Vade retro!

Nunca pensei que fosse postar algum texto dela aqui, mas está irrepreensível a coluna da Míriam Leitão de hoje (também em O Globo). Ótima rebatida aos saudodos dos milicos...

"O mal absoluto"

Mírian Leitão

"Os militares chocaram o ovo da serpente. Foi no regime militar que a inflação adquiriu a dinâmica que levou anos para ser desmontada. Os confrontos entre capital-trabalho no ABC, sempre vistos como parte da redemocratização, alimentaram a inflação. O geiselismo, que hoje parcelas do PT gostariam de reproduzir, foi um projeto autoritário que transferiu renda para os mais ricos e reforçou alguns dos piores vícios da economia brasileira. O Exército ainda reverencia o sombrio dia 31 de março.
O PT erra quando imagina que houve um lado bom no regime militar: o projeto econômico. Os militares deixaram por herança a dívida externa que foi renegociada por Pedro Malan, a inflação que o país gastou dez anos para vencer, a cartelização que ainda não foi totalmente desmontada, um parque industrial estatal ineficiente e uma indústria privada dependente dos favores do Estado. Há quem acredite ainda hoje, no atual governo, que os militares é que sabiam fazer planejamento. Na verdade, faltou a eles a mais reles visão estratégica. Quando o Brasil tinha uma população jovem e superávit na Previdência, eles poderiam ter feito uma reforma da Previdência que nos poupasse dos problemas que temos hoje. Quando o país estava crescendo fortemente, eles deveriam ter investido em educação para nos preparar para o grande desafio que enfrentamos hoje. Até o truculento Pinochet fez melhor. E pior: os militares deixaram para os civis uma inacreditável desordem fiscal. Havia três orçamentos diferentes, só um passava pelo Congresso, e o Banco do Brasil tinha uma conta corrente com o Banco Central na qual ele podia sacar à vontade.
É um equívoco olhar o percentual de crescimento econômico dos 21 anos da ditadura e compará-lo com os 19 anos da democracia concluindo ter sido melhor a era militar. A ditadura deixou uma herança maldita que consumiu os anos seguintes na reorganização da economia e do Estado. Quando os civis voltaram ao poder em 85, tudo estava por arrumar.
Acabar com a conta de movimento entre Banco do Brasil e Banco Central, unificar os orçamentos, criar a Secretaria do Tesouro, aumentar a transparência dos gastos, criar o Siafi para que os parlamentares pudessem acompanhar os gastos públicos, fechar os muitos ralos, como os dos bancos estaduais, fazer a Lei de Responsabilidade Fiscal consumiu anos de esforço político.
A dívida externa que alimentou os projetos faraônicos — muitos deles sem utilidade, outros feitos em meio a crimes ambientais — foi renegociada e paga pelos civis.
A inflação havia subido antes de 64 e isso foi o pretexto econômico do golpe militar. Inicialmente, foi contida pelo Paeg, um plano econômico com forte arrocho salarial. Mas depois os próprios militares montaram o sistema que se tornou uma bomba de efeito retardado: a correção monetária. O governo civil gastou uma década para desarmá-la.
A verdadeira história nem sempre é o que parece. Os movimentos do ABC ajudaram sim a enfraquecer o regime, mas eram mais ambivalentes do que se supõe. Com a economia fechada, a produção era dominada pelos cartéis. Algumas poucas empresas ditavam os preços em cada setor. A produção metalúrgica não fugia a essa lei da economia cartelizada. Sem a chance de escolher, o consumidor tinha que aceitar o preço que as empresas exigiam. As greves do ABC terminavam com aumentos salariais reivindicados pelos trabalhadores. As empresas, em seguida, passavam o custo para os preços. O consumidor pagava a conta e a inflação subia mais um pouco. Os trabalhadores que não pertenciam às categorias poderosas eram os que mais sofriam a perda de poder de compra dos seus salários.
Aquelas reuniões em que, de um lado, via-se o então líder metalúrgico Lula, de outro, o empregador e, no meio, o presidente da Fiesp eram muito menos uma resistência ao regime militar e muito mais o pacto inflacionário. A parte mais dolorosa da luta contra o regime já havia acabado naquele final do governo Geisel e início do governo Figueiredo, quando estourou o movimento do ABC. O horror ocorrera anos antes e nele é que sofreram os verdadeiros heróis da resistência brasileira, muitos deles até hoje anônimos. O magnífico caderno do GLOBO neste fim de semana revela, por exemplo, a história de Maria Amélia Teles, torturada barbaramente na frente dos filhos, ou de Nelson Lott, torturado por 50 dias. Ele explicou à filha que nunca pediu indenização do governo porque acha que cumpriu seu dever de cidadão. Visão diferente têm vários outros, entre eles alguns com direito discutível a esse ressarcimento. Veja-se o caso do presidente do Sesi, Jair Meneguelli. Ele, que se aposentou aos 47 anos, receberá até o fim da vida a reparação de R$ 3.000 com o nome de “prestação mensal permanente e continuada”. Nunca foi preso. Esta mesada vitalícia ele recebe por ter tido direitos políticos cassados em 81. Como se sabe, o regime acabou logo depois e ele continuou com seus direitos. O Brasil cria injustiças até quando tenta reparar erros velhos.
A produção estatal de insumos industriais, como aço, petroquímica, energia, petróleo, custou caro para a sociedade e transferiu recursos públicos até para multinacionais. O caso do aço é um exemplo: as estatais vendiam a preços irrisórios para os fabricantes de bens de consumo e, por isso, tinham prejuízos. O Estado pagava a conta. A sangria acabou com a privatização.
Empresários sócios do regime recebiam empréstimos subsidiados com o dinheiro que deveria estar educando o povo brasileiro. Certa vez, o BNDES deu a empresários paulistas empréstimos com juros tabelados em 20%. A inflação foi de 100%. Só naquele episódio foram entregues à elite brasileira US$ 4 bilhões.
Não há lado bom no regime que foi instalado pela força há 40 anos e tomou do Brasil 21 anos. O custo econômico foi astronômico e as escolhas, erradas. O arbítrio é um mal absoluto. Que as futuras gerações jamais se esqueçam disso."



 Escrito por Marcelo às 12h47
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Mirou no que viu, acertou no que não viu

Há algum tempo o Mascavinhas postou a foto de um cachorro, comparando-a à imagem da Xuxa durante o desfile da Caprichosos de Pilares. Ao ler esta notícia hoje em O Globo, foi inevitável a lembrança...

"Cara de um, focinho do outro"


"Especialistas americanos garantem que não se trata apenas de uma crença, mas de uma verdade científica: cachorros de raça e seus donos se parecem mesmo. Estudo publicado na revista “Psychological Science”, da Sociedade Americana de Psicologia, por pesquisadores da Universidade da Califórnia, sustenta que, ao escolher um cachorro, as pessoas “buscam por um que, de alguma forma, se pareça com elas”.
Coordenado pelos psicólogos Nicholas Christenfeld e Michael Roy, o estudo foi realizado com 45 cachorros e seus donos. Os animais e as pessoas foram fotografados separadamente. As imagens foram mostradas a um grupo de 28 juízes que deveria determinar a quem pertencia cada cão.
As semelhanças entre cachorros de raça e seus donos fizeram com que os juízes acertassem em 16 de 25 casos examinados. Os cientistas não conseguiram determinar os mesmos critérios na escolha de vira-latas, entretanto. Ao que tudo indica, cães de raça mista não se parecem com seus donos. "



 Escrito por Marcelo às 12h45
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Ouvindo hoje...

"Pela claridade da nossa casa"

Beto Guedes / Murilo Antunes / Márcio Borges

"Atirar na fonte
A pedra do reino atirar
Pela claridade de nossa casa
Vem procurar
Um lugar aonde a gente pra se alimentar
Bastaria a terra
A calma de ribeirão

É tudo ser
E é nada não

Bastaria o tempo todo de viver
Vasculhar a terra até o mar
Pela claridade de nossa casa até cansar
Pela qualidade da nossa geração

É tudo ser
E é nada não

Bastaria a vida toda pra saber
Quando foi que tudo começou
Mais do que o cão cansado de estrada, meu amor
Pela qualidade da nossa geração"



 Escrito por Marcelo às 09h36
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A alegria do Antunes (e também a nossa)

Seja lá o que venha - o livro do Chico é fraco à beça e "Jenipapo", o primeiro filme de Monique Gardenberg, não me empolgou nem um pouco - na próxima sexta-feira o filme "Benjamim" estréia no Rio. Mesmo sem motivos, malgrado evidentemente a beleza da Cléo Pires, estou bastante curioso para assisti-lo. E fiquei ainda mais depois de saber que na trilha-sonora está a ótima "Alegria", do Arnaldo Antunes, que a Bethânia gravou de acordo com o clima efusivo da letra:

"Alegria"

Arnaldo Antunes

"Eu vou te dar alegria
eu vou parar de chorar
eu vou raiar um novo dia
eu vou sair do fundo do mar
eu vou sair da beira do abismo
e dançar e dançar e dançar
a tristeza é uma forma de egoísmo
eu vou te dar eu vou te dar eu vou

hoje tem goiabada
hoje tem marmelada
hoje tem palhaçada
o circo chegou

hoje tem batucada
hoje tem gargalhada
riso e risada
do meu amor"



 Escrito por Marcelo às 11h27
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Bayaty

O blog já está em funcionamento há alguns dias; eu é que estava devendo à Mariana um post aqui sobre o Bayaty, onde ela e o Gabriel dão ótimas dicas sobre a programação cultural de diversas cidades. Confiram!



