chão, com saudade.



 Escrito por Marcelo às 18h56
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Blog da Pérola

Um dos blogs mais bacanas que descobri nos últimos meses: o Lixo e Purpurina. Fã de Caio Fernando Abreu e outros autores cujo cerne da obra está na paixão (ah, nós, os passionais, quanto júbilo e quanto sofrimento...), Pérola, a dona do espaço, posta pequenos textos cheios de lirismo . O blog dela entra nos links hoje!

 Escrito por Marcelo às 18h40
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A, B ou C

Hoje tem:

A) Teresa Cristina no CCC

B) Nilze Carvalho no Carioca

C) Toni Platão no Madame Vidal

A, B ou C: até a noite um deles eu escolho.



 Escrito por Marcelo às 17h54
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Cais

"Mas, Ronaldo, o que enfim é o 'cais'?", perguntava sempre um amigo meu, quando queria implicar com o Ronaldo Batos, autor deste primor de letra. Aqui (imaginando, imaginando... ou melhor, 'inventando'...), o resgistro é de Nana Caymmi.

"Cais"

Milton Nascimento / Ronaldo Bastos

"Para quem quer se soltar, invento o cais
Invento mais que a solidão me dá
Invento lua nova a clarear
Invento o amor e sei a dor de me lançar
Eu queria ser feliz
Invento o mar
Invento em mim o sonhador
Para quem quer me seguir eu quero mais
Tenho o caminho do que sempre quis
E um saveiro pronto pra partir
Invento o cais
E sei a vez de me lançar"



 Escrito por Marcelo às 11h42
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Da série 300 toques - Número 3

Fantasmas

Para alguém de muito tempo atrás

Desde ontem vê-se acuado por um fantasma bom. Lamenta. Não a companhia, mas a falta do corpo pulsante. O tempo legara-lhe a dor e também sua cura (a dor que ora sente não é de agora). Recebe-o com vinhos, rosas, e tenta levemente tocá-lo. Inútil. Seria como levar as lágrimas de volta aos olhos.



 Escrito por Marcelo às 10h37
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Perguntas

"X"

Hilda Hilst

"As laranjas têm alma?
Tu me perguntas calmo
A testa no fruto.
Examinas. Desenrolas
A casca, o amarelo
Escorre palpitante
O sumo sobre a mesa.
Proeza da tua fome.

Tu ainda me amas?
Eu te pergunto lívida
Na manhã de tintas
Amarelo e ocre
Pulsando no meu sangue.
E te levantas, me olhas
E te fazes cansado
De perguntas antigas."


P.S. O quadro é Laranjas, de Carlos Scliar



 Escrito por Marcelo às 20h05
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Suruba "legal"

Sensacional a notícia publicada na edição de hoje de O Globo:

"Orgia tem regra: ninguém é de ninguém"

Carolina Brígido

"A sentença é insólita e inédita. O Tribunal de Justiça de Goiás decidiu que o homem que, por vontade própria, participar de uma sessão de sexo grupal e, em decorrência disso, for alvo de sexo passivo, não pode declarar-se vítima de crime de atentado violento ao pudor. O acórdão do TJ de Goiás, publicado no dia 6, é um puxão de orelhas no autor da ação que reclamava da conduta de um amigo.

Luziano Costa da Silva acusou o amigo José Roberto de Oliveira de ter praticado contra ele “ato libidinoso diverso da conjunção carnal”. Silva alegou que, como estava bêbado, não pôde se defender. Por meio do Ministério Público, recorreu à Justiça. Mas o tribunal concluiu que não há crime, já que a suposta vítima teria concordado em fazer sexo grupal.

O acórdão dos desembargadores é categórico: “A prática de sexo grupal é ato que agride a moral e os bons costumes minimamente civilizados. Se o indivíduo, de forma voluntária e espontânea, participa de orgia promovida por amigos seus, não pode ao final do contubérnio dizer-se vítima de atentado violento ao pudor. Quem procura satisfazer a volúpia sua ou de outrem, aderindo ao desregramento de um bacanal, submete-se conscientemente a desempenhar o papel de sujeito ativo ou passivo, tal é a inexistência de moralidade e recto neste tipo de confraternização”.

Para o Tribunal de Justiça do estado, quem participa de sexo grupal já pode imaginar o que está por vir e não tem o direito de se indignar depois.“(...) não pode dizer-se vítima de atentado violento ao pudor aquele que ao final da orgia viu-se alvo passivo de ato sexual”, concluíram os desembargadores.

Segundo o inquérito policial, no dia 11 de agosto de 2003, após ter embriagado Silva, Oliveira teria abusado sexualmente do amigo. Em seguida, teria levado o amigo e sua própria mulher, Ednair Alves de Assis, a uma construção no Parque Las Vegas, em Bela Vista de Goiás. Lá, teria obrigado a mulher e o amigo a tirar suas roupas e a manter relações sexuais, alegando que queria “fazer uma suruba”. Em seguida, Oliveira teria mais uma vez se aproveitado da embriaguez do amigo e praticado sexo anal com ele.

Oliveira foi absolvido por unanimidade pela 1 Câmara Criminal do Tribunal de Justiça de Goiás, que manteve a decisão da primeira instância. Segundo o relator do caso, desembargador Paulo Teles, as provas não foram suficientes para justificar uma condenação, pois limitaram-se a depoimentos de Silva e de sua mãe. Em seu depoimento, Ednair confirmou que Silva teria participado da orgia por livre e espontânea vontade.

Para o magistrado, todos do grupo estavam de acordo com a prática, que definiu como desavergonhada. “A literatura profana que trata do assunto dá destaque especial ao despudor e desavergonhamento, porque durante a orgia consentida e protagonizada não se faz distinção de sexo, podendo cada partícipe ser sujeito ativo ou passivo durante o desempenho sexual entre parceiros e parceiras. Tudo de forma consentida e efusivamente festejada”, esclareceu o relator."



 Escrito por Marcelo às 17h17
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Carta ao amigo Fred

Dor e delícia, sorte e azar, paz e guerra, doce e azedo... Sem filosofia barata, a cada dia creio mais que a vida é um jogo de compensações e que nada, nada mesmo, é por acaso. As provações, os enormes entraves, assim como as alegrias esfuziantes, as provas de amor, tudo isso faz parte de um mosaico tão maravilhoso quanto ininteligível. O Sidney, que ainda não se convenceu de que acredito em Deus, sempre cita uma frase de São Francisco de Salles, curiosamente um pensador da linha mais conservadora da Igreja, que assevera: "Não é o ato, e sim hábito, que nos configura". Ou seja, não devemos ser qualificados pelo que eventualmente fazemos, mas – e tão-só - se a repetição é contínua. Quem furta uma vez não é necessariamente ladrão. Só quem já sofreu acusações do tipo talvez seja capaz de compreender o tormento da confusão entre o habitual e o pontual (desculpem a rima...), de ser tomado por algo que efetivamente não se é. As lentes do pré-conceito (o hífen aqui é para ressaltar a palavra em sua raiz mais profunda) é capaz de enfumaçar a vista, quando não de cegar.

