Série 300 toques - Número 12

Carretel

Para Iberê Camargo

Jurara desfiar uma mentira até que o carretel terminasse. O fio esticava, esticava, ainda longe do fim, e ele, insistente, teimava em puxar, ignorando o cerol ou o que pudesse vir: um falso juramento, um medo desfocado, um nariz enorme. Jamais tocou na presilha da linha. Sempre contou boas histórias.



 Escrito por Marcelo às 14h25
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Mais enganação?

É hoje! Estréia nos cinemas o aguardado Fahrenheit 11 de Setembro, novo filme/panfleto (não vou chamar de documentário, ok?) de Michael Moore. Estou ansioso para conferir as "qualidades estéticas" que acabaram por consagrar o trabalho no último Festival de Cannes. Afinal, não posso crer que um júri de alto nível possa ter premiado as rasas diatribes do diretor e sua obra por razões políticas, né? A conferir.



 Escrito por Marcelo às 12h35
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Série 300 toques - Número 11

A hora exata

Um homem correto, sim. Cumpridor das tarefas. Exemplo para esposa e filhos. Às sete, o banho. Oito, trabalho. Meio-dia, almoço. A TV, o jantar. Dez em ponto na cama. Sabe-se lá por que decidira passar na praia após o serviço. O mar engolindo o sol e ele, atônito: ainda é boa tarde ou já é boa noite?



 Escrito por Marcelo às 11h54
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Série 300 toques - Número 10

Morte

Como era costume aos sábados, logo pela manhã pegou o jornal deixado à porta e sentou-se na privada para ler. Então, o susto: na primeira página, a foto estampava seu corpo. Morto. Ainda inebriado pela imagem, pensou "mas como, se estou aqui, agora mesmo, lendo...".

Era a edição de domingo.



 Escrito por Marcelo às 11h36
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Lendo

"Um fundo ruborizado na face. Era tudo o que havia sobrado quando, às cinco e meia, a manhã começou, latejando. Os cachorros da vizinhança incomodavam. Os lábios secos incomodavam. E, de algum modo, naquela manhã o mundo não vingou, devedor de si mesmo. Uma gota de leite caiu dentro da taça e criou o imprevisto: um matiz mais denso que pensava na véspera, nas vésperas, acres, as mesclas estranhas, os estilhaços, a casa inchada de insônia. Os cachorros da vizinhança doíam."

Adriana Lisboa, em Caligrafias (parte do livro 25 mulheres que estão fazendo a nova literatura brasileira)



 Escrito por Marcelo às 18h20
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Casas casadas

Saiu hoje em O Globo que após muita procrastinação as Casas Casadas de Laranjeiras serão enfim inauguradas no dia 20 de setembro (pouco antes das eleições municipais. Aliás: será que algum outro pleito já foi tão difícil escolher um candidato à Prefeitura?). Os imóveis abrigarão duas salas de cinema, café, livraria, auditório e restaurante. Um alento para o pessoal do bairro e adjacências.

 Escrito por Marcelo às 14h21
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Série 300 toques - Número 9

Casal

Brigavam toda manhã. Ela xingava-o aos gritos, reclamando de sua apatia. Calado, ele somente a confirmava, enquanto o bebê vertia em balbucios um repúdio. Naquele dia, era o leite fora da geladeira. "Já te falei que estraga", berrou ela, antes de lamentar: "Tá tudo estragando nesta casa"...



 Escrito por Marcelo às 12h11
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Woody e Gershwin

Esta é do meu compositor americano favorito e está na excepcional trilha sonora de Manhattan (Woody Allen), um dos filmes da minha vida. Na trilha, as canções de Gerswhin recebem o tratamento especial da Filarmônica de Nova York, regida por Zubin Mehta. Já na seqüência de abertura fica evidente como a música dialoga perfeitamente com as imagens durante todo o tempo (Woody talvez seja um dos cineastas que melhor realiza este diálogo): as cenas da cidade, registradas na deslumbrante fotografia em PB de Gordon Wills, revezam-se, enquanto ouvimos a narração em off do protagonista e a magnífica Rhapsody in blue. A minha preferida da trilha, no entanto, é mesmo Someone to watch over me.

"Someone to watch over me"

Gershwin

"There's a saying old says that love is blind
Still we're often told "seek and ye shall find"
So I'm going to seek a certain girl I've had in mind
Looking everywhere, haven't found her yet
She's the big affair I cannot forget
Only girl I ever think of will regret


I'd like to add her initial to my monogram
Tell me where's the shepherd for this lost lamb

There's a somebody I'm longing to see
I hope that she turns out to be
Someone who'll watch over me

I'm a little lamb who's lost in a wood
I know I could always be good
To one who'll watch over me

Although she may not the girl some men think of
As handsome to my heart
She carries the key

Won't you tell her please to put on some speed
Follow my lead, oh how I need
Someone to watch over me
Someone to watch over me"



 Escrito por Marcelo às 10h46
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Balzac e a costureirinha chinesa

O filme baseado no livro Balzac e a costureirinha chinesa está sendo exibido em algumas salas do Rio. Ao vê-lo em cartaz, lembrei que a resenha da obra escrita por Saí Stie, que também dirige a versão em película, foi uma das primeiras que fiz lá para o Idéias (JB). Reli meu texto ontem e, como o livro é muito interessante, resolvi postá-lo aqui.

Balzac e a costureirinha chinesa
Daí Sijie
156 páginas R$24,90
Tradução: Vera Lúcia dos Reis

Por Marcelo Moutinho

Em "A insustentável leveza do ser", o escritor Milan Kundera revela, com certa amargura, a existência de laços estreitos entre o nosso "inelutável peso de viver" e as formas de opressão em geral. O peso da vida, sublinha Calvino ao comentar o livro do theco em suas "Seis propostas para o próximo milênio", habita "a intrincada rede de constrições públicas e privadas que acaba por aprisionar cada existência em suas malhas cada vez mais cerradas". Um romance sobre as aventuras de dois estudantes às voltas com o processo de ‘reeducação’ proposto pela Revolução Cultural na China dos anos 60 poderia espelhar este "peso". Não é o que ocorre, contudo, com "Balzac e a costureirinha chinesa", de Daí Sijie, autor alçado de mero desconhecido a best-seller na França em apenas duas semanas. A história das dificuldades de dois jovens sob a égide do projeto maoísta, contada no livro, em nenhum momento soa como libelo panfletário contra o totalitarismo. Ao contrário, é narrada com sabor, delicadeza e algum humor.

A obra, que sai no Brasil pela Editora Objetiva, foi lançada de maneira discreta, mas se transformou em um verdadeiro fenômeno literário, e não só em termos comerciais: a indicação ao Goncourt, mais importante prêmio da literatura francesa, comprova a aprovação da crítica. Acompanhando a trajetória dos rapazes da cidade – o narrador (18 anos) e o amigo Luo (17) – em seu exílio nas montanhas distantes, o texto de Sijie espelha, no microcosmo da aldeia, as conseqüências da política que fechou as universidades e atingiu diretamente a burguesia intelectual chinesa, cujos filhos foram enviados aos campos para aprender a ‘exemplar’ vida do proletariado. A diretriz seguia um dos ditados prediletos de Mao, destacado por Jung Chang em "Cisnes selvagens", livro que acompanha a saga de três gerações durante a história do país. Dizia o Grande Timoneiro que "os camponeses têm mãos sujas e pés sujos de bosta de vaca, mas são muito mais limpos que os intelectuais". A exemplo da escritora, Sijie, que mora na Europa há 15 anos e atua também como diretor de cinema, viveu ele próprio os dissabores da ‘reeducação’. A experiência com a Sétima Arte, aliás, transparece em sua narrativa, repleta de imagens fortes, que em breve chegarão às telas: o autor já anunciou que pretende transformar em longa-metragem as agruras dos garotos chineses.