 Escrito por Marcelo às 11h14
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Friedmans e "Elephant"

O site Críticos já colocou no ar minha resenha sobre o documentário "Na captura dos Friedmans" (link aqui).

Ainda sobre cinema: ontem assisti ao aguardadíssimo "Elephant", de Gus Van Sant, que ganhou a Palma de Ouro no Festival de Cannes do ano passado. Muito bacana, apesar de algumas seqüências gratuitas e pouco sutis. Em breve, o Críticos trará uma seção com as opiniões dos jornalistas do site sobre o filme...



 Escrito por Marcelo às 09h54
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Sobre a assepsia na arte...

A Paulinha já postou lá no Gosto de Samba, mas li e gostaria de indicar também aqui a leitura da coluna de hoje do Paulo Roberto Pires no site No Mínimo. Provocador no melhor sentido do termo, ao analisar o novo disco da Mônica Salmaso ele aproveita o ensejo para levantar questão sobre a "assepsia" na cultura brasileira. "Ao final da 13a e última faixa, dá vontade de ouvir uma voz menos afinada e certinha e mais largada no mundo", diz Paulo, sobre o novo cd da cantora. Um trecho do texto: 

"Baile perfumado"

Paulo Roberto Pires

"
Se assepsia é bom para a saúde, não costuma fazer bem à arte, como se constata em “Iaiá”, novo CD de Mônica Salmaso. Voz belíssima, inteligência rara entre seus pares, a cantora paulista chega ao quarto disco solo cada vez mais “essencial” (aspas necessárias), tratando com distância estudada cada música, nota ou respiração. Ao final da 13a e última faixa, dá vontade de ouvir uma voz menos afinada e certinha e mais largada no mundo.
Esta é tendência, diga-se logo, que não se restringe à música. A literatura também foi acometida pela praga do texto “bem escrito”, em que tudo está no lugar, demasiadamente no lugar, verdadeiros exercícios de virtuose de linguagem, que esquecem, voluntariamente ou não, que emoção e desregramento são partes tão constitutivas de uma obra de arte quanto as fundamentais reflexão e estudo (...)".



 Escrito por Marcelo às 13h05
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Quarta-feira que vem, sem falta, lá em casa

Sei que a peça saiu de cartaz e é até um pecado comentá-la para quem certamente não poderá ver. Mas não posso deixar de elogiar com entusiasmo o espetáculo "Quarta-feira que vem, sem falta, lá em casa", a que assisti sábado à noite no Teatro do Leblon. Escrito nos anos 60, o apenas razoável texto de Mário Brasini relata um encontro entre duas amigas viúvas de personalidades distintas, que se repete semanalmente. Durante a conversa, entre risos e momentos tocantes, vêm à tona segredos, traumas e traições do passado, realçados pelas excepcionais interpretações de Beatriz Segall e Myrian Pires nos papéis das protagonistas. Levando às alturas a criação de Brasini, as duas são responsáveis por proporcionar ao espectador um daqueles raros momentos em que se pode compreender claramente o que é ser atriz. E que só é possível se vislumbrar no teatro.



 Escrito por Marcelo às 10h16
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"Maradoninha?"

Pode ser que no próximo domingo ele não jogue bulhufas e comprove mais vez seu principal defeito: a irregularidade. Mas o repertório de grandes jogadas do Roger no sábado passado foi tão vasto que é impossível não ficar otimista. De dribles geniais a uma série de lançamentos que há muito não assistia, uma atuação irrepreensível...

P.S. Acho o apelido que o Parreira deu a ele simplesmente ridículo...



 Escrito por Marcelo às 10h13
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Rápida e rasteira

Passando os olhos no Rio Show (O Globo) de hoje, me deparei com a resenha do Jaime Baggio para o filme "Uma mulher é uma mulher", de Jean-Luc Godard, que reestréia hoje. O primeiro parágrafo do texto é perfeito: resume com sapiência a transformação do cineasta e atira de forma certeira em alguns de seus radicais e fiéis seguidores.

"UMA MULHER É UMA MULHER é de 1961, quando seu diretor, Jean-Luc Godard, era atrativo e não ranço. Quando seus filmes eram iluminados pelo amor ao cinema e não embotados por rancor pelo-que-o-cinema-se-tornou. E quando seu público era qualquer público e não uma claque insuportável cujas teorias e certezas tornaram Godard uma peça de culto intimidante, a se observar à distância com respeito e medo — ou rejeitar por reflexo (...)." 



 Escrito por Marcelo às 12h41
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Trabalhando, trabalhando...

Não sei se terei tempo para postar algo hoje. Estou me dedicando a uma matéria longa e complicada...

 Escrito por Marcelo às 10h28
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Ah, coleguinhas...

Título de matéria no Lance! de hoje: "Rincón quer parar de jogar no Parque". Pura dubiedade, não? O jogador teria dito que pretende largar o Timão ou que gostaria de encerrar a carreira do time de Parque São Jorge? Repostas para a Redação...



 Escrito por Marcelo às 13h00
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O armário

Como quando fiz a chamada o Pentimento andava capengando, aviso novamente: o Paralelos publicou um especial sobre a coleção Rocinante, da Editora 7 Letras, com resenhas feitas por colaboradores do site, entre eles eu e o Flavio Izhaki. Lá está também "O armário", um conto que escrevi no ano passado e até então estava inédito. Para acessar, clique aqui. Um trecho:

O armário

Marcelo Moutinho

No entanto, eu os guardo.

E por isso cuido com tanto zelo daquele armário herdado da mamãe que como uma catedral jaz no canto esquerdo de meu quarto de solteiro. É no velho armário de madeira firme com espelho de fronte que arrumo, em cada compartimento, os meus momentos, antes de passar a chave. Organizo com hierarquia, seguindo uma lógica minha, subjetiva. Amontôo os bons momentos ali pois decerto não há tempo a perder – é preciso cumprir minhas tarefas, amealhar mais e mais momentos, não a fim de dá-los generosamente a alguém, mas a desfrutá-los quando enfim puder. Entre o desejo de ficar e a obrigação de ir, não pode restar dúvida. A vida é um fluido estável de calma – precisa ser! – e as ânsias, se havidas, ficaram outrora. A vida agora é branca, é limpa, é minha.



 Escrito por Marcelo às 12h49
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O "pum" do Glauber

Quem leu a matéria de capa do Segundo Caderno sobre o almoço realizado entre cineastas brasileiros no Templo Glauber certamente soube das críticas do Luis Carlos Barreto ao depoimento de João Ubaldo Ribeiro no documentário que está nos cinemas. Barreto reclamava que a alusão do escritor a um "pum" soltado por Glauber durante um encontro nos EUA somente reforçava sua imagem de "doidivana". Pois bem: na coluna do Ancelmo Góis de hoje, está reproduzido o e-mail que Ubaldo mandou para Barretão, comentando suas críticas. Ei-lo:

"O fato de ele ter peidado para um americano me parece mais característico dele do que a atitude mais comum entre outros, que é a de ficar de quatro para a indústria de cinema dos EUA"



 Escrito por Marcelo às 11h00
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Pequeno inventário amoroso

Por falar em documentários, um dos grandes destaques do Festival É Tudo Verdade, que acontecerá em abril, promete ser o filme "Todas as garotas que já amei", de Henrique Goldman. Do que trata? Exatamente do que o título explicita: depoimentos das ex-narmoradas do diretor, alguns pró, outros contra ele...

 Escrito por Marcelo às 10h23
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No "Críticos"...

A edição desta semana do site Críticos traz um interessante balanço do evento "Arte da crítica", que movimentou o CCBB nas duas últimas semanas. Quem assina é o Carlos Alberto Mattos, que foi um dos curadores. Também no site, está a resenha que fiz do filme "Laurel Canyon - A rua das tentações" e, até o fim da semana, estará outro texto meu, este analisando o documentário "Na captura dos Friedmans"...  



 Escrito por Marcelo às 10h16
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Melhor do que a encomenda

O presidente da Argentina, Néstor Kirchner, que à época da campanha eleitoral não parecia promissor, vem se saindo, como é costume dizer, "melhor do que a encomenda". Ontem, depois inaugurar o Museu da Memória, participou de uma cerimônia no tradicional Colégio Militar portenho. Lá, retirou do Pátio de Honra, uma espécie de galeria de fotos célebres, as imagens dos presidentes ditadores... Em O Globo de hoje:

"Kirchner pede desculpas em discurso"

Janaína Figueiredo

"Ontem, pela primeira vez desde o fim da ditadura militar (1976-1983), um presidente argentino pediu desculpas pelo papel do Estado no processo de redemocratização do país. No mesmo dia em que anunciou a decisão de seu governo de transformar a Escola de Mecânica da Marinha (Esma, na sigla em espanhol) no Museu da Memória, o presidente Néstor Kirchner lamentou e considerou vergonhosa a atitude dos governos democráticos que ocuparam o poder a partir de dezembro de 1983. Kirchner fez seu desabafo diante de milhares de pessoas que participaram de um ato organizado pelo governo em frente à Esma, exatamente 28 anos após o golpe militar de 1976.
— Como presidente venho pedir perdão em nome do Estado nacional por ter se calado durante 20 anos de democracia — afirmou Kirchner. — Falemos com clareza, não é rancor nem ódio o que nos mobiliza: é justiça e luta contra a impunidade. Os autores de fatos tenebrosos e macabros devem ser chamados de uma única maneira: são assassinos repudiados por um povo inteiro.
Durante o governo de Raúl Alfonsín (1983-1989), foram aprovadas as leis de Obediência Devida e Ponto Final, as chamadas leis do perdão, que anistiaram centenas de militares. O presidente Carlos Menem (1989-1999) indultou as principais autoridades do governo militar. Já o presidente Fernando de la Rúa (1999-2001) impediu a extradição de militares acusados de terem violado os direitos humanos.
Ontem foi um dia histórico para o país. Além de ter entregado a Esma — principal centro clandestino de tortura da ditadura — às organizações de defesa dos direitos humanos, Kirchner participou de uma cerimônia na sede do Colégio Militar durante a qual foram retiradas de uma galeria de retratos as imagens dos generais Jorge Rafael Videla e Reynaldo Bignone, figuras de proa do governo militar e ex-diretores da instituição.
— As armas nunca mais deverão ser usadas contra o povo argentino — disse o presidente aos militares (...)."