Estou a cada dia menos relativista. Estou a cada dia acreditando mais em que o Bem e o Mal convivem dentro da gente e que o desafio cotidiano - e árduo - é tentar sorver o que de melhor guardamos. Seriam ingratidão respostas não esperadas aos nossos atos? Talvez. Pouco importa. Importa mais se os fizemos amorosamente, se fomos "plenos" ao fazê-los, sem aguardar compensações (embora, humanos que somos, sempre estejamos sujeitos ao risco de recaírmos no equívoco de esperá-las em demasiado).

Nos últimos tempos, amigo, descobri em mim mesmo áreas e sentimentos nunca antes explorados. Meu melhor e meu pior. Mas efetivamente aprendi. Hoje, sou melhor do que ontem, e amanhã, tenho fé, serei melhor do que sou hoje, graças a Deus. Tente não julgar em demasiado, nem acusar ninguém. Cada um sabe o tamanho da sua dor. Cada um carrega seu fardo como pode. O importante, creio, é darmos o nosso melhor, sem exigir do mundo contrapartidas que na maioria dos casos acharíamos pequeninas diante do que merecemos. Ontem, tive uma ótima notícia. Ontem, tive uma péssima notícia. Ontem, comecei a ser recompensado por um projeto que acalentava há meses. Ontem, ouvi coisas que não gostaria. É isso, amigo, nesse vai-e-vem de tempestades e bonanzas, a gente toca em frente, como diria o HR, tendo a generosidade de "mostrar o coração um para o outro". Saiba que estou aqui, e estarei enquanto tiver forças. E sei que você está aí, e estará, assim como o nosso irmão Rodrigo, que também enfrenta uma fase sombria. Enfim, como eu comentei num post não faz muito tempo, o fato é que a amizade também é uma forma de amor. Força, rapaz!

Com o abraço comovido do

Marcelo



 Escrito por Marcelo às 13h37
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A estréia do Peréio

Ontem, fui ao evento de estréia do programa Sem frescura, comandado pelo Paulo César Peréio e veiculado pelo Canal Brasil. A festinha aconteceu no bar Canto D'Alice (meio inadequado à ocasião, por demasiado "mauricinho"; para não se falar da trilha sonora...). Pela estréia, em que o ator entrevistou a ex-mulher Cissa Guimarães, já dá para perceber como será hilário o programa. Merecem registro as companhias agrabilíssimas do Fred, da Mônica, com a namorada e um amigo, do Cristiano e da Cecília Giannetti.



 Escrito por Marcelo às 11h45
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Para dois amigos (e para mim)

É a segunda vez que posto este conto aqui. Ele está em meu segundo livro e é um dos que mais gosto entre os que ecrevi até hoje. Hoje, entra aqui para dois amigos muito especiais que passam por situação parecida com a do narrador. E, por que não?, para mim também.

Flores de inverno

Marcelo Moutinho

"Na profundeza do inverno, finalmente aprendi que dentro de mim repousava um verão invencível". (Albert Camus)

e então você, ao me ver aqui, sentado sobre a poltrona, nesta sala onde apenas uma luminária faz contraponto à escuridão, repetindo que enfim descobri que embora não tenhamos consciência há uma queda por detrás de todo horizonte, vem e me fala que existem flores que só dão no inverno, e nestes dias que andam um pouco mais frios do que o habitual na indefinição de estações do Rio de Janeiro não é, de jeito algum, um sinal de que também estou invernando, sob a luz esguia da tarde que vem do leste, sob o vento que sopra do mar em direção à terra, um vento estranho ao litoral, fazendo a cidade renegar a sua vocação mais óbvia e nos deixando meio que sem saber o que fazer, se abre aquela garrafa de vinho que ganhou no aniversário e dorme há tanto tempo no armário, se espanta o mofo dos casacos de lã guardados no gavetão, se simplesmente resolve ficar em casa, debaixo do cobertor, sem coragem para enfrentar a brisa gélida que bate no rosto de quem se atreve a passear à beira-mar, com medo do risco de sem querer respingar uma gota que seja da água do mar no nosso rosto, ou nas nossas costas, sobra de uma onda revolta, desenhando espinha abaixo um caminho de geada, ou, ainda, penetrando corpo adentro, a evidenciar que somos como esponjas, absorvendo e eliminando sentimentos e situações e sujeiras, imundícies como aquela que enche os sacos dispostos pelo corredor quando começo a escutar a vizinha do 204 reclamando, "quem é o porco que deixou estes sacos aqui", "só tem animal neste prédio", "síndico de merda", e longe, muito longe de saber, ou de querer saber que os sacos azuis espalhados pelo hall significam tão pouco se ignoramos quem será enfim capaz de lacrar o saco de lixo do mundo; eu a debruçar minha atenção sobre dilemas como esse, sem nenhum traço mínimo de covardia, nenhum soluço trêmulo, nem mesmo uma expressão de culpa, atiçando como quem sacode carne na frente de um bicho faminto, tentando despertar cada lobo que se espreita na imensa matilha do meu corpo de homem ainda subindo os degraus da velhice, mas de alguma forma preso a uma tábua de valores e idéias e ruminações que, estabelecida em algum momento, não parece ter mudado, tornando-me um náufrago de saudades indizíveis, um saudoso eterno das agruras do impossível, um insistente pedinte de que o feio se transfigure em beleza, ainda que por um momento breve, para sustentar alguma leveza nesta sala que traz em si todo o peso do excesso, para tentar não submergir neste mundo-gesso com os braços e as pernas sem músculos capazes de agüentar, para tentar tramar planos infalíveis, impraticáveis, chamar com urgência à fala os acenos e as sombras que prometem de novo o que ocorreu, procurando antes efeitos do que causas concretas, e contudo a palavra se negando a pronunciar, e somente as mãos sugerindo o poder mágico de dizer o que no lábio ainda é segredo nesta minha boca cansada de falas, repleta de amarras costuradas pelo tempo com suas agulhas traiçoeiras (você não ouve mais o som rascante das cigarras que como trovoadas anunciam a chuva, embora sem impor autoridade, e os estrondos se revelam efêmeros como em geral os autoritarismos); pois saiba que no sótão do navio incerto da afeição quem invoca sentimentos vis nem por isso estará enterrado para sempre na cova rasa da vilania, mas, de todo modo, "todo dia é um dia roubado da morte", já dizia Clarice, e é melhor, pois, manter a janela entreaberta, a fim de que, pelo espaço dado, assustado, possa assistir a tudo como um menino que vê o sol se afogar no oceano, voyeur de meus pares, deste globo insandecido e imenso, nem que seja tentando encontrar em algum canto, sob um monte de papel, ou um saco de lixo qualquer, um jornal velho, um arbusto, uma colméia, escondidas, espremidas, esquecidas, as tais flores que dão no inverno, pois ainda não as vi, mas sei que existem.



 Escrito por Marcelo às 11h23
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Sobre os girassóis

Pode um girassol perder seu amarelo repentinamente? Ontem, infelizmente, vi que sim. 