"Balzac e a costureirinha chinesa" centra foco no choque que o "cheiro de civilização" dos jovens urbanos provocou nos camponeses. Explicita também os preconceitos que, gerados no ventre da ignorância, colocam em alguns momentos os rapazes em situações difíceis, sempre resolvidas graças a muita sagacidade. A seqüência da chegada no campo, por exemplo, é emblemática. Desconfiados quanto ao violino que um dos dois carrega, os aldeões anunciam que irão queimar o instrumento, classificado pelo chefe local como um "brinquedo burguês". Luo propõe então que o narrador toque uma sonata de Mozart, cuja execução evidentemente era proibida pela Revolução. A esperteza do narrador o livra da aflição. Indagado sobre o título da música, ele de imediato responde: "Mozart pensa no presidente Mao". É o suficiente para que a censura dê lugar a aplausos, e antecipe o tanto de astúcia necessário para garantir a sobrevivência nas montanhas.

Luo e o narrador têm colado em si o estigma de filhos de pais burgueses. São obrigados a realizar pesadas tarefas, como carregar nas costas baldes cheios de adubo, inclusive humano, ou enfrentar os pesados cestos de antracito em uma mina de carvão. Mas os rapazes por vezes conseguem escapar do trabalho, devido ao talento de Luo para reproduzir aos aldeões as histórias de filmes que conhecia. Enfeitiçado pelo poder narrativo do jovem, o chefe dos camponeses determina que ele estará presente às eventuais sessões do cinema da cidade mais próxima, a fim de assistir às produções oficiais e repassá-las à aldeia. Trata-se do indício primevo da grande questão proposta pelo romance de Sijie.

Uma questão que se explicitará com o giro radical na vida dos jovens, representado pela descoberta de uma valise que contém inestimável tesouro: livros de Flaubert, Baudelaire, Dostoievski, Dickens, Dumas; em resumo, boa parte dos cânones literários do Ocidente. De início, eles envolvem-se com "Úrsula Mirouët", de Balzac, que abrirá seus horizontes para além da fogueira inquisitória de Mao - onde, como a música, ardeu também toda a literatura ocidental, expurgada do país sob a pecha de decadente, apesar da sobrevida no mercado negro. No esteio do fascínio com as tramas de mistério, amor e desejo dos autores recém-descobertos, brota uma formidável sensação de autonomia, que os jovens comungam com os montanheses, principalmente com a Costureirinha, a filha de um alfaiate que atende aos habitantes de todas as aldeias da região e imediatamente capta as atenções dos rapazes por sua beleza. Desenha-se então uma marca indelével: o olhar em direção ao mundo se modifica, alterando também o comportamento de todos os que, de alguma forma, se vêem tocados pela literatura emanada da valise. Serão irremediavelmente diferentes as futuras páginas de suas vidas. De algum modo, a literatura os protege, forma um cerco a preservar a consciência individual, metaforizado pelo casaco do jovem narrador, no qual ele, temeroso em perder o contato com o romance, reproduz, linha por linha, o "Úrsula Mirouët" sobre o forro de pele de carneiro.

Ao embarcar nessa nova viagem do imaginário, os garotos encontram a "vivacidade" que, citando mais uma vez Calvino, pode nos fazer escapar à condenação do "peso" da vida. Curioso constatar que a grande Revolução comportou em seus escaninhos também pequeninas revoluções individuais, como estas que o livro de Sijie menciona, com a mesma leveza das histórias que fascinaram os jovens, funcionando como um escape possível para que, embora condenados inexoravelmente à opressão, lhes fosse possível vislumbrar alguma forma de liberdade.



 Escrito por Marcelo às 10h30
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Confirmando prenúncios

O genial Moidsch está de volta com seu blog.



 Escrito por Marcelo às 12h48
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Clássico

Quem gosta de fortes emoções não pode deixar de acompanhar hoje o tradicional clássico entre Flamengo e Botafogo. Em disputa, a honra de figurar na lanterna do Campeonato Brasileiro. Respeitando a memória de meu pai, nobre alvinegro (e só por este motivo), confesso que torcerei a favor da equipe comandada pelo Mauro Galvão.



 Escrito por Marcelo às 12h03
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Das Neves no CCC

Ontem fui ao show de lançamento de Brasão de Orfeu, o novo disco do mestre Wilson das Neves, no CCC. As ótimas impressões da primeira audição do cd confirmaramse plenamente. Wilson mostrou pleno domínio do palco, com bom humor e até certas trapalhadas que, ao contrário de depor contra o espetáculo, dispensou-lhe "vida", algo ultimamente bastante raro entre nosso rol de cantores virtuoses, mas sem alma e cheios de medo do erro. Arrisco-me a dizer que o novo trabalho é ainda superior ao célebre O som sagrado de Wilson das Neves, pelo menos para meu gosto pessoal. As inspiradas melodias do imperiano ganharam letras à altura de um grupo de feras, como Paulo César Pinheiro, Aldir Blanc, Cláudio Jorge e Délcio Carvalho, e os arranjos, embora contrariando minha implicância com bateria e baixo elétrico no samba, ajustam-se perfeitamente às canções. Meus destaques são a bela Imperial, parceria com Aldir, que homenageia minha escola de coração ("Beijos / a lenha antiga ardendo na fogueira / balões cruzando o céu de Madureira, / a Serra em nós nos dizendo que é imperial"), e três canções com Paulinho Pinheiro: Ensinamento ("Vou chorar o que for para chorar / Sorrir depois que a dor passar / Até cumprir minha missão / E que missão será? Sei lá"), Amor da minha vida, feita para as netas ("Tu és para mim certeza de missão cumprida / E a esperança que além da vida / Na tua vida a minha continua") e Traço de giz, que faço questão de postar inteira.

"Traço de giz"

Wilson das Neves / Paulo César Pinheiro

"As nossas ilusões

São folhas que o vento levou

Nos nossos corações

Depois que a tristeza passou

Sonhos que o amar

Secou, murchou, desfez

Projetos que não voltam outra vez

E as desilusões

Que aos poucos a brisa levou

Foram também momentos bons

Que é a gente é que desperdiçou

Todo dissabor

O tempo ameniza

Só lembrança nunca cicatriza

A ilusão de a gente ser feliz

É como um brilho de verniz

Que dura um tempo e se desfaz

Desilusão se corta na raiz

Não fica nem cicatriz

Nem um traço de giz

Nem um risco fugaz

Mas tem que se fazer o que se quis

Que a vida passa como um triz

Mas pra quem quer tudo é capaz

E é só a lembrança

Do que ficou pra trás

Que tem valor de herança

E nada mais".



 Escrito por Marcelo às 11h52
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Cursos e oficinas

 Acabo de receber a programação de cursos e oficinas da Estação das Letras para o segundo semestre. Entre os destaques, a Oficina de Ficção, com Sérgio Santanna, a Oficina do Conto, com Jair Ferreira dos Santos, Introdução à Crônica, com Maria Veronica Aguilera, Fernando Pessoa: o jogo de máscaras e a poetização da existência, com Antônio Máximo Ferraz, e Vozes da Poesia Hispano-Americana, com Adolfo Montejo Navas. Os custos estão entre R$ 100 e R$ 200. Mais informações, na página da Estação.