 Escrito por Marcelo às 09h53
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Rimas ricas

A inusitada notícia saiu ontem em O Globo e é repetida hoje no Lance! (texto abaixo). Imaginem se a moda pega... Como sair do Maracanã sem deixar no ar o grito mais gostoso do mundo: aquela rima rica que envolve a palavra "urubu" e um certo ponto do corpo humano?

"Pimenta na boca dos argentinos"

Torcedores de Buenos Aires que xingarem na arquibancada serão multados. Já em vigor, decisão é vista com descrédito

"Absurda. Desta maneira está sendo rotulada pelos argentinos a decisão do governo da cidade de Buenos Aires de proibir xingamentos e insultos nos estádios de futebol, durante as partidas do Campeonato Argentino.
A resolução entrou em vigor no último fim de semana, e alguns torcedores de Boca Juniors e Racing, que se enfrentaram na Bombonera, foram multados e terão de dar explicações em juízo.
A polêmica decisão visa basicamente à diminuição da violência nos estádios. No entanto, a “pimenta na boca” dos portenhos não está sendo levada muito a sério.
– Para mim, é algo um pouco absurdo. Sempre ocorreram insultos nas arquibancadas, habitualmente os torcedores fazem isso. Não dá para pedir com que parem – explicou Juan Pablo Mendez, jornalista do diário “Olé”.
Fiscais estiveram no Estádio La Bombonera para acompanhar o comportamento dos torcedores. Alguns deles foram multados. A reação dos que foram punidos acabou sendo pacífica.
– Ao aplicar a multa, cada fiscal estava acompanhado de um policial – acrescentou Mendez.
O valor das multas ainda é uma incógnita. Ao sancionar a medida, o governo de Buenos Aires não pré-estabeleceu o quanto se pagará. A decisão ficará a cargo do juiz, ao proferir sua sentença. O que se sabe é que, dependendo do teor das ofensas relatadas pelo fiscal ao aplicar a multa, o valor pode aumentar ou diminuir.
O difícil para os fiscais deve ser punir uma massa de torcedores que resolver, em coro, “homenagear” parentes do árbitro ou de craques do time adversário."



 Escrito por Marcelo às 12h43
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Caio para além dos muros

 

No fim-de-semana passado assisti a uma peça, não mais do que razoável (ah, as "modernices"...), baseada nos contos do Caio Fernando Abreu, este escritor tão querido e tão próximo, malgrado ter se mandado dessa vida. Se a montagem não era lá espetacular, teve o mérito de me fazer reler crônicas publicadas em jornais e que foram reunidas no livro "Pequenas epifanias". Esta, abaixo, é a terceira de uma série em que ele revela a contaminação pelo HIV, que viria a matá-lo. O texto tem uma beleza simples, de quem se desmontou do que não é essencial...

"Última carta para além dos muros"

Caio Fernando Abreu

"Imagino que você tenha achado as duas cartas anteriores obscuras, enigmáticas como aquelas dos almanaques de antigamente. Gosto sempre do mistério, mas gosto mais da verdade. E por achar que esta lhe é superior te escrevo agora assim, mais claramente. Nem sinto culpa, vergonha, ou medo. 
Voltei da Europa em junho me sentindo doente. Febres, suores, perda de peso, manchas na pele. Procurei um médico e, à revelia dele, fiz O Teste. Aquele. Depois de uma semana de espera agoniada, o resultado: HIV Positivo. O médico viajara para Jokorama, Japão. O teste na mão, fiquei três dias bem natural, comunicado à família, aos amigos. Na terceira noite, amigos em casa, me sentindo seguro – enlouqueci. Não sei detalhes. Por autoproteção, talvez, não lembro. Fui levado para o pronto Socorro do Hospital Emílio Ribas com suspeita de um tumor no cérebro. No dia seguinte, acordei de um sono drogado num leito da enfermaria de infectologia, com minha irmã entrando no quarto. Depois, foram 27 dias habitados por sustos e anjos – médicos, enfermeiras, amigos, família, sem falar nos próprios – e uma corrente tão forte de amor e energia que amor e energia brotaram dentro de mim até tornaram-se uma coisa só. O de dentro e o de fora unidos em pura fé.
A vida me dava pena, e eu não sabia que o corpo ("meu irmão burro", dizia São Francisco de Assis) podia ser tão frágil e sentir tanta dor. Certas manhãs chorei, olhando através da janela os muros brancos do cemitério no outro lado da rua. Mas à noite, quando os néons acendiam, de certo ângulo a Dr. Arnaldo parecia o Boulevard Voltaire, em Paris, onde vive um anjo sufista que vela por mim. Tudo parecia em ordem, então. Sem rancor nem revolta, só aquela imensa pena de Coisa Vida dentro e fora das janelas, bela e fugaz feito as borboletas que duram só um dia depois do casulo. Pois há um casulo rompendo-se lento, casca seca abandonada. Após, o vôo do Ícaro perseguindo Apolo. E a queda?
Aceito todo dia. Conto para você, porque não sei ser senão pessoal, impudico, e sendo assim preciso te dizer: mudei, embora continue o mesmo. Sei que você compreende. 
Sei também que, para os outros esse vírus de science fiction só dá me gente maldita. Para esse, lembra Cazuza: "Vamos pedir piedade, Senhor, piedade para essa gente careta e covarde". Mas para você, revelo humilde: o que importa é a Senhora Dona Vida, coberta de ouro e prata e sangue e musgo do tempo e creme Chantilly às vezes e confetes de algum carnaval, descobrindo pouco apouco seu rosto horrendo e deslumbrante. Precisamos suportar. E beijá-la na boca. De alguma forma absurda, nunca estive tão bem. Armado com as armas de Jorge. Os muros continuam brancos, mas agora são de um sobrado colonial espanhol que me faz pensar em García Lorca; o portão pode ser aberto a qualquer hora para entrar ou sair; há uma palmeira, rosas cor-de-rosa no jardim. Chama-se Menino deus eset lugar cantado por Caetano, e eu sempre soube que era aqui o porto. Nunca se sabe até que ponto seguro, mas – para lembrar Ana C., que me deteve à beira da janela – como como não se pode ancorar um navio no espaço, ancora-se neste porto. Alegre ou não: ave Lya Luft, ave Iberê, Quintana e Luciano Alabarse, chê.
Vejo Dercy Gonçalvez, na Hebe, assisto A Falecida de Gabriel Villela no Teatro São Pedro; Maria Padilha conta histórias inéditas de Vicente Pereira; divido sushis com a bivariana Yolanda Cardoso; rezo por Cuba; ouço Bola de Nieve; gargalho com Déa Martins; desenho a quatro mãos com Laurinha; leio Zuenir Ventura para entender o Rio; uso a estrela do PT no peito (Who Knows?) ; abro o I Ching ao acaso : Shêng, a Ascensão ; não perco Éramos Seis e agradeço, agradeço, agradeço.
A vida grita. E a luta, continua."



 Escrito por Marcelo às 11h20
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Nos tempos da Facha

Curioso: esta noite sonhei que tinha ido, após muitos anos, lá na Facha, onde me formei em Comunicação Social. A visita seria para entregar um currículo, visando a dar aulas futuramente (um projeto que de fato existe). A faculdade não estava muito diferente e, no sonho, fiquei conversando com o dono de uma banquinha de livros que ficava logo à direita de quem entra. Costumava mesmo papear com ele, leitor voraz e marxista ferrenho, nos intervalos das aulas. Bateu uma saudadezinha daqueles tempos, da Alê, do Miltinho, do Sílvio, do Lúcio, da Zilmar, das nossas rodas de violão, dos porres da Farane, dos shows do Arpoador, das discussões políticas, das passeatas pelo impeachment, enfim, daquilo tudo que faz da vida, VIDA, assim, em caixa alta. O Gonzaguinha fez parte da trilha-sonora daqueles dias, em especial esta canção:

"E vamos à luta"

Gonzaguinha

"Eu acredito é na rapaziada
Que segue em frente e segura o rojão.
Eu ponho fé é na fé da moçada
Que não foge da fera e enfrenta o leão.
Eu vou à luta é com essa juventude
Que não corre da raia a troco de nada.
Eu vou no bloco dessa mocidade
Que não tá na saudade e constrói
A manhã desejada.