 Escrito por Marcelo às 11h15
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Como fazer um poema dadaísta - Uma lição

Escolha algum post para comentar. Após deixar seu registro por escrito, surgirá uma pequena janela, contendo uma palavra. Anote. Em seguida, comente em outro post, e siga repetindo a operação até que queira encerrar o poema. Se você me mandar, eu juro que posto!



 Escrito por Marcelo às 20h26
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Escrever...

"Se não gostar de ler, como vai gostar de escrever? Ou escreva então para destruir o texto, mas alimente-se. Fartamente. Depois vomite. Pra mim, e isso pode ser muito pessoal, escrever é enfiar um dedo na garganta. Depois, claro, você peneira essa gosma, amolda-a, transforma. Pode sair até uma flor. Mas o momento decisivo é o dedo na garganta"

Caio Fernando Abreu, in 'Cartas'


P.S. Tirei lá do blog Lixo e Purpurina, da Pérola...



 Escrito por Marcelo às 19h54
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Layout

Pessoal, estou procurando alguém para fazer um layout novo e bacana para o Pentimento. Sugestões?

 Escrito por Marcelo às 19h48
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Uma pergunta

Você já descobriu para que serve o Orkut? Acho que estou descobrindo...



 Escrito por Marcelo às 18h36
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Chuva

A chuva parou; o sol, tímido, esgueira-se pelo Centro da cidade. Leio em O Globo que o Durval Ferreira vai lançar disco novo e sou na mesma hora remetido a uma noite em que, diferentemente de hoje, desabava do céu um tanto d' água. Foi quando ouvi pela primeira vez Chuva, parceria do Durval Ferreira com Pedro Camargo. No piano, o irmão (e futuro parceiro) Rodrigo Zaidan. Tudo o que queria agora era escutar novamente a canção. Como se trata de um tema instrumental, nem mesmo colocá-lo aqui poderei (até procurei a partitura, mas...). Fica, então, apenas a lembrança boa - e a dica do novo cd do violonista, arranjador e produtor, que reunirá feras como Osmar Milito, Leny Andrade, Robertinho Silva e Marcio Montarroyos.



 Escrito por Marcelo às 14h11
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Existencialismo nordestino

Na semana passada, sentado no café do sebo Al Fahabi, conversava com o amigo Sidney sobre os descaminhos da vida. Enquanto tomávamos um expresso, o Carlos, dono do lugar, colocou um vinil para tocar. Foi um ótimo reencontro com Alucinação, discaço do Belchior, lançado originalmente em 1976, e que traz pérolas como A palo seco, Fotografia 3x4, Velha roupa colorida e Como nossos pais. Desde então, tenho ouvido meus cds do cantor/compositor, principalmente Coração selvagem (que já faz parte do álbum seguinte, homônimo, de 1977). Curiosamente, por esses dias, fazendo minha ronda pelos blogs, deparei-me com outra menção ao artista cearense, no Coisas perdidas atrás da estante, da Mary. Justificado o post, este coração selvagem, que é dele, mas também meu:

"Coração Selvagem"

Belchior

"Meu bem,
guarde uma frase pra mim,
dentro da sua canção:
esconda um beijo pra mim,
sob as dobras do blusão.
Eu quero um gole de cerveja
no seu copo, no seu colo e nesse bar.

Meu bem,
o meu lugar é onde você quer que ele seja.
Não quero o que a cabeça pensa:
eu quero o que a alma deseja.
Arco-Íris, anjo rebelde, eu quero o corpo:
tenho pressa de viver.
Mas, quando você me amar,
me abrace e me beije, bem devagar,
que é para eu ter tempo...
tempo de me apaixonar;
tempo para ouvir o rádio no carro;
tempo para a turma do outro bairro
ver e saber que eu te amo.

Meu bem,
o mundo inteiro está naquela estrada,
ali em frente.
Tome um refrigerante,
coma um cachorro-quente.
Sim, já é outra viagem...
E o meu coração selvagem
tem essa pressa de viver.

Meu bem,
mas quando a vida nos violentar,
pediremos ao bom Deus que nos ajude;
falaremos para a vida:
- Vida, pisa devagar,
meu coração, cuidado, é frágil!
Meu coração é como vidro,
como um beijo de novela.

Meu bem,
talvez você possa compreeder a minha solidão,
o meu som, e a minha fúria
e esta pressa de viver;
E esse jeito de deixar sempre de lado a certeza
e arriscar tudo de novo, com paixão:
andar caminho errado,
pela simples alegria de ser.

Meu bem,
vem viver comigo;
vem correr comigo;
Vem morrer comigo;
Oh! Meu bem.

Talvez eu morra jovem:
alguma curva do caminho...
algum punhal de amor traído
completará o meu destino.
Meu bem,

vem viver comigo;
vem correr perigo;
vem morrer comigo;

Oh! meu bem, meu bem, meu bem
que outros cantores chamam baby..."



 Escrito por Marcelo às 11h55
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Aumenta que isso aí é roquenrol

 

Hoje é o Dia Internacional do Rock. Embora esteja fora do clima, não poderia deixar de fazer aqui este registro. Pensei em qual música postar, sempre lembrando das minhas duas bandas preferidas - The Smiths e U2 - e em suas canções, e acabei me decidindo por esta, que apesar de bastante tocada, me emociona a cade vez que ouço...

"Stay (Far Away, So Close !)"

"Green light, Seven Eleven
You stop in for a pack of cigarettes
You don't smoke, don't even want to
I see you check your change
Dressed up like a car crash
The wheels are turning byt you're upside down
You say when he hits you, you don't mind
Because when he hurts you, you feel alive
Is that what it is ?

Red lights, grey morning
You stumble out of a hole in the ground
A vampire or a victim
It depend's on who's around
You used to stay in to watch the adverts
You could lip synch to the talk shows

And if you look, you look through me
And if you talk it's not to me
And when I touch you, you don't feel a thing

If I could stay... then the night would give you up
Stay, and the day would keep its trust
Stay, and the night would be enough

Faraway, so close
Up with the static and the radio
With satelite television
You can go anywhere
Miami, New Orleans, London, Belfast and Berlin

And if you listen I can't call
And if you jump, you just might fall
And if you shout I'll only hear you

If I could stay... then the night would give you up
Stay then the day would keep its trust
Stay with the demons you drowned
Stay with the spirit I found
Stay and the night would be enough

Three o'clock in the morning
It's quiet and there's no one around
Just the bang and the clatter
As an angel runs to ground
Just the bang and the clatter
As an angel hits the ground"



 Escrito por Marcelo às 11h27
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"Monarks atravessam o Apa"

Cumprindo a promessa de ontem, reproduzo aqui o trecho que mais me impressionou no ótimo Monarks atravessam o Apa. O conto é parte do livro Curva de rio sujo, do Joca Terron, que na obra mistura saborosamente suas memórias de um Mato Grosso mítico à ficção. Para contextualizar, o enredo do conto gira em torno da busca do narrador por seu coração, levado por uma mulher por quem se apaixonou. Na tarefa de resgate, ele pede a ajuda de El Pan, Nemecek e Huck, três heróis de infância. As linhas que posto aqui relatam, liricamente (notem a metáfora com a imagem das gotas que caem), parte da viagem:

"(...) Tomamos o rumo da ponte para novamente atravessarmos o rio. El Pan e Nemecek pedalavam com fúria as bicicletas, deixando o ar azul à sua paisagem, e eu vacilava, sentado na barra-forte da monark de Huckleberry Finn, enquanto uma chuva fina começou a cair. As gotas explodindo no asfalto da ponte eram pequenos sóis morrendo junto comigo e o final da tarde então parecia apenas o fim de tudo e não mais o monstro ensolarado e infinito de outras vezes. Quando o inimigo deu as caras à nossa espera, do outro lado, nossas bicicletas já levitavam a alguns centímetros do chão. Eu olhei para a superfície do Apa e disse a Huck: "Isto é o meu Mississipi, estes quintais de Bella Vista são os quarteirões de Budapeste para mim, mi viejo!". – Ele gargalhou e pedalou com mais vigor ainda e então pude vê-la, Basano La Tatuada, com seu chocalho de cascavel vibrando altíssimo, tão alto quanto meu coração trepidava sob as areias da margem do rio, e do buraco em meu peito saíam avencas e samambaias e o som de águas barrentas, cascatas nas pedras, os pintados e as sucuris jorrando com o manancial de dentro do lugar antes ocupado pelo meu coração e então mais uma vez desaparecíamos, eu e meus amigos em nossas bicicletas, presos àquele momento se repetindo eternamente, arrancados deste instante sem saída assim como meu coração foi me tirado sem piedade alguma no dia de nossa mais retumbante derrota, quando ainda vestíamos orgulhosos nossos uniformes azuis e a lâmina das espadas refletia o inimigo paraguaio em nosso encalço, para sempre vítimas de sumirmos por inteiro vem às vésperas de uma remota chance de vitória ou de felicidade, meu coração movendo a correnteza do rio e do tempo rumo são infinito. (...)"


P.S. O quadro é Chuva oblíqua, de Katie van Scherpenberg



 Escrito por Marcelo às 10h41
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Literatura de saias

Só para lembrar: será hoje, a partir das 19h30, na Casa de Cultura Laura Alvim, o lançamento da coletânea 25 mulheres que estão fazendo a nova literatura brasileira. Com organização de Luiz Ruffato, o livro traz textos das amigas Adriana Lisboa e Mara Coradello, além de outras moças. A saber: Clara Averbuck, Simone Campos, Fernanda Benevides de Carvalho, Luci Collin, Cecília Costa, Augusto Faro, Livia Garcia-Roza, Guiomar de Grammont, Índigo, Claudia Lage, Állex Leilla, Ivana Arruda Leite, Tatiana Salem Levy, Adriana Lunardi, Ana Paula Maia, Tércia Montenegro, Cíntia Moscovich, Nilza Rezende, Heloisa Seixas, Rosa Amanda Strausz, Claudia Lages, Paloma Vidal e Letícia Wierzchowski.



 Escrito por Marcelo às 19h01
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Clarice em 2005

Foi o Sales quem comentou em seu blog: ao que parece, a moça do coração selvagem, Clarice Lispector, será a homenageada na Flip 2005. Precisa perguntar se fiquei satisfeito?



 Escrito por Marcelo às 18h56
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"O jogo da amarelinha", de Cortázar

"Você me olha, de perto me olha, cada vez mais de perto, e então brincamos de cíclope, olhamo-nos cada vez mais de perto e nossos olhos se tornam maiores, se aproximam uns dos outros, sobrepõem-se, e os cíclopes se olham, respirando confundidos, as bocas encontram-se e lutam debilmente, mordendo-se com os lábios, apoiando ligeiramente a língua nos dentes, brincando nas suas cavernas, onde um ar pesado vai e vem com um perfume antigo e um grande silêncio. Então, as minhas mãos procuram afogar-se no seu cabelo, acariciar lentamente a profundidade do seu cabelo, enquanto nos beijamos como se tivéssemos a boca cheia de flores ou de peixes, de movimentos vivos, de fragância obscura. E se nos mordemos, a dor é doce; e se nos afogamos num breve e terrível absorver simultâneo de fôlego, essa instantânea morte é bela. E já existe uma só saliva e um só sabor de fruta madura, e eu sinto você tremular contra mim, como uma lua na água."


Sim, estou brincando com ele.



 Escrito por Marcelo às 18h43
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Ótima impressão (ainda a Flip)

Uma das coisas que mas me impressionaram em termos de Literatura na Flip foi o inventivo conto Monarks atravessam o Apa, de Joca Reinors Terron. O texto está em Curva de rio sujo, livro que ele lançou pela Planeta. Prometo colocar um trecho aqui amanhã.



 Escrito por Marcelo às 12h03
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Uma nota atrasada

Lá em Paraty pude dar pessoalmente meus parabéns ao Dapieve pelo belíssimo texto publicado em sua coluna na última sexta. A análise mui particular da apresentação da cantora Fabiana Cozza no Bip Bip, precedida por comentários a respeito do romance Giovanni, de Baldwin, merece um quadro. Um trecho:

"(...) Baldwin sabia que, além de uma bela primeira frase, o leitor merecia um belo final, não necessariamente um happy end , claro, e sim algo que justificasse a sua fidelidade. A edição da Rocco da qual extraio as citações, traduzida por Affonso Blacheyre em 1986, época em que o falecido Caíque Ferreira encarnava Giovanni nos palcos de São Paulo e Rio, nem chega às 200 páginas, mas tem, mesmo assim, um parágrafo final recompensador.

Ei-lo: “Finalmente saio para a manhã, fechando a porta da casa. Atravesso a rua e ponho as chaves na caixa de correio da velha senhora. E olho para a estrada, onde estão algumas pessoas, homens e mulheres, esperando o ônibus matutino. Essa gente mostra-se muito nítida sob o céu que desperta e o horizonte mais além começa a chamejar. A manhã pesa em meus ombros com o peso temível da esperança e apanho o envelope azul que Jacques enviou, rasgando-o vagarosamente em muitos pedaços, vendo-os dançar no vento, observando que o vento os leva para longe. Mas quando me viro e sigo andando para os que esperam, o vento atira alguns pedaços de volta, em minha direção.”

Esta imagem maravilhosa e algo fatalista, o vento trazendo de volta pedaços de papel (cartas, memórias, histórias, pessoas) dos quais se quer livrar, voltou-me à cabeça na noite da quinta-feira retrasada, enquanto ouvia a paulistana Fabiana Cozza cantar sambas no boteco Bip-Bip. Como diz um amigo, ela não canta sambas: conta sambas, muito bem. Transforma-os em pequenas narrativas, elegantes, teatrais, adequadas ao espacinho da Almirante Gonçalves, Posto Cinco, Copacabana, perto de onde morei a maior parte da vida (...)."



 Escrito por Marcelo às 11h50
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E a Flip terminou...