 Escrito por Marcelo às 11h24
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Canções no rádio

Redigindo textos e ouvindo rádio. A emisora que o pessoal aqui do Departamento de Jornalismo escolheu (soube agora, é a Paradiso FM). Entre o "mais do mesmo" habitual, uma bela seqüência do Caetano: Trem das cores, esta canção que traz uma inexplicável sensação de paz (e me lembra das férias que estão chegando... ah, o campo...), e a bela Sou você, que ele compôs para o irregular Orfeu do Cacá Diegues. A primeira já apareceu aqui no Pentimento por mais de uma vez. A segunda estréia hoje:

"Sou você"

Caetano Veloso

"Mar sob o céu, cidade na luz
Mundo meu, canção que eu compus
Mudou tudo, agora é você
A minha voz que era da amplidão
Do universo, da multidão
Hoje canta só por você
Minha mulher, meu amor, meu lugar
Antes de você chegar, era tudo saudade
Meu canto mudo no ar
Faz do seu nome hoje o céu da cidade
Lua no mar, estrelas no chão
A seus pés, entre as suas mãos
Tudo quer alcançar você
Levanta o sol do meu coração
Já não vivo, nem morro em vão
Sou mais eu porque sou você"



 Escrito por Marcelo às 16h23
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Os efeitos do McDonalds

Hoje, às 18h20, no CCBB, rolará sessão do documentário Super size me, dirigido por Morgan Spurlock, que passou um mês inteiro aomendo somente no McDonalds para conferir os devastadores efeitos do exagero de fast-food no seu organismo. Depois da exibição, haverá um debate com o próprio Spurlock. Vai lotar!



 Escrito por Marcelo às 12h56
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Sobre o crepúsculo

Curioso: sempre tive com a hora do crepúsculo uma relação dúbia. Ao tempo em que vejo enredado numa paisagem de beleza difusa, sinto-me melancólico como só. Lembro-me que, na época em que morava na Barra, costumava jogar futebol na praia ao cair da tarde. Terminado o jogo, tomado o devido banho revigorante no mar, ficava observando o sol ser engolido pelo horizonte num misto de pasmo maravilhado e tristeza sem explicação, talvez pela sensação de que "algo" se ia ali. Hoje, lendo a coluna do Paulo Pires no site No Mínimo, compreendi que este é um estado que atinge também a outras pessoas. Não deixem de ler o belo e lírico texto do Paulo, sem dúvida um dos melhores que ele já escreveu:

"Anotações sobre o crepúsculo"

Paulo Roberto Pires

"Há toda uma discussão bizantina sobre a crônica: se é gênero literário, se é carioca ou não, por que se chama assim, o que a caracteriza exatamente e se, admitindo-se que é literatura, é “maior” ou “menor”. Resolvo a história de forma mais simples, que é submeter este tipo de texto a uma prova dos noves nada universal e pouquíssimo científica: para mim, a crônica vale na medida em que o leitor se reconhece nela, encontra naquele naco de texto um flagrante qualquer de seu cotidiano imediato ou, de forma mais transcendente, de uma experiência decisiva. Isso levando em conta que a crônica parte, principalmente, de uma experiência vivida/observada pelo cronista, no fio da navalha entre o que se consegue compartilhar e uma viagem canhestra ao próprio umbigo. O pedaço de uma crônica do Arthur Dapieve, colega aqui de página, já foi parar numa letra do Aldir Blanc (“Choro réquiem”, parceria com Guinga) por refletir de alguma forma a dor que ambos dividiram com a morte da mãe.
Já faz tempo um amigo dividia comigo a angústia de encarar os fins de tarde e seu lusco-fusco, angústia reforçada quando o fim de tarde é, também, um fim de semana, domingos implacáveis que chegam rápido e custam uma eternidade para ir embora. A explicação que buscava para me tornar solidário acabou vindo, meses depois, sob a forma de textos de dois dos melhores cronistas de todos os tempos, Paulo Mendes Campos e José Carlos Oliveira, cariocas apaixonados vindos de Minas Gerais e do Espírito Santo, boêmios convictos, sensíveis ao que representa viver numa cidade cuja beleza às vezes resulta opressiva, “inútil paisagem”.
“O sol é viril, a noite é feminina, e eu não sei de onde me chega tanta incompetência de viver a hora do crespúsculo”, escreve Paulo Mendes Campo na crônica que batizou como esse momento do dia, hoje republicada em “O cisne de feltro”, volume dedicado aos textos autobiográficos em suas obras completas. “Se entro em um bar, autômato incoerente, coração de lata. Possa amar tudo, fingir-me de tudo, mas não naquela hora descompasssada do ocaso, quando não é ainda, mas é quase. Grade em todas as janelas; todas as paisagens como se fossem recordadas em aflição; todos os pensamentos contraídos; todos os sentimentos minimizados”.
Carlinhos Oliveira também não se entendida consigo mesmo e com o mundo nessa hora, sobretudo vivida no famigerado domingo. “Depois do almoço, a sesta; depois da sesta, preguiça crepuscular.(...) Ninguém faz nada. O domingo à tarde já terminou, e ainda não começou o domingo à noite. Os rádios estão ligados, as janelas estão abertas, os automóveis circulam sem destino”, descreve ele num dos textos do esgotado “Os olhos dourados do ódio”, de 1962. “De apartamentos obscurecidos emana uma tosse que revolve profundamente os brônquios. São os bêbados acordando de seu pesado sono. Acordam e tossem desesperadamente e depois bebem água gelada – uma concessão à quietude do anoitecer. Coitados dos bêbados! Domingo é para eles o dia de não ir à praia”.
Ipanema, cenário de um e de outro, insiste em contrariá-los e, há mais de 20 anos, costuma aplaudir de pé os fantásticos crepúsculos, principalmente no verão. Mudaram os crespúsculos ou os cronistas? Certamente uns e outros. Mas esta coincidência, a tal da experiência compartilhada e compartilhável, é que faz pensar sobre o que se deduz desta confissão de fragilidade. Por que, para os boêmios que ambos são – e também o meu amigo – esta é a hora que apavora? Confortável no fuso horário do álcool e da conversa esticada, das doses além da conta e dos excessos renovados a cada noite, o boêmio é mais racional do que parece quando decide trocar sistematicamente a noite pelo dia. O que ele simplesmente não consegue suportar é o momento de transição, quando não é mais dia mas ainda não é noite. (O “Aurélio” dá conta da existência, científica, de crepúsculos matutino e vespertino, mas a precisão científica vale de muito pouco para a crônica e para a vida).
A boemia tem seu tempo próprio – e não só porque ela acontece nas viradas de madrugada. O ritmo do dia é batido pelo sacrifício do trabalho ou pela angústia da falta dele. É o tempo da produção e dos horários, da impontualidade e da pressão – para muitos dos boêmios, jornalistas, tudo isso se incorpora nos deadlines – e do atraso permanente, de nascença. Na noite, onde a relatividade é radical, horas e minutos encolhem ou se estendem em cada um, no pique da conversa, da embriaguez, de amores doídos e passados, de perspectivas fugazes. Entre os copos e os amigos falsos e verdadeiros, a única coisa que se acumula é o desperdício e a economia possível é a dos excessos. Nesta dimensão, diametralmente oposta ao tempo ordenado pelo trabalho e pela família, quando há um e outro, o boêmio encontra sua estabilidade peculiar, cimentada pelo desregramento mais ou menos relativo.
Quando troca o dia pela noite e testemunha, alegre ou triste, o sol ou o céu cinza chegarem no horizonte, o boêmio está de certa forma redimido: missão cumprida, mais uma noite desperdiçada na velocidade dos prazeres mais primários, solitário em Copacabana como Antonio Maria a descreveu, povoado de gordos que fazendo ginástica na praia deserta podem expor-se sem medo do ridículo e sem a pressão dos padrões estéticos. As horas que se seguirão são, de certa forma, um porto seguro, seja na obrigação da recuperação para encarar o dia produtivo ou no alívio ambíguo de ser derrotado por uma ressaca.
Só o crepúsculo pode acabar com esse equilíbrio. Primeiro, porque traz em si uma carga simbólica de decadência, fim, lento desmoronar, oposto simétrico às perspectivas, boas ou não, de uma nova jornada. A chegada da noite, naquele momento em que dissolve os últimos claros do dia, é ambígua, pois representa, a um só tempo, o alívio com o fim das obrigações e a angústia pelo desperdício: o que trará mais esta noite? o que o seu “feminino”, como diz PMC, pode reservar com seus mistérios? Mas esta angústia é, paradoxalmente, a única certeza que têm os solitários (mesmo acompanhados) que insistem quixotescamente em bagunçar calendários e hierarquias. No crepúsculo, todas estas dúvidas se impõem e radicalizam. E só ele as faz, de alguma forma, valerem a pena."