Aquele que sabe que é negro
O coro da gente,
Que segura a batida da vida
O ano inteiro.
Aquele que sabe o sufoco de um jogo tão duro
E apesar dos pesares
Ainda se orgulha
De ser brasileiro.
Aquele que sai da batalha,
Entra no botequim,
Pede uma 'cerva' gelada
E agita na mesa, logo,
Uma batucada.
Aquele que manda o pagode
E sacode a poeira suada da luta
E faz a brincadeira,
Pois o resto é besteira
E nós estamos por aí..."



 Escrito por Marcelo às 10h58
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Barbárie x Barbárie

Em O Globo de hoje:

"Marcados para morrer"

"Um dia após assassinar o xeque Ahmed Yassin, líder espiritual do grupo radical Hamas, Israel ameaçou ontem matar todos os dirigentes dos grupos extremistas palestinos e até o presidente da Autoridade Nacional Palestina (ANP), Yasser Arafat. O país está em alerta máximo à espera de uma retaliação do Hamas, que prometeu atacar Israel em várias frentes. Ontem, o grupo anunciou que já tem um novo chefe, Abdel-Aziz al-Rantissi, cujo nome deve ser ratificado em consulta interna após o período de luto de três dias pela morte de Yassin (...)."

Que o terror é uma chaga, todos concordamos. Mas um Estado se assumir terrorista é sinal da mais pura decadência do processo civilizatório...



 Escrito por Marcelo às 10h42
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A quem vai chegar...

Estava mesmo devendo este link: está no ar desde a semana passada o blog Me deleite (ou Me dê leite), dos amigos Marcelo Goldstein e Ana Paula, que funciona como um diário da Clarinha, a prole que está para chegar a qualquer momento. Entra hoje na lista de blogs recomendados...

 



 Escrito por Marcelo às 09h35
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Teresa na Modern Sound

A Modern Sound já fechou sua programação de abril dos já tradicionais pocket-shows que acontecem às terças-feiras. E logo na primeira semana do mês a atração será a Teresa Cristina, que apresentará canões de seu segundo disco, "A vida me fez assim". Nas terças seguintes, Marcelinho da Lua, Adriana Maciel e João Donato e Wanda Sá, todos artistas da Deckdisc.

 Escrito por Marcelo às 14h33
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Racionalistas x Intuitivos

Ao analisar "Crtítica de ouvido", coletânea de ensaios de Sebastião Uchôa Leite recém-lançada pela Cosac&Naify, o jornalista José Castello acaba tocando num ponto controverso e interessante sobre o sujeito da crítica literária. Aos amigos que assistiram ao ótimo debate sobre o assunto dentro do evento organizado pelo Marcelo Janot e pelo Carlos Alberto de Mattos, deixa aqui a dica do texto, do qual seleciono o trecho mais diretamente ligado ao tema:

"O poeta crítico"

José Castello

"Poeta de festejada reputação, Sebastião Uchoa Leite, que faleceu recentemente, foi também um comentador ativo do panorama literário. Seus ensaios breves, reunidos em parte nesse “Crítica de ouvido” (Cosac & Naify), vêm se alinhar aos escritos daqueles que, em geral ligados à pesquisa universitária, se empenham na produção de um pensamento rigoroso e calcado em bases formais. É nessa direção, da afinação dos rigores e instrumentos críticos, na contramão de uma crítica intuitiva e impressionista, que Uchoa se move. Seu livro adquire uma importância especial quando contraposto, ou situado, justamente nesse cenário de luta intelectual em que se enfrentam, de um lado, os críticos mais racionalistas vindos dos bancos de escola, e de outro, aqueles mais intuitivos, procedentes das redações de jornais.

Um crítico eminente como Alexandre Eulálio, objeto aliás de um dos ensaios breves de Uchoa, defendia uma mediação e um equilíbrio entre as duas tendências, ou formações. De um lado aquela gerada, como ele dizia, no “nobre gueto universitário”, de outro aquela de caráter mais aleatório e sentimental. Ele julgava a divisão clássica entre críticos da imprensa e críticos da universidade só uma “oposição maniqueísta”, mecânica demais para dar conta da realidade. De fato, como toda contraposição, essa também é redutora e perigosa. Até porque muitos doutores formados pela universidade militam, com regularidade e entusiasmo, no jornalismo literário que, por questões industriais, exige textos concisos e escritos, necessariamente, no calor da hora. Do mesmo modo, muitos jornalistas literários eminentes trataram de fazer sua especialização regular nos bancos da academia, de maneira que a cisão acaba se tornando forçada e, um pouco até, inútil.

De qualquer maneira, e aqui talvez se possa fazer melhor proveito, ela aponta para uma segunda fronteira, essa mais palpável, e mais eficaz, a que delimita os críticos apegados aos procedimentos formais da teoria àqueles que, por desinteresse, insuficiência pessoal, ou opção deliberada, não importa, preferem as leituras mais impressionistas e subjetivas. Não há dúvida de que Uchoa Leite é um eminente seguidor do primeiro grupo, e foi certamente para exercitar essa posição, para afirmá-la, que escreveu seus ensaios breves.

Como num jogo em que duas tendências medem forças, a crítica literária se faz, e se engrandece, justamente nesse movimento, dos puxões desferidos pelos dois lados, do vai e vem de impulsos e resistências (...)"



 Escrito por Marcelo às 13h16
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Reminiscências de Mazzoni e Billly Blanco

 

Visitando ontem o Navegar impreciso, blog do Arlindo, deparei-me com esta canção e imediatamente me vi remetido aos anos de 1999 e 2000. Naquela época conheci o amigo Anselmo Mazzoni, pianista que tocou com boa parte da MPB e hoje acompanha o Jamelão em suas incursões noturnas. Religiosamente, eu ia à Casa de Cultura da Estácio de Sá papear e ouvir o Anselmo e os "canjeiros" que sempre apareciam por lá - desde o Moacyr, que adorava lembrar composições do Taiguara, até bambas como o Dalmo Castello, que um dia sentou com a gente e cantou por mais de uma hora. Entre os que sempre davam suas caras, havia o Washington, figuraça que cantava para seduzir as mulheres de meia-idade que pintavam no local. Mas ele aceitava também pedidos dos amigos, e o meu era sempre "A banca do distinto", pérola do Billy Blanco, que ele interpretava teatralmente e agora posto aqui.

"A banca do distinto"

Billy Blanco

"Não fala com pobre, não dá mão a preto
Não carrega embrulho
Pra quê tanta pose, doutor?
Pra quê esse orgulho?
A bruxa, que é cega, esbarra na gente
E a vida estanca
O enfarte lhe pega, doutor
E acaba essa banca
A vaidade é assim, põe o bobo no alto
E retira a escada
Mas fica por perto esperando sentada
Mais cedo ou mais tarde ele acaba no chão
Mais alto o coqueiro, maior é o tombo do côco afinal
Todo mundo é igual, quando a vida termina
Com terra em cima e na horizontal"



 Escrito por Marcelo às 12h55
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O som inútil

Por falar no Dapieve, está irrepreensível o texto que ele publicou no site No Mínimo esta semana. De tudo o que havia lido sobre o brutal atentado terrorista em Madrid, nenhum fato havia me tocado mais do que o relato dos celulares dos mortos tocando enquanto jaziam nos escombros. Pois é esta imagem que serve de objeto de análise para o Dapieve no ótimo artigo, que além do tudo menciona dois de meus livros preferidos: "A câmara clara", de Roland Barthes, e "Baterbly, o escrivão", de Herman Melville. Segue o texto:

"Os celulares de Madri"

Arthur Dapieve

"Assim como o amigo Sérgio Rodrigues, este colunista também nutre enorme admiração por Roland Barthes. Por incrível coincidência, aliás, o nome do semiólogo francês também voltou-me à cabeça nos dias que se seguiram às explosões do Onze de Março madrileno. No entanto, não foi o Barthes de “Mitologias”, mas o Barthes de “A câmara clara” (1980), seu último livro publicado em vida. Se “Mitologias” é um livro sobre crítica cultural, no mais amplo dos sentidos, “A câmara clara” trata de fotografia, também no mais amplo dos sentidos. Por isso, não, obrigado, não quero escrever sobre a célebre fotografia da tragédia que, em alguns órgãos de imprensa, foi retocada digitalmente para poupar os leitores da visão de um pedaço de perna solitário entre os trilhos, os feridos e as equipes de resgate.

Eu pensei no Barthes de “A câmara clara” dentro de um quadro mais amplo.

Neste seu livro, ele fez uma distinção magistral. Para Barthes, em qualquer fotografia haveria o studium e haveria o punctum. O primeiro seria, numa simplificação grosseiríssima, o óbvio, o explícito. Ou, em suas belas palavras, o studium “sempre remete a uma informação clássica: a insurreição, a Nicarágua, e todos os signos de uma e de outra: combatentes pobres, em trajes civis, ruas em ruínas, mortos, dores, o sol e os pesados olhos índios.” É, digamos, a imagem que passa por uma emoção filtrada pela cultura moral ou política – ou racional, acrescento eu – de quem vê. Na tal foto de Madri, apenas por exemplo, o studium seria o atentado, o trem destroçado na Estação Atocha, a azáfama dos paramédicos e até o pedaço de carne humana (nos jornais que não lhe negaram o direito à existência pela segunda vez, naturalmente).