A segunda edição da Flip impressionou pelo crescimento (ano passado o evento foi bem mais modesto), e não exatamente pelos debates travados. Assisti a três mesas: a que reuniu os "novos" autores Marcelino Freire, Daniel Galera e Joca Terron; a dos contistas, com Sergio Sant’Anna e Luiz Vilela; e a sobre os clássicos, juntando Lígia Fagundes Telles, Moacyr Scliar e Luís Fernando Veríssimo. Embora as discussões tenham se dado em alto nível, faltou tempo para aprofundamento, e mesmo para as perguntas da platéia, o que sem dúvida prejudicou um pouco as conversas. Poderiam pensar em pelo menos mais meia hora para a edição de 2005.

Melhor foram os papos nos bares com os amigos, que envolveram o fazer literário, música, teatro, crítica, suplementos culturais, o meio editorial, ou seja, temas a que temos especial afeição. Em destaque, as novas gerações de autores, suas inquietações, sua estética e sua qualidade (ou a falta dela), sempre avaliadas com a inteligência de um Flavio Izhaki, com o humor de um Henrique Rodrigues (para citar dois...) Melhor também foi conhecer de maneira mais próxima o Guiu, do blog Perto do Coração Selvagem, e o Felipe, do La Vie en Blues. E, ainda, o couvert do Restaurante da Matriz, o sorvete de chocolate do italiano, o café da Araci e as atrações musicais da festa.

(Aqui vale um parêntese: vi dois shows no Café Paraty, dentro da série promovida pela Biscoito Fino. Na quarta-feira, os meninos do Tira Poeira encantaram os presentes com uma apresentação inesquecível. Inspiradíssimos – principalmente o Caio Márcio e o Samuel -, eles não se limitaram aos títulos do disco e mostraram os tantos pontos de contato entre o choro e o jazz. Foi um show pleno de alma

Já na noite seguinte, a afinadíssima Mônica Salmaso foi responsável por um dos shows mais insípitos que já tive a oportunidade de conferir. Definitivamente, alma é o que falta à cantora.)

Depois de fechar o parêntese, vale citar também o simpático Casarão do Cunha, que serve boas batatas rostie e onde Pepê, Alfredão e Nilze, acompanhados de Paulino Dias e de outro percussionista de quem não sei o nome, mostraram no sábado canções de Hermínio Belo de Carvalho e Paulo César Pinheiro para uma casa lotadíssima e cheia de cariocas. Foi bom ver pronto o disco dos dois bicudos, cujo projeto gráfico ficou bem bacana.

Depois de cinco dias cheios, o balanço final da viagem é positivo. Até a próxima Flip!


P.S. A quem interessar possa: lá na Paralelos tem algumas pequenas matérias minhas sobre as mesas.



 Escrito por Marcelo às 11h46
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Leituras em Paraty

Na bagagem, desde ontem, três livros:

. "Todos os fogos, o fogo", do Cortázar

. "O ovo apunhalado", do Caio

. "A ignorância", de Milan Kundera

Gente, até mais ver. Espero voltar mais sereno, embora o amor ainda lateje.



 Escrito por Marcelo às 18h35
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"Amor líqüido"

Muito interessante a coluna desta semana de Carla Rodrigues no site No Mínimo, na qual ela analisa o livro Amor líqüido: sobre a fragilidade dos laços humanos, de Zygmunt Bauman. Em seu novo trabalho, o sociólogo polonês - autor de obras polêmicas como O mal-estar na pós-modernidade e Globalização, as conseqüências humanas - debruça-se sobre as relações afetivas da atualidade. Mais uma vez, sobressai das reflexões de Bauman certa nostalgia de uma época em que "os laços eram mais sólidos" (palavras de Carla). Abaixo, um trecho do texto.

"(...) O diagnóstico: os relacionamentos afetivos estão cada vez mais fluídos – ou, como ele prefere, líqüidos – e as pessoas estão consumindo e sendo consumidas como os objetos descartáveis do capitalismo pós-industrial. "E assim é numa cultura consumista como a nossa, que favorece o produto pronto para uso imediato, o prazer passageiro, a satisfação instantânea, resultados que não exijam esforços prolongados, receitas testadas, garantias de seguro total e devolução do dinheiro", define ele. É a era da satisfação do impulso e do desejo imediato – de comprar ou de se apaixonar, tanto faz –, que se sobrepõe ao amor, sentimento que tem como característica se prolongar e se manter. "Os produtos de consumo atraem, os refugos repelem. Depois do desejo vem a remoção dos refugos. É, ao que parece, como forçar o que é estranho a abandonar a alteridade e desfazer-se da carapaça dissecada que congela na alegria da satisfação, pronta a dissolver-se tão logo se conclua a tarefa", diz ele.

O ponto do alto do livro é o primeiro capítulo, "Apaixonar-se e desapaixonar-se", no qual Bauman trata da crise pós-moderna dos relacionamentos amorosos, experiência contemporânea tão marcada no cotidiano afetivo de todos nós. A alteridade – ou seja, o reconhecimento do outro – nunca esteve tão em baixa, não apenas nas relações amorosas. Nesse sentido, o livro de Bauman é um importante exercício de diálogo com dois grandes pensadores franceses – Jacques Derrida e Emmanuel Levinas, de quem ele vai buscar na discussão sobre alteridade a idéia de que "o desafio, a atração e a sedução do Outro tornam toda distância, ainda que reduzisa e minúscula, insuportavelmente grande." Para Levinas, o amor é forma de reconhecer a si mesmo atavés e a partir do reconhecimento do outro. O que Bauman questiona é o fato do "investimento" no amor – e portanto no outro – estar caindo em desuso, e sendo trocado por redes de relações nais quais o mais importante é o movimento."



 Escrito por Marcelo às 17h01
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Bebendo com Peréio

Não me perguntem por quê, mas recebi hoje um convite para o coquetel de lançamento do programa Sem frescura, de Paulo César Peréio, que estréia na próxima terça no Canal Brasil. A festinha será no Bar Canto D' Alice, em Laranjeiras. E tem RSVP. Dá pra acreditar? De qualquer jeito, é imperdível.



 Escrito por Marcelo às 16h26
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Iberê e Cecília

"Pássaro"

Cecília Meirelles

"Aquilo que ontem cantava
já não canta.
Morreu de uma flor na boca:
não do espinho na garganta.

Ele amava a água sem sede,
e, em verdade,
tendo asas, fitava o tempo,
livre de necessidade.

Não foi desejo ou imprudência:
não foi nada.
E o dia toca em silêncio
a desventura causada.

Se acaso isso é desventura:
ir-se a vida
sobre uma rosa tão bela,
por uma tênue ferida."