 Escrito por Marcelo às 12h45
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Enquete

Colaborando para o Jaburu, vamos lá: qual o pior livro que você leu no último ano?

P.S. Vale citar amigos, tá? (rs)



 Escrito por Marcelo às 12h31
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Brilho eterno de uma mente sem lembranças

Um dos mais belos filmes já feitos sobre o amor. Definição apressada? Não creio. Brilho eterno de uma mente sem lembranças foge totalmente aos usuais esquemas do "filme sentimental", principalmente devido ao roteiro inquieto do sempre criativo Charlie Kaufman (de Quero ser John Malkovich), e nem por isso é menos romântico. Embora a direção seja do francês Michel Gondry, os traços de Kaufman estão claramente presentes: fragmentação na narrativa, fusão entre tempos presente e passado, elementos que, a partir de uma montagem precisa, ajudam a atirar o espectador num estado de confusão semelhante ao vivido pelo protagonista do filme, vivido com brilhantismo (e poucas caretas) por Jim Carrey.

Dois textos inspiraram Kaufman a escrever o roteito. O primeiro foi o poema "Eloisa to Abelard", de Alexander Pope, que comenta o caso verídico de um teólogo de 38 anos com uma jovem de 18, e do qual sai o título ("Feliz é o destino da inocente vestal/ Esquecida pelo mundo que ela esqueceu/ Brilho eterno da mente sem lembrança!"). O segundo, uma frase do filósofo alemão Friedrich Nietzsche (1844-1900): "Abençoados os que esquecem, porque aproveitam até mesmo seus equívocos".

Ambos aparecem no filme em certo momento, cuja premissa já é ótima: um casal apaixonado se separa. Ela, então, decide apagar todas as lembranças que tinha do relacionamento, a fim de não sofrer com a separação. Ao ver o que a ex-namorada fez, o rapaz segue o mesmo caminho. Só que, durante o processo de "apagamento", arrepende-se. E o que assistimos então é a luta dele por evitar que belas e importantes recordações simplesmente sumam de sua mente. Mais do que uma crítica à verdadeira indústria do prazer, que promete nos redimir de qualquer dor através da química e da tecnologia, o filme funciona como um libelo em favor da memória. Neste sentido, muito precisa foi a citação do crítico Ricardo Kalil, em sua resenha para o site No Mínimo. Kalil recorre a Buñuel, que afirmou: “É preciso começar a perder a memória para perceber que é justamente essa memória que faz toda a nossa vida. Uma vida sem memória não seria uma vida, assim como uma inteligência sem possibilidades de se exprimir não seria uma inteligência. Nossa memória é nossa coerência, nossa razão, nossa ação, nosso sentimento. Sem ela não somos nada”.



 Escrito por Marcelo às 11h26
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Prêmio Jaburu

O Marcelino Freire, confrade escritor e titular do Era O Dito, manda email avisando que acaba de reinstituir o Prêmio Jaburu de Prosa e Poesia (uma brincadeira com o "oficial" Jabuti). Algumas das regras:

  1. Não existem cláusulas.
  2. E nem lista de obras.
  3. Você é quem vota no livro que quiser, indicando o título e o autor no linque Comentar (lá no blog dele).
  4. Não seja ingênuo(a): não precisa se identificar com o seu verdadeiro nome. Invente um e saravá! No júri do Jabuti também é assim, quem saberá?
  5. E o melhor: você não precisa ter lido o livro para votar no Prêmio Jaburu. Oh, yeah! No Jabuti parece que também é assim, não é? Vale lembrar o meu respeito por todos os ganhadores do Jabuti (alguns merecem). E, previamente, pelos ganhadores do Jaburu (alguns merecem). E pelos perdedores dos dois Prêmios, uhhh!
  6. Só não vote nos meus livros, por favor. Não vale também votar nos do Ronaldo Bressane, pô! E em ninguém da Geração. Vão dizer que é proteção.
  7. Premiaremos os três piores livros. E atenção: mesmo que eles já tenham sido premiados no Jabuti. Ou que tenham sido publicados neste ou em outro ano. Ou livros ainda a serem publicados. Por exemplo: você pode votar no novo do Veloso, o Caetano. Ou no próximo do Saramago. Tudo vale a pena quando a grana é pequena. Eta danado!
  8. O livro que tirar em primeiro lugar no Jaburu ganhará, além de troféu, um real em dinheiro.
  9. O resultado sairá daqui a uma semana. Ou mais.
  10. Mais uma coisinha: Jaburu é uma ave, de grande porte, que vive em grandes rios e lagoas, preferindo os pantanais. Alimenta-se de peixes e de outros animais. Jaburu, idem, é o nome que se dá a uma pessoa desajeitada, mal-amanhada, feiosa e esquisita. Para quem e por quem está definitivamente reinstituído, neste dia 26 de julho de 2004, o Prêmio Jaburu de Prosa e Poesia.


 Escrito por Marcelo às 11h20
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Mortalidade

"(...) A imortalidade é irrelevante; deste lado da morte é a mortalidade que cintila: saber-me mortal dava densidade e cor às pedras do meu caminho; porque eu era mortal, a lua lembrava-me o amor e o mistério, e no céu inundado de estrelas estremecia o meu desejo de futuro. A única substância incompreensível é a mortalidade, que só o ser humano conhece".

Belo, belo, belo este trecho de um livro da portuguesa Inês Pedrosa. Conheci-o hoje, ao ler Pão físico, de Fernanda Benevides de Carvalho, que o escolheu como epígrafe de seu conto na coletânea 25 mulheres que estão fazendo a nova literatura brasileira.

P.S. O quadro é Frágil, de Armando Lara



 Escrito por Marcelo às 18h11
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Dona Ivone

Embora não traga novidades, vale conferir a entrevista que o jornalista Pedro Alexandre Seixas fez com Dona Ivone Lara, publicada na Folha On Line. A íntegra do texto está aqui. Abaixo, um trecho:

"(...) Em 1965, fui convidada para ser parceira de Silas de Oliveira num samba-enredo, "Os Cinco Bailes da História do Rio". Todo ano o Império Serrano apresentava novidades, e naquele ano a novidade ia ser uma mulher sendo parceira num samba-enredo. Jorge Goulart, com aquele vozeirão, saiu puxando o samba. E nós ganhamos."



 Escrito por Marcelo às 15h02
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Solidariedade a Delmiro

Está circulando pela internet um email do Moacyr Luz, fazendo uma convocação geral para o show em solidariedade ao mestre do violão Hélio Delmiro, que enfrenta sérios problemas e necessita de ajuda. O espetáculo acontecerá no dia 3 de agosto, às 21h, no Teatro João Caetano, e contará com a participação de um time de primeira. Além do próprio Moacyr, estão confirmados Guinga, Jards Macalé, Zé Renato, Wagner Tiso, Victor Biglione, Fátima Guedes, Marco Pereira, Yamandú Costa, Leila Pinheiro, Cristovão Bastos, João Lyra, Nana Caymmi, Quarteto Maogani, Trio Madeira Brasil, Aldir Blanc, Wilson das Neves e Paulão Sete Cordas. Ingressos a R$ 20,00.