O punctum seria, seguindo a mesma lógica, o sutil, o implícito. Segundo Barthes, ele “vem quebrar (ou escandir) o studium. Dessa vez não sou eu quem vai buscá-lo (como invisto com minha consciência soberana o campo do studium), é ele que parte da cena, como uma flecha, e vem me transpassar. (...) O punctum de uma foto é esse acaso que, nela, me punge (mas também me mortifica, me fere).” É, digamos, a emoção sem filtro, incômoda, inexplicável. Na tal foto de Madri, uma última vez, ele poderia ser talvez o senhor de bigode sentado no chão com a calça rasgada até a coxa, aparentemente chorando, ou o homem que conforta uma moça qual uma versão masculina da Pietà – poderia ser quase qualquer detalhe, de acordo com a sensibilidade de cada olhar.

No amplo studium dos atentados terroristas na capital espanhola, 202 mortos enquanto escrevo, o studium para mim seria um som, não uma imagem. Para dizer a verdade, nem mesmo um som ouvido, mas um som imaginado: o dos celulares dos mortos tocando após as explosões. Essa informação – repassada num depoimento da edição do “Globo” do dia seguinte e por Clóvis Rossi na cobertura da “Folha de S. Paulo” – bateu mais forte que as fotos da covardia, da dor ou do luto no sentido de traduzir o horror humano de mais esses gestos de vandalismo em nome de um deus. Celulares que tocam em vão nos bolsos e nas bolsas de quem já não tem mãos para atender, ouvidos para ouvir, língua para falar, vida para contar. Essa “imagem” é terrivelmente dramática.

(O próprio Sérgio Rodrigues, no pós-Onze de Setembro de 2001, entrevistou para o “Jornal do Brasil” uma moça que dizia ter temido pelo fim do mundo, não exatamente pela queda das torres, mas porque os celulares não funcionavam em Nova York. No Onze de Março de 2004, os celulares continuaram funcionando em Madri. Entretanto, tocavam no bolso dos mortos. O mundo daquelas pessoas, porém, tinha mesmo acabado.)

A simples idéia de algo – telefonema, mensagem, carta – que jamais será respondido pelo Motivo de Força Maior é tão perturbadora que já perturbou até um personagem de Herman Melville, o autor de “Moby Dick”. Bartleby é um escrivão que, em crescente abulia, vai se recusando a fazer qualquer tarefa que lhe é encomendada pelo chefe-narrador. O modo como Melville conduz o absurdo do seu comportamento, seu niilismo radical, sua apatia mórbida, fez muita gente, inclusive Jorge Luis Borges, enxergar em sua novela de menos de 100 páginas uma antecipação de Kafka. Ao fim dela, o narrador compartilha um boato que explicaria, ao menos parcialmente, a depressão terminal de Bartleby: ele teria trabalhado no Departamento de Cartas Devolvidas, em Washington, função que lhe alimentou a desesperança por anos e anos de cartas extraviadas queimadas às montanhas.

É possível, pois, virar um Bartleby diante da “imagem” de celulares tocando sem resposta.

Este o punctum de Madri. Nova York também teve o dela. Na minha opinião, Dorrit Harazin captou-o, no nosso velho NO., no final de um grande texto chamado “A verdadeira dimensão da tragédia”, no ar no dia 14 de setembro de 2001. Depois de descrever algumas fotos e nomes dos “murais de esperança” multiétnicos em torno do Ground Zero – pessoas desaparecidas, provavelmente para sempre, na queda do World Trade Center – Dorrit nota que a chuva vai lavando embora imagens e dados. Aquelas pessoas ali estavam fadadas a sumir da face da Terra. Como, por sinal, todos nós, mais cedo ou mais tarde, em circunstâncias mais ou menos infames. Lembro-me, então, de “Blade runner”. Todas aquelas pessoas – e aquelas que deixaram de atender seus celulares em Madri – serão perdidas no tempo como lágrimas na chuva. Time to die.



 Escrito por Marcelo às 09h34
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Lágrimas na clarineta

Ao falar aqui há alguma semanas sobre "Revelações", chamei a atenção sobre a trilha-sonora do filme. Em especial para a linda versão de "Cry me a river". Bem, como se sabe, quem tem Google não morre pagão. Fui, então, pesquisar e acabei descobrindo o ótimo clarinestista que é Ken Peplowski. Na semana passada, enfim chegou "Grenadilla", o disco dele que contém "Cry me a river" e que havia encomendado na Arlequim. No trabalho, que reúne músicas de integrantes da banda, além de canções mais conhecidas - inclusive um divertido registro de "Você e eu", de Vinícius e Carlinhos Lyra -, Ken está acompanhado de Ben Aronov (piano), Greg Cohen (baixo) e Chuck Redd (percussão). É um disco cheio de pontos altos, casos da interpretação dolente de "Copi" (Xavier Maureta), da delicadeza em "Indian summer" (Victor Herbert / Al Dubin). Mas o momento espetacular do cd é mesmo "Cry me a river". Secundado pela guitarra discreta e harmônica de Howard Alden, Ken estica lentamente cada frase melódica até tirar de sua clarineta a mais pura dor em forma de som. Como diria o Dapieve: "de cortar os pulsos". Que gravação!



 Escrito por Marcelo às 09h26
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"Obrigado por ligar..."

Muito boa a coluna do Marcelo Coelho na Folha de S. Paulo de quarta-feira passada (não reparem, às vezes leio jornais velhos...). O texto é grande, mas vale reproduzir pela pertinência das observações dele... Essas ligações são chatas demais!

"Burocracia virtual"

Marcelo Coelho

"Obrigado por ligar. Sua ligação é muito importante para nós. Se desejar serviços de instalação, tecle 1. Para reagendamento de visita, tecle 2. Para verificação de dados cadastrais, tecle 3. Para informações sobre plano de pagamento, tecle 4. Para falar com um de nossos atendentes...
Não, você não conseguirá falar com um de nossos atendentes. Mas poderá ouvir, durante 25 minutos ou mais, sucessos como "Moonlight Serenade" e o tema de "Golpe de Mestre".
Também, quem mandou você não ter em mãos o número de seu cartão eletrônico, de sua matrícula no SAA (serviço de atendimento ao cliente), de seu cadastro na Comunidade NetLig?
Muitas coisas mudam de forma e de nome, mas no fundo permanecem iguais. A peregrinação que temos de fazer de tecla em tecla é a mesma que, antigamente, nos levava a passar horas nas filas de uma repartição burocrática.
Cada tecla, afinal de contas, não passa de um guichê, e o cartão que devemos ter por perto ou a senha que se impõe saber de cor equivale ao papel, à guia, ao documento que nos exigem e que nunca está a contento do funcionário.
É a burocracia sem papel, a burocracia dos impulsos eletrônicos. Claro, há vantagens: não é preciso sair de casa e, enquanto você espera atendimento, com o telefone encaixado entre o ombro e a bochecha, sempre poderá fazer alguma outra coisa. Sugestões: pôr os papéis em ordem na gaveta (você poderá encontrar o cartão de crédito cujo desaparecimento tentava comunicar); teclar alguma outra senha de acesso no computador, se tiver internet banda larga (se não tem, disque para nós hoje mesmo); alongar os músculos do pescoço e da nuca; ou entregar-se a outras atividades corporais cujo nome não seria conveniente declinar aqui.
De todo modo, a burocracia eletrônica segue os princípios da antiga. Quanto mais a instituição ou a empresa economizam, mais o usuário perde tempo. No hospital público ou na assistência técnica da máquina de lavar, sempre vigora a lei da seleção natural: eliminam-se os fracos, para que só os mais fortes, ou os mais desesperados, cheguem até o fim do processo.
Claro que, quanto mais procurado o serviço, maior a fila. Se notamos tanta burocracia nas instituições públicas, é porque seu acesso é universal. Em inúmeras entidades privadas vemos a burocracia aumentar, justamente porque passaram a ser procuradas pelo grosso da população. Os planos de saúde particulares constituem o maior exemplo disso, mas bancos e cartões de crédito, cujo universo de clientes se ampliou muito, não ficam atrás.
Experimento reações contraditórias quando vou a um caixa eletrônico. Em comparação com a fila tradicional, sem dúvida ganho tempo. Mas sinto que estou também "trabalhando" para o banco. Passo a senha, digito, confirmo, conto o dinheiro: eis que sou um novo funcionário do caixa, trabalhando de graça, enquanto algum bancário foi despedido em troca.
Tudo bem. Gasto menos tempo no banco. Mas diminuiu também a minha impressão de perder tempo. Todo trabalho, por mais mecânico que seja, faz o tempo passar mais depressa do que a pura espera. Fala-se de democracia participativa, mas a "burocracia participativa" também deveria merecer os seus filósofos.
À medida que um serviço se generaliza, crescem as possibilidades de fraude. Quando uma empresa, pública ou privada, passa do âmbito de uma distinta clientela para o universo multitudinário e turvo da humanidade em seu conjunto, torna-se inevitável multiplicar as precauções contra os indivíduos de má-fé; isso significa mais burocracia.
O que é um antivírus, um firewall ou um anti-spam a não ser a burocratização do nosso computador? Eu costumava usar um antivírus que tinha rigores de fiscal de alfândega, parecia usar carimbos de Polícia Federal em dia de operação-tartaruga toda vez que se punha a examinar a mensagem que entrava e a mensagem que saía do meu Outlook.
Acontece que o computador, como tudo o que tem telinha (um caça-níqueis, uma TV, um videogame, um caixa eletrônico) sempre oferece ao usuário algo de lúdico, de viciante, de hipnótico.
Já a burocracia telefônica (volto a ela) é muito pior. Seu maior pecado, a meu ver, está na confusão que estabelece entre as categorias de tempo e de espaço. Entre num desses sistemas de "tecle 5 se deseja isto, tecle 6 se deseja aquilo..." e tente corrigir uma decisão errada.
Os sistemas mais extensos e irritantes usam a famigerada tecla 9 -"para mais opções"-, abrindo-se em alternativas que para serem conhecidas integralmente exigiriam a vida inteira. Tudo ficaria mais fácil se o sistema fosse visualizado no espaço, num esquema em árvore, num organograma, num menu de website -ou mesmo num mapa de repartição, com suas ramificações em corredores, departamentos e guichês. No máximo, ficaremos andando de um lado para outro.
O problema do "tecle isto, tecle aquilo" é que ele se desenvolve no tempo, não no espaço. Somos forçados a prosseguir em alternativas que será sempre mais custoso reverter; avançamos em decisões tomadas no escuro, como se navegássemos num fluxo betuminoso, por rios e córregos cada vez mais estreitos, cada vez mais espessos, carregados de todas as opções já feitas, de todo o tempo acumulado e perdido naquela ligação, sem muita esperança de que, na extrema ponta do percurso, uma voz humana venha afinal falar conosco.
É assim que o sistema de ramais automáticos guarda incômoda semelhança com nossa própria vida adulta; tem algo de anacrônico, de auditivo, de analógico. Já as telas da internet, organizadas espacialmente, com seus cliques de mouse, seus compartimentos de todas as cores, seus guichês planificados e seus pop-ups imprevistos e festivos, são um modelo bem alegre em que mirar. Desde que a conexão não caia de repente."