 Escrito por Marcelo às 14h53
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Off-Flip

No post abaixo, fiz menção ao Off-FLIP, que não aconteceu em 2003, mas este ano será uma das atrações paralelas da Festa Literária de Paraty, abordando temas ligados à psicologia, música, poesia, teatro e fotografia. No site oficial do evento, consta que "um dos nomes importantes que estarão nesta edição é o da poetisa Alice Ruiz, que fará três dias de oficinas de Haikai (técnica japonesa de fazer poesia) e, no encerramento, as declamações dos alunos em uma espécie de sarau literário. Outra opção de oficina é a de fotografia estenopéica, de foto na lata, com o fotógrafo Márcio Scatrut. Será dedicada uma noite à fotografia, que abre com a exposição Olhares de Cuba, uma coletiva de seis fotógrafos brasileiros e terá a participação de João Urban, Tiago Santana, Nego Miranda, Thomas Farcas. Essa noite contará com lançamentos de novos livros fotográficos e noites de autógrafos, além de uma mostra digital de fotografia.

Na noite da Permuta de Idéias, o Off-FLIP irá promover noites de autógrafos com o jornalista Paulo Polzonoff (O Cabotino), Paula Foschia, autora do romance Primavera Eterna, o psicólogo César Rey Xavier (A Permuta dos Sábios – uma conversa entre Jung e Pauli), Antonio Tadeu Wojciechowski (Assim até Eu) e o ilustrador Luiz Antonio Solda (Solda), que tem a apresentação do seu livro assinada por Jaguar.

A noite de sábado, dia 10, será dedicada à poesia e à música. É a vez dos Poéticos e Musicais, que vai contar com noites de autógrafos de grandes nomes da música e da poesia brasileiras como Hermínio Bello de Carvalho (Araca – A Arquiduquesa do Encantado – Ed. Folha Seca), que narra a história de Aracy de Almeida, também apresenta a poesia de Paulo César Pinheiro (Clave de Sol), Alice Ruiz (Poesias para tocar no Rádio), João Suplicy (Winteverno de Paulo Leminski, com ilustrações do arquiteto) e Maria Cristina Andrade Vieira (Conversa Nua, com ilustrações de Leila Pugnaloni). Para fechar a noite dos poéticos e musicais, o destaque é do show Samba em Verso e Prosa, com formação inédita no Rio de Janeiro, interpretando músicas de Paulo César Pinheiro e Hermínio Bello de Carvalho". O time inclui o nosso Pepê, o Alfredão Del Penho, a Nilze Carvalho e o Paulino Dias, entre outros. O site informa ainda que o Casarão do Cunha, patrocinador do Off-FLIP, irá contar também com o sebo permanente "Luzes da Cidade" (RJ), em todos os dias do evento.



 Escrito por Marcelo às 12h35
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A minha Flip

Não saiu tudo como eu entusiasticamente planejava há meses - dias de idílio em Paraty, na companhia dela e de amigos queridos, assistindo a ótimos shows e palestras. Não será assim. Meu coração fica no Rio, um tanto machucado, e amanhã pela manhã, quase oco de tanto vazio, sigo de carro rumo à cidade histórica. Que benfazejo seja o ar de Paraty, que benfazejas sejam a Flip e a off-Flip, que benfazejo seja, enfim, o calor dos que estarão ao meu lado, sabendo que a amizade também é uma forma de amor.



 Escrito por Marcelo às 11h29
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...

"Deixa eu te dizer antes que o ônibus parta que você cresceu em mim de um jeito completamente insuspeitado, assim como se você fosse apenas uma semente e eu plantasse você esperando ver nascer uma plantinha qualquer, pequena, rala, uma avenca, talvez samambaia, roseira, mas nunca, em nenhum momento essa coisa enorme que me obrigou a abrir todas as janelas, e depois as portas, e pouco a pouco derrubar todas as paredes e arrancar o telhado... "

Caio Fernando Abreu - Para uma avenca partindo - in O Ovo Apunhalado



 Escrito por Marcelo às 11h09
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Ouvindo agora...

"Sol de primavera"

Beto Guedes / Ronaldo Bastos

"Quando entrar setembro
E a boa nova andar nos campos
Quero ver brotar o perdão
Onde a gente plantou
(Juntos outra vez)
Já sonhamos juntos
Semeando as canções no vento
Quero ver crescer nossa voz
No que falta sonhar

Já choramos muito
Muitos se perderam no caminho
Mesmo assim não custa inventar
Uma nova canção
(Que venha nos trazer)
Sol de Primavera
Abre as janelas do meu peito
A lição sabemos de cor
Só nos resta aprender

Já choramos muito
Muitos se perderam no caminho
Mesmo assim não custa inventar
Uma nova canção
(Que venha trazer)
Sol de Primavera
Abre as janelas do meu peito
A lição sabemos de cor
Só nos resta aprender"



 Escrito por Marcelo às 19h32
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A clareza inútil

"Estou sentindo uma clareza tão grande
que me anula como pessoa atual e comum:
é uma lucidez vazia, como explicar?
assim como um cálculo matemático perfeito
do qual, no entanto, não se precise."

Clarice Lispector


P.S. O quadro é Rooms by the sea, de Edward Hopper



 Escrito por Marcelo às 18h46
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Mulheres escritoras

A Adriana Lisboa manda avisar que na próxima segunda, a partir das 19h30, na Casa de Cultura Laura Alvim, será lançado o livro 25 mulheres que estão fazendo a nova literatura brasileira. Organizada por Luiz Ruffato, a coletânea traz textos da própria Adriana e da amiga Mara Coradello, entre outras autoras.



 Escrito por Marcelo às 13h43
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Lugares comuns

Ontem mesmo eu comentava isto: com todo o reconhecimento aos filmes de altíssimo nível que o Brasil vem produzindo, creio que o cinema argentino hoje esteja um passo à nossa frente. Não me recordo de nem sequer um filme portenho que tenha visto nos últimos anos e que peque pela qualidade. Muito pelo contrário: de O filho da noiva a Tão de repente, de O mesmo amor, a mesma chuva a Valentin, a safra, além de revelar o talento dos diretores, tem conseguido elaborar uma reflexão importante e nada maniqueísta sobre a Argentina atual. E o faz por meio de microcosmos, possibilitando que o foco sobre a conjuntura seja mediado pelo olhar dos personagens.

Pensava sobre tais questões após assistir ao ótimo Lugares comuns, de Adolfo Aristarain. O enredo, em síntese: o idealista professor de literatura Fernando (Federico Luppi) leva uma vida sem sobressaltos ao lado da mulher, Liliana (Mercedes Sampietro), até que, em virtude da crise econômica do país, é obrigado a se aposentar. A nova situação obriga o casal a refazer contas, apelar ao filho Pedro (Carlos Santamría), que mora em Madrid, e a mudar de cidade.

Os conflitos entre Fernando e Pedro e as desilusões do professor fazem o filme remeter ao ótimo Invasões bárbaras. Mas há correlações também com outras produções portenhas, como o próprio O filho da noiva. Em certo momento, Fernando desabafa: "Desde que me conheço este país vive em crise". Não lembra a frase "A Argentina sai da recessão para a inflação, e da inflação para a recessão", pronunciada pelo personagem de Ricardo Darín, no filme de Campanella?

É impressionante como Lugares comuns brinca com seu título sem recair na obviedade. Em várias passagens, os tais "lugares comuns" estão lá, presentes na tela. É a narração em off, que lê os escritos de Fernando no caderno em que fez um "balanço da vida". É a saída do espaço urbano como elemento de descoberta. É a reconciliação familiar final. Mas todos estes expedientes são tão bem conectados, tão sutilmente trabalhados, que o resultado final é tocante. Lírico, sem ser piegas. Reflexivo, sem ser panfletário. Falar mais? Corram aos cinemas!