P.S. A foto acima foi tirada pelo Paulo Eduardo Neves, da Agenda do Samba e do Choro



 Escrito por Marcelo às 12h41
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Jurujuba

 

Dois registros do passeio em Jurujuba, ontem. Na primeira foto, a praia. Na segunda, detalhe do sol se pondo em contraste com um dos canhões da Fortaleza de Santa Cruz.



 Escrito por Marcelo às 12h17
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Escritores

"Os homens escrevem ficções porque estão encarnados, porque são imperfeitos. Um Deus não escreve romances."

Ernesto Sabato, in O escritor e seus fantasmas


Lembrando de ontem, o Dia do Escritor, minha homenagem aos amigos Flavio Izhaki, Henrique Rodrigues, Adriana Lisboa, JP Cuenca, Sidney Silveira e Cecília Giannetti, entre tantos que se dedicam a tentar verter seus mundos em palavras...



 Escrito por Marcelo às 11h42
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Mestre Wilson

Letras inspiradíssimas de Paulo César Pinheiro, arranjos simples e eficientes... o novo disco do mestre Wilson das Neves está mesmo uma beleza. E o melhor de tudo é que hoje e amanhã o imperiano estará no Centro Cultural Carioca mostrando o novo trabalho. Não dá para deixar de ir!



 Escrito por Marcelo às 11h15
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"Pipi show"

No próximo sábado, o sebo Baratos da Ribeiro vai sediar a segunda edição do inusitado Pipi show literário organizado pela Mara Coradello. Durante o evento, diferentes escritores, encerrados em cabines, lêem textos de sua lavra. "Livros quase de graça, descontos, roquenrol ao vivo, batucada, leituras, cerveja, catuaba, pipoca, cuspidores de fogo, contorcionistas e até engolidores de espada. São diversas atrações ao longo da noite com discotecagem até a hora que a prefeitura permitir", garante a matéria publicada na Paralelos. A festa começa às 17h. A Baratos da Ribeiro fica na Rua Barata Ribeiro 354 - Copacabana.



 Escrito por Marcelo às 11h09
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Bettega

Como já havia adiantado aqui, a última edição do caderno Prosa & Verso trouxe resenhas minha e do amigo Sidney Silveira. Para quem não pôde conferir meu texto, aí vai ele:

Eterno movimento do círculo


Os lados do círculo, de Amilcar Bettega Barbosa.Companhia das Letras, 160 pgs. R$ 32

Marcelo Moutinho

Mestre do gênero, Cortázar comparava o conto à imagem do círculo, forma geométrica perfeita, em que um ponto não pode se separar da superfície total. Diferentemente do romance, cujas possibilidades de bifurcação e abertura de novos campos revelam-se ilimitadas, ao conto não bastaria uma trama interessante: seria preciso enredá-la dentro de tal esfera. A tese de Cortázar semeia as 12 breves narrativas que compõem "Os lados do círculo", terceiro livro do gaúcho Amilcar Bettega Barbosa.
Dotado de impressionante organicidade, o novo trabalho de Bettega funde-se acima de tudo nos vasos comunicantes que os contos estabelecem entre si, encenando uma mímesis possível do movimento do círculo, cuja linha percorre infinitamente o mesmo trajeto. A proposta fica evidente na própria estrutura da obra, erigida sobre ciclos que se encerram e recomeçam, como um moto-contínuo: os capítulos inicial e final trazem a palavra "puzzle" em seu título, e os dois ajuntamentos de contos que completam o livro — chamados pelo autor de "Um lado" e "Lado um" — sugerem, tal um espelho, reflexos invertidos de um elemento comum. Nesse jogo, as peças estão nas mãos do leitor: cada um à sua maneira deve procurar (e estabelecer) ligações entre os textos.
A evidente conexão com o legado de Cortázar, contudo, não se limita ao aspecto formal. Assumindo sem rodeios a influência, Bettega chega a transformá-lo em personagem de um dos contos. "A/c editor cultura segue resp. cf. solic. fax", estruturado numa série enumerada de respostas a um jornalista, alude ao suposto encontro entre o protagonista e o ficcionista portenho. "Quando conheci Cortázar eu já o imitava", admite o narrador, que oferece uma chave possível para se compreender na essência os afetos que unem as escrituras de Bettega e do argentino ao eleger, entre as razões pelas quais o "imita", a ânsia por romper "com os códigos puídos de uma tradição literária por vezes conservadora e até reacionária, aferrada quase sempre a um realismo ilusório, que muito mais ocultava do que revelava a verdade das coisas". Aqui, como em outras partes de "Os lados do círculo", autor e personagem se confundem, pois tal ânsia também move Bettega. E não é de hoje.
Se em "Deixe o quarto como está", livro anterior, ele apostava no insólito para asseverar seu questionamento sobre a obediência cega a uma idéia de "real" que comporta permanentemente uma "falta", e nunca nos redime, na nova seleta, com intuito similar, o fantástico dá lugar à multileitura, à constante reordenação. A gênese é apresentar as várias possibilidades narrativas que uma história comporta.
Algumas vezes, tal prática dá-se entre textos diferentes — caso de "A próxima linha" e "The end". Embora separados por algumas páginas e narrados de modo distinto — o primeiro com diálogos embaralhados, numa diagramação que obriga o leitor a "montá-los"; o segundo, num trajeto mais linear —, ambos vislumbram um único acontecimento, experimentado pelos mesmos personagens. Noutras, como no ótimo "Círculo vicioso", a cadeia fecha-se dentro da própria narrativa — início e fim deslocam-se e voltam a se encontrar como uma cobra que morde o próprio rabo.
Mas todos os expedientes citados denotariam apenas "mais do mesmo" se Bettega não conseguisse encontrar uma simbiose afinada entre as formas (o plural aqui é necessário) e o conteúdo. Remetendo à Porto Alegre soturna esboçada por alguns de seus pares, como João Gilberto Noll e Caio Fernando Abreu, os personagens do livro parecem dominados pela apatia melancólica de quem tateia "sentidos" que ficaram estagnados em algum lugar ou momento pretérito. Aparentes tentativas de escape passam pela reordenação, seja do passado idílico da juventude (nos dois "Puzzle"), seja dos relacionamentos amorosos ("Crônica de uma paixão") ou, mais prosaicamente, apenas dos móveis da casa ("Mano a mano"). Buscas por novas configurações, em geral. Inventários sobre perdas, quase sempre.
Não por acaso na maioria dos textos a noite desponta como cenário preferencial. Ambígua, a escuridão enseja "uma espécie de ausência" que apaga "as formas das coisas", e nela os personagens de Bettega vagam como "débeis faíscas", esgarçando suas ilusões. Assim o fazem os jovens que promovem misteriosas reuniões à beira do Guaíba, numa brincadeira aleatória na qual procuram "dialogar com o outro, com o vizinho, (...) com o ser invisível que passa o jornal por baixo da tua porta todas as manhãs", e tentam vislumbrar algum jeito de "se acharem vivos". Os mesmos amigos, já não tão jovens, retornarão nas últimas páginas personificados em recortes de papel que guardam "pedaços de vida", "gritos de socorro", ou "retratos falsificados, meras tentativas, inúteis, de dar sentido àquelas vidas", como um "puzzle a ser formado".
Na epígrafe do livro, Amaro Barros assinala que o "esforço inútil para ir a qualquer lugar" explica-se porque, "com seu centro fixo, um quadrado em movimento gera o círculo que o aprisiona". Movimento que encerra, portanto, um eterno retorno, sinalizado com nitidez por todo o livro e ainda mais nas palavras do repórter protagonista de "Círculo vicioso". Ao desenhar uma linha sobre a folha de papel, ele digressiona: "Eu poderia continuar traçando esta linha indefinidamente (...), acabaria a página mas eu seguiria riscando sempre em linha reta, acabaria o território da cidade, do país, mas eu seguiria, cruzaria os campos e as coxilhas, depois as montanhas, os mares, sempre à frente através da superfície terrestre. Parece um caminho infinito mas na verdade há um fim: quando eu terminar a volta e chegar de novo aqui, (...) nesta página, no mesmo ponto onde comecei. Só que aí, com o círculo fechado, já não há mais início nem fim, e eu fico perdido no meio do trajeto, preso, não no meio do círculo mas no próprio círculo, como um elemento dele". Eis o drama de Bettega. E, por que não?, também o nosso.