 Escrito por Marcelo às 17h01
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Novo disco do Sururu

Amanhã, no CCC, a partir das 21h, vai rolar o lançamento do novo disco do grupo Sururu na Roda, liderado pela afinadíssima Nilze Carvalho, coadjuvada pela Camila Costa (violão e voz), o Fabiano Salek (percussão e voz) e o Silvio Carvalho (percussão e voz). Quem freqüenta as rodas da cidade, já conhece o simpático conjunto e a maestria da Nilze. Mas deixo aqui o Nei Lopes falar por mim, em trecho da apresentação do cd:

"(...) Alinhavando sambas, maxixes, choros etc. cujas datações vão de 1929 ("Dorinha, meu amor" e "Gavião calçudo") a 1983 ("Samba do grande amor); aproximando autores aparentemente distantes como Noel Rosa de Oliveira, o maior compositor do morro do Salgueiro, e Chico Buarque; juntando, no mesmo baú de preciosidades, sambas injustamente esnobados como os polêmicos "O conde" e "Esperanças perdidas; trazendo a registro, além de um clássico do samba instrumental, "Na Glória", até mesmo a valsa espanholada "Santa Morena", ícone do repertório bandolinístico; compondo, enfim, um mosaico da melhor música popular brasileira, Ruy e o Sururu abriram a roda e, literalmente, deitaram e rolaram. Para tanto, contaram com a competência, o talento e a energia de convidados como Marcelinho Moreira, Ovídio Brito, Eber, Humberto Araújo, Eliane Salek, Roberto Marques, Alceu Maia, Carlinhos Sete Cordas, Luis Filipe de Lima e Nicolas Krassik; e da canja tão fundamental quanto despojada de "São Chico Buarque" - além do próprio Quaresma, ao violão. Pois o Sururu na Roda é isso. Música para ouvir, dançar e cantar junto. E quem já viu o grupo ao vivo, nas noitadas da Lapa, sabe do que estou falando. Mas é música para pensar, também. Principalmente no enorme mangue que separ a roda que nós queremos, a da boa música, desse tremendo "sururu" (no mau sentido) que, em nome da tal globalização, andam nos tentando empurrar goela a dentro".



 Escrito por Marcelo às 09h46
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As últimas do português

Em que pesem minhas restrições a seus últimos trabalhos - nos quais a carga ideológica plena de "soluções" parece cada vez mais prejudicar a boa literatura -, sempre é interessante ler e ouvir José Saramago. Ontem, os dois principais jornais cariocas publicaram entrevistas com o escritor português. No Prosa e Verso (O Globo), é a Daniela Birman quem faz as perguntas, mas a matéria não rende tanto. Já no Caderno B, o trabalho da Cecília Giannetti é primoroso. Além de tocar em temas pertinentes, ela tece precisas relações entre os escritos recentes de Saramago. Vale a leitura, que pode ser feita no blog da Cecília.



 Escrito por Marcelo às 09h29
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Samba na tela

O JB de ontem trouxe boas notícias para quem gosta de cinema e de samba, caso de quase todos os que passeiam aqui pelo Pentimento. A primeira delas foi dada pela sempre atenta Helena Aragão, que assina matéria na qual informa que muito em breve teremos a alegria de ver retratado em documentário o grande Wilson Moreira. O compositor será estrela do programa inaugural de uma série de filmes em DVD sobre sambistas, concebidos pela atriz Regina Braga. Em foco, além da família e de amigos de seu Wilson, episódios que prometem emocionar, como as lembranças da época em que trabalhava como carcereiro, cuja cena será rodada em presídio de segurança máxima, com participação de Dráuzio Varella.

A outra boa-nova foi passada pela coluna Supersônicas, do Tarik de Souza. É o seguite: dentro do festival "É tudo verdade", que acontecerá no CCBB entre 25 de março e 4 de abril, haverá uma retrospectiva de documentários musicais brasileiros. No programa, "Bethânia bem de perto", de Eduardo Escorel e Julio Bressane; "Carmen Miranda, bananas is my business", de Helena Solberg; "Nelson cavaquinho", de Leon Hirszman; "Nelson Freire", de João Moreira Salles; "Nelson Sargento", de Estevão Ciavatta; "Os doces bárbaros", de Jom Tob Azulay; "Paulinho da Viola - Meu tempo é hoje", de Izabel Jaguaribe; "Samba Riachão", de Jorge Alfredo; e "Tim Maia", de Flávio Tambelini.



 Escrito por Marcelo às 09h19
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Sábio Quintana...

No Melodia Infinita, da Juli, a resposta para minha pergunta anterior...

"Olho em redor do bar em que escrevo estas linhas. Aquele homem ali no balcão, caninha após caninha, nem desconfia que se acha conosco desde o início das eras. Pensa que está somente afogando problemas dele, João Silva... Ele está é bebendo a milenar inquietação do mundo!"
Mário Quintana



 Escrito por Marcelo às 14h51
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Uma pergunta

Por que escritores e o povo da literatura em geral quando se encontram bebem, bebem, bebem, bebem e bebem até não mais poder?



 Escrito por Marcelo às 13h54
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"Porque o samba é a tristeza que balança"...

Já há algum tempo estava para comentar sobre este disco aqui. É de uma beleza triste e dolente o cd "O lamento do samba", do grande Paulo César Pinheiro, que foi lançado pelo selo Quelé. Impressionante como o compositor conseguiu dar organicidade ao álbum, que chega a lembrar trabalhos conceituais que marcaram épocas passadas, sem contudo se tornar chato ou repetitivo. Se o "samba é pai do prazer e filho da dor", isto está bem claro nas canções do disco, todas exclusivamente do próprio Paulo e arranjadas com a competência habitual pelo Maurício Carrilho. Que o Paulo era ótimo letrista, já se sabia, mas ele surpreende pela boa mão nas melodias. Cercado por feras como Wilson das Neves, Rui Alvim e Marcelo Bernardes, o compositor usa sua voz rascante para acentuar a dor que paira sob as 14 músicas do cd, entre as quais destacaria a canção título ("O segredo da força do samba / É a vivência do seu fundamento / O que faz ser eterno um bom samba / É a beleza que tem seu lamento"), "Nomes de favela" ("Não sou do tempo das armas / Por isso ainda prefiro / Ouvir um verso de samba / Do que escutar som de tiro"), "Samba de tristeza" ("Sei que um samba de tristeza / Para sempre o povo canta / Mas a dor que eu trago presa / Nunca vai caber num samba") e "Amor ausente" ("Prefiro ter muito mais o amor que mata a gente / Que viver de amor ausente / Ou morrer sem mais amar"), a minha preferida...



 Escrito por Marcelo às 12h48
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Caio Fernando Abreu em cena

Boa pedida é a peça que reúne textos do Caio Fernando Abreu e será encenada neste fim de semana no Sesc Copacabana. Caio levado ao teatro, mesmo quando não se trata do que ele escreveu especificamente para dramaturgia, geralmente resulta em coisa boa... 



 Escrito por Marcelo às 10h04
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Hora de ler a Bishop, no original

"One art"

Elizabeth Bishop

"The art of losing isn't hard to master;
so many things seem filled with the intent
to be lost that their loss is no disaster.

Lose something every day. Accept the fluster
of lost door keys, the hour badly spent.
The art of losing isn't hard to master.
 
Then practice losing farther, losing faster:
places, and names, and where it was you meant
to travel. None of these will bring disaster.
 
I lost my mother's watch. And look! my last, or
next-to-last, of three loved houses went.
The art of losing isn't hard to master.
 
I lost two cities, lovely ones. And, vaster,
some realms I owned, two rivers, a continent.
I miss them, but it wasn't a disaster.
 