 Escrito por Marcelo às 11h40
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Nós e os "hermanos"

Quem curte literatura e por algum motivo não poderá estar em Paraty vai ter uma ótima opção no Rio esta semana. Amanhã será dado o pontapé inicial de uma série de eventos que objetivam estabelecer uma "ponte cultural" entre o Rio e Buenos Aires, e cuja primazia estará justamente no âmbito literário, embora atinja também as áreas da música, do cinema e da gastronomia. Já na abertura, quatro representantes da revista virtual Paralelos (J.P. Cuenca, Mariel dos Reis, Paloma Vidal e Augusto Sales) receberão, na Casa de Cultura Laura Alvim, o romancista, ensaísta e dramaturgo argentino César Aira, em debate que contará com a participação de Silviano Santiago.

As atrações seguem com o lançamento da terceira edição da revista Grumo, que reúne trabalhos de autores dos dois países, e um show da banda Fábrica. Paralelamente (sem trocadilhos, por favor!) às atividades na Laura Alvim, o BNDES abrigará a exposição Rio & Buenos Aires: duas cidades modernas, com 120 fotografias do livro homônimo, reportando ao início do século XX. Os registros são de fotógrafos como Augusto Malta e o norte-americano H.G. Olds.

No CCBB, serão promovidos outros encontros literários, com palestras de escritores espanhóis e argentinos. Entre os convidados, Rosa Montero, Pablo de Santis, Tamara Kamenszain e o já mencionado César Aira. A programação encerra-se com uma festa no Cine Buraco, na quinta, a partir das 23h. Quem quiser conferir a pauta completa do evento, basta acessar aqui.



 Escrito por Marcelo às 10h49
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E aí, Aguinaldo?

Ao editar o jornal da OAB, tenho um cuidado redobrado para não deixar passar, entre os títulos das matérias, nenhuma dubiedade daquelas que fazem o sucesso do espetáculo Plantão de Notícias, comandado pelo Maurício Menezes. Trabalhando com termos perigosos, como "Vara", e com autoridades sempre preocupadas com a imagem pública - juízes, promotores, desembargadores... - a atenção tem que ser permanente. Acho que é por esta razão que constantemente acabo encontrando em nossos órgãos da imprensa equívocos do gênero. Na revista Veja desta semana, logo esta publicação tão ciosa de sua qualidade, há um bom exemplo. A Veja traz curta entrevista com Agnaldo Silva, que serve como subretranca da matéria Corra que a polícia vem aí, sobre novela Senhora do destino. O título do box: "O autor também sentiu a ditadura". Um primor de edição, não?



 Escrito por Marcelo às 10h47
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Novas do Beto

Tive uma breve alegria hoje ao saber através da coluna do Mauro Ferreira que depois de 13 anos, o Beto Guedes lançará um novo disco de inéditas. Em algum lugar, que chega ao mercado ainda este mês, reúne canções de seu pai, Godofredo Guedes (Lamento árabe), de seu filho, Gabriel (Júlia), e parcerias com Bituca (Amor de filho), Lô (Sonhando o futuro) e Chico Amaral (Outra manhã). Há ainda uma regravação de Via láctea, clássica do Lô. A canção- título é versão de Fernando Brant de Wing of fisherman, original de Frederic Rousseau. Que saudade de ver um show do mineirinho...

P.S. Na foto, Beto em seu ultraleve, que ele construiu e no qual, dizem, até consegue voar...



 Escrito por Marcelo às 18h32
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O novo Ateliê

O simpático Ateliê da Imagem, que fica lá pertinho de casa, inaugurou ontem suas novas instalações, num sobrado na Avenida Pasteur. O espaço conta agora com cinema, cafeteria, sala para cursos e laboratório digital, além de salas de exposição. A mostra de abertura apresenta duas séries de fotos feitas com  máquina "pin hole", uma câmara primitiva, que não utiliza lente. São 15 registros de paisagens portuguesas e de objetos em uma fábrica alemã abandonada. O site do Ateliê é muito interessante e vale a visita.



 Escrito por Marcelo às 17h44
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Depois das tempestades...

... vem o idílio em Paraty. A costela no bafo com direito à prosa da boa, o banho de mar em Trindade, o pastel na prainha escondida, o sorvete do italino, o bombom de chocolate da Maga, a cervejinha na Praça da Matriz e literatura, muita literatura. Flip, aí vamos nós!!!



 Escrito por Marcelo às 17h05
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A poeira levantou também em Minas

Não foi apenas o pessoal de São Paulo, os mineiros também fizeram bonito ontem, só que no basquete. Com a terceira vitória consecutiva sobre o adversário, o Uberlândia-Unit sagrou-se campeão brasileiro da modalidade. Contra quem? Ih, rapaz, o Flamengo de novo... Bem que dizem que "quando o rubro-negro chega, ninguém segura".



 Escrito por Marcelo às 14h28
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Dia decisivo

Hoje tenho uma reunião muito importante. Para mim e para vários amigos que estão no projeto, ao qual tenho dedicado muito carinho. Por favor, fiquem na torcida por nós.

 Escrito por Marcelo às 12h46
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Donato em relançamento

Na última terça, comprei Lugar comum, célebre trabalho de João Donato que em boa hora a Dubas Música lança em cd. Meu destaque é justamente a canção título, dos versos "Beira do mar / Lugar comum / Começo do caminhar  / Pra beira de outro lugar". O mar parece mesmo ser uma das obsessões de Donato, autor da também belíssima Brisa do mar ("Brisa do mar / Confidente do meu coração / Me sinto capaz / De uma nova ilusão"). Sobre o disco, indico a matéria que o Leonardo Lichote escreveu para o Globo On Line, e que foi republicada no jornal O Globo esta semana:

"Comum e Original"

Leonardo Lichote

"Simples e bela como os mitos sobre a criação do mundo, a história começa assim: um homem numa canoa, descendo o Rio Acre, assobiou uma melodia, ouvida por um menino que estava na margem. Décadas depois, o menino, já conhecido como o pianista e compositor João Donato, aproveitou aquelas notas e compôs "Índio perdido", que depois ganhou letra de Gilberto Gil e virou "Lugar comum". Mais que explicar a origem de "Lugar comum" — a canção e o histórico disco de Donato de 1975, agora relançado em CD pela Dubas Música — a narrativa explica a própria música do artista.

- Aprendi na beira do rio, daquele jeito melancólico, sentimental, doce, simples. Aquilo marcou minha obra toda e passou a ser um padrão. São essas coisas que cato no ar que ficam bonitas. É só pegarmos e assumirmos que são nossas. Todos somos um pouco autores de tudo isso - diz Donato, com a mesma sabedoria simples com que compõe. Até agora, quem quisesse um CD de "Lugar comum" teria que importar - de onde mais? - do Japão. Mas a cuidadosa edição brasileira que chega às lojas fez valer a espera.