 Escrito por Marcelo às 11h08
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Versos budistas

 

Hoje, lembrei dos belos versos budistas do Renato Russo:

"Toda dor vem do desejo de não sentirmos dor"



 Escrito por Marcelo às 17h56
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Circo

Promete bastante o espetáculo Faz parte do meu show, que vai rolar amanhã no renovado Circo Voador. Será uma apresentação em homenagem ao saudoso Cazuza, com a participação de Lobão, Guto Goffi, George Israel, Maurício Barros, Nilo Romero e Arnaldo Brandão, além de Daniel de Oliveira, ator que interpreta o músico no filme de Sandra Werneck. No espaço batizado de Plataforma Voadora, haverá apresentação teatral/poética/musical de textos de Cazuza com o grupo formado por Demétrius Gomes (guitarra), Maria Raquel Hernandez (interpretação) e Rodrigo Pacato Machado (percussão). Ingressos a R$ 24.

Agora fiquei no dilema: Circo ou Brazooka?

Atualizando: vou ao Circo mesmo. Monica e Anne já confirmaram. Alguém mais no barco? Concentração no Capela às 21h...



 Escrito por Marcelo às 13h09
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O "pressentimento" da Áurea

Ontem, no Carioca da Gema, fui apresentado pelo Pepê à simpaticíssima Áurea Martins. Em certo momento do show, ela resolveu homenagear Elton Medeiros, que aniversariava. Foi de emocionar pedra a interpretação de Pressentimento, pérola de melodia sinuosa e bela letra que Elton criou ao lado de Hermínio Bello de Carvalho.

"Pressentimento"

Elton Medeiros/Hermínio Bello de Carvalho

"Ai, ardido peito
Quem irá entender o teu segredo
Quem irá pousar em teu destino
E depois morrer do teu amor

Ai, mas quem virá?
Me pergunto a toda hora
E a resposta é o silêncio
Que atravessa a madrugada

Vem, meu novo amor
Vou deixar a casa aberta
Ja escuto os teus passos
Procurando o meu abrigo

Vem, que o sol raiou
Os jardins estão florindo
Tudo faz pressentimento
Este é o tempo ansiado
De se ter felicidade"



 Escrito por Marcelo às 12h02
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Prosa & Verso

A se confirmar a pauta programada, amanhã estarei no caderno Prosa & Verso (O Globo) em ótima companhia. O amigo Sidney assina a resenha de capa sobre o livro Contos amazônicos, de Inglês de Souza. Os bem escritos textos do Sid são sempre um prazer para quem os lê e uma razão para se refletir. Na parte interna, estará uma resenha minha, analisando o ótimo Os lados do círculo, de Amilcar Bettega Barbosa.



 Escrito por Marcelo às 11h39
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Só pode ser ironia

Dava uma limpeza na minha pasta hoje e o que encontrei? Um pãozinho de Santo Antônio acondicionado em plástico, que ganhei no dia 9 de junho, quando fui visitar a Igreja em festa. A foto acima, tirei no dia da visita...



 Escrito por Marcelo às 20h04
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Superbrazooka

Sábado, no recém-aberto Teatro Odisséia, rolará mais uma edição da Superbrazooka. Os trabalhos começam às 23h e, além do Janot nas carrapetas, haverá show do grupo Empolga à 9. O Teatro Odisséia fica na Avenida Mem de Sá, 66 (após os Arcos da Lapa, ao lado do Circo Voador). Ingressos a R$ 16,00 e R$ 12,00 (com filipeta ou imprimindo o post que o Janot colocou na página da Brazooka). Estarei lá!



 Escrito por Marcelo às 19h40
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Mais um link

Hoje o Pentimento ganha mais um link entre seus indicados. É o blog Meu outro eu, da Luiza Porto. Música, cinema e cultura em geral, comentados com muito charme - e sempre guardados por dois intensos olhos azuis...



 Escrito por Marcelo às 18h56
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Reminiscências

Um dos belos momentos do show da Mônica Salmaso no Café Paraty, durante a Flip. Fui transportado no tempo para uma tarde de chuva...

"Senhorinha"

Guinga e Paulo César Pinheiro

"Senhorinha
Moça de fazenda antiga, prenda minha
Gosta de passear de chapéu, sombrinha
Como quem fugiu de uma modinha

Sinhazinha
No balanço da cadeira de palhinha
Gosta de trançar seu retrós de linha
Como quem parece que adivinha (amor)

Será que ela quer casar
Será que eu vou casar com ela
Será que vai ser numa capela
De casa de andorinha

Princesinha
Moça dos contos de amor da carochinha
Gosta de brincar de fada-madrinha
Como quem quer ser minha rainha

Sinhá mocinha
Com seu brinco e seu colar de água-marinha
Gosta de me olhar da casa vizinha
Como quem me quer na camarinha (amor)

Será que eu vou subir no altar
Será que irei nos braços dela
Será que vai ser essa donzela
A musa desse trovador

Ó prenda minha
Ó meu amor
Se torne a minha senhorinha"



 Escrito por Marcelo às 16h07
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Sobre rios e barcos

Por esses dias, o Felipe K., em seu La Vie En Blues, comentou a respeito do excepcional Primeiras estórias, de Guimarães Rosa. O livro traz um dos meus textos preferidos: A terceira margem do rio. Ontem mesmo fui dar uma olhada no conto que fala sobre o pai que abandona a casa, passando a viver numa canoa sobre o rio. Às vezes, a retirada encerra também uma fuga de si mesmo. Selecionei um trecho:

"(...) Por pavor, arrepiados os cabelos, corri, fugi, me tirei de lá, num procedimento desatinado. Porquanto que ele me pareceu vir: da parte de além. E estou pedindo, pedindo, pedindo um perdão. Sofri o grave frio dos medos, adoeci. Sei que ninguém soube mais dele. Sou homem, depois desse falimento? Sou o que não foi, o que vai ficar calado. Sei que agora é tarde, e temo abreviar com a vida, nos rasos do mundo. Mas, então, ao menos, que, no artigo da morte, peguem em mim, e me depositem também nunca canoinha de nada, que não pára, de longas beiras: e, eu, rio abaixo, rio a fora, rio a dentro o rio"



 Escrito por Marcelo às 13h19
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Piada?

"Dimba terá tratamento diferenciado, como o Romário no Fluminense e o Petkovic no Vasco".

Paulo Dantas, vice-presidente de futebol do Flamengo, em comparação "inspirada".



 Escrito por Marcelo às 11h59
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Show do Toni

Hoje acontece uma das últimas apresentações do show Déjà Vu, do parceiro tricolor e gente muito boa Toni Platão, no Madame Vidal. Toni empresta seu vozeirão a algumas das melhores canções de Paralamas, Legião, U2, REM, entre outras. Vale a conferida.



 Escrito por Marcelo às 11h54
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Constatação

Definitivamente, a inteligência é mesmo uma forma de beleza.