-Even losing you (the joking voice, a gesture
I love) I shan't have lied. It's evident
the art of losing's not too hard to master
though it may look like (Write it!) like disaster."



 Escrito por Marcelo às 17h25
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Desculpem, mas agora isto aqui vai virar diário, sim...

Vocês já demitiram alguém? Acabo de passar por esta experiência. Por imposição da diretoria, tive que mandar embora um dos meus repórteres. Chamo assim, "meus", pelo carinho, pelo sentimento de equipe, pelo fato de "vestirem a camisa", pelo trabalho que a gente realiza, muitas vezes incompreendido por quem só entende o esquema "hora-bunda-cadeira".

Só posso dizer que foi doloroso demais. Tentei de tudo para evitar a demissão. Hoje, quando ele chegou e tive que informá-lo que as tentativas foram em vão, fiquei com os olhos cheios d'água - e mediocremente disfarçei. Por uma dessas ironias da vida, na sexta-passada comentávamos que naquele dia fazia um ano que nos conhecíamos. Fora justamente no Casarão Hermê, onde novamente estávamos. Mal sabia eu para onde as coisas se encaminhariam.

Agora, fica essa angústia estranha dentro do peito. No meu e no de cada jornalista aqui da redação. Pela perda, pela noção de nossa pequeneza diante das engrenagens do mundo e, sobretudo, pelo Vitinho, um companheirão.



 Escrito por Marcelo às 16h36
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Enfim...

"Roda viva"


Chico Buarque

"Tem dias que a gente se sente
Como quem partiu ou morreu
A gente estancou de repente
Ou foi o mundo então que cresceu (...)"



 Escrito por Marcelo às 09h58
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"Agora eu sou uma estrela..."

Foi também num dia 17 de março, tão especial para a Claudinha, que nasceu Elis Regina. Apesar do risco da afirmação, continuo considerando a Pimentinha (que, se viva, hoje faria 49 anos) a melhor cantora brasileira de todos os tempos. Emocional, à flor da pele como eu gosto, ela foi além de tudo responsável pelo lançamento de compositores como Belchior, Lô Borges, Fátima Guedes, Renato Teixeira e a dupla João Bosco/Aldir Blanc. Não tinha medo de arriscar, como certas "divas" acomodadas da nossa MPB. Abaixo, umas canções que mais gosto de ouvir na voz dela:

"Essa mulher"

Joyce / Ana Terra

"De manhã cedo essa senhora se conforma
Bota a mesa, tira o pó, lava a roupa, seca os olhos
Ah, como essa santa não se esquece
De pedir pelas mulheres, pelos filhos, pelo pão
Depois sorri meio sem graça
E abraça aquele homem, aquele mundo que a faz assim feliz
De tardezinha essa menina se namora
Se enfeita, se decora, sabe tudo, não faz mal
Ah, como essa coisa é tão bonita
Ser cantora, ser artista, isso tudo é muito bom
E chora tanto de prazer e de agonia
De algum dia, qualquer dia entender de ser feliz
De madrugada essa mulher faz tanto estrago
Tira a roupa, faz a cama, vira a mesa, seca o bar
Ah, como essa louca se esquece
Quanto os homens enlouquece nessa boca, nesse chão
Depois parece que acha graça
E agradece ao destino aquilo tudo que a faz tão infeliz
Essa menina, essa mulher, essa senhora
Em quem esbarro a toda hora no espelho casual
É feita de sombra e tanta luz
De tanta lama e tanta cruz que acha tudo natural"



 Escrito por Marcelo às 11h20
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Apagando as velinhas...

Por falar em Glauber, uma das grandes fãs do cineasta, que também sempre me lembra a Portela e o Vasco da Gama (urgh!), faz aniversário hoje.

Parabéns, Claudinha Lamego!



 Escrito por Marcelo às 10h23
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Jabor mais uma vez acerta no tom

Ainda no esteio do aniversário de Glauber e do interessante filme-tributo que o Silvio Tendler dirigiu sobre ele, reproduzo aqui a ótima coluna do Jabor, publicada ontem em O Globo. Com sagacidade, Jabor capta o "X" do problema: todas as homenagens a Glauber são válidas, seu cinema foi revolucionário no mais estrito sentido da palavra, tanto política quanto esteticamente. Mas paremos por aí. Chega de nostalgias vazias, que podem ser uma rima, mas certamente não são uma solução... O texto:

"A utopia não passa de um sintoma de narcisismo"

Arnaldo Jabor

"Sinto um cheiro de janguismo no ar. Um dos sintomas é o filme "Glauber...". Fiquei tocado por me ver 23 anos atrás, com meus amigos jovens e bonitos chorando a morte de Glauber no enterro. Eu estava lá e, diante do corpo, falei: "Assassinato cultural!" Não foi isso. Glauber não foi vítima.
O filme me fascinou por nostalgia e me irritou por retratar esse grande artista como uma curiosidade política, um gaffeur , um drogado, um palhaço-mártir, quase um maluco de rua. Alguns entrevistados comentam a tragédia de Glauber como se seu desespero fosse uma piada. Na verdade, a grande importância de Glauber foi em seu tempo de razão, de lucidez. Fez três obras-primas: "Deus e o Diabo" é a genial descoberta sociológica do Brasil no cinema, indo além de Ruy Facó, de Guimarães Rosa, de Euclides da Cunha, de José Lins, de Graciliano, fazendo a união lírica e épica entre Brecht e Eisenstein.
"Terra em transe" é genial porque destrói as certezas da esquerda esquemática em 64 e mostra que o caos brasileiro resiste à mera cura por uma "revolução". É a primeira crítica ao Brasil "pós-moderno", um filme-semente que conduz a um ceticismo mais pessimista, porém mais sábio, e também ao otimismo antropofágico do tropicalismo.
"O Dragão da maldade" narra a decadência dos heróis que ele mesmo mitificou em "Deus e o Diabo": cangaceiros fracassados, loucos e um Antonio das Mortes desencantado, sumindo na estrada do sertão diante de um posto da Shell.
Essas foram as três grandes obras de Glauber, que, em seguida, senhoras e senhores, começou a pirar. Ele foi genial enquanto transou com as possibilidades históricas do país e do cinema, enquanto acreditou na limitada linguagem da razão. Glauber não foi a vítima indefesa de um massacre politico. Isso é um perigoso simplismo. Nós fazíamos parte dos acontecimentos, éramos sujeitos e objetos do momento histórico; a brutalidade do golpe de direita tinha uma complementaridade em nossa ignorância política e nosso delírio utópico. Éramos parte do erro e não vítimas de ogres. Nós eramos a nossa época.
Sei que é fácil falar a posteriori , depois da episteme mudada. Mas eu vi tudo de perto e sei do que falo. No filme, quando Darcy Ribeiro, nosso campeão de utopias, diz que Glauber chorou em seu colo por causa das criancinhas miseráveis, fiquei indignado. Glauber chorou porque estava desesperado pessoalmente. Chorou como chorava no colo do psicanalista Eduardo Mascarenhas, ou dentro da banheira de água quente em que Eduardo o metia para ver se ele parava de sofrer sua dolorosíssima paranóia. Sua vida pessoal mudou em 70, afetivamente e no cinema. Seus dois filmes 72/73 — "Cabeças cortadas" e o "Leão de sete cabeças" foram arrasados pela crítica internacional enquanto, aqui, o underground anarco-hippie começara a esculhambá-lo. Glauber mergulhou no equívoco daqueles anos muito loucos e passou a achar que o fluxo espontâneo da loucura sem filtro era a "verdade", que a grande arte estaria na insânia. E virou uma metáfora de si mesmo. A partir daí, ele ficou imprensado numa dialética maluca e bipolar: tudo era imperialismo x Terceiro Mundo, numa estereotipia de conduta que os mal informados pensavam que era um martírio iluminado. Não era — era doença. Eu disse isso no documentário, mas não está lá. Glauber, diante das portas fechadas da História, não agüentou a porrada e entrou em onipotência letal, desbundou numa espécie de misticismo político, acreditou que depressão era seriedade e que fobia era insight . Não. Loucura é superficial. Paranóia é burra. Falo essas coisas porque vejo pessoas com saudades do janguismo, nostalgia da utopia.
Dá para refazer a trajetória de nossa consciência política dos últimos 30 anos como um gibi.
Nos anos 60 da Guerra Fria, nos achávamos o "sal da terra", os atores de uma revolução fácil e lírica, até com ajuda do governo, claro. As porradas de 64 e 68 acabaram com essa ilusão. Nossas certezas se esgarçaram.
No início dos anos 70, em busca de uma "nova fé", saímos do marxismo de galinheiro para um "holismo" místico. Os anos 70 foram um massacre silencioso. Tivemos o oportunismo dos novos-ricos do "milagre", o suicídio da guerrilha urbana e o enlouquecimento da razão entre artistas e pensadores.
Depois, por causa da crise do petróleo em 73 e pelo próprio cansaço da ditadura, começou a gestação de uma gradual e frágil democracia, que acabou nascendo em 80, parida pelo micróbio da barriga de Tancredo e pelo bigode de Sarney.
Em seguida, com a loucura corrupta de Collor passamos a descrer de tudo. A "abertura" recente foi degradada por um escracho debochado, criando uma descrença no país que nos envergonhava. O impeachment nos devolveu uma dignidade mínima, aumentando a consciência civil que propiciou a chegada de FH.
Esse presidente instituiu a idéia de processo e de responsabilização da sociedade. FH não pode ser analisado apenas economicistamente . Ele nos restituiu o conceito de "República".
Hoje, com as dificuldades da democracia num país com essa dura base oligárquica somadas à inexperiência do PT em governar, volta a nos rondar o perigo de velhos vícios utópicos vagabundos. A impaciência boçal, o heroicismo burro, a beleza ridícula do radicalismo suicida podem jogar o país numa aventura neojanguista ou metachavista , sei lá. E aí... o brejo será muito mais fundo que em 63/64/68.
O filme sobre Glauber tem essa marca. Muita gente acha que a democracia hoje é uma decadência da dos tempos da utopia. Não é. A democracia que vivemos é nossa única chance de progresso. O tempo da utopia é que era a loucura, a burrice e o fracasso. Será que não aprendemos nada nesses 30 anos?
Utopia não passa de um óbvio sintoma de narcisismo. A morte de Glauber foi o fim de uma ilusão. Chorávamos em seu enterro porque, de algum modo, sentíamos o fim de um tempo. Não chorávamos por causa das criancinhas miseráveis, não. Chorávamos por nós mesmos."