A masterização impecável respeita e realça a qualidade de indispensável do disco, menos conhecido e valorizado do que merece. O CD inclui parcerias com Gilberto Gil e Caetano Veloso - canções como "Lugar comum", "Bananeira", "Emoriô" e "Naturalmente". Vestindo as inspiradas melodias e letras, os arranjos que pela primeira vez eram todos assinados por Donato. Neles, a marca de um arranjador que estava o tempo todo experimentando, mas sem a afetação do termo "experimental". Experimentando quase como a criança na beira do rio inventando brincadeiras.

- Sempre experimentei. Não sei muito, mas tenho muita sorte, as coisas que faço ficam bonitas — diz, lembrando que o maestro Laércio de Freitas foi um de seus principais incentivadores. - Ficava na dúvida sobre uma frase musical e perguntava: "Laércio, é melhor isso ou isso?". Ele respondia simplesmente "Acredita!". Ronaldo Bastos, dono da Dubas e amigo de Donato, lembra um caso contado pelo compositor que reforça - e dá pistas para se entender - o caráter infantil de sua obra. - Falando de uma apresentação que fez com uma orquestra na Europa, com toda aquela seriedade de sala de concerto, ele disse que uma das músicas mais aplaudidas na ocasião foi uma que ele compôs aos 8 anos, para uma menina que ele gostava e que tinha 9.

Músico que antecipou a bossa nova Para Bastos, "Lugar comum" sintetiza o papel de Donato na música brasileira. Uma importância que Bastos viu reafirmada recentemente de forma curiosa. Foi Donato que, divertindo-se, percebeu que a série da Dubas "Tropique samba lounge" - coletâneas feitas por Bastos e Leonel Pereda com as fusões mais interessantes produzidas no Brasil pós-bossa nova - era em boa parte baseada em sua obra. - Ele viu os discos e falou "Essa música é minha, esse piano é meu, esse arranjo é meu". E era verdade, não tinha percebido! Só me restou fazer um "Tropique samba lounge/ João Donato" — conta Bastos, que, parceiro de Milton Nascimento, Lô Borges, Tom Jobim, Marcos Valle, agora também tem composto com Donato.

- Ele é associado à bossa nova, mas é muito mais, ultrapassou-a. Donato é uma escola em si mesmo, mas poucos se dão conta. O piano suingado de Marcos Valle, Dom Salvador, Ed Motta, tudo isso passa por Donato. O encarte de "Lugar comum" inclui, além de letras e ficha técnica completa, um texto de Donato sobre o disco. Em frases diretas e leves como sua música, ele lembra que foi por idéia de Agostinho dos Santos que começou a ter letras para suas músicas ("Senão ninguém cantava, ninguém gravava") e fala do processo de composição de cada música, entre elas a história de "Índio perdido/Lugar comum". Já a letra de "Bananeira" veio de um improviso de Gil, assim como "Tudo tem" ("Falei pra ele: ‘Essa não tem letra’. E ele na mesma hora respondeu: ‘Tem, tem, tem, sempre tem, jeito tem, tem’"). -Abro mão de todos os pensamentos para deixar entrar a música. Ele vem em qualquer olhar, em qualquer momento. No meio da mata ou no aeroporto (de onde Donato deu a entrevista por telefone, pouco antes de embarcar para a Espanha), o Criador nos dá a música. Quanto mais penso n’Ele, mais penso em música - diz Donato, antes de fechar com um comentário que o resume como artista. - Geralmente falo mais de Deus que de mulher.

A abertura criativa de Donato, a mesma que o aproxima de Deus e da mulher, já permitiu que cantarolasse "Só love", de Claudinho e Buchecha, em seus shows, fizesse músicas pensando em Sandy e gravasse com nomes como Marcelo D2 e Marcelinho da Lua. Atualmente, tem dois projetos engavetados - além do disco que gravou no Rio com o saxofonista Bud Shank - que seguem explorando fronteiras. Um é uma parceria com Carlinhos Brown, com quem gravou "três carretéis de fita" de improvisos. O projeto já foi aprovado por uma lei de incentivo do Ministério da Cultura, mas Donato conta que espera a liberação da verba para finalizá-lo. O outro é uma espécie de transposição de Debussy para ritmos caribenhos. — De tanto estudar as partituras dele, vi que há trechos que podem ser usados como loops , aquela coisa de dois compassos repetidos. É Donato, como sempre, falando de Deus".



 Escrito por Marcelo às 12h23
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Menos, Felipão, menos...

"Para mim, chegar à final da Eurocopa é mais emocionante do que ter sido campeão do mundo com o Brasil" - Felipão.

Como as pessoas são capazes de falar bobagens quando estão sob grande entusiasmo...



 Escrito por Marcelo às 12h10
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Um poema, uma foto, uma lembrança

"Fagulha"

Ana Cristina César

"Abri curiosa
o céu.
Assim, afastando de leve as cortinas.

Eu queria entrar,
coração ante coração,
inteiriça
ou pelo menos mover-me um pouco,
com aquela parcimônia que caracterizava
as agitações me chamando

Eu queria até mesmo
saber ver,
e num movimento redondo
como as ondas
que me circundavam, invisíveis,
abraçar com as retinas
cada pedacinho de matéria viva.

Eu queria
(só)
perceber o invislumbrável
no levíssimo que sobrevoava.

Eu queria
apanhar uma braçada
do infinito em luz que a mim se misturava.

Eu queria
captar o impercebido
nos momentos mínimos do espaço
nu e cheio

Eu queria
ao menos manter descerradas as cortinas
na impossibilidade de tangê-las

Eu não sabia
que virar pelo avesso
era uma experiência mortal."


P.S. A foto foi tirada de um quarto de hotel, numa madrugada deliciosa em Petrópolis...



 Escrito por Marcelo às 12h01
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"Salve, Salve, Oh, Glorioso..."

Na inusitada final da Copa do Brasil deste ano, disputada entre o penúltimo colocado da Primeirona - o Flamengo - e o penúltimo colocado da Segundona - o Santo André -, o escrete paulistano levou a melhor. Vocês já pararam para pensar quantos milhares de reais devem ter sido gastos por imprudentes e apressados rubro-negros com a compra antecipada de faixas? Aos amigos urubulinos que o fizeram, um alento: basta escrever (discretamente, por favor!!!) a palavra "vice" entre os termos "bi" e "campeão", e poderão desfilar com garbo e orgulho pelas ruas. O título principal? Bem, este, ao que parece, ficou mesmo na "poeira"...


P.S. Agora, falando sério: a organização tática do mediano Santo André (este Péricles Chamusca vem mesmo mostrando talento) foi o suficiente para superar uma equipe teoricamente mais ténica, mas que no frigir dos ovos está no mesmo (baixo) nível da absoluta maioria dos times nacionais. Com uma zaga pessimamente posicionada, que deixa os atacantes adversários sem qualquer tipo de marcação, ficou difícil derrotar os paulistanos. Que abram o olho no Brasileirão!



 Escrito por Marcelo às 10h15
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