 Escrito por Marcelo às 11h11
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"os poemas respiram nas prisões"

"Máquina de escrever"

Mathilda Kóvak / Luís Capucho

"Meu coração é uma máquina de escrever
as paixões passam
as canções ficam
os poemas respiram nas prisões
pra valer um verso, ouvir, escutar
meu coração falar
até se calar a pulsação
meu coração é uma máquina de escrever
no papel da solidão
meu coração é
da era de Guttemberg
meu coração se ergue
meu coração é
uma impressão
meu coração
já era
quando ainda não era
a palavra emoção
mas há palavras no meu coração
letras e sons,
brinquedos e diversões
que passem as paixões
que fiquem as canções
nos poemas, nos batimentos
das teclas da máquina de escrever
Ilusões
meu coração é uma máquina de escrever
basta você bater
pra entrar na minha história"



 Escrito por Marcelo às 10h57
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Poesia no caos

"Onde será que isso começa
A correnteza sem paragem
O viajar de uma viagem
A outra viagem que não cessa
Cheguei ao nome da cidade
Não a cidade mesma espessa
Rio que não é Rio: imagens
Essa cidade me atravessa"

No final da tarde de ontem, seguia para uma reunião na Lapa quando me deparei com um natural engarrafamento. Ali, de dentro do carro, pude flagrar esta cena. É um pequeno recorte poético no ambiente caótico da cidade, possibilitado pelas facilidades de uma máquina digital.



 Escrito por Marcelo às 10h18
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Para quem gosta de Astrologia

Uma ótima dica passada pela Mariana Newsland, aliás, é o site Astros, no qual você registra sua data e hora de nascimento e pode acessar gratuitamente comentários sobre seu mapa todos os dias.



 Escrito por Marcelo às 18h09
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Blog do Cravo Albim

A página do Dicionário Cravo Albim de Música Popular Brasileira disponibiliza agora um blog, com informações diárias sobre o que acontece na área. Acesse o blog aqui.



 Escrito por Marcelo às 17h58
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Show, revista e Estrela da Lapa

Como poderia imaginar que a vontade de postar viria tão rápido? Chegou junto com a fome, que andava em falta, e uma disposição redobrada. Ontem assisti ao divertido show de lançamento do disco Dois bicudos, dos amigos Pepê e Alfredão. O CCC estava totalmente lotado, cheio de celebridades – Francis Hime, Zélia Duncan, Geraldinho Carneiro, Paulo Cesar Pinheiro são apenas alguns exemplos – e de gente conhecida, todos prestigiando o espetáculo da dupla, que privilegiou o repertório do cd. Fica claro que houve muito garimpo na seleção das músicas, bastante adequadas ao canto a dois. Tenho que confessar que, para mim, algumas das canções inéditas não estão à altura de outras obras de seus autores, mas o balanço geral é extremamente positivo, principalmente graças ao desempenho gaiato do Pepê e do Alfredão, sempre afinados, e aos arranjos inspirados de Maurício Carrilho, Paulão Sete Cordas e Paulo Aragão, entre outros. Ainda no CCC, uma boa notícia: o projeto de relançar a revista Roda de Choro, que o designer Egeu Laus editava nos anos 80. O próprio Egeu, a Monica Ramalho (comigo na foto acima) e eu tentaremos levar o barco à frente e desde já contamos com a ajuda de amigos colaboradores.

Após o show, conferi a inauguração do Estrela da Lapa, que pretende ser uma espécie de Canecão do Centro da cidade. As perspectivas não me parecem promissoras: um tom excessivamente "luxuoso", à beira do cafona, é a marca do lugar, cuja abertura oficial se dará com um show de Fafá de Belém (???) no próximo dia 29. Valeu pelas companhias do Janjão, sempre figura, do Paulo, da Chris e do Marcos Fernando.



 Escrito por Marcelo às 17h22
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Paraty, por Mariana

 

A Paralelos traz uma edição especial com contos novos, textos com a impressão de alguns escritores sobre a II Flip e uma mostra de fotos absolutamente linda sobre o evento. A fotógrafa foi a discreta e simpaticíssima Mariana Newsland, que tive o prazer de conhecer pessoalmente lá. Quando a via clicando aqui e ali, não poderia imaginar que o resultado ficasse tão bacana. Confiram, porque as fotos de cima são só uma palinha...



 Escrito por Marcelo às 14h08
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Roberto Ribeiro

Minhas duas vozes masculinas preferidas no samba são as de João Nogueira e Roberto Ribeiro. Aprendi a gostar de ambos com meu pai, que colocava as fitas k7 no som do carro enquanto levava a mim e a meus irmãos para a escola. A loja do velho ficava pertinho da quadra do (hoje também meu) Império Serrano, e era no boteco ao lado que ele de vez em quando tomava "uma" com o Roberto Ribeiro. Gostava de um chope que costumava chamar, sei lá por qual razão, de "Jacerapaguá". Era metade claro, metade escuro, na pressão.

Já com o pai doente, pensei para encontrar uma coletânea do Roberto Ribeiro em cd (esta aí da foto) e presenteá-lo. Assim que ganhou, ele pôs o disco para tocar, e seu rosto ganhou contornos de inequívoca felicidade. Meu velho morreu um pouco mais feliz do que estivera durante quase toda a vida. Conseguira reconciliação com tantas pessoas que brigara, e recebia o carinho da família, talvez como nunca antes. Quase sempre a proximidade do fim ajuda a desmontar as barreiras construídas pela mágoa, ou pelas idiossincrasias tão caras a quem se ama. Era em momentos como este, da entrega do disco, que eu refletia sobre o tanto que ele sofrera, em silêncio. E era nesses momentos também que flagrava um guizo de alegria soar por detrás daqueles óculos baratos e daqueles olhos já tão miúdos. E isso era bom para mim.

Hoje, se vivo, Roberto Ribeiro faria aniversário. Em homenagem a ele e a meu pai, que me ensinou esta, além de tantas outras lições (ainda que por contraste), uma canção que o sambista gravou:

"Liberdade"

Ivone Lara / Délcio Carvalho

"Liberdade, desfrutei

Conheci quando na minha mocidade

A ternura de um amor sem falsidade

Procurando sempre a felicidade, eu cantava, eu sorria

Tudo que sonhei

Mas depois que me escondeu a realidade

Foi o fim da ilusão


E agora, dessa recordação

Um gesto de perdão, que eu não quis

Tudo o que é feliz não tem direito à eternidade

Porque sempre chega a vez

De entrar em cena a saudade

Das ondas dessa desilusão

Existe uma lição que eu não fiz

O remorso traz aquela triste melodia

Que me faz infeliz"



 Escrito por Marcelo às 12h50
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O Orkut é pop!

Hoje constatei definitivamente que o Orkut é a coisa mais "pop" da internet. Achei lá simplesmente a Lilian, minha ex-namorada, que tinha alergia a qualquer referência à grande rede virtual. Estou pasmo!

 Escrito por Marcelo às 11h10
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Alfredão e Pepê n' O Globo

Depois do Tárik de Souza, no JB de ontem, é o João Pimentel, o nosso Janjão, que joga seus confetes sobre o disco da dupla Alfredão e Pepê. A matéria publicada no Segundo Caderno (O Globo) de hoje confere cinco cubinhos (avaliação máxima) ao disco dos dois, que, aliás, é resenhado em companhia ilustre: mestre Wilson das Neves e Dona Ivone Lara, dois imperianos queridos. Uma foto simpática dos amigos enfeita a página. Hoje estarei no CCC conferindo o show de lançamento. Um trecho do texto:

"(...) Dos lançamentos o que mais chama atenção é o “Dois bicudos”, dupla formada pelos jovens Pedro Paulo Malta e Alfredo Del-Penho. O disco que integra a primeira leva de discos do Quelé — selo resultante de uma parceria entre a Acari Records e a Biscoito Fino — é fruto de um estudo profundo dos cantores sobre a tradição de duplas como Mário Reis e Francisco Alves; Cyro Monteiro e Dilermando Pinheiro; Wilson Batista e Erasmo Silva. Mais do que pesquisar um repertório, Malta e Del-Penho, este um violonista de primeira, desenvolvem a técnica, nada fácil, por sinal, de contracanto e segunda voz. Apesar de um certo saudosismo no conceito, o trabalho é moderno e o repertório, irrepreensível. Os jovens cantores provam que a Lapa não vive apenas do talento da badalada Tereza Cristina. São consistentes ao se alternarem nas vozes de clássicos como “Tudo que você diz”, de Noel Rosa, e “Foi uma pedra que rolou”, de Pedro Caetano, e de novidades como a deliciosa “Baile no bola”, de Maurício Carrilho e Paulo César Pinheiro. Destaque também para a participação do Regional Carioca, formado por jovens talentosos como o clarinetista Ivan Mendes e a cavaquinista Ana Rabello Pinheiro. (...)" 