 Escrito por Marcelo às 10h20
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Olhar sobre o Rio

Ontem, em papo com a Martha Ribas, ouvi os maiores elogios ao livro "Vista do Rio", novo romance do Rodrigo Lacerda, carioca que há alguns anos mora em São Paulo, onde trabalha como editor da Cosac&Naify. O lançamento da obra acontecerá na próxima quinta-feira à noite, na Livraria Argumento. A conferir...

Aliás, quem quiser concorrer a um exemplar do livro pode participar do sorteio que o sítio Paralelos está promovendo. Basta enviar um e-mail para promo@paralelos.org com uma frase de no máximo 20 palavras sobre a cidade maravilhosa.

Em tempo: este curioso desenho que ilustra a capa do livro é simplesmente a imagem de um vírus HIV...



 Escrito por Marcelo às 13h04
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Samba do crioulo doido

Já não bastava ter que jogar fora todos os meus livros antigos de Geografia porque novos países se formaram e nações poderosas, como a União Soviética, acabaram desintegradas; e agora cientistas vêm dizer que o nosso sistema solar não tem nove, mas dez planetas. Haja...

 Escrito por Marcelo às 10h52
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Lô em show e entrevista

O site do Lô Borges reproduz ótima entrevista que o artista concedeu à Agência Carta Maior e na qual fala sobre a história do Clube da Esquina, suas influências, as parcerias com Beto Guedes, Milton Nascimento e Marcio Borges, a relação com o pessoal do Skank e o novo disco. O cantor, que se apresenta hoje em pocket-show na Modern Sound, conta passagens deliciosas, entre elas a que narra como o disco "Axis: Bola as Love", de Jimmy Hendrix, um dia curou a dor de dente do Beto Guedes:

" Quando eu comprei o disco, em uma sexta-feira, fiquei ouvindo-o na minha casa loucamente. Ouvi à tarde, na hora em que eu cheguei com o vinil em casa, e ouvi à noite. No outro dia, pela manhã, eu estava fascinado e louco para mostrar para o Beto (Guedes). Sempre que eu comprava um disco legal, eu levava o som direto para a casa do Beto, querendo mostrar para ele. A gente tinha essa história, esse intercâmbio. Era um sábado de manhã, eu cheguei na casa do Beto e a mãe dele estava apavorada. Ela falava para mim: "O Beto passou a noite inteira com dor de dente, ele não consegue nem mexer. Ele está sofrendo, vê se você arruma um dentista para ele!". E havia um dentista na casa ao lado da casa da minha mãe, onde eu morava. "Vamos lá, então". O dentista deu uma atendida meio precária. Nem sei o que o dentista falou, mas parece que era uma coisa que não tinha muita solução. Daí, eu levei o Beto para o meu quarto, deitei ele na minha cama e coloquei o Axis: Bold as Love, direto no ouvido do cara! Caixinha de som no ouvido e ele com aquela dor, tendo calafrio de dor de dente! "Vou aplicar o disco um disco em você, Beto", eu havia dito. No final do disco, menos de uma hora depois, o Beto estava bom, cara, sem dor de dente..."



 Escrito por Marcelo às 10h33
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Monarco na TV

A Agenda do Samba e Choro avisa:

"Monarco é o convidado de Fernando Pamplona em edição inédita do programa "A Verdade de...", que vai ao ar hoje, às 21h, com reapresentação no sábado, às 18h, na TVE-Rede Brasil. Na entrevista, o sambista da Velha Guarda da Portela reafirma a importância do "samba de terreiro": "O samba de qualidade não anda dando sopa por aí. Só faz quem tem mesmo aquela veia de inspiração." E critica o gênero de baixa qualidade: "Muitos gatos se passam por lebres. Mas a verdade fica. O Zeca (Pagodinho) é exemplo de um garoto bom. Não pulou a cerca para o modismo. Está aí, sem se prostituir e vendendo um milhão de cópias, sem ser preciso apelar para duplos sentidos."

Monarco também revela uma vontade: "Gostaria de gravar um disco só com músicas do Cartola e do Carlos Cachaça, o velho Carlos, que foi como um pai para mim." O compositor portelense acha importante haver um espaço, nas escolas de samba, para as velhas guardas mostrarem suas músicas para os jovens sambistas, o público e a mídia. "É um gol de placa que a Portela já está fazendo", orgulha-se. "O verdadeiro samba não pode morrer", arremata."



 Escrito por Marcelo às 10h17
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Peréiozinho paz e amor

Indico a leitura da matéria que a Cecília Giannetti fez sobre o figuraça Paulo César Peréio, publicada hoje no site No Mínimo. O gancho para a reportagem é o programa de entrevistas que o ator apresentará a partir de maio no Canal Brasil. No texto, Peréio comenta com a Cecília como será o programa, além de falar também sobre o inusitado documentário "Peréio, eu te odeio", que reúne depoimentos de gente do meio artístico sobre ele. A repórter abre espaço também para a "fala" de amigos e desafetos. Um trecho da matéria:

"(...) Peréio está careta. Mas não encara como problema as antigas compulsões: "As drogas, para minha geração, fazem parte da cultura do século XX. A partir da metade do século passado, as drogas passaram a ter um significado eminentemente cultural. Walter Benjamin, Thimothy Leary, os beatniks e muitos outros usaram drogas dentro de um procedimento cultural. Tive um período de certo exagero em todos os sentidos. Eu usei bastante, mas hoje tenho conhecimento dos males do exagero. Se você beber água demais, você também se afoga (...)."



 Escrito por Marcelo às 10h06
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Sofisticação simples

Um grande disco acaba de chegar às lojas pelo sempre cuidadoso selo Biscoito Fino. Trata-se de "Ponte aérea", álbum de estréia da cantora Eveline Hecker. Ex-integrante do grupo Arranco de Varsóvia e ex-baccking vocal de Tom Jobim, Eveline reuniu no cd canções do multitarefas (ele é escritor, crítico, ensaísta, pesquisador, professor, músico, compositor, instrumentista e produtor musical) José Miguel Wisnik.

Poucas vezes vi sintonia tão grande entre compositor e intérprete. As belas composições de Wisnik ganham, nos registros da cantora, dimensão redobrada. Ela consegue captar e transmitir o casamento entre simplicidade e sofisticação que ocorre nas canções do músico paulistano, desde choros, como "Comida e bebida" (inusitada parceria dele com José Celso Martinez Corrêa) até bossas ("Saudade da saudade") e sambas ("Viúvo").

Duas canções despontam em meio ao alto nível da seleta. "Terra estrangeira", feita originalmente para o filme homônimo de Walter Salles, e "Mais simples", genial criação de Wisnik, que tem o poder de sintetizar sua obra e infelizmente ganhara registro inadequado quando gravada por Zizi Possi. A letra:

"Mais simples"

José Miguel Wisnik

"É sobre-humano amar
'cê sabe muito bem
é sobre-humano amar sentir doer
gozer
ser feliz
vê que sou eu quem te diz
não fique triste assim
é soberano e está em ti querer até
muito mais

a vida leva e traz
a vida faz e refaz
será que quer achar
sua expressão mais simples

mas deixa tudo e me chama
eu gosto de te ter
como se já não fosse a coisa mais
humana
esquecer
é sobre-humano viver
e como não seria?
sinto que fiz esta canção em parceria
com você

a vida leva e traz
a vida faz e refaz
será que quer achar
sua expressão mais simples"



 Escrito por Marcelo às 09h34
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Sem armação

Sinceramente, espero que meu Flu não decepcione armando resultado no jogo contra o Americano da triste figura do Caixa D´Água. Vamos para cima deles, ainda que isso implique enfrentar o Botafogo nas semifinais...

 Escrito por Marcelo às 09h10
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Pode ir preparando aquele feijão preto...

Enfim, depois de ter sido grosseiramente expulso pelos idiotas do Blogger, o Pentimento estréia em casa nova, ainda sem a pintura, a decoração e o capricho do layout que a Paulinha havia preparado com carinho para ele. Mas já estava sentindo falta de todos vocês... Bem, depois de algumas tentativas frustradas, consegui recolocar no ar o passado do blog no antigo endereço. Ficará lá como uma lembrança boa daqueles tempos.

Sejam bem-vindos!



 Escrito por Marcelo às 09h09
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