 Escrito por Marcelo às 09h59
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Sol

Só para abrir um sol inesperado no meio desse dia frio e chuvoso... :)  Meu Deus, como essa menina é linda! 



 Escrito por Marcelo às 18h33
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Bar Balcão

Aproveitando o mote do lançamento de um livro comemorativo sobre o estabelecimento, o Paulo Roberto Pires fala em sua mais recente coluna no site No Mínimo sobre o Bar Balcão, que fica na agitada Vila Madalena, em São Paulo. Recentemente, tive a alegria de conhecer o lugar, que tem ótimos chopes claro e escuro e um pastel de bobó de camarão simplesmente espetacular. O Balcão é um bom exemplo de que não é só no Rio que há bons bares. E uma boa dica para o Guiu, a Gi, a pops e o Guy Correia (os dois andam sumidos...), e também para a Manoela, que está na cidade a trabalho... Um trecho da coluna do Paulo:

"(...) O Bar Balcão é auto-explicativo: trata-se de um enorme e sinuoso balcão cercado de bar por todos os lados. Nas contas de Roberto Comodo, um dos colaboradores do livro, são 40 metros de balcão capazes de acolher 60 pessoas, que ficam ali se olhando como se estivessem numa imensa mesa coletiva. Este um dos principais encantos do bar, a sensação de estar cercado de amigos que você não conhece – ou ainda vai conhecer.
Pelos autores-convidados tem-se uma idéia das tribos: escritores, cineastas, arquitetos, jornalistas (muitos), editores, livreiros, artistas plásticos. Ou seja, o elenco que faz tradicionalmente a boemia militante em qualquer cidade, que faz da noite e suas relações inusitadas parte integrante do trabalho – precisamente porque tem o trabalho como parte fundamental da vida. Quem acha chato tamanha concentração de intelecas também pode se divertir, pois por sua geografia o Balcão permite assistir, de camarote, a estas e outras comédias da vida privada (...)"



 Escrito por Marcelo às 14h26
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Da série 300 toques - Número 7

Leme

A chuva fina reveza-se com o limpador em movimentos lentos sobre o pára-brisa. Na praia do Leme, a palidez da areia, o mar acizentado, o céu oblíquo. Ninguém. Entre bancos e mastros de vôlei, o laranja das lixeiras destoa. Caixotes para o que já não serve. Vazios. O contraste é sua imensidão.



 Escrito por Marcelo às 11h07
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A amiga Mônica Ramalho anuncia em seu blog que muito em breve acontecerá o lançamento do livro Cartola, escrito pela própria. A tarde de autógrafos, cuja data será avisada aqui logo que a Mônica souber, vai rolar na Livraria Folha Seca, que fica na Rua do Ouvidor.



 Escrito por Marcelo às 10h43
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Comentários

Ontem conversava com minha irmã e fiquei sabendo que uma amiga lá do trabalho dela costuma visitar o Pentimento, sem comentar. Pelo número de pessoas que entra aqui diariamente, posso perceber que não se trata de um caso isolado. Seja por timidez ou outro motivo, preferem não se manifestar, limitando-se a ler o que foi postado. Bom, então este é um recado para os "silenciosos": uma das coisas mais bacanas em se manter um blog é justamente sentir o feedback que os posts foram capazes de causar. Portanto, Ana Luiza (amiga da minha irmã) e cia: estejam à vontade... 

 Escrito por Marcelo às 10h21
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Dois bicudos

A boa de amanhã é prestigiar os amigos Pepê e Alfredão no espetáculo de lançamento do disco Dois bicudos não se beijam. O evento acontece no Centro Cultural Carioca, a melhor casa de shows do Centro, e o cd traz canções de Geraldo Pereira, Paulo Cesar Pinheiro, Maurício Carrilho e Pedro Amorim, mesclando músicas já gravadas com inéditas. Quem os acompanhará será o sexteto de Maurício Carrilho, composto pelo próprio (violão de 7 Cordas), Luciana Rabello (Cavaquinho), Pedro Amorim (Bandolim e Percussão), Paulino Dias (Percussão), Franklin Da Flauta (Flauta em Dó e em Sol), Pedro Paes (clarinete), Thiago Lima (percussão) e Rui Alvin (Clarone e Clarinete). A entrada custa apenas R$ 10,00, menos do que um cineminha...



 Escrito por Marcelo às 10h16
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Prédio Verde

Ontem me surpreendi ao encontrar no Orkut a comunidade Prédio Verde. A idéia é reunir gente que costumava (ou costuma) ir à praia em frente ao Posto 2 da Barra, um trechinho aprazível do Jardim Oceânico onde morei por mais de 20 anos. O bairro concentrava pouca gente... Jogávamos bola em rua de terra e terreno baldio, pescávamos pampos e siris no fim de tarde (cozinhávamos no trailer de um amigo. Aliás, alguém lembra dos trailers? Eram, digamos, uma espécie mais primitiva dos "quiosques"), comíamos Big Bog depois das peladas e, já mais crescidinhos, tomávamos cerveja no Maracujina (que, por sinal também já tem sociedade no Orkut). Foi lá ainda que fizemos um movimento ecológico, que consistia na coleta do lixo da praia pelos própros moradores. Claro, ganhamos logo o apelido de "lixeiros". Foi uma imensa alegria rever tantos rostos conhecidos, ainda que via internet... Na verdade, eu poderia ser sócio-emérito da comunidade, porque não só ia à praia na área, como residi quase todo esse tempo no próprio Prédio Verde, que nos anos 70 servia como referência a Barra em razão de sua altura. Hoje, se comparado aos arranha-céus dos condomínios fechados, o edifício é fichinha... E aquele charme provinciano, infelizmente o bairro já perdeu. 



 Escrito por Marcelo às 18h53
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"Manda teus sinais"

"Contos da lua vaga"

Beto Guedes / Marcio Borges

"Esperança viva
Que o sangue amansa
Vem lá do espaço aberto
E faz do nosso braço
Um abrigo
Que possa guardar
A vitória do sentimento claro
Vencendo todo medo
Mãos dadas pela rua
Num destino de luz e amor
Vem agora
Quase não há mais tempo
Vem com teu passo firme
E rosto de criança
A maldade já vimos demais
Olha
Sempre poderemos viver em paz
Em tempo
Tanto a fazer pelo nosso bem
Iremos passar
Mas não podemos nunca esquecer
De mais alguém
Que vem
Simples inocentes a nos julgar
Perdidos
As iluminadas crianças
Herdeiras do chão
Solo plantado
Não as ruínas de um caos
Diamantes e cristais
Não valem tal poder
Contos de luar
Ou a história dos homens
Lua vaga vem brincar
E manda teus sinais
Que será de nós
Se estivermos cansados
Da verdade
Do amor
Esperança viva
Que a mão alcança
Vem com teu passo firme
E rosto de criança
A maldade já vimos demais"



 Escrito por Marcelo às 17h01
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Da série 300 toques - Número 6

 

Solidão

Do travesseiro, brotaram seres e